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Como livros de literatura podem ajudar os alunos em Matemática

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Acredite: existem obras literárias que mesclam narrativa e poesia com problemas matemáticos (Foto: Mariana Pekin)

Acredite: existem obras literárias que mesclam narrativa e poesia com problemas matemáticos (Foto: Mariana Pekin)

 

Mara Mansani, na Nova Escola

Na escola em que trabalho em Sorocaba (SP), a EE Prof. Laila Galep Sacker, a Matemática ocupa um lugar de destaque. Fazemos até um “Dia Especial da Matemática na Escola”, em que todos os professores fazem com os alunos atividades que exploram os conteúdos matemáticos de forma não convencional. Ele acontece, geralmente, às sextas-feiras, pelo menos duas vezes por mês, e inclui brincadeiras, jogos e experimentos.

Essa estratégia surgiu da necessidade de nossos alunos avançarem mais em Matemática, pois as avaliações internas e externas mostravam que eles tinham dificuldades – ou seja, era necessário repensar a nossa prática. Então, essa foi uma das ações que implantamos para superar esse obstáculo, e já sentimos uma melhora nos resultados.

Analisando o desempenho das turmas, notei que uma das dificuldades apresentadas pelos alunos é a resolução de problemas. Como trabalhar mais essa capacidade, de forma diferente?

Uma das descobertas mais interessantes que fiz, pesquisando materiais, é que existem obras de literatura que apresentam a Matemática por meio de histórias ou poemas, de forma divertida e contextualizada.

Parece estranho, mas é isso: hoje, quero deixar a vocês duas sugestões de obras de literatura para trabalhar Matemática, além de atividades que você pode fazer com elas. Vamos lá:

Poemas Problemas, de Renata Bueno: o livro traz 17 problemas em historinhas rimadas, com imagem super coloridas, em uma linguagem que as crianças entendem e com a qual se identificam. Os problemas envolvem conteúdos como combinatória, sequência, figuras geométricas, entre outros – além, é claro, das quatro operações fundamentais. É um verdadeiro convite ao desafio e ao desenvolvimento das estratégias pessoais para resolução dos problemas. Esse livro é mais indicado aos alunos de 1º e 2º ano, na alfabetização.

Os problemas da família Gorgonzola, da [maravilhosa] Eva Furnari: a obra é mais indicada para 3º e 4º ano e apresenta 15 problemas que contam histórias de uma família muita estranha e divertida. As crianças adoram esse livro! As ilustrações são muito divertidas e os problemas propõem desafios que envolvem as quatro operações fundamentais, sistema monetário, comparações, entre outros conteúdos e habilidades que exigem muita atenção dos alunos, pois é preciso, em primeiro lugar, retirar da narrativa as informações que realmente importam, proporcionando um bom exercício de interpretação de texto para resolução dos problemas. Aliás, muitas vezes, a dificuldade na resolução dos problemas vem mais da incapacidade de interpretar o texto corretamente do que da falta de domínio dos conceitos matemáticos.

Venho utilizando esses livros nesses “Dias Especiais da Matemática”, seguindo os seguintes passos:

*Apresentação do livro para os alunos: começo sempre explorando o livro de maneira geral, falando sobre o autor, a proposta dele e outras informações que sejam relevantes.

*Divisão dos alunos em grupos: procuro agrupar as crianças por níveis próximos de desenvolvimento na disciplina. Assim elas podem construir juntas o caminho para resolver os problemas. Em seguida, distribuo cópias de um mesmo problema para todos os grupos.

*Intervenções: enquanto os alunos leem, vou passando pelos grupos para ajudá-los quando há mais dificuldade, fazendo questionamentos que os levem a resolver os problemas.

*Resolução: em seguida, começa a resolução propriamente dita, primeiro em grupos, depois em duplas e, por fim, individualmente.

*Compartilhamento das estratégias: por fim, as crianças apresentam aos colegas como resolveram o problema. Procuro valorizar as estratégias pessoais, mas sem deixar de mostrar também a estratégia mais convencional. Isso contribui para o desenvolvimento da aprendizagem porque amplia as possibilidades de resolução.

Essa proposta vem trazendo bons resultados, mas ainda há muito a percorrer. Então, estudar e pesquisar novas possibilidades é atividade permanente em nossos planejamentos.

Para terminar, quero deixar mais duas sugestões para turmas mais velhas, que não misturam Matemática e literatura, mas também proporcionam estratégias mais inventivas.

