Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

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A intrigante história real por trás de ‘Alias Grace’, série baseada no livro de Margaret Atwood

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 Divulgação/Netflix Sarah Gadon protagoniza a minissérie baseada em ‘Vulgo Grace’, romance de Margaret Atwood

Divulgação/Netflix
Sarah Gadon protagoniza a minissérie baseada em ‘Vulgo Grace’, romance de Margaret Atwood

Dois assassinatos. Dois culpados. Apenas um é salvo da forca — e como gênero e classe influenciaram o desfecho disso tudo

Caio Delcolli, no HuffpostBrasil

Ao chegar em casa após dois dias fora, o fazendeiro Thomas Kinnear estranhou a ausência de sua governanta Hannah Nancy Montgomery. Naquele mesmo dia, 30 de julho de 1843, ele foi assassinado com um tiro à queima-roupa, dado com uma arma de cano duplo. Montgomery fora morta algumas horas antes, com uma machadada na parte de trás da cabeça, ao ser estrangulada.

Os corpos foram escondidos no porão da casa; o de Montgomery foi desmembrado e colocado sob uma grande banheira. Todos os itens de valor com os dois foram levados, assim como vários outros da casa. No dia seguinte, os corpos foram descobertos — e os culpados também: James McDermott, 20, e Grace Marks, 16, ambos empregados de Kinnear, estavam em fuga para os Estados Unidos. A imprensa dizia que eles eram amantes.

Embora os dois tenham sido condenados à morte em julgamento, apenas o rapaz foi enforcado. O crime, ocorrido no município de Vaughan, no então chamado Canadá Superior — hoje a região é conhecida como o estado de Ontário —, continua a instigar curiosidade. Não se sabe exatamente o papel que Marks teve nos assassinatos, mas é certo que ela participou deles. A garota foi sentenciada à prisão perpétua. Por que o júri a permitiu viver? Ela matou ou não matou o patrão e a governanta?

Você pode tirar suas próprias conclusões ao ler Vulgo Grace (Alias Grace, no título original), romance de Margaret Atwood que aborda o caso, ou assistir à minissérie baseada nele, que estreia na Netflix nesta sexta-feira (3).

“Grace Marks recebeu clemência porque foi capaz de ganhar a simpatia de um júri todo masculino por meio da bem-sucedida performance de gênero que ela fez”, defende a historiadora canadense Ashley Banbury.

“Ela usou o cavalheirismo e o protecionismo do sistema legal do Canadá do século 19 ao colocar-se como uma mulher ‘digna’ da proteção da lei.”

Banbury, quando estudante de história na Universidade Mount Royal, em Calgary, Alberta, escreveu um dos poucos artigos acadêmicos sobre o caso de Marks. Publicado no periódico Mount Royal Undergraduate Humanities Review, o texto baseia-se nos transcritos do julgamento, reportagens de jornais da época e o diário de uma mulher que visitou a garota na prisão.

A historiadora disse em entrevista ao HuffPost Brasil que usou “um pouco de lente feminista” para fazer a análise.

O que tornou Marks “digna” foi encaixar-se no preceito da “mulher ideal” daquela época: “virtuosa, casta, subserviente, modesta, bela e respeitável”. Banbury, hoje estudante de Direito na Osgoode Hall Law School, Toronto, defende no artigo que fosse vítima ou acusada, a mulher naquele tempo era pressionada a provar aderência a essas características quando dentro de um tribunal colonial.

O sistema legal, por sua vez, tornava-se mais simpático às prisões em vez de penas de morte — era uma maneira de os homens que faziam parte dele mostrarem o quão progressistas eles eram. Sujeitar mulheres à forca iria contra o então movimento de tornar o Canadá um país mais civilizado.

Grace Marks, basicamente, usou o sistema patriarcal contra ele próprio para escapar da pena de morte.

Netflix/Divulgação Imigrante da Irlanda, Grace Marks teve um pai alcoólatra e abusivo (na imagem, Sarah Gadon em cena da adaptação para a TV).

Netflix/Divulgação
Imigrante da Irlanda, Grace Marks teve um pai alcoólatra e abusivo (na imagem, Sarah Gadon em cena da adaptação para a TV).

