Vitrali Moema

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A livraria como ponto cultural não deve deixar de existir, diz Luiz Schwarcz

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Luiz Schwarcz, fundador e dono da Companhia das Letras, uma das principais editoras brasileiras, em sua casa.

Presidente do grupo Companhia das Letras fala sobre sua carta e crise no setor

Francesca Angiolillo, na Folha de S.Paulo

Com dívidas exorbitantes, as maiores redes de livrarias do país, Cultura e Saraiva, entraram com pedidos de recuperação judicial no lapso de um mês, ameaçando o setor editorial como um todo.

Uma carta, divulgada na última terça (27), foi a maneira que Luiz Schwarcz, 62, presidente do grupo Companhia das Letras, encontrou para convocar ao enfrentamento do que chamou de “os dias mais difíceis” do livro no país.

O editor recebeu a Folha na sede da Companhia das Letras para analisar a crise e comentar sua opção pelo apelo direto ao leitor. “Não é assim que a política está funcionando?”

Na opinião de Schwarcz, deve haver uma reversão na tendência de alta de vendas que vinha desde 2017. Para ele, editores contribuíram para a crise ao segurarem o preço dos livros, apesar da inflação.

Nos últimos dias, ele diz ter visto otimismo com a mobilização gerada após sua carta.

“O que vai acontecer agora no Natal, eu não sei dizer.” Mas, conta, “publicitários mandaram slogans para lojas fazerem cards digitais, lojas do interior pedem chamadas para campanhas próprias, novas campanhas entrarão no ar por sites de mobilização. Não sei o tamanho da ajuda, mas alguma haverá.”

A crise deve afetar editoras de diferentes portes ao mesmo tempo? Acho que editoras de portes diferentes sentem a crise diferentemente. Muitas editoras pequenas não forneciam para essas redes. As grandes foram as que tiveram maiores danos pelo volume de crédito que tinham, ou pelo volume de livros consignados em poder das livrarias. No entanto têm mais poder de recuperação. O grave talvez seja para as médias; elas podem representar parte significativa do montante que não será pago.

O Brasil esteve na maré contrária um tempo atrás, as livrarias muito mal lá fora e muito bem aqui. Isso se inverteu.

O que acho que aconteceu em parte nos EUA e que é diferente daqui, é que houve uma concentração muito grande na venda online e um crescimento da venda digital, que depois diminuiu. Agora você tem as livrarias independentes se fortalecendo de novo.

Nos EUA a venda online representa 50% do mercado. No Brasil não existe isso. Houve outros fatores na minha opinião, erros de gestão sobre os quais pretendo falar pouco, porque não cabe a mim julgar.

Quais? Em linhas gerais, o que eu posso dizer é que essas redes não voltaram com o Brasil. Continuaram com um número grande de pontos, talvez até por motivos nobres, ou não queriam olhar para a recessão que estava pegando também o leitor. Demoraram para se adequar, até agora.

No momento que o Brasil começa a crescer, que uma classe C ou D começa a entrar no mercado, cria-se a ilusão de que os volumes vão crescer, o que de fato começa a acontecer, e para uma classe que estava crescendo na pirâmide educacional, mas não proporcionalmente na de renda. Então os editores, para entrar nas listas de mais vendidos, começam a quantificar o livro; R$ 29,90 era quase padrão para poder ser best-seller, depois R$ 34,90, R$ 39,90. Então você imagina as redes de livrarias na ilusão de crescimento, os editores na ilusão do best-seller e esses livreiros tendo que pagar salários e aluguéis indexados pela inflação.

Os erros não foram só dos livreiros. Os editores contribuíram. Protagonistas das duas livrarias que estão em dificuldade falavam explicitamente: “Meus aluguéis estão subindo e os preços dos livros, não”.

Uma editora grande não quebra numa crise dessas? Na minha opinião, não. Elas têm caixa acumulado, ou seus sócios têm capacidade de reinvestir. O que acontece com as grandes é que elas tiveram cortes significativos em termo de número de livros a lançar.

