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A mulher que comoveu o Afeganistão com determinação para estudar

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A afegã Jahantab Ahmadi Imagem: Reprodução/Facebook

Publicado no UOL

Em um país no qual as mulheres geralmente aparecem no noticiário devido a mortes e violência, a imagem de uma mãe sentada no chão com uma criança no colo enquanto fazia uma prova de vestibular comoveu o Afeganistão.

Jahantab Ahmadi tem 25 anos e é mãe de três crianças. Ela cresceu em uma família muito pobre em Ushto, uma aldeia remota da província central de Daikundi onde começou a estudar tarde. Aos 18 anos concluiu o ensino fundamental, fase em que as crianças geralmente têm 14 ou 15 anos.

Em seguida, Jahantab casou-se com um agricultor analfabeto e, um ano depois, teve o primeiro filho. Em um país onde o casamento infantil e adolescente é a primeira causa de deserção escolar das meninas, o destino de Jahantab parecia selado, mas contra todas as previsões e com muitas dificuldades, continuou estudando.

Jahantab, que caminhava duas horas por dia até a escola, completou o ensino médio em 2013, mas não pôde continuar os estudos. “Sempre pensei em ir à universidade, mas os problemas me perseguiam”, lamentou.

Há duas semanas, após duas horas de caminhada e dez de ônibus desde sua aldeia, Jahantab chegou a Nili, capital da província de Daikundi, com seu filho de três meses nos braços para fazer a prova de acesso à universidade.

Mas, durante o exame, que foi realizado em um espaço aberto, o bebê começou a chorar por causa de uma dor no ouvido. Ela se levantou da carteira, se sentou no chão para tentar consolar a criança e continuou a responder as questões da prova com uma mão.

A impactante imagem foi fotografada por um professor que fiscalizava a prova. A foto foi compartilhada nas redes sociais e viralizou em questão de horas, gerando uma avalanche de reações.

“Não me dei conta de que alguém tinha me fotografado. Me assustei quando soube, mas as fotos me trouxeram sorte e transformaram o meu sonho em realidade”, narrou Jahantab com o bebê nos braços enquanto aconselhava os outros dois filhos a não saírem do quarto.

O destino dessa mãe mudou definitivamente. Após ver as fotos na internet, Jahantab e a família foram convidados a Cabul pela ativista dos direitos das mulheres Zahra Yagana.

A Associação Juvenil Afegã, uma ONG com sede no Reino Unido, arrecadou 11 mil libras esterlinas para apoiá-la e o segundo vice-presidente do país, Sarwar Danish, prometeu pagar durante quatro anos os custos de uma residência em Cabul.

Além disso, a presidência do país a ajudou a entrar na faculdade de Economia de uma universidade privada, onde terá todas as despesas cobertas durante esses quatro anos.

“Jahantab é, para mim, a mulher do ano do Afeganistão”, escreveu em uma rede social Farkhunda Zahra Naderi, conselheira do presidente afegão, ao ressaltar que a jovem é “uma referência” e que “mulheres valentes” como ela “acabarão com a violência” no país.

Apoio em casa

Mas há algo mais por trás da coragem. No Afeganistão, as meninas representam 39% dos estudantes em colégios em zonas urbanas e 24% em áreas rurais, e as famílias obrigam que elas abandonem os estudos após o casamento. O caso de Jahantab foi diferente, já que encontrou o apoio incondicional do marido, algo pouco habitual na conservadora sociedade afegã.

“Eu a apoio porque não quero que os meus filhos cresçam analfabetos como eu”, disse ele, ao reconhecer que não pôde ir à escola e quis que os filhos e a sua mulher seguissem com os estudos.

Nem sequer o fato de sua esposa ter aparecido em fotografias, o que vai contra a puritana moral afegã, impactou a fé do marido na companheira.

“Confio na minha mulher, então não me importa o que outros digam. Mesmo se as fotos não tivessem nos beneficiado e tivessem nos prejudicado, não teria me irritado com Jahantab”, acrescentou o marido, enquanto tomava conta das duas crianças mais velhas, de 6 e 3 anos.

