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5 Ideias que farão de você um leitor melhor

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Karol Gomes, no Meio Norte

Os livros que podem transformar são aqueles que você lê e relê. Os livros que fazem você pensar. Os livros em que você destaca citações favoritas e sobre os quais você reflete extensivamente. Há um enorme valor em ler devagar. E também há outras formas de absorver o melhor conteúdo deles. Confira algumas dicas de como fazer isso:

1. Escreva suas 10 ideias favoritas sobre o livro

Uma forma muito boa de resumir um livro é escrever suas ideias favoritas sobre ele. Dessa forma, você poderá aproveitar o conteúdo escrevendo um artigo sobre o assunto, realizando uma palestra ou em qualquer outro empreendimento criativo.

2. Faça uma lista com suas citações favoritas

Quem tem um Kindle pode aproveitar o recurso nativo do aparelho que reúne todas citações em um só lugar – basta apenas continuar destacando suas passagens como sempre. Mas você pode fazer isso manualmente, seja copiando e colando as passagens ou reescrevendo-as – só não deixe de lê-las novamente. Além disso, sempre que você estiver procurando alguma inspiração, pesquise suas citações. Você ficará surpreso com quantas pepitas de sabedoria estão te esperando por lá.

3. Recorte o livro em cinco frases

Resuma o que você leu em apenas um parágrafo. Dessa forma, será possível se lembrar do conteúdo rapidamente.

4. Implemente uma ideia do livro hoje

A melhor forma de aproveitar o conteúdo de um livro é colocá-lo em prática. Você vai encontrar resistência interna e também terá que se esforçar para realizar algumas tarefas. Mas vai valer totalmente a pena. Caso você leia um livro esperando fazer o que ele sugere apenas um dia, não terá qualquer benefício. As ideias mais transformadoras são aquelas que você experimenta.

5. Recomende um livro a algué, explicando uma boa ideia dele

Aproveite seu resumo com as 10 ideias favoritas sobre o livro ou sua lista com as citações favoritas (itens 1 e 2 desta lista) e envie-os a um familiar, colega ou amigo. Dessa forma, você vai adicionar valor à vida da pessoa e uma boa recomendação de um livro.

Fonte: Mega Curiosos

Contos de Edgar Allan Poe são reeditados no Brasil

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Jane Fonda como Metzengerstein no episódio de Vadim da versão de contos de Allan Poe para o cinema

‘Histórias Extraordinárias’ provam que o autor permanece aterrorizante mesmo na era do cinema high-tech

Caio Sarack, no Estadão

Ouvimos o corvo de Edgar Allan Poe grasnar “Nunca mais!” e tão logo somos transportados para o quarto escuro em que a personagem contempla a ave agourenta sobre o busto de Minerva, o mesmo acontece com o ruído da extensa escada de madeira que estala quando outra personagem sobe seus degraus. Nos tempos dos filmes 3D e das superproduções audiovisuais, o extraordinário e o suspense acabam por se tornar uma espécie de coringa para franquias de terror ou de fantasia. A capacidade que nosso tempo tem de replicar os modos de fazer e produzir dos muitos formatos artísticos nos atordoa de tal maneira que, não raro, passam despercebidos os grandes artistas dos tempos idos. A reedição especial das Histórias Extraordinárias, pela Companhia das Letras, nos recoloca no cerne de uma discussão sobre público e obra, autor e leitor.

Entre o sucesso de público e o interesse acadêmico existe um estreito, mas profundo espaço da experiência artística: se as quase 900 páginas de experimentação formal do Ulisses de Joyce ainda não ocupam esse espaço, o nome de Edgar Allan Poe consegue produzir, mesmo que brevemente, uma unanimidade. Acessível e com histórias surpreendentes – descrições quase sempre insuficientes e redutoras, o autor americano consegue cativar tanto o interesse massificado de quem procura passatempos que rompam com o marasmo da vida cotidiana quanto deixa os rastros da composição muito rigorosa de um autor que compreende, de fato e de direito, os vínculos profundos entre forma e conteúdo, expressão e percepção.