Vocês se refrearam? A Companhia passou de 350 livros por ano para 300 e deve, no ano que vem, cortar mais 15% ou 20% dos livros programados. Você fecha portas para novas aquisições, atrasa livros com capacidade mais lenta de retorno, é obrigado a segurar a rapidez com a qual reimprime esgotados. Temos começado a renegociar contratos e a falar que vamos soltar só em digital. Mas é um dano.
As demissões nas editoras grandes foram bastante significativas. Na Companhia foi muito pouco, mas, se não conseguirmos realocar as vendas dessas redes rapidamente…

O Natal vem aí. Foi negociado algum acordo com as livrarias que não estão recebendo livros? A Companhia foi uma exceção no sentido de se mostrar aberta à reposição dos estoques nessas duas redes.

Em qualquer circunstância ou agora? Agora. Em geral nós tivemos um relacionamento [com as livrarias] que alguns concorrentes consideram excessivamente generoso, ou complacente. O fato de eu na minha carta não acusar ninguém foi objeto de crítica.

As editoras não podem mais assumir o risco de créditos significativos. Mas acho que nossos livros voltarão para essas lojas num prazo curto. A esperança que tenho é que os esforços permitam que essas livrarias encontrem investidores, porque o produto, como está na carta, é uma das únicas mídias que não tiveram disrupção [com o digital]. Não há mudança de paradigma de como se produz o livro, de como é feito, como é vendido.

Pelo paradigma daqui as livrarias ficam com 50% do valor de capa. É justo? As maiores ficam com 50%. O editor, com 50%, tem que pagar seus custos, o direito autoral. É duro falar do que é justo no sistema capitalista. Não sou partidário do ultraliberalismo, sou defensor da lei do preço fixo, que limita a competição no primeiro ano de existência do livro. Alguns jornalistas têm considerado um roubo contra os leitores. Não. O editor não ganha mais.

Se você padroniza muito o tipo de rede para um tipo de livro, e a concorrência livre permite que livrarias trabalhem com margem negativa, ou cheguem ao ponto de colocar seus robôs competindo, você efetivamente trabalha contra a diversidade, contra o editor e o livreiro pequenos.

Se ainda estamos publicando livro como 500 anos atrás, a livraria como ponto cultural onde se expõe essa diversidade não deve deixar de existir.

O sr. não tinha ecommerce… Hoje temos. Estamos mudando. A outra parte da carta era o desafio de propor soluções criativas para isso. Os editores vão ter que se reinventar. Nós sempre dissemos “não vamos competir com os livreiros”. Hoje você pode encontrar qualquer livro da Companhia no marketplace da B2W. Vamos entrar em todos os marketplaces, criar uma logística própria. Se uma editora grande pensasse nisso um ou dois anos atrás, teria oposição feroz dos livreiros. Hoje temos de trabalhar muito com as livrarias que podem crescer.

Que responsabilidade tem o varejo digital na crise? Acho que o varejo digital nem veria com maus olhos uma autorregulação. Nós fazemos isso, se vemos descontos muito altos, destruindo a cadeia, muitas vezes temos poder de mercado para dizer “não vou te fornecer esse livro”. Chegamos a pensar até a ter nosso robô para enfrentar os do mercado. A crise está mostrando para os editores, no mínimo, que temos de valorizar o produto. Ir ao cinema, para um casal, com estacionamento, é bem mais caro que um livro. Um livro normal não custa R$ 80. Por que as pessoas acham que um livro não pode custar R$ 80?

E quanto à reinvenção? Lançamos no site uma coisa chamada Companhia na Rua. Vamos estar em dez feiras até o final do ano, só em São Paulo. O leitor poderá saber onde nós estamos. Quando livros começaram a faltar nas redes, criamos o Socorro, Companhia. Começamos a ter reclamações, então nesse serviço você fala seu CEP e dizemos onde tem ou mandamos para o lugar mais próximo.

Não é simples. A editora nunca foi uma especialista em varejo. Vamos ter que aprender. Vamos colocar bikestores nas ruas e outras coisas. Queremos ainda preservar as lojas, mas o volume do movimento que vai deixar de existir, até novas lojas se formarem, uma rede comprar outras, aparecer um investidor… Os leitores não diminuem.

Como vê o impacto da carta? Foi incrível, nunca imaginei. Sentei no sábado, escrevi uma versão, mandei para algumas pessoas, falaram que estava longa. Ainda é longa. Falei “vou pôr no ar”. Não é assim que a política está funcionando, para o bem e para o mal? Você cria redes de solidariedade, tentei criar uma para o bem. Não tenho Facebook, Instagram, não sou operador das novas mídias. Mas falei: “Qual é a forma de comunicar hoje? É com franqueza, sinceridade”. Não imaginava que minha carta seria repassada. Estava pedindo que as pessoas passassem, elas, mensagens de amor ao livro.

