Vitrali Moema

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No Kuwait, ninguém pode ler ‘Cem anos de solidão’, de García Márquez

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Gabriel García Márquez, escritor colombiano: seu clássico “Cem anos de solidão” é proibido no país árabe – Claudia Rubio / El Tiempo

Governo do país já censurou 4 mil livros, entre eles obras clássicas como ‘Nossa Senhora de Paris’, de Victor Hugo, em que aparece o corcunda de Notre Dame

Publicado em O Globo

CIDADE DO KUWAIT – Dezenas de ativistas e escritores kuwaitianos vêm fazendo protestos desde o início do mês contra a censura estatal que priva os habitantes do emirato de ler milhares de obras literárias, entre elas o clássico “Cem anos de solidão”, do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014).

Tendo como mote a 43ª edição da Feira do Livro, que acontece em novembro, já foram feitas duas marchas de protesto no país, nos dias 1º e 15 de setembro; e nas redes sociais há uma intensa campanha contra a censura do governo.

Cedendo à pressão de círculos religiosos e conservadores, o Ministério da Informação do Kuwait proibiu pelo menos 4 mil livros nos últimos cinco anos — incluindo, além de “Cem anos de solidão”, “Nossa Senhora de Paris”, de Victor Hugo (onde um dos personagens é o corcunda de Notre Dame).

Todas as obras literárias a serem apresentadas na feira passarão antes pelo crivo de uma comissão de censura.

— Infelizmente, censurar um livro revela profunda ignorância — afirma a romancista kuwaitiana Mays al Othman. — A decisão de proibir uma obra se baseia apenas na busca de palavras-chave, inclusive quando se examinam livros religiosos.

A própria escritora foi alvo de censura. Seu romance “A verruga”, em que conta a história de uma mulher estuprada durante a ocupação do Kuwait pelo Iraque de Saddam Hussein (1990-1991), foi proibido.

MINISTRO DEFENDE CENSURA

Segundo ativistas políticos, um vazamento de documentos da Comissão de Censura do Ministério da Informação revelou o grande número de obras que foram vetadas.

Mas o ministro da Informação, Mohammed al-Awash, defende o trabalho da comissão.

— A proibição é a exceção, e a autorização, a regra — afirma. — A comissão apena se empenha em aplicar a lei sobre a imprensa e publicações [que foi aprovada pelo Parlamento em 2006].

O escritor francês Victor Hugo (1802-1885), outro autor proibido – Divulgação

A lei proíbe qualquer ofensa ao Islã ou à Justiça do Kuwait, assim como qualquer ameaça à segurança nacional e incitação à desordem ou a “atos imorais”.

O secretário-geral da União dos Escritores do Kuwait, Tala al-Ramidhi, conta que uma obra também pode ser censurada se seu conteúdo for “contrário à boa conduta”, um critério que considera extremamente vago.

Nos últimos anos, a Câmara de Deputados do Kuwait, eleita por sufrágio universal — rara exceção entre os países árabes do Golfo Pérsico — tem sido dominada por políticos conservadores ou sectários.

PRESSÕES POLÍTICAS

Nas redes sociais, os ativistas anticensura destacam o caráter “ridículo” das decisões da comissão.

“O único motivo [para a censura] é a ignorância”, disse no Twitter a escritora Bouthaïna al-Issa.

Nas décadas de 1970 e 1980, o Kuwait contava com várias publicações, e lá se editava a revista “Al-Arabi”, bastante difundida nos países da região, bem como diversas obras científicas e literárias.

Aguil Youssef Aidane, outro autor de livros proibidos, atribui a censura a “pressões políticas exercidas por certos círculos religiosos sobre as instituições culturais”.
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— A proibição de livros, às vezes só por conter uma palavra ou foto, prejudica a imagem do Kuwait — afirma.

Para Imane Jawhar Hayat, membro de um grupo político local, os motivos invocados para justificar a censura “são frequentemente ilógicos”.

Apesar da repressão aos livros, al-Ramidhi, da União dos Escritores do Kuwait, diz que ninguém foi perseguido no país por vender livros proibidos.

Mais livros religiosos, menos didáticos: o caminho das trevas se solidifica

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“O Triunfo da Morte”, de Pieter Bruegel, O Velho.