Em seu Filosofia da Composição, Poe não só descreve o novo paradigma da produção literária do seu século 19 e dos que viriam depois, mas também busca entender o leitor que está se construindo histórica e socialmente neste período: a consolidação da reprodução em série de livros e a consequente acessibilidade de cada vez mais homens e mulheres foram produto da expansão do trabalho na cidade e da gestão social do calendário do novo leitor; as horas reduzidas que tinham seja para reflexão intelectual seja para fruição artística, agora ocupam o centro das atenções do autor. Como podem criar suspense, melancolia ou qualquer tipo de sensação, se o leitor abandona o livro e interrompe a circunstância da leitura e seu ambiente? É, por isso, necessário que as estrofes sejam reduzidas, que os versos levem em conta o vocabulário do leitor, que o autor reconheça nas palavras o seu peso social e sua expressividade quando lidas; ao fim e ao cabo, a sensação que o autor quer provocar é o elo inevitável que a literatura guarda entre quem escreve e quem lê, eis a interação constitutiva forma-conteúdo, expressão-percepção. Mas se como já dissemos, a vida social das palavras e das imagens interfere no fazer do artista, como é que Poe permanece interessante para o leitor que não busca nele seus expedientes de produção literária, mas o arrepio gelado que nos provocam o estresse de Roderick Usher e a aparição de lady Madeline em A Queda da Casa de Usher ou mesmo a materialização da Sombra na parábola contada por um autor póstumo? Como é que o conteúdo extraordinário, isto é, incomum dos contos de Poe ainda podem nos mover em meio aos filmes com seus efeitos especiais e salas high-tech?

Quem sabe, ao tatear a capa roxa e as letras douradas que esta reedição apresenta nos sintamos como diante de um livro de fábulas ou histórias folclóricas de muito tempo atrás; que esses grafismos na capa evoquem um caráter incomum e instaurem uma ambiência diferente daquela com que estamos habituados, e que os estímulos vários e muito intensos dos nossos formatos do século 21 não consigam reproduzir. A distância que enxergamos nas historietas de cigarra e formigas, raposas e uvas, ou nas poesias de séculos mais antigos parece se tornar o exíguo terreno entre a minha mão que folheia o livro e a história que acompanho com os olhos bem abertos. As experiências da literatura e da leitura que atualiza em seu tempo com sua composição de inversões e expectativas, Edgar Allan Poe mostram que o horror coabita a pasmaceira da rotina e o extraordinário espreita no mais comum dos dias. Para expressar o horror da morte ou a loucura dos solitários é preciso anunciar a vida comum a fim de que, como escreve Jorge Luis Borges sobre o nosso autor, o mundo que sonhou em seus contos perdure e o mundo real tenha a figura dispersa de um sonho comum.

*Caio Sarack é mestre em filosofia pela FFLCH-USP e professor do Instituto Sidarta

A história de 18 grandes mulheres brasileiras, reunidas num livro on-line

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Carolina Maria de Jesus, um dos principais nomes da literatura no Brasil - Foto: Audálio Dantas/Agência Brasil Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/03/21/A-hist%C3%B3ria-de-18-grandes-mulheres-brasileiras-reunidas-num-livro-on-line © 2017 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei nº 9.610/98. A sua publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia é proibida.

