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Pais revelam o amor pelos filhos por meio da literatura e da internet

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Pai e filho compartilham momentos na internet (Foto: reprodução EPTV)

Pai e filho compartilham momentos na internet (Foto: reprodução EPTV)

Rafael Noris e o filho Miguel possuem um canal na internet, onde compartilham a rotina; já o jornalista Lucas Puntel escreveu um livro sobre as histórias do filho

Publicado no GShow

Em clima paterno, o repórter Daniel Perondi e o apresentador Pedro Leonardo mostram alguns pais inspirados pelos filhos. Eles revelam o amor aos pequenos por meio da arte.

Em Campinas (SP), Daniel Perondi conheceu o publicitário Rafael Noris e o filho Miguel. Eles possuem um canal e um blog na internet, chamado ‘Família Palmito’, onde contam o dia a dia da família e também compartilham fotos e vídeos.

Há um ano e meio, Rafael e Miguel moram sozinhos, longo dos avós do pequeno, e por isso precisam lidar com a rotina de trabalho e escola. Para um convívio melhor, pai e filho dividem as tarefas, que são dispostas em um quadro. “Eu lavo louça e ele já começou a lavar os talheres para ir aprendendo”, conta o publicitário.

Quadro de tarefas da 'Família Palmito' (Foto: reprodução EPTV)

Quadro de tarefas da ‘Família Palmito’ (Foto: reprodução EPTV)

Uma das atividades que mais chama atenção no ‘Família Palmito’ são as leituras compartilhadas, onde pai e filho, em voz alta, leem livros um ao outro. Ao todo são mais de 50 livros que os dois possuem e um deles é muito especial, afinal foi escrito por eles mesmos: “Brena e o Dragão”, sobre “a história de uma menina que conheceu um dragão”, afirma Miguel.

Pedro Leonardo também conheceu uma história inspiradora. O jornalista Lucas Puntel resolveu escrever um livro sobre as histórias do filho.

Pai escreve livro sobre histórias contadas pelo filho (Foto: reprodução EPTV)

Pai escreve livro sobre histórias contadas pelo filho (Foto: reprodução EPTV)

O projeto teve o ponto de partida em 2010, quando o pequeno Bento ainda tinha 8 anos de idade “e se tornou não só uma fonte de inspiração para as crônicas, mas também um personagem”, conta o pai.

Livro escrito pelo jornalista Lucas Puntel (Foto: reprodução EPTV)

Livro escrito pelo jornalista Lucas Puntel (Foto: reprodução EPTV)

18ª Bienal do Livro no Rio traz espaços inéditos e celebra a literatura nacional

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Bárbara Allen, na Cabana do Leitor

O maior evento literário do Brasil, que acontece entre 31 de agosto e 10 de setembro no Riocentro, realizou ontem (08/08) uma coletiva para apresentar toda a programação cultural. A 18ª Bienal do Livro Rio traz espaços inéditos e celebra a literatura nacional.

Esse ano, a Bienal contará com 40% do número de sessões a mais do que da última edição. Serão mais de 300 autores, nacionais e internacionais. Para Marcos Pereira, presidente da SNEL, a intenção desta edição é resgatar o valor do livro.

13 autores internacionais estarão distribuindo autógrafos e batendo um papo super divertido com os seus fãs. A autora Abbi Glines estará no dia 03/09 (domingo) falando um pouco sobre seus livros e o norte americano Carl Hart marcará presença no evento no dia 09/09 (sábado). Charles Duhhigg, Jenny Han (Para todos os Garotos que Já Amei), Leisa Rayven e outros também estarão presentes.

Além dos tradicionais espaços Café Literário e o espaço infantil, nesta edição teremos duas novas arenas que prometem atrair a atenção dos visitantes. A primeira é a Arena #SemFiltro, nome escolhido através de votação na internet, que terá capacidade para 400 pessoas e será comandada por Rosane Svartman. As atividades realizadas neste espaço serão de bate-papo com autores e influenciadores que discutirão temas como feminismo, moda, comportamento, game, música, entre outros assuntos. A lista de convidados é extensa, mas alguns dos nomes são: Thalita Rebouças, Maisa Silva, Hélio de La Peña, Isabela Freitas, Raony Phillips e outros.