Rodrigo Casarin, no Página Cinco

Em 2016 uma pesquisa mostrou que o Brasil é, basicamente, um país de leitores de “Bíblia”. No mesmo ano, logo na sequência, outra apuração apontou para a ascensão dos livros religiosos e a queda da literatura no país. Já no ano passado, mais um indício da supremacia dos livros sacros, cujas vendas novamente cresciam enquanto o comércio de livros científicos diminuía. Pois bem, segundo a pesquisa de Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro em 2017, realizada pela Fipe a pedido do Sindicado Nacional dos Editores de Livros e da Câmara Brasileira do Livro, a toada permanece a mesma.

No ano passado, editoras nacionais produziram cerca de 393 milhões de exemplares, venderam 355 milhões e faturaram R$ 5,17 bilhões, o que, comparando com o ano anterior e considerando a variação do IPCA (2,95%), significa uma queda real de 4,76% no faturamento. Se o encolhimento do mercado já preocupa, os números dos subsetores são ainda mais tenebrosos: enquanto houve novo recuo na produção e no faturamento de livros científicos, técnicos e profissionais e uma queda real de 10,43% entre os livros didáticos, as obras gerais tiveram um crescimento real de 3,77% e as religiosas, de 1,61%.

Como as obras gerais, tal qual o nome entrega, abarcam desde a mais refinada literatura até livros para colorir, foquemos nas outras três categorias, mais específicas: enquanto os números de livros voltados à formação científica, técnica, profissional e pedagógica (os didáticos) minguaram, aqueles destinados majoritariamente ao dogmatismo apresentam novo crescimento.

Já falei em outras oportunidades o quanto o aumento do comércio de títulos religiosos e o encolhimento das obras destinadas essencialmente ao aprimoramento do indivíduo me preocupam. Textos quase sempre destinados a leituras enviesadas me parecem exatamente o contrário do que pensamos quando nos deparamos com a palavra “livro” (e normalmente a confundimos com “literatura”): algo essencialmente aberto, que leva o leitor a diversas possibilidades de mundo, não um apanhado de supostas verdades absolutas.

A novidade é que, de um ano pra cá, o caminho das trevas que apontei em outros textos vem tomando um corpo maior. Mês a mês presenciamos episódios escabrosos relacionados às artes: exposição que se encerra por conta de protestos reacionários, peça que é retirada de cartaz porque uns e outros não suportam ver Jesus, um cara extremamente libertário e acolhedor, ser interpretado por uma atriz transexual, HQ que é tirada de mostra por melindrar policiais ou entusiastas dos homens de farda… Enfim, a onda conservadora, sem brechas ao diálogo e à pluralidade, está aí, definitivamente.

É o reflexo perfeito de uma população que se preocupa cada vez menos em ouvir vozes divergentes, que aos poucos vai trocando livros formadores por calhamaços religiosos normalmente interpretados de forma oportuna por algum “líder espiritual”.

O Peregrino, livro cristão escrito em 1678, será adaptado em filme “cheio de ação”

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“Estamos conquistando um novo terreno em filmes sobre a fé”, afirmam os criadores.

Bruno Carmelo, no Adoro Cinema

O cinema cristão está prestes a ganhar uma adaptação ambiciosa: a nova produtora King Street Pictures está preparando uma grande produção baseada em “O Peregrino”, livro escrito por John Bunyan em 1678.

A obra é uma das primeiras publicadas em língua inglesa, e considerada um dos livros religiosos mais populares de todos os tempos. A narrativa gira em torno de um peregrino de nome Christian, que encontra diversos personagens fantásticos (Desespero, Hipocrisia, Boa-Vontade) em seu caminho para ser um bom cristão.

O elenco de Heavenquest: A Pilgrim’s Progress vem de vários países, incluindo Coreia do Sul (Pyo Cha, Ricky Kim), México (Fernanda Romero e Karyme Lozano), Austrália (Peta Sergeant) e Estados Unidos (Alan Powell, cantor da banda religiosa Anthem Lights).

O diretor é o pouco experiente Matt Bilen, conhecido pelos curtas-metragens de terror e animação. De acordo com o cineasta, “Estamos conquistando um novo terreno em filmes sobre a fé. Heavenquest vai ter mais ação, mais ambição e mais estilo cinematográfico do que as plateias já viram antes”.

As filmagens começaram esta semana, na Califórnia.

Interessado?

