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Escritor premiado de Ribeirão Preto descobre aos 41 anos que é autista

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Diagnóstico veio após autor ter publicado 3 obras e vencido 2 concursos. Cristiano Camargo diz que força de vontade o fez superar as dificuldades.

Livro “Autista com muito orgulho – a síndrome vista pelo lado de dentro” conta a história do autor  (Foto: Leandro Mata/G1)

Livro “Autista com muito orgulho – a síndrome vista pelo lado de dentro” conta a história do autor (Foto: Leandro Mata/G1)

Leandro Mata no G1

Com o cabelo bem penteado, blazer e roupa social alinhados e um tratamento cordial, Cristiano Camargo, 50 anos, abre a porta da casa em que mora com a mãe em Ribeirão Preto (SP) para mais uma entrevista entre tantas que já concedeu. Com cinco livros publicados e três prêmios literários em 38 anos de uma carreira que ele começou aos 12 anos, o autor se destaca pela sensibilidade e criatividade que emprega em suas obras. Mais do que se esforçar para contar boas histórias, o escritor é exemplo para muitos por ter superado as dificuldades de ser autista do tipo asperger, síndrome que só descobriu que possuía aos 41 anos, quando já tinha três publicações e vencido dois concursos.

O choque inicial de descobrir ser asperger transformou-se em inspiração para o livro mais recente, publicado no ano passado. “Autista com muito orgulho – a síndrome vista pelo lado de dentro” é a primeira obra de não ficção de Camargo, que relata um pouco de sua história e o que se passa na vida do autista. A publicação e o trabalho de ativismo na defesa de pessoas com a síndrome renderam ao autor neste ano o prêmio do Movimento do Orgulho Autista, entregue na Assembleia Legislativa de Brasília (DF), onde ele compôs a mesa de debates e discursou no evento.

A descoberta
“Eu considero uma benção ter sido diagnosticado tarde. Sem saber, eu fui superando sozinho, quando eu fui diagnosticado já tinha superado praticamente tudo”, relata Camargo.

Foi durante uma viagem internacional que o pai de Camargo, na época um pesquisador de Farmacologia e Bioquímica da USP, desconfiou que o filho, então com 41 anos, poderia ser autista. Ao ler o livro “O estranho caso do cachorro morto”, de Mark Haddon, em que o protagonista apresentava o distúrbio, o pai notou a semelhança da personagem com o filho. O pesquisador passou o livro a Camargo e marcou uma consulta em São Paulo com um psiquiatra. O médico realizou o exame e confirmou o diagnóstico de asperger.

O transtorno asperger não atinge a capacidade de aprendizado, mas prejudica a interação social e o comportamento do portador. Para explicar como o autista vê o mundo, Cristiano Camargo criou a hipótese que nomeou de “processo de amadurecimento asperger”, no qual o portador vai evoluindo e se tornando mais sociável e independente. O caminho para isso passa por três fases.

Na primeira fase, Camargo explica sob a ótica de sua vida, que a criança cria o “mundo interno de fantasia”, onde inventa suas histórias e interage dentro de si com um imaginário que comanda. A segunda etapa é nomeada pelo autor de “a fase dos dois infernos” quando o contato com a realidade e a confusão com o que é fantasiado geram uma perturbação mental e faz com que a pessoa tenha uma visão desvalorizada de si. “Na cabeça do autista imaturo a realidade é um inferno porque ela não corresponde ao que ele vê no mundo de fantasia interno dele, onde ele mesmo cria as regras, seus personagens e rege tudo isso como se fosse um maestro e tem poder de vida e morte.”

Autor Cristiano Camargo relê fábula que irá publicar até o final do ano (Foto: Leandro Mata/G1)Autor Cristiano Camargo relê fábula que irá publicar até o final do ano (Foto: Leandro Mata/G1)

É nesse momento que, segundo ele, o asperger enfrenta o maior desafio: interagir com o mundo real. “Se a pessoa decide começar a visitar a realidade, como a maioria das crianças autistas fazem, ela vai começar a interagir na realidade, a entender, mas é uma época de muito conflito em que ela é obrigada a se virar e dominar esse conflito entre a realidade e a fantasia e distinguir uma da outra”, explica.