O Geek & Quadrinhos é a outra novidade da Bienal 2017. A ideia é levar novas narrativas para o maior evento literário. O responsável por toda programação do espaço é Affonso Solano, um dos principais nome da literatura fantástica no Brasil. As atividades que irão ocorrer no Geek & Quadrinho vão desde bate papo com assuntos variados até mesa de jogos, área de realidade virtual e arena de swordplay (para batalhas medievais). Os assuntos discutidos pelos convidados serão bem do universo geek e abordarão a representatividade feminina, publicações independentes, desenvolvimento de games, lançamento do jogo da Hora de Aventura e claro terá muito sobre a Marvel Comics. Alguns dos convidados são: Fernando Caruso, Mikannn, Carlos Ruas, Thiago Rex, FML Pepper, entre outros.

O Café Literário também está com atrações e temáticas maravilhosas. Coordenador por Rodrigo Lacerda, o espaço trará temas atuais e do interesse da sociedade. A programação será dividida em 3 eixos, são eles: Cotidiano, reforma pública, democracia brasileira, religião, gênero e outros. A literatura, que trará discussões e debates sobre a literatura brasileira, tendo as obras de Ferreira Gullar, Lima Barreto e Tom Jobim como centrais. E a celebração, o espaço irá celebrar datas e acontecimentos que marcaram não só a literatura, mas também toda uma ordem da sociedade. Uma grande novidade será as sessões infantis, nomeadas de Cafézinho Literário. Carl Hart, Martinho da Vila, Rita Lobo, Alessandro Molon e Miriam Leitão, são alguns dos nomes que compõe a lista dos convidados.

E claro não poderíamos deixar de falar do Espaço Infantil, aliais é importante o incentivo da leitura para os pequenos. E para esta edição a curadora Daniela Chindler apresenta um espaço lúdico e interativo que incentiva o questionamento do “O que faz um livro ser um livro?”. Ficarão livros gigantes expostos representando diversas letras do alfabeto, o cenário convidará o visitante a brincar e explorar o local com o corpo. De acordo com Chindler “cada letra é um livro e cada livro sé um universo semântico que cada um viajará da sua forma. ”

Além desses quatro espaços, a 18ª Bienal do Livro Rio terá mais uma vez a Agents & Business Center, parceria com a Feira de Frankfurt, II Fórum de Educação, Interlivros e Praça da Língua, instalação audiovisual que recria a experiência-símbolo do Museu da Língua Portuguesa. Mesmo com tantas novidades, cerca de 8% do espaço para expositores ficarão vagos, por conta da crise muitas editoras tiveram que fechas. Mas Marcos Pereira afirma que visualmente esse número não fará muita diferença.

A 18ª Bienal do Livro Rio acontece entre os dias 31 de agosto a 10 de setembro no Riocentro. Os ingressos já podem ser adquiridos pelo site do evento e a programação completa também já está disponível.

Com mais de 220 convidados e atividades gratuitas, Flipelô é aberta hoje e tem Jorge Amado como homenageado

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Maria Bethânia, Emicida, Larissa Luz, Capinan e Martinho da Vila são atrações da Flipelô (Foto: Arte/G1)

Maria Bethânia, Emicida, Larissa Luz, Capinan e Martinho da Vila são atrações da Flipelô (Foto: Arte/G1)

Evento acontece no Centro Histórico de Salvador até domingo (13) e conta com nomes como Emicida, Larissa Luz, Capinan, João Jorge, Luciana Borghi e Martinho da Vila; veja programação.

Publicado no G1

A primeira Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, será aberta nesta quarta-feira (9) com apresentação da cantora Maria Bethânia. Ela participa de um sarau, a partir das 20h, na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, que fica na Rua da Ordem Terceira, no Centro Histórico da capital.

