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Como são criadas as línguas fictícias de séries e filmes

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Humberto Abdo, na Galileu

O ator Jason Momoa, que interpretou o guerreiro Khal Drogona série Game of Thrones, não estava apenas murmurando palavras guturais improvisadas enquanto encenava suas falas no idioma fictício dothraki.

Após uma avaliação feita com mais de 30 profissionais, o linguista norte-americano David Peterson foi selecionado pelos produtores da série para desenvolver o dialeto dos guerreiros, utilizando uma gramática consistente e todas as características de uma língua tradicional. “Yer jalan atthirari anni”, ou “Você é a lua da minha vida”, diria um romântico Khal Drogo em sua língua nativa.

Autor do livro The Art of Language Invention (“A Arte da Invenção de Línguas”, ainda sem edição no Brasil), Peterson já elaborou mais de 40 dialetos utilizados em séries e filmes, como a Verbis Diablo, de Penny Dreadful, e a língua dos elfos negros no filme Thor 2: O Mundo Sombrio.

“Para Game of Thrones, precisei ser fiel às palavras utilizadas nos livros de George R. R. Martin e, a partir delas, determinei como seriam os sons do Dothraki”, afirma o linguista, que concebeu outro idioma da série, o Alto Valiriano, falado pelos povos antigos de Westeros. “Quando ouvimos uma língua diferente, soa totalmente estrangeiro, o que reforça a realidade da história.”

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Categoria: Expressão
Significado: “Adeus”; “fique tranquilo”; “cavalgue bem”

Idioma da guerra
Habitantes do continente de Essos e hábeis na arte da guerra e na montaria de cavalos, os nômades Dothraki ganharam uma língua própria em Game of Thrones

Erinat
Categoria: Verbo
Significado: Ser bom, ser gentil
Explicação:
• O verbo foi adaptado do nome “Erin”, em homenagem à esposa do linguista David Peterson, criador do sistema de linguagem dos Dothraki para a série da HBO
• O termo “okeo”, nome de um gato de estimação do casal, também serviu como tributo de Peterson e significa “amigo”

Anha vazhak yeraan thirat
Categoria: Expressão
Significado: “Eu deixarei você viver”
Explicação:
• Declaração de clemência perante um inimigo ou adversário
• As batalhas são um aspecto comum na cultura dos Dothraki

Yer affesi anna!
Categoria: Expressão
Significado: “Você me dá coceira!”, em tradução livre
Explicação:
• A expressão serve como insulto para indicar alguém que causa desconforto
• Outras frases que devem ser proferidas com cuidado: “Ezas eshna gech ahilee!” (Encontre outro buraco para cavar); “Es havazhaan!” (Vá para o mar; caia fora); e “Ifas maisi yeri!” (Vá andar com sua mãe)

SPOCK BILINGUE

A saga de ficção científica Star Trek, que completa 50 anos e estreia um novo filme — Star Trek: Sem Fronteiras — em setembro, também não seria a mesma se os alienígenas fossem fluentes apenas em inglês. Em 1982, o linguista Marc Okrand teve a missão de completar algumas falas para o filme Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan, criando novas palavras para o dialeto de Spock e seu povo vulcano. “Na edição final, a equipe decidiu que uma das cenas do filme faria mais sentido se fosse dublada na língua da espécie extraterrestre”, relembra Okrand. “Três dias depois, voltei ao estúdio e ensinei Spock [interpretado pelo ator Leonard Nimoy] a conversar como um vulcano.”

Em Jornada nas Estrelas III – À Procura de Spock, o povo Klingon foi escolhido como o vilão da vez e o linguista foi convidado para elaborar um idioma próprio para os extraterrestres. “A intenção era fazer algo que não soasse humano, mas que pudesse ser falado pelos atores”, diz. “Não poderia fabricar sons com algum equipamento eletrônico, por exemplo, porque ninguém conseguiria pronunciá-los.” A iniciativa rendeu um dicionário com o vocabulário alienígena, publicado em 1985, e foi utilizada no roteiro de outros filmes, além de estimular pesquisas feitas por entusiastas das línguas ficcionais.

O sueco Felix Malmenbeck, por exemplo, só começou a acompanhar Star Trek após conhecer o idioma construído por Okrand — hoje, ele é membro do Instituto de Língua Klingon e responsável por desenvolver um curso online do dialeto extraterrestre no Duolingo, serviço online para o aprendizado de novos idiomas. “O projeto entusiasmou toda a comunidade de fãs e muitos de nós participamos dessa iniciativa”, afirma o sueco, que ainda não tem previsão para lançar o projeto. “Preparar esse curso é mais diversão do que trabalho.”

