Ansiedade 3 - Ciúme

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Importância da leitura na infância

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Marcelo Rubens Paiva, no Estadão

Desde que me entendo por gente, há uma missão no país: fazer as pessoas lerem.

Difícil, já que a concorrência é o melodrama, a teledramaturgia eficiente, sedutora, que hipnotiza nas telas de milhões diariamente.

O chiclete dos olhos.

Só na Rede Globo, são de sete a oito produções (novelas) de alto nível no ar.

Nos estádios, quando o marketing no futebol não existia, placas com uma frase atribuída a Monteiro Lobato eram expostas nos gramados: UM PAÍS SE FAZ COM HOMENS E LIVROS.

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O objetivo das feiras de livro e bienais era criar leitores.

Tem-se uma certeza: o hábito da leitura, aquilo que desejamos tanto ao Brasil, país muito longe do top do ranking dos que mais leem, é adquirido em casa, na infância.

Temos que insistir sempre. Não desistir.

Segunda-feira, dia 28, estreia o documentário Para Gostar de Ler, que fala sobre a importância da leitura na primeira infância.

Com a participação de Drauzio Varella e Leandro Karnal.

Produzido pela Prodigo.

Dirigido por alguém que conviveu com livros e as nuances do mercado editorial, Francesco Civita.

Depois da sessão, haverá um debate mediado de Marcos Piangers (O Papai é Pop), com o diretor, o escritor Ilan Breman, Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria, e Patrícia Pereira Leite, psicóloga e co-fundadora do Centro de Estudos A Cor da Letra.

O evento começa às 19h, no Espaço Itaú de Cinema da Rua Augusta, em São Paulo.

Bienal do Rio trava batalha para atrair mais leitores

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Marcada pelo gigantismo, a festa do livro quer despertar novos fãs da literatura em meio a um público acomodado às facilidades da internet

Sofia Cerqueira, na Veja Rio

Vestido com uma armadura enferrujada, um fidalgo meio abilolado, montado em seu cavalo, teima em resgatar os tempos gloriosos e heroicos em que a coragem, a virtude e o amor puro por uma donzela dominavam o imaginário medieval europeu. Vire a página. Com seus olhos de ressaca, personalidade misteriosa e sedutora, a protagonista deixa uma intrigante dúvida no ar: ela traiu ou não o marido? Mais uma folheada. Na Inglaterra vitoriana, um aristocrata se vale das últimas novidades da ciência e da lógica dedutiva para desvendar casos intrincados e insolúveis. Para quem é familiarizado com os clássicos da literatura, não é preciso dar maiores explicações para compreender que se trata da descrição de Dom Quixote, Capitu e Sherlock Holmes, criações magistrais de Miguel de Cervantes, Machado de Assis e Arthur Conan Doyle. Encarnados, respectivamente, por personalidades como Cauã Reymond, Bela Gil e Pedro Bial, tais personagens emblemáticos foram escolhidos para protagonizar uma ambiciosa campanha de incentivo à leitura a ser lançada na Bienal do Livro, evento que começa na quinta (31), no Riocentro.

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Batizada de Leia-Seja, a iniciativa tem a missão hercúlea de chamar atenção para uma prática que é crucial na formação cultural de uma sociedade e, de forma impressionante, vem caindo em desuso no país: a leitura de livros. Além de Cauã, Bela e Bial, a campanha trará o técnico de vôlei Bernardinho como o capitão Rodrigo, de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, a cantora Baby do Brasil e o publicitário Washington Olivetto (o idealizador das peças publicitárias) como a Emília e o Visconde de Sabugosa, ambos do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. A campanha é uma reação a números assustadores. As vendas de livros no país, o principal indicador de quanto se lê por aqui, despencaram 20% entre 2014 e 2016, o que significa 50 milhões de exemplares a menos nas mãos do público. “A Bienal é um oásis no meio desse cenário. A ideia é aproveitar a festa, que tem atraído cada vez mais jovens, para ressaltar o potencial de uma boa história e despertar novos leitores”, diz Marcos Pereira, sócio da editora Sextante e presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), entidade responsável pelo evento e pela campanha publicitária.