A apresentação é aberta apenas para convidados, mas todo o restante da programação da Flipelô, que possui uma grade cultural diversificada até o domingo (13), é gratuita e aberta ao público.

O projeto, que comemora os 30 anos da Fundação Casa de Jorge Amado, faz homenagem ao escritor baiano, na medida em que traz o Pelourinho, cenário de parte da sua obra, para o roteiro de eventos literários, além de festejar Zélia Gattai e Myriam Fraga, duas das mais importantes escritoras e personalidades culturais diretamente interligadas com a trajetória de vida do Jorge.

O evento contará com mais de 220 convidados, entre eles nomes como Emicida, Larissa Luz, Capinan, João Jorge Rodrigues, Luciana Borghi, Martinho da Vila entre outros. São esperadas cerca de 30 mil pessoas nas mais de 60 atividades oficiais previstas.

Além da Igreja de São Francisco, a Flipelô vai ocupar museus, teatros, cinema, praças, com debates, encontros, oficinas literárias, apresentações teatrais, leituras dramáticas, exibições de vídeo e shows musicais, que atendem aos públicos adulto e infanto-juvenil.

Na abertura, nesta quarta, Maria Bethânia, que tem mais de 50 anos de carreira e 55 álbuns gravados, vai mesclar leitura e música, com canções pouco usuais em seu repertório, e contará com o acompanhamento do violonista Paulinho Dafilin e do percussionista Carlos Cesar.

Flieplô é realizada no Centro Histórico de Salvador, de 9 a 13 de agosto. (Foto: Egi Santana/G1)

Flieplô é realizada no Centro Histórico de Salvador, de 9 a 13 de agosto. (Foto: Egi Santana/G1)

O sarau é intitulado “Maria Bethânia e as Palavras”, já que a cantora costuma unir poesia ao repertório, declamando poemas de autores como Fernando Pessoa, Marília Gabriela Llansol, Manoel de Barros, entre outros.

Atrações

A homenagem a Jorge Amado se dará em momentos como a Leitura Dramática da obra Compadre de Ogum, no sábado (12), às 11h, no Café Teatro Zélia Gattai, bem como na exibição de filmes como Quincas Berro d’Água, na Saladearte Cine XIV.

O grande amigo Carybé marcará presença no evento com a exposição “100×100 Carybé Ilustra Amado”, que estará aberta à visitação na Galeria Solar do Ferrão, durante todo período da festa. Paloma Amado, filha do escritor, vai ministrar uma oficina de gastronomia com receitas de Zélia Gattai no Senac – Pelourinho, também no sábado, às 11h.

Já as homenagens a Myriam Fraga acontecerão em dois momentos. Uma mesa em torno da poesia da escritora, em que José Carlos Capinan, Jerusa Pires Ferreira e Evelina Hoisel, Presidente da Academia de Letras da Bahia, abordarão aspectos importantes de obra da poeta, culminando com o lançamento do livro inédito, intitulado “Poemas”, no sábado (12).

Um dia depois, no domingo (13), às 11h, a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba) apresenta a Série Myriam Fraga, no Largo do Pelourinho. Com regência do maestro Carlos Prazeres, o repertório é composto pelas obras Divertissement, do compositor francês Jacques Ibert, e ainda a Suíte Sonho de uma noite de verão, do alemão Felix Mendelssohn, composição inspirada na obra homônima do autor inglês William Shakespeare.

A escritora Conceição Evaristo também vai participar da Flipelô (Foto: Divulgação/Flip)

A escritora Conceição Evaristo também vai participar da Flipelô (Foto: Divulgação/Flip)

Com a indagação “Como anda a literatura brasileira contemporânea?”, os escritores Ronaldo Correia de Brito (PE) e Salgado Maranhão (RJ) dialogam com a mediação de José Inácio Vieira de Melo (BA) sobre a cena das letras e do mercado editorial brasileiro, na sexta-feira (10), às 16h, no Museu Eugenio Teixeira Leal.