O país está em crise, as livrarias fizeram erros, os editores calcularam mal o valor do livro; eu, leitor, sou instado a salvar o barco e sem descontos. Não houve reações contrárias? Recebi duas de pessoas que acharam que fui excessivamente generoso com as redes. Recebi uma de uma livraria no interior do Paraná, que diz que faço esse apelo, mas não prestigio a livraria pequena. E uma quarta, de um distribuidor que deixou de trabalhar para a Companhia, que diz que a ganância dos editores [ao adotarem distribuição própria] levou a isso.

Não concordo com a questão dos descontos. Você cria uma reserva para o primeiro ano e permite que livrarias que carregam catálogo também tenham as novidades. Nos EUA, o leitor não compra o “hardcover”, ele espera um ano pelo “paperback”. Ou compra o digital. Que diferença isso faz para que se possa manter a existência de uma rede livreira e de pequenos lançamentos saudável?

Um dos problemas foi a consignação. Isso não entrou no debate antes? O certo seria: vendeu o livro na loja, apita aqui, sai do meu estoque, vai para meu débito de direito autoral. Criamos um sistema que depende de um meio digital muito confiável ou de uma relação de paridade muito grande. No começo era tão menor o volume que, no final do ano, havia uma contagem física. As livrarias cresceram tanto que eu não tinha mais condição de fazer isso. A consignação foi virando um monstro. Antes do aguçamento da crise, já estávamos dizendo às livrarias “comecem a pensar que o sistema vai ter que mudar”.

Continuam consignando? Continuamos. Mas vai ter que haver uma adaptação, um sistema misto, ou um sistema de compras. Depois que passar a tempestade, se eu tiver a capacidade de investir num sistema de TI, a Penguin Random House já desenvolveu mecanismos de cálculo de tiragem, mecanismos para saber quanto exatamente tem em cada loja, você controla como fazer as reposições, reimprimir. Tem caminhos. Mas você precisa de um mercado minimamente vivo e saudável.

O sr. escreveu outra carta antes, pedindo voto em Fernando Haddad. Que perspectivas o sr. acha que desenham para a cultura e os livros no novo governo? Acho que julgar o próximo governo antes de ele estar empossado é temerário. Eu esperava para a carta anterior um congraçamento que era, claro, muito mais difícil de realizar do que para os livros. Mas não aconteceu. Eu dizia que o PT que tinha chegado ao segundo turno fizesse a autocrítica, assumisse posturas de responsabilidade no Orçamento e, em troca disso, que as pessoas se juntassem para que não houvesse uma mudança na forma como a democracia brasileira tinha sido construída.

Nas duas cartas, o sr. pediu dois votos de confiança para sistemas em revisão. Só que é muito mais fácil revisar o mercado editorial do que o país. No caso da outra carta, houve um pedido para que eu escrevesse aos editores, de uma pessoa ligada à campanha do Haddad. Era antes do primeiro turno, eu falei “não, se ele for para o segundo turno eu faço”. Não sou militante do PT, sempre fui mais para o centro-esquerda do que para esquerda. E a editora é plural —outro dia, desafiei os editores a procurarem bons livros de direita, a direita boa precisa de valorização. Estava muito angustiado com a possibilidade de não haver uma junção das pessoas e fiz aquela carta. Alguém que respeito muito falou: “Que coragem defender o perdedor”.

O sr. espera não estar defendendo um perdedor desta vez. Tenho praticamente certeza de que estou defendendo um vencedor.

O sr. acha que é agudo ou crônico? É agudo e vai passar. Se alguma ideia criativa dos editores vingar, se novas formas de relacionamento com os leitores surgirem. A questão é: todos vão se recuperar?

Narval Comix, editora de Rafa Coutinho

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Breno Castro Alves, no Projeto Draft

Depois de quase quebrar, a Narval Comix, editora de Rafa Coutinho, encontrou seu caminho empreendendo em rede

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Rafael Coutinho não tem medo de inovar e está testando modelos e artistas na Narval Comix.

