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A estranha polêmica dos “leitores sensíveis”

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Foto: DAMIEN MEYER/AFP

Foto: DAMIEN MEYER/AFP

Danilo Venticinque, no Estadão

Causou polêmica recentemente a notícia de que editoras brasileiras estão contratando “leitores sensíveis”. São profissionais cujo trabalho é ler livros que abordam temas potencialmente delicados e avaliar, antes da publicação, se o conteúdo da obra pode ofender leitores que pertençam a alguma minoria.

Foi o suficiente para que inúmeros autores e profissionais do mercado editorial ficassem em polvorosa e manifestassem sua indignação em redes sociais. Houve quem falasse em censura, ditadura do politicamente correto, fim da literatura.

A reação me parece despropositada. Na Europa e nos Estados Unidos, a função de sensitivity reader existe há anos, e a literatura vai bem, obrigado. Não há razão nenhuma para acreditar que a adoção do serviço por editoras brasileiras terá o efeito catastrófico que tanta gente está prevendo.

Chamar de censura o trabalho dos leitores sensíveis é desconhecer a função e atribuir-lhes um poder que não tem. Em primeiro lugar, são pouquíssimos os livros que passam pelas mãos de leitores sensíveis—em geral, obras de autores que escreveram sobre uma minoria sem conhecê-la a fundo e que, portanto, podem se beneficiar com a opinião de alguém que entenda do assunto. Na reportagem que iniciou a polêmica, é citado o exemplo de uma leitora sensível que ajudou na elaboração de um glossário de termos do universo transgênero. Não entendo, sinceramente, como isso pode ser considerado negativo.

Para a maioria dos autores, não mudará nada. O serviço de leitor sensível é exercido por freelancers e as editoras não têm o menor interesse em desperdiçar dinheiro submetendo todos seu lançamentos ao crivo deles. A julgar pelo barulho nas redes sociais, muita gente está imaginando um exército de censores pronto para canetar obras de todo e qualquer escritor brasileiro. Na vida real, o que teremos são dois ou três freelancers se estapeando para disputar meia dúzia de projetos por ano. Soa muito pouco ameaçador.

Outro exagero é atribuir aos leitores sensíveis o poder de vetar uma obra literária. Na pior das hipóteses, o máximo que o leitor sensível pode fazer é emitir um parecer negativo. A decisão de publicar o livro ou não segue nas mãos do editor, como sempre. O mesmo vale no caso de um parecer sugerir alterações na maneira como um assunto é tratado numa obra literária: outra vez, o leitor sensível não tem o poder decidir se e como as mudanças serão feitas. A decisão, outra vez, é do editor—em conjunto com o autor.

Em resumo: as chances de um livro de brasileiro ser submetido a um leitor sensível é mínima— e a probabilidade de que um leitor sensível vete uma obra unilateralmente é zero. O que temos visto é um barulho enorme por uma questão que terá um impacto praticamente nulo na vida dos autores e leitores brasileiros.

Trata-se de mais uma polêmica literária vazia cujo principal efeito é distrair-nos do verdadeiro problema: quase metade da metade da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro na vida. Dentro da parcela que lê, a maioria lê pouco e mal. É essa a verdadeira tragédia para a literatura nacional, e a maior ameaça ao ganha-pão de escritores brasileiros.

Apesar disso, vejo inúmeros escritores e profissionais do mercado editorial discutindo apaixonadamente uma questão irrelevante como a dos leitores sensíveis e quase ninguém falando em educação e incentivo à leitura. Confesso que não entendo essas prioridades. Algo está errado.

Brian Murray, CEO da HarperCollins, defende livrarias independentes e aposta no Brasil

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SC São Paulo ( SP ) , 29/03/2017 , Entrevista com o CEO da HarperCollins mundial, Brian Murray. Foto: Edilson Dantas / Agencia O Globo - Edilson Dantas / Edilson Dantas

SC São Paulo ( SP ) , 29/03/2017 , Entrevista com o CEO da HarperCollins mundial, Brian Murray. Foto: Edilson Dantas / Agencia O Globo – Edilson Dantas / Edilson Dantas

 

Grupo editorial, que comemora 200 anos, assume de vez sua operação no país

Leonardo Cazes, em O Globo

SÃO PAULO – O anúncio surpreendeu no início do ano: a gigante anglo-americana HarperCollins ia assumir integralmente a sua operação brasileira, antes uma joint-venture com o Grupo Ediouro. No ano em que completa dois séculos, o grupo entra de vez no mercado brasileiro. Em entrevista ao GLOBO, em São Paulo, o CEO global Brian Murray diz ver boas perspectivas para o país no longo prazo, comenta a relação difícil com a Amazon, analisa a desaceleração da venda de e-books e comemora o renascimento das pequenas livrarias.

