Fazendo meu filme em quadrinhos

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Contos violentos devem ser lidos por crianças?

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Ilustração de "O Pequeno Polegar", do livro "Contos de Fadas" (ed. Zahar)

Ilustração de “O Pequeno Polegar”, do livro “Contos de Fadas” (ed. Zahar)

Guilherme Brendler, na Folha de S.Paulo

Todo mundo sabe que a vida de príncipes e princesas nos contos de fadas não é fácil, até chegar o final feliz. Mas já foi muito pior.

As histórias originais de Branca de Neve e cia. eram bem mais violentas do que as que conhecemos hoje.

Contos de fadas não foram criados para crianças. Surgiram por causa do desejo dos homens de se comunicar. Com o passar dos séculos, eram contados por adultos na hora do lazer.

Até que vieram as publicações em papel, e os contos começaram a aparecer em livros. A partir daí, escritores passaram a fazer adaptações das histórias.

Uma dupla famosa, dois irmãos alemães, Jacob e Wilhelm Grimm, pôs no papel algumas delas, como “Chapeuzinho Vermelho” e “A Bela Adormecida”. O francês Charles Perrault e o dinamarquês Hans Christian Andersen também são famosos por adaptações.

Elas narravam cenas de violência, falavam de abandono, de rivalidade, inveja e vingança. O lado mais sombrio dos originais, abandonado nas últimas décadas, está de volta em séries de TV, filmes, livros e exposição. Muitos desses textos estão no livro “Contos de Fadas” (ed. Zahar).

Em “Rapunzel”, o pai entrega a filha à feiticeira em troca de uma verdura. A madrasta da Branca de Neve manda matá-la e pede como prova seus pulmões e o fígado para comê-los (em versões mais antigas, é a mãe quem faz isso). Em “João e Maria” e em “O Pequeno Polegar”, filhos são abandonados pelos pais.

A VIDA ERA ASSIM

“O lado sombrio dos contos de fadas sempre existiu. É um registro do que ocorria na época em que surgiram”, diz a pesquisadora e escritora Katia Canton. “Competição entre mãe e filha, homens violentos com mulheres, abandono dos filhos pelos pais eram fatos frequentes”, diz Katia, autora de livros infantis.

Katia conta que os contos de fadas ressurgiram na cultura moderna com as adaptações da Disney, no final dos anos 1930, em versões que não traziam os detalhes mais cruéis.

“Contos de fadas são fundamentais para a formação. Histórias dramáticas devem ser contadas às crianças para o desenvolvimento delas”, diz Katia.

Junto do lado sombrio, os textos apresentam lições às crianças. São uma introdução do mundo real da vida adulta. Mas elas não vão sentir medo ao ouvirem histórias assim? “E daí?”, responde a escritora. “Sentir medo é importante para formação da criança.”

PARA LER JUNTO

Além de histórias originais, “Contos de Fadas” (Zahar, R$ 64,90) traz comentários sobre elas.

Direcionados aos mais velhos, explicam os contos e a época em que foram criados. É ideal para adultos e crianças lerem juntos.

Como absorver melhor as informações que você lê

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Alguns textos são extremamente entediantes, mas não significa que você deixar de lê-los. Alguns colunistas do site Inc. compartilharam suas dicas para não cair no sono quando você está com sua leitura acumulado em pilhas de tédio

Publicado no Administradores

Por mais necessária que seja a leitura de diversas fontes de informação, sabemos que alguns textos sobre negócios podem ser extremamente entediantes. Entre planos de negócios, contratos, documentos legais e livros teóricos, você pode facilmente se pegar desejando por um cochilo e não deve se envergonhar de admitir isso.

Pensando em ajudar, alguns colunistas do site Inc. compartilharam suas dicas para não cair no sono quando você está com sua leitura acumulado em pilhas de tédio. Você vai precisar fazer algum esforço para concluir tudo, mas vai ser recompensador.