Rafael Coutinho conversa desenhando, debruçado sobre uma página incompleta, grafite cinza cobrindo o papel branco. Desenha a história da Narval Comix, editora que desde 2010 faz malabarismos para garantir seu espaço de produção autoral nos quadrinhos brasileiros. Publicou 27 títulos, um mais bonito do que o outro, e testou diversos modelos de produção, sempre buscando novas soluções para equacionar liberdade criativa e grana.

“Qual seria a alternativa, passar a vida fazendo super heróis? Desenhando músculos em roupas colantes e meninas quase peladas, depois bonecos, canecas, camisetas com os mesmos personagens? Não cara, precisamos viabilizar a arte primeiro”, diz ele, sobre a motivação que o levou a empreender.

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Rafael e Laerte Coutinho são sócios na Narval, mas a veia empreendedora é de Rafael (imagem: reprodução Uol).

O selo foi fundado por Rafa e seu pai, Laerte Coutinho, a maior quadrinista em atividade do país. A empresa nasce para dar vazão a trabalhos que a dupla não conseguia publicar pelas editoras tradicionais e, também, para saciar a inquietação de Rafa, artista incomodado com as relações engessadas entre autores e editoras. Ele conta:

“O que eu mais queria era ver os artistas ganhando uma porcentagem maior e um cachê não vinculado às vendas, se sentindo à vontade para criar uma arte não necessariamente comercial. O grande desafio é envolver o público com essas experiências”

Laerte queria ver onde a brincadeira ia dar, mas nunca se envolveu diretamente no dia a dia do negócio. A parte empreendedora da história é de Rafael, um inquieto por vocação. Com a Narval, foram atrás de novos trabalhos e no primeiro ano lançaram a coleção Mil, composta por álbuns com a proposta de ser só desenho, sem texto, e com liberdade total para os artistas, por menos comercial que aquilo fosse. Foi uma escolha difícil, carregada de ideologia e ingenuidade, de não saber como incindiam os custos ou a mecânica do mercado editorial independente. Aprenderam na raça.

O QUE FAZER DEPOIS DE ERRAR POR IDEOLOGIA?
Toda história da Narval é uma negociação entre as concessões necessárias para estruturar um negócio versus o sonho de uma construção artística livre. A empresa nunca fez um projeto totalmente comercial pois, no entender de Rafa, ele não poderia se voltar totalmente para este lado porque já entrou na história fechado com um grupo amplo dos quadrinistas, camaradas com mão suja de nanquim passando perrengue por aí.

Rafa, que caiu num caldeirão de quadrinhos quando era pequeno, sempre viu de perto a difícil equação do quadrinho autoral brasileiro. A Narval tem, portanto, vocação para atuar em rede, articulando e dando vazão à produção de diversos autores. O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 é um bom exemplo disso, um álbum que pretende ser uma antologia anual com o melhor da produção nacional do ano. Após uma chamada pública, que acaba de se encerrar, trabalhos publicados até este mês foram inscritos.

Agora, haverá uma curadoria da Narval e os escolhidos farão parte do livro, a ser publicado no final deste ano. Os autores receberão três edições do álbum e a possibilidade de compra pelo preço de custo, tornando-se também pequenos distribuidores de suas obras, pulverizando a rede. A ideia é desfazer a relação editora-empregadora, autor-empregado. Aqui, ou são parceiros ou nada feito.

Este tipo de estratégia é necessária para sobreviver num setor onde a venda é dominada por grandes varejistas de livros, como Rafa conta: “O cenário é o seguinte: as distribuidoras acabaram de subir seu custo de 10 para 15%, enquanto as livrarias cobram 50%, ou 40% se você tiver acordo com a distribuidora, é um tipo de venda casada que te leva 55% do valor de capa. A impressão custa de 10 a 15% e o artista leva entre 8 e 10%, nas grandes editoras , e 12 a 15%, aqui. Sobra 15% do valor de venda para a editora. É horrível”.

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O Projeto Cubos (acima, em Brasília), é outro exemplo de negócios em rede empreendidos pela Narval.

Já com os pequenos a conversa é mais flexível, é possível experimentar e negociar. São mais abertos por que, avalia Rafa, “estão mais ou menos ferrados da mesma forma que a gente”. A realização de eventos nas lojas é uma das trocas praticadas entre autores e livraria. Além disso, enquanto as editoras grandes trabalham com consignação, as pequenas são mais abertas à revenda, comprando algumas unidades diretamente da editora. E foi isso que salvou a Narval em sua última crise.