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Ainda que os números do mercado editorial delineiem um cenário pouco animador, a Bienal do Livro do Rio segue, paradoxalmente, como um sucesso estrondoso de público e vendas. Depois do réveillon e do Carnaval, é o terceiro maior evento do calendário carioca em termos de público. Durante onze dias, calcula-se que mais de 670 000 pessoas passarão pelo Riocentro. Embora a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2016, tenha revelado que 30% da população nunca comprou um livro, cada visitante sai do pavilhão de Jacarepaguá carregando, em média, seis volumes. E os números superlativos não param aí. Neste ano, 5,5 milhões de livros estarão expostos — uma massa de encadernações que, colocadas lado a lado, cobririam com folga os 1 375 quilômetros entre o Rio e Brasília. O público que participará dos bate-papos e encontros com os autores deve somar 113 500 pessoas, o equivalente a um Maracanã e meio lotado. São esperados 338 escritores (doze deles internacionais), contra os 226 que estiveram na edição anterior. Para garantir que tudo funcione, foi montada uma equipe gerencial para lidar com grandes multidões, uma especialidade que os americanos chamam de crowd management. Além de dimensionar a estrutura para receber fãs de autores tratados como pop stars, o grupo tratará de monitorar as redes sociais. Já se prevê que a youtuber Kéfera Buchmann e os fenômenos teen Larissa Manoela e Maisa Silva (aquela que foi estrela mirim do Programa Sílvio Santos) provoquem cenas de histeria explícita. Entre as medidas adotadas para evitar tumultos está a ampliação da central de distribuição de senhas para sessões de autógrafo. “Deixamos de ser só uma feira para nos transformar em um grande evento cultural. Não existe dia calmo, é quase uma rave de duas semanas”, brinca Tatiana Zaccaro, diretora da Bienal e representante da Fagga, empresa que organiza a estrutura junto com o Snel.

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No embalo festivo, a campanha que joga luz sobre o prazer e o poder da leitura protagonizada por celebridades envolverá uma série de atrações espalhadas pela Bienal. Logo na entrada, o slogan Leia-Seja em letras garrafais será um convite às selfies. Pelos corredores haverá atores encarnando protagonistas de clássicos da literatura (também prontos para aquele clique para as redes sociais) e imensos painéis com fotos e vídeos da ação publicitária — que, numa segunda fase, terá Lázaro Ramos e Taís Araújo como Romeu e Julieta. Tamanho esforço tem o objetivo de cativar um público cada vez mais afeito à velocidade do mundo digital e fascinado com os videogames e a televisão pela internet. Na última pesquisa realizada sobre o tema, a leitura aparece em um mirrado décimo lugar entre as atividades preferidas dos brasileiros em seu tempo livre. Assistir à televisão continua no topo do ranking, mas chama atenção o salto dado pelo uso da web, cravado no terceiro lugar, abaixo do hábito de ouvir música. O costume de navegar pelo mundo digital, que em 2011 era o preferido de 24% dos entrevistados, em 2015 passou a atrair 47% deles. O mesmo estudo revela que a população lê em média quatro livros por ano, incluindo os didáticos. Um número ínfimo se comparado, por exemplo, aos doze lidos, em média, por cada habitante dos Estados Unidos. Na Alemanha, um levantamento divulgado em agosto mostrou que 61% das crianças entre 6 e 13 anos daquele país leem livros mais de uma vez por semana. Em contrapartida, só 34% delas veem vídeos no YouTube, plataforma que é um fenômeno por aqui. “Não se pode dizer que o jovem brasileiro não lê. Ele fica o dia todo consumindo conteúdo na internet, trocando mensagens escritas no WhatsApp. O problema está na falta de qualidade e na tendência ao imediatismo nesses meios, com textos vapt-vupt e respostas mastigadas”, alerta Silvia Colello, professora de psicologia da educação da Universidade de São Paulo (USP). O médico Fábio Barbirato, chefe do setor de psiquiatria infantil da Santa Casa de Misericórdia, vai mais longe: “Além de não desenvolver o senso crítico como o livro, o ambiente virtual é excitante e cheio de estímulos que podem levar ao vício. A questão não é proibir, mas impor limites”.