O último estágio é o “Amadurecimento”, quando o asperger se torna produtivo e independente e consegue conviver com a sociedade. “Ela aprende a usar o mundo interno de fantasia como uma ferramenta para se dar bem na vida através da criatividade, para buscar novas soluções para os problemas”, conclui.

Ser arperger ajudou a criatividade
Saber visitar esse mundo interno de fantasias e retratá-lo em textos foi um trunfo que Camargo aprendeu a usar desde cedo. Na escola, vibrava quando os professores passavam redações. Leitor assíduo, começou com o “Livro da Selva”, de Rudyard Kipling, passou por obras Monteiro Lobato, Jack London e clássicos da literatura infantil. Junto com o gosto pela leitura veio a vontade de escrever.

“Quando criança eu adorava as redações, principalmente tema livre. Foi fazendo redações do mesmo tema, juntando tudo e formando uma coleção delas que eu fiz o meu primeiro livro.”

A história “Inesperado Salvador” foi escrita a mão por ele aos 12 anos. Uma amiga da família datilografou os manuscritos e enviou para o concurso Círculo do Livro. O prêmio veio com a publicação da obra em uma coletânea em 1979.

O resultado surpreendeu a família. “Meu pai ficou muito surpreso, de ver a qualidade da história. Era a primeira vez que eu estava escrevendo, então ele não tinha ideia de que eu tinha essa vocação literária.”

Depois veio a obra “Jornada ao Vale Deslumbrante”, publicada em 1989. “Mistério do Grande Urso”, de 1997, lhe rendeu no mesmo ano o prêmio de publicação na coletânea “Melhores escritores de São Paulo”. Com “Automato e outras histórias”, de 2005, Camargo conquistou menções honrosas e o primeiro lugar na categoria livro do prêmio Arthur Bispo do Rosário, em 2009.

“Acredito que isso [ser portador da síndrome] acrescenta uma sensibilidade maior aos textos. As pessoas autistas têm uma ferramenta muito importante, que é o mundo interno de fantasias. Autistas e as outras pessoas utilizam o mundo interno de fantasias de maneiras diferentes”, afirma Camargo.

Um fator importante para o desenvolvimento, Camargo adere ao apoio dos pais, principalmente após o diagnóstico, mas ele lamenta que muitos autistas não tenham esse suporte. Ele afirma que é fundamental os familiares, pedagogos e terapeutas trabalharem juntos para tornar a pessoa com o transtorno mais rapidamente inserida na comunidade e independente.

“Muitos pais e mães quando recebem a notícia ficam achando que isso é um tipo de sentença de morte social, isso não é verdade. Eu sempre digo, o autismo e a asperger são progressões alternativas globais do desenvolvimento. A asperger faz parte desse gradiente que vai do mais fraco ao mais severo, ela progride positivamente, para melhor durante toda a vida do indivíduo para que ele supere, se torne produtivo, sociável.”

Sonhos, planos e frustrações
Hoje escritor, Camargo chegou a cursar três faculdades, mas não terminou nenhuma. Foi aprovado em estatística na UFSCar, e fez biologia e tradução de inglês em uma faculdade particular de Ribeirão Preto. O gosto por línguas – ele fala inglês e tem noções de francês e italiano – veio de quando morou nos Estados Unidos, de 1979 a 1981, e de 1998 a 1999.

Ele se orgulha de dirigir diariamente seu carro vermelho por Ribeirão e está animado com as negociações para publicar quatro livros até o meio do ano que vêm. Para este ano, a fábula infanto-juvenil de conscientização ecológica “Homem mau, Lobo bom” já está programada. Esta é apenas uma das 165 histórias de autoria dele que estão prontas e aguardando apenas por uma editora interessada.