No ano passado, 2014, a Narval quase quebrou. Rafa aponta a dificuldade das empresas em manter acordos ao redor da histeria gerada pela Copa do Mundo. Um dos episódios envolve a Livraria Cultura, que cancelou no meio seu apoio ao projeto Gravuras de Quadrinistas, uma série de gravuras impressas em serigrafia, vendidas por assinatura. Duas de seis obras já estavam impressas e as restantes não foram financiadas, o que representou um prejuízo de 30 mil reais. Foram em frente mesmo assim, realizaram a pré-venda de um pacote com trabalhos numerados, onde uma assinatura mensal de 66 reais garantia duas gravuras únicas todo mês em sua casa, obras de Pedro Franz e Diego Gerlach. O projeto se pagou, mas deixou aquele gosto amargo do que poderia ter sido e não foi.

DEPOIS DE QUASE QUEBRAR, NASCE UMA REDE E UM MODELO INOVADOR
Rafa, que está sempre se equilibrando entre o diretor de empresa e o artista, viu desmanchar seu plano lindo e esturado para um 2014 cheio de tempo livre para desenhar. Teve que se virar para manter a casa de pé e, dali em diante, eles produziram muito pouco, revisitaram processos, apertaram o cinto.

Dessa experiência — e necessidade — surgiu o modelo de cooperativa com os revendedores, aposta que equilibrou as contas da empresa após a Copa do Mundo. Falamos de uma rede, ainda sem nome, que recebe as lojas especializadas como parceiras de produção. Essas livrarias compram um lote de livros antes da impressão, garantindo assim seu logo como co produtora e a revenda exclusiva daquele título. A editora ganha em tranquilidade, pois agora divide o risco da impressão com as livrarias, e também ganha em rede, se aproximando do nicho que consome seus produtos. Atualmente, 17 empresas espalhadas pelo país fazem parte dessa rede.

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Página de "Os Bons Costumes com o Tigre", de Manuel Depetris, editado pela Narval.

Assim, começa uma confederação de livrarias independentes, empresas com interesses afins que passam a olhar para seu setor por um ponto de vista coletivo. Ainda precisa se provar viável, é verdade, e os desafios não são poucos. “O mercado editorial brasileiro tem calos que precisam ser resolvidos pela minha geração”, diz Rafa. Por exemplo, a distribuição. Acredita que falta um sistema comum, que cheque de forma dinâmica a reposição dos estoques dos revendedores e integre remessas de diferentes produtores, evitando assim viagens com o carro vazio.

Hoje, a Narval realiza uma abordagem mista, produz alguns títulos em parceria com as grandes e outros com distribuição exclusiva para editoras independentes. Entende que não existem vilões, que não dá para abrir mão da FNAC, da Amazon ou da Companhia das Letras para se isolar em um nicho de quadrinhos independentes. Quer a flexibilidade para negociar com todas.

CALDEIRÃO DE QUADRINHOS
Sua busca é desenvolver modelos onde a classe artística e o público estabeleçam uma conexão direta que garanta a produção. E aí vale estratégias como crowdfunding, pré venda, assinatura, revenda, a produção de originais baratos, entre outras. O plano não é ficar rico ou ser totalmente independente, mas sim tentar honestamente lidar com o enigma liberdade versus grana e, no processo, garantir dignidade material para artistas que Rafa admira, como ele diz:

“O que mais me move é ver um cara talentoso fazendo a coisa mais pioneira, vanguardista e bela, grotesca, o mais forte que tem no país, mas com isso guardado na gaveta e o sujeito passando apuro. Não quero só publicar esse cara, quero mudar a vida dele e no processo mudar a minha também”

A Narval é uma empresa pequena, de colaboração e parceria. Rafa conversa com todos, de autores a distribuidores. O fato de ter crescido no meio dos quadrinhos certamente ajuda, e ele sabe disso. Tem amigos e parceiros por todo lado. Vira e mexe usa a própria popularidade e, menos, também a do pai para alavancar projetos. “Para mim ele não representa o mesmo que para os outros”, diz. “Ele é meu pai, não é uma mulher… bom, é, mas é meu pai. Não ficou diferente para mim, eu tenho só muito orgulho.”

