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Posts tagged José Saramago

8 livros recomendados por Ursula Le Guin

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Humberto Abdo, no na Galileu

Entre tantos nomes masculinos que escreveram ficção científica, os romances da autora Ursula K. Le Guin se destacam com narrativas surpreendentes e originais. Seu trabalho costuma criar mundos futuristas e alternativos na política, discutindo temas como gênero, religião e etnografia. O jornal The New York Times descreveu Le Guin como “a maior escritora de ficção científica da América” — embora ela prefira ser chamada de romancista.

Ursula Le Guin (Foto: Flickr/Oregon State University)

Ursula Le Guin (Foto: Flickr/Oregon State University)

No seu site pessoal, Le Guin descreve obras que considera marcantes e de leitura indispensável. Ela ressalta que suas listas não devem ser tratadas como uma seleção de seus favoritos, mas apenas como boas recomendações de livros que leu recentemente. Confira alguns:

1491: Novas revelações das Américas antes de Colombo, Charles Mann
“Uma pesquisa brilhante, muitas vezes mordaz, sobre o que sabemos a respeito das populações humanas nas Américas antes da chegada dos europeus. O autor não é arqueólogo ou antropólogo, mas fez sua lição de casa, é um bom repórter e escreve com clareza e talento. Ao discutir temas bastante controversos, como datas de povoamento e tamanho das populações, ele permite que você entenda sua visão pessoal, mas apresenta os dois lados de forma justa.”

As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, Michael Chabon
“Há um ou dois anos, Molly Gloss [escritora americana] me fez ler Kavalier e Clay e eu tive receio de ler uma história em quadrinhos. Mas a verdade é que você não precisa entender tudo sobre o que Chabon está escrevendo porque tudo é apresentado na história e passa rapidamente a fazer parte da sua mente. O autor é um jovem brilhante, muito diferente.”

Ensaio Sobre a Lucidez, José Saramago
“Sequência incrível do romance Ensaio Sobre a Cegueira. Saramago não é fácil de ler: ele pontua quase sempre com vírgulas, não usa muitos parágrafos, não sinaliza diálogos com aspas. Eu não aguentaria se fosse algum escritor menos conhecido, mas Saramago vale a pena. Ensaio Sobre a Cegueira me assustou quando comecei, mas a história cresce maravilhosamente em direção à luz e Ensaio Sobre a Lucidez segue o caminho contrário, é um livro assustador.”

Miséria à Americana, Barbara Ehrenreich
Para investigar a realidade dos pobres na pátria do consumo, a autora passou a viver como eles e conta a história em seu livro. “Ehrenreich tenta ganhar um salário mínimo em três cidades diferentes, trabalhando como garçonete, faxineira e em um supermercado Wal-Mart”, resumiu Le Guin. “O livro foi lançado há oito anos e ainda é totalmente verdadeiro, se não for mais verdadeiro hoje. Ela escreve a sua história com enorme verve e exatidão.”

O Dilema do Onívoro, Michael Pollan
“Nunca mais comi uma batata de Idaho após ter lido o artigo de Pollan sobre como os campos de batata são administrados. O livro é uma descrição do poder cego e incalculável do ‘capitalismo de crescimento’. Alguns trechos são desanimadores, mas o capítulo em que o autor caça e prepara sua própria comida é especialmente engraçado e muitas vezes comovente.”

O Gato do Rabino (volumes 1 e 2), Joann Sfar
“Três histórias conectadas em cada volume. As duas primeiras são engraçadas e inteligentes ao mostrar um mundo que você certamente nunca soube que existia. O segundo volume não é tão grande, mas a primeira história é muito engraçada e bem desenhada. Eu desconfio que Sfar e Satrapi [autora de Persépolis] são amigos… Será que estamos prestes a ter uma grande escola de romances gráficos escritos por estrangeiros que vivem em Paris?”