Na ocasião, as coisas não estavam boas para o lado dela: ela era uma imigrante irlandesa de apenas 16 anos que não tinha raízes no país ao qual chegara apenas quatro anos antes. Ela vinha de uma família de mais cinco irmãos, cujo pai era alcoólatra e abusivo; a mãe morrera no navio durante a viagem. O histórico dela de estabilidade em empregos deixava a desejar também. Quando Kinnear a contratou, tratava-se do quinto emprego dela. Marks trabalhava para ele há menos de um mês quando o patrão e a governanta foram assassinados.

“Ela se retratou não apenas como a mulher ideal, mas também como vítima das maquinações de McDermott, acusando-o de ser o mentor dos assassinatos”, conta Banbury.

Durante o julgamento, a garota chegou a contradizer a “feminilidade” que demonstrava ter, ao confessar que não impediu o colega de assassinar Montgomery. Marks relatou, por exemplo, que em uma mesma noite em que ela dividiria um quarto com a governanta, McDermott disse que mataria Montgomery durante o sono com um machado.

“Eu supliquei que ele não a matasse naquela noite, senão poderia me acertar em vez dela”, contou Marks.

Ela também disse: “Pelo amor de Deus, não a mate no quarto, você vai deixar o chão todo ensanguentado”.

Não houve objeção ao assassinato e tampouco houve tentativa de avisar Montgomery.

Apesar disso tudo, deu certo: Nem o fato de Montgomery estar grávida, como foi descoberto na autópsia, e possivelmente do patrão, fez a garota ser condenada à morte pelo tribunal.

McDermott, por sua vez, tentou convencer a todos de que era o “homem ideal” daquela época: heterossexual, respeitável, com laços na comunidade e posse de propriedades. No entanto, o tiro saiu pela culatra.

“A falta de simpatia do júri por ele também ajudou Marks a evitar a execução”, diz a historiadora.

“Quanto mais ele a culpava pelos assassinatos, mais a comunidade (e até o advogado de defesa dele!) o culpava não apenas pelas mortes, mas por ‘coagir’ Marks a envolver-se nelas.”

Toronto Public Library Retratos de Marks e McDermott feitos no julgamento.

Toronto Public Library
Retratos de Marks e McDermott feitos no julgamento.

O artigo da canadense levanta que historiadores tendem a discordar a respeito da performance de gênero de mulheres em tribunais na época colonial, tomados pelo pensamento patriarcal e protecionista.

Acreditava-se que o dever do homem era proteger as mulheres — e eles precisavam ser vistos como homens pela sociedade. Algumas mulheres se valeram disso para fazer o papel da “mulher ideal” ou da “vítima perfeita” e, assim, obter a proteção dos homens. Era uma maneira de elas afirmarem a demanda delas por justiça.

Outros historiadores, por outro lado, afirmam que a necessidade de desempenhar uma performance de gênero em julgamento significava que os tribunais não eram capazes de proteger a maioria das mulheres.

Por ter sido quase impossível para elas terem todas as rigorosas características da “mulher ideal”, os julgamentos pendiam para performances de gênero. Assim, verificava-se o quão próxima do ideal a mulher estava — o que poderia ter um papel-chave no veredito. Muitas não consideraram ter acesso à julgamentos justos.

Grace Marks foi vista fazendo isso. Vizinhos e testemunhas a apoiaram. Para eles, era simplesmente impossível que uma garota jovem, bonita, trabalhadora e respeitável fosse capaz de matar alguém.

Após a condenação, ela foi enviada à prisão Kingscon Penitentiary para cumprir a pena.

A história da garota não para por aí. Uma vez encarcerada, ela continua a intrigar e refletir o pensamento patriarcal, violento e contraditório que permeava a sociedade canadense.

Toronto Publica Library Capa do transcrito do julgamento de Grace Marks e James McDermott.

Toronto Publica Library
Capa do transcrito do julgamento de Grace Marks e James McDermott.

Em artigo no periódico Canadian Woman Studies, a socióloga Kathleen Kendall, da Universidade de Southampton, do Reino Unido, levanta que após oito anos e meio de encarceramento, Marks começou a apresentar sinais de loucura.

O humor dela passara a oscilar da euforia à quietude e apreensão; ela dizia ver diariamente figuras estranhas invadirem seu corpo e deixou de dormir à noite para procurá-las em seu quarto.

Marks foi transferida para o manicômio Provincial Lunatic Asylum, em Toronto, no qual passou os 16 anos seguintes. Aos 20 e poucos anos, ela se tornara um dos primeiros prisioneiros do Canadá a serem chamados de “criminosos loucos”.

