Segredos de Pai para Filho

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Que diferenças separam quem lê de quem não lê?

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Publicado na Gazeta do Povo

O sujeito pode ser extremamente culto, ler bem e ler muito, e ainda assim ser um crápula (veja Hitler).

O fato é que ler bem faz o cérebro funcionar melhor – o que você faz com isso é outra história. Porém, existem algumas qualidades visíveis e comuns entre os leitores experientes.

“Leitores costumam ter mais vocabulário, frases mais complexas, pensamentos mais matizados, na mesma medida em que expressam ideias e valores mais sutis, menos óbvios”, diz Luís Augusto Fischer, escritor e professor. Ele é autor de “Filosofia Mínima” (Arquipélago), livro que fala justamente sobre ler, escrever, ensinar e aprender. “Dito isso, é claro que não se trata de algo absoluto nessa diferença, porque eu ainda conheci gente do mundo rural que não sabia ler e mesmo assim tinha virtudes como as que mencionei antes.”

Existem desvantagens que pesam sobre quem não lê? (E esse “ler” tem a ver com o que os cientistas chamam de “leitura profunda”.) “Claro que sim”, responde Fischer, levando em conta um critério moderno “que avalia como positiva a consciência do indivíduo sobre sua vida e a vida coletiva”.

Quem não lê, é menos consciente

“Ler e escrever proficientemente ajudam cada um a conhecer-se mais e a perceber mais agudamente seu entorno, seu semelhante, a Cidade, o Estado”, diz Fischer. “Penso mesmo que seja uma questão de cidadania”, diz Benedito Costa Neto, também escritor e professor.
Reféns dos algoritmos

Julia Fank, fundadora da Escola de Escrita, faz a defesa das redes sociais. “Estamos lendo e escrevendo o tempo todo – e temos condições de nos manter bem informados e de ter contatos com textos bons mesmo no feed de notícias do Facebook”, diz. “A questão é que somos condicionados, a partir de algoritmos, a ler apenas aquilo que já lemos e consumir apenas aquilo que já consumimos culturalmente.”

Quem lê é melhor do que quem não lê (mas o “melhor” não se refere ao caráter)

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Pesquisas falam sobre a “leitura profunda” para ampliar a sua compreensão do mundo, das pessoas que vivem nele e de você mesmo. Esse exercício tem mais a ver com textos de ficção e não ficção em que se pode mergulhar e menos com a leitura de águas rasas. A imersão faz diferença

Irinêo Baptista Netto, na Gazeta do Povo

Pegue um livro. Não precisa ser um romance de mil páginas escrito por um irlandês genial. Pode ser um livrinho de 120 páginas sobre um grupo de jovens arrancados de suas rotinas para lutar na Primeira Guerra Mundial. Quando o escritor sabe lidar com as palavras e consegue colocar você dentro de uma situação ou da cabeça de um personagem – também é isso que faz um texto ser “complexo” –, o cérebro vai acionar regiões responsáveis pela experiência vivida e isso é absolutamente incrível: significa que ler um livro bom sobre a Primeira Guerra pode fazer você experimentar o conflito de certa forma. Não como se estivesse enfiado as botas na lama europeia, mas algo relativamente próximo disso.

Descobertas assim foram feitas nos últimos anos por uma série de pesquisas envolvendo neurociências, psicologia e linguística.

59% de todos os links compartilhados em redes sociais nunca foram clicados por ninguém. Isso significa que seis em dez pessoas compartilham textos que não leram

Quando você lê algo desafiador, o cérebro avança sobre território virgem. Ele abre caminho a facão. Se o texto é capaz de fazer você sentir e pensar em coisas e de se envolver com personagens e situações, mais tarde, quando você se deparar com uma situação em que precisa acessar essas coisas em que pensou e que sentiu, ao escrever um texto, por exemplo, o seu cérebro vai saber por onde ir e vai levar você com ele.

Foram duas pesquisadoras da Universidade da Flórida em Gainesville que chegaram a essas conclusões, Yellowlees Douglas e Samantha Miller. Elas realizaram um estudo em que conseguiram provar que a leitura de textos com vocabulários e sintaxes complexos torna você um escritor melhor.