Laerte atravessa um visceral processo de revisão de gênero e o faz em público, utilizando tudo como combustível para seu trabalho. O resultado é uma obra consistentemente provocadora, aclamada. Rafa tem seus fantasmas, inseguranças de autor por ser filho de um gênio, que não tiram seu sono. Cachalote, livro publicado em parceria com o escritor Daniel Galera e um dos mais belos quadrinhos brasileiros, foi o corte simbólico do cordão umbilical. A partir dali seu caminho como quadrinista estava consolidado. “Não tem como driblar ou esconder, com a impressão o trabalho fica muito evidente. Se eu fosse ruim ou mediano eu saberia rapidamente. Foi um alívio saber que eu era bom. Não genial, não a vanguarda, mas bom.”

Hoje, aos 35 anos, Rafa acredita que está com o traço mais afiado que já teve. Acabou de se mudar para o Butantã, bairro residencial de São Paulo, um pouco mais afastado do centro do que sua antiga casa na Pompeia. Valente, seu filho com Marina Pontieri, companheira há uma década, está com três anos e vai crescer em um bairro com mais árvores, bem perto da nova casa da Narval, que se mudou junto. Daqui a algum tempo o menino vai encontrar o pai ali, debruçado sobre a prancheta, e Rafa vai lhe explicar, desenhando enquanto conversa, como mantém de pé sua editora na base de suor, cuspe e magia.

DRAFT CARD

card

  • Projeto: Narval Comix
  • O que faz: Editora de quadrinhos autorais
  • Sócio(s): Rafael Coutinho
  • Funcionários: 3 (além de Rafael, Julia Balthazar e Lucas Ciano)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2010
  • Investimento inicial: R$ 1.000
  • Faturamento: R$ 150.000
  • Contato: narvalcomix.com.br

Pequenas livrarias superam grandes redes e ressurgem em Nova York

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Foto: Gabriel Cabral/Folhapress

Foto: Gabriel Cabral/Folhapress

Giuliana Vallone, na Folha de S.Paulo

Quando surgiram os primeiros cartazes anunciando uma nova livraria no número 450 da avenida Columbus, em Nova York, o blog de notícias locais “West Side Rag” publicou: “Ou a máquina do tempo em que entrei na semana passada funcionou, ou o universo está aprontando alguma: alguém está planejando abrir uma loja de livros no Upper West Side.”

Esse “alguém” era Chris Doeblin, proprietário de três livrarias da marca Book Culture, em Manhattan -a última aberta em novembro de 2014. E os dados da Associação dos Livreiros Americanos (ABA, na sigla em inglês) mostram que ele não está sozinho.

O número de livrarias independentes nos Estados Unidos cresceu 27% desde 2009, chegando a 2.094 no ano passado. Se parece pouco comparado ao pico de cerca de 4.000 nos anos 1990, antes da invasão das grandes redes, como Barnes & Noble, Borders e Virgin, representa uma evolução importante sobre as 1.400 da última década.

E essa não é a única boa notícia para os fãs dos livros de papel. As vendas em lojas também estão em alta: subiram cerca de 8% anualmente desde 2012. “Há uma percepção errada de que as livrarias independentes estão em perigo. Estamos em um ótimo momento”, diz Jessica Bagnulo, proprietária da Greenlight, livraria aberta no Brooklyn, em 2009.

Há algumas razões que explicam o respiro dado às livrarias após anos de teorias apocalípticas sobre o fim das lojas independentes e dos livros impressos. Primeiro, o declínio das grandes redes americanas nos últimos anos abriu espaço para o ressurgimento das pequenas lojas. A Borders, a segunda maior dos EUA, pediu concordata em 2011, e fechou suas mais de 500 lojas no país.

Sua rival, Barnes & Noble, continua em atividade com cerca de 600 megalivrarias, mas os números diminuem a cada ano. E as remanescentes têm focado em outros produtos, como material de papelaria, revistas e presentes. Em todas elas, há um Starbucks.

“Eles têm um estoque gigante de livros, mas vendem muitas outras coisas. E é bem difícil achar um livro em uma loja enorme”, afirma John Mutter, autor da “Shelf Awareness” (algo como Consciência das Prateleiras), uma newsletter sobre o mercado de livros nos EUA.

Além disso, diz John, as livrarias independentes encontraram uma abordagem que funciona bem com os clientes. “Elas decidiram enfatizar as coisas que você não consegue online: conhecer autores, grupos de leitura, encontrar pessoas que também se interessem por livros.”