No dia seguinte, sábado, às 14h, quando o tema de reflexão será “Biografias”, a Flipelô recebe a escritora italiana Antonella Roscilli, biógrafa de Zélia Gattai, e a brasileira Josélia Aguiar, pesquisadora de Jorge Amado, com mediação de Aleilton Fonseca, membro da Academia de Letras da Bahia. O encontro será também no Museu Eugenio Teixeira Leal.

Os autores premiados Franklin Carvalho e Marcio Ribeiro Leite, ganhadores do Sesc de Literatura 2016 e 2008, respectivamente, participam do bate-papo “Literatura Fatal”, no sábado (12), às 15h30, no Sesc-Senac Pelourinho.

Além deles, a Flipelô terá presença marcante de escritores e poetas negros, como na conversa “A Rua É Noiz – Poesia e Protesto”, que colocará em diálogo o rapper Emicida e João Jorge, presidente do bloco afro Olodum (BA), com mediação de Larissa Luz. Já o sambista Martinho da Vila lança o livro Conversas Cariocas, na sexta (11), às 19h. O livro é a reunião de crônicas que Martinho escreveu para um jornal do Rio de Janeiro.

A escritora, poetisa, romancista e ensaísta Conceição Evaristo, considerada uma das principais escritoras do país e referência para milhares de autoras e autores negras e negros no país, será uma das convidadas da roda de debate Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras, na Flipelô, também na sexta (11), às 20h15, no Teatro Sesc-Senac Pelourinho.

No Café Teatro Zélia Gattai, acontece o projeto “A voz edita”, com declamações de poemas e a participação de 12 poetas brasileiros, com curadoria de José Inácio Vieira de Melo. Os saraus também trarão mais dinâmica à palavra escrita e cantada, com momentos espalhados por toda programação. Jackson Costa, Grupo Concriz e Rede Sonora estão entre os nomes confirmados.

A cantora Jussara Silveira apresenta “O Violão e a Palavra”, espetáculo musical em homenagem a Jorge Amado, acompanhada pelo violão de Luciano Salvador Bahia e mediada pelo músico e pesquisador Paquito, na sexta (11), às 21h30.

Integra a programação da Flipelô, na sexta, um diálogo entre o professor Pasquale Neto e o professor Jorge Portugal, atual Secretário de Cultura do Estado, que acontecerá no Museu Eugênio Teixeira Leal, às 16h.

Jorge Portugal também irá lançar neste mesmo dia o livro “Por que o Subaé não molha o mapa”, às 17h30, na Casa Amarela, no Largo do Pelourinho. Ainda na sexta-feira, às 18h30, no Teatro do Sesc-Senac Pelourinho, será lançado o livro “Anos 70 na Bahia”, de Sergio Siqueira.

As crianças terão espaço próprio dentro da programação da Flipelô. A Festa dos Erês terá desde lançamento de livros até contação de histórias. Tudo acontece no domingo (13), das 14h às 17h, no Teatro Sesc Senac Pelourinho.

Estão na programação os lançamentos de livro A Magia das Palavras, de Raíssa Martins, e Caixinha de Fósforos, de Mabel Veloso; contações de histórias com o Teatro Griô e cortejo da Boiada Multicor.

SERVIÇO

O que: Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô)
Quando: 09 a 13 de agosto de 2017
Onde: Centro Histórico de Salvador
Quanto: gratuito
Informações e programação: disponíveis no site da Flipelô

Genocídio em Ruanda transformou Scholastique Mukasonga em escritora

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Scholastique Mukasonga e Noemi Jaffe na Flip, nesta quinta, 27 Foto: Walter Craveiro/Divulgação

Scholastique Mukasonga e Noemi Jaffe na Flip, nesta quinta, 27 Foto: Walter Craveiro/Divulgação

Autora está em Paraty para lançar dois de seus livros; ela também dividiu uma mesa da programação principal com Noemi Jaffy, cuja mãe sobreviveu a Auschwitz

