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Publicitário é poupado de assalto após livro de ‘Game of Thrones’ ser confundido com Bíblia em Belém

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Jovem contou episódio na internet e história viralizou nas redes sociais, onde teve mais de 15 mil curtidas.

Publicado no G1

O publicitário Leonardo Rego escapou de um assalto na noite de segunda-feira (31) após o livro que ele carregava – um volume das “Crônicas de gelo e fogo”, do escritor George R.R. Martin, que baseou a série de TV Game of Thrones – ser confundido com uma Bílbia. De acordo com o jovem, os assaltantes alegaram que “não roubavam crente” após terem visto o volume no colo do rapaz. A história foi contada na internet e viralizou.

O jovem conta que havia saído da academia no bairro do Umarizal, em Belém, por volta de 21h30 e caminhado até a avenida Nazaré para pegar um ônibus e voltar para casa quando, após 30 minutos de viagem, dois homens subiram no coletivo e anunciaram o assalto.

leonardorego

Postagem de Leonardo sobre assalto evitado após livro ser confundido com bíblia já teve mais de 15 mil curtidas (Foto: Reprodução / Facebook)

 

“Eu moro no bairro da Terra Firme, é um bairro periférico e bem perigoso até. O (bandido) que estava a frente da roleta anunciou o assalto e começou a pegar o dinheiro do cobrador. Tinham cerca de 15 pessoas no ônibus e eu estava logo no primeiro banco depois do cobrador, só que do lado direito do ônibus. Quando o da frente anunciou o assalto muitas pessoas tiveram tempo de esconder o celular, foi o meu caso”, explica Leonardo.

Só que os assaltantes decidiram pedir para revistar a mochila do rapaz, e foi quando encontraram o livro. “Ele chegou em mim e pediu o meu ‘site’, no primeiro instante eu fiquei sem entender o que ele queria, mas deduzi que seria celular. Então eu disse que eu não tinha, e que havia sido roubado na semana anterior. Ele duvidou de mim e pediu pra ver minha mochila, e nessa hora eu tirei a mochila de cima do meu livro que estava aberto na minha perna”, conta.

” Ele viu o livro aberto na minha perna e confundiu com uma bíblia, e disse ‘deixa deixa, eu não roubo crente’ . Logo que ele desceram o cobrador vira pra mim e fala ‘Égua cara, tu mostrou logo a palavra, Deus e deu um livramento'”, relembra o publicitário Leonardo Rego.

Segundo Leonardo, o assalto não durou 2 minutos e ele desceu logo depois dos bandidos. “Foi muito rápido. Umas sete pessoas foram roubadas, mas nada de grande valor foi levado. Só alguns celulares e o pouco dinheiro que o cobrador tinha. o Motorista disse que iria deixar os passageiros no fim da linha e voltar pra ir na delegacia prestar um B.O”, afirma.

Mais surpeendente que o desfecho do assalto, porém, foi a repercussão da história: após contar o caso nas redes sociais, Leonardo teve mais de 15 mil curtidas e foi reproduzido em páginas de fãs dos livros e da série de TV. “Eu fiquei muito surpreso. Quando eu postei eu pensava que era só mais uma história comum, mas as pessoas acharam ela muito engraçada”, conclui.

Bairro rural de MT terá 1ª biblioteca após adolescente juntar 6 mil livros

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Jefferson Gabriel da Silva, 14, com os livros que arrecadou para criar biblioteca em Várzea Grande

Jefferson Gabriel da Silva, 14, com os livros que arrecadou para criar biblioteca em Várzea Grande

Vinicius Lemos, no UOL

No quintal de uma casa na zona rural de Mato Grosso, o estudante Jefferson Gabriel da Silva, 14, guarda 6.000 livros que em breve vão se tornar a primeira biblioteca da região.

O acervo, reunido com doações nos últimos dois anos, ficam em caixas e sacolas do lado de fora da casa onde ele mora com a mãe e uma irmã, no distrito rural de Bonsucesso, município de Várzea Grande (região metropolitana de Cuiabá).

O projeto começou quando Jefferson precisou fazer uma pesquisa para um trabalho da escola pública onde estudava. Sem computador, não encontrou livros para auxiliá-lo, já que não havia bibliotecas no distrito.

O garoto, então, criou meios para facilitar o acesso dos vizinhos a cultura. “No começo, ele pedia livros para todos e, quando conseguia, carregava tudo na bicicleta”, lembra mãe do jovem, a recepcionista Janice Ferreira, 41.