A única frustração que sente é a de não ser pai. Camargo é divorciado e não teve filhos com a ex-mulher no casamento que durou cinco anos. O escritor diz que seu maior sonho é adotar uma garotinha. Para quem acha que a asperger pode ser uma barreira, ele já tem a resposta.

“O asperger e o autismo não são doenças, a verdadeira doença é o preconceito, a intolerância, a discriminação, a segregação social”, finaliza.

Defesa de pessoas com a síndrome renderam ao autor o prêmio do Movimento do Orgulho Autista (Foto: Leandro Mata/G1)Defesa de pessoas com a síndrome rendeu ao autor o prêmio do Movimento do Orgulho Autista (Foto: Leandro Mata/G1)

Dica da Marcia Carvalho

Generosidade cria corrente de leitura

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Apaixonada por livros, estudante de 12 anos ganha dezenas de exemplares após a mãe dela publicar anúncio em jornal pedindo doações

Kamila Eduarda Pereira gosta tanto de livros que lê em média duas obras por semana: uma verdadeira bibliófila (Christian Rizzi/ Gazeta do Povo)

Kamila Eduarda Pereira gosta tanto de livros que lê em média duas obras por semana: uma verdadeira bibliófila (Christian Rizzi/ Gazeta do Povo)

Denise Paro, na Gazeta do Povo

Um anúncio de jornal fez a estudante de Foz do Iguaçu, Kamila Eduarda Pereira, 12 anos, encher a estante de livros e semear uma corrente do bem em favor da leitura. Tudo começou com uma ideia da mãe dela, a dona de casa Keller Adriana Soares, 37 anos. Sem recursos para comprar livros para a filha, que lê em média duas obras por semana e pode- se dizer que é uma verdadeira bibliófila (que ama livros), Adriana resolveu colocar um anúncio em um jornal de classificados, de Foz do Iguaçu: “Aceita-se doações de livros para uma menina de 12 anos que adora ler”. A intenção era acessar outras crianças que já tinham lido as obras preferidas da filha e que poderiam repassá-las.

Em dois meses, Kamila recebeu 28 livros de quatro pessoas, incluindo uma coleção de ‘diários’ que ela diz adorar e vai se somar aos 150 livros já lidos ao longo da sua vida: Diário de um Anjo; Diário da Bailarina; Diário de um Banana; e Diário de uma Garota.

Sem pretensões de que o anúncio tivesse repercussão, Adriana ficou surpresa, tempos depois, ao receber um telefonema da Alemanha. Era a segunda doação batendo às portas. Quinze livros enviados por uma brasileira que comprou as obras pela internet. Foi aí que ela descobriu que a informação não se restringiu ao jornal. Um leitor achou o anúncio curioso e fez uma postagem em um grupo de troca e vendas, de uma rede social. A partir daí, o pedido ganhou o mundo.

Futuro

Antes da doação da Ale­manha chegar, Kamila recebeu livros de uma menina da Vila A, bairro vizinho da Vila C, onde ela mora. Depois, apareceu outro doador de Cascavel, que enviou três caixas de livros. “Esse doador falou que ele era como a Kamila quando criança, adorava ler”, conta a mãe.

Kamila já recebeu telefonemas de moradores do Rio de Janeiro e de São Paulo interessados em doar livros e jornais.

Agora a estudante, que também frequenta aulas de balé, pretende retribuir a solidariedade e repassar os livros recebidos. “Quero doar para crianças como eu, que amam ler”, diz.

Com gosto pela leitura e com uma coleção de notas altas na escola, a menina não pensa em seguir uma carreira ligada, diretamente, aos livros. A pretensão dela é ser delegada da Polícia Federal.

Para Kamila, a leitura vai ajudá-la bastante no curso de Direito. “Ler é tudo. Nós podemos perceber outro mundo. A gente sai do nosso e entra em um completamente diferente”, descreve.

A mãe conta que a jovem Kamila gosta de ler desde criança. Na idade em que frequentava creche, ela sempre levava um livrinho. Hoje, o bom hábito tornou- se rotina.