Por que a HarperCollins decidiu investir no Brasil agora, com o país em crise?

Nos nossos primeiros 200 anos, fomos basicamente uma editora de língua inglesa. Com as aquisições da Thomas Nelson, de livros cristãos, e da Harlequin, cujo foco é na ficção para o público feminino, ganhamos escala global, e queremos crescer em países que falam outras línguas. Nossa estratégia é identificar as oportunidades. O Brasil é muito atraente, único de muitas maneiras. É um mercado muito forte em publicações cristãs e também em rápido crescimento. É claro que tem seus altos e baixos, mas, no longo prazo, acreditamos que o Brasil possa ser um dos nossos maiores mercados. Sermos 100% donos da empresa aqui permite que façamos investimentos na nossa estratégia de longo prazo mais facilmente. Vejo um grande futuro para o mercado editorial brasileiro nas décadas vindouras.

Quais os perfis de livros e autores que vocês pretendem publicar no Brasil?

Vamos publicar livros de origens muito diferentes. Alguns virão das nossas operações nos Estados Unidos e no Reino Unido, mas também podem ser de outros países. Nós temos editores em todo o mundo e compartilhamos os nossos projetos em andamento. Podemos publicar também autores cujos direitos são negociados país a país. E é claro que vamos investir em autores brasileiros. Esse é um componente chave da nossa estratégia.

Há alguns anos, as editoras tiveram embates com a Amazon. Como está hoje a relação não só com a Amazon, mas com Apple e Google?

Costumo dizer que essas empresas são nossas amigas e inimigas ao mesmo tempo. Temos uma relação complexa. Elas são muito importantes para nós e os nossos autores. Trabalhamos bem com elas, procuramos áreas onde concordamos e podemos crescer juntos, mas há outras em que temos nossas discórdias. Essa é a maneira como o negócio é hoje. Fazemos o máximo onde concordamos, e concordamos em discordar no resto.

No mundo, as vendas de e-books estão estagnadas. Houve uma euforia exagerada?

Cinco anos atrás, os e-books estavam crescendo muito, muito rápido. E ninguém sabia onde esse crescimento ia parar. Houve mudanças no modelo de negócio dos livros digitais, com menos descontos, e as vendas estabilizaram. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, teremos um crescimento modesto dos e-books. Mas nós vemos um crescimento forte dos audiolivros. Acho que é porque todo mundo está acostumado a ouvir música no celular. Provavelmente surgirão novos serviços de streaming de livros no próximo ano. Hoje, vejo um equilíbrio entre o consumo de livros impressos e digitais. O equilíbrio é bom porque permite aos livreiros terem confiança nos seus negócios.

As livrarias independentes vêm registrando um crescimento no mercado americano.

Sim, nos últimos três anos. Esse é um ótimo sinal. A Amazon está planejando abrir uma livraria também, então deve ser um bom negócio (risos). O investimento em pequenas livrarias é muito saudável. Esses vendedores podem ser pequenos, num plano geral, mas eles têm muita influência porque escolhem e vendem pessoalmente os livros aos seus consumidores. Eles promovem essa incrível divulgação boca a boca. Queremos ter mais disso. Menos algoritmos e mais pessoas vendendo livros seria bom para nós.

A autopublicação é um fenômeno que vem crescendo. É uma ameaça?

A autopublicação é uma grande oportunidade para inspirar autores. Nós assinamos com muitos escritores que começaram nas plataformas de autopublicação e formaram um público. Se vemos um público e acreditamos que podemos ajudar, vamos fazer uma oferta. A autopublicação também é boa para os editores porque podemos identificar novos talentos. Ao invés do velho mundo, onde a gente recebia um original que ninguém leu antes, nas plataformas você pode testar seus textos com os leitores.

O consumo digital gera uma enorme quantidade de dados, cada vez mais explorados por serviços de streaming. Essa tendência vai chegar à indústria do livro?

Eu uso muito esses dados para auxiliar a tomada de decisões. Hoje temos mais dados para análise do que jamais tivemos. Mas os dados nunca vão tomar a decisão de publicar ou não um livro para você. Eu fico mais confortável em tomar essa decisão com mais informações sobre mercado, consumidor, vendas de livros semelhantes. Mas publicar ou não um original sempre será uma decisão instintiva. Esse é um autor em que nós acreditamos, essa é uma história em que nós acreditamos, vamos publicar.