As doações de livros tiveram início em meados de 2015, feitas por vizinhos e até moradores de outras cidades que ficaram sabendo da iniciativa.

Diante da quantidade de doações, a avó do estudante permitiu que ele construísse a biblioteca em um terreno dela, situado em frente à residência do jovem. Para isso, começou a receber doações para o projeto. A primeira foi uma surpresa, durante um evento ao qual foi convidado.

“Disseram que havia um presente pra mim e quando vi, estava em frente à Xuxa. Foi emocionante e ela ainda doou R$ 5.000.” Na data, ele ainda ganhou um projeto arquitetônico para a biblioteca. Meses depois, Jefferson recebeu mais R$ 5.000 do Bope (Batalhão de Operações Especiais) de MT, arrecadados em um evento do grupo.

O governo de Mato Grosso também entrou no projeto com a doação de equipamentos, como estantes para os livros, que serão entregues quando a obra estiver pronta. A secretaria de Justiça e Direitos Humanos permitiu ainda que presos servissem como mão de obra na construção. A estrutura inicial da biblioteca foi concluída em dezembro passado, mas faltam recursos para colocar o lugar em funcionamento.

“Está praticamente erguido, mas ainda faltam cerca de R$ 20 mil para fazer o telhado e os acabamentos. Não temos condições financeiras para terminar, por isso não há previsão para que a biblioteca fique pronta”, diz Jefferson, que busca novos auxílios. Para obter recursos públicos, é preciso regulamentar a situação do espaço, passando o terreno para a biblioteca.

“É triste, porque as pessoas perguntam quando vai ficar pronta. Eu digo que não sei. É complicado saber quando vou conseguir terminar.” Para cuidar e selecionar os livros, ele tem a ajuda de duas bibliotecárias voluntárias, já que o novo espaço poderá abrigar apenas 2.500 dos 6.000 livros que ele já tem.

O adolescente cursa o 8º ano do ensino fundamental em uma escola particular de Cuiabá –ele ganhou uma bolsa após o diretor do colégio conhecer o projeto. Em meio à rotina na escola, Jefferson afirma que sempre se depara com a facilidade dos colegas de classe para obter livros.

Nestes momentos, costuma se recordar das dificuldades de sua região. “Quero terminar a biblioteca e fazer com que as crianças e os adultos da minha comunidade também tenham acesso ao conhecimento. Quero atender até pessoas de outros lugares”, planeja.

Romances de Elena Ferrante guiam passeio por becos e praias de Nápoles

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Amigas tiram fotos da baía de Nápoles, com o Vesúvio ao fundo, na rampa SantAntonio a Posillipo

Amigas tiram fotos da baía de Nápoles, com o Vesúvio ao fundo, na rampa SantAntonio a Posillipo

Iara Biderman, na Folha de S.Paulo

Descobrir Nápoles seguindo os passos da escritora Elena Ferrante ou de suas personagens é uma aventura proveitosa até para quem ainda não leu os livros de sua elogiada série napolitana.

Os quatro romances (“A Amiga Genial, “História do Novo Sobrenome, “História de Quem Foge e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida, publicados no Brasil pela Biblioteca Azul) acompanham a vida das amigas Lenu e Lila, nascidas no fim da Segunda Guerra em um bairro da periferia de Nápoles.

Lenu, a narradora, tenta superar os limites impostos pela pobreza do bairro e se tornar uma escritora -enquanto Lila, a amiga audaciosa, manipula a vida de Lenu e de todos os vizinhos. No meio disso, o leitor mergulha na história de Nápoles, da Itália e de acontecimentos que definiram o mundo de hoje, como o feminismo, a luta de classes e o crime organizado.

Segui-las por ruas e becos de Nápoles é a melhor forma de perceber a marca da cidade, o contraste entre periferia e centro, interior e mar, riqueza e miséria. Ao mesmo tempo, é uma viagem genial caminhar com as amigas pelo caos napolitano e os marcos turísticos da capital de Campânia, no sul da Itália.

Não à toa os livros se tornaram um fenômeno mundial de vendas, e o primeiro volume já está sendo adaptado para a televisão pela HBO, que deve estrear uma minissérie em 2018.