Nova escola

Mãe da estudante, Keller Adriana diz que as dificuldades para adquirir os livros começaram depois que a filha precisou mudar de escola. Ela era bolsista em um colégio particular que tem uma biblioteca grande. Mas precisou ser transferida porque levava uma hora e 15 minutos para fazer o trajeto da Vila C até a escola. No bairro onde mora, Kamila não tem oferta e variedade de livros para a idade dela. O jeito seria comprar as obras, algumas custavam até R$ 70, o que pesaria no orçamento da família. Felizmente, as doações resolveram esse problema.

dica do Chicco Sal

Livros errantes

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Conheça os Priest, os maiores “perdedores” de livros do mundo. Eles fazem parte de uma rede social de incentivo a leitura através da libertação de livros em lugares públicos.

O professor Max Franco: biblioteca pessoal espalhada por praças e pontos de ônibus de Fortaleza

Publicado em O Povo

A vida do casal inglês Priest – o autônomo Chris, 57, e a enfermeira Vi, 39 – mudou pela primeira vez no número 37 da rua Whitehall, bem no centro administrativo de Londres. Mais precisamente no pub The Old Shades. Na época, em 2007, o lugar tinha estantes com livros logo na entrada, emoldurando o quadro de vinhos.

“Pegamos um livro e tudo começou daí”, explica Chris, que mora com a esposa em Derbyshire, uma cidade de cerca de um milhão de habitantes ao norte da Inglaterra. O “tudo” a que ele se refere significa 69.899 livros registrados no site bookcrossing.com, uma rede social de leitura que promove um intercâmbio diferente de livros.

O usuário cadastra um exemplar e pode largá-lo num banco de praça, embaixo de uma árvore, dentro do cinema ou, se preferir, num ponto específico de troca do BookCrossing, como é o caso do The Old Shades. O objetivo é fazer que mais pessoas não só tenham acesso a livros, mas que também os leiam.

Depois que conheceram o projeto, Chris e Vi já libertaram até agora 65.885 obras ao acaso e 4.172 em pontos do projeto. Deles foram encontrados 3.532 exemplares que acabaram ganhando o mundo.

Há alguns no Canadá, Estados Unidos, Índia, África do Sul e mesmo no Brasil. Ao achar um livro, o leitor pode registrar isso no site e fazer um comentário. “A gente gosta de pensar que alguns livros que soltamos fazem viagens, atraindo atenção das pessoas e, com sorte, inspirando elas a ler”, diz.

De outros usuários, os dois pegaram 773 livros. A conta “countofmonte”, administrada por eles, é atualmente a campeã mundial em liberações de obras no site. Em relação ao segundo colocado, o canadense, Paul J. Lareau, 46, há uma diferença de 28.896 livros.

“Meus amigos às vezes têm problema em entender que pago por livros apenas para doá-los!”, pontua.

Segunda mudança

A princípio, abandonar e pegar livros era um esporte inofensivo. Até que eles encontraram Skinny Bitch (sem tradução no Brasil), best-seller de Rory Freedman e Kim Barnouin, duas ex-modelos norte-americanas que se dedicam a promover o veganismo, estilo de vida baseado numa dieta alimentar livre de animais.

Foi a segunda mudança na vida do casal. Eles se tornaram veganos desde então, aprofundando o vegetarianismo ao qual já eram adeptos. Inevitavelmente, as leituras – “pelo menos um livro na mão” sempre – seguem caminhos parecidos. “Leio livros sobre modificação genética que acabaram me influenciando a lutar contra isso”, afirma.

Embora ávidos por libertar livros, alguns guardam consigo. Por exemplo, os livros sobre modificação genética e comida orgânica. Ou exemplares dos clássicos favoritos, como O sol é para todos, de Harper Lee. Além disso, o próprio trabalho de Chris tem o mesmo espírito. Faz entregas de legumes orgânicos duas vezes por semana e o resto do tempo utiliza seu veículo, uma van, para pequenos trabalhos, como mudanças.

“A motivação para nós é dar uma nova vida aos livros em vez de tê-los na estante acumulando poeira.”