Escritora cria prêmio para livros que omitam violência à mulher

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Violência contra a mulher (Rudyanto Wijaya/Getty Images/VEJA)

 

Fugir à realidade pode ser uma forma de deslealdade, em um momento em que as mulheres expõem os crimes de que são vítimas para suplantá-los

Maria Carolina Maia, na Veja

Desde o século XIX, a literatura se guia sobretudo pelo realismo — mesmo quando fantástica, ela deve parecer verossímil, e a verossimilhança é construída com traços tomados de empréstimo da realidade. Pois agora uma escritora e roteirista britânica quer premiar thrillers que omitam, em suas páginas, qualquer tipo de violência contra a mulher. Nenhuma personagem feminina deve apanhar, ser perseguida, explorada sexualmente, estuprada ou assassinada. Tema de denúncias que crescem nos últimos anos, a violência contra a mulher simplesmente não vai existir no universo do livros inscritos no Staunch Book Prize.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Bridget Lawless, a criadora da premiação, deu uma justificativa digna de Pollyanna para o seu recorte original. “Há tantos livros em que as mulheres são estupradas ou assassinadas para que um investigador ou herói possa exibir sua habilidade… Isso tudo é para que autores criem histórias que não precisem se apoiar em violência sexual. Não há outra história além dessa?”

Staunch, em inglês, significa algo como “leal”, “fiel”, “de confiança”. Fugir à realidade, porém, pode ser uma forma de deslealdade, em um momento em que as mulheres expõem os crimes de que são vítimas para suplantá-los.

O Staunch Book Prize é voltado para escritores de qualquer gênero — feminino ou masculino. O trabalho deve ser inscrito em inglês, mas traduções são aceitas, e o livro pode ter sido publicado até dezoito meses antes do encerramento das inscrições, marcado para 15 de julho — elas começam no dia 22 de fevereiro.

O prêmio, de 2 000 libras (8.800 reais pela cotação de hoje), será pago pela própria Bridget Lawless. O vencedor será anunciado em 25 de novembro.

A intrigante história real por trás de ‘Alias Grace’, série baseada no livro de Margaret Atwood

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 Divulgação/Netflix Sarah Gadon protagoniza a minissérie baseada em ‘Vulgo Grace’, romance de Margaret Atwood

Divulgação/Netflix
Sarah Gadon protagoniza a minissérie baseada em ‘Vulgo Grace’, romance de Margaret Atwood

Dois assassinatos. Dois culpados. Apenas um é salvo da forca — e como gênero e classe influenciaram o desfecho disso tudo

Caio Delcolli, no HuffpostBrasil

Ao chegar em casa após dois dias fora, o fazendeiro Thomas Kinnear estranhou a ausência de sua governanta Hannah Nancy Montgomery. Naquele mesmo dia, 30 de julho de 1843, ele foi assassinado com um tiro à queima-roupa, dado com uma arma de cano duplo. Montgomery fora morta algumas horas antes, com uma machadada na parte de trás da cabeça, ao ser estrangulada.

Os corpos foram escondidos no porão da casa; o de Montgomery foi desmembrado e colocado sob uma grande banheira. Todos os itens de valor com os dois foram levados, assim como vários outros da casa. No dia seguinte, os corpos foram descobertos — e os culpados também: James McDermott, 20, e Grace Marks, 16, ambos empregados de Kinnear, estavam em fuga para os Estados Unidos. A imprensa dizia que eles eram amantes.

Embora os dois tenham sido condenados à morte em julgamento, apenas o rapaz foi enforcado. O crime, ocorrido no município de Vaughan, no então chamado Canadá Superior — hoje a região é conhecida como o estado de Ontário —, continua a instigar curiosidade. Não se sabe exatamente o papel que Marks teve nos assassinatos, mas é certo que ela participou deles. A garota foi sentenciada à prisão perpétua. Por que o júri a permitiu viver? Ela matou ou não matou o patrão e a governanta?

Você pode tirar suas próprias conclusões ao ler Vulgo Grace (Alias Grace, no título original), romance de Margaret Atwood que aborda o caso, ou assistir à minissérie baseada nele, que estreia na Netflix nesta sexta-feira (3).