O nome verdadeiro da autora, porém, continua um mistério: Elena Ferrante é um pseudônimo, a autora se recusa a aparecer e só concede raras entrevistas por e-mail.

ONDE O TURISTA NÃO VAI

O melhor jeito de entrar na Nápoles de Ferrante é por trem. Da janela, você busca avistar a estação central, mas tudo que vê é a periferia, a mesma de qualquer cidade, com seus prédios cinzentos, torres elétricas e muros de pedra, como descreve a autora.

Gianturco, um ponto antes da estação central de Nápoles, é a parada no cenário onde as protagonistas Lila e Lenu nasceram, cresceram, fugiram ou ficaram. Saindo, à direita, chega-se ao túnel que as amigas percorreram quando, pela primeira vez, tentaram passar os limites do bairro.

Uma das bocas do túnel está fechada para carros. Há alguns anos era usado para festas e shows alternativos, mas os eventos foram proibidos pela prefeitura. Hoje, só há escuridão, umidade e grafites.

Na saída estende-se a avenida Emanuele Gianturco, o estradão. Pouco depois de se passar por um posto de gasolina (será ainda o mesmo em que o personagem Antonio Cappuccio, filho da viúva louca, trabalhava?), vira-se à direita, para entrar no coração do bairro: Rione Luzzatti, tão difícil de chegar (para os turistas) quanto de sair (para os personagens).

Praia no vilarejo de SantAngelo, onde o passeio é subir pelas ruas formadas por escadas de pedra, rente às casas brancas e floridas.

Praia no vilarejo de SantAngelo, onde o passeio é subir pelas ruas formadas por escadas de pedra, rente às casas brancas e floridas.

Os prédios de quatro andares de Luzzatti foram construídos para a população sem recursos desabrigada após a Segunda Guerra. Das fábricas erguidas por lá só restam os muros semiarruinados e, no hoje bairro-dormitório, ruas praticamente desertas.

Um dos seres vivos encontrados pela reportagem é o carroceiro Enzo. Nos primeiros livros da série, o também carroceiro Enzo Scanno vendia verduras.

O Enzo real vende peixes e frutos do mar, mas só parou para descansar em frente à igreja da Sagrada Família, onde Lila se casou. Não há para quem vender seus pescados.

Ele nunca ouviu falar em Ferrante ou nos seus livros. “Não sou uma pessoa que lê”, desculpa-se, como provavelmente faria qualquer personagem do bairro da ficção.

Quando a narradora Lenu já é uma escritora consagrada e encontra Lila pela última vez, em 2005, percebe que o bairro permanecera idêntico e, no entanto, a paisagem em torno tinha mudado: “No lugar dos pântanos e da velha fábrica de conservas, há o brilho de espigões de vidro”. É mesmo o que se vê agora para além dos muros da igreja.

Rione Luzzatti satisfaz o fetiche de ver “a casa” dos personagens e permite ao leitor mais aficionado passar pelo túnel de volta ao estradão da Emanuele Gianturco que levaria as amigas ao mar. Mas, como na discussão sobre a verdadeira identidade de Elena Ferrante, talvez aqui seja mais importante a ficção do que a realidade.

BECOS E VIELAS

Para completar a imagem do bairro arquetípico descrito nos livros, o melhor é pegar de volta o trem na linha 2 da rede metropolitana até a estação Cavour, duas paradas após a Gianturco.

Dali chega-se a Sanità, bairro popular onde artesãos, comerciantes, estudantes, artistas e camorristas convivem em ruas estreitas e caóticas.

mapa

Ao entrar pela rua Vergini, ocupada por uma feira livre diária, o primeiro impulso dos leitores da série napolitana é buscar uma criança perdida entre as barracas de frutas, verduras, panelas, roupas e sapatos.

É fácil se perder em Sanità –e isso faz parte do jogo. Ao perambular sem destino pelas ruas, cruza-se com marceneiros ou sapateiros conversando em frente a pequenos negócios, com moradoras que estendem seus varais até a janela da vizinha da frente e com o som incompreensível do dialeto napolitano.

Ao final da via Vergini, um desvio à direita leva à praça Miracoli, de onde se avista do alto o emaranhado de becos e vielas do bairro. Descendo por um desses “vicos”, em direção a via Sanità, chega-se à igreja San Vicenzo.
Ao contrário da fechada e vazia Sagrada Família, em Rione Luzzatti, esta está sempre aberta e cheia, e não é difícil topar com um casamento.