Carolina Maria de Jesus, um dos principais nomes da literatura no Brasil – Foto: Audálio Dantas/Agência Brasil

Lançada pela Fundação Joaquim Nabuco, obra traça o perfil de personagens que se destacaram em diferentes áreas

Caio do Valle, no Nexo

Salvaguardadas as exceções, ainda é tímido, na tradicional narrativa histórica, o espaço conferido às mulheres na construção social, política, cultural e econômica do Brasil. O protagonismo masculino perdura nesse terreno, bem como no da memória social. Assim, o passado segue se organizando em torno do vulto de grandes homens, refletidos em monumentos, nomes de ruas e episódios consagrados no imaginário popular. Um livro gratuito publicado pela Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, tenta corrigir um pouco dessa distorção, apresentando 18 mulheres brasileiras que se destacaram ao longo dos últimos séculos. Em comum entre si, as homenageadas na obra “Memória Feminina: mulheres na história, história de mulheres” têm contribuições que se encontram, “em sua maioria, representadas em museus e espaços de memórias”, como arquivos e centros culturais.

Apesar desse foco, segundo escrevem na apresentação os pesquisadores Maria Elisabete Arruda de Assis e Maurício Antunes, além de patrimônios materiais (representados por objetos pessoais, obras de arte, manuscritos, livros), buscou-se acessar os imateriais. Quer dizer, os que “não estavam apenas nos museus brasileiros, mas também nas comunidades locais”: tradições legadas de uma geração para a outra. É por isso que o leitor encontra artigos sobre as cirandas de Lia de Itamaracá, a preservação da tradição religiosa de matriz africana Xambá por Mãe Biu em Pernambuco, bem como a contribuição de Dona Santa, na preservação dos maracatus. Também há um texto sobre a líder sindicalista Margarida Alves, defensora dos direitos dos trabalhadores sem terra assassinada em 1983 e inspiradora da Marcha das Margaridas.

A importância feminina na literatura
No campo das letras, aparecem Carolina Maria de Jesus, Pagu e Clarice Lispector. A primeira, moradora de uma favela paulistana, ganhou notoriedade mundial ao publicar o livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, em 1960. Nessa obra, vêm à tona as condições precárias de vida de parcela significativa da população, em especial das mulheres pobres.

“Essas mulheres, como Carolina, responsáveis por seu próprio sustento, apesar de desqualificadas pela imprensa e por fontes oficiais, compunham um grupo que teve presença constante e intensa pelas ruas da cidade de São Paulo desde o período colonial. Suas falas, entretanto, sempre apareciam de forma indireta, transcritas nos documentos pela pena dos escrivães, o que as impedia de assumir um protagonismo narrativo”
Elena Pajaro Peres historiadora, responsável pelo artigo sobre Carolina Maria de Jesus

Figuras de destaque nas lutas feministas e nas artes
O livro ainda traz o perfil de pessoas de “inestimável contribuição para a mudança do papel da mulher na sociedade quanto aos seus direitos”, como a zoóloga Bertha Lutz, sufragista nos anos 1920, e a escritora Francisca Senhorinha da Motta Diniz, que fundou, no século 19, o primeiro periódico do país pela emancipação feminina. As artistas plásticas Tarsila do Amaral, Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza, Lygia Pape, Djanira da Motta e Silva, Georgina de Albuquerque e Nair de Teffé aparecem retratadas em seus contextos históricos e por meio de suas trajetórias de vida e profissional. Há ainda relatos sobre a atriz Leila Diniz, identificada como um símbolo da liberdade sexual dos anos 1960, e Nise da Silveira, proeminente figura da psiquiatria brasileira no século passado. Um capítulo do livro é dedicado à figura da “Miss Sambaqui”, um crânio de mulher pré-histórico encontrado no litoral paulista na década de 1950.

Anonimato e invisibilidade
Segundo Maria Elisabete Arruda de Assis, diretora do Museu da Abolição, e Maurício Antunes, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, as histórias são cristalizações de muitas outras, anônimas e invisibilizadas. A intenção é que se tornem espelhos para brasileiras, jovens e adultas, se olharem, se reconhecerem e se projetarem no futuro, “como cidadãs a serem respeitadas nas diferenças e na luta pela conquista da igualdade de gênero em nossa sociedade”. Ainda de acordo com eles, o objetivo do livro é desmontar preconceitos que esconderam ou apagaram a presença das mulheres na história do Brasil.