Kevin Daum: “Primeiro, eu reservo um tempo sem distrações. Sem telefone, e-mail, ou TV para chamar a minha atenção. Então, eu acho um lugar com muita luz natural. Por fim, coloco uma música suave que eu sei que vai me fazer entrar no ritmo. Antes que você perceba, a pilha se foi, e eu me sinto melhor por ter sido produtivo.”

Peter Economy: “Não há nada pior do que ter que se arrastar através de uma escrita chata ou muito densa. Quando me deparo com esses artigos, livros, ou outras informações, eu preciso de toda a força de vontade que eu possa reunir para lê-lo e não empurrá-lo de lado e fazer outra coisa em seu lugar. A única coisa que me ajuda a passar por esse material e realmente aprender alguma coisa no processo é destrinchá-lo em vez de tentar ler tudo de uma vez. Eu anoto os pontos principais em um caderno e depois que termino, posso então rever os principais pontos que coletei e ter uma boa idéia do que eu preciso saber.”

Maria Tabaka: “As pessoas absorvem informação em grande parte com base em seu estilo de aprendizagem; meu estilo muda com diferentes tarefas. Se eu tiver que montar alguma coisa, eu sou cinestésica; só tenho que colocar minhas mãos sobre ele e consigo fazer. De muitas maneiras, eu sou visual, mas na leitura técnica ou chata eu sou mais auditiva. Se eu não puder acessar uma versão em áudio do material, então eu realmente leio as peças resistentes em voz alta. Mas tem algo inesperado adicionado: enquanto eu leio, eu tenho que colocar um visual para isso também. Processo a informação de duas maneiras, então eu acho que eu sou uma leitora multitarefa!”

Eric Holtzclaw: “Descobri cedo na vida que eu sou um aprendiz auditivo, o que significa que eu compreendo melhor quando ouço conteúdo e novas informações. Meu trabalho me obriga a rever os planos de negócios e documentos de estratégia corporativa. É aí que o meu smartphone e tablet entram. Ambos têm funcionalidade interna que suporta o meu estilo de aprendizagem. Eu posso usar a tecnologia que transforma texto em áudio para ler o conteúdo para mim. Como eu escuto cada para, propositadamente resumo na minha cabeça o que eu aprendi para que eu tenha certeza que eu compreendi totalmente a informação veiculada. Essa funcionalidade também é uma ótima maneira de aproveitar o tempo não seria tão fácil de ler – a pé através de um aeroporto ou no meu carro, por exemplo.

Por causa da Amazon, livros vendidos no Brasil podem ter preço fixo sem desconto

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Publicado no CanalTech

Não faz nem uma semana que a Amazon começou a vender livros físicos no Brasil. Mas a gigante do varejo já começa a causar impacto no mercado editorial brasileiro. Prova disso é que várias entidades do setor pretendem enviar uma carta aos candidatos à Presidência da República que promete fechar o cerco aos preços baixos praticados pela empresa no país.

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, a iniciativa reúne instituições como a Câmara Brasileira do Livro (CBL), O Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), a Liga Brasileira de Editoras (Libre) e a Associação Nacional de Livrarias (ANL). Elas se reuniram na última sexta-feira (22) na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, para discutir os principais pontos que irão compor a carta.

O texto apresenta propostas de regulamentação do mercado editorial nacional, tais como incentivo aos pequenos livreiros e à distribuição de livros no país. Um dos destaques que mais chamam a atenção é a adoção de uma lei de preço fixo para livros inéditos durante um certo período – método semelhante ao que já ocorre na França. A Libre e a ANL já sinalizaram que são a favor da regra, enquanto o Snel ainda não apresentou uma opinião definitiva.

O que teria motivado essas empresas a formular a nova lei seria justamente o lançamento de livros em papel na Amazon Brasil. A companhia oferece 150 mil títulos em português de mais de 2,1 mil editoras que são entregues em até 1 dia útil (no caso dos clientes que moram em São Paulo), tornando a plataforma o maior catálogo de obras impressas disponíveis em uma loja virtual brasileira. Alguns livros podem custar até 123% mais barato na Amazon se comparados a outras livrarias nacionais.

