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Quarto livro da série das “Crianças Peculiares” chegará ao Brasil

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Sarah Ferragoni, no Beco Literário

A editora Intrínseca anunciou nessa quarta – feira (2/05) que o quarto livro da série O Lar da srta. Peregrine para Crianças Peculiares, A Map of Days, chegará às livrarias brasileiras no próximo semestre. A versão em inglês é esperada nas livrarias americanas para o dia 2 de outubro desse ano e, aqui no Brasil, espera-se que o lançamento acompanhe o internacional.

A série conta com três livros principais e um anexo “Contos Peculiares” nos quais somos apresentados às histórias de crianças que possuem dons extraordinários e estão sob cuidado da Miss Peregrine. No primeiro livro (O lar da srta. Peregrine para crianças peculiares), Jacob, um garoto comum, se depara com a morte misteriosa de seu avô, Abe, que, durante toda sua infância, lhe contava histórias fantasiosas sobre uma ilha na qual vivera durante a Segunda Guerra Mundial. Ao ouvir as últimas palavras dele, Jacob decide ir até o local e descobrir o que seu avô queria que ele soubesse sobre a ilha e o que havia lá. Assim, ele encontra as crianças peculiares das histórias que ouviu durante toda a sua infância.

No quarto livro da série, escrita pelo autor Ransom Riggs, Jacob retorna à Florida após salvar os “peculiares” de uma ameaça. Depois de viajar para 1940 e voltar, ele, Miss Peregrine, Emma e as outras crianças retornam e fazem o seu melhor para agir naturalmente dentro do tempo presente. O novo livro chegará ao Brasil esse ano, os fãs já podem esperar ansiosos pelo lançamento.

Stephen King aprova pela primeira vez lançamento de versão especial do livro que originou o filme Louca Obsessão

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Pedro Vieira, no Observatório do Cinema

O livro Angústia (Misery no original), que originou o filme Louca Obsessão, será lançado pela primeira vez em uma edição especial limitada nos Estados Unidos.

Isto ocorre porque só agora o autor do livro, Stephen King, resolveu aprovar o lançamento da obra em tal versão. A obra chegará em 3 versões diferentes: a edição Presente, mais comum, com arte assinadas pelo artista Rick Berry; a Edição Numerada, que contará com apenas 200 cópias; e a edição mais rará, que será a Edição Letrada, que terá apenas 26 cópias, cada uma marcada com uma das 26 letras do alfabeto que vai de A a Z.

As edições limitadas de Angústia chegarão às livrarias no dia 8 de agosto. Infelizmente, não há qualquer previsão de lançamento das edições no Brasil.

Recentemente, King sofreu com a perda de diversos de seus manuscritos originais, após um acidente em um livraria. Não se sabe se os manuscritos de Angústia estavam entre eles.

Louca Obsessão, o filme inspirado no livro, foi lançado em 1990 e deu um Oscar para a atriz Kathy Bates.

Iniciativas literárias ampliam o debate sobre o racismo, um dos grandes temas de 2017

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Voz. Ketty Valêncio só vende obras de autores menos conhecidos em sua livraria Foto: Gabriela Bilo/Estadão

Voz. Ketty Valêncio só vende obras de autores menos conhecidos em sua livraria Foto: Gabriela Bilo/Estadão

 

A livraria Africanidades, em São Paulo, a editora Malê, no Rio, e o novo conceito dororidade, criado por Vilma Piedade, são alguns destaques do ano

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Em uma rua tranquila de Perdizes, a bibliotecária Ketty Valêncio dá mais um passo na concretização do negócio idealizado no MBA que fez na Fundação Getúlio Vargas e que começou em 2014 com uma livraria online especializada em obras de autores afro-brasileiros. Nos últimos dias de 2017, a Africanidades ganhou uma sala no número 1.158 da rua Aimberê, onde estão à venda 100 títulos. Mas o sonho vai além: ela quer, como já queria na pós-graduação, criar um espaço de diálogo e de memória – com clube de leitura, eventos culturais, debates, exibição de filmes, shows, etc.