“Grace Marks recebeu clemência porque foi capaz de ganhar a simpatia de um júri todo masculino por meio da bem-sucedida performance de gênero que ela fez”, defende a historiadora canadense Ashley Banbury.

“Ela usou o cavalheirismo e o protecionismo do sistema legal do Canadá do século 19 ao colocar-se como uma mulher ‘digna’ da proteção da lei.”

Banbury, quando estudante de história na Universidade Mount Royal, em Calgary, Alberta, escreveu um dos poucos artigos acadêmicos sobre o caso de Marks. Publicado no periódico Mount Royal Undergraduate Humanities Review, o texto baseia-se nos transcritos do julgamento, reportagens de jornais da época e o diário de uma mulher que visitou a garota na prisão.

A historiadora disse em entrevista ao HuffPost Brasil que usou “um pouco de lente feminista” para fazer a análise.

O que tornou Marks “digna” foi encaixar-se no preceito da “mulher ideal” daquela época: “virtuosa, casta, subserviente, modesta, bela e respeitável”. Banbury, hoje estudante de Direito na Osgoode Hall Law School, Toronto, defende no artigo que fosse vítima ou acusada, a mulher naquele tempo era pressionada a provar aderência a essas características quando dentro de um tribunal colonial.

O sistema legal, por sua vez, tornava-se mais simpático às prisões em vez de penas de morte — era uma maneira de os homens que faziam parte dele mostrarem o quão progressistas eles eram. Sujeitar mulheres à forca iria contra o então movimento de tornar o Canadá um país mais civilizado.

Grace Marks, basicamente, usou o sistema patriarcal contra ele próprio para escapar da pena de morte.

Netflix/Divulgação Imigrante da Irlanda, Grace Marks teve um pai alcoólatra e abusivo (na imagem, Sarah Gadon em cena da adaptação para a TV).

Netflix/Divulgação
Imigrante da Irlanda, Grace Marks teve um pai alcoólatra e abusivo (na imagem, Sarah Gadon em cena da adaptação para a TV).

Na ocasião, as coisas não estavam boas para o lado dela: ela era uma imigrante irlandesa de apenas 16 anos que não tinha raízes no país ao qual chegara apenas quatro anos antes. Ela vinha de uma família de mais cinco irmãos, cujo pai era alcoólatra e abusivo; a mãe morrera no navio durante a viagem. O histórico dela de estabilidade em empregos deixava a desejar também. Quando Kinnear a contratou, tratava-se do quinto emprego dela. Marks trabalhava para ele há menos de um mês quando o patrão e a governanta foram assassinados.

“Ela se retratou não apenas como a mulher ideal, mas também como vítima das maquinações de McDermott, acusando-o de ser o mentor dos assassinatos”, conta Banbury.

Durante o julgamento, a garota chegou a contradizer a “feminilidade” que demonstrava ter, ao confessar que não impediu o colega de assassinar Montgomery. Marks relatou, por exemplo, que em uma mesma noite em que ela dividiria um quarto com a governanta, McDermott disse que mataria Montgomery durante o sono com um machado.

“Eu supliquei que ele não a matasse naquela noite, senão poderia me acertar em vez dela”, contou Marks.

Ela também disse: “Pelo amor de Deus, não a mate no quarto, você vai deixar o chão todo ensanguentado”.

Não houve objeção ao assassinato e tampouco houve tentativa de avisar Montgomery.

Apesar disso tudo, deu certo: Nem o fato de Montgomery estar grávida, como foi descoberto na autópsia, e possivelmente do patrão, fez a garota ser condenada à morte pelo tribunal.

McDermott, por sua vez, tentou convencer a todos de que era o “homem ideal” daquela época: heterossexual, respeitável, com laços na comunidade e posse de propriedades. No entanto, o tiro saiu pela culatra.

“A falta de simpatia do júri por ele também ajudou Marks a evitar a execução”, diz a historiadora.

“Quanto mais ele a culpava pelos assassinatos, mais a comunidade (e até o advogado de defesa dele!) o culpava não apenas pelas mortes, mas por ‘coagir’ Marks a envolver-se nelas.”