Kendall, cuja linha de pesquisa aplica o ponto de vista da sociologia na medicina, diz no artigo que naquela época os “loucos” começaram a ser identificados como um grupo de pessoas moralmente repreensíveis, dignas de serem presas.

As prisioneiras viviam uma contradição. Acreditava-se que mulheres eram seres moralmente puros por nascença e criminosas tinham dentro de si tanto a pureza quanto a corrupção moral — elas eram inocentes e culpadas, boas e más.

Eram vistas, portanto, como mais corruptas do que homens, porque haviam violado uma suposta lei natural. Ou eram apenas vítimas das circunstâncias. Kendall argumenta que, se pertencesse ao primeiro grupo, uma mulher “não havia deixado a graça, estava além dela”, mas “se estivesse no segundo, a virtude iria permanecer [nela]”.

O resultado dessa ambiguidade era o tratamento tanto negligente quanto paternalista que as detentas recebiam dentro de um sistema que, em tese, tinha como principal objetivo moralizar os criminosos, vistos como imorais.

Depois do período no manicômio, Marks voltou à penitenciária, com seu mundo de punições físicas e rigorosa disciplina. Após um total de 30 anos de encarceramento, ela foi perdoada e liberada por bom comportamento.

Registros da Kingscon Penitentiary contém um diálogo com ela na ocasião da libertação:

“Pergunta: Na sua opinião, quais são os melhores meios para se regenerar criminosos?

Resposta: Tratamento gentil.

Pergunta: Você acredita que sua prisão lhe foi benéfica de um ponto de vista moral e religioso? E que agora você está mais qualificada para se sustentar do que antes de entrar na prisão?

Resposta: Duvido.”

Ela se mudou para Nova York e acredita-se que tenha vivido lá até a morte.
Grace Marks segundo Margaret Atwood

Publicado em 1996, Vulgo Grace é finalista do renomado prêmio Booker e considerada uma das principais obras da escritora canadense. Trata-se de uma abordagem ficcional do caso, embora esteja embasada em pesquisa feita pela autora.

O psiquiatra Dr. Simon Jordan, personagem criado por Atwood, entrevista Grace Marks para conhecer a história dela. Há várias suspeitas de que a garota seja louca, pois ela tem episódios de histeria e não consegue se lembrar dos acontecimentos relacionados às mortes de Thomas Kinnear e Nancy Montgomery. Talvez ela seja apenas insana e nem tenha assassinado os patrões, afinal. Este é o ponto de partida para a narrativa de Vulgo Grace se desenrolar.

Em outubro deste ano, o romance ganhou nova edição da Rocco, que publica no Brasil as obras de Atwood. Geni Hirata, tradutora do livro, afirma que se trata de uma obra de ficção não convencional.

“E apesar de ter levantado todas as informações sobre o caso e não ter contrariado nenhuma delas, Atwood não desvenda os mistérios e enigmas de um duplo assassinato, nem provém respostas factuais”, conta.

“Um aspecto recorrente em Vulgo Grace e em outras obras da autora é a extrema dificuldade em se descobrir o que realmente aconteceu em determinada ocasião. Na realidade, sua ficção reflete questões mais amplas da condição humana, o controle opressivo da sociedade, condições de extremo desespero e privação, e a opressão feminina.”

O trabalho faz parte de uma leva de novas edições de livros da autora com projeto gráfico de Laurindo Feliciano. Começou em janeiro deste ano com Dicas da Imensidão — coleção de contos até então inédita — e em junho continuou com o clássico O Conto da Aia. Em 2018, sairão novas edições de Oryx e Crake e O Ano do Dilúvio, os dois primeiros volumes da trilogia de ficção científica/distopia MaddAddam; o último volume, também chamado MaddAddam, será publicado próximo do fim do ano.

Laurindo Feliciano/Rocco Nova capa de 'Vulgo Grace', feita por Laurindo Feliciano para a Rocco.

Laurindo Feliciano/Rocco
Nova capa de ‘Vulgo Grace’, feita por Laurindo Feliciano para a Rocco.

Ao ler Vulgo Grace pela primeira vez ainda adolescente, a cineasta e atriz canadense Sarah Polley, indicada ao Oscar de melhor roteiro adaptado por Longe Dela (2007), já queria adaptar o romance para o cinema.

Vinte anos depois, em 2012, foi anunciada a sonhada adaptação para longa-metragem, mas no fim, tornou-se uma minissérie — dirigida por Mary Harron (Psicopata Americano), escrita por Polley e com Sarah Gadon (Indignação) no papel de Grace Marks. Exibida em setembro pela emissora canadense CBC, Alias Grace chega ao catálogo mundial da Netflix agora em novembro.

