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“Se você não ler, como quer fazer seu filho ler?”, diz o dono da Livraria Cultura, Pedro Herz

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Pedro Herz, presidente do Conselho de Administração da Livraria Cultura, na sua unidade de Porto AlegreJefferson Botega / Agencia RBS

Executivo de uma das maiores redes de varejo de livros fala da falta de novos leitores, das mudanças no mercado e dos planos da empresa

Publicado no Zero Hora

Presidente do Conselho de Administração da Livraria Cultura, Pedro Herz lançou recentemente seu livro de memórias O Livreiro, em que conta como uma das maiores redes de livrarias do Brasil nasceu de uma biblioteca de 10 livros em alemão. Eva Herz (1911-2001), mãe de Pedro, imigrante judia alemã radicada no Brasil, começou uma biblioteca circulante para atender à comunidade de expatriados em São Paulo e expandiu o negócio até abrir uma livraria em 1947. Herz, que assumiu a empresa na sequência da mãe, esteve em Porto Alegre para sessão de autógrafos  conversou com ZH sobre o mercado atual, recentes aquisições da Cultura (como a Fnac e a Estante Virtual) e o que considera o grande problema de qualquer livraria no Brasil: o descompasso na formação de novos leitores.

Com mais de meio século de atuação como livreiro, como o senhor vê o panorama atual? Qual a principal mudança?

Acho que a mudança que existe hoje não é apenas no mercado do livro. O livro é um produto de varejo e é o varejo que está passando por grandes mudanças sem que o caminho seja muito claramente sinalizado. Ninguém sabe direito para onde vai. Quando você fala do varejo, esbarra também no modelo dos shopping centers, você vê a grande quantidade de lojas, de quaisquer produtos, vazias. Este é o problema: o consumidor está mudando de hábitos. Especificamente no livro, não há formação de novos leitores, e leitor se forma em casa. A familiarização do livro com a criança é em casa. A escola pode ajudar, mas é em casa que isso se define. E os casais estão tendo menos filhos.

Mas pela extensão e população, o Brasil não foi sempre um país de poucos leitores, proporcionalmente falando?

Sim, mas estamos em uma crise fantástica. Estamos indo cada ano pior na escola, e assim não estamos formando novos leitores. Há pesquisas recentes que mostram que não estamos indo bem. E isso faz com que o desenvolvimento do Brasil também fique para trás. Não é só na indústria do livro, é no saber como um todo, em todas as áreas, na medicina, no direito, na engenharia. Advogado que não sabe escrever, tá cheio.

Isso não se inseriria também em um fenômeno mais amplo, de que a proliferação do ambiente de rede virtual produziu leitores menos atentos?

Isso é mundial, sem dúvida. Uma grande dificuldade que vejo é que as pessoas não ouvem mais. Elas falam. E falar não é necessariamente a fala oral. Digitar é falar. As pessoas em um elevador todas estão em seus celulares, teclando com os dedões. No cinema, estão falando, em um concerto, estão falando e não estão ouvindo o que alguém disse. Em um texto, um artigo de jornal, uma revista, você “ouve” o que o autor escreveu e fica calado enquanto lê, para depois considerar aquilo bom ou ruim. E isso, de ficar calado, é a coisa mais difícil atualmente.

Pedro Herz, entre seus seus filhos Fábio (E) e Sérgio (D), e atrás dos pais Eva Herz, fundadora da Cultura, e Kurt HerzEditora Planeta / Divulgação

Qual o livro que o senhor está lendo agora?

Estou lendo a história da humanidade escrita pelo professor israelense Yuval Harari, Sapiens, foi publicado até pela editora daqui, a L&PM. É bem legal.

O senhor lê em e-reader?

Eu leio, mas prefiro o papel. Estou com um smartphone aqui comigo, mas para ler mesmo eu prefiro em papel. Mas eu fico feliz de ter a opção de, por exemplo, não precisar andar pra todo lado com um Grande Sertão Veredas, por exemplo, que é um livrão.

A que o senhor atribui a dificuldade dos e-readers de conquistarem mercado?