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Não é por acaso que a maior festa do livro brasileira tem atrações cuidadosamente pensadas para esse público mais jovem e totalmente conectado ao ambiente virtual. Com capacidade para 400 pessoas por sessão, a Arena#SemFiltro promoverá debates sobre temas como intercâmbio cultural, diversidade sexual, games e moda. A lista de convidados vai do filósofo Mário Sérgio Cortella à celebridade da internet Maju Trindade, passando por atrizes como Marina Ruy Barbosa e Sophia Abrahão, que já lançaram livros. Pela primeira vez, a Bienal também terá um espaço, o Geek & Quadrinhos, voltado para os aficionados de super-heróis, ficção científica, literatura fantástica e, claro, HQs. Em uma área de 200 metros quadrados, o público poderá participar de discussões e disputas sobre o mundo da cultura pop, testar equipamentos de realidade virtual, experimentar novos jogos de tabuleiro e assistir a competições entre ilustradores profissionais sobre obras de literatura fantástica e ficção científica. Fazem parte do programa sessões de swordplay, embates que simulam lutas medievais, e oficinas de quadrinhos e de maquiagem, incluindo a de cosplay — nome dado ao hobby de fantasiar-se de personagens das histórias. “O sucesso de eventos como a feira Comic Con Experience mostrou que não dá mais para ignorar esse público. O espaço, além de atrair esses fãs, vai despertar a curiosidade do visitante em geral”, acredita Affonso Solado, um dos grandes nomes da literatura fantástica nacional e curador da área.

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Espelho do mercado editorial, a Bienal nunca esteve tão heterogênea. Atualmente não há um fenômeno que arrebate leitores brasileiros em profusão como ocorreu, por exemplo, com a saga do bruxinho Harry Potter — 450 milhões de títulos vendidos no mundo, 4 milhões no Brasil. A área que demonstra melhor desempenho hoje é um segmento de não ficção, que engloba autoajuda, espiritualidade e biografia. Nesse último gênero, um dos grandes êxitos de vendas, com 300 000 exemplares comercializados, é o livro de Rita Lee, que ainda não confirmou presença na festa. Na linha autoajuda, o destaque é o repórter americano Charles Duhigg, ganhador do Pulitzer, o maior prêmio na área do jornalismo e literatura dos Estados Unidos. Ele é o autor de O Poder do Hábito, uma espécie de livro-incentivo para quem quer turbinar a atuação profissional. A britânica Paula Hawkins, que já vendeu 20 milhões de unidades de A Garota do Trem, e a portuguesa Sofia Silva, que arrebatou os brasileiros no meio digital com a série Quebrados, também são apostas entre os autores internacionais. Além de contar com as novas áreas, a feira oferece o Café Literário, dedicado a debates, o auditório Encontro com Autores, o espaço mirim EntreLetras e setores para autógrafo. “A intenção é abranger um público o mais variado possível, sem deixar de estar atento à estrutura”, explica Cida Malka, gerente de eventos paralelos da Bienal.

Lançada em 1983 de forma acanhada em um salão do Copacabana Palace, a Bienal carioca chega à sua 18ª edição sem comparação entre seus pares. Não é exagero dizer que não há nenhum evento voltado para a literatura com estrutura e abrangência iguais. A Feira de Frankfurt, na Alemanha, a principal referência no setor, restringe-se, na maior parte do tempo, aos profissionais do mercado editorial, com os estandes abertos ao público em geral apenas nos fins de semana. Em Buenos Aires, até existe uma iniciativa com moldes parecidos, mas bem mais enxuta. Por aqui, a Bienal de São Paulo, por exemplo, só começou a trazer autores internacionais nas últimas edições. Entre encontros, debates e palestras, a festa carioca neste ano se supera, com 353 horas de programação cultural, 40% mais do que em 2015. O cenário é perfeito. Resta agora despertar a centelha latente em um público que cada vez mais se acomoda às facilidades do computador e do celular.