A primeira é o livro Ler e Escrever – Jornada de Matemática, uma publicação da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, para alunos do 5º ano, que você pode baixar de graça aqui. Ele propicia situações que exigem raciocínio lógico e interação com os pares em atividades realizadas dentro e fora da sala. O livro é composto por dois módulos: (1) Cálculo e (2) Resolução de Problemas. Tudo muito bem explicado em objetivos, planejamento e encaminhamento.

Para os alunos maiores, dos anos finais do Ensino Fundamental, deixo como sugestão a obra Matemática Divertida e Curiosa, do célebre professor Júlio César de Mello e Souza, mais conhecido pelo pseudônimo de Malba Tahan. Esse livro é muito bacana, um clássico que apresenta os desafios matemáticos por meio de histórias e curiosidades.

E vocês, queridos professores, quais estratégias matemáticas andam utilizando? Conhece outros livros que explorem a Matemática e a literatura? Compartilhem conosco aqui nos comentários!

Maioria dos alunos brasileiros não sabe fazer conta nem entende o que lê

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Bruna Souza Cruz e Ana Carla Bermúdez, no UOL

Dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) 2015, divulgados nesta terça-feira (6), indicam que o desempenho dos estudantes brasileiros em matemática e ciências piorou em comparação aos dados de 2012. Quando o assunto é a capacidade de leitura, os resultados seguem preocupantes, já que a média não mudou desde então– quando a pontuação já era considerada ruim.

Em matemática, de acordo com o relatório, 70,3% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível 2 de desempenho na avaliação –patamar mínimo estabelecido pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) como necessário para que o estudante exerça plenamente sua cidadania. Na prática, os alunos não conseguem responder às questões da disciplina com clareza e não conseguem identificar ou executar procedimentos rotineiros de acordo com instruções diretas em situações claras.

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A média nacional nessa disciplina foi de 377 pontos, muito abaixo da média da OCDE (490). Para se ter uma ideia, as regiões que tiveram as maiores médias foram Cingapura (564), Hong Kong – China (548) e Macau – China (544). Em 2012, a média nacional na mesma disciplina foi de 389. Com isso, o país registrou recuo em seu desempenho.

Segundo a publicação, a habilidade em matemática é definida como a capacidade individual de formular, empregar e interpretar a matemática em uma série de contextos. Isso inclui o raciocínio matemático e o uso de conceitos, procedimentos, dados e ferramentas para descrever, explicar e prever fenômenos. Há seis níveis de proficiência na disciplina.

Metade dos alunos brasileiros continuam com dificuldades de interpretação

Os dados do Pisa 2015 também apontam que 51% dos estudantes não possuem o patamar que a OCDE estabelece como necessário para que se possa exercer plenamente sua cidadania, considerando sua capacidade de leitura. Eles não ultrapassaram o nível 2 dentro da escala de avaliação.

Com isso, é possível afirmar que os jovens brasileiros têm dificuldades em lidar com textos e documentos oficiais, como notas públicas e notícias. Além disso, têm problemas para interpretar informações e integrar contextos.

A pontuação do Brasil foi de 407, enquanto que os países da OCDE tiveram uma média de 493. A média brasileira foi a mesma de três anos atrás, na última edição do Pisa.

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Na outra ponta, os jovens brasileiros têm mais facilidade em lidar com textos pessoais, como e-mail, mensagens instantâneas, blogs, cartas pessoas e textos informativos. Eles também são bons em localizar e recuperar informação dentro de um texto quando necessário.

Com sua pontuação, o Brasil teve o desempenho inferior ao de regiões como Cingapura– que ficou em 1º lugar com 535 pontos, Canadá (527) e Hong Kong (China) (527).

O desempenho geral dos estudantes brasileiros em leitura está abaixo da média da OCDE desde o início das avaliações da disciplina, em 2000 – conforme mostra o gráfico acima.

Desempenho em ciências segue estagnado

Em ciências, quando são avaliadas a capacidade de lidar com conceitos, teorias, procedimentos e práticas associadas à investigação científica, o Brasil contabilizou média de 401 pontos, valor também inferior ao dos estudantes dos países membros da OCDE (493). Em relação ao Pisa anterior (2012), a média (402) não mostrou grande diferença. O país seguiu estagnado, já que a variação foi de apenas 1 ponto.