Você comanda um grupo que comemora 200 anos. Como sobreviver por mais 200?

Inovação, criatividade, bons autores e bons profissionais. Histórias são contadas desde muito antes de a HarperCollins ser criada. A forma pode mudar, vieram o áudio, o vídeo. Mas o texto sempre vai permanecer. O modelo de negócios também pode mudar, a distribuição pode mudar. Cabe a nós mudar junto com o tempo.

*Leonardo Cazes viajou a convite da HarperCollins Brasil

Literatura estimula a abertura das mentes na infância

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 Vanessa com o filho João: estímulo à leitura - PEDRO NEGRÃO/ACERVO PESSOAL


Vanessa com o filho João: estímulo à leitura – PEDRO NEGRÃO/ACERVO PESSOAL

 

Larissa Pessoa, no Jornal Cruzeiro

Para a pedagoga Vanessa Marconato Negrão, 33, “ler ascende clarões na alma”, e nada melhor do que estimular estes clarões ainda na infância. Ela, que também é mãe do pequeno João Pedro, de quatro anos, começa, a partir deste domingo (25), a publicar a coluna fixa “Eu já li”, no Cruzeirinho, com dicas de livros infantis e destaca que as obras sugeridas podem, e devem, ser lidas por todos os amantes da literatura.

A primeira obra que Vanessa divulgará no novo espaço do jornal Cruzeiro do Sul será Um dia, um rio, do escritor Léo Cunha. O livro é da editora Pulo do Gato, e conforme descreve a pedagoga, aborda a tragédia de Mariana de forma poética. “Existe uma ideia equivocada de que a criança não consegue absorver um tema complexo, mas isso é um erro.” O livro infantil, conta, já foi lido para João Pedro e ela também trabalhou com a obra em sala de aula. A experiência com os alunos, lembra, é sempre enriquecedora, pois através da leitura é possível transformar as crianças em agentes multiplicadores de conteúdo, e com Um dia, um rio, há a oportunidade de plantar a semente da conscientização ecológica.

Segundo a colunista, atualmente vive-se uma crise cultural, pois as pessoas não leem e através da “Eu já li”, a pedagoga pretende valorizar a escrita e mostrar que as crianças podem sim ler e refletir sobre assuntos considerados tabus ou exclusivos aos adultos. “É um pecado reservar aos pequenos apenas temas bobos e rasos.”

A paixão pelos livros é tanta que em junho do ano passado Vanessa criou a página “Livros para João” no Facebook, onde também dá dicas de leitura para os pequenos. Em uma das publicações, ela sugere a série Livros para o amanhã, da Boitatá, selo infantil da Boitempo Editorial. A nova colunista conta que as obras são capazes de emponderar a criança para a cidadania, construir um senso de justiça social e formar para o questionamento crítico. Os livros da série, fala, foram escritos há 40 anos, e publicados originalmente pela editora catalã La Gaya Ciencia. “Como depois de quatro décadas, o amanhã parece ainda não ter chegado, essa coleção é um instrumento de esperança para os que não subestimam a capacidade de entendimento das crianças”, avalia.

Um problema sério no mercado editorial infantil, aponta Vanessa, são os muitos livros-brinquedo, com pouca qualidade literária. “Nesses livros a literatura não é protagonista e precisamos mudar isso”, afirma. Ela também critica o uso demasiado dos chamados livros utilitaristas, que sempre buscam uma moral da história, uma lição para a criança. Para Vanessa, é preciso estimular a leitura apenas pelo prazer que a leitura proporciona.

Com relação às leituras impostas na escola, a pedagoga tem dúvidas sobre a prática e destaca que se o interesse pelos livros fosse estimulado desde os primeiros meses de vida não haveria necessidade dessa obrigatoriedade. “Eu acho que ninguém aprende a gostar de ler lendo Machado de Assis, mas se não for imposto, será que eles vão ler?” Ela destaca que até entre os adultos há rejeição aos livros, e mesmo em áreas que a leitura é primordial, é possível encontrar profissionais avessos à literatura.

O primeiro contato da criança com as histórias escritas e contadas, diz Vanessa, deve acontecer o quanto antes e segundo ela, desde os três meses de idade já é possível fazer com que o bebê se envolva na cadência e na sonoridade do conto. “Desde muito cedo eles já são capazes de responder aos estímulos, não de forma verbal, mas das maneiras que eles conseguem naquele momento da vida.” Ela brinca e diz que livro não tem contraindicação, pois toda criança está apta a aprender.