Malmenbeck foi inspirado pelo trabalho do escritor britânico J. R. R. Tolkien, uma das maiores referências na cultura geek com a criação do universo da trilogia de livros O Senhor dos Anéis, obra publicada pela primeira vez em 1954. Além de escritor, Tolkien era filólogo — especialidade que se dedica ao estudo de línguas históricas — e tinha o costume de desenvolver idiomas por
passatempo. Aprendeu latim e finlandês, o que o ajudou na hora de criar os nomes dos personagens de suas histórias e de elaborar idiomas como o élfico, considerados pelos especialistas como incrivelmente sofisticados.

UNIDOS FALAREMOS

Estudar um idioma artificial pode parecer excêntrico, mas a atividade já foi levada a sério por pessoas que desejavam construir um mundo melhor. Surgido no século 19, o esperanto foi planejado pelo médico e filólogo Ludwik Zamenhof para promover a comunicação internacional e cultivar a harmonia entre diferentes povos.

Com alfabeto romano e vocabulário semelhante ao de línguas neolatinas, sua gramática não foi feita para substituir todas as línguas naturais, mas é considerada simples de aprender por seus falantes. A norte-americana Arika Okrent, autora do livro In the Land of Invented Languages (“Na Terra de Línguas Inventadas”, sem edição no Brasil), afirma que o idioma se popularizou após a Primeira Guerra Mundial. “Nesse período, a Sociedade das Nações pretendia tornar o esperanto uma língua oficial”, diz. “Mas qualquer grande projeto social passou a ser considerado banal e utópico depois da Segunda Guerra Mundial.”

Karina Oliveira, estudante de mestrado do Departamento de Linguística da USP, dedica sua pesquisa à fonologia do esperanto. Quando tinha 17 anos, começou a estudar o idioma e passou a praticá-lo em viagens e congressos, onde conheceu pessoas com o mesmo interesse. “As conferências de esperantistas acontecem todos os anos, em localidades diferentes”, diz. “E hoje essa comunicação é muito mais fácil, já que a internet proporcionou um aumento de falantes da língua nos últimos anos.”

No Brasil, existem associações dedicadas ao idioma, que oferecem cursos e vendem livros traduzidos para o esperanto. “Todo clássico da literatura existe em esperanto, inclusive O Senhor dos Anéis”, afirma Oliveira. Na versão em inglês do Duolingo, mais de 460 mil pessoas fazem ou já fizeram o curso de esperanto, disponível desde o ano passado.

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Categoria: Interjeição
Significado:
1 “Saúde!”
2 Termo usado em brindes, literalmente significa “que seu sangue grite!”
Explicação: Para terráqueos, o som da fala dos Klingons soa como um grito ou grunhido: palavras com “ch” ou “gh”, por exemplo, são pronunciadas quase como um gargarejo, bem acentuadas no fundo da garganta. Quando o vocábulo tem indicações com o sinal de apóstrofo, o som deve ser suprimido de maneira rápida

NA BOCA DO POVO

David Peterson participa de organizações como a Sociedade da Criação da Língua, que ajuda a reunir dados sobre a construção de idiomas artificiais e a conectar pessoas que têm como hobby a criação de dialetos.

A comunidade, no entanto, ainda é discreta. “Algumas pessoas não têm o costume de compartilhar seus trabalhos”, destaca Sai Emrys, um dos fundadores da organização. “O número de profissionais dessa área ainda é minúsculo se comparado com a quantidade de pessoas que elaboram seus idiomas em segredo e só por diversão.”

O prazer em combinar letras e sons também pode ser fonte de motivação para a preservação da cultura. Se a manutenção da língua Klingon é o objetivo de um grupo interessado em manter vivo o universo de Jornada nas Estrelas, a preservação de idiomas reais também mobiliza muita gente. “A relação entre um idioma e os traços culturais de seus povos nunca se manifesta de forma igual”, afirma Thomas Finbow, professor de linguística histórica da USP. “Há exemplos como o hebraico, considerado por muito tempo uma língua morta e ressuscitada no século 19.”

