Posts tagged Milton Hatoum

51 tons de preto

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Carlos Araújo no Jornal Cruzeiro do Sul

Que a trilogia “Cinquenta tons de cinza” da inglesa E.L. James é um fenômeno do mercado editorial, não resta dúvida. Que este resultado tenha provocado polêmica e desconcerto, reeditando o eterno conflito entre mercado e literatura, não dá para entender. Dizer que isto é literatura ou não e ter posição intolerante em relação a um ou outro caso faz recordar aquela velha conversa do que é arte ou não: um dos lados corre o risco de estar equivocado.

O primeiro a levantar a questão foi o respeitado escritor Milton Hatoum, um dos maiores nomes da atual galeria de autores brasileiros, em uma crônica publicada no “Estadão”. Ele descreveu a solidão de um escritor à procura de leitores, na Feira do Livro de Guadalajara de 2012, enquanto todos estavam aglomerados em torno de um local de venda da trilogia de E.L. James. Hatoum não economizou palavras: “O tempo se encarrega de apagar todos os tons de cinza, e ainda arrasta para o esquecimento os crepúsculos, cabanas e toda essa xaropada que finge ser literatura.”

Mais recentemente, o jornalista Sérgio Augusto também se inspirou nos tons da trilogia para recordar que desde a década de 1960 o mercado editorial brasileiro teve melhores momentos. Como exemplo, lembrou que em 1966 o “Ulisses” de James Joyce, traduzido por Antonio Houaiss, chegou ao topo dos livros mais vendidos e fez companhia aos brasileiros Carlos Heitor Cony, Mário Palmério e Érico Veríssimo.

Se me permitem ser um intruso nessa questão, o livro também é um produto de mercado e é ótimo quando determinado título rouba a cena por vender muito acima da média. Assim como uma montadora de carros não produz unidades em série para ficarem acumuladas nos pátios, editoras não assumem os cursos de publicação com a expectativa de que os livros fiquem encalhados nos depósitos. Se a alma da produção de sabonetes é o lucro, por que a mesma equação não deve reger o mercado editorial? Sabonetes têm utilidades palpáveis, dirão uns. Livros também.

Esse debate é tão antigo quanto a literatura. No Brasil, escritores que vendem muito chegam ao ponto de sofrer preconceitos. Jorge Amado, Rubem Fonseca, Paulo Coelho, Érico Veríssimo, só para ficar nos exemplos mais conhecidos, passaram por esse pente fino. Enquanto os críticos os desprezavam, os leitores compravam os seus livros em grande quantidade e isto permitia que eles vivessem com os rendimentos da profissão de escritor. E nem por isso os críticos estavam certos. Exemplo: ninguém é capaz de negar que Rubem Fonseca é um dos maiores contistas que este país já teve.

A trilogia dos tons de cinza vende muito por uma combinação de fatores: caiu no gosto do leitor, foi lançada em meio a um competente esquema de marketing e a autora é de língua inglesa, o que faz grande diferença num setor cultural ainda contaminado pelo provincianismo ou seja, o que é de fora é mais aplaudido.

Os tons de cinza podem ser bons ou ruins, mas esta análise cabe a cada leitor. Eu dispenso os tons de E.L. James e prefiro a companhia de “Angústia” de Graciliano Ramos, ou “Extinção” de Thomas Bernhard, mas jamais posso querer que alguém faça a mesma escolha. É certo que o leitor vai encontrar prazer nos tons de cinza e vai ficar angustiado com a obra-prima de Graciliano Ramos. Também vai ficar desesperado com a mente destruidora do personagem-narrador criado por Thomas Bernhard. Como acontece com outras ações da vida, ler também é um problema da liberdade de ser e de existir.

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Os corvos e a nossa língua

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Milton Hatoum, no O Estado de S.Paulo

Nos últimos dias de janeiro, apaguei, com pesar, o nome e o número de telefone de amigos e conhecidos que passaram para o outro lado do espelho. Não foi um ato de morbidez. Fiz isso porque sou distraído, tão distraído que, certa vez, liguei para um amigo e, quando a mulher dele atendeu, começou a chorar. E antes de lhe perguntar a razão do choro, ela me disse: você foi ao enterro dele, não se lembra?

Só então me lembrei daquela triste tarde de junho; pedi desculpa pela gafe e disse que a memória é um mistério, às vezes as lembranças aparecem com nitidez, outras vezes ficam guardadas, teimosamente escondidas, ou em estado de latência.

Por isso é melhor apagar nomes e números de telefone. Felizmente usei muito pouco a borracha: a imensa maioria dos amigos ainda está neste mundo. Alguns são tão jovens que parecem viver em outra era. Ou talvez seja o contrário: eu mesmo pertenço a um outro tempo.