O quê

ENTENDA A NOTÍCIA

O BookCrossing nasceu nos Estados Unidos em 2001. Os criadores se inspiraram em iniciativas que acompanhavam a trajetória de outros objetos, como câmeras descartáveis e dinheiro. Pouco depois, o projeto chegou no Brasil.

Saiba mais

No Brasil, há 30 pontos de BookCrossing. Quatro estão no Nordeste: três em Salvador, na Bahia, e outro em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte. Nenhum no Ceará.

Para cadastrar um ponto de BookCrossing, primeiro junte livros, cadastre-os no site bookcrossing.com e ponha-os à disposição em prateleiras num local público, sinalizando com cartazes. Avise à equipe da rede social para que eles possam atualizá-lo no cadastro.

São 9.637 brasileiros cadastrados como usuários do site. Desses, 172 estão aqui no Ceará. Para começar a registrar livros, é preciso registrar-se no mesmo site antes.

A coordenadora do BookCrossing Brasil, Helena Castello Branco, afirma que o projeto tem participado de eventos literários, como a Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) e Bienais.
Ela diz já ter recebido pelo menos cinco mil livros de doação, que repassa a pontos do programa, como a Biblioteca Mário de Andrade e a Casa das Rosas, ambos em São Paulo.

‘Tive dificuldades, mas superei ‘, diz down formada em Biologia na Bahia

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Amanda Amaral Lopes, 24 anos, mora na cidade de Vitória da Conquista.
Segundo entidades, este é o primeiro caso do tipo registrado no estado.

Lílian Marques, no G1

Foto de Amanda no convite de formatura. (Foto: Arquivo Pessoal)

Foto de Amanda no convite de formatura.
(Foto: Arquivo Pessoal)

Amanda Amaral Lopes, 24 anos, vai se formar em licenciatura em Biologia, nesta quinta-feira (23). Ela mora em Vitória da Conquista, cidade no sudoeste da Bahia, e é a primeira pessoa com síndrome de down, no estado, a concluir um curso superior. A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), em Salvador, e a Associação Baiana de Síndrome de Dow (Ser Down) afirmam que esse é o pirmeiro registro que as duas instituições tomaram conhecimento no estado. No Brasil já houve outros casos, afirmam as duas associações.

Para a mãe da jovem, Alba Regina Amaral, a formatura de Amanda é uma conquista de toda a família. O apoio dos familiares foi fundamental para que ela seguisse com os objetivos planejados. “É muito importante, foi uma conquista de todos. Todo mundo sempre participou, incentivou tudo. Sempre foi iniciativa dela, a gente sempre apoiou, mas ela fez as escolhas por ela. A dificuldade sempre existe, mas, na medida do possível, a gente precisa superar”, disse Alba.

A mãe de Amanda destacou que o momento também é triste porque o pai da jovem morreu há pouco tempo, e não pôde compartilhar do momento de alegria da filha ao lado da família.

A colação de grau de Amanda é na noite desta quinta-feira (23). Ela cursou Biologia pela metodologia de ensino à distância (Ead), em uma faculdade privada. Pelo menos uma vez na semana, a jovem tinha aulas presenciais e diz que contou muito com o apoio de colegas e professores para superar dificuldades.

Antes de fazer Biologia, Amanda queria ser jornalista, mas como o curso não formou turma na faculdade escolhida, ela optou pela área de Ciências da Natureza. “A sensação [de se formar] é ótima, é a melhor possível, estou muito feliz. Na verdade, quando eu era criança eu lia muita poesia e pensei em ser jornalista, mas foi a força do destino me colocou na área de biologia. A professora [de biologia no Ensino Médio] me incentivou muito”, revela.

Amanda nasceu na Bahia, mas morou durante boa parte da vida escolar em Divinópolis, em Minas Gerais. Lá ela foi alfabetizada em escolas convencionais da rede particular e cursou o Ensino Fundamental todo em uma escola municipal, também convencional. A jovem também sempre fez acompanhamento com fisioterapeuta e fonoaudiólogo. A mãe da jovem ressaltou toda a atenção que a agora licenciada em Biologia teve durante a vida escolar. “Ela sempre foi muito estimulada, desde pequena. Amanda foi alfabetizada por bons professores, teve bons profissionais acompanhando ela”, disse Alba Regina Amaral.