Idiomas construídos para obras de ficção jamais poderão substituir as línguas naturais, que perdem falantes ao longo da história, mas os especialistas concordam que, além de entreter os fãs, elas são uma ferramenta de estudo e análise sobre como os idiomas se comportam. Não por acaso, muitos dos inventores de dialetos são os mesmos que trabalham para revitalizar línguas humanas mortas ou ameaçadas de extinção — um levantamento feito pela Unesco, órgão de cultura das Nações Unidas, avalia que metade das 6 mil línguas faladas atualmente no planeta devem sumir até o fim deste século.

“Os desafios ao criar novas línguas contrariam a noção ingênua de que só aprender inglês no colégio é o suficiente”, diz David Peterson. “Não importa se são faladas por 1 milhão de pessoas ou apenas por duas. Essas línguas sempre carregam diferentes camadas da experiência humana.”

LINGUAGEM DAS ESTRELAS
Dialeto do povo Klingon, de Jornada nas Estrelas, que está disponível no Duolingo, serviço de aprendizado de novos idiomas

nuqneH
Categoria: Interjeição
Significado:
1 Olá
2 “O que você quer?”, em tradução literal
Explicação:
• Saudações educadas não são comuns entre os falantes nativos, conhecidos pela forma agressiva e direta de se comunicar
• Para dar boas-vindas, a expressão mais aproximada seria “yI’el” (singular) ou “pe’el” (plural), tradução para “entrem todos!”

Heghlu’meH QaQ jajvam
Categoria: Expressão
Significado: Literalmente, “hoje é um bom dia para morrer”
Explicação:
• Para a civilização dos Klingons, essa frase representa honra e apreço por uma batalha. Para eles, a derrota também é encarada como uma vitória, sendo a morte considerada como consequência de uma “causa maior”

majQa’
Categoria: Advérbio
Significado:
1 “Bom trabalho”; “bem-feito!”
2 Expressão de aprovação
Explicação:
• O prefixo maj significa “bom” e Qa’ pode ser traduzido como “feito”, mas também como “alma”
• Os fragmentos linguísticos dos Klingon compõem o significado final das palavras, como na língua japonesa

Hab SoSlI’ Quch
Categoria: Expressão
Significado: Um dos mais graves insultos entre os Klingon, pode ser
traduzido como “sua mãe tem uma testa lisa”
Explicação:
• A sequência das palavras nessa frase indica uma das regras gramaticais mais curiosas em Klingon: ao criar o idioma, o linguista Marc Okrand decidiu que as frases seriam sempre posicionadas na ordem objeto-verbo-sujeito

Frases úteis

Dothraki:

Athchomar chomakea!
“Saudações a todos!”

Yer zheanae (sekke)
“Você é (muito) bonito(a)”

Finne zhavorsa anni?
“Onde estão meus dragões?”

Asshekhqoyi vezhvena!
“Feliz aniversário!” (versão resumida de “Anha zalak asshekhqoyi vezhvena yeraan!”, que significa “Desejo um excelente dia de sangue a você!”)

Klingon:

nuq ‘oH ponglIj’e’?
“Qual é o seu nome?”

nuqDaq ‘oH puchpa’’e’?
“Onde fica o banheiro?”

HIQaH! QaH!
“Socorro!”

qoSlIj DatIvjaj
“Feliz aniversário”

QIt yIjatlh
“Fale mais devagar”

Entre as falsas e verdadeiras citações clariceanas

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Todos sabem o quanto citações de Clarice Lispector circulam nas redes sociais, sobretudo no Facebook. Mas essas citações são, de fato, da escritora ou são apenas atribuídas a ela? E se são verdadeiras, por que os usuários levam as citações às redes sociais?

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Estela Santos, no Homo Literatus

Na maioria das vezes o que percebemos em boa parte das citações ditas “clariceanas”, que circulam as redes sócias, é que linguagem não condiz com a linguagem de Clarice e que a temática também não condiz com os temas recorrentes em sua literatura – o que leitores dela percebem rapidamente –, isto é, trata-se de citações atribuídas erroneamente a escritora. A literatura de Clarice Lispector tem um estilo único, ela desnuda a alma humana ao abordar questões voltadas para o “eu”, com sua escrita de cunho altamente intimista e sua linguagem corrosiva. E quando a citação é verdadeira, parece-nos que contribui para o que podemos chamar de “cultura nas redes sociais”, uma vez que Clarice é uma escritora e intelectual notavelmente conhecida, inclusive admirada por um dos maiores críticos literários do Brasil, Antônio Cândido; além disso, citações verdadeiras, com a fonte de referência parecem ter o poder de conquistar novos leitores.