Os livros sensacionais da Coleção Vaga-Lume

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(Reprodução/Divulgação)

(Reprodução/Divulgação)

A maioria de nós tomou gosto pela leitura com essa série de livros infanto-juvenis

Roosevelt Garcia, na Veja SP

Muitas crianças e adolescentes dos anos 70 e 80, incluindo eu e provavelmente você, adquiriram o gosto pela leitura graças a uma coleção de livros lançada no início dos anos 70 pela Editora Ática, a Coleção Vaga-Lume. Os livrinhos, destinados ao público infanto-juvenil, foram um grande sucesso naquela época, e continuam sendo publicados até hoje.

A coleção nasceu no final de 1972 e ajudou muito a Ática a se fortalecer no mercado editorial, porque foram imaginados para serem usados nas escolas, como fonte de leitura para trabalhos escolares. Eles vinham, inclusive, com um encarte à parte, chamado de “suplemento de trabalho”, que ajudava o pequeno leitor a compreender melhor as estórias em uma série de exercícios de análise do livro. Assim, se tornou comum professores do primeiro e segundo graus de todo o país indicarem esses livros como parte do programa de leitura anual de seus alunos.

Verdadeiro fenômeno de vendas, a coleção tem exemplares que ultrapassaram facilmente os 2 milhões de exemplares. Autores que já eram consagrados na época, como Maria José Dupré e Marcos Rey, tiveram obras publicadas na coleção. Marcos Rey – na verdade, o pseudônimo do escritor Edmundo Nonato – já era bem conhecido na época por seus romances e contos adultos, e foi na Vaga-Lume que ele escreveu seus primeiros livros para o público infanto-juvenil. Outros autores, como Marçal Aquino e Marcelo Duarte, escreveram exclusivamente para a coleção.

(Reprodução)

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A Ilha Perdida, O Escaravelho do Diabo, Aventuras de Xisto, Cabra das Rocas e O Caso da Borboleta Atíria são títulos que foram publicados na primeira fase da coleção e continuam sendo lembrados até hoje, e alguns também ganharam republicações recentes. A coleção conta atualmente com mais de noventa títulos, e apesar de completamente reformulada, ainda faz muito sucesso nas escolas.

Um de seus volumes mais conhecidos, O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida, recentemente foi parar nas telas do cinema, alcançando um relativo sucesso de público. Outros filmes baseados em livros da coleção podem estar a caminho, já que títulos como O Mistério do Cinco Estrelas e Um Cadáver Ouve Rádio também tiveram seus direitos comprados para uso no cinema. Vamos esperar ansiosos para ver a materialização destes clássicos da nossa infância!

Historiador francês vem à USP para debate sobre o medo dos livros

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Em evento no Instituto de Estudos Avançados, Jean-Yves Mollier vai abordar o poder político da literatura

Diego C. Smirne, no Jornal da USP

Há quem considere o advento da escrita como o maior divisor de águas da história da humanidade. Tomando essa premissa como verdadeira, não é surpresa que certos livros, em razão de seu poder de moldar a sociedade, tenham inspirado medo a ponto de serem censurados, banidos ou destruídos. A partir da pergunta “Quem tem medo dos livros?”, o historiador francês Jean-Yves Mollier vem à USP para uma conferência no Instituto de Estudos Avançados (IEA), coordenada pela professora Marisa Midori Deaecto, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O evento é nesta quinta-feira, dia 17, às 10h30, na Sala de Eventos do IEA.

O medo foi o tema escolhido pela rede internacional Ubias (University-based Institutes for Advanced Study) para ser debatido neste ano em diversas áreas do conhecimento. A escolha veio a calhar para a professora Midori e o professor Mollier, da Universidade de Versalhes Saint-Quentin-en-Yvelines, na França, que já conversavam sobre a ideia de discutir o medo dentro e ao redor dos livros.