Trajetória

O gosto pela literatura surgiu na infância, no sítio em que morava com a família em Jaguariúna, na região de Campinas. “Não tinha internet e eu não gostava de televisão, então mergulhava nos livros e praticamente morava na biblioteca da cidade.” Formada em pedagogia, Vanessa, além de atuar nas salas de aula, foi uma das primeiras profissionais a integrar o projeto Bebeteca, em Sorocaba. Com cursos e treinamentos, ela teve a experiência como mediadora de leitura para crianças, e recorda o impacto que essa atividade teve em sua vida. “Até ali eu via o livro como entretenimento e depois notei que a literatura vai muito além e é capaz de transformar vidas.”

Os desafios na sala de aula, afirma, também são muitos, mas com paciência e dedicação é possível despertar o interesse pela leitura nos pequenos. “Quando vem uma turma de crianças que não têm hábito de ler em casa, a gente recorre aos livros cheios de figuras e outros artifícios, mas depois a criança já consegue dar total atenção a um conto extenso e mais complexo” afirma.

Inspirações e referências

Para a pedagoga, Ruth Rocha e Eva Furnari permanecem muito significativas no mercado editorial, pois seus livros continuam clássicos infantis. Ela cita também Renato Moriconi e Ilan Bremman. “São autores e ilustradores que produzem muito, sempre com muita qualidade”, elogia. Vanessa chama atenção para a escritora portuguesa Isabela Minhós Martins e para a literatura lusitana como um todo, que, segundo ela, está entrado no mercado editorial brasileiro de maneira muito significativa nos últimos meses.

A colunista lembra também da sorocabana Silvana Rando, conhecida pela autoria de ótimas histórias e ilustrações voltadas aos pequenos. Ela também é ganhadora do prêmio Jabuti de 2011, e, como lembra Vanessa, ainda promove a literatura infantil em Sorocaba, através da Livraria do Elefante, um ponto de encontro para amantes das histórias bem escritas e contadas.

Indie Book Day: Ação mundial incentiva produção e consumo de livros independentes

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Evento visa valorizar autores independentes em todo o mundo. Foto: Twitter/Reprodução

Evento visa valorizar autores independentes em todo o mundo. Foto: Twitter/Reprodução

 

Esta é a primeira vez que o Brasil participa do evento mundial

Publicado no Diário de Pernambuco

O Brasil participa pela primeira vez neste sábado (18) do Indie Book Day, uma iniciativa mundial para incentivar a produção e circulação de livros independentes. Mais de 30 livrarias estão na promoção e elas foram convidadas a expor, neste dia, obras com mais destaque. A proposta é que leitores visitem os locais de venda, comprem esses livros e compartilhem mensagens com a hashtag #IndieBookDay nas redes sociais.

O primeiro Indie Book Day foi há 5 anos em Hamburgo, na Alemanha, encabeçada pela editora Mairisch. Entre 2014 e 2016, outros países – Reino Unido, Holanda, Itália e Portugal – aderiram ao convite de dedicar um dia à exaltação da publicação independente.

No Brasil, a ação foi trazida pelos editores Gustavo Faraon, da Dublinense, e João Varella, da Lote 42, depois que eles participaram da Feira do Livro de Frankfurt e conheceram os organizadores do Indie Book Day. No Recife, as obras independentes podem ser encontradas nas livrarias Cultura do Paço Alfândega e RioMar Shopping. A lista dos locais que participam da ação pode ser encontrada aqui.

Mercado
Varella destaca o bom momento do mercado editorial independente no país. “É difícil apontar uma explicação para isso, mas algumas pistas talvez venham dessa questão que os independentes exploram projetos gráficos. A nova onda de editores tende a explorar a materialidade do livro. Todo mundo está consumindo muito texto na tela, no computador, no tablet. Para justificar porque este texto merece ser impresso, o livro vai dar uma experiência que só o impresso faz”, disse.

O mercado editorial independente tem como característica o contato direto com o leitor por meio das feiras, sem intermediários. Mas Varella destaca que uma das propostas do Indie Book Day é também fazer um “chamado às livrarias para que elas apoiem essa movimentação”.

Ele explicou ainda que o setor não trabalha com grandes investidores e não tem capital vinculado a grandes multinacionais. Além disso, a produção “é mais experimental em termos de narrativa, de temáticas, em termos de formatos”, explicou o editor da Lote 42.

Varella critica a excessiva publicação de traduções no mercado editorial brasileiro. “Uma editora tradicional está muito vinculada à busca do best-seller, muita tradução”, apontou. Na avaliação do editor, perde-se uma rica produção literária brasileira pela necessidade de apostar “no que já é certo”. “Grandes editoras estão muito interessadas no que já foi testado e aprovado no mercado externo”, finalizou.