“Nossa história coletiva ganha com acercar-se desse conjunto de mulheres que foram sujeito da história de nosso país: sim, temos pintoras, escultoras, escritoras, atrizes, cientistas que foram rebeldes e afirmaram-se como protagonistas”
Tatau Godinho doutora em ciências sociais, no prefácio do livro

A difícil decisão de abandonar a leitura de um livro

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O delicado dilema não muito comum, mas também não tão desconhecido na vida de um leitor: decidir se continua ou não determinada leitura. Afinal, o que leva alguém a abandonar a leitura de um livro?

Mark Alves, no Bons de Texto

Os motivos podem ser os mais diversos, pois é algo particular de cada um. Mas só um leitor sabe o quanto é difícil para ele decidir deixar de lado alguma leitura, seja ela qual for.

Muitas vezes pela temática, por achar incoerente, por não se identificar com o modo de escrita ou até por expectativas frustradas ao longo da leitura. O fato é que o motivo sempre é dos mais relevantes ou urgentes. Abandonar a leitura de um livro dói tanto quanto um soco no estômago. E não é exagero.

Um leitor não abandona um livro por preguiça, falta de tempo ou desinteresse.
Muitos passam dias ou até semanas tentando decidir se continuam ou não. A pergunta que deve ser feita é: o que me acrescentará a leitura de um livro que sequer estou gostando?
Essa pergunta pode ser respondida internamente, fazendo uma análise a respeito da ideia que o livro parece querer passar até aquele momento em que foi lido.

Muitos títulos são extremamente chamativos, com capas muito atrativas e o conteúdo aparentemente bom.
À primeira vista, quando são vistos nas prateleiras proporcionam um encanto quase que instantâneo. Mas os leitores mais assíduos sabem que, na hora de escolher um livro não deve se levar em conta apenas sua linda capa e o visual externo em geral. É essencial analisar bem a sinopse e, se possível, tentar saber mais informações sobre o autor. Essas pesquisas prévias são de suma importância na hora de adquirir um novo livro.

É sabido que sempre houve e sempre haverão escritores medíocres, que nada têm a passar para a sociedade, senão o seu desejo egoísta de se auto-promover. Claro que a literatura é um espaço amplo e que há lugar para todos. Mas isso não significa que qualquer um pode simplesmente achar que é escritor e tentar convencer as pessoas de que seu escrito tem algo relevante, quando na verdade tem apenas um intuito que não é o do bem coletivo.

Por fim, é recomendável que antes de pensar em abandonar a leitura de um livro, dê-se a oportunidade de ser surpreendido. No início pode ser que a leitura esteja massante, mas na maioria das vezes, é no decorrer e o fim das histórias que estão as melhores partes. Livros não são feitos para apenas ocupar um lugar na estante.

Milton Hatoum avalia que o maior patrimônio é o bom leitor

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Hatoum e o livro que considera a maior obra da literatura (Foto: Divulgação)

Hatoum e o livro que considera a maior obra da literatura (Foto: Divulgação)

 

Amanda Celio, no Correio de Uberlândia

O ofício é escrever e o desafio é captar os dramas universais que atingem o ser humano. Para Milton Hatoum, a literatura não é um jogo de palavras, mas uma forma de conhecimento que o leva a expor um pouco da própria essência nos enredos dos romances, contos, ou crônicas que escreve. O premiado escritor manauense é presença confirmada no 5º Festival Literário de Araxá (Fliaraxá), em que será o homenageado.

O evento acontece entre os dias 14 e 18 deste mês na cidade mineira, com entrada franca. Suas obras são alvo de adaptações para TV, cinema e histórias em quadrinhos. Porém, com quase 30 anos de carreira literária, o autor revela que tudo foi inesperado e que seu maior patrimônio são seus bons leitores.