“Em 2016 a obra Mein Kampf, de Hitler, caiu em domínio público, o que gerou discussões em torno de sua republicação na França, na Alemanha e em outros países, o que nos deu a ideia para o debate. De fato, Mein Kampf é um livro que se enquadra bem no que queríamos discutir, pois há medo em torno do que essa obra simboliza e também do que é pregado dentro dela”, explica a professora.

A partir de uma introdução em que a professora Midori apresentará algumas questões para o público e para o conferencista, o professor Mollier deverá traçar um panorama histórico da relação de poder e medo em torno dos livros. Para isso, abordará momentos da história em que o livro foi tido como uma ferramenta maligna por instituições como a Igreja Católica – como a época da publicação do Index Librorum Proibitorum, que entre 1559 e 1966 listava obras de leitura proibida aos fiéis – e outros em que o livro foi importante para mudanças políticas.

O historiador francês Jean-Yves Mollier: censura a livros ao longo da história será destaque em sua palestra – Foto: Marcos Santos

O historiador francês Jean-Yves Mollier: censura a livros ao longo da história será destaque em sua palestra – Foto: Marcos Santos

“Jean-Paul Marat costumava ler em praça pública a obra O Contrato Social, de Rousseau, no período da Revolução Francesa. Na França, o livro sempre teve um papel revolucionário muito forte. O professor Mollier certamente falará bastante sobre esse tema, além de censuras que aconteceram mais adiante, nos séculos 19 e 20, em reações da Igreja à laicização do ensino, de uma perspectiva francesa e europeia”, diz a professora Marisa.

“Vamos abordar também o papel do livro em movimentos políticos recentes, como na Primavera Árabe e nas Jornadas de Junho, aqui no Brasil, em que havia jovens empunhando livros nas manifestações. O livro tem um fator simbólico muito importante nesses episódios, e sempre teve muita influência nas lutas da juventude.”

Por esse motivo, a professora afirma que, embora hoje em dia não haja uma censura explícita, o medo do poder político e revolucionário que os livros possuem ainda persiste. É o caso com Mein Kampf, em que Hitler estabeleceu seu ideário de genocídio e dominação. “Há muito medo de que a reedição de Mein Kampf possa servir de impulso para a xenofobia e o ódio que o livro prega, especialmente no momento histórico que vivemos hoje”, diz a professora.

Para ela, porém, a censura nunca é solução. “Sou contra a censura a qualquer livro, a qualquer coisa na verdade. Se decidirem por reeditar o livro, apoio que isso seja feito com o devido debate, com a contextualização de quem foi o autor, em qual momento ele escreveu suas ideias e os horrores que foram causados pela aplicação delas. É o debate que pode enfraquecer o poder de um livro, não a censura.”

Marisa lembra ainda que hoje, com a internet, é muito mais difícil impedir o acesso a qualquer tipo de material, o que permite que uma obra como a do ditador nazista seja divulgada sem as considerações necessárias. Isso, no entanto, não quer dizer que a censura esteja com os dias contados.

“Não temos hoje exemplos de censura explícita por parte de governos ou instituições religiosas, como aconteceu diversas vezes na história, mas há uma espécie de censura velada por parte do mercado editorial, que hoje opera pela lógica do lucro, chefiado por profissionais que são mais gestores do que editores”, afirma. Segundo a professora, os grandes conglomerados editoriais e os vínculos que estabelecem com livrarias e meios de comunicação e difusão de conhecimento acabam limitando o acesso a determinados livros.

“O leitor passivo só lerá aquilo que lhe for disponibilizado, como acontece com quem assiste a telejornais ou lê jornais e revistas impressas. Para encontrar outras visões que não a hegemônica, é preciso ir atrás delas. Assim, somente um público restrito tem contato com títulos importantes que questionam problemas do mundo atual e que teriam o poder de provocar mudanças, mas que, por não serem publicadas pelas grandes editoras, circulam apenas à margem.”

“A internet tem a capacidade de publicizar e divulgar esse tipo de obra, mas somente para quem procurar por ele. Hoje, o mercado editorial acaba ditando o que é a boa leitura, de maneira semelhante ao que a Igreja fazia tempos atrás”, completa a professora.