Livrarias sentem crise e ‘efeito Amazon’

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A comercialização de livros no País recuou 8,9%

A comercialização de livros no País recuou 8,9%

 

Publicado no A Tarde

Vender livros no Brasil não é tarefa fácil, ainda mais quando a economia anda para trás. Em 2016, a comercialização de livros no País recuou 8,9%, comprometendo a rentabilidade de editoras e, principalmente, de livrarias. Enquanto os produtores de livros sofreram com o cenário macroeconômico, o varejo tradicional teve de lidar também com a migração do cliente para as vendas online e com a chegada de uma poderosa concorrente: a americana Amazon.

O resultado foi um baque nas contas das grandes livrarias, que empreenderam forte expansão nos últimos anos, incentivadas pelas empresas de shopping centers, que viam as megastores culturais como “âncoras” de seus centros comerciais. “Muitas redes cresceram de forma desordenada e fora das regiões onde tinham público cativo, nem sempre com bons resultados”, disse uma fonte de mercado.

A dificuldade de repasse da inflação para os preços é um dos pontos de estresse do setor. “Meu livro mais ‘pop’ de 2008 tinha preço de capa de R$ 29,90. No ano passado, minha grande aposta custava, novamente, R$ 29,90”, compara uma fonte de uma grande editora nacional. O valor médio por obra hoje é de R$ 38,66. Embora tenha havido uma reposição de 15% nos últimos dois anos, o desconto médio aplicado pelo varejo é de 17,9%, o que faz o preço médio real ser de R$ 31,74. “Os custos cresceram, mas a receita do setor não acompanhou”, diz Marcos Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).

Em dois anos, a Livraria Cultura viu sua receita cair 17%. Um dos grandes vilões da operação da empresa foi a aposta em uma loja no centro do Rio de Janeiro, dizem fontes do mercado editorial. Ao jornal O Estado de S. Paulo, o presidente do Conselho de Administração da Cultura, Pedro Herz, admitiu que a unidade traz desafios, em grande parte por sofrer com a retração de vendas decorrente da situação econômica do Rio e com os protestos que costumam ser realizados na região, próxima à Câmara Municipal.

Segundo apurou o jornal O Estado de S. Paulo, a empresa, que compra os livros por consignação, tem repassado às editoras o dinheiro referente às vendas com atrasos que chegariam a seis meses. “As editoras não têm condições de suportar esse atraso por muito tempo”, disse uma fonte. Herz, porém, garante que não há atraso. Segundo ele, o que houve foi uma renegociação dos prazos com as editoras.

Fnac. Além da Cultura, outras varejistas enfrentam desafios. Na semana passada, a francesa Fnac anunciou que busca um parceiro no País, onde vem tendo resultados abaixo do esperado. A Saraiva tem reduzido sua aposta nos livros e ampliado espaço para tecnologia, games e aluguel de área para cafés. A companhia vendeu sua editora e, mesmo assim, continua registrando prejuízo – nos nove primeiros meses de 2016, as perdas foram de R$ 27,9 milhões.

A Livraria da Vila diminuiu o tamanho de sua loja no shopping Cidade Jardim, em São Paulo, de 2,5 mil m2 para 400 m2 e deve fazer o mesmo na unidade do shopping JK Iguatemi, que tem 1,7 mil m2. De acordo com o dono da empresa, Samuel Seibel, essas operações não seguem o padrão da rede, cujas lojas têm em média 750 m2.

Justamente nos últimos dois anos, quando os resultados das livrarias começaram a piorar, a gigante Amazon iniciou sua operação de livros físicos no Brasil. A companhia americana caiu nas graças das editoras porque, ao contrário das principais livrarias físicas, compra os livros, em vez de pegá-los em consignação.

Uma grande editora disse ao jornal O Estado de S. Paulo que as vendas de seus livros por meio da Amazon, que eram próximas de zero há dois anos, representaram 10% do faturamento em 2016. Outra companhia afirmou que suas vendas dentro da Amazon cresceram 70% no ano passado.

Segundo a empresa americana, ter estoque próprio ajuda a deixar a operação mais “redonda”. Para Daniel Mazini, gerente-geral para livros impressos da Amazon Brasil, a aquisição dos exemplares deixa o fluxo de caixa das editoras mais previsível. As livrarias Cultura, Nobel, da Travessa e da Vila, no entanto, afirmaram ao jornal O Estado de S. Paulo que a Amazon ainda não as preocupa.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Texto de Fernando Scheller e Luciana Dyniewicz

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