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Ao comparar com a série histórica, nota-se que os brasileiros apresentaram um crescimento médio de 390 para 405 pontos entre os anos de 2006 e 2009. Mesmo assim, o desempenho dos alunos também já se mostrava ruim.

Dentro da escala de avaliação do ano passado, 56,6% dos jovens brasileiros tiveram desempenho abaixo do nível 2, ou seja, eles não são capazes, por exemplo, de identificar uma explicação científica, interpretar dados e identificar a questão abordada em um projeto experimental simples de complexidade mediana.

Escolas públicas federais ficam à frente das escolas particulares

Na separação dos resultados do Pisa 2015 por rede de ensino, a rede pública federal obteve o melhor desempenho, ficando alguns pontos à frente da média obtida pelos alunos de escolas particulares.

Na área de ciências, a média alcançada pelos alunos das escolas federais foi de 517 pontos, contra uma média de 487 pontos dos alunos de colégios particulares. Em leitura, os desempenhos médios foram de 528 e 493, respectivamente, para os mesmos casos. Já em matemática, enquanto a média obtida pelos alunos da rede de ensino particular foi de 463 pontos, os alunos da rede federal alcançam, em média, 488 pontos.

O desempenho dos alunos da rede pública federal também superou a média nacional em cada uma das três áreas avaliadas– 401 pontos em ciências, 407 pontos em leitura e 377 pontos em matemática.

Escala de proficiência

O estudo de 2015 avaliou 23.141 alunos brasileiros (de 841 escolas), com idades entre 15 anos e 16 anos matriculados a partir do 7º ano. O desempenho dos estudantes foi analisado com base em sete escalas, que vão de 6, a mais alta, até 1b, a mais baixa.

O que é o Pisa

O Pisa busca medir o conhecimento e a habilidade em leitura, matemática e ciências de estudantes com 15 anos de idade tanto de países membro da OCDE quanto de países parceiros. Ele é corrigido pela TRI (Teoria de Resposta ao Item). O método é utilizado também na correção do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio): quanto mais distante o resultado ficar da média estipulada, melhor (ou pior) será a nota.

A avaliação já foi aplicada nos anos de 2000, 2003, 2006, 2009 e 2012. A cada ano é dada uma ênfase para uma disciplina: neste ano, foi a vez de ciências.

Dentre os países membros da OCDE, estão Alemanha, Grécia, Chile, Coreia do Sul, México, Holanda e Polônia, dentre outros. Dentre os países parceiros, estão Argentina, Brasil, China, Peru, Qatar e Sérvia.

Aprender matemática com games educativos aumenta em 34% desempenho dos alunos, revela pesquisa

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Mais de 100 colégios públicos de São Paulo e 33 mil alunos utilizam plataforma de gameficação desenvolvida pela startup israelense Matific e já colhem excelentes resultados

Ray Santos, no Jornal dia a dia

São Paulo, 17 de dezembro de 2016 – O medo da matemática pode se tornar coisa do passado no dia a dia das escolas brasileiras. Um estudo recente da Universidade de Sydney (Austrália), realizado com alunos e professores que utilizam o sistema de games educativos em seus métodos de ensino, revelou que o uso da gameficação aumenta em 34% o desempenho e o engajamento dos alunos no ensino da disciplina.

No Brasil, uma parceria entre a Diretoria de Ensino Centro Oeste (em São Paulo), a ONG Parceiros da Educação e a startup israelense Matific, especializada em gameficação para o estudo matemático desde a educação infantil até o sexto ano, viabilizou a implantação do sistema de gameficação para o ensino da matemática em 105 escolas estaduais paulistas. A plataforma é utilizada atualmente por cerca de 33 mil alunos, com mais de 320 mil jogos realizados, além de estar presente na grade curricular dos principais colégios particulares da capital paulista.

Recentemente, três escolas de São Paulo que utilizam a plataforma foram classificadas entre as dez melhores no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb 2016), que avalia a qualidade da educação em fluxo escolar e médias de desempenho.

“Ensinar matemática por meio da gameficação substitui a visão negativa de que a disciplina é chata e difícil. A tecnologia educacional, quando bem aplicada e alinhada ao pedagógico, é uma grande ferramenta para os educadores e, ao mesmo tempo, se aproxima da realidade de uma geração que está acostumada com os sistema digitais”, comenta Dennis Szyller, Gerente Nacional da Matific no Brasil.

