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Estante Virtual celebra Dia do Livro neste domingo (23) com caça ao tesouro

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RI Rio de janeiro 17/09/2009 XlV Bienal do Livro no Riocentro Rio de Janeiro.Um dos sucessos da feira Estante Virtual atrai público de todas as idades. André Garcia um dos idealizadores do projeto Foto Marco Antônio Teixeira/ Agência O Globo

RI Rio de janeiro 17/09/2009 XlV Bienal do Livro no Riocentro Rio de Janeiro.Um dos sucessos da feira Estante Virtual atrai público de todas as idades. André Garcia um dos idealizadores do projeto Foto Marco Antônio Teixeira/ Agência O Globo

 

Publicado no Segs

Empresa vai espalhar 200 chaves mágicas pela Praça Mauá, que poderão ser trocadas por livros no estande montado em frente ao MAR. Exemplares autografados por personalidades como Fernanda Gentil, Roberto Medina e Fernanda Venturini fazem parte da seleção e público também será convidado a participar de um troca-troca de livros

Em comemoração ao Dia Mundial do Livro, no domingo (23), a Estante Virtual vai promover uma caça ao tesouro na Praça Mauá. Serão 200 chaves espalhadas pela região e quem as encontrar poderá trocar por um livro no estande que estará montado no local, em frente ao Museu de Arte do Rio – MAR. A atividade acontecerá das 10h às 17h, mas será dividida por horários de acordo com os diferentes públicos – infantil, infanto-juvenil e adulto. Para tornar a busca ainda mais instigante, alguns exemplares autografados por personalidades fazem parte da seleção.

“Recebemos muitas doações bacanas de nomes dos mais variados segmentos, como Fernanda Gentil, Alex Escobar, Elisa Lucinda, Alexandra Richter, Giselle Tigre, Cris Nicklas, Hilayne Yaccoub, Robson Caetano, Fernanda Venturini, Mylena Ceribelli, Paula Acioli, Julio Braga, Roberto Medina, e outros. Além de ceder os livros, entre biografias e até mesmo exemplares raros, como o título ‘Teatro Completo’, de Nelson Rodrigues, doado pelo ator Antonio Fragoso, cada um deles fez uma dedicatória para tornar o presente ainda mais especial”, conta Erica Cardoso, gerente de marketing da Estante Virtual, ressaltando que a ação reforça o compromisso do portal em ser um importante multiplicador de uma rede de leitura.

Desde que foi criada, há onze anos, o maior mérito da Estante Virtual é oferecer acesso à imensa riqueza literária dos sebos brasileiros, que vai muito além de livros raros e esgotados, uma vez que abarca quaisquer tipos de livros (incluindo títulos seminovos e novos) comprados nas pontas de estoque das editoras. “Nessa imensa diversidade, tendo a maior ‘cauda longa’ do mundo em variedade de títulos em língua portuguesa, acredito que a Estante consegue influenciar as pessoas a ir além do óbvio dos livros mais vendidos, rumo a uma leitura com diversidade muito maior do que as livrarias convencionais podem proporcionar”, resumiu André Garcia, lembrando que mesmo na era tecnológica em que vivemos, o livro físico ainda vem ganhando por larga vantagem do virtual.

“O livro é um objeto, algo reconfortante em um mundo em que estamos vidrados em telas o tempo todo. O tempo da leitura é um tempo de descanso da virtualidade, um tempo de desconexão, e isso é imprescindível”, defende, acrescentando que, na ação deste domingo, além da caça ao tesouro, também haverá um mural onde o público poderá deixar mensagens e será estimulado a participar de um troca-troca de livros.

Para a realizar a ação, a Estante Virtual comprou cerca de 500 títulos da rede de pequenos livreiros parceiros do portal. Criada em 2005, a empresa já ultrapassou a marca de 16 milhões de livros vendidos em todo o país. Formada por uma rede que integra 2.600 pequenas livrarias, a plataforma possibilita uma redução de custos de até 75%.