O problema é que Clarice passou a ser vista nas redes sociais como escritora de textos de autoajuda, muitas vezes aparece, ainda, como uma conselheira amorosa, ou até como uma grande poeta – ela que apenas escreveu prosa poética. Como o poema Alta Tensão, de Bruna Lombardi, a ela atribuída recorrentemente no Facebook: “eu gosto dos venenos mais lentos / dos cafés mais amargos / das bebidas mais fortes / e tenho / apetites vorazes / uns rapazes / que vejo / passar / eu sonho / os delírios mais soltos / e os gestos mais loucos / que há / e sinto / uns desejos vulgares / navegar por uns mares / de lá / você pode me empurrar pro precipício / não me importo com isso / eu adoro voar”. O que pensaria ou diria Clarice ao ver isto? O que ela comentaria sobre essas “difamações literárias”, por assim dizer?

Mas se a grande maioria esmagadora das citações não é de Lispector, isto nos leva ao embate: a grande escritora é popular ou impopular? Por tantos trechos falsos a ela atribuídos pela grande massa das redes sociais, podemos pensar que, na verdade, a escritora é impopular, uma vez que seus verdadeiros escritos são menos divulgados que os falsos. O que não quer dizer que ela não tenha leitores (muitos que estão lendo esta matéria são leitores de Clarice) e que estes não divulguem citações reais.

Em defesa de Clarice e para legitimá-la aqui deixamos excertos de algumas de suas obras, com as devidas referências:

“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher […]. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha – com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera.” (LISPECTOR, Clarice. In: Amor)

“Acho com alegria que ainda não chegou a hora de estrela de cinema de Macabéa morrer. Pelo menos ainda não consigo adivinhar se lhe acontece o homem louro e estrangeiro. Rezem por ela e que todos interrompam o que estão fazendo para soprar-lhe vida, pois Macabéa está por enquanto solta no acaso como a porta balançando ao vento no infinito. Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil, matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida. Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um soco no estômago.” (LISPECTOR, Clarice. In: A hora da Estrela)

“A palavra é o meu domínio sobre o mundo.” (LISPECTOR, Clarice. In: Perto do coração selvagem)

“E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto gregoriano. Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando, sílabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última.” (LISPECTOR, Clarice. In: Água viva)

“– Você tem ‘descortinado’ muito ultimamente, meu filho? – Tenho pai, disse contrafeito com a intrusão de intimidade, toda vez que o pai quisera ‘compreendê-lo’, deixara-o constrangido. – Como vão suas relações sexuais, meu filho? – Muito bem, respondeu com vontade de mandar o pai para o inferno de onde tirara.” (LISPECTOR, Clarice. In: A maçã no escuro)

“Era uma maçã vermelha, de casca lisa e resistente. Pegou a maçã com as duas mãos: era fresca e pesada. Colocou-a de novo sobre a mesa para vê-la como antes. E era como se visse a fotografia de uma maçã no espaço vazio. Depois de examiná-la, de revirá-la, de ver como nunca vira a sua redondez e sua cor escarlate – então devagar, deu-lhe uma mordida. E, oh Deus, como se fosse a maçã proibida do paraíso, mas que ela agora já conhecesse o bem, e não só o mal como antes. Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso. Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo – de um estado de graça. Só quem já tivesse estado em graça, poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração, que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte. O estado de graça em que estava não era usado para nada.” (LISPECTOR, Clarice. In: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)

“No entanto, fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que, por vergonha, não podia ter conhecido. A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.” (LISPECTOR, Clarice. In: A descoberta do mundo)

“[…] estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.” (LISPECTOR, Clarice. In: A paixão segundo G. H.)

A Faixa de Gaza e os escritores egoístas do nosso tempo

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Ao conviver em sociedade, a humanidade desenvolveu as muitas formas de enfrentar coletivamente inumeráveis desafios, dando respostas inteligentes a cada um deles, aprendendo também a dominar as linguagens para expressar tudo aquilo que desejava, como a literatura ou a linguagem escrita.

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Marcelo Vinicius, no Homo Literatus

Sei que a literatura não tem maiores pretensões, mas vale lembrarmo-nos de uma coisa: Paulo Leminski, com seu extenso reconhecimento como escritor, crítico literário, tradutor e professor, no ensaio Arte in-útil, arte livre?, nos disse que a curiosa ideia de que a arte não está a serviço de nada a não ser de si mesma é relativamente recente. Embora se possa afirmar que a ideia da autonomia da arte radica, em última análise, na Poética de Aristóteles, é a partir dos finais do séc. XVIII que ela surge plenamente consciencializada. É melhor evidenciada, de fato, no romantismo europeu do século XIX, apogeu da 1ª Revolução Industrial e da hegemonia burguesa, momento em que a indústria veio para “substituir” a arte e o artesanato.