Como funciona
O sistema da Matific tem uma abordagem única para o ensino de matemática desde a educação infantil até o sexto ano, por meio de 1600 minijogos interativos e atividades práticas, chamados de episódios. Os episódios têm duração entre 5 e 15 minutos e buscam abordar conceitos matemáticos, habilidades ou ideias simples, bem definidas e de acordo com o currículo escolar.

A Matific é a única plataforma no mercado capaz de alinhar seus jogos com os conteúdos de cada livro/sistema de ensino. Os jogos e atividades foram desenvolvidos para facilitar o mapeamento de livros didáticos populares e o currículo padrão da matemática. Isso significa que o professor encontra os jogos na Matific organizados na sequência dos livros da Educação Matemática dos Anos Iniciais (EMAI), ou ainda dos principais livros didáticos. Além disso, todos os jogos e atividades estão organizados de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs).

A Matific é uma empresa startup Israelense que desenvolveu um premiado sistema educacional de matemática, projetado por uma equipe de especialistas e professores de matemática, engenheiros de software e desenvolvedores de jogos. A pedagogia é baseada no trabalho do professor Raz Kupferman da Universidade Hebraica (Hebrew University) em Jerusalém, e do professor Shimon Schocken do Centro Interdisciplinar de Herzelia. O sistema Matific é adotado em mais de 40 países, com um milhão de alunos, três milhões de jogos executados por mês, e diversos prêmios internacionais por sua pedagogia e tecnologia.

Sobre a Matific (https://www.matific.com/bra/pt-br)
Fonte: Agência Health

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL E A EDUCAÇÃO

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Razão vs Emoção: uma antiga "disputa"

Razão vs Emoção: uma antiga “disputa”

 

A escola que temos forma jovens “mancos”, que podem ser ótimos em cálculo e biologia, mas são emocionalmente frágeis. Nosso “templo do saber” esqueceu-se da recomendação feita por Sócrates: “conhece-te a ti mesmo”.

Lucas Rocha, no Obvious

O templo do saber

Existe a grande possibilidade de que toda discussão política entre antagonistas chegue a um consenso quando alguém diz: “precisamos investir em educação”. De fato, a palavra “educação” carrega em nossa sociedade um imenso prestígio, como se fosse um traje de gala, um artefato mágico que pode nos iluminar o caminho para a felicidade e para o sucesso.

A escola, por sua vez, é vista pelo senso comum como o “templo do saber”. O local onde meninas e meninos vão para adquirir as habilidades que os tornarão adultos inteligentes e úteis socialmente, o lugar por excelência do conhecimento. Mas, qual saber? Uma olhadela no currículo de nossas escolas, nos permite ter uma boa ideia do que o sistema procura atingir: matemática, ciências positivas e línguas tomam a maior parte do tempo, demonstrando que o saber primordialmente ofertado aos nossos jovens se orienta para “fora”, quer dizer, para conhecer e dominar ferramentas que expliquem o funcionamento do mundo.

Recentemente, em uma discussão com meus alunos de ensino médio, perguntei o que eles entendiam por uma pessoa inteligente: “É bom em matemática!”, muitos concluíram. A resposta de meus alunos é perfeitamente previsível. E não é que ela seja falsa, mas é incompleta. Pois, se é verdade que o ser humano tem o aspecto racional que o distingue dos outros animais (a capacidade de fazer cálculos complexos, por exemplo), também é verdade que possuímos emoções que contrastam com nosso intelecto. Novidade? Nenhuma! “Emoção” vem da palavra latina movere, que significa algo como “mover”. Uma emoção, portanto, é uma sensação que gera em nós uma resposta, uma “perturbação”, nublando muitas vezes nossa racionalidade e criando inconvenientes para a vida prática. Quem nunca disse algo de que se arrepende quando estava com raiva, ou fez alguma loucura (ou estupidez?) quando estava apaixonado, que atire a primeira pedra!

A preocupação com esse poder das emoções é tão antiga quanto o ser humano. Há uma coletânea enorme de reflexões desde a antiguidade que tenta responder aos inconvenientes que resultam de emoções descontroladas. Aristóteles, Sêneca, Epicuro (só para ficar com alguns filósofos do mundo antigo) se debruçaram sobre a questão, tentando encontrar uma maneira de viver em equilíbrio com nossas paixões.