Esses benefícios não são novidade no mercado, mas sua importância aumentou devido a um movimento em ascensão nos Estados Unidos nos últimos anos: o “buy local” (“compre local”), que incentiva o comércio de produtos plantados ou fabricados perto de onde são consumidos. A ideia inicial, que ganhou força a partir da crise de 2008, é apoiar os pequenos negócios para revigorar a economia. Mas a onda cresceu e gerou uma busca por um estilo de vida mais comunitário.

“Esse movimento, que vai muito além dos livros, tem tido um impacto enorme nas comunidades e na atitude dos consumidores. Isso é uma parte importante da equação”, afirma Oren Teicher, presidente da ABA.

POR AQUI

No Brasil, a situação é bem diferente da americana. Aqui, os e-books, tímidos em vendas, nunca foram a maior ameaça. O setor enfrenta problemas estruturais muito mais sérios.

Para o presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Afonso Martin, “não somos tão profissionais quanto outras áreas da indústria ou do varejo”. E ilustra a desorganização do setor com o exemplo da livraria Ao
Livro Verde, de Campos dos Goytacazes (RJ). Fundada em 1844 e considerada a primeira do Brasil, ela não aparecia no anuário organizado pela própria ANL até 2013.

A tendência no mercado brasileiro é de movimento oposto ao da cidade de NY. As pequenas livrarias estão fechando, enquanto as grandes e médias aumentam e investem em filiais.

É o caso da livraria Argumento, dona de duas lojas no Rio de Janeiro. Inaugurada em 1978, em São Paulo, com o principal propósito de vender livros da editora Paz e Terra -então comandada pelo próprio fundador da livraria, Fernando Gasparian-, a loja expandiu (mas não exagerou) nas últimas duas décadas.

A receita para o sucesso, de acordo com Marcus Gasparian, um dos donos da livraria, é simples, e segue a lógica das lojas independentes americanas. Além do “tamanho humano”, tudo depende do atendimento. “Não temos vendedor, temos livreiros”, diz. “Eles são os atores, eu cuido apenas da bilheteria. Sou só o dono do teatro.”

SUPERESTIMADO

Nos EUA, a volta das livrarias também conta com a falta de interesse por livros digitais. Em 2012, a consultoria PricewaterhouseCoopers divulgou relatório prevendo que os e-books seriam responsáveis, até 2016, por metade das vendas de livros no mercado norte-americano.

Errou feio: os números mais recentes da Associação dos Editores Americanos (AAP, em inglês) mostram que a fatia de mercado dos digitais chegou a 23,4% em 2014. Os dados estão estagnados desde 2012, quando a parcela de e-books ficou em 22,5%.

“Imagino que teremos apenas aumentos modestos daqui para frente, dado que a tecnologia já está disponível há algum tempo”, diz Tina Jordan, vice-presidente da AAP. O Kindle, o e-reader da Amazon, primeiro no mercado, foi lançado em 2007.

Mas a participação dos livros digitais varia entre os segmentos, fazendo com que as lojas físicas tenham que repensar parte de sua estratégia.

Clássicos de capa mole são o grande sucesso das vendas de livros digitais na Amazon, o que torna impossível para uma livraria independente contar com eles para ser bem-sucedida. Elas se dão melhor com livros de capa dura, literatura infantil e culinária. Por sorte, lojas menores podem se adaptar mais rápido ao gosto do freguês.

“Os clássicos eram parte significativa do nosso negócio, porque os estudantes precisam, mas agora eles leem como e-book”, diz Chris Doeblin, da Book Culture. A proximidade de suas lojas com a Universidade Columbia faz com que universitários sejam parte importante da sua clientela. Com as mudanças no mercado, ele decidiu manter só uma livraria voltada para este público.

“Criamos outro modelo, com uma boa seção para crianças. Queremos um espaço alternativo, em que as pessoas encontrem mais que livros”, conta. Nestas lojas, ele vende também itens como brinquedos na seção infantil e artigos de cozinha junto com os livros de culinária.

“Ainda estamos lutando para continuar como um negócio viável, mas há muito mais boas notícias hoje do que há dez anos”, afirma Teicher, da ABA. “Estou nesse mercado há mais de 25 anos. Se ganhasse um dólar a cada vez que alguém diz que as livrarias independentes estão morrendo, eu estaria rico”.

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