Mas, na Rússia, nos meados do século XIX, a literatura estava ainda no centro da arena dos grandes temas, da condição humana daquela época, daquele tempo. Fala-se muito da literatura ser amoral, mas, segundo Leminski, na grande Mãe Rússia, a extraordinária literatura do século XIX, com escritores como Gogol, Tolstói, Dostoiévski, Turguiênev e Tchékov, é uma literatura, sobretudo, moral. E a consciência social do povo russo é uma literatura de acusação e denúncia, de resistência e responsabilidade coletiva.

Se já lemos os grandes clássicos da literatura mundial, principalmente os russos como Tolstói e Dostoiévski, que por sinal, este é meu projeto de estudo na Universidade, o que Leminski nos aponta não é novidade.

Sim, a censura czarista estava de acordo com os artistas no que tange a arte com uma moral. Nisso, os poderes e a oposição estavam de acordo. Mas, os significados estavam trocados. Ao forçoso e forçado moralismo da censura czarista, os escritores russos reagiram com um moralismo oposto.

O grande momento reflexivo dessa afirmação russa do caráter moral da literatura é O que é Arte, do clássico escritor Tolstói (de 1898). Nesse ensaio implacável, o autor de Guerra e Paz denuncia a “degenerescência” da arte moderna, em particular, a doutrina da “arte pela arte”, à luz de critérios éticos e “humanos”. Para Tolstói, toda a arte e a literatura de sua época lhe parecem manifestações patológicas de sensibilidades decadentes e “desumanas”. Repugna-lhe também na literatura o seu “ocultismo”, sua tendência à “panelinhas” fechadas.

Chegamos ao revolucionário Plekhânov e a A Arte e a Vida Social, que são suas conferências de 1912. Plekhânov tem também a mesma postura anti-arte pela arte. O que em Tolstói era moral, em Plekhânov era político.

De certo que o mundo não é de responsabilidade só dos artistas, é claro, mas não nos esquecemos de suas forças na sociedade. É só nos lembrarmos de um fenômeno conhecido no mundo da literatura: o Copycat Effect, que é um ato que é modelado ou inspirado por um ato anterior descrita em ficção. Já o sociólogo David Phillips, chama isso de Werther Effect, se referindo ao romance do escritor Goethe que provocou uma onda de suicídios no século XVIII. No mais, é só para não nos esquecermos do século XIX e a sua arte.

Cena “Os Sofrimentos do Jovem Werther”

Cena “Os Sofrimentos do Jovem Werther”

E mesmo que abordássemos filósofos e críticos de artes mais atuais, como Arthur Danto, de certo que até ele também não negaria essa visão descrita aqui. Para Danto, houve o início de uma nova era de pluralismo artístico, o que encontrou eco na diversidade da arte pós-moderna. Nisso, a arte, no que tange suas pretensões, não nega o século XIX e a moral artística. É uma questão de se utilizar delas também, quando necessário, e não de negá-las em detrimento de qualquer outra coisa.

Arthur Danto, em sua obra A Transfiguração do Lugar-Comum, diferente do que muitos pensam sobre, afirma que a arte tem ainda seu papel social. Ela faz o que toda obra de arte sempre fez: exteriorizar uma maneira de ver o mundo, expressar o interior de um período cultural, oferecendo-se como espelho para flagrar a consciência dos nossos reis.

Danto, ainda nessa obra, afirma que, além de questionar o conceito de Arte, artistas como Duchamp e principalmente Andy Warhol contestaram o consumo desenfreado e todas as hipocrisias que contornavam a sociedade norte-americana da época. Utilizava elementos, figuras e a própria estética popular em seus trabalhos, de maneira a fazer uma crítica direta e irônica da sociedade consumista que se formava. Mas não nos prenderemos em discutir esse caso em especifico da Pop Art e Arthur Danto, pois isso é só para demonstrar o quanto a arte sempre teve seu valor crítico social na nossa história, independente do sistema de crença da “Arte pela Arte” existir.