Toronto Public Library Retratos de Marks e McDermott feitos no julgamento.

Toronto Public Library
Retratos de Marks e McDermott feitos no julgamento.

O artigo da canadense levanta que historiadores tendem a discordar a respeito da performance de gênero de mulheres em tribunais na época colonial, tomados pelo pensamento patriarcal e protecionista.

Acreditava-se que o dever do homem era proteger as mulheres — e eles precisavam ser vistos como homens pela sociedade. Algumas mulheres se valeram disso para fazer o papel da “mulher ideal” ou da “vítima perfeita” e, assim, obter a proteção dos homens. Era uma maneira de elas afirmarem a demanda delas por justiça.

Outros historiadores, por outro lado, afirmam que a necessidade de desempenhar uma performance de gênero em julgamento significava que os tribunais não eram capazes de proteger a maioria das mulheres.

Por ter sido quase impossível para elas terem todas as rigorosas características da “mulher ideal”, os julgamentos pendiam para performances de gênero. Assim, verificava-se o quão próxima do ideal a mulher estava — o que poderia ter um papel-chave no veredito. Muitas não consideraram ter acesso à julgamentos justos.

Grace Marks foi vista fazendo isso. Vizinhos e testemunhas a apoiaram. Para eles, era simplesmente impossível que uma garota jovem, bonita, trabalhadora e respeitável fosse capaz de matar alguém.

Após a condenação, ela foi enviada à prisão Kingscon Penitentiary para cumprir a pena.

A história da garota não para por aí. Uma vez encarcerada, ela continua a intrigar e refletir o pensamento patriarcal, violento e contraditório que permeava a sociedade canadense.

Toronto Publica Library Capa do transcrito do julgamento de Grace Marks e James McDermott.

Toronto Publica Library
Capa do transcrito do julgamento de Grace Marks e James McDermott.

Em artigo no periódico Canadian Woman Studies, a socióloga Kathleen Kendall, da Universidade de Southampton, do Reino Unido, levanta que após oito anos e meio de encarceramento, Marks começou a apresentar sinais de loucura.

O humor dela passara a oscilar da euforia à quietude e apreensão; ela dizia ver diariamente figuras estranhas invadirem seu corpo e deixou de dormir à noite para procurá-las em seu quarto.

Marks foi transferida para o manicômio Provincial Lunatic Asylum, em Toronto, no qual passou os 16 anos seguintes. Aos 20 e poucos anos, ela se tornara um dos primeiros prisioneiros do Canadá a serem chamados de “criminosos loucos”.

Kendall, cuja linha de pesquisa aplica o ponto de vista da sociologia na medicina, diz no artigo que naquela época os “loucos” começaram a ser identificados como um grupo de pessoas moralmente repreensíveis, dignas de serem presas.

As prisioneiras viviam uma contradição. Acreditava-se que mulheres eram seres moralmente puros por nascença e criminosas tinham dentro de si tanto a pureza quanto a corrupção moral — elas eram inocentes e culpadas, boas e más.

Eram vistas, portanto, como mais corruptas do que homens, porque haviam violado uma suposta lei natural. Ou eram apenas vítimas das circunstâncias. Kendall argumenta que, se pertencesse ao primeiro grupo, uma mulher “não havia deixado a graça, estava além dela”, mas “se estivesse no segundo, a virtude iria permanecer [nela]”.

O resultado dessa ambiguidade era o tratamento tanto negligente quanto paternalista que as detentas recebiam dentro de um sistema que, em tese, tinha como principal objetivo moralizar os criminosos, vistos como imorais.

Depois do período no manicômio, Marks voltou à penitenciária, com seu mundo de punições físicas e rigorosa disciplina. Após um total de 30 anos de encarceramento, ela foi perdoada e liberada por bom comportamento.

Registros da Kingscon Penitentiary contém um diálogo com ela na ocasião da libertação:

“Pergunta: Na sua opinião, quais são os melhores meios para se regenerar criminosos?

Resposta: Tratamento gentil.