Persépolis, Marjane Satrapi
“O filme de Persépolis foi encantador, mas não acrescenta muito ao livro. Admiro seu desenho, que parece simples mas é sutilmente desenhado, usando o contraste puro do preto e branco. Os desenhos e o texto combinam tão perfeitamente que eu passo por eles de uma vez, sem voltar as páginas — o que é um bom ideal para seguir em narrativas gráficas, acredito.”

Um Delicado Equilíbrio, Rohinton Mistry
“Eu estava pensando nos romances lidos nos últimos anos que me comoveram e mudaram um pouco do que sou, como uma verdadeira obra de arte pode fazer. Além de Saramago, só mais um livro desse calibre vem à mente, por enquanto: Um Delicado Equilíbrio, de Rohinton Mistry. É a história de pessoas muito pobres em Mumbai, na Índia. A tristeza e injustiça terríveis da narrativa me abalaram, mas existe uma amplitude no livro que ultrapassa a dor com grande generosidade, uma doçura humana rara.”

3 Livros de José Saramago que você precisa ler!

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Tico Farpelli, no Correio de Uberlândia

Olá Meninos e Meninas que leem!

Depois de uma semana conturbada de ausência, retorno com algumas dicas de leitura de um autor que eu simplesmente amo. José Saramago entrou em minha vida durante o vestibular que prestei para a Universidade Federal de Uberlândia em 2008. Seu livro “Ensaio Sobre a Cegueira” era uma das obras obrigatórias da prova de literatura.

Comecei a ler sem grandes expectativas e o que se seguiu, foi uma paixão sem limites por este escritor maravilhoso. Abaixo eu cito 3 obras que você PRECISA ler deste incrível autor:

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

O livro que funcionou, para mim, como porta de entrada para o universo de Saramago conta a história de uma sociedade acometida com uma doença chamada cegueira branca. Aos poucos as pessoas vão se tornando incapazes de enxergar, tendo a visão reduzida a um brilho branco leitoso. Os personagens não têm nome e a narrativa é guiada pela “mulher do médico”, a única pessoa que enxerga o caos em que a sociedade caiu.

AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE

Uma das minhas próximas leituras, o livro narra o dia em que a morte decide entrar em greve. A premissa de mostrar os impactos que este pequeno ato teria para o mundo é incrível e acaba por levar a uma discussão sobre os impactos da morte (ou da falta dela) na nossa existência. Estou ansiosíssimo para começar a ler este livro.

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

Uma das obras que mostra o caráter contestador de Saramago perante a religião, “Evangelho…” conta a história de um Jesus Cristo humano. Ao adotar a perspectiva da humanização de Cristo, Saramago levanta a questão de que a crucificação como forma de expiação dos pecados da humanidade, na verdade serviu como o estopim para guerras santas e perseguições religiosas.

Memorial do Convento: a primeira experiência com um livro de Saramago

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Anna Rachel e Paula Peres, em Revista Escola

Hoje vamos falar de um autor muito marcante para a literatura mundial, o escritor português José Saramago (1922-2010). Entre as curiosidades que envolvem o vencedor do Nobel de Literatura de 1998 está o fato de sua leitura causar certo estranhamento à primeira vista, especialmente pela ausência de pontos finais. É como se Saramago evidenciasse o poder do leitor para ressignificar sua obra.

Foi o que senti há algum tempo, quando li Todos os Nomes (280 págs., Ed. Cia das Letras, tel. 11 3707-3500, 49,50 reais). Mas nunca mais tive contato com qualquer produção do autor. Cerca de um mês atrás, porém, encontrei a repórter de NOVA ESCOLA Paula Peres em uma estação de metrô, e ela estava segurando o livro Memorial do Convento (408 págs., Ed. Cia das Letras, tel. 11 3707-3500, 49 reais). Descobri que, coincidentemente, era a primeira experiência dela com o trabalho do escritor português.