O resultado da pesquisa acaba de ser publicado pelo International Journal of Business Administration e inspirou o texto “O que você lê importa mais do que você pensa”, de Susan Reynolds, para o “Psychology Today” e publicado também no “Quartz”.

A própria Reynolds é autora de livros que tratam de neurociência aplicada a objetivos específicos, o mais novo deles, “Fire Up Your Writing Brain”, usa pesquisas para aprimorar habilidades de escrita.

“Estudantes [com idades entre 23 e 42 anos] que leem publicações acadêmicas e textos de ficção e de não ficção escreveram com sintaxe mais sofisticada (com frases mais elaboradas) do que aqueles que leem só livros de gênero (mistério, fantasia ou ficção científica) ou exclusivamente plataformas na web como Reddit, Tumblr e Buzzfeed”, escreve Reynolds. O melhor desempenho foi de quem lê publicações acadêmicas. O pior, de quem se fia apenas em conteúdo taquigráfico para a web.

Se você lê só o que não presta – e abraçar redes sociais como fontes únicas de leitura e de informação não presta –, sua capacidade de compreender o mundo, de lidar com ele e com as pessoas que vivem nele está em jogo.

Eis a questão: escrever para quê?

Por sobrevivência

“Não há como sobreviver no mundo virtual hoje sem dominar a leitura e a escrita. E as nossas relações tem passado por essa lente”, diz Julie Fank, da Escola de Escrita. “Importante: quando a gente fala em dominar a escrita, não estou falando de ‘escrever bem’. No Twitter, por exemplo, o idioma é um, no WhatsApp, o idioma é outro – e isso não tem a ver só com correção linguística, mas com o domínio do gênero textual em que a gente está atuando no momento da fala.”

Para ler melhor

“O mais importante seria perceber que ler melhora o escrever e vice-versa”, explica o escritor e professor Luís Augusto Fischer. “Quando a gente escreve é que percebe como ler melhor, e o contrário também. A dissociação entre as duas atividades é uma das causas profundas do insucesso da escola brasileira.”

Porque é preciso

Para o escritor e professor Benedito Costa Neto, há vários tipos de escrita. “Algumas mais complexas e outras menos complexas. Um indivíduo com aspirações literárias terá de enfrentar toda a tradição literária que o antecede se quiser escrever algo de qualidade. Um historiador precisa escrever, assim como o sociólogo e o antropólogo. O agente do direito precisa escrever. E a pessoa comum também deveria saber escrever, pois pode precisar compor uma mera reclamação sobre um produto que comprou e não tem habilidades de escrita.”

Tenha em mente a pesquisa feita pela Columbia University com o French National Institute, noticiada pelo “Washington Post” em junho passado: 59% de todos os links compartilhados em redes sociais nunca foram clicados por ninguém. Isso significa que seis em dez pessoas compartilham textos que não leram.

“Sim, não apenas estudos, mas a prática mostra que as pessoas andam lendo pouco, mal, pela ‘superfície’, somente as chamadas, e por aí vai”, diz o professor, escritor e pesquisador Benedito Costa Neto. “Claro que existem pessoas que leem bem e em quantidade… mas o nível de leitura geral é terrível.”

Para Costa Neto, a leitura é “uma conquista que vem aos poucos”. Ler não é apenas decifrar uma escrita. “É tentar atravessá-la, resgatar o que há de sentido nela, ter um entendimento dela.
Leitura e escrita são exercícios.”

Quando a edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil saiu há dois meses, muitos veículos – esta Gazeta entre eles – se concentraram na estatística mais evidente: 44% da população brasileira não tem o hábito de ler.

Citando Costa Neto, leitura é mais exercício do que hábito. Fora isso, alguns dados escabrosos apareceram de maneira discreta na pesquisa. A pesquisa aceita que a Bíblia e gibis são “obras literárias” e considera leitor alguém que tenha lido apenas um trecho de livro nos últimos três meses. Não fosse assim, a quantidade de gente que lê no Brasil seria muito, muito menor do que os 56% apurados pelo Instituto Pró-Livro. O retrato é turvo.