Coincidentemente, a estreia ocorre no mesmo ano em que The Handmaid’s Tale (Hulu), série baseada em O Conto da Aia, causou enorme alvoroço e venceu oito Emmys, tornando-se uma das produções mais premiadas da cerimônia (a série chega ao Brasil no início de 2018 pelo Paramount Channel). Wandering Wenda (CBC), desenho animado infantil baseado em outro livro de Atwood, também teve estreia neste ano.

É incontornável falar da obra da escritora sem mencionar sua tradição de sempre contar histórias com personagens femininas no mínimo incomuns. Segundo Polley, enquanto em O Conto da Aia Atwood imagina uma (extrema) possibilidade, em Vulgo Grace ela aborda o quão longe os direitos das mulheres já chegaram. A roteirista acredita que, hoje, vivemos um momento entre essas duas histórias.

George Pimentel via Getty Images Sarah Polley, Margaret Atwood e Sarah Gadon no Toronto International Film Festival.

George Pimentel via Getty Images
Sarah Polley, Margaret Atwood e Sarah Gadon no Toronto International Film Festival.

“Essas questões são urgentes e fico feliz por essas coisas da Margaret estarem no mundo dessa maneira”, disse em entrevista à CBC News.

A escritora já viu a minissérie e aprovou. Ela disse, também à CBC News, que os roteiros de Sarah Polley são “poderosos”.

“Devo dizer que me deu pesadelos terríveis. Não me refiro aos que você tem quando acordado — O Conto da Aia me dá esses. Quando eu estava dormindo, [Alias Grace] me deu pesadelos.”

Os dois primeiros episódios foram exibidos em setembro no Festival de Toronto. Os comentários que circulam pela internet, além de elogios da crítica especializada, indicam que bem como The Handmaid’s Tale, a minissérie traz questões contemporâneas — mas, desta vez, no século 19. Discriminação de imigrantes, aborto e luta de classes são algumas, segundo o New York Times.

Com seis episódios de uma hora de duração cada, Alias Grace também tem no elenco Zachary Levi, Rebecca Liddiard e David Cronenberg.

Nicholas Sparks: ‘Não escrevo só para mulheres’

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Nicholas Sparks comemora 20 anos de carreira e prepara novo livro Foto: JF Diorio/Estadão

Nicholas Sparks comemora 20 anos de carreira e prepara novo livro Foto: JF Diorio/Estadão

 

O escritor best-seller fala sobre seu novo livro, ‘Dois a Dois’

Publicado no Estadão

Nicholas Sparks ficou famoso em 1996 com O Caderno de Noah, um livro que o consagrou como autor “romântico” ainda que ele diga, nesta entrevista, que não escreve só para mulheres. Seu novo romance, Dois a Dois, é protagonizado por um pai e sua filha.

Com este 20º livro, lançado nos EUA em 2016, Sparks celebra os 20 anos de uma obra best-seller que transformou suas adaptações em blockbusters.

“É muito especial ter publicado 20 livros em 20 anos, um número redondo, muito bonito, que mostra que já tem um tempo que venho fazendo isso”, disse. Entre o primeiro livro e este, há muitas diferenças.

Em Dois a Dois (lançado no Brasil pela Arqueiro), há três elementos conhecidos de sua obra: o romantismo, a Carolina do Norte como cenário e o fato de que “as histórias sejam completamente diferente entre si”, diz.

Aos 32 anos, Russell Green, protagonista de Dois a Dois, tem tudo: uma mulher impressionante, uma filha adorável de 6 anos, uma carreira de sucesso como executivo da área de publicidade e uma grande casa em Charlotte. Vive um sonho e o casamento com Vivian é o centro de seu universo.

Mas começam a aparecer os problemas e Russ está prestes a presenciar uma guinada em sua vida. Em questão de meses, ele se vê sem trabalho e sem mulher e terá de lutar para se adaptar a uma nova e desconcertante realidade, embarcando em uma viagem aterrorizante que colocará a prova todas as suas habilidades e sentimentos.

“Eu queria escrever uma história entre um pai e uma filha e falar da dificuldade que todos temos em encontrar equilíbrio em nossa vida. Se temos uma carreira, uma parceira, filhos, amigos, não há tempo suficiente para fazermos tudo”, explica Sparks.