Fiquei curiosa para saber as percepções iniciais da Paula e tentei rememorar quais foram as minhas. Lembrei que gostei muito do livro e que contava todas as sensações para a Ana Lígia Scachetti, editora responsável de NOVA ESCOLA e dona do exemplar que eu estava lendo. Enfim, imaginei que Paula também poderia ter muitas coisas interessantes para falar sobre o autor. Por isso, pedi a ela que compartilhasse as impressões (ainda quentinhas na memória!) com a gente aqui no blog.

 

Oi pessoal,

Como a Anna disse, esse foi meu primeiro contato de verdade com o famoso José Saramago. Uma vez li algumas páginas de “Claraboia” (384 págs., Ed. Cia das Letras, tel. 11 3707-3500, 49 reais), na livraria mesmo, mas este é justamente o livro que foge ao famoso estilo do escritor português. Não havia os parágrafos gigantes sem pontos finais e a falta de pontuações nos diálogos. Essas características, tão próprias do autor, eu só vim a conhecer em “Memorial do Convento” mesmo.

Adquiri o livro em uma dessas feiras com grandes promoções de editoras, quando geralmente compramos muito mais livros do que temos condições de ler. E ele ficou na minha estante por alguns meses, até que um grande amigo, fã de Saramago, anunciou que estava de mudança para Brasília. Fico sentimental com despedidas, e achei que entrar no universo de Saramago seria uma boa homenagem a esse colega agora distante (geograficamente).

Confesso que, no começo, tive de reler algumas páginas mais de uma vez para me situar… Isso é um diálogo? Quem está falando dessa vez? É o narrador? É uma pergunta ou afirmação? Mas logo fui conquistada pela maneira como o autor equilibra poesia, magia, humor e ironia em seu texto, e essas relações entre narrador, personagens e diálogos fluiu naturalmente.

Para quem não conhece a obra, o romance se passa em Portugal do século 18, durante o processo colonial. O rei D. João V ordena a construção de um palácio em Mafra (o tal convento do título) como cumprimento de uma promessa. Para a construção, foram usados muitos recursos minerais brasileiros e recursos braçais portugueses. Entre os operários está Baltasar Sete-Sóis, ex-soldado que perdeu a mão esquerda na guerra e, segundo o próprio, agora que era “maneta” estava “mais parecido com Deus, porque Ele também não tem a mão esquerda”. Como ele sabia disso? Não vou entregar a resposta.

Baltasar é apaixonado por Blimunda Sete-Luas, uma moça bonita e com o dom misterioso de enxergar as pessoas por dentro. Junto com o padre Bartolomeu Lourenço, eles elaboram e constroem uma máquina para leva-los ao céu. A tocante magia dessa relação do trio com a “passarola” foi o que mais me chamou a atenção no livro.

Por um mês, mergulhei na geografia de Portugal, nos costumes regionais, nas relações da Família Real, na vida dos personagens, na construção do Palácio Nacional de Mafra e, é claro, na história de amor entre Sete-Sóis e Sete-Luas, que prendeu minha atenção e meu fôlego até a última linha. Assim, deixo o convite feito pelo meu amigo do início dessa conversa: não deixe de voar junto a Baltasar e Blimunda na engenhoca do padre Bartolomeu. Você também vai se encantar!

Renato Tardivo resenha seu conto predileto

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Renato Tardivo resenha seu conto predileto: ‘O conto da ilha desconhecida’, de José Saramago

Sérgio Tavares, no Homo Literatus

Foto-Tardivo-PB

As livrarias mega store eram novidade nos shoppings da cidade. Antes, as livrarias eram bem menores. Perguntava-se pelo título do livro. Tem, tem; não tem, encomenda. E os vendedores faziam cara feia se você folheasse livros ou revistas. Mas nas mega stores havia poltronas confortáveis, tocava-se música agradável, vendia-se café. E havia um enorme acervo de livros a ser saboreado. Isso mesmo: era permitido manusear o produto, folhear, experimentar… e não comprar.