Guilherme Sobota, no Estadão

PARATY – Scholastique Mukasonga – nascida em 1956 em Ruanda e hoje escritora francófona respeitada mundo afora – passou à força pela provação de ver 27 membros de sua família mortos no genocídio naquele país em 1994. Centenas de milhares de tutsi, sua etnia, foram dizimados pelo exército de maioria Hutu, numa guerra civil que ainda desabrigou outros dois milhões de pessoas. Esse trauma, e a necessidade de salvar a memória da família, Scholastique transformou em literatura, que ela apresentou nesta quinta-feira, 27, como convidada da 15.ª Flip.

A Editora Nós publica dois de seus livros por aqui: Nossa Senhora do Nilo e A Mulher dos Pés Descalços, este muito marcado pela história real de sua mãe.

Scholastique dividiu uma mesa da programação principal com Noemi Jaffe, cuja mãe foi sobrevivente de Auschwitz. “São casos completamente diferentes. Scholastique escreve a guerra, eu escrevo sobre a guerra. As missões são distintas. Além de eu saber que tenho uma mãe que passou por aquilo, tenho uma culpa sem sentido de eu mesmo não ter passado. Minha mãe preferiu esquecer para sobreviver. Eu, como escritora, preciso lembrar o que ela precisa esquecer”, disse Noemi no debate no fim da noite de quinta-feira. Noemi é autora e organizadora de O Que os Cegos Estão Sonhando? (Editora 34), inspirado nos diários de sua mãe.

“Escolhi abordar esse assunto tão duro porque na verdade ‘mãe’ significa força, mas também amor, afeição, ternura e doçura”, comentou Scholastique, mais cedo, numa entrevista coletiva. “Tive grande dificuldade, me senti como se lanças atravessassem o meu corpo enquanto escrevia, mas A Mulher… é o livro ao qual eu me sinto mais vinculada como autora”, comentou a escritora, que já publicou cinco outras obras na França, onde vive desde 1992.

Antes disso, ainda nos anos 1960, ela e a família foram forçados a viver numa área subdesenvolvida de Ruanda. Mukasonga depois fugiu para o Burundi e se estabeleceu na França em 1992, dois anos antes do massacre. O sofrimento pós-1994 só começou a cicatrizar doze anos depois, quando a Gallimard publicou seu primeiro livro, Inyenzi ou les Cafards (Inyenzi ou as Baratas), relato autobiográfico que faz alusão à maneira como seu povo era tratado.

Apesar de toda dor, Scholastique dá valor à responsabilidade de contar essas histórias a partir de um país sem tradição escrita. “Em tudo isso existe algo de muito positivo, porque eu convivi com a minha família e tive tempo de guardar os costumes. O fato de poder me lembrar dessas coisas e hoje ser considerada uma guardiã dessa tradição”, comentou na Flip.

Os livros também foram bem recebidos em Ruanda, segundo a autora. “A impressão que eu ainda tenho, quando vou para lá, é a de encontrar minha verdadeira identidade”, afirmou. “Eles me dizem que estavam esperando essas histórias. Agora, cada vez que vou, tenho até que me esconder porque as pessoas começam a cobrar pelo próximo livro”, disse, bem humorada.

O brasileiro e a falta de gosto pela leitura: mito ou verdade?

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du Cesar/iG Literatura no metrô: Mauricio Lima, 32, farmacêutico, lê 'O Cavaleiro dos Sete Reinos', de George R. R. Martin: 'É uma história fantástica, que se passa na época medieval'

du Cesar/iG
Literatura no metrô: Mauricio Lima, 32, farmacêutico, lê ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’, de George R. R. Martin: ‘É uma história fantástica, que se passa na época medieval’

 

Pesquisa recente aponta que a maior parte da população brasileira se considera leitora, no entanto, o tabu de que o Brasil não é um País leitor continua firme e forte. Por que isso acontece?