Pergunta: Você acredita que sua prisão lhe foi benéfica de um ponto de vista moral e religioso? E que agora você está mais qualificada para se sustentar do que antes de entrar na prisão?

Resposta: Duvido.”

Ela se mudou para Nova York e acredita-se que tenha vivido lá até a morte.
Grace Marks segundo Margaret Atwood

Publicado em 1996, Vulgo Grace é finalista do renomado prêmio Booker e considerada uma das principais obras da escritora canadense. Trata-se de uma abordagem ficcional do caso, embora esteja embasada em pesquisa feita pela autora.

O psiquiatra Dr. Simon Jordan, personagem criado por Atwood, entrevista Grace Marks para conhecer a história dela. Há várias suspeitas de que a garota seja louca, pois ela tem episódios de histeria e não consegue se lembrar dos acontecimentos relacionados às mortes de Thomas Kinnear e Nancy Montgomery. Talvez ela seja apenas insana e nem tenha assassinado os patrões, afinal. Este é o ponto de partida para a narrativa de Vulgo Grace se desenrolar.

Em outubro deste ano, o romance ganhou nova edição da Rocco, que publica no Brasil as obras de Atwood. Geni Hirata, tradutora do livro, afirma que se trata de uma obra de ficção não convencional.

“E apesar de ter levantado todas as informações sobre o caso e não ter contrariado nenhuma delas, Atwood não desvenda os mistérios e enigmas de um duplo assassinato, nem provém respostas factuais”, conta.

“Um aspecto recorrente em Vulgo Grace e em outras obras da autora é a extrema dificuldade em se descobrir o que realmente aconteceu em determinada ocasião. Na realidade, sua ficção reflete questões mais amplas da condição humana, o controle opressivo da sociedade, condições de extremo desespero e privação, e a opressão feminina.”

O trabalho faz parte de uma leva de novas edições de livros da autora com projeto gráfico de Laurindo Feliciano. Começou em janeiro deste ano com Dicas da Imensidão — coleção de contos até então inédita — e em junho continuou com o clássico O Conto da Aia. Em 2018, sairão novas edições de Oryx e Crake e O Ano do Dilúvio, os dois primeiros volumes da trilogia de ficção científica/distopia MaddAddam; o último volume, também chamado MaddAddam, será publicado próximo do fim do ano.

Laurindo Feliciano/Rocco Nova capa de 'Vulgo Grace', feita por Laurindo Feliciano para a Rocco.

Laurindo Feliciano/Rocco
Nova capa de ‘Vulgo Grace’, feita por Laurindo Feliciano para a Rocco.

Ao ler Vulgo Grace pela primeira vez ainda adolescente, a cineasta e atriz canadense Sarah Polley, indicada ao Oscar de melhor roteiro adaptado por Longe Dela (2007), já queria adaptar o romance para o cinema.

Vinte anos depois, em 2012, foi anunciada a sonhada adaptação para longa-metragem, mas no fim, tornou-se uma minissérie — dirigida por Mary Harron (Psicopata Americano), escrita por Polley e com Sarah Gadon (Indignação) no papel de Grace Marks. Exibida em setembro pela emissora canadense CBC, Alias Grace chega ao catálogo mundial da Netflix agora em novembro.

Coincidentemente, a estreia ocorre no mesmo ano em que The Handmaid’s Tale (Hulu), série baseada em O Conto da Aia, causou enorme alvoroço e venceu oito Emmys, tornando-se uma das produções mais premiadas da cerimônia (a série chega ao Brasil no início de 2018 pelo Paramount Channel). Wandering Wenda (CBC), desenho animado infantil baseado em outro livro de Atwood, também teve estreia neste ano.

É incontornável falar da obra da escritora sem mencionar sua tradição de sempre contar histórias com personagens femininas no mínimo incomuns. Segundo Polley, enquanto em O Conto da Aia Atwood imagina uma (extrema) possibilidade, em Vulgo Grace ela aborda o quão longe os direitos das mulheres já chegaram. A roteirista acredita que, hoje, vivemos um momento entre essas duas histórias.

George Pimentel via Getty Images Sarah Polley, Margaret Atwood e Sarah Gadon no Toronto International Film Festival.