O menino que pouco tempo antes ia ao shopping para jogar boliche com os amigos, tomar um lanche ou comprar roupa, às vezes um CD, agora tinha outra motivação: os livros. E essa transformação coincidiu com a mudança no conceito de livraria. Então o menino olhava as vitrinas, corria os olhos pelas estantes, de vez em quando saía com algum livro. Desde então adquirira o hábito de estar sempre lendo alguma coisa. A vida sem leitura ficava esvaziada.

Mas não fora sempre assim. Nos tempos de colégio, anos antes, salvo uma ou outra exceção, lia mais por obrigação que por prazer. Mas lia, mesmo quando tinha a impressão de ter perdido o tempo sofrido da adolescência lendo livros que não entendia nada. Nessa época, ouviu falar em um escritor português, ainda em atividade, chamado José Saramago. De vez em quando, cismavam de incluir Memorial do Convento, romance de sua autoria, na lista de leituras obrigatórias para o vestibular. Saramago era dono de uma escrita peculiar, assegurava a professora, as frases eram retorcidas, os parágrafos intermináveis, nos diálogos não havia travessões nem aspas, a ortografia era a vigente em Portugal. Uma tortura.

O menino soube depois que esse escritor estava em alta. Escrevera um livro ousado, O Evangelho segundo Jesus Cristo, que, por conta da repercussão em Portugal, país fortemente católico, levou o escritor a fixar moradia na Ilha de Lanzarote, na Espanha. Com Ensaio sobre a Cegueira Saramago se firmaria como um dos nomes cotados para o Nobel de Literatura, prêmio que de fato receberia.

Já na faculdade, nessa época da invasão das mega stores, uma professora recomendou o romance recém-lançado A Caverna, primeira obra de Saramago que ele leu. E gostou muito. Ainda naquele ano o menino leria ao menos outros dois romances do autor. Esse era o contexto quando deu com uma edição caprichada, recheada de aquarelas de Arthur Luiz Piza no miolo (e não apenas na capa, como nos demais livros), intitulada O Conto da Ilha Desconhecida. Com o livro em mãos, o menino encontrou uma poltrona disponível. Sentou-se para ler um trecho.

No conto, um homem vai ao palácio pedir ao rei um barco. Quer ir à procura da ilha desconhecida:

Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu te pudesse dizer, então não seria desconhecida.

O rei lhe dá o barco. A mulher da limpeza do palácio sai pela “porta das decisões” e decide unir-se ao homem. Que sai em busca de tripulantes para a jornada, mas volta (sem homens) com um naco de queijo e uma garrafa de vinho para jantar com a mulher no barco, atracado ao porto. Os dois apenas. Pousam lá.

Na livraria o menino, que em princípio leria um trecho do livrinho de 64 páginas, se deu conta de que em mais alguns minutos concluiria a leitura. Será que pode?, ele se perguntou. Que era permitido ler trechos, isso ele já sabia. Mas um livro todo… Como se vigiassem o seu olhar, o menino prosseguia também ele atrás da sua ilha desconhecida, vencendo o medo, encarando as câmaras de segurança, o olhar de esguelha da pessoa ao lado. Todos saberiam que ele lera um livro inteiro e não o comprara. Que lera que “Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar”, e que, quem sabe por isso, não compraria o livro. Não naquela hora. Não aquele exemplar. Gostar bastava.

Seu conto preferido? O homem não sabe. Certamente leu inúmeros contos tão bons quanto, talvez alguns melhores. Mas jamais se esquecerá de, comovido, fechar o livro, levantar-se da poltrona, esquecê-lo em um canto qualquer e deixar a livraria. O menino de então vivia algo desconhecido, e não sabia que aquela busca estava apenas começando.

Trecho do conto ‘O conto da ilha desconhecida’, de José Saramago

A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse.
 