Amanda diz que sempre que tinha dificuldades, mesmo na escola, contava com o apoio dos colegas e professores, o que a ajudou a superar qualquer tipo de obstáculo. Ela define a relação com os colegas e educadores como “ótima e legal”. Sobre os preconceitos sofridos, ela afirma que preferiu relevar e não destaca nenhum. “Tive dificuldades, mas superei com meus colegas de de sala e professores, tanto na escola quanto na universidade. Tinha dificuldade em matemática”, afirma.

No convite de formatura, Amanda conclui sua mensagem agradecendo a familiares, amigos, colegas e professores pela ajuda em realizar o seu grande sonho: “aprender e ensinar”.

Amanda ainda não teve contato com a profissão fora da sala de aula. Antes de procurar um trabalho na área, ela quer alcançar outro objetivo, o de fazer uma pós-graduação na área de Libras (Língua Brasileira de Sinais). “Quero ajudar os outros que têm dificuldade”, diz.

Do outro lado do mundo, brasileira é autorizada a educar os filhos em casa

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Thais Saito, de 31 anos, tem quatro filhos e aderiu ao ‘unschooling’.
Governo da Nova Zelândia autorizou mãe a tirar os mais velhos da escola.

Thais Saito mora na Nova Zelândia com os quatro filhos; Coral no colo, João (cabelo comprido), Melissa (de vermelho) e José (cabelo raspado) (Foto: Arquivo pessoal)

Thais Saito mora na Nova Zelândia com os quatro filhos; Coral no colo, João (cabelo comprido), Melissa (de vermelho) e José (cabelo raspado) (Foto: Arquivo pessoal)

Vanessa Fajardo, no G1

Trinta e um anos, quatro filhos e a missão de garantir que as crianças aprendam sem ir à escola. Thais Saito é brasileira e mora em Auckland, na Nova Zelândia, há dois anos e meio. Há pouco mais de uma semana, ela e o marido Angelo Damião, de 31 anos, também brasileiro, receberam ‘sim’ do governo neozelandês ao pedido de tirar os filhos Melissa e João, de 9 e 8 anos, da escola.

Para ter a ‘licença’, o casal teve de apresentar um projeto bem detalhado de como fariam para ensinar as crianças em casa. Eles listaram quais atividades seriam trabalhadas para desenvolver competências em literatura, ciência e tecnologia, saúde e bem-estar, artes e música, história e geografia, e alfabetização em matemática. Cada área foi discriminada com uma série de ações, como desenhar mapas em geografia, por exemplo, cozinhar e observar a alteração das matérias em ciências, e fazer origami e montar quebra-cabeça para ajudar na alfabetização em matemática.

Os brasileiros vão seguir a mesma burocracia em julho, quando José completar 6 anos e atingir a idade obrigatória, segundo a legislação da Nova Zelândia, para frequentar a escola. De quebra, a caçula Coral, de 1 ano, vai acompanhar os irmãos e aprender as lições da família.

Para educar as crianças, Thais vai se basear no conceito unschooling (desescolarização), cujo objetivo é ensinar por meio da vivência e não através de aulas tradicionais. As habilidades e conhecimentos serão desenvolvidos por meio de visitas a museus, parques, praias, observação da natureza, cozinhando, lendo, fazendo arte, entre outras atividades.

Melissa e João frequentavam uma escola da rede particular da Nova Zelândia até o mês passado. Os irmãos gostavam das aulas, mas Thais e o marido cogitaram a hipótese de mudar as regras da família por ideologia e também em função de José, que está prestes a atingir a idade obrigatória para ir às aulas. Segundo a mãe, o terceiro filho não está pronto para encarar esta etapa da vida, e o casal pretende entrar com o pedido de unschooling assim que ele completar 6 anos. Se for concedido, o garoto nem deve ser matriculado.
“José gosta muito de ficar em casa, de ficar perto da gente. Chegamos para as crianças e falamos: ‘Vamos pedir para o concil (governo de Auckland) para o Zé fazer o unschool. Vocês gostariam de tentar também?’ Foi uma festa!”