Horários Caça ao Tesouro

11h – Livro infantil

12h – Um Rio de poemas

13h – Literatura pelo mundo

14h – Livro infantil

15h – Mulheres fortes

16h – Seleção Young Adults

Hábito da leitura pode iniciar antes mesmo do nascimento

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Professora de Português, Socorro trabalha a leitura em sala de aula com seus alunos e, dentro de casa, incentiva o neto Theo a entrar nesse universo lúdico desde cedo

Professora de Português, Socorro trabalha a leitura em sala de aula com seus alunos e, dentro de casa, incentiva o neto Theo a entrar nesse universo lúdico desde cedo

 

Jéssica Malta, no Hoje em Dia

Adulto que gosta de ler certamente aprendeu desde cedo a soltar a imaginação entre uma página e outra dos livros. Afinal, o hábito da leitura começa em casa, incentivado pelos pais – acredite! – antes mesmo do nascimento dos filhos.

“A partir das 20 semanas de gestação já é possível estimular os bebês através das vozes dos pais. O contato com os livros deve começar aí”, defende Cynthia Spaggiari, curadora do Leiturinha, clube de assinaturas de livros infantis.

Cynthia reforça também a importância da chamada leitura compartilhada como forma de estimular o gosto pelos livros.

“A introdução da literatura deve ser feita em família. O estar junto proporciona um bom incentivo e o exemplo dos pais é fundamental”, garante.
Outro aspecto importante é acertar na escolha dos livros que serão apresentados e indicados às crianças. São inúmeros os títulos e temas, mas algumas características comuns podem ajudar a reconhecer as melhores opções.

A escritora e pesquisadora da cultura infantil Claudia Souza explica que os bons livros devem possuir qualidade literária e de imagem.

Os contos de fada são exemplos de boas histórias para crianças. “Eles sobrevivem por gerações porque são bons de ouvir, de ler, de imaginar. Ensinam sobre os nossos sentimentos e sobre a vida”, explica a escritora, que tem livros publicados em oito idiomas, e dirige um centro cultural internacional para crianças em Milão.

Deixar as crianças escolherem os próprios livros também é uma das dicas dadas por Claudia. “É bom para avaliar como anda o ‘gosto’ da criança. Se estiver muito massificado, está na hora de interferir com bons modelos”, afirma.

Mesmo nos casos mais difíceis, quando os pequenos não demonstram interesse pelos livros, o conselho é não desistir. Ela garante que não há crianças que não gostam de ler. O desafio é apenas encontrar o livro certo. “Aconselho sempre os pais a nunca desistirem de procurar, uma hora encontram o livro ideal”.

Quem lê aprende a interpretar, escrever e argumentar melhor

Além da família, a escola também tem uma importante atribuição no contato das crianças com o mundo literário. “Ela tem o dever de dar ênfase à leitura, usando livros da biblioteca, sugerindo a leitura de clássicos, trabalhando com atividades diversificadas para atrair a atenção dos alunos”, afirma a professora de Português Maria do Perpétuo Socorro Ferreira Dias.

Lecionando há mais de 30 anos, Socorro conta que sempre busca inovar nos projetos que desenvolve, fazendo com que a leitura seja parte do cotidiano das crianças.

“Meus alunos estão estudando o gênero ‘diário’. Além da leitura de livros sobre o tema, eles também farão as próprias produções e, no fim do ano, presentearão pessoas especiais em uma tarde de autógrafos na escola”, conta.

Frutos para a vida toda

Trazer a leitura para o cotidiano das crianças rende frutos não apenas durante os primeiros anos de vida, mas também no futuro. “Na infância, a criança cria um repertório maior por ter contato com palavras novas e situações novas. Quando estiver mais velha, ela vai saber lidar melhor com as emoções por ter tido contato com elas por meio dos livros”, explica Cynthia Spaggiari, curadora do Leiturinha, que hoje chega a mais de 35 mil famílias Brasil afora.

O contato com a literatura também reflete no desempenho escolar. “O aluno que tem hábito de leitura escreve melhor, interpreta melhor e apresenta mais desenvolvimento no processo da escrita”, afirma Socorro.