A conferência Quem tem medo dos livros?, com o historiador francês Jean-Yves Mollier e coordenação da professora da ECA Marisa Midori, ocorre na quinta-feira, dia 17 de agosto, às 10h30, na Sala de Eventos do IEA. O endereço é rua da Praça do Relógio, 109, no 5º andar do Bloco K, na Cidade Universitária. O evento é público e gratuito, mediante inscrição prévia neste formulário, e terá tradução simultânea do francês para o português e transmissão ao vivo pelo site www.iea.usp.br/aovivo.

A estranha polêmica dos “leitores sensíveis”

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Foto: DAMIEN MEYER/AFP

Foto: DAMIEN MEYER/AFP

Danilo Venticinque, no Estadão

Causou polêmica recentemente a notícia de que editoras brasileiras estão contratando “leitores sensíveis”. São profissionais cujo trabalho é ler livros que abordam temas potencialmente delicados e avaliar, antes da publicação, se o conteúdo da obra pode ofender leitores que pertençam a alguma minoria.

Foi o suficiente para que inúmeros autores e profissionais do mercado editorial ficassem em polvorosa e manifestassem sua indignação em redes sociais. Houve quem falasse em censura, ditadura do politicamente correto, fim da literatura.

A reação me parece despropositada. Na Europa e nos Estados Unidos, a função de sensitivity reader existe há anos, e a literatura vai bem, obrigado. Não há razão nenhuma para acreditar que a adoção do serviço por editoras brasileiras terá o efeito catastrófico que tanta gente está prevendo.

Chamar de censura o trabalho dos leitores sensíveis é desconhecer a função e atribuir-lhes um poder que não tem. Em primeiro lugar, são pouquíssimos os livros que passam pelas mãos de leitores sensíveis—em geral, obras de autores que escreveram sobre uma minoria sem conhecê-la a fundo e que, portanto, podem se beneficiar com a opinião de alguém que entenda do assunto. Na reportagem que iniciou a polêmica, é citado o exemplo de uma leitora sensível que ajudou na elaboração de um glossário de termos do universo transgênero. Não entendo, sinceramente, como isso pode ser considerado negativo.

Para a maioria dos autores, não mudará nada. O serviço de leitor sensível é exercido por freelancers e as editoras não têm o menor interesse em desperdiçar dinheiro submetendo todos seu lançamentos ao crivo deles. A julgar pelo barulho nas redes sociais, muita gente está imaginando um exército de censores pronto para canetar obras de todo e qualquer escritor brasileiro. Na vida real, o que teremos são dois ou três freelancers se estapeando para disputar meia dúzia de projetos por ano. Soa muito pouco ameaçador.

Outro exagero é atribuir aos leitores sensíveis o poder de vetar uma obra literária. Na pior das hipóteses, o máximo que o leitor sensível pode fazer é emitir um parecer negativo. A decisão de publicar o livro ou não segue nas mãos do editor, como sempre. O mesmo vale no caso de um parecer sugerir alterações na maneira como um assunto é tratado numa obra literária: outra vez, o leitor sensível não tem o poder decidir se e como as mudanças serão feitas. A decisão, outra vez, é do editor—em conjunto com o autor.

Em resumo: as chances de um livro de brasileiro ser submetido a um leitor sensível é mínima— e a probabilidade de que um leitor sensível vete uma obra unilateralmente é zero. O que temos visto é um barulho enorme por uma questão que terá um impacto praticamente nulo na vida dos autores e leitores brasileiros.

Trata-se de mais uma polêmica literária vazia cujo principal efeito é distrair-nos do verdadeiro problema: quase metade da metade da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro na vida. Dentro da parcela que lê, a maioria lê pouco e mal. É essa a verdadeira tragédia para a literatura nacional, e a maior ameaça ao ganha-pão de escritores brasileiros.

Apesar disso, vejo inúmeros escritores e profissionais do mercado editorial discutindo apaixonadamente uma questão irrelevante como a dos leitores sensíveis e quase ninguém falando em educação e incentivo à leitura. Confesso que não entendo essas prioridades. Algo está errado.

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