Publicado no 24 Horas News

Pensar que existem um milhão de outras atividades mais legais que ler um livro não é algo que acontece com poucas pessoas. Para Tatiana Cersosimo, o grande leque de coisas para fazer nos dias de hoje é o principal competidor na corrida do desinteresse pela leitura . Antigamente, para a estudante de comunicação, não eram tantas as opções para ocupar o tempo e por isso o ato de ler era realizado por mais pessoas, com mais frequência.

No Brasil , não é só Tatiana que pensa assim. Muitas das pessoas dessas terras tropicais reproduzem, reiteram e reafirmam aquela velha história de que o brasileiro não tem gosto pela leitura . Por ser do tipo de coisa que só se fala e não se comprova, é que o iG Gente resolveu olhar com um pouco mais de profundidade para essa questão e refletir: será que o brasileiro não se interessa mesmo por leitura?

De acordo com a 4ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, desenvolvida em março de 2016 pelo Instituto Pró-Livro, leitor é aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses. Entrando para o grupo que compõe o time dos que estão sempre com um livro ao alcance da mão, Gabriela Colicigno concluiu 73 leituras em 2016 e, agora em 2017 já está na sua 24ª. “Eu sempre gostei de ler. Aprendi a ler com quase 4 anos. Lia muito gibi e quando eu fiz 8 anos ganhei os primeiros livros do Harry Potter”, conta. “Descobri que tinha livros maiores e comecei a comprar tudo que eu achava”, completa.
O mito do brasileiro não leitor

Ainda segundo a 4ª e mais recente edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, de 2016, a estimativa de público leitor no Brasil levantada no ano de 2015 bateu os 104,7 milhões de cidadãos. Em porcentagem, isso representa 56% dos 188 milhões de respondentes da pesquisa, deixando sobrar outros 44% que se autodenominam não leitores. Como costuma-se ouvir por aí, dados não mentem e dessa vez não é diferente.

De acordo com esse levantamento de apenas dois anos atrás, essa história de que o brasileiro não gosta de ler é um mito, já que a principal motivação para leitura registrada pelo estudo foi o gosto pessoal. No entanto, ainda assim existe uma boa parcela da população que não sente o mínimo de entusiasmo quando o assunto é mergulhar nas páginas de um bom (ou ruim, nunca se sabe, né?) conteúdo.

Nesse sentido e em um bate-papo com a professora de língua portuguesa e linguista Roberta Roque Baradel, não foi difícil perceber que quando falamos na recusa às capas duras e páginas acumuladas, as justificativas vão bem além dos limites de mero desinteresse. De acordo com a professora, a afirmação de que o brasileiro não gosta de ler é uma parte que não pode falar pelo todo. “Eu acho que não é completamente verdadeiro. A questão é que ler é um hábito que a gente não cultiva desde cedo”, diz a docente.

Edu Cesar/iG Literatura no metrô: A professora de inglês Kim Lucas, 42 anos, lê 'Madame Bovary', de Gustave Flaubert: 'Mudei meu estilo de leitura no Brasil'

Edu Cesar/iG
Literatura no metrô: A professora de inglês Kim Lucas, 42 anos, lê ‘Madame Bovary’, de Gustave Flaubert: ‘Mudei meu estilo de leitura no Brasil’

 

Segundo Roberta, muitas vezes a indiferença com a leitura pode ser resultado da obrigatoriedade de ler livros específicos numa certa fase da vida escolar. “A escola às vezes pede coisas fora da contexto para ler. Isso é um pouco enfadonho, dá preguiça nos alunos porque é aparentemente chato”, explica. “A escola não ativa isso e, nem sempre, a família também. Além disso, o mercado editorial não é tão atrativo assim”, complementa.

Entrando em acordo com o raciocínio da professora Roberta, Tatiana Cersosimo, que se considera uma pessoa sem muita simpatia com livros , pontuou que a fase escolar teve um peso considerável para que esse afastamento com a prática de leitura acontecesse. “Tive problemas com leitura quando era mais nova na escola. Eu não lia, não gostava e sempre ia mal nas provas por problema de interpretação de perguntas”, conta a estudante.