Uma história de adaptação e de superação em que ele também aborda os questões de gênero: “Muitas mulheres trabalham fora de casa, mas, pelo menos nos Estados Unidos, carregam a maior responsabilidade na criação dos filhos e nos afazeres domésticos. Não acredito que isto seja justo se os dois estão trabalhando, mas é a realidade”.

Sparks ressalta que seu interesse é em criar personagens e romances que deem a sensação de “veracidade e não de fantasia”, incluindo toda gama de sentimentos que “as pessoas experimentam”, porque geralmente “encontra a inspiração” em pessoas que conhece.

“Me interessa escrever o melhor livro que eu possa escrever em cada momento. A opinião dos meus leitores são as mais importantes para mim”, diz, e reconhece que a maioria de seus fãs é formada por mulheres.

Mas ele diz: “Não escrevo só para mulheres. Gosto de pensar que homens e mulheres podem ler meus livros, mas, por acaso, são mais mulheres”.

Sparks não para. Ele está terminando seu próximo livro e preparando o roteiro da adaptação cinematográfica de O Guardião. O projeto de adaptação de O Diário de Noah, ele conta, está “parado”.

7 livros de ficção científica escritos por mulheres que você já deveria conhecer

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 Montagem/Getty Elas mostram que esse gênero literário pode ser ainda mais rico e diverso do que você imaginava.

Montagem/Getty
Elas mostram que esse gênero literário pode ser ainda mais rico e diverso do que você imaginava.

Amauri Terto, no HuffpostBrasil

Pare o que você está fazendo agora e pense em três escritores de ficção científica.

Pensou? Pois bem, Isaac Asimov, Philip K. Dick e George Orwell provavelmente aparecem nesse breve exercício de memória. Isso traz a tona uma informação meio óbvia, mas que merece ser ressaltada: a literatura de ficção científica é um campo ainda dominado por homens. Em sua maioria, homens brancos com uma visão restrita de mundo.

Isso não significa que as mulheres estão fora desse área de atuação.

Pelo contrário, a história da literatura de ficção científica e de seus subgêneros (cyberpunk, space opera, distopia, viagem no tempo e invasão alienígena) é povoada por grandes escritoras, mulheres que pensaram outras realidades sob cenários surpreendentes e, por meio de suas narrativas, desencadearam reflexões sobre questões sociais como feminismo, política e religião.

Aqui estão 7 escritoras que se aventuraram com sucesso pela ficção científica. Com obras premiadas e carreiras consagradas, elas mostram que esse gênero literário pode ser ainda mais rico e diverso do que você imaginava:

1. Octavia E. Butler

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Montagem/Getty/Divulgação

Filha de uma empregada doméstica e um engraxate, a norte-americana Octavia Butler foi a primeira autora negra de ficção científica a ser reconhecida mundialmente. Ela escreveu contos, ensaios e 15 livros ao longo de sua carreira. Por eles, recebeu mais 20 indicações e diversos prêmios, incluindo Nebula e Hugo – duas das mais prestigiadas honrarias de ficção científica e fantasia.

Seu romance mais emblemático, Kindred, acaba de ser publicado no Brasil pela editora Morro Branco depois de 40 anos do lançamento original. A trama é sobre Dana, uma mulher negra que nos anos 70 vive sucessivos episódios de volta no tempo, para os EUA dos início do século 19. Questões de raça e gênero permeiam o livro que já vendeu mais de meio milhão de cópias e que tornou Octavia conhecida como a “Grande Dama da Ficção Científca”.

2. Charlotte Perkins Gilman

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Charlotte Perkins Gilman (1860-1935) é uma escritora com obra consagrada, cujos livros trazem o feminismo como espinha dorsal. A obra mais conhecida norte-americana é O Papel de Parede Amarelo, título que se tornou leitura obrigatória em diversas escolas de Ensino Médio nos EUA. Mas aqui, vale ressaltar outro grande título de seu currículo: Herland – A Terra das Mulheres, lançado em 1915 no periódico The Forerunner, publicada Brasil pela editora Francisco Alves e encontrada hoje apenas em sebos.

Considerado uma “distopia feminista”, o livro conta a história de três rapazes americanos que fazem uma expedição a um país desconhecido (Herland, do título) composto apenas por mulheres e meninas há mais de 2000 anos. Com a imagem cristalizada do ideal de mulher que conheciam, eles se surpreendem com o que encontram nesse novo lugar. Nesse lugar, não há mais guerras e violência e a reprodução assexuada é o que regra as vidas.