O aparelho não faz o leitor. Quem faz o leitor é a casa, mesmo que a criança não seja alfabetizada. O gesto dos pais pegando um livro contamina. Meus filhos pegavam os livros de ponta-cabeça quando ainda não eram alfabetizados. Eles não sabiam ler, mas estavam imitando o gesto que me viam fazer, o de ter o livro nas mãos. E hoje, adultos, são leitores.

Qual seria uma receita sua para fazer um leitor?

Eu digo: se você não ler, como quer fazer seu filho ler? Essa é a frase que deveríamos repetir para todos os pais. Se eles não dão o exemplo de ficarem confortavelmente sentados, em silêncio, porque ler é, na maioria das vezes, uma atividade solitária, se ele não consegue fazer isso, não vai convencer seus filhos de que aquilo é importante.

No livro de memórias O Livreiro, o senhor comenta que o modelo de livrarias megastores talvez não seja mais sustentável. E esse é um modelo que a Cultura ajudou a consolidar no Brasil. O senhor está reavaliando a própria estrutura de seu negócio?

Sim, todos os varejistas estamos. Eu não consigo mais viver apenas de livros. Eu tinha CDs, DVDs, alguma coisa a mais, temos café, teatros em algumas unidades. Agora, sustentar isso está cada vez mais difícil, porque o consumo foi para outro caminho. Como perdemos os CDs e os DVDs, estamos buscando outros produtos para pôr no lugar físico dessas lojas. Na parte eletrônica, vale a velha frase: “Se funciona, é obsoleto”. Então a substituição é brutal, e em uma rapidez e uma velocidade impressionantes.

Há pouco tempo, a rede Cultura adquiriu as lojas da Fnac no Brasil. A Cultura, embora trabalhe com eletrônicos, tem um perfil mais voltado ao de uma livraria tradicional, enquanto a Fnac vende até alguns eletrodomésticos. Com as duas na mesma rede, vai ocorrer alguma adequação de ambas? Vão ser mantidos ambos os perfis distintos?

É provável que vá se adequar, mas com um dinamismo fantástico de substituição.

Mas quem vai se adequar a quem? A Fnac à Cultura ou a Cultura à Fnac?

A Fnac vai mudar muito mais do que a Cultura, com certeza. Sabe, a coisa eletrônica evolui de uma forma tão rápida que é mais veloz do que o comportamento humano. Você quer comprar um modelo novo de telefone celular. Você vai pensar, discutir com a sua família, e quando você finalmente comprar e chegar com ele em casa, ele será velho. Com o livro, as coisas não acontecem nessa velocidade.

Os senhores passaram a cuidar da operação de e-commerce da CNOVA, que reúne Casas Bahia, Ponto Frio e Extra, lojas de varejo de produtos diversificados. O senhor quer fazer da Cultura uma Amazon brasileira?

Não totalmente, porque não quero vender vitamina para cavalo (risos). Mas ser a Amazon é uma boa meta, oxalá eu consiga, porque eles são muito bons, eficientes e inteligentes. E estão montados no dinheiro para fazer e inovar como quiserem.

Para livrarias como a Cultura, unidades muito grandes com um acervo gigante, isso significaria trabalhar então com lojas menores?

Não necessariamente. Elas podem até aumentar, para diversificar mais os produtos. Mas ali você vai ver, decidir o que vai comprar e depois vai buscar o melhor preço.

O senhor também comprou a Estante Virtual, um agregador de sebos. Por que um dos maiores vendedores de livros novos decidiu lidar com livros usados?

Porque eu acho que livro novo é aquele que você não leu. Se você se interessa por um título que está esgotado no mercado, o caminho é esse. E é uma plataforma digital absolutamente fantástica. Extremamente útil e boa em que você consegue ter acesso a coisas que não consegue comprar em canto nenhum porque não são editadas mais. Particularmente, fico muito feliz de termos feito esse negócio. Não gosto muito da palavra “sebo”, eu prefiro “antiquário”, “raro”, mas “sebo”, coisa ensebada? Não sei a origem da palavra, mas eu não gosto. Só que é a palavra que se usa e eu não vou mudar.