Arthur Danto

Arthur Danto

O que se percebe é que “Arte pela Arte” sendo um sistema de crenças que defende a autonomia da arte, desligando-a de razões funcionais, pedagógicas ou morais e privilegiando apenas a Estética não viveu sozinha, mesmo no seu auge. Alguns artistas não acreditavam na verdade desse conceito célebre. É certo que alguns deles fizeram a sua arte em função da humanidade e da realidade. Shakespeare, por exemplo, foi um descortinador de toda a vida da Inglaterra de seu tempo. Então não passou ele de um teatrólogo vulgar, amado pelas massas, não aceito pelas elites? Não necessariamente.

Esses artistas que tiveram o senso político, que olharam para a humanidade das ruas, dos botequins, das tavernas, dos campos, não tiveram o aplauso dos homens intelectuais de seu tempo, muitas vezes, porque não cabiam dentro do conceito de “Arte pela Arte”.

Essa desumanização da literatura acima da vida, de colocar o artista à margem dos acontecimentos, dominou muito tempo o conceito de arte e ainda hoje gritam por ele todos os que querem combater a literatura interessada, como se hoje houvesse alguma literatura que não fosse interessada.

Como visto, se quisermos ir mais adiante, chegaremos com facilidade a negar por completo este conceito que colocava o artista acima do bem e do mal. A Literatura nunca deixou de servir a uma classe. O conceito que era fruto da vaidade dos intelectuais, que os colocava acima das competições humanas, foi sempre de uma falsidade desoladora. Os artistas, e em particular o escritor, nunca deixaram de servir a uma classe.

Deixando claro também que não estamos aqui definindo o que é arte ou o que é arte boa ou ruim e, de acordo com pensamento do filósofo Sartre, não defendemos um engajamento. Isso é impossível. O engajamento ocorre, queiramos ou não. Nossa ação nos define; nossa inação também. Calar-se diante da injustiça é endossá-la. Daí que a diferença não seja entre o político e o apolítico: este é uma impossibilidade. Tudo é de algum modo político. “Arte pela Arte” é também política.

No pluralismo artístico, dito por Danto, a “Arte pela Arte” não pode existir em detrimento da arte que questiona o social, a arte moral. O intelectual fora da humanidade, fora dos anseios, dos desejos, das lutas dos homens, não existiu absolutamente, porque a literatura existiu em função da humanidade.

Como disse o famoso escritor Jack Kerouac:

“Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam”.

Não muito diferente, o escritor Monteiro Lobato indaga sobre a escrita e a nossa posição em relação a ela. Para ele, há dois modos de escrever: um, é escrever com a ideia de não desagradar ou chocar ninguém; outro modo é dizer desassombradamente o que se pensa, dê onde der, haja o que houver – cadeia, forca, exílio.

O que esses pensadores querem dizer é que a “Arte pela Arte” não é uma verdade absoluta na história e única, e que podemos e devemos sair do comodismo, pois os governos suspeitam da literatura, porque é uma força que lhes escapa. A arte não pode ser censurada. Outrora, artistas usavam a própria arte para protestar contra a censura. Dizer que a arte não tem maiores pretensões, é, segundo o filósofo, o sociólogo e o compositor alemão Theodor W. Adorno, uma pretensão histórica ética de querer transformar a obra em mercadoria. É a industrial cultural em detrimento da arte do pensar, como disse a Escola de Frankfurt.

Para Adorno, a grandeza da arte está em sua capacidade de resistir ao estatuto de mercadoria, em situar-se no mundo como um “objeto não identificado”. Em sua recusa de assumir a forma universal da mercadoria, a arte, a obra de arte é a manifestação, em seus momentos mais puros e radicais, de uma “negatividade”. Ela é “a antítese da sociedade”. A antítese social da sociedade.

Porém, hoje tiraram da literatura aquela importância, que se confundia com a filosofia, a sociologia, com grandes visões de mundo. Reforçaram uma espécie de “Arte pela Arte”. E isso nos vem levando à uma implicação tão séria.

Que angústia que me dá esse silêncio internacional sobre crimes de guerra em Gaza, por exemplo. No máximo um repúdio aqui e outro ali. Como se a Europa, tão vizinha, e os EUA não tivessem forças. Como se o mundo todo fosse impotente. Tanta politicagem em prejuízo da vida.

“Vemos derramar o sangue de nossos irmãos da Palestina nas matanças coletivas que não poupam ninguém, e nos crimes de guerra contra a humanidade que acontecem à vista de toda a comunidade internacional, que permanece indiferente aos acontecimentos da região”, afirmou o rei Abdullah, da Arábia Saudita.