Porém, apesar do costume de ler, podem existir momentos de contestação e desinteresse pelos livros, como salienta Claudia Souza. Mas ela garante que este é um momento passageiro. “Se o exemplo existiu e foi cultivado, ele sempre volta. Uma criança ‘cultivada’ vai ser um leitor forte com certeza”, assegura.

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Como funciona a biblioterapia, uma tentativa de cura pela leitura

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A pintura 'Louise Tiffany, lendo', do pintor Louis Comfort Tiffany, pertence ao acervo do Museu Metropolitan, em Nova York

A pintura ‘Louise Tiffany, lendo’, do pintor Louis Comfort Tiffany, pertence ao acervo do Museu Metropolitan, em Nova York

 

Clínica em Portugal passa a oferecer atendimento com biblioterapeutas, que receitam livros para seus pacientes

Juliana Domingos de Lima, no Nexo

Em atividade desde o dia 1º de março, a clínica lisboeta The Therapist oferece vários tipos de tratamentos alternativos, da medicina chinesa à naturopatia (que engloba homeopatia, nutrição e massagens terapêuticas). Em meio a eles, foram abertas as primeiras consultas de biblioterapia no país. As sessões de biblioterapia são feitas com orientação e prescrição de leituras, segundo o site da clínica. Uma consulta custa € 60 por pessoa, algo em torno de R$ 200.

Para que o tratamento aconteça, o terapeuta precisa ter acesso aos problemas de saúde do paciente e aos seus hábitos de leitura, dos autores e gêneros que está lendo no momento, para, a partir dessas informações, criar um plano de leitura personalizado. Segundo uma reportagem do jornal português “Público”, as consultas são particularmente úteis para adolescentes. Elas os ajudam a aprender a ler e a estudar, a tirar um proveito maior dos livros e a descobrir o prazer da leitura, também como uma maneira de encontrar respostas para suas angústias.

O biblioterapeuta e “reading coach” da The Therapist, César Ferreira, disse em entrevista ao Nexo que, embora cada caso seja único, os dois dos livros mais prescritos por ele são “O cavaleiro preso na armadura”, de Robert Fisher, e “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway. A biblioterapia tem sido utilizada em hospitais, penitenciárias, asilos, no tratamento de problemas psicológicos de pacientes de diversas faixas etárias, assim como de pessoas com deficiência física, doentes crônicos e dependentes.

Como a biblioterapia ajuda os pacientes

Apesar do ar de novidade trazido pela clínica, a biblioterapia vem sendo estudada pelo menos desde meados do século 20. O estudo “A Leitura Como Função Terapêutica: Biblioterapia”, da professora da Universidade Federal de Santa Catarina Clarice Fortkamp Caldin, reúne definições dadas ao método terapêutico por pesquisadores de diversas épocas, desde os anos 1940.

Os componentes da atividade de leitura descritos pelo estudo como “biblioterapêuticos” são a catarse, o humor, identificação, a projeção e a introspecção que ela proporciona. Nas definições de “biblioterapia” apresentadas, alguns dos objetivos e potencialidades do tratamento citados são permitir ao leitor verificar que há mais de uma solução para seu problema, adquirir um conhecimento melhor de si e das reações dos outros, alcançar um entendimento melhor das emoções e afastar a sensação de isolamento. Para César Ferreira, quando o paciente é capaz de assumir o papel das personagens do livro e consegue trazer a história e o aprendizado para a sua própria vida, a terapia cumpriu seus objetivos. “Trata-se de viver a ‘jornada do herói’, como menciona Joseph Campbell. Todos nós somos heróis. E a biblioterapia ajuda-nos a sentir isso”, afirmou.

Para receitar uma leitura, muitos fatores têm de ser equacionados, desde o desafio psicológico a ser ultrapassado pelo paciente até sua capacidade de leitura, o tipo de leitor que é, seu estilo de aprendizagem e limitações físicas, como por exemplo, um eventual problema de visão. Na clínica portuguesa, a consulta funciona em três fases: a fase do diagnóstico, a do plano de leitura orientado (o que ler, como ler, como aplicar) e a da “transformação”, em que o paciente já identifica os frutos do processo.