3. Ayn Rand

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Política, filosofia e o conceito de individualismo se entrelaçam na obra de Ayn Rand. Escritora russa de origem judaica, Ayn fugiu da Revolução Comunista de 1917 e se instalou nos Estados Unidos em 1926 onde construiu uma carreira de sucesso como escritora, dramaturga e roteirista.

Uma de suas obras mais célebres é A Nascente, que conta a história de Howard Roark, um jovem que se recusa a seguir os padrões de uma sociedade que não compreende seu modo independente de pensar e agir. Roark não abre mão de seus valores e longe da faculdade, acaba pagando um preço alto que envolve desemprego, pobreza e humilhação pública. A trama traz a tona uma ideia que a autora defendeu durante toda a sua trajetória: a de que o homem nasce livre e pode fazer o que desejar.

4. Mary Shelley

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Nascida em Londres, Mary Shelley (1797-1851) foi pioneira na ficção científica antes mesmo da consolidação do gênero literário com esse nome. Sua obra mais conhecida é Frankenstein, publicada em 1818 e adaptada incontáveis vezes para o teatro, cinema e televisão.

O livro conta a história de Victor Frankenstein, um jovem estudante de ciências naturais que, mexendo com tecidos mortos, descobre a fórmula da criação de um ser consciente. Essa descoberta dá origem à Criatura. Victor rejeita o ser que criou e recebe como retribuição o ódio da Criatura – que passa a aterrorizar todos os seus familiares. Frankenstein é a obra-prima de Mary, mas não o único título de sua carreira. Ela escreveu outros romances, livros de memórias e também colaborou com contos e ensaios para publicações como Keepsake e Westminster Review.

5. Suzanne Collins

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Nascida em 1962 em Connecticut, nos EUA, a escrita americana Suzanne Collins trabalhou como roteirista de diversos programa infantis antes de escrever Jogos Vorazes, título infanto-juvenil que se tornou fenômeno em todo o mundo no final dos anos 2000. A trama do livro se passa em um futuro distópico onde adolescentes são forçados a participar de um jogo de vida ou morte transmitido pela televisão.

A ideia para livro surgiu em um dia que Suzanne estava em frente à TV. Em um canal, ela viu um grupo de competidores de um reality show. No outro, imagens gravadas na Guerra do Iraque. A combinação dos dois temas recebeu ainda influência do mito de Teseu e o Minotauro. O resultado? Sucesso. Como se sabe, o título foi o primeiro de uma trilogia, adaptada posteriormente – e também com sucesso – para o cinema.

6. Ursula K. Le Guin

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No planeta Gethen, todos os habitantes são “ambissexuais”. Isso signifca que são todos ao mesmo tempo homens e mulheres. Não há gênero em Gethen e, consequentemente, não há também machismo. A manifestação biológica ocorre somente nos períodos de procriação, quando os todos podem escolher o sexo que vão assumir. Diferente de todos os habitantes, o protagonista Genly tem gênero definido e pode acasalar a qualquer momento. No contexto de Gethen, isso faz dele uma aberração.

Em linhas gerais, é essa trama de A Mão Esquerda da Escuridão, publicado em 1969 e considerado a obra-prima da escritora Ursula K. Le Guin. Hoje com 87 anos, a escritora foi a primeira mulher a conquistar os maiores prêmios da ficção científica (Hugo e Nebula). A obra vasta da norte americana reúne 21 romances, 12 livros de poesia, 13 títulos infantis, além de coletâneas de contos, críticas e roteiros.

7. Margareth Atwood

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Em um futuro próximo, os EUA vivem sob uma ditadura militar, uma teocracia. Os direitos das mulheres são retirados e elas são divididas entre férteis e inférteis. As férteis são mantidas na casa dos comandantes do governo, onde uma vez por mês são estupradas por eles. Essas mulheres agora precisam trazer novas vidas ao país, que passou a se chamar “Gilead”.

Temas atuais como a opressão sofrida pelas mulheres e o fundamentalismo cristão na política se combinam em O Conto de Aia, romance distópico de Margareth Atwood, lançado em 1985, que voltou aos holofotes neste ano após a premiada adaptação para a TV pelo serviço de streaming Hulu. Considerada um dos principais nomes da literatura contemporânea em língua inglesa, a canadense tem títulos reverenciados não só dentro da ficção científica. Margareth coleciona mais 50 livros no currículo, entre reunião de contos, poesias, títulos infantis e de não-ficção.