Leitura profunda

“Pesquisas em ciência cognitiva, psicologia e neurociência demonstraram que a leitura profunda – lenta, imersiva, rica em detalhes sensoriais e com complexidade moral e emocional – é uma experiência distinta, bem diferente da mera decodificação de palavras”, argumenta Annie Murphy Paul em texto de 2013 para a revista “Time”.

Paul escreve sobre questões científicas e chegou a falar sobre aprendizado de fetos numa daquelas palestras chamadas de TED Talks. Quando trata do efeito da leitura no cérebro, ela argumenta que a “leitura profunda” não é exclusividade de livros, mas que o objeto de papel e tinta privilegia a imersão do leitor. E é essa imersão que faz diferença.

A forma como o cérebro assimila linguagem rica em detalhes, alusões e metáforas tem a ver, explica Paul, “com a criação de representações mentais que utiliza as mesmas regiões cerebrais que seriam ativadas se a cena estivesse se desenrolando na vida real”.

 

Por que você deveria ler o livro ‘Minha Luta’ de Hitler

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Congresso do Partido Nazista na cidade de Nuremberg, em 1935 (Foto: Reprodução)

Congresso do Partido Nazista na cidade de Nuremberg, em 1935 (Foto: Reprodução)

 

Thiago Tanji, na Galileu

As fotos em preto e branco e os vídeos borrados dão impressão de que a Segunda Guerra Mundial aconteceu há muito tempo e já está devidamente enterrada no jardim da História. Mas década de 1940 não está tão longe assim de nós: é muito provável que familiares e conhecidos de você, caro leitor, já eram nascidos enquanto o conflito global acontecia. Em termos históricos, somos praticamente contemporâneos das milhões de mortes de soldados e civis, da bomba atômica e do genocídio sistemático de judeus, homossexuais, eslavos, ciganos e outras minorias. O fantasma do nazismo e o horror liderado pelo ditador austríaco Adolf Hitler, infelizmente, ainda nos assombram.

Parece difícil entender como a nação que foi o berço de Johan Bach, Ludwig van Beethoven, Immanuel Kant, Friedrich Hegel e Albert Einstein também tenha abrigado uma ideologia sustentada a partir do ultranacionalismo e de pseudoteorias raciais para empreender perseguições e assassinatos em massa. Mais espantoso ainda é saber que Hitler não chegou ao poder por conta de um golpe de Estado ou de uma conspiração militar: em 1932, ele recebeu mais de 13 milhões de votos durante as eleições presidenciais da Alemanha, ficando na segunda colocação da disputa, e deputados do Partido Nazista conseguiram dezenas de cadeiras no Parlamento – em 1933, com grande respaldo popular, Hitler seria nomeado chanceler alemão até tomar definitivamente o poder no ano seguinte e iniciar a perseguição a opositores políticos.

É verdade que o carisma e o poder da oratória de Hitler contribuíram para esse momento de “transe coletivo” da população alemã, mas a ascensão do Partido Nazista e os fatos que culminaram com a Segunda Guerra Mundial não devem ser entendidos como uma obra exclusiva do ditador.

Afinal, quando Hitler chegou ao poder, a Alemanha passava por um momento de profunda crise política e econômica: as lembranças da derrota na Primeira Guerra Mundial ainda eram muito recentes e as pesadas sanções impostas por França e Inglaterra se refletiam nos altos índices de desemprego e na inflação incontrolável — para ter ideia, durante a década de 1920, um pão de 50 gramas custava o equivalente a 21 bilhões de marcos alemães, com um índice de inflação superior a 1000% ao mês. Para piorar, o sistema político estava fragilizado e a população não confiava em seus representantes: o Partido Social-Democrata, ligado aos trabalhadores, estava no poder na década de 1920, mas não foi capaz de lidar com os anseios das classes populares.

Como momentos difíceis tendem a aprofundar radicalismos, a conjuntura alemã se tornou um terreno fértil para os discursos de um homem que tinha nascido na Áustria, mas lutado pela Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Aos 36 anos, em 18 de julho de 1925, Adolf Hitler publicava Minha Luta, escrito durante o período de sua prisão após uma tentativa de rebelião na cidade de Munique, em 1923.