Faixa de Gaza – mãe segurando o seu bebê a procura de abrigo

Faixa de Gaza – mãe segurando o seu bebê a procura de abrigo

Atualmente, o mundo se acaba em guerras e os nossos escritores vivem como se nada acontecesse. E não se trata de uma visão pessoal e generalista, há exceções como há pesquisas que apontam isso.

André Forastieri, jornalista e crítico de cinema, afirma, por exemplo, que o assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e a meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Mas, André Forastieri não assegura isso à toa, já que o que é dito aqui é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Drª. Regina Dalcastagnè, da UNB.

A sua crítica continua ao dizer que não queremos saber dos problemas dos senhores letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades. Simplesmente não é tão interessante assim. Em todo lugar o gênero “problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada” tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive.

O que se percebe é que escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. A pesquisadora Drª. Regina Dalcastagnè explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é um problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas.

Ironicamente, André Forastieri exprime que boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.

A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Hammett estava errado, já que a literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor; se quer, se exige, um livro que nos hipnotize e nos leve para outro lugar, e para dentro de nós mesmos. O que importa em ficção é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar, como bem disse André Forastieri.

Como proferia o grande escritor Ernesto Sabato, vencedor do Prêmio Cervantes de Literatura e um dos maiores autores argentinos do século XX: “É característico de um bom romance que nos arraste para seu mundo, que nele mergulhemos, que nos afastemos a ponto de esquecer a realidade. E, não obstante, ele é uma revelação sobre a mesma realidade que nos rodeia”.

Usando-se do pensamento do clássico escritor Kafka, se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos.

O mundo depende muito dos verdadeiros artistas, não só deles, mas dos subversivos em geral, como disse Jack Kerouac. Felizmente, como pronunciou o grande escritor Ernesto Sabato, o verdadeiro artista continua lá e graças a sua incapacidade de adaptação, a sua loucura, conservou contraditoriamente os atributos mais preciosos do ser humano.

O livro “A Desumanização”, o mais recente de Valter Hugo Mãe, será lançado no Brasil até maio de 2014

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O livro “A Desumanização”, o mais recente de Valter Hugo Mãe, será lançado no Brasil até maio de 2014, afirmou hoje o escritor, durante a conferência de imprensa de abertura do Festival Pauliceia Literária, em São Paulo.

Publicado em Notícias ao Minuto

A Desumanização lançado em 2014 no Brasil em 2014

Título original: Valter Hugo Mãe “A Desumanização” lançado em 2014 no Brasil

O autor disse ter “altas expectativas” em relação ao livro, que chega hoje às livrarias portuguesas, e diz estar “muito vaidoso” com as boas críticas já publicadas.

A questão principal do livro, afirma Valter Hugo Mãe, é a espiritualização e a conquista da solidão. A estória passa-se na Islândia e tem como protagonista uma menina que experimenta o ato de estar só após a morte da irmã gémea.

“Queria transformar aquela ilha numa meditação lenta e profunda. A Islândia remete à pureza, ao lugar onde o mundo começa outra vez”, declarou o autor.

Valter Hugo Mãe está em São Paulo para participar do Festival Pauliceia Literária, no qual integrará uma mesa de debates sobre narrativa, linguagem, ritmo e humor, ao lado do escritor Juan Pablo Villalobos, autor de “Festa no Covil”.

“Aqui no Brasil saiu recentemente o ‘Apocalipse de Mil Homens’, está agora está a sair em Portugal meu sexto romance e eu fico numa mistura de tempos, com a cabeça dividida, entre o apocalipse e a desumanização, algo que faz sentido”, afirmou.

Questionado sobre qual dos seus livros indicaria a alguém que não conhece sua obra, o autor afirmou que cada título combina com uma personalidade diferente. Para alguém sensível, sugeriria “Filho de Mil Homens”; para uma pessoa mais calma e madura, “A máquina de fazer espanhóis”; para um assíduo frequentador de bibliotecas “Balthazar Serapião”; e para mulheres ligadas à questão de género “O apocalipse dos trabalhadores”.

Já “A Desumanização” foi indicada pelo escritor aos leitores com “inspiração estética”, atentos ao “esplendor da expressão literária”.

Valter Hugo Mãe é um dos 12 finalistas do Prémio Portugal Telecom 2013, com o “Filho de Mil Homens”. No ano passado venceu o certame com a “Máquina de fazer espanhóis”. Nesta edição, disse que acha que não vai ganhar.