Trecho do conto ‘Silente’, de Renato Tardivo

A primeira vez que vi a morte de perto foi quando o meu avô faleceu. Lembro que, no momento de fechar o caixão, alguns parentes cuidaram para me afastar. Em vão. Apenas mais distante que os demais, vi meu pai, debruçado sobre o corpo do pai dele, sopra-lhe alguma coisa no pé do ouvido. Jamais esqueci essa cena.
No dia seguinte ao enterro, eu e meu pai sozinhos no carro, tomei coragem e perguntei:
Pai, o que você disse pro vovô aquela hora?

Renato Tardivo nasceu em São Paulo, onde vive. Escritor e psicanalista, é autor dos livros de contos Do avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp). É colunista do site da revista Cult.

Viúva de José Saramago, Pilar del Río fala sobre romance inacabado do escritor

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‘Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas!’, livro incompleto do Nobel de Literatura, chega às livrarias brasileiras

Pilar del Rio admite pensar mais na morte depois da perda do companheiro

Pilar del Rio admite pensar mais na morte depois da perda do companheiro

Vanessa Aquino, no Divirta-se

O novo romance do escritor português José Saramago chegou às livrarias brasileiras, em setembro, com um alarde a mais além do título, que destaca em letras vermelhas trecho extraído da obra ‘Exortação da guerra’, de Gil Vicente: ‘Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas!’. Acontece que Saramago morreu antes mesmo de concluir a história. A publicação do livro causou celeuma entre os críticos. Segundo eles, dificilmente o autor publicaria algo antes da finalização. A viúva do mestre, Pilar del Río, no entanto, afirma que se trata de uma obra acabada. Ela diz que Saramago finalizou as páginas, embora não tenha conseguido terminar o romance em si. A edição contém notas do autor com descrições dos passos da construção da narrativa, ideias, detalhes e dúvidas a respeito do título.

Antes de acabar o romance, Saramago, no entanto, sabia bem como terminaria. “Creio que poderemos vir a ter um livro. O primeiro capítulo, refundido, não reescrito, saiu bem, apontando já algumas vias para a tal história ‘humana’. Os caracteres de Felícia e do marido aparecem bastante definidos. O livro terminará com um sonoro ‘Vá à merda’, proferido por ela. Um remate exemplar”, escreveu Saramago em uma das notas que compõem a publicação.

A história não terminou como Saramago previu. Aliás, não terminou. Faltou, inclusive, um ponto final — o que deixa o texto tão aberto, que o crítico português Alberto Gonçalves sugere que ‘Alabardas’ inaugura um novo gênero, o de romances “praticamente por começar” e conclui: “Meia dúzia de críticos hão de considerar estarmos perante um momento de ruptura na cultura universal”. No entanto, o estilo consagrado do polêmico escritor acaba se destacando, como sempre ocorreu antes mesmo da publicação de seus livros. O debate acerca da temática das obras começava logo no anúncio de lançamento de um romance.

'Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas!' De José Saramago. Companhia das Letras, 112 páginas. R$ 27,50

‘Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas!’ De José Saramago. Companhia das Letras, 112 páginas. R$ 27,50

“Num certo sentido, ‘Alabardas’ consagra de fato o estilo do Nobel, que em vida fazia questão de anunciar, ele próprio, o caráter polêmico de cada livro antes mesmo de o livro chegar ao público. Devido a condicionantes óbvias (a morte do autor), agora o anúncio da polêmica ficou a cargo de terceiros, mas o processo é idêntico e com uma vantagem: se o hábito consiste em privilegiar a algazarra em detrimento do conteúdo, desta vez o conteúdo quase não existe e a algazarra abunda. Saramago vintage, de fato. E, desde que ignoremos os pechisbeques anexos, a minha obra preferida dele. As outras não se liam em horas. Conto não ler esta em 20 minutos”, diz o crítico.