O leitor encontra, ali, poesia, história de amor, de racismo, histórias de luta. Ketty seleciona a dedo o que vai vender e, embora admire a obra de Carolina Maria de Jesus, “a mestra das mestras”, de Conceição Evaristo ou de Chimamanda Ngozi Adichie, essas autoras não estarão nas prateleiras de sua livraria. “Elas não precisam de mim, estão em qualquer livraria. Vendo uma literatura desconhecida e posso não ter lucro, mas apresento essa produção”, explica.

Na Minha Pele (Companhia das Letras), de Lázaro Ramos, também não será encontrado na Africanidades. O livro em que o ator conta sua história enquanto reflete sobre temas como o racismo foi o mais vendido na última Festa Literária Internacional de Paraty – uma Flip que se abriu mais a autores negros, homenageou Lima Barreto e se emocionou com o depoimento espontâneo da professora Diva Guimarães, neta de escravos.

“Não sei qual será meu próximo livro ou se escreverei sobre esse assunto novamente, mas eu queria muito falar para o público que leu Na Minha Pele para não me tornar obsoleto em discussões que considero tão urgentes”, pede Lázaro Ramos. Ao todo, desde que saiu, em junho, o livro vendeu 70 mil exemplares.

Lázaro ajudou a colocar o racismo em pauta este ano, um caminho que vem sendo trilhado, há décadas, por pesquisadores, militantes e autores que buscam espaço nas editoras, livrarias e debates para apresentar sua produção – de denúncia e combate ou apenas literária. E 2017 foi ano de colher frutos.

A Malê, que lançou seu primeiro livro em 2016, viu duas obras de seu catálogo premiadas pela Associação Paulista de Críticos de Arte no começo do mês: Calu: Uma Menina Cheia de História, de Cássia Valle e Luciana Palmeira com ilustrações de Maria Chantal, na categoria infantil/juvenil, e Dia Bonito Para Chover, de Lívia Natália, em poesia.

“O mercado literário ainda não reflete a nossa diversidade de escritores, priorizando difundir os livros escritos por homens brancos das regiões Sul e Sudeste. Na Malê, invertemos este padrão e priorizamos investir em publicações de escritoras negras e, em seguida, de escritores negros”, conta o editor Vagner Amaro, criador, também, do Prêmio Malê de Literatura, para revelar novos autores. A dificuldade, ele conta, ainda é a resistência das grandes redes de livrarias e de distribuidores em tornar disponíveis os títulos. “Os livros têm grande procura e sempre recebemos mensagens de leitores pedindo que nossos livros estejam nas livrarias.”

A Africanidades e a Malê se juntam a outras livrarias e editoras especializadas em autores negros. Mas a grande novidade do ano que se encerra e que continuará em debate em 2018 é a palavra que a língua portuguesa e o movimento feminista acabam de ganhar: dororidade.

O conceito é explicado no livro Dororidade (Nós) e Vilma Piedade, sua criadora, sintetiza aqui: “Dororidade contém a sororidade, mas sororidade não contém necessariamente a dororidade. Existe uma coisa que une as mulheres, a dor cruel provocada pelo machismo e pela perda. Mas tem uma dor na mulher preta que é diferente: a dor provocada pelo racismo.” A ideia, então, é incluir a pauta da mulher jovem negra nas questões defendidas pelo feminismo.

No livro, a ativista questiona: “Nesse jogo cruel do racismo, quem perde mais? Quem está perdendo seus filhos e filhas?” E responde: “Todos pretos. Todas pretas. A resposta está estampada nos dados oficiais sobre o aumento do genocídio da juventude preta”.

Essa fala nos leva a Acari, no Rio – à Escola Municipal Jornalista Daniel Piza, onde Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, morreu baleada pela polícia em abril, e que fica pertinho de Costa Barros, onde os meninos Roberto, Wilton, Carlos, Wesley e Cleiton morreram com 111 tiros em 2015. Um livro está ajudando um grupo de alunos a discutir questões importantes – e chamou a atenção de algumas mães, que também quiseram participar do clube de leitura.