Quem são os biblioterapeutas

“Os principais requisitos para um biblioterapeuta incluem competências de análise de comportamentos humanos, de hábitos de leitura, de técnicas de rentabilização de leituras e uma grande capacidade em pesquisar e recuperar livros verdadeiramente transformadores”, explicou César Ferreira. O trabalho, segundo ele, consiste em encontrar o livro certo no momento certo para o paciente.

Relacione-se com quem te faz ler

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Dizem que amor com a amor se paga. Mas acho que com livros também

Ruth Manus, no Estadão

Estou saindo para a casa da Kátia. Não posso ir visitar a Kátia sem levar um livro para emprestar. Das últimas vezes, ela me trouxe três. O Martelo das Feiticeiras, Regrets Sur Ma Vieille Robe de Chambre e A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Esse último foi das coisas mais gostosas que li. Não posso chegar lá sem um livro. Olho para a minha prateleira e escolho A Montanha da Água Lilás, do Pepetela. Preciso de mais alguma coisa. Poesia. Ela não é muito de poesia, mas vou levar mesmo assim. Escolhi a Wislawa Szymborska, com aquele cigarrão na capa. Ela vai gostar.

Por sinal, lembrei que preciso ler aquele livro que a Tia Rê me emprestou. Não lembro o nome, era um vermelho, sobre uma indiana que tentava se matar. Ficou lá em Lisboa. Preciso ler, deve ser bom. E preciso saber o que ela achou do livro da Agatha Christie que emprestei pra ela. Tia Rê lê rápido que nem o meu pai, morro de inveja. Por falar no meu pai, nessa onda de Pepetela que eu estava, comprei pra ele o livro do agente Jaime Bunda e esqueci de perguntar o que ele achou. Da última vez que indiquei uma leitura pra ele, não deu certo. Era No Mar, aquele livro do holandês que perdia a filha dentro do veleiro. Eu deveria ter imaginado, meu pai detesta coisas angustiantes com filhas. Sorte a minha.

Foi o moço da livraria ali na Avenida Moema que me indicou o No Mar. O mesmo que me indicou aquele livro do José Luís Peixoto sobre a morte do pai. Uma das coisas mais bonitas que já li. Outro dia descobri que o escritor é quase tão bonito quanto o livro. Quando morreu o pai de um amigo mandei esse livro pra ele. Não sei se ajudou, mas foi de coração.

Pro meu namorado levei o livro de receitas de Game of Thrones. Um dia abri o livro e tentei fazer uma cebola com conhaque no forno. Não ficou bonita que nem o José Luís Peixoto nem gostosa que nem A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Ainda bem que o Filipe cozinha bem e gosta que eu seja melhor com livros do que com cebolas. No Natal ele me deu a primeira edição de Human Sexual Response, livro pioneiro no estudo da sexualidade humana, publicado nos anos 60, que virou uma série pela qual eu fiquei vidrada. Primeira edição, ele me deu a primeira edição. Mais uma razão para casar com ele.

Quando minha irmã casou, dei pra ela e pro Luís um livro de contos do Oscar Wilde. Havia um trecho no qual ele dizia que os noivos estavam mais do que bonitos, estavam felizes. Achei que fazia sentido. Não sei se eles leram, provavelmente não. Mas quando eles foram para a Argentina, me trouxeram mais dois livros da Mafalda. Eu fico alegre que nem criança. Acho que nunca terei Mafaldas suficientes. Quando meu irmão foi, ele também trouxe um.

Pro meu irmão, trouxe de Lisboa um livro do Ondjaki, que não é português, mas que eu descobri em Lisboa por causa desse hábito maravilhoso que eles têm de dar bola para a literatura lusófona em geral. Para a minha sobrinha trouxe um livrinho que explica os principais escritores portugueses para as crianças. Também trouxe uma mochila de unicórnio para ela não me achar muito chata.