Há alguns anos, em uma entrevista, o senhor comentava que a maioria das editoras do Brasil estava em um grau baixo de profissionalização e que não sabia trabalhar com o produto livro. O senhor acha que isso mudou?

Algumas sim, outras não. Por uma questão até de recursos de investimento. Hoje a gente tem e trabalha bastante com Business Inteligence, inteligência artificial que me permite saber o que as pessoas olham e procuram. Isso pode me dar pistas para uma série de coisas. Essa é uma metodologia usada pelo varejo em larga escala. Te traz um monte de informações. Em um supermercado, por exemplo, determinados produtos estão em um lugar porque se sabe que é o melhor lugar para posicioná-los. Hoje eu sei o que você está vendo quando entra no nosso site.

Como fica a privacidade do consumidor?

Mas a privacidade hoje já não existe no ambiente digital. Eu sei que você olhou um livro de plantas. Aí posso chegar e fazer a oferta de um regador para você, um vaso. Isso é uma abordagem inteligente. Agora, quanto à privacidade, basta ter um celular no bolso e alguém em algum lugar está monitorando.

Como o senhor vê a atual onda dos Youtubers literários? Há poucas semanas, a Youtuber Jout Jout leu um livro infantil inteiro da Companhia em seu canal e ele se tornou fenômeno de vendas.

São fenômenos momentâneos de consumo.

Eles não seriam hoje novos formadores de opinião?

Podem ser, mas voláteis.

Qual sua posição sobre a recente campanha do preço único nas capas de livros?

O preço de publicações no mundo é fixo. Se você comprar um jornal, tem o preço impresso. Se comprar uma revista, tem o preço impresso. Se comprar livros lá fora, eles vêm com o preço impresso. É o uso e o costume. No Brasil, nunca se teve isso além de revistas e jornais por causa da inflação. Mas se você for no Exterior, tem o preço na orelha, impresso, sugerido, e sempre que você tem alguma ação, reduz esse preço.

Eu, particularmente, achei que o senhor teria uma opinião diferente nessa questão do preço fixo, porque suas livrarias são das que têm condições de negociar variações e descontos mais substanciais.

É que há coisas que estão acontecendo, principalmente no e-commerce. A Amazon, por exemplo, não liga nem um pouco para dar lucro. Ela inventa coisas novas que fazem a ação subir, mas os acionistas não ganham dinheiro. Se você é possuidor de “xis” ações, você não tem todo ano distribuição de lucro. O que está acontecendo no comércio eletrônico de modo geral são empresas muito grandes que não estão muito preocupadas com esse resultado. Então compram o livro por R$ 10 e vendem por R$ 3. E é mais barato eu comprar desse fornecedor do que da editora, porque eu não tenho essa margem e vivo do resultado do meu negócio.

No seu livro, o senhor comenta que gosta de fazer compras em estabelecimentos menores e mais aconchegantes. Essas movimentações de mercado na verdade não significam um risco à própria existência das pequenas livrarias?

Elas estão renascendo nos EUA. Chamam de “independent bookstores”, que não são de grandes cadeias. Isso está crescendo por lá.

Sim, isso a gente chamava de “livrarias de calçada”. Mas no Brasil a realidade é de pequenas livrarias fechando.

Vai chegar aqui no Brasil. As pessoas gostam de conversar com alguém, de ser bem atendidas por alguém que entenda aquilo que você está falando. Porque às vezes o cara vem para você procurando um livro de que ele ouviu falar, não sabe direito o título, mas acha que a capa é vermelha. E, no fim, é azul. Isso acontece muito. Então esse interlocutor é parte do atendimento humano. As pessoas vão querer continuar sendo bem-atendidas em qualquer estabelecimento, seja a livraria, seja um restaurante.

Há algum livro que o senhor se recusaria ou já se recusou a vender?