Saiba como incentivar os jovens de hoje no prazer da leitura

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 Crianças e adolescentes descobrem na literatura a melhor aventura de suas vidas. Romance, suspense, ficção científica e a vida real traduzidas nas páginas os encantam (foto: Euler Junior/EM)


Crianças e adolescentes descobrem na literatura a melhor aventura de suas vidas. Romance, suspense, ficção científica e a vida real traduzidas nas páginas os encantam (foto: Euler Junior/EM)

Conquistar crianças e adolescentes para a literatura exige criatividade e sabedoria para que o contato com o mundo dos livros seja para sempre

Lilian Monteiro no UAI

Ler por prazer. Ler para estudar. Ler para se informar. Todas as formas nos levam ao conhecimento de culturas, histórias, hábitos, realidade, fantasias, ideias, vivências, sonhos e de nós mesmos. É uma das habilidades mais incríveis da humanidade. Desde o primeiro livro impresso na década de 1450, fruto da invenção da tipografia do alemão Johannes Gutemberg, que foi a Bíblia, até os exemplares digitais do século 21, a leitura é a arma mais eficaz para nosso aprendizado. Decifrar, interpretar, decodificar, compreender, analisar, imaginar! Nada como se perder no universo encantado dos livros.

Do filme A sociedade dos poetas mortos, de 1989, ao As vantagens de ser invisível, de 2012, a sétima arte sempre elegeu a literatura como um personagem espetacular para discutir a vida. Entre tantas películas, na primeira um professor de literatura inglesa e norte-americana inova no modo de ensinar e por meio da leitura leva os alunos a uma reflexão sobre como fazer a vida valer a pena. No decorrer da história, eles descobrem que o docente havia participado de uma Sociedade dos Poetas Mortos, um clube de leitura de poesia, e decidem reviver o grupo. Já em As vantagens de ser invisível, a trama mostra a recuperação da depressão de um adolescente tendo como melhores amigos seus livros e o seu professor de literatura. O filme retrata o poder dos livros em curar nossas ansiedades e de nos fazer

Hoje, o Bem Viver propõe a discussão de como fazer com que crianças e adolescentes mergulhem nas páginas da literatura. Como estimulá-los a abrirem um livro, físico ou não, que contemplem histórias que os despertarão a desenvolver o hábito da leitura? Não há nada mais forte do que o exemplo. E não há quem personifique o poder da leitura do que a história de Maria Vilani. Não há inspiração maior para abraçar um livro. De tudo o que ela se tornou, era apenas uma criança que queria aprender a ler. Nascida em Fortaleza, hoje moradora do Grajaú, Zona Sul de São Paulo, mãe de cinco filhos, entre eles o rapper Criolo, professora autodidata, filósofa, escritora, poeta, agitadora cultural (uma das líderes do Centro de Arte e Promoção Social Grajaú), aprendeu a ler sozinha. Conta que o pai a ensinou a “desenhar” o nome e passou a decodificar o beabá diante das páginas de jornais e revistas que serviam de embrulho para as compras do dia a dia. Nunca deixou de alimentar o desejo de ler e aprender. “Tinha a necessidade de conhecer outras formas de pensar.”

Maria Vilani, com quatro livros publicados, entre eles Cinco contos sem desconto e de quebra dois poemas e Penteando a vida, declara que para a criança ler é “preciso ver alguém lendo. O que eu faço e como criei meus filhos foi incentivando-os. Lia para eles e uma vez por semana, com todos em volta da mesa, líamos e cada um tinha a oportunidade de interpretar o que foi lido, sem censura, com seu olhar. Criança tem facilidade para imaginar e criar. É só dar liberdade e estimular”. Ela conta que tem um projeto, o “Sonhagem”, “que é o sonhar acordado, trabalhar a imaginação e a curiosidade de buscar”.

VITRINE Para Maria Vilani, se a família não tem o hábito da leitura, não lê junto. O ideal seria a criação de projetos voltados para pais, tios, avós e professores para que despertem o desejo, já que “são os reprodutores e multiplicadores. A criança vai seguir quem é importante para ela. Digo sempre que os livros em casa precisam ter fácil acesso. É necessário que estejam à mão das crianças, com as capas voltadas para frente como uma vitrine para que possam olhar, pegar e ler. É nosso dever facilitar, tornar o livro atrativo como o brinquedo e o alimento dispostos dessa forma. É a maneira de atiçar a curiosidade pela literatura infantil e infantojuvenil”.

Maria Vilani afirma que o ideal é ler de acordo com a idade e proporcional à inteligência. Independentemente de livros clássicos ou não, o importante é que seja compreendido. “Mas nunca devemos esquecer os clássicos, eles são a origem dos nossos saberes. Mas creio que toda leitura é válida e, se atrai, é porque nos faz refletir e nos embala.” Ela reforça que é“a favor da roda de leitura na família, na sala de aula, no projeto social. “E seja blog, site, Facebook, sou a favor de despertar o gosto pela leitura. Acho que todos são caminhos. Somos singulares e seremos afetados de forma peculiar. O objetivo, acredito, é atingir o maior número de público. Até quem ainda não foi alfabetizado, basta influenciá-los com livro sem texto e por meio das figuras criar uma história juntos, soltar a imaginação. Até ouvindo música você está lendo, interpretando a letra, sentindo a mensagem”, observa.