Minha mãe mandou um livro sobre animais e plantas do Brasil para a minha enteada. Lemos juntas e eu fiquei um pouco constrangida por só conhecer boa parte das plantas pelos rótulos da Natura. Minha enteada acha que o livro que eu escrevi não é muito bom porque não tem desenhos. Já minha mãe gosta do meu livro. Ter mãe é bom por muitas razões, essa é uma delas. E agora ela quer que eu leia Lobo Antunes. Eu tenho medo de Lobo Antunes, mas vou ler.

Percebo que uma das melhores formas de demonstrar afeto é com livros. “Leia isso, você vai gostar” vale tanto quanto um abraço. Dizem que amor com a amor se paga. Mas acho que com livros também. Tem muito livro que vale mais que um “eu te amo”.

A importância dos gibis na alfabetização

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A IMPORTÂNCIA DOS GIBIS NA ALFABETIZAÇÃO

Publicado na Só Escola

As histórias em quadrinhos contribuem para despertar o interesse pela leitura e pela escrita nas crianças e para sistematizar a alfabetização. Como as HQs em geral unem palavra e imagem, elas contemplam tanto alunos que já leem fluentemente quanto os que estão iniciando, pois conseguem deduzir o significado da história observando os desenhos. A curiosidade em saber o que está escrito dentro dos balões cria o gosto pela leitura e, assim, os gibis podem ter grande eficácia nas aulas de alfabetização.

Se hoje essa visão é consagrada entre professores e pesquisadores, nem sempre foi assim. Os quadrinhos usados atualmente em sala de aula eram vistos como concorrentes dos livros de alfabetização, entendidos, portanto, como uma distração prejudicial ao aprendizado. “Os quadrinhos apareceram com mais frequência dentro da escola a partir da metade do século passado. Primeiro, porque quase não existiam. Segundo, porque havia esse preconceito contra eles”, diz Maria Angela Barbato Carneiro, professora titular do Departamento de Fundamentos da Educação e coordenadora do Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar da Faculdade de Educação da PUC-SP.

Falta de hábito
Maria Angela acredita que, dentro da escola, os professores ainda usam predominantemente muitos materiais mais tradicionais, como é o caso do livro didático, em detrimento de outros recursos. “Penso que o professor não está habituado com outros procedimentos – como um jornal, uma revista –, e o fato de não estar habituado não lhe traz segurança”, diz. Outro ponto que pode inibir a presença das HQs na alfabetização é o entendimento de que os gibis são meros passatempos e, por isso, serem deixados de lado por conta da crença de que eles serão lidos pelas crianças em casa de todo modo.

Lucinea Rezende, professora do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR), que desenvolve e orienta trabalhos na área de formação de leitores, concorda que ainda que se tenha avançado bastante na direção de usar múltiplas formas de leitura em sala de aula, fugindo do monopólio do livro didático, ainda se está voltado predominantemente para o texto escrito. “Todos os gêneros que empregam outras linguagens entram devagarinho nas salas de aula”, diz.

Os benefícios da história em quadrinhos para a educação, em particular no ensino fundamental e na alfabetização, são oficialmente reconhecidos. As HQs fazem parte do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), que possibilita a professores e alunos o acesso a obras distribuídas em escolas públicas. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) também incentivam o uso de quadrinhos e indicam que nas bibliotecas é necessário que estejam à disposição dos alunos textos dos mais variados gêneros (livros de contos, romances, jornais, quadrinhos, entre outros). O PCN lista ainda a HQ como um gênero adequado para o trabalho com a linguagem escrita.

“Alguns professores olham para a HQ e veem algo distante. Assim não têm entusiasmo, não conseguem comentar sobre aquilo com os alunos”, acredita José Felipe da Silva, professor de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) – a disciplina é oferecida a diversos cursos de graduação na Universidade. Ex-professor do ensino fundamental e colecionador de HQs, Felipe da Silva afirma que os quadrinhos foram um impulso para ele mesmo se alfabetizar quando criança. Na escola em que dava aula, na rede municipal de Natal, costumava fazer exposições com revistas e bonecos dos personagens das HQs para atrair a atenção dos alunos.