Sim, claro. Livros que pregam o racismo. Eu me recuso a vender livros que pregam qualquer forma de discriminação política ou religiosa. Eu sou judeu. Se alguém vem me dizer em um livro que o Holocausto não existiu, eu não quero vender esse livro. Não sou obrigado. Compro aquilo que quero vender. E não adianta reclamar. Tem gente que me pergunta por que eu não vendo o livro do Hitler (Mein Kampf, que entrou em domínio público em 2016 e ganhou edições em vários idiomas). Não vendo porque não quero. Hitler expulsou meus pais da terra deles. E nós tínhamos um presidente da República, Getúlio Vargas, que era amigo dele, não estou falando nada de novo aqui. Meus pais não conseguiram desembarcar no Brasil quando fugiram da Alemanha porque o governo do Getúlio não permitiu. Não quero participar disso. Aliás, acho que o lugar mais democrático do mundo é uma estante de livraria ou biblioteca, onde posições antagônicas convivem pacificamente uma ao lado da outra.

Mesmo assim, há coisas que o senhor não põe na estante. Há coisas das quais a democracia precisa ser defendida?

Com certeza, porque aí é um debate do qual eu não quero participar. Eu respeito minha opinião e vou atrás dela. Não há lei que me obrigue. E não adianta reclamar. Até porque as pessoas se tornam muito agressivas. Eu vi o início da internet, estou na internet desde 1994. As pessoas iam ao site da livraria lá no início e escreviam “Cheiquespir”. Aí aparecia um pop up de “autor não cadastrado”. E o valentão que havia escrito Shakespeare com quatro “X”, três cedilhas e 19 “S” respondia: “Mas que merda de livraria”. Isso eu vi, era assim. Além disso, também não sei se o João que está escrevendo é João e se a Maria é Maria. O anonimato que a internet proporcionou é a origem das fake news.

 

Livraria Cultura anuncia a compra da Estante Virtual

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Loja da Livraria Cultura em Porto AlegreArivaldo Chaves / Agencia RBS

Loja da Livraria Cultura em Porto AlegreArivaldo Chaves / Agencia RBS

Rede divulgou que adquiriu a plataforma online, um dos mais conhecidos espaços virtuais de venda de livros usados no Brasil

Publicado no Zero Hora

A Livraria Cultura anunciou nesta terça-feira (26) a compra da plataforma online Estante Virtual, a mais conhecida rede de “sebo virtuais” da internet. A plataforma, que se denomina um “marketplace” de livros, não é exatamente uma livraria, mas um portal em que sebos e vendedores cadastrados oferecem seus livros à venda.

“As práticas da Estante convergem com os valores da Cultura, uma empresa que começou justamente alugando livros novos e usados, como quis minha avó, Eva Herz”, disse, em um comunicado oficial, Sergio Herz, presidente da Livraria Cultura e da Fnac Brasil. O valor da compra da Estante Virtual não foi divulgado.

A Estante Virtual entrou no mercado a partir de 2005, criada pelo empresário André Garcia, e afirma ter um cadastro de 4 milhões de clientes, além de já ter vendido 17,5 milhões de livros vendidos. A plataforma cresceu tanto que passou a receber críticas a partir de 2012 de vários livreiros insatisfeitos com os critérios de transparência e das taxas cobradas dos negociantes. Em 2014, de uma única vez, 150 livreiros retiraram seus acervos da plataforma em protesto, levando a renegociações com a empresa.

A compra da Estante Virtual vem na esteira de outros movimentos de ampliação da presença da Livraria Cultura no meio digital. A empresa passou a cuidar recentemente da operação de e-commerce da CNOVA, rede que reúne Casas Bahia, Ponto Frio e Extra. As três lojas sempre venderam livros voltados ao mercado leitor popular, como reflexões devocionais de líderes religiosos, compilações de dicas de saúde e obras de autoajuda.

A Livraria Cultura neste ano também comprou a operação brasileira da Fnac, multinacional francesa com 12 lojas em sete Estados. A rede brasileira, por sua vez, tem 18 livrarias no país. A notícia do negócio com a Fnac surpreendeu o mercado na época em razão da situação financeira delicada da Cultura, a terceira no segmento livreiro no país. O movimento da Cultura, entretanto, se alinha com uma tendência recente verificada nas grandes redes de livrarias, a de investir em diversificação de produtos e em plataformas de comércio virtual para driblar a retração do setor em ano de crise econômica.