O problema, alerta Maria Vilani, é que a realidade do mundo muda rapidamente e há uma dificuldade de acompanhar esse avanço e criar uma metodologia que concilie algo que é maravilhoso e não se pode perder. Além de incentivá-lo com Maria Vilani, o Bem Viver foi conversar com outras especialistas, escritoras, jornalista, educadora, psicanalista, crianças e adolescentes que veem a leitura como parte de si. E aí, qual história o capturou para o mundo dos livros?

Liberdade para criar

É sempre uma surpresa encontrar crianças e adolescentes que gostam de ler. O encantamento é imediato diante das interpretações e do que dizem sobre o significado da leitura e do livro nesse começo de vida. Marina Metzker Pifano de Melo, de 11 anos, aluna do Colégio ICJ, diz que gosta de ler porque é uma aventura. “É melhor do que filme porque quando leio posso inventar o espaço e imaginar o que eu quiser.” Articulada, atenta, com cuidado ao escolher cada palavra durante a entrevista, Marina destaca que ler é interessante porque depois pode compartilhar seus pontos de vista, além de trabalhar a criatividade. “Tenho dois livros preferidos: O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, e A menina que colecionava borboletas, da Bruna Vieira.” Ela lembra que o interesse pela leitura começou bem pequena, “quando pedia a minha mãe para me contar várias vezes a história da A bonequinha Preta”, da mineira Alaíde Lisboa de Oliveira, obra com quase 80 anos e ainda sucesso, um clássico.

Marina enfatiza que ler a ajuda a “falar melhor, me tornar uma aluna melhor nas aulas de redação, não errar vocabulário e saber usar palavras difíceis e diferentes mesmo em um contexto mais simples. Sempre leio dois livros por semana. Pego na biblioteca do colégio ou peço à minha mãe, que até reclama de tantos que quero. Adoro ganhá-los de presente e de conversar com minha prima, Adriana, já adulta, formada em administração, sobre literatura”. A mãe, Patrícia, conta que fica admirada com o nível do papo entre as duas. Nada infantil. O que também deve encher de orgulho o pai, Humberto. Marina é filha única.

À vontade para falar, Marina chama a atenção para a “coleção das princesas modernas, da Paula Pimenta. Ela mudou a história, colocou no mundo real e com problemas atuais. Achei bem importante a discussão. Li A droga da obediência, do Pedro Bandeira, e como ele escreve bem. Aliás, são tantos assuntos e ideias que não sei como consegue, é maravilhoso”. Ela conta que a maioria de seus colegas gosta de ler e quem ainda não se rendeu ao livro, Marina tem opinião formada. “Acho que algumas escolas forçam um livro, um assunto determinado para trabalho ou prova. Aí, se o aluno não gosta do tema, lê como obrigação. É questão de experimentar. Tentar ler antes de falar que não gosta. É importante ser curiosa. Descobri este ano que amo ficção científica depois de ler O admirável mundo novo, que fala de assuntos interessantes.”

CURIOSO

Já Rafael Henrique Castro Barbosa, de 12, do Colégio Batista, conta que despertou para a leitura aos 9 anos. “Um dos motivos foi a atração pela capa do livro As crônicas de Nárnia na estante de casa. O rosto do leão e o fato da minha prima, Ana Paula, estar lendo e comentando sobre a história, me deixava curioso. Olhava para ele várias vezes, mas a quantidade de páginas me intimidava. Um dia, decidi descobrir a história, ela foi se desenvolvendo e gostei. Acho importante que, desde pequeno, meus pais, Vanessa e Hudson, leram para mim. Meu irmão mais velho, Samuel, de 19, foi outro incentivador, principalmente com os livros da saga de Percy Jackson. E meu pai está estudando teologia e anda lendo muito, o que também me motiva.”

Para Rafael, a leitura aumenta seu vocabulário e, “pela forma que os autores escrevem, ajuda na produção de texto. A maioria dos meus colegas não lê. Os meninos são mais ativos, agitados e querem jogar bola. Já as meninas, mais quietas, leem mais. Eu acho legal. Um dos meus preferidos é Um cadáver ouve rádio, de Marcos Rey, gostei muito da história de Robison Crusoe e também de O grande desafio, do Pedro Bandeira. Na verdade, o que me interessa são livros de aventuras, viagens, naufrágios e suspense. Não gosto de drama e romance”.