Nas conversas com dois desses jovens, surgem estranhas expressões em inglês sobre jogos eletrônicos e complicadas redes virtuais; essas expressões se repetem até a saturação e não me dizem nada. Diante de tantas palavras desconhecidas, que aludem a um mundo virtual que também desconheço, só me resta o silêncio, nossa voz essencial, talvez a mais verdadeira. De qualquer modo, somos amigos, e quando lhes mostro um poema de Wallace Stevens, eles o leem com enfado, depois me olham com desconfiança, como se eu fosse um lunático. E enquanto eles se entusiasmam com redes virtuais e joguinhos barulhentos, eu continuo a conversar com um homem silencioso. Assim permanecemos amigos em nossos mundos cindidos, e vamos vivendo.

Na outra extremidade da ponte, os amigos longevos tampouco me abandonaram. Refiro-me a duas senhoras quase centenárias. A primeira, é a mulher que me alfabetizou e merece uma crônica à parte. A outra, Ludmila, foi minha professora no curso ginasial, e sua lucidez espantosa me surpreende e me humilha. Até hoje, examina meus escritos com lupa, e quando descobre um erro ou uma distração, me telefona a qualquer hora do dia ou da noite para dizer, com uma voz do além, que eu devia consultar um livro do gramático Said Ali antes de escrever barbaridades.

Ludmila nasceu antes de 1922. Nunca aceitou o tom coloquial dos escritores modernistas e condena o uso inadequado da próclise e de qualquer pronome oblíquo átono. Agora está enfezada com “esses conterrâneos que usam a segunda pessoa do singular com o verbo na terceira”.

Disse-lhe que esses erros de concordância já foram incorporados à fala popular, por isso são toleráveis, e até aceitos. Além disso, acrescentei, Machado de Assis já não escrevia como Camilo Castelo Branco nem como Eça de Queirós.

“Tu leste A Doida do Candal no meu colo, mas nenhum português diz ‘tu vai, tu fica, tu viu”, protestou Ludmila, com a mesma voz ríspida de 1965 ou 1964. “Essa forma bizarra dói-me os ouvidos. Daqui a pouco vão dizer que os cavalos cacarejam, as galinhas relincham, as onças crocitam e os corvos esturram.”

Disse que isso era possível na literatura, e também no sonho, que é a forma mais civilizada e mais livre de contar uma história sem escrever palavras. Depois perguntei, com ironia, se havia corvos em Manaus, nossa cidade amada.

“Há muitos”, ela respondeu. “Corvos que não crocitam nem esturram, mas roubam e mentem desde que eu nasci.”

Grande Ludmila: quase um século de vida e não perdeu a verve da revolta.

Livros de verão e literatura de verdade

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Milton Hatoum, em O Estado de S.Paulo

Há poucos meses atrás, na Feira do Livro de Guadalajara, vi uma cena que, de algum modo, diz muito sobre a literatura e a solidão, essas irmãs siamesas.

A Feira estava cheia de gente, mas não necessariamente de leitores. Ao visitar o estande de uma editora, vi um escritor de língua espanhola, sentado diante de uma mesinha, à espera de leitores. Ele tinha um ar desolado e conversava com uma mulher. Quando eu passava perto dos dois, ele perguntou à mulher onde estavam os leitores. Ela sorriu e apontou para uma fila de leitores excitados, que queriam comprar a edição espanhola de Cinquenta Tons de Cinza, o best-seller do momento.

É improvável que os leitores dessas historinhas de sexo e violência – ou sexo com violência – leiam romances de Conrad, de Dostoievski ou de Graciliano Ramos. Quantos se aventuram a ler Coração das Trevas, Crime e Castigo ou Infância? Para a maioria dos leitores, um livro de ficção é puro entretenimento, algo que não convida a pensar nas relações humanas, no jogo social e político, na passagem do tempo e nas contradições e misérias do nosso tempo, muito menos na linguagem, na forma que forja a narrativa. Talvez por isso o poeta espanhol Juan Ramón Jiménez tenha afirmado que a poesia é a arte da imensa minoria. Isso serve para a literatura e para todas as artes. Os poucos, mas felizardos espectadores da peça O Idiota, dirigida por Cibele Forjaz, sabem disso.

Flaubert costumava lamentar a época em que viveu: a crença entusiasmada e cega no progresso e na ciência, as batalhas fratricidas na França, a carnificina das guerras imperialistas, e a idiotice e bestialidade humanas, que ele explorou com ironia em sua obra. Em uma carta de sua vasta correspondência, escreveu que o ser humano não podia devorar o universo. Referia-se ao consumismo crescente na segunda metade do século 19.

O que o “Ermitão de Croisset” diria dos dias de hoje, quando a propaganda insidiosa na tevê não poupa nem as crianças e tudo gira em torno da vida de celebridades, de uma fulana famosa que teve um bebê, de sicrano que se separou de beltrana ou traiu uma fulaninha? Qual o interesse em saber que a princesa da Inglaterra está grávida?

Essas baboseiras são ainda mais graves num país como o Brasil, cuja modernidade manca ou incompleta exclui milhões de jovens de uma formação educacional consistente.