Bem, parece-me que, infelizmente, essa parte do legado do mundo greco-romano tem tido pouco espaço em nossos dias. Voltando novamente o olhar para nossas escolas, veremos que não existe uma estrutura (física e “procedimental”) adequada para lidar com as emoções que ali borbulham. Ora, quais são as competências exigidas para um teste escolar? Domínio de conceitos, habilidade descritiva, cálculo… A escola que temos atualmente quer, ou diz que quer, formar seres pensantes. Mas deixa para trás nossos afetos. A verdade é que nossos jovens saem mancos da escola, saem, na melhor das hipóteses, ótimos em cálculo e biologia, mas emocionalmente frágeis. Nosso templo da educação esqueceu-se da recomendação feita por Sócrates, que chamou atenção para a inscrição no templo Apolo em Delfos: “conhece-te a ti mesmo”.

Inteligência Emocional: revisitando os clássicos

Em 1995, o psicólogo estadunidense Daniel Goleman, publicou um livro chamado “Inteligência Emocional”. Sua tese central vai de encontro às reflexões dos antigos sobre o perigo de uma vida emocional conturbada. Goleman chama de “sequestros emocionais” aqueles momentos em que “perdemos a cabeça”, ou seja, quando nossa racionalidade fica desnorteada e as emoções explodem, causando, por vezes, arrependimentos.

Acompanhando Aristóteles – e é com uma citação do filósofo que o livro começa, o autor aponta que o que está em questão na inteligência emocional é o seguinte: “Qualquer um pode zangar-se. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa não é fácil”. Há uma certeza quando olhamos de perto o ser humano: sua racionalidade é parte de sua integralidade, mas não podemos esquecer sua passionalidade, seu ímpeto primal que atravessa milênios como herança do “homem das cavernas”.

A primeira parte do livro é dedicada a explicar os mecanismos da cognição humana que tornam os “sequestros emocionais” possíveis. A resposta ensaiada pelas pesquisas de ponta em psicofisiologia corrobora alguns filósofos da antiguidade que pregavam a consciência de si para controlar as paixões.

“A recomendação de Sócrates – ‘Conhece-te a ti mesmo’ – é a pedra de toque da inteligência emocional: a consciência de nossos sentimentos no momento exato em que eles ocorrem” [Capítulo IV]

A proposta de Sócrates é muito familiar à de Sidarta Gautama e estes se aproximam em grande medida dos estoicos e aristotélicos quanto àquilo que proporciona uma vida feliz. Certamente, há nuances e, por vezes grandes diferenças entre essas escolas, mas, no entanto, o cerne do problema é que o controle de si, só pode advir do conhecimento de si. E é aí que reside a grande contradição de nossa escola. O foco está no exterior, nos “fatos” e “dados” que se pode conhecer do funcionamento deste mundo. Não existe (ou ainda é muito incipiente) o estímulo à busca interior dos estudantes, de compreender sua história pessoal, de entender como isto influencia seus gostos e dificuldades. Volta-se as energias para o conteúdo, para a memorização. Resultado? Basta ler as manchetes. Em que pesem os avanços da psicologia e neurociência, ainda vivemos em uma sociedade de excessos e de violência física e simbólica amplamente disseminadas.

Soluções?

Não poderia ter a pretensão de esgotar os argumentos e métodos propostos por Goleman em um breve artigo. No entanto, caminhando para a conclusão, gostaria de apontar uma estratégia que me parece frutífera. Cito:

“É uma estranha chamada, que percorre o círculo de 15 alunos da quinta série sentados no chão à moda hindu. Quando o professor chama seus nomes, os alunos não respondem com o vago ‘Presente’, mas gritam um número que indica como se sentem; um significa deprimido; dez, muito energizado” [Capítulo XVI]

Se concordarmos que a consciência de si e de suas emoções é determinante para nosso bem-estar, quando a chamada ocorre sob essa dinâmica, professor e estudante ganham. O primeiro, compreende melhor as pessoas com quem lida, preparando-se para orientar de maneira mais eficaz seu aprendizado. O segundo, porque sendo estimulado a falar sobre si, aprende a reconhecer suas emoções, cria o hábito de investigar seus sentimentos. Além disso, podemos pensar em um efeito mais amplo, que é justamente o reconhecimento que todos podem ter entre si do estado emocional do outro, quer dizer, se todos estão cientes que fulano está em um dia ruim, podem se tornar mais cuidadosos, mais empáticos.