Estímulo à leitura

Desenvolver a linguística, aperfeiçoar o vocabulário e instigar a imaginação e a criatividade. Sabendo da importância da leitura para o desenvolvimento de crianças e adultos e do baixo índice da leitura no país, o Colégio Batista Mineiro – unidade BH Floresta – incentiva seus alunos a terem esse delicioso hábito. Tanto que há uma série de iniciativas para estimular crianças e jovens nas maravilhas da leitura, como o Literarte. Focado nos estudantes do 3º ano do ensino fundamental, o projeto visa estreitar o contato das crianças com os livros. Tudo a partir de renomados autores brasileiros, como Monteiro Lobato, Vinícius de Moraes, Ziraldo, Maurício de Sousa, Ruth Rocha, Alaíde Lisboa. O projeto, anual, tem início nos primeiros meses de aula, com a visita dos alunos à biblioteca. São semanas de estudo e contato com os clássicos da literatura infantil. Esses dias dedicados à leitura resultam em uma linda apresentação para familiares e pais. Em seguida, e dentro da programação do Literarte, o colégio faz até o dia 14 deste mês a Feira Literária, quando os convidados são levados a conhecer os autores e a adquirir novos livros. Karlla Mabel, coordenadora do 3º ano e organizadora do projeto, conta que o Literarte existe há 17 anos e o resultado é o aumento gradual do interesse pela leitura a cada edição.

Um livro para cada pessoa

Kristy Dempsey, escritora e bibliotecária da Escola Americana de BH, acaba de lançar o livro Em superhero instruction manual, no qual conta a história de um menino que sonha se tornar um super-herói e busca ajuda em um manual. O livro é voltado para crianças de 4 a 10 anos e tem o objetivo de mostrar que, na vida real, os melhores heróis surgem de circunstâncias inesperadas. Todos têm a capacidade de ser grandiosos em atitudes, gestos e qualidade pessoais.“Estudos mostram que a melhor maneira de fazer crianças e adolescentes ler e amar a literatura é colocar as escolhas nas mãos dos leitores. Basta ter literaturas diversas e disponíveis para eles escolherem o que querem ler. Donalyn Miller, pedagoga conhecida como a Encantadora de Livros, diz que: ‘a leitura forma e transforma quem nos tornamos’, tanto como leitores quanto como seres humanos. Encorajamento e oportunidades para escolher o que leem tem benefícios duradouros para crianças.”

Conforme Kristy Dempsey, leitores que escolhem livremente o que vão ler desenvolvem confiança nas habilidades de tomar decisões, criam a capacidade de ter responsabilidade por suas escolhas, criam confiança e reforçam um sentido de autoconhecimento, melhoram suas habilidades em leitura e continuam leitores ao longo da vida. Para ela, qualquer leitura é válida. “O que importa é ler, independentemente do gênero. Mas se a gente quer que nossos filhos fiquem engajados nos clássicos ou em literatura considerada mais nobre, precisamos engajá-los em literatura que eles se interessam desde cedo.”

Para a bibliotecária, a responsabilidade do gosto pela leitura é dos pais. “Em meu mundo utópico, toda criança chegaria no primeiro dia da escola na vida com centenas de livros já lidos com os pais em casa. Autora e pedagoga Mem Fox diz que, ‘leitores são criados nos colos dos seus pais’. Se a criança chega na escola já com um amor pela leitura, aprender a ler vai ser um privilégio, independentemente da dificuldade com as mecânicas de leitura. Cada família deve ter tempo junto para a leitura, seja em voz alta, ou cada um com seu livro em seu cantinho. A criança que vê o pai ou a mãe lendo pelo prazer vai valorizar a leitura”, afirma. Ela conta que, claro que tem alunos que chegam na escola afirmando que odeiam ler. “Dou um sorriso e digo que ele não encontrou seu livro ainda e que em nossa biblioteca existem tantos livros maravilhosos que ele deve se preparar para uma caça aos tesouros. Acredito que existe um livro para cada pessoa, o livro que vai tornar essa pessoa um leitor.”

TÁTICAS

Para Kristy Dempsey, a leitura é um tipo de ensaio emocional. “Por meio da literatura, experimentamos e aprendemos sobre partes da vida, que não conhecemos ainda. Começamos a criar um roteiro para nossas vidas. Quando o aluno lê só para terminar um exercício, ele não nada nas ideias e nas emoções do livro. Se eles não estão se vendo dentro do livro, devemos mudar nossas táticas de ensino”, diz.