No começo da década de 1990, quando eu passava uma temporada em Saint-Nazaire, um jovem operário entrou no meu apartamento para consertar o vazamento de uma tubulação. Quando passou pela sala, viu um romance em cima da mesa e exclamou:

Ah, Stendhal. Li vários livros dele, e o que mais aprecio é esse mesmo: A Cartuxa de Parma.

E onde você os leu? Quando?

Aqui mesmo, ele disse. Na escola secundária.

Era uma das escolas públicas daquela pequena cidade no oeste da França.

Nicolas Sarkozy e outros presidentes conservadores tentaram prejudicar o ensino de literatura e ciências humanas na escola pública francesa, mas nenhum deles teve pleno êxito. Aprender a ler e a pensar criticamente é um dos preceitos de uma sociedade democrática, e esse mandamento republicano ainda vigora na França. O que os prefeitos e secretários de Educação dos quase 5.700 municípios brasileiros dizem a esse respeito?

A precariedade da educação pública é um dos problemas estruturais da América Latina. Até mesmo a Argentina, que já foi uma exceção honrosa, começa a padecer desse mal.

Comecei essa crônica evocando a solidão de um escritor em Guadalajara. Melhor assim: a solidão está na origem do romance moderno, é um de seus pilares constitutivos e faz parte do trabalho da imaginação do escritor e do leitor.

O tempo se encarrega de apagar todos os cinquenta tons de cinza, e ainda arrasta para o esquecimento os crepúsculos, cabanas e toda essa xaropada que finge ser literatura. Enquanto isso, Coração das Trevas, publicada há mais de um século, é uma das novelas mais lidas por leitores de língua inglesa.

É preciso fortalecer a literatura, diz o escritor Milton Hatoum

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O escritor amazonense Milton Hatoum em seu apartamento em Pinheiros

Sylvia Colombo, na Folha de S.Paulo

O encontro era para debater o ambiente em que o escritor trabalha, inspiração, métodos. A mesa, composta por um mexicano, um argentino, dois brasileiros e uma chilena, fazia parte da 26ª edição do Festival Internacional de Literatura de Guadalajara, no México, que vai até amanhã.

Tudo ia bem, até que o mexicano David Toscana perguntou a Milton Hatoum: “Deve ser difícil se concentrar para fazer literatura no Brasil com todas aquelas praias e ‘muchachas’, não?”.

Em entrevista à Folha, Hatoum conta que se irritou com o comentário, mas que ele apenas expõe uma barreira que o estereótipo impõe para a cultura brasileira.

“Vemos nosso mercado literário em ebulição aqui e não nos damos conta de que há um problema muito sério, a literatura brasileira tem dificuldade para viajar por causa da relação com o exótico.”

Para o escritor, “foi nessa ideia de país do samba, do Carnaval e das gostosas que a gente dançou”.
Hatoum conta que tem seus livros traduzidos ao francês, ao alemão e ao grego, mas que o mercado de língua hispânica é difícil, assim como os Estados Unidos.

“Os países da América não têm a tradição que têm os europeus da literatura de viagem, do orientalismo, que buscava olhar o outro e também entendê-lo”, diz.
“Por isso é mais fácil publicar na França do que no México, nos EUA ou em outro país do continente.”

A FIL deste ano realiza uma seção dedicada apenas ao Brasil, para a qual foram convidados, entre outros, Marçal Aquino, Bernardo Carvalho, Cristóvão Tezza, Ferréz e Luiz Ruffato.

O evento também comemora os 50 anos do boom latino-americano, selo que o escritor amazonense rejeita.

“O boom não incluiu o Brasil, não poderia se chamar desse jeito. Nossos escritores importantes da época, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, não estavam na lista, não viajaram, e por isso não ficaram conhecidos fora do Brasil como mereciam”, afirma.

INJUSTIÇA LITERÁRIA

Hatoum leu na feira um artigo que escreveu sobre o tema, no qual pede que se corrija essa “imprecisão geográfica” e essa “injustiça literária”.
Diz, ainda, no texto, que esses narradores exibem um Brasil complexo, “de múltiplos rostos, inventado por vozes dissonantes, sem estereótipos nem mistificação. Vozes de dúvida, de perguntas sem resposta”.

Para Hatoum, a mudança do status econômico do Brasil e sua projeção como nova potência vão ajudar a mudar isso e aumentar o interesse pelo país.
Seria necessário, porém, mais esforço por parte de instituições brasileiras.

“Acho que o Itamaraty e a Biblioteca Nacional fazem um bom trabalho, mas é preciso também criar um instituto, algo como o Instituto Cervantes, que dê cursos, palestras, mostre filmes pelo mundo.”

Por outro lado, mostrou-se admirado com o modo como os mexicanos cultuam seus grandes ícones literários. Na FIL, teve-se um bom exemplo disso nas homenagens realizadas a Carlos Fuentes, Elena Poniatowska, Sergio Pitol.

“Aqui tratam-se os escritores como se fossem instituições, quase como se fossem deuses astecas. É uma outra relação, bastante diferente da que há no Brasil.”

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

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