Lançado em fevereiro nos Estados Unidos e um pouco depois aqui, O Ódio Que Você Semeia (Galera/Record), de Angie Thomas, conta a história de Starr, uma garota negra de família pobre, que estuda em escola de rico e um dia testemunha a execução de um amigo, desarmado, por um policial.

“Apesar do cenário ser bem americano, com suas gangues e a classe média negra politizada e atuante, é possível fazer um paralelo com a realidade brasileira em vários níveis”, conta Ana Lima, editora da Galera.

Premiado pelo National Book Award e, nos últimos dias, selecionado pela Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio como um dos melhores infantojuvenis do ano, o livro chamou a atenção da historiadora e professora da UFRJ, Giovana Xavier, que idealizou o projeto Qual é a sua semente? com a professora Claudieli, da EM Daniel Piza. Os 50 alunos do curso Intelectuais Negras da UFRJ, todos cotistas, já leram e em 2018 recebem o grupo de 30 adolescentes (de 11 a 15 anos) para uma conversa na universidade sobre a leitura, o presente e o futuro.

Humor e metáfora para falar com crianças

O escritor Henrique Rodrigues acredita que o humor, a ironia e as metáforas são importantes na hora de tratar de problemas seculares como o racismo. Por isso, escolheu dois objetos inanimados para falar sobre a convivência com os diferentes.

Primeiro título infantil da Malê, pelo selo Malê Mirim, O Pé de Meia e o Guarda-Chuva, que ganhou ilustrações de Walther Moreira Santos, foi apresentado no Salão do Livro de Paris, este ano, quando o autor participava da Primavera Literária Brasileira, organizada pela Sorbonne, e que abriu caminho para a publicação, lá, em 2018, de seu romance O Próximo da Fila (Record), sobre um garoto que trabalha numa lanchonete para ajudar a família.

“No livro, a meia, que é branquinha, acostumada a viver com a irmã da mesma cor, se encontra com o guarda-chuva, que é preto. Numa conversa com crianças, um garotinho disse que teve uma ideia maluca de passar a usar só meias de cores diferentes. A gente riu, mas vi que ele entendeu a questão, que me parece um dos grandes desafios dos adultos: precisamos conviver com o diferente, porque isso é o que soma, não o ódio”, conta o autor que acaba de ser homenageado pelo Ciep Adão Pereira Nunes, onde estudou. Não muito distante da Escola Municipal Daniel Piza, o colégio conta agora com a Sala de Leitura Henrique Rodrigues. “Esse foi o maior prêmio literário que eu poderia receber.”

‘Todo dinheiro do mundo’: Edição brasileira do livro que virou filme de Ridley Scott será lançada em fevereiro

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Cartaz de 'Todo o Dinheiro do Mundo' | Reprodução

Cartaz de ‘Todo o Dinheiro do Mundo’ | Reprodução

Cleo Guimarães, em O Globo

Isso é que é timing. A HarperCollins lança em fevereiro a edição brasileira de “Todo o dinheiro do mundo”, livro de John Pearson (conhecido pela elogiada biografia da Família Real Britânica) que conta a história do magnata do petróleo J. Paul Getty e mostra como sua riqueza influenciou o sequestro de seu neto, John Paul Getty III, aos 16 anos. O avô, na época o homem mais rico dos Estados Unidos, se recusou a pagar o resgate. O livro inspirou o filme de mesmo nome, e chega às livrarias, pouco depois da estreia nacional do longa, em janeiro.

Por falar nisso…

Dirigido por Ridley Scott, a versão para o cinema de “Todo o dinheiro do mundo” recebeu três indicações ao Globo de Ouro — uma delas para Christopher Plummer, que substituiu Kevin Spacey no papel do patriarca dos Getty. Spacey foi afastado depois das acusações de assédio sexual.