Kristy Dempsey conta que, em seu livro, escolheu um assunto que chamaria a atenção dos pequenos: super-heróis! “Em minhas interações com crianças de 4 e 5 anos na escola,elas afirmaram um desejo de ter superpoderes. Eu queria ajudá-los a descobrir o que realmente nos torna super: a bondade e o desejo de ajudar. É assim que salvamos o mundo.”

Ser espelho e ponte

Jane Patrícia Haddad, mestre em educação, afirma que é urgente rever o sentido da literatura, principalmente na educação infantil (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

Jane Patrícia Haddad, mestre em educação, afirma que é urgente rever o sentido da literatura, principalmente na educação infantil (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

“Acredito que o livro (o bom) é uma ponte entre as gerações, uma forma de contato, onde pais, avós, filhos, professores e alunos possam se encontrar, se reconhecer e principalmente colocar a palavra em movimento”, acredita Jane Patrícia Haddad, mestre em educação. Para ela, nas escolas, faz-se urgente rever o sentido da literatura, principalmente na educação infantil. “Não, não é mais aceitável uma educação que prevê uma leitura direta da linguagem e da fala, onde professores transmitem e alunos aprendem. A leitura afetiva, feita e apresentada por pais e professores, é nela que existe ou não a palavra. Olhar essa criança é apostar nela, por meio da boa literatura é possível nos desarmarmos de qualquer defesa e pré-julgamento, principalmente de modelos padronizados”, afirma.

Jane Patrícia Haddad ressalta que ler é se reinventar em um mundo de pressa e ausência de sentido. “Tentemos não ter tanta pressa com a infância, abram mais tempo para os livros infantis, para a música, para a arte, talvez assim, tenhamos que ensinar menos o acolhimento com as diferenças, a tolerância com os idosos… O bom livro permite o encontro de afetos, um encontro sem pressa, um encontro de presença e de escuta. Uma escuta que permita um tecer de outras histórias e saberes.”

ALICE E POLYANA A mestre em educação lembra que a infância não é apenas uma etapa do desenvolvimento, não é um processo linear e único, é muito mais do que isso. “Criança é o que acreditamos que ela seja. Eu mesma fui uma criança que encontrou na literatura uma forma de sair de conflitos psíquicos. Encontrei na literatura uma saída positiva frente aos impasses do medo, da raiva, das perdas, da desatenção. Foi pelas mãos de professores e dos livros que desenvolvi atitudes responsáveis frente ao mundo. Foi nos professores que encontrei o afeto perdido na pressa da minha casa, foi no livro Alice no país das maravilhas que decidi encontrar o meu caminho. Foi no clássico Polyana que encontrei uma amiga que sentia o que eu sentia… foi no olhar da Tia Benedita (bibliotecária) que eu entendi que o castigo poderia ser amoroso… Enfim, a literatura é uma saída do mundo sem sentido, onde o essencial vem se perdendo nas urgências de uma sociedade adoecida, querendo preparar crianças e jovens para o mercado de trabalho.”

Com know-how, Jane Patrícia Haddad avisa que “a melhor forma de tornar nossos filhos e alunos leitores é oferecer a eles o caminho da fantasia, dos sonhos e do simbólico. Os livros são atalhos do coração, são possíveis exemplos de amor e sedução. Ler é reler o que muitas vezes nos foge. Leiam e permitam que seus filhos e alunos experimentem seus efeitos”.

Como fazer crianças e adolescentes lerem? Para a psicanalista e escritora Maria Elizabeth Timponi de Moura, Beth Timponi, a pergunta a faz lembrar um Hai-Kai de Issa Kobayashi (1736-1827 aproximadamente): “O apanhador de nabos/Mostra o caminho/Com um nabo/. Acredito que um professor que coloque essas três linhas no quadro vai ouvir a moçada falar sobre a corrupção no Brasil, sobre o antagonismo entre falar e fazer, sobre como pensamos tendo como referência o trabalho que fazemos. Não vejo outra forma de incentivar a leitura, principalmente dos clássicos, se sua atualidade e valor não forem revigorados por um leitor que contextualize os textos. Seria melhor dizer: ler com os clássicos, repensar com eles, dialogando com outros e também produzindo textos a partir da leitura. O estímulo para a leitura está na abertura que ela produz de um campo que ofereça espaço para o leitor entrar em atividade e colocar algo de si mesmo e de seu tempo”.