“Nós precisamos consultar nossos associados. No passado eu era contra [a lei do preço fixo], por achar que o desconto é um instrumento do varejista. Mas agora, se a concorrência com a Amazon for muito predatória, acho que pode sim fazer sentido”, disse Sônia Jardim, presidente do Snel. Para Ednilson Xavier, presidente da ANL, a estratégia da Amazon é uma “prática canibalista para arrasar com o mercado” e, por isso, é importante estabelecer um preço fixo nos livros vendidos no Brasil.

Haroldo Ceravolo Sereza, presidente da Libre, afirma que o mercado passa por um momento de mudança que exige muita atenção das entidades. “Em princípio, não achamos um problema a Amazon vender no Brasil. É bom que o mercado tenha mais um lugar para vender livros. Só queremos que eles respeitem as regras da concorrência, que não pratiquem preços abaixo do mercado, como fazem lá fora”, explicou.
Todos contra a Amazon?

Saraiva, Livraria Cultura, Livraria da Travessa e outras grandes páginas do comércio eletrônico, como Submarino e Americanas, já começaram a contra-atacar os preços tentadores da Amazon. Na semana passada, uma reportagem do jornal O Globo mostrou como essas companhias estão preocupadas com a chegada dos livros físicos à divisão brasileira da empresa de Jeff Bezos – e como pretendem agir diante de tantas promoções. “Certamente preços muito baixos na concorrência podem prejudicar o mercado”, comentou Roberto Guedes, diretor da Travessa.

Não é só no Brasil que a Amazon enfrenta críticas do setor editorial. No último dia 10 de agosto, quase 11 mil escritores assinaram uma carta contra a companhia porque a varejista americana passou a restringir vendas e a atrasar entregas de produtos da editora Hachette para pressioná-la a aceitar sua política de grandes descontos. No dia 18, 1.188 autores alemães também se manifestaram contra a Amazon acusando a entidade de boicotar autores da Bonnier.

“A Amazon é um gigante cujas práticas não fizeram bem à indústria editorial dos EUA. Porque ela não vende só livros, mas qualquer produto. Eles usam o livro para capturar o cliente e vende para ele televisões, roupas, fraldas, tudo o que você imaginar, pois a ideia é usar a base de leitores e convertê-los em outro tipo de consumidor. Por isso eles dão descontos agressivos. A Amazon não é saudável para o mercado livreiro”, disse Oren Teicher, presidente da American Booksellers Association.

Autobiografia de Naldo tem sabor de chocolate

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O cantor Naldo e seu irmão Lula

O cantor Naldo e seu irmão Lula

Rafael Costa, na Veja

Naldo Benny enfrentou um ruidoso processo de divórcio para se casar com Ellen Cardoso, a Mulher Moranguinho, em uma celebração da qual seu filho se negou a participar. Mas as desavenças familiares são águas passadas – ao menos, nas páginas de Cada Vez Eu Quero Mais (Planeta, 91 páginas, 31,90 reais), autobiografia que o cantor de Amor de Chocolate lança na tarde deste domingo, na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, com título emprestado de um verso do seu maior hit. A obra, para ficarmos na mesma música, tem sabor de chocolate: nela, o cantor adoça tudo o que viveu, para contar da maneira mais positiva a sua trajetória, desde quando era conhecido como Ronaldo Jorge na Vila do Pinheiro, no Rio, até o momento em que se viu na varanda do Hotel Fasano, na praia de Ipanema, ao lado do ator Will Smith, ouvindo um bloco de Carnaval cantar, na rua embaixo, versos da sua canção.

A vida de Naldo, ao menos no livro, não foge daquela história conhecida do menino humilde que decidiu investir em seu talento para alcançar o sucesso. Uma atitude louvável, ainda mais para quem, como ele diz ter feito, conseguiu atravessar a juventude sem ceder ao crime organizado ou às drogas, elementos que o rodearam no percurso. O problema é que o orgulho do músico por sua travessia – sem falar no fato de ele se declarar uma pessoa do bem – é exagerado a ponto de dar ao livro um grosso verniz chapa-branca.