George Pimentel via Getty Images
Sarah Polley, Margaret Atwood e Sarah Gadon no Toronto International Film Festival.

“Essas questões são urgentes e fico feliz por essas coisas da Margaret estarem no mundo dessa maneira”, disse em entrevista à CBC News.

A escritora já viu a minissérie e aprovou. Ela disse, também à CBC News, que os roteiros de Sarah Polley são “poderosos”.

“Devo dizer que me deu pesadelos terríveis. Não me refiro aos que você tem quando acordado — O Conto da Aia me dá esses. Quando eu estava dormindo, [Alias Grace] me deu pesadelos.”

Os dois primeiros episódios foram exibidos em setembro no Festival de Toronto. Os comentários que circulam pela internet, além de elogios da crítica especializada, indicam que bem como The Handmaid’s Tale, a minissérie traz questões contemporâneas — mas, desta vez, no século 19. Discriminação de imigrantes, aborto e luta de classes são algumas, segundo o New York Times.

Com seis episódios de uma hora de duração cada, Alias Grace também tem no elenco Zachary Levi, Rebecca Liddiard e David Cronenberg.

Nicholas Sparks: ‘Não escrevo só para mulheres’

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Nicholas Sparks comemora 20 anos de carreira e prepara novo livro Foto: JF Diorio/Estadão

Nicholas Sparks comemora 20 anos de carreira e prepara novo livro Foto: JF Diorio/Estadão

 

O escritor best-seller fala sobre seu novo livro, ‘Dois a Dois’

Publicado no Estadão

Nicholas Sparks ficou famoso em 1996 com O Caderno de Noah, um livro que o consagrou como autor “romântico” ainda que ele diga, nesta entrevista, que não escreve só para mulheres. Seu novo romance, Dois a Dois, é protagonizado por um pai e sua filha.

Com este 20º livro, lançado nos EUA em 2016, Sparks celebra os 20 anos de uma obra best-seller que transformou suas adaptações em blockbusters.

“É muito especial ter publicado 20 livros em 20 anos, um número redondo, muito bonito, que mostra que já tem um tempo que venho fazendo isso”, disse. Entre o primeiro livro e este, há muitas diferenças.

Em Dois a Dois (lançado no Brasil pela Arqueiro), há três elementos conhecidos de sua obra: o romantismo, a Carolina do Norte como cenário e o fato de que “as histórias sejam completamente diferente entre si”, diz.

Aos 32 anos, Russell Green, protagonista de Dois a Dois, tem tudo: uma mulher impressionante, uma filha adorável de 6 anos, uma carreira de sucesso como executivo da área de publicidade e uma grande casa em Charlotte. Vive um sonho e o casamento com Vivian é o centro de seu universo.

Mas começam a aparecer os problemas e Russ está prestes a presenciar uma guinada em sua vida. Em questão de meses, ele se vê sem trabalho e sem mulher e terá de lutar para se adaptar a uma nova e desconcertante realidade, embarcando em uma viagem aterrorizante que colocará a prova todas as suas habilidades e sentimentos.

“Eu queria escrever uma história entre um pai e uma filha e falar da dificuldade que todos temos em encontrar equilíbrio em nossa vida. Se temos uma carreira, uma parceira, filhos, amigos, não há tempo suficiente para fazermos tudo”, explica Sparks.

Uma história de adaptação e de superação em que ele também aborda os questões de gênero: “Muitas mulheres trabalham fora de casa, mas, pelo menos nos Estados Unidos, carregam a maior responsabilidade na criação dos filhos e nos afazeres domésticos. Não acredito que isto seja justo se os dois estão trabalhando, mas é a realidade”.

Sparks ressalta que seu interesse é em criar personagens e romances que deem a sensação de “veracidade e não de fantasia”, incluindo toda gama de sentimentos que “as pessoas experimentam”, porque geralmente “encontra a inspiração” em pessoas que conhece.

“Me interessa escrever o melhor livro que eu possa escrever em cada momento. A opinião dos meus leitores são as mais importantes para mim”, diz, e reconhece que a maioria de seus fãs é formada por mulheres.