São quatro romances publicados e um quinto em produção. No trabalho de Hatoum, as memórias e lembranças do autor se fundem numa narrativa que tem como pano de fundo as experiências vividas em Manaus. “Tento escrever aquilo que de fato diz alguma coisa dentro de mim. Minhas inquietações e meus questionamentos diante da vida ou da situação política de meu País”, afirma.

Antes de escrever, a leitura de outras obras e, sobretudo, os clássicos autores, como Machado de Assis, Joseph Conrad, William Faulkner e Shakespeare foram fundamentais para Hatoum. Porém, ao finalizar a leitura “Grande Sertão: Veredas”, do mineiro Guimarães Rosa, o escritor sofreu um bloqueio criativo que quase o impediu de seguir na carreira literária. “Para mim, essa é a maior obra da nossa literatura. É ousado e fala de temas como a vida, a metafísica, a religião. Após terminar a leitura eu pensei: por que escrever depois disso? Faz sentido escrever alguma coisa?”, diz.

Com uma linguagem marcante, enredos complexos e o aprofundamento nos dramas familiares, Hatoum é constantemente comparado aos grandes escritores do Brasil e do mundo, de Graciliano Ramos a Marcel Proust. Mas o autor foge das comparações e acredita que seu trabalho apenas traduz o seu próprio modo de ser. “Não saberia escrever algo que não vivenciei. Essas comparações são exageradas. Fico feliz, pois são leitores que foram buscar informações nas minhas influências. É uma honra, mas, certamente não mereço”, afirma.

Adaptações

Os romances e contos de Milton Hatoum também mexem com produtores e artistas de outras mídias. Como exemplo, a obra “Dois irmãos” foi adaptada para o formato das histórias em quadrinhos pelos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e recebeu, no último mês, o Prêmio Eisner, considerado o Oscar dos quadrinhos. A mesma obra virou minissérie da Rede Globo e estreará em janeiro de 2017, sob a direção de Luiz Fernando Carvalho. “Sempre tive muita sorte com adaptações. O Fábio e o Gabriel trabalharam quatro anos nessa história. Viajaram até Manaus, conversaram muito comigo e o resultado foi maravilhoso. Eu vi o primeiro capítulo da minissérie e é deslumbrante também. Chorei um pouco, pois vi ali alguns momentos da minha infância e juventude”, diz.

Hatoum conta ainda que deixa os roteiristas e produtores livres para trabalharem diretamente nas suas obras. “Eu não imaginava nada disso. Apenas escrevia, pensava no conceito de personagens e na passagem do tempo das histórias”, afirma.

Novo trabalho

Em 2008, Hatoum publicou seu último romance, “Órfãos do Eldorado”. Agora, trabalha há oito anos em um novo projeto. Sob o título provisório de “O lugar mais sombrio”, a ser divido em dois volumes. O primeiro volume é ambientado em Brasília e São Paulo e tem como pano de fundo o período da Ditadura Militar (1964-1985), mas não trata-se de um romance político. “São histórias de vida de vários personagens. É uma pesquisa sobre a vida desses personagens. A fórmula é bem diferente dos meus outros romances. Esse ano não vou terminar nada, mas, quem sabe no ano que vem? Antes que ele acabe comigo”, diz.

Milton Hatoum diz que continua exigente com o próprio trabalho e que ninguém escreve para ser best-seller

CORREIO DE UBERLÂNDIA – Em quase 30 anos de vida literária, com inúmeros prêmios, adaptações de obras e traduções, o que mudou em Milton Hatoum enquanto autor?
MILTON HATOUM – O escritor não pensa muito nessas coisas. Tudo isso aconteceu ao longo do tempo, desde 1989 quando publiquei meu primeiro romance. Continuo exigente com a linguagem, com meu trabalho. Minha exigência é quase doentia, quase um caso clínico, por isso que publico pouco. Fico contente por ter muitos leitores e bons leitores com o alcance de alguns romances. No fundo é o que todo escritor quer. Ninguém escreve para ser best-seller, a não ser aqueles que só pensam nisso. Muda alguma coisa na minha própria obra. Ela começou com um relato íntimo, da memória, com narradores que falavam do passado. Depois de um drama familiar que expandiu para a cidade e, por fim, para o País. E no romance que estou escrevendo, a Amazônia já não aparece mais, não é ambientado lá.