1Com poucas páginas e letras garrafais, Cada vez eu Quero Mais é uma leitura fácil, rápida e pobre em detalhes, tanto sobre a vida pessoal como profissional do cantor, elementos que colocam um tempero a mais em uma biografia. No caso de Naldo, grande parte das situações narradas no livro pode ser facilmente encontrada no Google. Faltam detalhes sobretudo ao desfecho de Lula, irmão e parceiro musical no início da carreira, assassinado em 2008. Seu corpo foi encontrado dois dias depois, carbonizado, no Instituto Médico Legal (IML). O episódio, desde a morte até o luto, é narrado em pouco mais de uma página, sem qualquer menção a quem poderia ter cometido o crime. É muito pouco, dada a importância do MC na vida do cantor. “Fiquei uns quatro meses deprimido, me forçava a sair do escritório apenas por achar que era o que Lula desejaria”, escreve Naldo, para já no parágrafo seguinte reaparecer restaurado, narrando a sua “volta por cima”.

Já o filho, Pablo Jorge, 16, fruto do casamento com Branka Silva, mal é citado e aparece apenas – com a metade de seu corpo – em uma foto quando bebê, no colo do pai.

Cada Vez Eu Quero Mais é uma leitura voltada exclusivamente para os fãs de Naldo Benny, que podem se comover com a história de superação e a batalha do cantor para sair do morro carioca e chegar à varanda do Hotel Fasano. E só. Já aqueles que procuram uma boa biografia, com histórias controversas e elementos inéditos, podem poupar trinta reais e meia-hora da vida com uma leitura de pouquíssima relevância.

A biografia de Naldo em cinco tópicos

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* Chapa-branca
Ao longo de todo o livro, Naldo exalta de maneira exacerbada sua história de superação e seu jeito de bom moço. A narrativa ofusca alguns fatos controversos de sua vida, como a briga judicial com sua ex-mulher, a produtora musical Elizete Pereira, mais conhecida como Branka Silva, em julho do ano passado, e a relação tortuosa com seu filho, Pablo Jorge, fruto do casamento com Branka, que tem apenas seu nome citado em poucos momentos da biografia. “Fui exposto desde cedo à realidade das drogas, assalto, roubo e crime, mas eu tinha muito medo de decepcionar minha mãe. E meu pai, que sempre nos ensinou que as conquistas vinham de trabalho e dedicação, também fez o que pôde para afastar desse cotidiano perigoso da gente”. Um dos – muitos – trechos em que Naldo destaca a importância de seus pais em sua vida e seu bom caráter.

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* Morte do irmão

A morte de Lula, seu irmão mais novo e parceiro musical no início da carreira, é citada brevemente, assim como muitos outros episódios da biografia. O episódio, desde o assassinato do MC, que é encontrado com o corpo carbonizado Instituto Médico Legal (IML), em 2008, até o luto vivido pelo cantor, é narrado ao longo de pouco mais de uma página, em que Naldo se limita a descrever que passou cerca de quatro meses deprimido e que acabou voltando ao trabalho com apoio da equipe da gravadora. “Mais bem cercado na época pelas gravadoras, tive apoio da equipe e dos empresários, que me trataram com carinho e não pressionaram para que eu voltasse logo a trabalhar”, escreve o funkeiro.

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* Busca pela fama

A busca pela fama é uma das partes mais interessantes da biografia, senão a única. Apesar de ser descrita sem muitos detalhes, Naldo fala sobre os “nãos” que recebeu de alguns produtores e o preconceito que sofria de muitos funkeiros pelo fato de tentar emplacar um estilo com mais melodia e letras românticas, que não citavam temas como crime, drogas e sexo. “O funk na época era mais pesado; as letras seguiam a linha da porrada ou sacanagem, não tinha sutileza ou romantismo. Não era exatamente a nossa praia, mas era o que fazia sucesso. Eu sempre tentava puxar os versos para ‘censura livre’. (…) O tal produtor nos recebeu supermal. A casa dele não tinha varanda, só um quintal para a gente atravessar e se molhar ainda mais. (…) Ao entrara na casa dele, a gente sentou e tudo estava molhado, e ele reclamou, grosseiro, desandando a falar que era responsável pela caravana tal, que administrava uns trinta MCs e blá-blá-blá”.