A Cultura também não informou se pretende fazer algum tipo de mudança tecnológica ou de processos nas vendas de livros ou se vai alterar algo no processo de venda e cadastramento.

Livraria Cultura e Saraiva passam a vender dentro do Mercado Livre

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Livraria Cultura (foto), que foi pioneira no e-commerce, tem focado suas atenções em diversificar seus canais de venda.  Hugo Harada/Gazeta do Pov

Livraria Cultura (foto), que foi pioneira no e-commerce, tem focado suas atenções em diversificar seus canais de venda. Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

Parcerias fortalecem atuação do Mercado Livre no segmento literário e aproximam a empresa dos grandes negócios

Publicado na Gazeta do Povo

Apesar de ter crescido como uma plataforma para que pessoas físicas e pequenas empresas pudessem anunciar seus produtos, o Mercado Livre tem se aproximado cada vez mais dos grandes negócios. A empresa fechou parcerias com a Livraria Cultura e a Saraiva para que ambas vendam livros dentro do site do Mercado Livre. São parcerias que fortalecem o e-commerce do Mercado Livre no segmento literário e também dão continuidade ao projeto da empresa de ser o maior site de comércio eletrônico do país.

A Livraria Cultura fechou a parceira com o Mercado Livre neste mês. A empresa colocou à venda mais de 30 mil livros no site do Mercado Livre, com a possibilidade de expandir para até 250 mil títulos. Já em agosto, foi a vez da Saraiva anunciar a parceria com a gigante do comércio eletrônico. A livraria colocou, no primeiro mês, mais de mais de 20 mil livros de literatura nacional e em língua estrangeira à venda na plataforma do Mercado Livre. Hoje, as obras já passam de 70 mil.

Além da Cultura e da Saraiva, o Mercado Livre já conta com a parceira da Livrarias Curitiba e da Livraria Martins Fontes. A empresa paranaense começou a vender no Mercado Livre em junho e já oferece mais de 20 mil livros. A Martins Fontes entrou no e-commerce de origem argentina em setembro e oferece, atualmente, mais de 50 mil obras.

O Mercado Livre conta com mais de 4 milhões de livros anunciados em sua plataforma, o que inclui os títulos disponibilizados por pessoas físicas e pequenos e médios negócios. No ano passado, esse número era de 2,3 milhões.

A Fnac Brasil era estruturalmente deficitária, diz diretor

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Loja Fnac na Avenida Paulista, em São Paulo: uma das 12 unidades da empresa francesa no Brasil (Foto: Reprodução/Facebook/Fnac )

Loja Fnac na Avenida Paulista, em São Paulo: uma das 12 unidades da empresa francesa no Brasil (Foto: Reprodução/Facebook/Fnac )

 

Varejista francesa revela por que vendeu suas operações no país à Livraria Cultura

Publicado na Época Negócios

Nesta semana, a varejista francesa Fnac Darty surpreendeu o mercado anunciando a venda de suas operações no Brasil à Livraria Cultura. Desde o início do ano, a empresa, que conta com 12 lojas no país, tinha expressado sua vontade de encerrar as atividades por aqui. O que causou surpresa, portanto, não foi a venda em si, mas a forma como se deu a operação. Segundo informações da coluna Lauro Jardim, do jornal O Globo, a Fnac teria oferecido R$ 150 milhões para ir embora sem nada. Ou seja, “pagado para sair”. A tática seria mais barata (e vantajosa à marca) do que simplesmente fechar as portas. Em conversa exclusiva com Época NEGÓCIOS, por telefone, Florian Ingen-Housz, diretor de estratégia da Fnac Darty, confirmou que o preço foi “negativo”, em razão da “estrutura deficitária” da Fnac Brasil. Mas negou que a quantia tenha sido tão alta. Aqui, ele revela o porquê de a francesa ter resolvido deixar o país e faz um balanço da passagem da companhia pelo Brasil.

Por que a Fnac decidiu que era hora de vender suas operações?