Na literatura infantil não poderia ser diferente, alerta Beth Timponi. “Freud entendeu que o escritor faz seu trabalho quando consegue justamente remover as barreiras que impedem o leitor de se deixar levar pelo imaginário, pela ficção. A criança tem uma atividade imaginária muito aflorada e interessante. Mais do que isso, é pela via do imaginário que completa as lacunas do que ainda não tem recursos para simbolizar: fatos que vê, palavras que ouve, coisas que experimenta inclusive em seu próprio corpo.”

EXPRESSÃO A psicanalista explica que pelo imaginário a criança tenta construir algumas teorias sobre o mundo em que vive, sobre a dinâmica das relações afetivas na família e de seu lugar nela. Monta cenas, constrói personagens, faz desenhos numa atividade incessante de investigação, expressão e tradução. “As histórias infantis oferecem uma oportunidade excepcional para que a criança possa externalizar ou mesmo construir e dar forma ao que se passa em seu íntimo. É também um momento privilegiado em que a distância entre a criança e o adulto diminui já que ambos estão envolvidos numa trama que lança para uma outra dimensão problemas e situações diversas que a vida oferece. É o adulto que mostra o caminho da literatura para a criança ou adolescente na medida em que oferece um livro e lê, não para eles, mas com eles.!”

Interessados em compartilhar livros ou escolher um exemplar para levar para casa sem custo podem fazer uma visita ao Container com Letras, no hall das Bandeiras da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A ação itinerante, que vai até o dia 23, das 10 às 19h, é uma iniciativa da organização não governamental Biblioteca de Compartilhamento e conta com o apoio da ALMG. Cerca de 15 mil obras estão disponíveis aos visitantes nas estantes do container de seis metros de comprimento, estruturado com ar-condicionado, computador, internet e uma tenda anexa com espaço para leitura. “Baseamos em valores da sustentabilidade e na ideia do desapego para propor, por meio do projeto, a desconstrução do conceito de propriedade. Acreditamos que o que fica acumulado deve circular, inclusive na literatura”, explica Giane Drumond, uma das diretoras do Biblioteca de Compartilhamento. O acervo atual do projeto tem mais de 45 mil livros, divididos em dois containers e um ponto de estoque.

Pequeno salto

A quarta edição da Pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” (2016) feita pelo Instituto Pró-Livro e aplicada pelo Ibope Inteligência, com o apoio da Abrelivros, Câmara Brasileira do Livro e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), mostrou que o número de leitores no Brasil subiu 6 pontos percentuais entre 2011 e 2015. O levantamento teve abrangência nacional e aponta que o país tem cerca de 104,7 milhões de leitores, ou seja, 56% da população. A metodologia considera como leitor aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses. E o não leitor é aquele que declarou não ter lido nenhum livro nos últimos três meses mesmo que tenha lido nos últimos 12 meses. A pesquisa revelou que o brasileiro lê, em média, 2,54 livros no período referência de três meses anteriores à pesquisa. O número equivale a 4,96 livros por habitante/ano. O levantamento considerou todos gêneros: literatura, contos, romances, poesia, gibis, Bíblia, livros religiosos e didáticos. Quanto as motivações para ler, depois do “gosto ou interesse pessoal”, com 47%, a motivação religiosa foi apontada como a segunda principal razão para ler, com 22% das respostas.

Com mercado em crise, segmento religioso impulsiona número de leitores

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Primeira mesa do ciclo 'Retratos do Leitor e do Não Leitor' - Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Primeira mesa do ciclo ‘Retratos do Leitor e do Não Leitor’ – Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Análise foi feita na primeira mesa do ciclo “Retratos do Leitor e do Não Leitor”

Lucas Altino, em O Globo

PARATY — Entre exposições de autores renomados e debates sobre tendências, expressões artísticas e processos criativos, a Flip também reserva relevante espaço para discussões de mercado. Nesta quinta, na primeira mesa do ciclo “Retratos do Leitor e do Não Leitor”, realizada na FlipMais em parceria entre o Instituto C&A, o Instituto Pró-Livro e o jornal O Globo, foram apresentados dados de pesquisas sobre o nicho de leitura do Brasil. Entre aumento no número de leitores brasileiros, e queda de vendas de exemplares e de faturamento das editoras, a explicação, concluíram os palestrantes, está na importância do segmento religioso para a indústria.