Em entrevista, Pilar del Río justifica a publicação da obra e garante que não há mais livros inéditos de Saramago. Diz também que o novo trabalho é um final feliz “em mais alto grau de criatividade.” A jornalista fala, ainda, sobre a ausência do marido, o dia a dia na Fundação Saramago e as parcerias com Fernando Gómez Aguilera, Luiz Eduardo Soares e Roberto Saviano, que assinam os textos que complementam o livro; assim como a participação de Günter Grass com os traços fortes que ilustram a história do Nobel português.

Entrevista / Pilar del Río

Como veio a decisão de publicar uma obra inacabada de Saramago?
Porque é uma obra acabada, de um mestre da literatura, que merece ser conhecida pelos leitores. E digo bem: essas páginas estão acabadas, mesmo que o romance não esteja. É o que se entende pelas notas que o autor deixou escritas e que foram publicadas.

Ele chegou a revisar o texto? Acredita que ele publicaria um livro sem revisar?
Não sei se faria, porque nunca vou interpretar quem não está aqui. Sei, isso sim, que os capítulos que ele deixou estão acabados. Também sei que era fiel leitor de obras cujos autores não puderam terminar, como Camus e Mann.

A maioria das críticas sugere que Saramago não teria revisado o texto. E que isso comprometeria a obra. Como avalia isso?
O texto estava revisado, pronto. O autor ia mudar de nome e a morte veio quanto estudava outra frase. Digamos que o planejamento estava em finalização também, como se pode ver nas notas.

Como você vê que os textos complementares de Roberto Saviano, Fernando Gómez Aguilera e Luiz Eduardo contribuem no texto de Saramago?
Como disse um editor brasileiro na apresentação em Lisboa, o diálogo se produz no livro porque o autor não está aqui para mantê-lo fora. Estes três autores completam a função ética de Alabardas, a de dar uma porrada nas consciências adormecidas de tanta gente. Saramago estabelece a função literária e abre caminho para os demais.

E a parceria com Günter Grass, como se deu?
Como se dão as relações entre colegas, de forma generosa e decidida: dos antibelicistas que se gostam, se respeitam e se valorizam.

Saramago é considerado um autor profundamente parabólico. Você concorda com isso? O que acredita ser a principal mensagem desse novo livro?
Não sei se é um autor parabólico… José Saramago podia utilizar a alegoria ou outra forma literária, o que nunca fez de seus romances algo panfletário ou de falso moralismo. Ele fazia literatura a partir de assuntos que lhe inquietavam e os desenvolvia com seu peculiar e estupendo estilo literário. Respeitava muito o leitor, para fazer doutrina, como sabe qualquer leitor que já o leu. E o humor e a ironia estão sempre presentes antes de qualquer tentação de deixar que pesem ideias e conceitos dogmáticos, sejam políticos, sejam religiosos. José Saramago era um antidogmático.

Há outro trabalho inédito a ser publicado?
Não, não há nenhum outro livro a ser publicado. Haverá, sim, e espero que muitas, reedições.

Como anda o projeto do Diocionário Saramaguiano?
Está a caminho, mas não é a Fundação que está tocando. É o professor Carlos Reis, a partir de sua absoluta e grande liberdade de acadêmico de primeira ordem.

Como é a sua rotina com a demanda de trabalho da fundação?
Rotina? Cada dia é novo. Os brasileiros que vêm se assombram de ver como se trabalha. E se emocionam com a exposição permanente e com o espírito da casa. Muitos também vão a Lanzarote, onde se pode ver a casa e a biblioteca de José Saramago, que está aberta para visita pública.

O que da convivência com Saramago você mais sente falta?
Isso, a convivência e me desculpe por não ser mais explícita neste assunto tão pessoal.

Passou a ver a morte de uma maneira diferente depois que ele morreu?
Talvez a desejá-la mais. E que seja tão natural e tranquila como a que ele teve.

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