No começo de 2017, já mostramos nossa intenção de descontinuar as atividades. Tem muito a ver com as decisões que tomamos na Europa. A Fnac se fundiu com a [loja de eletrônicos] Darty no ano passado. Essa empresa atua somente na Europa. Portanto, temos desafios internos no que diz respeito a integrar as duas companhias para formar um novo grupo. É uma grande tarefa, pois temos de unir sistemas, políticas de comércio… Além disso, há questões externas. A Amazon, por exemplo, é uma ameaça constante. Isto é, precisamos focar na Europa. Esse é o primeiro ponto. Em paralelo, nossas operações no Brasil sempre foram pequenas. Temos apenas 12 lojas. Se nós quiséssemos ser competitivos aí, precisaríamos de muito esforço e energia. No contexto que eu acabei de descrever, não tínhamos isso — os recursos em termos de gestão, energia e dinheiro. Então, tomamos a decisão de ser 100% europeus.

O Brasil era uma parcela pequena do faturamento global?
Absolutamente. E isso se tornou ainda mais verdade depois da aquisição da Darty. Antes, já era algo como 5%. Depois, foi para 1% ou 2%, com a fusão. Era uma contribuição muito pequena ao nosso faturamento. Nós tivemos de encontrar uma solução: confiar nossa operação a alguém que sabíamos que tomaria cuidado dela.

Como era o desempenho das lojas aqui?
Eram boas lojas. Criamos uma boa reputação, além de um ótimo desempenho na internet. Mas tínhamos uma participação pequena no mercado. Então, embora as lojas fossem atrativas, faltava alguns pontos na margem bruta para que fôssemos lucrativos. Com só 12 lojas, éramos estruturalmente deficitários.

Como foram as negociações com a Livraria Cultura?
Estamos no Brasil há um tempo, então conhecíamos as empresas locais. E tenho de dizer: costumo ir ao Brasil com certa frequência, e sempre gostei da Livraria Cultura. Eles têm uma identidade forte e uma boa gestão. Criaram uma marca muito forte. E nós compartilhamos muitas características. Temos o mesmo compromisso com a promoção de cultura. As pessoas deveriam ir à Fnac sem ter de comprar nada — para sentar no chão e ler livros. E isso é o que você vê na Livraria Cultura. Por outro lado, a Livraria Cultura ainda não tinha eletrônicos. Isso é o que faz com que a união seja bem estratégica e relevante. Com a aquisição da Fnac, a Livraria Cultura pode se elevar ao próximo nível — não só em termos de tamanho, mas em termos de oferta. Acreditamos que a combinação vai criar bastante sinergia. Estamos muito felizes.

Vocês não divulgam o valor da compra. Mas foi noticiado no Brasil que a Fnac teria praticamente “pagado para sair”, uma vez que seria mais barato do que simplesmente fechar as portas. A quantia teria sido de R$ 150 milhões.

Nós não falamos sobre números, mas o valor que você mencionou é extravagante. Não “pagamos para sair”. Nossa subsidiária brasileira era estruturalmente deficitária, portanto, um preço negativo é justificável. Nossa vontade era dar à Fnac Brasil as melhores condições de sucesso dentro da nova realidade, e escrever uma nova página na história da empresa.
Se nós quiséssemos ser competitivos no Brasil, precisaríamos de muito esforço e energia. Não tínhamos isso”

Vocês chegaram a negociar com outras empresas?
Não revelarei nada quanto a isso. Mas posso dizer que esse foi um processo competitivo.

A Livraria Cultura poderia vender a Fnac Brasil daqui a um tempo para um terceiro, se assim quisesse?
Sim.

Como vai funcionar a partir daqui? A Livraria Cultura vai continuar usando a marca?
Eles são os novos donos da Fnac no Brasil, então caberá a eles decidir. Oferecemos a eles a licença da marca. Não sei como irão utilizá-la. Mas de fato acredito que, no começo, continuarão usando a nossa marca.

Vocês planejam voltar para o Brasil, eventualmente?
Não, não temos planos de voltar.