Estou ciente que é preciso uma guinada muito maior que a mencionada acima. Na realidade, os dois antagonistas que citei no começo do artigo, certamente discordarão quando a discussão enveredar para “como vamos investir em educação”. É urgente um sistema novo! Que seja orientado por novos valores, por outra compreensão do que é importante aprender. Que tal se as escolas fossem lugares também para o autoconhecimento?!

Enem 2015: 38 em cada 100 escolas são ‘reprovadas’ em teste do ensino médio

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Getty Images/iStockphoto

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Cristiane Capuchinho, no UOL

Os resultados das provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) por Escola 2015 indicam que 38% das instituições seriam “reprovadas” no teste do ensino médio, segundo os critérios do próprio MEC (Ministério da Educação) para a certificação do ensino médio.

São 5.642 escolas que tiveram notas médias menores que 450 pontos em, ao menos, uma das quatro provas objetivas (linguagens, matemática, ciências humanas e ciências da natureza) ou não alcançaram a média de 500 pontos na redação do exame. Esses são os parâmetros mínimos usados pelo MEC para conceder a certificação do ensino médio a estudantes por meio do Enem.

Das 14.998 escolas com informações divulgadas pelo ministério nesta terça-feira (4), 3,4 mil escolas reprovaram em duas ou mais provas do exame nacional –sendo que 507 escolas “bombaram” em quatro dos cinco testes. Nenhuma instituição foi “reprovada” em todas as provas.

O retrato é uma das faces da crise do ensino médio, segundo educadores entrevistados pelo UOL. O baixo desempenho dos estudantes brasileiros é percebido em diversas avaliações. No início de 2016, um estudo da OCDE apontou o Brasil como segundo país com pior nível de aprendizado entre alunos de 15 anos.

Matemática e redação são piores notas

Os exames que mais reprovaram escolas são o de matemática –que reprovou 4.899 instituições– e a redação –que desqualificou 3.045 escolas.

“Nem o sarrafo do Enem, que já não é essas coisas, estamos conseguindo alcançar. Isso mostra que precisamos mudar o ensino médio em uma direção que motive o jovem a estudar e a aprender”, afirma Mozart Neves Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna.

No final de setembro, o Ministério da Educação enviou para o Congresso uma medida provisória com proposta de reformulação do ensino médio. A MP prevê, entre outras coisas, a redução de disciplinas nesta etapa do ensino e o aumento, paulatino, da carga horária. A proposta, contudo, não altera o ensino de matemática, português ou inglês, que seriam matérias obrigatórias para todos os alunos.

“O mau desempenho é algo que vem acumulando desde o ensino fundamental, o problema não está apenas no ensino médio”, analisa Antonio Augusto Gomes Batista, coordenador do Cenpec.

Para Batista, a reforma do ensino médio proposta não deve ter resultados no quadro geral. “O ensino integral, tal como está colocado, vai atender a uma população muito reduzida. Vai criar mais desigualdades dentro da rede. Seria melhor ampliar uma hora por dia a proporcionar escolas de 7 horas para poucos.”

Distribuição geográfica

Entre as escolas reprovadas nos testes, 7 em cada 10 têm alunos com nível socioeconômico de muito baixo a médio (3.905 instituições).

“O nível socioeconômico da escola é o principal preditor de sucesso na escola. A escola pode fazer diferença, mas em países em que a educação não tem políticas públicas adequadas, o resultado depende muito disso”, explica Batista. Um aluno com acesso a livros em casa, a computador e com pais letrados tem chances maiores de ter bom rendimento escolar.

A maior parte das unidades são públicas (5.266), no entanto, destacam-se 376 escolas particulares cujos alunos do terceiro ano não conseguem alcançar a nota mínima para serem diplomados no ensino médio.

Dentre as reprovadas, 2.114 escolas ficam no Nordeste. O Sudeste tem 1.581 instituições. Outras 682 escolas ficam no Centro-Oeste. A região Sul e a Norte têm o menor número de escolas: 662 e 603, respectivamente.

O MEC divulga apenas as notas médias das escolas em que ao menos 50% dos alunos do terceiro ano do ensino médio fizeram o Enem 2015 e que somam 10 participantes ou mais. Em 2015, os estudantes de 25.777 escolas prestaram o Enem. No entanto, as notas de 14.998 instituições foram divulgadas.

Segundo o Censo Escolar, o Brasil tem 183,4 mil escolas com salas de aula de ensino médio. Há 2,1 milhão de alunos matriculados no terceiro ano desta etapa escolar.

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