De que formas as efervescências políticas e os tempos de incertezas atuais lhe atingem?
Acredito que atinge qualquer pessoa com sensibilidade política. Acompanho tudo isso de alguma forma e escrevo crônicas sobre a política brasileira no jornal “Estado de S. Paulo”. Nunca diretamente, mas com viés crítico. Isso atinge de certa forma o que estou escrevendo. O novo romance fala de um grupo de jovens que viveram no período da ditadura. Há algumas semelhanças políticas entre aquele momento e esse, como a violência da polícia. Isso me assombra um pouco. Não consigo ficar alheio ao que está acontecendo. No entanto, não defendo e nunca militei em nenhum partido. A posição do intelectual deve ser independente. Sempre independente.

Tolstoi dizia que “canta a tua aldeia e serás universal”. Isso se encaixa na sua obra?
Hoje em dia está na moda a globalização, alguns escritores escrevem sobre qualquer lugar e mesmo sem a experiência desses lugares. Eu vivi a minha infância em um lugar muito específico. Como escritor do Amazonas eu tento me aprofundar nas questões locais para atingir o universal, uma dimensão mais geral.

Qual a sua avaliação sobre o mercado editorial brasileiro?
Cresceu muito nos últimos anos com um demanda diferente daquela de quando eu comecei. Havia, ao contrário de hoje, muitos suplementos literários de peso. Temos muitas universidades e isso fez com que aumentassem o público leitor.

Pesquisas e estudos apontam um baixo índice de leitura dos brasileiros em relação a outros países. A que você atribui esse desempenho?
Isso se dá, basicamente, por causa da qualidade da nossa escola pública. O jovem brasileiro, de modo geral, não tem acesso à literatura. A escola é precária, o ensino é precário e os professores têm um salário miserável. Não há estímulo. E muitas escolas não possuem bibliotecas ou não têm bons livros nela. Essa é a razão, a grande questão nacional. Nossos políticos fecham os olhos para isso.

Qual a sua análise em relação à produção literária no Brasil atualmente?
É muito diversificado. Há bons escritores desde a minha geração. É difícil falar de muitos. Recebo muitas publicações, só não tenho mais idade para ler tudo.

Quais são os desafios enfrentados pelos jovens escritores no Brasil?
Falta maturidade para os jovens. É preciso esperar um pouco para começar a escrever. Os romances falam sobre a passagem do tempo, por isso, é fundamental esperar o tempo passar. O desafio ainda é ler com calma os bons livros. Eu sou um péssimo conselheiro, mas a literatura pede paciência, sobretudo o romance, que exige reflexão. Não acredito numa espontaneidade, nessa coisa apressada. Para um escritor jovem, eu daria meu exemplo. Eu li muito antes de começar a escrever. Pensei muito no que escrever, no que me tocava profundamente. Às vezes, você escreve 20 livros e não escreve nenhum. Ou escreve um e já é um grande livro. O jovem não deve se apressar. Com o tempo, ele vai encontrar sua razão, ou “desrazão”, para escrever seu livro.

Diante de todas as suas obras publicadas até aqui, qual é sua obra-prima, no seu ponto de vista? Por quê?
Sei que o “Dois Irmãos” tem um alcance enorme. Mas eu mesmo não tenho preferência. O que fiz com cada um deles foi escrever com toda minha energia e paixão pela minha linguagem. O que posso dizer é que em nenhum deles eu fui desonesto com aquilo que quis fazer.

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