O livro se tornou o guia ideológico utilizado posteriormente pelo Partido Nazista e reunia a exaltação do sentimento nacionalista baseado a partir de conceitos raciais, o revanchismo contra os países vitoriosos na Primeira Guerra e o funcionamento de um Estado totalitário que não permitia a diversidade política ou partidária.

Alimentado pelos séculos de preconceito e perseguição da religião judaica na Europa, o antissemitismo se tornou uma ferramenta utilizada por Hitler para apontar quem seriam os “grandes inimigos” da Alemanha, justificando a perseguição sistemática aos judeus. Estava montado o espetáculo de horrores que se concretizaria entre as décadas de 1930 e 1940.

Após a chegada de Hitler ao poder, os direitos autorais de Minha Luta foram transferidos para o estado da Baviera, que abriga a cidade de Munique. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha iniciou uma campanha para destruir a herança nazista e impedir que iniciativas desse tipo voltassem a acontecer – até hoje, o Estado alemão se mantém distante de qualquer tipo de evocação política aos sentimentos nacionalistas. Durante 70 anos, o estado da Baviera proibiu que Minha Luta fosse reeditado e vendido, mas ao final de 2015 a obra caiu em domínio público e foi impressa por editoras de todo o mundo. Veja como foi a repercussão no Brasil.

É compreensível e justa a preocupação alemã em não permitir que os ideais de Adolf Hitler e do Partido Nazista entrassem em contato com as novas gerações. Mas a leitura de Minha Luta pode, justamente, ser uma importante ferramenta para que os horrores passados não voltem a se repetir: em um momento global de crise econômica e desencanto com a política, não faltam discursos inflamados de pessoas que prometem respostas fáceis para questões complexas, estimulando o nacionalismo e o discurso de ódio contra aqueles que têm um pensamento diferente.

O conhecimento, então, se torna a arma fundamental para que a humanidade não enfrente outros pesadelos como aqueles vividos no século 20. Nesse caso, a História é ferramenta essencial para analisar o passado, entender o presente e transformar o futuro para melhor.

Clube de assinatura de livros se renova com web e curadores ilustres

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Caixa com kit mensal do clube de assinatura de livros "TAG: Experiências Literárias"

Caixa com kit mensal do clube de assinatura de livros “TAG: Experiências Literárias”

 

Renata Nogueira, no UOL

Em um país onde 30% da população nunca comprou um livro, segundo dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada em maio, é curioso que um serviço de assinatura de livros veja seu número de associados crescer de 500 para 10.000 em apenas um ano. É o que registrou a TAG Experiências Literárias, lançada em agosto de 2014 com boxes personalizados de livros.

Por R$ 69,90 ao mês, o associado recebe em casa um kit com um livro indicado por um curador, um marcador de páginas e uma revista em que a obra escolhida é detalhada, além de mimos ocasionais, como caderninhos.

“A TAG não vende um livro, mas uma experiência experiência – e, como toda experiência, precisa ser vivida para ser compreendida”, justificam os fundadores sobre o valor da caixa, superior a um livro avulso. Segundo eles, para associar-se é necessário ter “mente aberta”.

Entre os curadores do clube há nomes como Mario Sergio Cortella (que indicou “O Físico”, de Noah Gordon), Patch Adams (indicando “O Intruso”, de William Faulkner), Frei Betto (com “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar), Mario Prata (com “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino), Gregorio Duvivier (com “Noite do Oráculo”, de Paul Auster) e Luis Fernando Verissimo (com “O Seminarista”, de Rubem Fonseca). A escritora carioca Heloisa Seixas é a responsável pela indicação de agosto, ainda inédita.

A ideia surgiu em 2013 por três estudantes de administração de Porto Alegre que compartilhavam a paixão pela literatura: Arthur Dambros, 24, Gustavo Lembert, 24, e Tomás dos Santos, 26. Eles criaram o serviço inspirados por clubes de assinatura de vinhos e cerveja que estavam em alta na época.