Imaginação e fantasia
Luciana Begatini Silvério, professora de pós-graduação na área de educação, lembra ainda que o PCN pede que o leitor seja formado como alguém capaz de ler, compreender e interagir com a leitura – entendida não só por meio de palavras e frases, mas, também, por diferentes tipos de linguagem. Com os quadrinhos, a criança em fase de alfabetização que ainda não domina a leitura e a escrita do alfabeto consegue fazer uma leitura competente com o recurso das imagens. “Além disso, a criança precisa muito ser formada no concreto. E nas HQs, os recursos de imagens, expressões dos personagens, letras, metáforas visuais ajudam a ter maior compreensão do que ela está lendo”, afirma.

Entre os elementos que se reconhecem como mais atrativos para as crianças nas histórias em quadrinhos estão aspectos lúdicos, como cores, onomatopeias, personagens e traços. Na dissertação de mestrado de Luciana Begatini Silvério, defendida em 2012 – orientada por Lucinea Rezende, na UEL –, ela fez uma pesquisa de campo com professores e alunos da rede municipal da cidade Primeiro de Maio, no Paraná. A pesquisa não foi feita com alunos em alfabetização e, sim, com estudantes do segundo ciclo do EF. Dos 58 alunos participantes, 30 listaram as HQs entre seus gêneros de leitura preferidos. E três, apenas, afirmaram não gostar de HQs (dois deles alegaram que os quadrinhos são para serem lidos em casa).

Luciana Novello, professora do 1o ano do EF no Colégio Ofélia Fonseca, em São Paulo, destaca justamente o caráter lúdico como um dos elementos de atratividade dos quadrinhos. “As histórias em geral são divertidas, somadas ao colorido das imagens. E temos gibis com histórias bem curtas, de uma página, e para a criança ler fica uma leitura mais prazerosa”, diz. Além disso, a professora afirma que, entre seus alunos, o gibi já faz parte do cotidiano fora da escola: por isso, a familiaridade com os personagens por si só já desperta o interesse das crianças.
Os quadrinhos podem, ainda, ser trabalhados com as crianças em idade de alfabetização em relação com o brincar – como, por exemplo, uma forma de trabalhar a imaginação, o “faz de conta”. “Alguns quadrinhos fazem parte da literatura infantil, e a literatura infantil se alia à brincadeira justamente através do simbólico, da fantasia. Quando você permite que atuem a imaginação e a fantasia da criança é possível que isso faça parte das atividades lúdicas”, diz Maria Angela Barbato Carneiro.

Corrigindo a Mônica
Professor da Escola Polo Municipal Venita Ribeiro Marques, em Aral Moreira (MS), Gilson Matoso considera a HQ uma das melhores maneiras para chamar a atenção das crianças. Pós-graduado em Mídias na Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ele costuma aliar o trabalho com os quadrinhos a datas especiais – como as festas juninas. E, no segundo ano do EF, trabalha também a gramática. Personagens conhecidos das HQs da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa, o Cebolinha troca o “R” pelo “L” e o Chico Bento tem o registro da sua fala acaipirada, com erros ortográficos. “Fazemos exercícios em que corrigimos algumas palavras dos personagens, passando para a norma culta”, diz Matoso.

Antes de o aluno desenvolver a leitura das palavras e dos desenhos em si – como personagens e cenários – há outros elementos típicos das HQs que as crianças aprendem a ler e a interpretar. “O texto está ali, não podemos ignorá-lo, mas mesmo que as palavras escritas sejam estranhas para o aluno, ele vai fazer a leitura visual­ da narrativa e vai entender que aquilo pode ser uma fala, um grito”, diz José Felipe da Silva.

A leitura do texto em si é facilitada ainda por conta do tipo de letra normalmente grafada dentro dos balões, que é a letra em bastão. Como na maior parte das escolas, a professora Luciana Novello explica que no Colégio Ofélia Fonseca a letra bastão é usada desde o ensino infantil até o primeiro ano, quando é introduzida então a letra cursiva, entre o final do primeiro ano e o segundo ano do EF.