Thais Saito é brasileira e tem quatro filhos: Coral (no colo), Melissa (bermuda vermelha), João (camiseta verde) e José (roupa branca, de costas) (Foto: Arquivo pessoal)

Thais Saito é brasileira e tem quatro filhos: Coral (no colo), Melissa (bermuda vermelha), João (camiseta verde) e José (roupa branca, de costas) (Foto: Arquivo pessoal)

Thais diz que matriculou os dois filhos na escola depois dos 5 anos mais por necessidade do que por vontade. “Eu sempre gostei das férias, onde eles estavam comigo. Eu descobri uma frase do John Holt [educador americano defensor do unschooling] que é alguma coisa do tipo ‘não importa quão boa as escolas são, o lar é sempre o melhor lugar para aprender’. Tomamos esta decisão por acreditar que a gente pode fazer melhor. Tem muita gente que diz que o filho pediu para ir para a escola, isso nunca aconteceu aqui em casa”, afirma.

Na primeira vez que eu ouvi alguém falar de unschool, eu assustei. Fiz mil perguntas, nunca imaginei que faria. Hoje, depois de pesquisar bastante e conversar com muita gente, descobri que não é difícil. Só precisa dedicação. E isso, bom, quase toda mãe tem. Qualquer mãe que quisesse conseguiria”
Thais Saito, 31 anos, quatro filhos

O unschooling ainda é novidade na vida de Thais. que tem aproveitado cada momento com as crianças para ensinar e, principalmente, aprender. Para exemplificar, a brasileira conta que há pouco tempo estava na praia com os quatro filhos quando eles viram um bichinho azul na areia. “Minhas crianças acharam que era uma bexiguinha que estava se mexendo por causa do vento. Só que vimos muitas e de vários tamanhos. Perguntamos para uma moça. Ela, também mãe de crianças unschooled, foi para o carro e voltou correndo com uma enciclopédia. Descobrimos que era uma água viva.”

“Eles viram que elas vêm com as ondas, a água vai embora e elas não conseguem ir junto. Descobriram que elas se acumulam mais em alguns lugares, que elas ficam presas em algas, onde queimam e onde não queimam. Depois pesquisamos juntos na internet sobre elas. Nas quatro horas que ficamos na praia, eles aprenderam muito e ninguém precisou falar nada. A gente aprendeu juntos. Eu também não sabia sobre a água viva.”

Thais e Damião pensaram por três meses na possibilidade de aderir ao unschool, levaram mais um mês para finalizar o pedido ao governo e três semanas até receber a resposta. “Ir para a escola não fazia sentido em muitas coisas, por exemplo, na socialização. Meus filhos têm muitos amigos na sala, mas não se relacionam com ninguém que não seja do círculo. Eu não acredito que isso seja socialização.”

Entre as vantagens que ela vê na técnica é o fato de que os filhos vão aprender em português –hoje eles entendem o idioma, mas só falam em inglês–, além de poderem seguir o próprio ritmo e não ter de acompanhar uma sala de aula. “Também vamos poder viajar e fazer as coisas juntos. A regra é que as crianças recebam educação tão boa quanto e na mesma frequência que as escolas do governo. A gente vai fazer muito mais do que isso.”

Thais com as crianças em Northland, na Nova Zelândia: todo passeio é um aprendizado (Foto: Arquivo pessoal)

Thais com as crianças em Northland, na Nova Zelândia: todo passeio é um aprendizado
(Foto: Arquivo pessoal)

Apesar de sentir a aprovação dos filhos, Thais encara a novidade como projeto-piloto. Se no próximo ano as crianças pedirem para voltar à escola, os pais pretendem atender a vontade deles. “Na primeira vez que eu ouvi alguém falar de unschool, eu assustei. Fiz mil perguntas, nunca imaginei que faria. Hoje, depois de pesquisar bastante e conversar com muita gente, descobri que não é difícil. Só precisa dedicação. E isso, bom, quase toda mãe tem. Qualquer mãe que quisesse conseguiria. Eu não pretendo ensinar nada, só quero estimular a vontade deles de aprender”, afirma.