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* Historia de superação

A vida de Naldo contada em seu livro, não foge daquela história conhecida do menino humilde que decidiu investir em seu talento para alcançar o sucesso profissional, ou o estrelato. A história de superação, apesar de ser algo louvável, é citada em diversos momentos da obra, muitas vezes desnecessariamente. “Nessa hora, um filme passou na minha cabeça – uma história que começa como tantas outras, um moleque que desejava ter uma roupa de marca ou um tênis bacana, uma trajetória comum como a de qualquer garoto da favela. Ali, porém, no coração da praia mais famosa do mundo, na varanda de um hotel de luxo, esse menino da Vila do Pinheiro estava deixando o superstar de Hollywood de boca aberta”, escreve Naldo sobre o momento em que está ao lado de Will Smith na varanda do Hotel Fasano, no Rio de Janeiro, enquanto uma multidão na rua canta versos de sua música.

Imagem de Amostra do You Tube

* Primeiro sucesso

Pouco depois da morte de Lula, Naldo se viu obrigado a seguir carreira solo e lançou o álbum Na Veia, em 2009. O disco foi produzido por uma gravadora independente e ganhou vida graças ao investimento do próprio cantor, que começou a ganhar uma “quantia razoável de dinheiro” como compositor. Uma de suas obras é a canção Depois do Amor, que viria a ser gravada por Belo e Perlla. As músicas, no entanto, foram todas compostas em parceria com o irmão, como o hit Como Mágica, primeira canção a fazer sucesso em nível nacional. “Peguei a grana que eu tinha juntado com os direitos autorais de Depois do Amor e Como Mágica, e banquei a gravação desse novo CD. A turma da música já conhecia a gente, os caras da rádio, locutores, diretores etc.”

A tecnologia, quem diria, aumentou o gosto dos adolescentes pela literatura

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Maria Eduarda Bertocco, de 15 anos, é autora de 'O tal do para sempre' / Foto do Facebook

Maria Eduarda Bertocco, de 15 anos, é autora de ‘O tal do para sempre’ / Foto do Facebook

O público infanto-juvenil aproveita as redes sociais para conversar com seus autores e cobrar das editoras a tradução de títulos e uma nova relação com o público

Beatriz Borges, no El País

O mito de que a tecnologia iria desencorajar a leitura está morto e enterrado. Ao contrário, os canais abertos pelo mundo virtual derrubam outro mito: a de que os adolescentes, viciados em videogame ou redes sociais, não teriam mais tempo ou paciência para acompanhar uma boa história. Na verdade, a produção literária para esse público diversificou as narrativas com histórias mais próximas da realidade, perdendo um pouco da genética didática, por sugestão dos próprios leitores.

A Bienal Internacional do Livro – que acontece a cada dois anos na capital paulista e cuja 23ª edição começa nesta sexta-feira no Anhembi e vai até dia 31 de agosto – alberga incontáveis lançamentos e uma programação mais extensa para este público. Em 2012, foram apenas dois eventos destacados relacionados a adolescentes, entre blogs de literatura, RPG, mangá e games, enquanto nesta edição serão 18 – um reflexo também do aumento da produção das editoras. A Companhia das Letras, para citar apenas um exemplo, passou de nove títulos adolescentes em 2000 para 19 lançamentos no ano passado. Um de seus maiores sucessos, a norte-americana Kiera Cass, que já vendeu 400.000 exemplares da série juvenil Seleção no Brasil, virá ao evento e conversará com os leitores.