“A gente sempre gostou de ler e tínhamos vontade de empreender. Vimos que nesses novos serviços não tinha nada relacionado a livros e achamos a nossa oportunidade de trabalhar com algo que a gente sempre quis”, explica Arthur Dambros, um dos membros fundadores, em entrevista ao UOL.

Kits especiais de dois anos do "TAG"

Kits especiais de dois anos do “TAG”

Inicialmente, os nomes dos curadores eram definidos segundo o gosto e avaliação dos três jovens fundadores. Hoje eles também levam em conta a opinião dos associados antes de definir um curador, em um processo que pode ser feito com até um ano de antecedência.

“Temos uma espécie de banco de curadores que são os que já recebemos as indicações e que estão esperando até o momento em que achamos conveniente. Tentamos intercalar um autor clássico com um contemporâneo. Depende dos títulos que serão sugeridos para que seja possível proporcionar a experiência que a gente deseja para o cliente”, explica Arthur sobre a seleção.

Os curadores não são remunerados pelo trabalho para evitar indicações por interesse financeiro. “A participação das personalidades acontece apenas pela vontade de querer compartilhar leituras e por gostar da ideia como um todo.”

A associada Sarah Carolina, de RO, troca ideias literárias com leitores de todo o Brasil - Arquivo pessoal

A associada Sarah Carolina, de RO, troca ideias literárias com leitores de todo o Brasil – Arquivo pessoal

Compra às escuras

Os nomes de peso na curadoria e a surpresa de não saber o título até receber o kit mensal em casa, além do grupo no Facebook para discutir a obra, são alguns dos motivos que atraem cada vez mais leitores, mesmo sem a divulgação em meios tradicionais. O investimento de marketing da TAG, por ora, é intensificado em mídia online, como posts impulsionados em redes sociais.

Foi assim que a servidora pública Sarah Carolina Santos Silva, de Porto Velho, soube da existência do serviço. “Conheci o serviço pelo Facebook, naquelas postagens de publicações sugeridas. Deve ser porque eu me associo a muitas páginas referentes a livros e estou sempre pesquisando no Google. Sou associada desde março, me dei de presente de aniversário”, conta.

“O serviço abre as possibilidades de leitura. E eu adoro compartilhar as emoções com outros leitores pela internet. Às vezes eu lia um livro e queria comentar, mas não tinha com quem falar”, explica a jovem de 28 anos, que mora na capital de Rondônia.

Já para a jornalista Jéssica Moura, o desafio de ler mais a estimulou a fechar a assinatura no último mês, que trouxe uma edição própria: uma caixa comemorativa especial de dois anos. “Acho que muita gente acaba não lendo por falta de tempo. A correria do dia a dia com trabalho e estudo complica. Foi aí que eu resolvi me desafiar e mudar tudo isso”, opina a jovem de 25 anos, que vive em Caraguatatuba, no litoral de São Paulo.

Jéssica Moura, jornalista de 25 anos, assinou o serviço para se desafiar a ler mais - Arquivo pessoal

Jéssica Moura, jornalista de 25 anos, assinou o serviço para se desafiar a ler mais – Arquivo pessoal

A literatura na era do Facebook

A criação de um grupo fechado dentro do Facebook, em junho de 2015, foi um passo importante, que possibilitou que usuários de diversas partes do país conversassem sobre as obras selecionadas, criassem grupos paralelos de discussão e marcassem encontros para debater o livro, retomando o formato original e mais conhecido de um “clube do livro”.

“Foi algo interessante não só para os clientes como também para nós, pois conseguimos estabelecer um diálogo e começamos a focar cada vez mais isso. Antes não existia um canal, o que talvez tenha sido um erro nosso. E agora já estamos desenvolvendo plataformas próprias para incentivar e fortalecer a relação e a troca entre os associados”, conta Arthur.

Os últimos volumes que partiram de Porto Alegre para serem entregues aos clientes foram os primeiros exclusivos, impressos pela própria TAG em uma edição de luxo com capa dura em parceria com a editora Dublinense. A novidade da edição exclusiva e um desconto que celebrava o aniversário de dois anos do clube fez deste mês de julho disparado o com maior número de adesões.