Conheça seis livros e filmes que contam histórias de mulheres fortes

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ladygaga

Com o lançamento do documentário sobre Lady Gaga, “Five Foot Two”, reunimos outros títulos que contam a vida de personalidades incríveis

Bruna Sabarense, no Metrópoles

Gaga: Five Foot Two
O documentário sobre a vida da cantora Lady Gaga foi lançado na última sexta-feira (22/9), na plataforma Netflix. E conquistou fãs ao retratar a busca da artista em se apresentar ao mundo como uma mulher de 30 anos. O título é uma brincadeira com a altura da americana. Ela mede 5’22 pés, o equivalente a 1,57m. O filme mostra os passos da cantora, nascida Stefani Joanne Germanotta, entre a gravação do seu mais recente álbum, Joanne (2016), e a apresentação no Super Bowl 2017.

Chris Moukarbel, diretor da produção, aborda assuntos polêmicos, como depressão, drogas, rixa com a cantora Madonna, traumas e a doença que fez a celebridade cancelar sua participação no Rock in Rio. “Senti orgulho, tristeza, empoderamento, vulnerabilidade. Mas o que mais me conquistou foi a autenticidade do filme, da maneira que Chris, o diretor, escolheu mostrar meus piores momentos e meus pontos mais altos”, disse a cantora em seu Instagram.

Joan Didion: Center Will Not Hold
Logo depois de anunciar o documentário de Gaga, foi a vez da Netflix divulgar o lançamento de mais uma obra super esperada: um título sobre a vida da jornalista, roteirista e escritora Joan Didion. Ok, ainda não foi lançado, mas falta pouco – dia 27 de outubro. Didion ficou conhecida pelas obras The White Album (1979) e Slouching Toward (1968), vistas como grandes análises da cultura norte-americana. O documentário reúne entrevistas com Didion e o ator Griffin Dunne, além de revelações surpreendentes sobre os seus 50 anos de profissão.

“Vou fazê-lo porque, por incrível que pareça, ninguém, até hoje, fez um documentário sobre Joan Didion – e isso é um mistério!”, conta no trailer Griffin Dunne, sobrinho de Joan que se incumbiu de produzir, ao lado de Susanne Rostock, o primeiro filme sobre sua tia. “Ela provavelmente é a mais influente escritora americana viva hoje”.

What Happened – Hillary Rodham Clinton
Achou que está faltando uma interrogação no título do livro escrito por Hillary Clinton – batizado de “O que aconteceu”? Pois bem, não falta. É uma explicação do que deu errado, em 2016, quando a candidata perdeu a disputa presidenciável para Donald Trump. Na obra, Hillary não esconde o desprezo que sente pelo presidente americano – principalmente pelo seu machismo. Ela reconhece que Trump quebrou todas as regras durante a campanha e confessa que não superou a derrota nas eleições.

Clinton lamenta ter desiludido milhões de pessoas e garante que se as eleições fossem hoje agiria de forma diferente. Hillary também admite que escrever o livro não foi fácil e comenta os motivos que, acredita, a levaram a perder, principalmente pela suposta interferência russa.

Rita Lee — Uma Autobiografia
O livro ficou na seção best-sellers um bom tempo – mais de 200 mil cópias vendidas. Prestes a fazer 70 anos, a cantora soltou o verbo e contou tudo na autobiografia mais divertida, sincera e envolvente dos últimos tempos. A Rainha do Rock Nacional, como é conhecida, relembra os tempos de Mutantes e fala sobre episódios difíceis, como a prisão em 1976 e quando foi estuprada com uma chave de fenda na infância.

Revelações inusitadas não ficaram de fora do livro. Por exemplo, como nos anos 1970, “num daqueles momentos droguísticos”, foi resgatada por Hebe Camargo no meio da rua. Teve também uma vez que ela roubou as jiboias do astro do rock Alice Cooper, durante apresentação dele no Brasil, em 1974. A obra foi toda pensada pela própria autora: seleção e sequência das fotografias, legendas, capa e contracapa.

Quelé, a Voz da Cor — Biografia de Clementina de Jesus
Em 2017, completam-se 30 anos desde a morte da cantora Clementina de Jesus. Entre as homenagens estão uma biografia, um filme, uma peça de teatro, um DVD e o relançamento da discografia. O livro foi escrito a oito mãos por jovens jornalistas, três deles nascidos depois da morte da artista.