Obra favorita de Vladimir Nabokov, ‘O Dom’ chega às livrarias

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O escritor russo Vladimir Nabokov Foto: Yousuf Karsh

O escritor russo Vladimir Nabokov Foto: Yousuf Karsh

Melhor livro do autor escrito em russo rivaliza com ‘Lolita’ e ‘Fogo Pálido’ na obra de Nabokov

Paulo Nogueira, no Estadão

Vladimir Nabokov é um dos supremos avatares da mudança de paradigma que se operou na literatura do século 20 – aprofundada e consumada neste século. Ou seja: do autor não mais como configurador de uma identidade nacional, mas como saltimbanco de uma errância centrífuga, nem sempre voluntária, que gostamos de chamar de globalização.

No caso da Rússia, o buraco é ainda mais embaixo. Na terra de Tolstoi, a expressão “escritor russo” sempre teve um status menos comparável a “escritor brasileiro” do que a “profeta bíblico”. Boris Pasternak deu o nome aos bois: “Aqui, um livro é uma consciência fumegante, ou nada!” Quando perguntaram ao grande Valdimir Korolenko, meio ucraniano, qual era sua nacionalidade, ele cravou: “Minha pátria é a literatura russa”. Stevetlana Alexievich, em plena cerimônia do Nobel de 2015, indicou suas três matrizes: mãe ucraniana, pai bielorrusso e “a grande cultura russa, sem a qual não existo”. Por “grande cultura”, leia-se “literatura”.

Nabokov viveu uma infância e juventude idílicas nos arredores de São Petersburgo, onde nasceu em 1899. No café da manhã, a família falava russo, inglês e francês – daí que o escritor fosse trilíngue desde a chupeta. Com 17 anos, publicou o primeiro livro de poemas – e a poesia será um pilar estruturante na prosa de Nabokov, com sua paixão pela plástica e pela música do texto. Em 1920, já com os bolcheviques pintando e bordando, a família se mandou para Berlim – antes, Vladimir fez uma escala de dois anos na Universidade de Cambridge, Inglaterra.

Em Berlim, que jamais engoliu, Nabokov assobiou e chupou cana: ensinou idiomas, deu aulas de tênis e boxe, urdiu problemas de xadrez e palavras cruzadas para jornais e escreveu romances em russo – o nono e último deles, uma de suas obras-primas: O Dom. Em 1923, conheceu o grande amor de sua vida, uma russa-judia chamada Vera. Com Hitler já babando na gravata, a família deu no pé para Paris, depois para os EUA – menos o irmão de Vladimir, Sergei, que morreu num campo de concentração nazista.

Nos EUA, Nabokov borboleteou duplamente. Primeiro, pairando sobre seus romances. Segundo, como especialista em borboletas propriamente ditas. Lecionava literatura em Cornell e era o curador de lepidópteros do Museu de Zoologia em Harvard. Zanzou de leste a oeste dos EUA coletando borboletas, e descreveu centenas de espécimes, batizando alguns. Formulou até uma hipótese para um tipo (“Polyommatus azul”), e foi ridicularizado pelos pares científicos. Trinta anos depois, com os novos recursos tecnológicos, uma sessão solene da Royal Society proclamou em Londres que o escritor tinha razão postumamente – contritos, os cientistas foram caçar sapo de bodoque.

Nabokov escreveu seu best-seller Lolita precisamente quando trotava pelos EUA (que conheceu melhor que Kerouac, Steinbeck ou Fitzgerald) de rede de caçar borboleta em punho. Vera funcionava como secretária, datilógrafa, editora, revisora, tradutora, bibliógrafa, agente, assessora jurídica e motorista – sem falar nos cafunés, claro. Quando ele tentou queimar o manuscrito do romance, foi ela que o impediu.

Lolita, além de um prodígio literário, foi também um “sucèss de scandale”, sinônimo de grana preta. No Brasil, o primeiro crítico a saudar o romance foi Paulo Francis, num artigo intitulado O Prazer do Abominável, publicado em junho de 1959 na revista Senhor. Com os direitos autorais, Nabokov regressou a Europa de mala e cuia e se dedicou apenas à escrita e às borboletas, acampando no quarto andar do Montreux Palace Hotel, na Suíça.