De forma geral, o senhor avaliaria a passagem pelo Brasil de forma positiva?
Temos muito orgulho de ter operado no Brasil — ter tido a chance de criar uma marca bem-sucedida tão longe da França. Eu vejo que a Fnac é muito conhecida no Brasil. Estava num táxi [no Brasil] outro dia e, conversando com o taxista, contei para ele que trabalhava na Fnac e que eu estava vindo de Paris. Ele me disse: “Nossa, não sabia que tinha Fnac na França”. Isso mostra que a Fnac é realmente percebida como uma marca forte e local. Temos muito orgulho de ter alcançado isso.

Fnac vai investir em lojas antes de repassar operação no País à Cultura

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Um dos desafios da Cultura será incorporar o segmento de eletroeletrônicos, que é o carro-chefe da Fnac. Foto: REUTERS/Jacky Naegelen

Um dos desafios da Cultura será incorporar o segmento de eletroeletrônicos, que é o carro-chefe da Fnac. Foto: REUTERS/Jacky Naegelen

Notícia pegou o mercado editorial de surpresa, uma vez que o grupo Cultura passa por um momento financeiro difícil, com atraso de pagamento às editoras

Fernando Scheller, Luciana Dyniewicz e Mônica Scaramuzzo no Estadão

A varejista francesa de livros e eletrônicos Fnac está deixando o País após 18 anos. Oficialmente em busca de um parceiro para o negócio brasileiro desde fevereiro deste ano, a companhia anunciou nesta quarta-feira, 19, um acordo com a Livraria Cultura, controlada pela família Herz. Segundo apurou o Estado, antes de repassar o negócio por um valor simbólico para o grupo nacional, a Fnac também se comprometeu a investir cerca de R$ 150 milhões no negócio.

A marca Fnac será usada pela Cultura em um primeiro momento, dizem fontes, mas não está definida como será a relação comercial no longo prazo.

Dificuldades. O anúncio pegou o mercado de livros de surpresa, até porque a Cultura passa por dificuldades no momento, inclusive com atrasos de repasses de pagamento a editoras. O atraso, que é de cerca de seis meses, segundo fontes de mercado, está em fase de renegociação neste momento e a expectativa é que a situação não deva ser solucionada antes de 2018. Uma fonte do setor diz que as editoras só foram avisadas da união entre Cultura e Fnac na manhã de quarta-feira.

Depois de atingir a marca de R$ 440 milhões em 2014, a empresa viu sua receita cair cerca de 17% nos últimos dois anos, atingindo R$ 380 milhões em 2016. Além disso, os últimos dois anos foram de cortes no setor administrativo – a companhia cortou 800 funcionários no período, reduzindo seu efetivo em 40% desde 2014.

Em sua conta no LinkedIn, no entanto, o presidente da Livraria Cultura, Sergio Herz, comemorou o acordo com a Fnac. Segundo ele, trata-se de um passo que vem para transformar o negócio da companhia, fundado há 70 anos. Procurada pelo Estado para explicar as condições do acordo, Cultura e Fnac não quiseram se pronunciar.

Em entrevista ao jornal em março, Herz havia minimizado o atraso do repasse às editoras, dizendo que se tratava de um processo “normal” diante da crise do varejo. Em fevereiro, chegou a circular no mercado a informação de que a Cultura estava à venda e que a concorrente Saraiva analisava a aquisição – informação que foi negada pelo empresário.

Na época, Sergio acrescentou que os custos de manutenção de lojas físicas vinham pressionando a operação – por isso, um de seus projetos era reforçar o e-commerce da Cultura. Agora, entretanto, com a incorporação da Fnac, a rede de unidades deverá ser ampliada para 29 lojas, agora de maior porte.

Outro desafio da Cultura será incorporar o segmento de eletroeletrônicos, que é o carro-chefe da Fnac. Segundo uma fonte do setor, a francesa havia desistido de livros nos últimos meses, reduzindo drasticamente novos pedidos.

A Fnac foi assessorada pelo Santander e pela Veirano Advogados. A Cultura teve assessoria do Souza Cescon Advogados.

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