De acordo com Tatiana, o problema não são os livros em si, e sim a falta de liberdade para poder escolher leituras de interesse pessoal além das que os colégios colocam como obrigatórias. “Eles sempre passam livros pra gente ler, mas acho que eles podiam deixar mais aberta nossa escolha de leitura”, completa.

Evitando perder a oportunidade de tornar o ato de ler algo natural e desmistificado, a professora Roberta contou como é que faz em sala de aula para icentivar a prática para os próprios alunos. “Nas aulas, quando são de literatura, eu fujo da ideia do clássico. Procuro não adotar o livro em si, mas uma versão adaptada pra que o interesse do aluno venha”, conta.

“No primeiro ano do ensino médio a gente tem que trabalhar lusíadas. Eu não vou fazer meu aluno ler o original e todas as páginas e versos. Já aconteceu de pais de alunos que não leem ou que não gostam de ler me dizerem ‘nossa, não sei o que aconteceu com esse livro, professora, no final de semana ele nem quis sair direito e terminou todinho’”, conta a linguista. “Ninguém vai querer ler o clássico de “Iracema” com 15 anos, vivendo uma situação completamente diferente. Por isso eu procuro trabalhar com adaptações que podem interessar o aluno e que permitem que a partir delas possam ser feitos jornais, debates, análises…”, complementa.
Agravantes do desinteresse

Olhando o raciocínio da professora e da estudante como dois limões para fazer uma limonada, a falta de uma visão simpática para a leitura, que deveria ter sido incentivada desde o início da vida intelectual, é o que afasta o brasileiro dos livros , mas não é por aí que os motivos para o desinteresse terminam.

Edu Cesar/iG Literatura no metrô: O estudante Paulo, 16 anos, lê 'Os Jovens Perguntam - Respostas Práticas': 'Fala do jovem, de quando ele vai evoluindo, crescendo'

Edu Cesar/iG
Literatura no metrô: O estudante Paulo, 16 anos, lê ‘Os Jovens Perguntam – Respostas Práticas’: ‘Fala do jovem, de quando ele vai evoluindo, crescendo’

De acordo com os brasileiros entrevistados na última edição da pesquisa do Instituto Pró-Livro, existem algumas condições desfavoráveis que não contribuem para a formação do interesse pela prática da leitura. Entre elas, estão a falta de tempo, a carência de bibliotecas em mais lugares do Brasil e um fator crucial: os limites do poder aquisitivo de cada cidadão e cidadã.

“Acho a questão do dinheiro relevante porque às vezes um livro custa muito mais do que você tem naquela semana. O dinheiro é um fator importante porque é uma relação direta”, explica Roberta. “Um exemplo que é bem comum de algo que costuma acontecer muito em escola pública é você adotar um livro e ter que pensar na acessibilidade dele. Se ele for muito caro, alguns alunos podem não ter acesso essa leitura”, diz. “Se as pessoas tem um poder aquisitivo maior, pode ser que elas entendam melhor o poder da leitura e adquiram o hábito de ir sempre à uma livraria escolher um livro pra ler”, conclui a docente.

Para a amante de leitura e youtuber Gabriela Colicigno, o gosto por livros e por expandir ainda mais o horizonte não só de conhecimento, mas também de entretenimento , é também uma questão de influência. “As pessoas influenciam você a ler. Algumas pessoas que não tem a influencia desde crianças têm uma certa trava. Alguma coisa vai agradar”, diz. Em relação a desmistificação da ideia de “chatice” que sempre acompanha a prática de ler na cabeça de muitas pessoas, Gabriela concorda com Tatiana e Roberta no sentido de que isso se resolveria na fase escolar. “Nas escolas, por sermos obrigados a ler livros específicos, ficamos com esse ranço da leitura. Precisamos ler autores importantes, mas isso precisa ser abordado de uma forma diferente. Quando vira uma obrigação, as pessoas pegam birra mesmo”, opina.

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