Quanto mais estreita for a relação entre autor e leitor, maior a probabilidade daquele livro dar certo. Talvez o maior expoente da categoria amigo-do-leitor seja o best-seller John Green, autor que tem três livros publicados pela editora Intrínseca no Brasil e que já vendeu mais de dois milhões de cópias no país. Sua obra A culpa é das estrelas, que fala do amor e da luta de dois adolescentes contra o câncer, está nos cinemas.

Green, de 36 anos, se tornou um escritor de sucesso por seus livros mas, principalmente, por ter conseguido entrar no dia a dia dos adolescentes. Seus leitores acompanham sua trajetória nas redes sociais, interagem entre si e com ele, questionam o destino de personagens e lhe pedem conselhos. Se espelham em Green. Neil Gaiman e Kiera Cass têm uma relação similar com seus leitores. No Brasil, a escritora Paula Pimenta se aproxima desse modelo. “É um fenômeno atual. Os adolescentes nos avisam quando algum autor que seguem publica um livro lá fora, corrigem erros nas traduções e pedem para mudar os nomes de alguns personagens. São muito ativos nas redes”, garante Danielle Machado, editora da seção juvenil do selo de Green no Brasil.

John Green, autor de "A culpa é das estrelas". / EFE

John Green, autor de “A culpa é das estrelas”. / EFE

Júlia Schwarcz, editora do selo da Companhia das Letras para o público infanto-juvenil Seguinte, notou a mudança de títulos e acompanha o crescimento do mercado “principalmente entre as meninas”, conta. “Um dos títulos mais vendidos hoje, Carta de amor aos mortos, é a história de uma jovem que perde a irmã mais velha e lida com isso escrevendo cartas a personalidades como Kurt Cobain ou Amy Winehouse e, através delas, conta seus dilemas”, resume Schwarcz, que também ressalta o sucesso de Hoje quero voltar sozinho, “uma história de amor entre dois meninos latinos” – que virou roteiro de um filme nacional – um exemplo da literatura dirigida ao público adolescente gay, um nicho do segmento juvenil em plena expansão.

Hoje, o Brasil tem cerca de 1.000 blogueiros que escrevem sobre livros de adolescentes. A Companhia das Letras tem parceria com 100 deles, que avaliam e fazem uma resenha dos títulos. Um deles é o Pipoca musical.

A temática das histórias de adolescentes também vem se transformando. Eles procuram nos livros histórias que se apliquem às suas vidas, algo que os faça colocar-se no lugar do outro. Em vez de literatura-fantasia, temas mais realistas. Os especialistas tentam decifram essa transformação. A norte-americana R. J. Palacio é uma das escritoras que alimentam o gênero. Seu último livro publicado no Brasil, Extraordinário, fala da vida de um garoto com o rosto deformado por uma doença genética. Schwarcz sabe disso e esclarece: “Os livros de chamados YA (Young adults, em inglês, jovem adulto] são muito fortes para os adolescentes e foram pensados para jovens entre 20-25 anos lá fora. Mas aqui no Brasil são os de 12 e 13 anos que leem esses títulos”.

Mas, também estão na lista de preferências aventuras, que muitas vezes saltam das páginas de papel para o cinema, como Jogos Vorazes, de Suzanne Collins. Por outro lado, há também adolescentes que não se satisfazem com o que o mercado dispõe e resolvem escrever sua própria obra. Maria Eduarda Bertocco, de 15 anos, apresentará O tal do para sempre (All Print) nesta Bienal. “Quando entrei na adolescência fiquei meio perdida, mas já lia bastante, Nicholas Sparks, John Green, Bruna Vieira [escritora brasileira que também começou com um blog]”, explica Bertocco. “Você se apaixona mil vezes e acha que vai morrer em cada uma delas”, explica a jovem escritora, que lidou com a timidez e escolheu a introspecção como forma de encontrar respostas às suas perguntas. Mas os livros não lhe diziam que aquele não era o único amor e muito menos o fim do mundo e por isso, conta, resolveu escrever. “E além da história de amor, mostro no livro que os personagens vão desaparecendo, assim como as pessoas que saem da nossa vida. Elas vão embora sem avisar”, conclui.

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