Com o objetivo de traçar um perfil do leitor brasileiro e as dificuldades no processo de educação, que culminam na formação de analfabetos funcionais, os palestrantes Luis Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro, Marcos Pereira, presidente do Instituto Pró Leitura (IPL), Zoara Failla, coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil do IPL, e Mariana Silveira Bueno, coordenadora da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), apresentaram dados das pesquisas “Produção e Vendas do Mercado Editorial”, da Fipe, e da “Retratos da Leitura no Brasil”, do IPL. A mediação da mesa foi feita pelo jornalista do GLOBO, Leonardo Cazes.

Zoara Failla lembrou que o principal motivo da pesquisa do IPL, realizada a cada quatro anos, é orientar políticas públicas e ações da sociedade civil. Em comparação com 2011, houve aumento no número total de leitores no Brasil, de 50% da população (considerado os maiores de cinco anos que leram algum livro, ou partes, nos últimos três meses), para 56%. Em 2007, porém, a quantidade era de 55%. Ao apresentar microdados específicos, como relações com escolaridade, hábitos e influências para leitura, a pesquisa foi traçando o perfil do leitor brasileiro.

— O gênero mais lido é a Bíblia; em segundo “livros religiosos”. Muitos autores religiosos também são citados como os preferidos — destacou Zoara, em relação ao segmento mais relevante do mercado — há outros dados importantes, como a falta de tempo como principal motivo para a não leitura, o crescimento de leitura em meios de transporte, devido aos smartphones e tablets, a redução de dificuldades citadas para a não leitura, o uso ainda baixo de e-books, e a visão de que a biblioteca é um espaço somente para estudantes. Apesar de melhora nos números de uma forma geral, é preciso pensar em políticas públicas para melhorar o panorama.

Na sua pesquisa, a Fipe detectou uma aparente incoerência: o aumento no número de leitores, mas a queda na quantidade de vendas de exemplares, de 8,19%, e no faturamento das editorias, de 4%. Na tentativa de entender esse quadro, Mariana Bueno explicou que a fundação cruzou dados e levantou algumas hipóteses, como o governo ser um grande comprador, abastecendo bibliotecas públicas, o que não se sustentou.

— Percebemos, então, que a Bíblia lidera ranking de leituras. Resolvemos considerar, nos dados, um novo indicador exclusivo para leitura religiosa. Nessa nova leitura dos gráficos, concluímos que esse subsetor foi o único que apresentou crescimento considerável. E faz sentido não influenciar tanto na venda de editoras ao pensarmos que a Bíblia, citada mais lida, raramente tem um exemplar novo comprado pelas pessoas.

‘MERCADO SOBREVIVENTE’

Perguntado por Leonardo Cazes sobre as explicações para os fenômenos de público nas bienais, apesar do momento de desvalorização das editoras, Marcos Pereira classificou o mercado editorial como um “mercado sobrevivente”.

— De 2004 a 2015 o mercado de produção editorial perdeu 40% de valor. A indústria pode comemorar o aumento de seis pontos percentuais de leitores, mas a verdade é que precisamos de ajuda. Aí a a gente vê uma Bienal lotadíssima e não entendemos o segredo de tanto sucesso. Às vezes quero perguntar para o visitante aonde ele vai no resto do ano. Nosso papel é tentar aumentar essa procura, criar volume maior, e mais interesse. Meu avô dizia que Brasil é país do futuro e estou cansado. Quero dizer aos meus filhos e netos que Brasil é o país do presente — disse Pereira.

Dentro dessa questão, Zoara também lembrou que cerca de quatro milhões de jovens se declaram leitores, número suficiente para abastecer um mega evento. Luis Torelli ainda citou fenômeno de audiência de blogueiros, que atraem muito público, e concluiu que as pesquisas apresentadas são “importantíssimas para atendermos melhor o desafio de democratizar o livro”:

— Precisamos trabalhar muito para que brasileiros possam comprar mais livros. Dependemos de políticas públicas de educação e inclusão, e também da retomada do crescimento econômico. O Brasil tem uma das mais plurais produções editoriais do mundo. Nas numerosas inscrições do premio Jabuti, por exemplo, vemos a quantidade de talento que existe aqui. O mercado também precisa fazer sua parte para que o Brasil seja redimido pela leitura. O livro pede passagem.

O ciclo “Retratos do Leitor e do Não Leitor”, realizada em parceria entre o Instituto C&A, o Instituto Pró-Livro e o jornal O Globo, tem prosseguimento nesta sexta, às 14h30m, na Casa de Cultura, com a mesa “O X da questão”, em que estarão presentes o colunista do GLOBO Antonio Gois, Marcilio França Castro e Neca Setubal.

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