Mas ele diz: “Não escrevo só para mulheres. Gosto de pensar que homens e mulheres podem ler meus livros, mas, por acaso, são mais mulheres”.

Sparks não para. Ele está terminando seu próximo livro e preparando o roteiro da adaptação cinematográfica de O Guardião. O projeto de adaptação de O Diário de Noah, ele conta, está “parado”.

7 livros de ficção científica escritos por mulheres que você já deveria conhecer

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 Montagem/Getty Elas mostram que esse gênero literário pode ser ainda mais rico e diverso do que você imaginava.

Montagem/Getty
Elas mostram que esse gênero literário pode ser ainda mais rico e diverso do que você imaginava.

Amauri Terto, no HuffpostBrasil

Pare o que você está fazendo agora e pense em três escritores de ficção científica.

Pensou? Pois bem, Isaac Asimov, Philip K. Dick e George Orwell provavelmente aparecem nesse breve exercício de memória. Isso traz a tona uma informação meio óbvia, mas que merece ser ressaltada: a literatura de ficção científica é um campo ainda dominado por homens. Em sua maioria, homens brancos com uma visão restrita de mundo.

Isso não significa que as mulheres estão fora desse área de atuação.

Pelo contrário, a história da literatura de ficção científica e de seus subgêneros (cyberpunk, space opera, distopia, viagem no tempo e invasão alienígena) é povoada por grandes escritoras, mulheres que pensaram outras realidades sob cenários surpreendentes e, por meio de suas narrativas, desencadearam reflexões sobre questões sociais como feminismo, política e religião.

Aqui estão 7 escritoras que se aventuraram com sucesso pela ficção científica. Com obras premiadas e carreiras consagradas, elas mostram que esse gênero literário pode ser ainda mais rico e diverso do que você imaginava:

1. Octavia E. Butler

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Montagem/Getty/Divulgação

Filha de uma empregada doméstica e um engraxate, a norte-americana Octavia Butler foi a primeira autora negra de ficção científica a ser reconhecida mundialmente. Ela escreveu contos, ensaios e 15 livros ao longo de sua carreira. Por eles, recebeu mais 20 indicações e diversos prêmios, incluindo Nebula e Hugo – duas das mais prestigiadas honrarias de ficção científica e fantasia.

Seu romance mais emblemático, Kindred, acaba de ser publicado no Brasil pela editora Morro Branco depois de 40 anos do lançamento original. A trama é sobre Dana, uma mulher negra que nos anos 70 vive sucessivos episódios de volta no tempo, para os EUA dos início do século 19. Questões de raça e gênero permeiam o livro que já vendeu mais de meio milhão de cópias e que tornou Octavia conhecida como a “Grande Dama da Ficção Científca”.

2. Charlotte Perkins Gilman

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Montagem/Getty/Divulgação

Charlotte Perkins Gilman (1860-1935) é uma escritora com obra consagrada, cujos livros trazem o feminismo como espinha dorsal. A obra mais conhecida norte-americana é O Papel de Parede Amarelo, título que se tornou leitura obrigatória em diversas escolas de Ensino Médio nos EUA. Mas aqui, vale ressaltar outro grande título de seu currículo: Herland – A Terra das Mulheres, lançado em 1915 no periódico The Forerunner, publicada Brasil pela editora Francisco Alves e encontrada hoje apenas em sebos.

Considerado uma “distopia feminista”, o livro conta a história de três rapazes americanos que fazem uma expedição a um país desconhecido (Herland, do título) composto apenas por mulheres e meninas há mais de 2000 anos. Com a imagem cristalizada do ideal de mulher que conheciam, eles se surpreendem com o que encontram nesse novo lugar. Nesse lugar, não há mais guerras e violência e a reprodução assexuada é o que regra as vidas.

3. Ayn Rand

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Montagem/Getty/Divulgação

Política, filosofia e o conceito de individualismo se entrelaçam na obra de Ayn Rand. Escritora russa de origem judaica, Ayn fugiu da Revolução Comunista de 1917 e se instalou nos Estados Unidos em 1926 onde construiu uma carreira de sucesso como escritora, dramaturga e roteirista.