“Já estou admirado por estar entre os finalistas. Acho que estarei no Uruguai e que não vou [a São Paulo, na data da entrega do prémio] para não ter aquele choque de ver ganhar uma outra pessoa”, concluiu.

 

Sinal vermelho para os vícios de linguagem

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Projeto em Maringá busca mostrar a grafia correta das palavras. Para isso, faixas com pequenas lições estão sendo levadas para semáforos e outros locais públicos

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Marcus Ayres, Gazeta Maringá

 

Apesar de incorretas, expressões como “de menor” e palavras como “mindingo” e “seje” são comumente faladas e escritas por muitas pessoas. Buscando evitar a propagação destes vícios de linguagem, um advogado de Maringá iniciou uma campanha para mostrar a grafia correta e esclarecer significados dos termos.

Algumas das lições repassadas pelo projeto
Não existe a palvra “menas”, somente menos

O plural é troféus e não “troféis”

O correto é faz 10 anos e não “fazem 10 anos”

O correto é casa geminada e não “germinada”

O plural é cidadãos e não cidadões

Não se fala “di menor”, mas sim, menor de idade

O certo é meio-dia e meia e não meio-dia e meio

É duzentos gramas e não duzentas gramas

Não é “perca” de tempo, mas perda de tempo

O certo é mortadela e não mortandela”

O correto é cadarço e não “cardaço”

Trata-se do projeto Sinal do Saber. Desde julho, faixas feitas com material reciclável são levadas para locais públicos, principalmente semáforos. Basta o sinal ficar vermelho para que painéis entrem em cena chamando a atenção dos motoristas e pedestres para erros comuns. As mensagens são curtas e diretas como: “O certo é meio-dia e meia e não meio-dia e meio” e “Não é perca de tempo mas perda de tempo”.

“Pensei numa maneira de melhorar o nível cultural de nossa cidade. Sabemos que o desenvolvimento cultural é essencial para uma comunidade ir bem”, explicou o idealizador do projeto, Lutero de Paiva Pereira. O projeto é custeado por empresas e profissionais liberais que se tornaram apoiadores culturais e tem seus nomes divulgados nos painéis.

Atualmente, oito faixas estão em circulação pela cidade, sendo colocadas principalmente em cruzamentos onde existe um fluxo maior de tráfego. A escolha dos pontos é feita a cada fim de semana, levando em consideração a realização de eventos que possam atrair um grande número de pessoas. As mensagens também são fixadas em praças e parques e divulgadas pela internet, na página que o projeto mantém no Facebook www.facebook.com.br/sinal.dosaber.

Ampliação

A receptividade da ação foi tão boa que o projeto já está sendo levado para dentro das empresas. É o caso da Catamarã Engenharia, que está orientando os funcionários a corrigirem certos vícios de linguagem. A proposta também deve ganhar outras cidades, como Cuiabá (MT). “Um empresário de uma rede hoteleira achou a ideia boa e pediu autorização para implementá-la em sua cidade”, revelou Pereira.

Já a Secretaria de Cultura de Maringá autorizou a divulgação das faixas durante o desfile da Independência no próximo dia 7. Com o sucesso do projeto, o idealizador já prepara uma ampliação. Além de evitar erros gramaticais, as faixas devem, em breve, veicular informações sobre o Município e o país, além de outros temas como história mundial.

“Queremos colaborar de alguma forma para termos uma sociedade cada vez mais aculturada, o que implica num trabalho de longo prazo e esforço de muitos. De qualquer forma, se o projeto durar apenas poucos meses, espero que nesse tempo ele tenha se prestado ao fim que motivou sua criação e tenha servido para muitas pessoas.”

Falta de conhecimento

Para a professora de Língua Portuguesa do Centro Universitário de Maringá (Unicesumar), Débora Azevedo Malentachi, o uso incorreto da língua acaba ocorrendo por causa da simplicidade das pessoas e da falta de conhecimento.

“Muitos desses vícios de linguagem são passados pela família e pelos amigos. A pessoa acaba usando determinadas palavras até para não ser excluída socialmente. Por isso, projetos como o do Sinal do Saber são importantes. Se a pessoa compreende o uso da língua, passa a falar corretamente.”

Débora lembra que mesmo as pessoas que conhecem mais a língua acabam usando palavras gramaticalmente inadequadas. “A língua portuguesa é muito rica. Para se comunicar com maior clareza, é importante conhecê-la”, explicou a professora, que é mestre em Letras.

dica do Jarbas Aragão

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