“Entendemos o produto como um veículo de marketing. Qualquer real que entra na empresa devolvemos em projetos para os clientes. Queremos encorpar ainda mais o produto com edições exclusivas, um aplicativo que é uma espécie de rede social para interação dos associados e loja online com produtos literários”, adianta Arthur sobre o que vem por aí.

Ler ficção nos torna mais empáticos

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Ler ficção ajuda a melhora as relações sociais. Mónica Torres

Ler ficção ajuda a melhora as relações sociais. Mónica Torres

 

Estudo afirma que se pode aprender sobre as emoções ao explorar a vida interior de personagens fictícios

Marya González Nieto, no EL País

Ler ficção fomenta a empatia. Os leitores podem formar ideias sobre as emoções, as motivações e os pensamentos dos outros. E transferir essas experiências para a vida real. É o que afirma Keith Oatley, psicólogo e romancista, em uma revisão de um estudo sobre os benefícios da leitura para a imaginação, publicado nesta terça-feira na Trends in Cognitive Sciences.

Nessa nova pesquisa são apresentados fundamentalmente dois estudos que embasam a tese de Oatley. No primeiro deles se pedia a vários participantes que imaginassem uma cena a partir de frases sucintas, tais como “um tapete azul escuro” ou “um lápis de listras laranjas”, enquanto permaneciam conectados a um aparelho de ressonância magnética. A cena que deveriam imaginar, com base nas pistas que lhes iam sendo dadas, era a de uma pessoa que ajuda uma outra cujo lápis caiu no chão. Oatley explica que depois de os participantes escutarem apenas três frases tiveram uma maior ativação do hipocampo, uma região do cérebro associada com a aprendizagem e a memória. “Os escritores não precisam descrever cenários de modo exaustivo, só têm de sugerir uma cena e a imaginação do leitor fará o resto”, acrescenta.

A teoria de Oatley, que é professor emérito de psicologia aplicada e desenvolvimento humano na Universidade de Toronto, se baseia em que a ficção simula uma espécie de mundo social que provoca compreensão e empatia no leitor. “Quando lemos ficção nos tornamos mais aptos a compreender as pessoas e suas intenções”, explica o pesquisador. Essa resposta também é encontrada nas pessoas que veem histórias de ficção na televisão ou jogam videogame com uma narrativa em primeira pessoa. O que é comum a todas as modalidades de ficção é a compreensão das características que atribuímos aos personagens, segundo Oatley.

O outro experimento incluído na revisão do estudo consistia em que os participantes tinham de adivinhar o que outras pessoas estavam pensando ou sentindo, a partir de fotografias dos olhos delas. Para isso podiam escolher entre quatro termos que descreviam estados de ânimo, por exemplo, reflexivo ou impaciente. A conclusão foi que as respostas dos leitores de ficção deram lugar a termos mais aproximados que as dos leitores de ensaios e livros de não ficção. Além desses estudos realizados por Oatley, o psicólogo também apresenta outras pesquisas que endossam suas conclusões, como uma realizada por Frank Hakemulder, pesquisador de língua e literatura no Institute for Cultural Inquiri (ICON), da Universidade Utrecht. Hakemulder afirma que a complexidade dos personagens literários ajuda os leitores a terem ideias mais sofisticadas acerca das emoções dos outros.

Todos esses experimentos se inserem em um momento de crescente interesse pelos estudos sobre as imagens do cérebro. Há alguns anos, em 2009, quando o mesmo autor publicou o primeiro estudo sobre a questão, não havia tanta disposição e expectativa em relação a esses temas. A guinada da comunidade científica na direção desse tipo de pesquisa é algo que se produziu nos últimos anos. “Os pesquisadores estão reconhecendo agora que na imaginação há algo importante a estudar”, diz Oatley.

A característica mais importante do ser humano é a sociabilidade, afirma Oatley. “O que nos diferencia é que nós, humanos, nos socializamos com outras pessoas de uma forma que não está programada pelo instinto, como é o caso dos animais”, explica o psicólogo, para quem a ficção pode ampliar a experiência social e ajudar a entendê-la.

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