A visão dos convidados em trajes de festa sob um calor de 40 graus remete à cerimônia de casamento do livro. A impressão é mais forte quando se percebe, na praça da igreja, um monumento a um jovem morto em uma disputa da Camorra (máfia napolitana). Quando Lenu volta ao bairro, em 2005, encontra o cadáver de Gigliola Spagnuolo, mulher do camorrista Michele Solara, no canteiro ao lado da igreja.

Barquinhos levam os turistas de SantAngelo até a praia de Maronti por três euros (para uma travessia de três minutos), mas dá para ir caminhando numa  escalada de cerca de uns 20 minutos.

Barquinhos levam os turistas de SantAngelo até a praia de Maronti por três euros (para uma travessia de três minutos), mas dá para ir caminhando numa escalada de cerca de uns 20 minutos.

O bar-confeitaria da família Solara talvez não exista, mas dá para sentir o gosto de sfogliatelles e canolis apreciados pelos personagens de Ferrante (e por toda a torcida do Napoli) na Poppella.

Hoje em uma pequena loja moderna na via Arena Sanità, a Poppella foi inaugurada no bairro na década de 1920 e era frequentada pelo comediante napolitano Totó (1898-1967), uma das três figuras mais cultuadas da cidade (as outras são San Gennaro e Diego Maradona, que jogou no clube local).

No início deste ano, dois motociclistas encapuzados atiraram na vitrine da confeitaria. Não se sabe se foi coisa dos Solara

A Torre Negra | Roteirista admite que filme é uma versão “mais modesta” dos livros

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dris Elba como Roland Deschain

Idris Elba como Roland Deschain

Caio Coletti, no Observatório do Cinema

O roteirista Akiva Goldsman teve que admitir, durante o tapete vermelho da pré-estreia de A Torre Negra, que o filme escrito por ele e dirigido por Nikolaj Arcel é uma versão “mais modesta” dos livros de Stephen King.

“Isso é parte do porquê King chama A Torre Negra de sua grande obra prima. Esses livros nãos e prendem a um gênero, eles são gigantescos e excitantes. Nos EUA, nós gostamos do nosso entretenimento colocado em caixinhas e rótulos”, contou o diretor.

“Essa é uma versão mais modesta dos livros de King. O que temos aqui é uma história de pai e filho. De um garoto sem rumo e de um homem que perdeu a esperança”, continuou ainda.

Além de Idris Elba e Matthew McConaughey nos papeis principais, o elenco conta ainda com Jackie Earle Haley, Tom Taylor e Katheryn Winnick.

O lançamento do filme foi adiado algumas vezes: primeiro, estrearia em fevereiro; depois, em julho; enfim, a data definitiva de estreia ficou para dia 4 de agosto.

Em mesa emocionante, Conceição Evaristo é ovacionada na Flip

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Mesa "Livro de cabeceira", com Conceicao Evaristo - Monica Imbuzeiro

Mesa “Livro de cabeceira”, com Conceicao Evaristo – Monica Imbuzeiro

Escritora foi homenageada em bate-papo com a autora Ana Maria Gonçalves

Sergio Luz, em O globo

PARATY – Numa Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) marcada pela diversidade, tanto na programação oficial quanto nas ruas da cidade do sul fluminense, e pelo homenageado desta edição, o autor negro Lima Barreto, a escritora mineira Conceição Evaristo foi ovacionada pelo público, que lotou o Auditório e a Tenda da Matriz.

Vencedora do Prêmio Casa de la Américas pelo romance “Um defeito de cor”, Ana Maria Gonçalves comandou uma mesa emocionante em homenagem à conterrânea Conceição. Ao introduzir a amiga, a autora elogiou a “curadoria inclusiva e participativa” de Joselia Aguiar e bradou:

— Que a gente comece a pensar numa literatura feita por negros, indígenas e mulheres. Feminismo, racismo e imigração são três temas integrados nesta edição. Queremos mais escritores, curadores e mediadores mulheres e negras. Precisamos quebrar o estereótipo de que negros e mulheres não produzem de literatura e qualidade — disse Ana Maria, que lembrou a professora Diva Guimarães, que tomou a palavra numa mesa paralela do evento, num dos momentos mais marcantes da Flip. — Ela foi a musa desta edição.
Celebrada pelo público do início ao fim do encontro, Conceição Evaristo falou sobre sua obra, seu processo criativo, sua história de vida e questões como racismo, machismo, preconceito contra autores negros e a importância da união de forças para derrotar esses ainda tão presentes na sociedade brasileira.