Uma de suas obras mais célebres é A Nascente, que conta a história de Howard Roark, um jovem que se recusa a seguir os padrões de uma sociedade que não compreende seu modo independente de pensar e agir. Roark não abre mão de seus valores e longe da faculdade, acaba pagando um preço alto que envolve desemprego, pobreza e humilhação pública. A trama traz a tona uma ideia que a autora defendeu durante toda a sua trajetória: a de que o homem nasce livre e pode fazer o que desejar.

4. Mary Shelley

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Nascida em Londres, Mary Shelley (1797-1851) foi pioneira na ficção científica antes mesmo da consolidação do gênero literário com esse nome. Sua obra mais conhecida é Frankenstein, publicada em 1818 e adaptada incontáveis vezes para o teatro, cinema e televisão.

O livro conta a história de Victor Frankenstein, um jovem estudante de ciências naturais que, mexendo com tecidos mortos, descobre a fórmula da criação de um ser consciente. Essa descoberta dá origem à Criatura. Victor rejeita o ser que criou e recebe como retribuição o ódio da Criatura – que passa a aterrorizar todos os seus familiares. Frankenstein é a obra-prima de Mary, mas não o único título de sua carreira. Ela escreveu outros romances, livros de memórias e também colaborou com contos e ensaios para publicações como Keepsake e Westminster Review.

5. Suzanne Collins

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Nascida em 1962 em Connecticut, nos EUA, a escrita americana Suzanne Collins trabalhou como roteirista de diversos programa infantis antes de escrever Jogos Vorazes, título infanto-juvenil que se tornou fenômeno em todo o mundo no final dos anos 2000. A trama do livro se passa em um futuro distópico onde adolescentes são forçados a participar de um jogo de vida ou morte transmitido pela televisão.

A ideia para livro surgiu em um dia que Suzanne estava em frente à TV. Em um canal, ela viu um grupo de competidores de um reality show. No outro, imagens gravadas na Guerra do Iraque. A combinação dos dois temas recebeu ainda influência do mito de Teseu e o Minotauro. O resultado? Sucesso. Como se sabe, o título foi o primeiro de uma trilogia, adaptada posteriormente – e também com sucesso – para o cinema.

6. Ursula K. Le Guin

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No planeta Gethen, todos os habitantes são “ambissexuais”. Isso signifca que são todos ao mesmo tempo homens e mulheres. Não há gênero em Gethen e, consequentemente, não há também machismo. A manifestação biológica ocorre somente nos períodos de procriação, quando os todos podem escolher o sexo que vão assumir. Diferente de todos os habitantes, o protagonista Genly tem gênero definido e pode acasalar a qualquer momento. No contexto de Gethen, isso faz dele uma aberração.

Em linhas gerais, é essa trama de A Mão Esquerda da Escuridão, publicado em 1969 e considerado a obra-prima da escritora Ursula K. Le Guin. Hoje com 87 anos, a escritora foi a primeira mulher a conquistar os maiores prêmios da ficção científica (Hugo e Nebula). A obra vasta da norte americana reúne 21 romances, 12 livros de poesia, 13 títulos infantis, além de coletâneas de contos, críticas e roteiros.

7. Margareth Atwood

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Em um futuro próximo, os EUA vivem sob uma ditadura militar, uma teocracia. Os direitos das mulheres são retirados e elas são divididas entre férteis e inférteis. As férteis são mantidas na casa dos comandantes do governo, onde uma vez por mês são estupradas por eles. Essas mulheres agora precisam trazer novas vidas ao país, que passou a se chamar “Gilead”.

Temas atuais como a opressão sofrida pelas mulheres e o fundamentalismo cristão na política se combinam em O Conto de Aia, romance distópico de Margareth Atwood, lançado em 1985, que voltou aos holofotes neste ano após a premiada adaptação para a TV pelo serviço de streaming Hulu. Considerada um dos principais nomes da literatura contemporânea em língua inglesa, a canadense tem títulos reverenciados não só dentro da ficção científica. Margareth coleciona mais 50 livros no currículo, entre reunião de contos, poesias, títulos infantis e de não-ficção.

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