A brasileira diz que estava preparada para ser bombardeada de críticas quando tomou a decisão de tirar os filhos da escola, mas recebeu mais manifestações de apoio do que de desaprovação. “Incrível como tem tanta gente insatisfeita com as escolas no mundo inteiro!” Thais, no entanto, está acostumada a contrariar o sistema e tomar decisões não-tradicionais: depois de encarar uma cesariana para dar à luz a filha primogênita, teve os três filhos seguintes de parto natural, em casa.

Gutto Thomaz, de 19 anos, é mágico (Foto: Arquivo pessoal)

Gutto Thomaz, de 19 anos, é mágico
(Foto: Arquivo pessoal)

‘Unschooling’ no Brasil

No Brasil, o unschooling não é legalizado nem proibido. Sabe-se que algumas famílias o praticam, mas, como não há regra, elas podem ser denunciadas à Justiça e terão de provar ao juiz que não há abandono intelectual. Caberá ao juiz decidir que tais crianças podem ou não ser mantidas fora da escola.

Em São Paulo, a educadora Ana Thomaz atendeu, há 5 anos, ao pedido do filho Gutto para deixar de ir à escola. Na época, ele tinha 14 anos, não gostava das aulas, dos grupos que se formavam, e se sentia desestimulado. A mãe, a princípio, negou a vontade do filho, mas depois topou o desafio de ajudá-lo a descobrir suas paixões em casa.

“Meu filho queria aprender algo de verdade. Fiz um projeto como educadora, tinha uma estratégia de vida, não separava o ensino da vida. Via o que ele estava precisando: amor por aprender. Ele era alfabetizado, mas nunca tinha lido um livro, achava que era uma coisa chata”, diz Ana.

O garoto passou a ter aulas de artes plásticas, música, filosofia, futebol. Tudo em casa. Mas existia uma regra: ele não podia ficar se distraindo, por isso foram cortados televisão, videogame e computador. “Ele topou e foi maravilhoso. Cinco meses depois, ele descobriu a mágica, começou a estudar, hoje virou mágico profissional, faz shows, ganha dinheiro e viaja pelo mundo.”

Meu filho queria aprender algo de verdade. Fiz um projeto como educadora, tinha uma estratégia de vida, não separava o ensino da vida. Via o que ele estava precisando: amor por aprender. Ele era alfabetizado, mas nunca tinha lido um livro, achava que era uma coisa chata”
Ana Thomaz, educadora e adepta do unschooling

Para Ana, dificilmente o filho se tornaria mágico se continuasse na escola. “Não entraria no ócio criativo, não estava desperto nele a vontade de fazer algo. Ele criou a realidade de que a vida era chata, pois tinha de ir para a escola aprender algo que não interessava. A mágica começou a virar seu veículo para pensar, de uma maneira mais ampla, a neurociência da mágica. O fato de, por exemplo, a pessoa não ver algo na frente dela que é óbvio.”

A educadora diz que, quando tomou a decisão de ensinar Gutto em casa, teve como maior crítica a dela mesma. “Pensava: será que não estou arriscando demais? As pessoas falavam: que coragem!” A “briga” de Ana não é com a escola, e sim com uma cultura. “Uma cultura de que é mais importante consumir do que produzir, mais importante ter uma profissão do que ter uma vocação. A escola é ferramenta dessa cultura e quero mudar esse paradigma.”

Ana define o unschooling como a prática de aprender 24 horas por dia, não escolarizar o aprendizado, despertar a curiosidade da criança para que ela entre em contato com algo que lhe interessa de verdade. Deu certo com Gutto.

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