Sartre acusou Nabokov de “não pertencer a nenhuma sociedade”, esquecendo que em boca fechada não entra mosquito. Nabokov respondeu com a luva de pelica da ironia: “Sou um escritor americano, nascido na Rússia e formado na Inglaterra, onde estudei literatura francesa antes de passar quinze anos na Alemanha.” Mas, a sério, ele já tinha dado o xeque-mate no prefácio de O Dom: “A heroína deste livro não é Zina, mas a literatura russa.” Nabokov, sendo universal, é tão russo quanto a vodca (e mais inebriante).

“Da”, “sim” em russo, era inicialmente o título de O Dom, uma obra sutil e prismática, em que cada linha tem três entrelinhas (para os esotéricos, não será coincidência que Shakespeare e Nabokov tenham nascido no mesmo dia, 23 de abril…). Narrada simultaneamente na primeira e na terceira pessoas, exige uma atenção de coruja. No inestimável Keys to The Gift: A Guide do Vladimir Nabokov, Yuri Leving, levanta a lebre de que o último dia do romance é 29 de junho. Ora, descontada a diferença de 13 dias entre os calendários Juliano e Gregoriano, estaríamos em 16 de junho, precisamente a data em que se desenrola o Ulísses de James Joyce. E, em O Dom, o último dia marca o fim da aprendizagem do protagonista Fyodor, que já pode dizer “sim” ao mundo e escrever o livro que acabamos de ler. Como as últimas palavras do Ulísses: “Sim, eu digo sim”.

O Dom retrata a comunidade de expatriados russos em Berlim e o amadurecimento criativo de Fyodor e de seu dom literário. A trama é ralinha, embora tenha sido escrita entre os anos 1936 e 1937, quando o terror stalinista bombava, e se ocupe do período em que o pai de Nabokov foi assassinado em Berlim por um monarquista. Mas rola metaficção aos borbotões (Nabokov é o padroeiro de pós-modernos como Pynchon, David Foster Wallace, Don DeLillo e William Gaddis). A própria primeira frase é interrompida para a citação de um crítico a respeito de… primeiras frases. E o protagonista está escrevendo uma biografia de Chernyshevsky, o autor favorito de Lenin. Uma proverbial paródia literária, na medida em que Nabokov reprovava o gênero biográfico, talvez pelo seu desdém glacial pela psicanálise (“Só os obtusos acreditam que suas aflições mentais são curáveis por uma aplicação diária de mitos gregos em suas partes genitais”).

O Dom era a obra predileta de Nabokov – hoje, seu pedigree crítico se acotovela no pódio nabokoviano com Lolita e Fogo Pálido. E o próprio autor integra a Santíssima Trindade literária da segunda metade do século 20, ao lado de Borges e Beckett (a primeira metade inclui Joyce, Proust e Kafka).

Quando perguntaram a Nabokov qual a língua mais bela, ele tascou: “Meu espírito responde: o inglês; meu ouvido, o francês; meu coração, o russo.” Era um nostálgico do pior tipo: aquele cuja saudade não pode ser saciada, pois o mundo do qual sente falta desapareceu para sempre. Daí o desprezo absoluto pelo emigrado que “odeia os vermelhos porque lhe roubaram o dinheiro”.

Por outro lado, o relicário do escritor – o seu imaginário subjetivo, a sua memória sensível – continuou intocável e tão acessível quanto os lepidópteros. O passado russo de Nabokov não existia mais, mas, em compensação, nunca deixaria de existir. “Tudo está como deveria ser, nada mudará, ninguém morrerá.” Muito menos ele, com seus romances que são belezas frágeis e aladas, como as borboletas: no ano passado, o Museu Nabokov em São Petersburgo foi vandalizado por fanáticos de Putin, que picharam nas paredes: “Libesrast” – um neologismo russo que mistura “liberal” e “pederasta”. Este Dom é, obviamente, uma dádiva literária – menos para o autor ou para seu protagonista do que para nós.

*Paulo Nogueira é autor de ‘O Amor é um Lugar Comum’ (editora Intermeios)

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