— Esse momento significa a comprovação da força coletiva. Não estou aqui sozinha. E não podemos deixar de afirmar que não foi concessão. Este lugar é nosso por direito — disse Conceição, para nova forte rodada de aplausos.

O fio narrativo da conversa foi uma apresentação de slides com fotos da escritora, abrindo um caminho para contar a trajetória e a história de vida de Conceição. Na primeira imagem, uma menina de oitos anos posa para a câmera no dia de sua primeira comunhão.

— O catolicismo negro, em determinados momentos, traz a memória das religiões de matrizes africanas. Nem a força do cristianismo tinham conseguido apagar essa memória coletiva. Cresci também ao som das congadas, em que se celebra um mito católico, mas são marcados por rituais africanos. São práticas que os africanos conseguiram implantar e desenvolver para não perder uma referência que continua através do tempo e é retomada pela memória na explicitação da fé — comentou a escritora.

Para Conceição, “em matéria de fé, quanto mais proteção, melhor”:

— Por medidas de segurança, sou devoda de Imaculada Conceição. Mas, toda vez que estou com ela, eu negocio com Oxum. Falo padres nossos e canto para mamãe Oxum. Negocio com Santa Rita de Cássia, Iemanjá, Anastácia… Quase todas as entidades que me protegem são mulheres.

No diálogo, a autora de “Ponciá Vicêncio” retomou a imagem da escrava Anastácia, foi castigada com uma máscara para que não pudesse falar.

— Tenho a imagem dela no meu quarto há anos. Mas aquela máscara, que simboliza a interdição da fala, metaforicamente reverbera em grito. Ela foi tema de escola de samba, e não há nada mais efusivo que isso. Deu nome a um grupo de rap feminino do Rio, foi tema de filme com a Oprah Winfrey. Mas falamos com tanta veemência pelos orifício da máscara que a estilhaçamos — concluiu Conceição, novamente muito aplaudida.

Outro ponto da mesa foi a importância da educação, com lembranças do trabalho da escritora como professora do sistema público.

— Uma coisa que eu tenho certeza é de que eu tentei construir dentro de sala de aula uma ambiência diferente da que eu encontrei enquanto menina. tinham problema de falta de professores e materiais. Mas não podemos ter a ilusão de que a educação oferecida pelo estado pretende atingir as classes populares. A revolução da educação está mais na mão dos professores do que dos projetos educacionais — garantiu.
Segundo Conceição, “o único momento em que o homem negro se equivale ao homem branco é na hora do machismo”:

— Fora disso, sabemos muito bem quem a polícia irá criminalizar ao se deparar com um homem branco e outro negro.

A autora também falou sobre maternidade e criticou a figura da mulher negra na “literatura canonizada brasileira”:

— Quando crio a maternidade na literatura, como em “Olhos d’água”, estou pensando não só de uma maternidade do ponto de vista físico, mas das tias que tomam conta dos sobrinhos, das vizinhas que auxiliam, da amigas, nas mães de santo, que dão colo aos filhos no terreiro, das rainhas de congado. Se a literatura brasileira não consegue criar mulheres negras fecundantes, ela coloca a mulher negra sempre no lugar do mal, com um corpo estéril. É um corpo para o prazer. Quando ela aparecia como mãe, aparecia como mãe preta. A que existia para cuida da prole alheia. E é um mito horrível. Muita gente diz: “não sou racista, tive uma mãe preta, uma babá que me criou”. E a gente pergunta: e daí? — indagou Conceição.
A escritora, que enfrentou muitas dificuldades para estrear em livro, fez uma comparação entre a aceitação de duas grandes escritoras brasileiras. Uma branca, incensada pela academia, e outra negra, ainda pouco conhecida do grande público.

— Por que todos leem Clarice Lispector e conseguem perceber que ela fala de uma dúvida existencial, das angústias humanas, e não percebem isso na Carolina Maria de Jesus? A Carolina é uma grande autora brasileira, mas os pesquisadores dizem que ela fere as normas cultas da língua. Mas eu digo que são as normas ocultas, porque só algumas categorias sociais conseguem acesso a essas normas cultas da língua — disse Conceição, ovacionada por uma plateia lotada que fez questão de aplaudi-la de pé.

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