Lucinea Rezende, da UEL, afirma que é importante ainda ter como premissa o tratamento da leitura como algo a ser construído continuamente. Ela ressalta que isso é válido não somente na alfabetização e no ensino fundamental, mas até mesmo na universidade. “Alguns estudantes gostam de ler, outros, não – ou porque não puderam ou porque não se interessaram suficientemente. Nesse caso, a gente precisa usar todos os recursos possíveis: se a criança já lê HQ, o que a escola pode fazer para a criança ler melhor, explorar outras possibilidades?”, questiona. A professora e pesquisadora defende que a escola deve trabalhar, sempre, com uma boa multiplicidade de textos, incluindo as HQs.
Além disso, Lucinea lembra que os alunos acabam desenvolvendo gostos por diferentes tipos de leitura. Por isso, a escola precisa se apropriar de todos os recursos possíveis. “Precisamos pensar ainda o que o professor está almejando quando trabalha a leitura. Quanto à HQ, por exemplo, o que se consegue ver nesse gênero literário? Pensamos na palavra, na imagem, nos personagens?”. A reflexão sobre os materiais usados pelos educadores deve levar em conta, afirma Lucinea, não somente questões da linguagem, mas também, de fundo social das narrativas. “É a partir dessa compreensão que se devem usar as HQs na alfabetização. Alfabetizar é trazer para o mundo da escrita, dos números, para que o aluno possa dialogar e interagir com o mundo”, explica.

Produção do texto

Com as HQs pode-se ainda propor a construção de histórias. “Para a produção de texto os alunos em geral gostam muito dos quadrinhos, por conta do desenho. É uma boa ferramenta para a sequência didática, em que é preciso ter um resultado final da produção deles”, diz Gilson Matoso.

Além de desenhar, pode-se tra­balhar com o texto produzido sobre histórias já feitas, com os ba­lões em branco. “Nesse caso o objetivo não é pensar em inventar a história, mas na escrita, na língua”, diz Luciana Novello, do Ofélia Fonseca. “No 1o ano, a principal ideia do uso do gibi é a aquisição de leitura e escrita. E, eventualmente, um trabalho com arte e ilustrações”, completa.
A professora afirma que os gibis são trabalhados em aula como um gênero textual. Em momentos de leitura planejada, cada aluno escolhe um exemplar para ler – seja ela leitura convencional (fluente) ou não. “Também se lê em dupla, um leitor mais fluente com outro menos fluente”, explica.

Gêneros e interdisciplinaridade
O quadrinho é um gênero em si mesmo, mas, dentro dele, há subgêneros – como romances adaptados e até reportagens em forma de HQ, o que se torna uma vantagem para apresentar outros gêneros de narrativa. “Claro que é preferível ampliar a leitura dos gêneros para outros textos, não somente os quadrinhos. Mas é importante que o professor apresente uma diversidade de gêneros de HQ”, diz José Felipe da Silva, da UFRN.

Além dos gêneros, as diferentes temáticas dos quadrinhos também são um elemento importante em sala de aula – e podem ser trabalhadas tanto com crianças em idade de alfabetização quanto com as maiores. “O foco de minha pesquisa foi buscar a interface entre HQ e a literatura, mas há outros aspectos transversais também, como noções de higiene, temas culturais e históricos”, diz Luciana Begatini Silvério.

Se na alfabetização os quadrinhos podem atrair a atenção das crianças para ler e escrever, nessa mesma fase as HQs podem servir como suporte ou tema para desenvolver outras habilidades – como adivinhas. “Existem também várias atividades que podem ser feitas com a linguagem dos quadrinhos, como noções abstratas de química. Pensamos no Asterix e na sua poção mágica, por exemplo, à qual podemos relacionar uma receita – um suco de laranja – e fazer essa brincadeira”, diz Maria Angela Barbato Carneiro, da PUC-SP.
Fonte: Revista Educação

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