A publicação aborda a vida e a carreira da cantora de voz e interpretações singulares, nascida em 1901, neta de escravos e intérprete revelada só na velhice. Empregada doméstica, ela só ficou famosa após os 60 anos. Clementina de Jesus ajudou a popularizar no Brasil a cultura africana e o samba em plena na década de 1960, época em que as rádios estavam tomadas por canções da Jovem Guarda e da Bossa Nova.

Hebe – A biografia
Hebe Camargo é um dos grandes nomes da história da televisão brasileira. A estrela, que começou sua carreira cantando no rádio, foi convidada para a primeira transmissão ao vivo da televisão brasileira e nela ficou até sua última gravação, em 2012, sendo conhecida por sua irreverência e autenticidade.

Nesta biografia, o jornalista Artur Xexéo se dedica a contar toda a trajetória da apresentadora que marcou a história do rádio e da televisão no Brasil. Com depoimentos de artistas que acompanharam de perto a carreira de Hebe e relatos dos familiares, este livro vai encantar tanto aos fãs dessa mulher que deixou sua marca na TV brasileira e os aficionados pela história da televisão e do rádio.

7 livros de escritos por mulheres para ler ainda em 2017

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São livros fluídos, deliciosos e íntimos, como só uma mulher sabe fazer.

Daniela Kopsch, no HuffpostBrasil

A cada ano que passa me parece que os meses encurtam. Eu sinto muito informar, mas já estamos em setembro, quase dezembro o que significa que amanhã já é 2018. Sei que você não leu ainda todos os livros que gostaria e daqui a pouco vai começar a se culpar por ter desperdiçado tanto tempo lendo as minhas bobagens. Mas antes que isso aconteça, tenho algumas dicas de leitura que podem me redimir. São livros fluídos, deliciosos e íntimos, como só uma mulher sabe fazer. Foram os meus destaques de 2017. Espero que gostem.

1. Contos completos, Clarice Lispector

Este é um livro para morar na sua mesa de cabeceira e ter com ele um longo relacionamento íntimo. Os contos estão organizados em ordem cronológica, de forma que dá para perceber o desenvolvimento do estilo de Clarice ao longo do tempo. Curiosamente, os meus preferidos são os que ela escreveu ainda muito jovem: Viagem a Petrópolis e Feliz Aniversário.

2. O Conto da Aia, Margaret Atwood

Por que todo mundo está falando sobre o Conto de Aia? Porque a autora é um gênio. É maravilhoso que ela esteja finalmente ganhando destaque nas livrarias depois de ter o livro adaptado para a TV. Outro livro que deve bombar em breve é Alias Grace, que também vai virar série. Em resumo, ler tudo da Margaret Atwood é excelente objetivo de vida.

3. Resta um, Isabela Noronha

Isabela conta a história de uma mãe em busca de sua filha perdida. Acompanhamos o processo do luto-que-não-é-um-luto, a esperança que não morre nunca, tudo aquilo que a gente já sabe que é terrível, mas é ainda pior quando se olha de perto. O livro tem uma força de suspense muito poderosa. Grudei e não larguei mais.

4. Isso também vai passar, Milena Busquets

Este é um livro sobre luto, muito sincero e delicado. O título é a melhor sinopse. Apesar da dor inacreditável de perder a mãe, a personagem está passando o verão na praia, onde a acompanhamos viver um dia depois do outro e outro depois do outro…

5. Vida querida, Alice Munro

“Mestre contemporânea dos contos”, Alice Munro venceu o Nobel de Literatura em 2013. Particularmente, eu fico sempre surpresa com a habilidade dela em contar uma vida inteira dentro de um conto. E se ela não mostra, parece que mostrou, parece que você viu tudo. Vida querida tem uma grande parte autobiográfica, o que a diferencia dos outros livros da autora.

6. Operação impensável, Vanessa Barbara

O livro conta o breve curso de uma história de amor até a sua inevitável derrocada. O estilo levemente profundo e altamente irônico nos livros da Vanessa é o que a torna tão irresistível. Não é à toa que ela foi considerada pela revista Granta como um dos 20 melhores jovens escritores brasileiros. Para ler imediatamente.

7. Dias de abandono, Elena Ferrante

Elena Ferrante dominou o meu ano. Desde janeiro, eu li tudo o que ela escreveu e agora sinto um buraco no meu estômago, tenho fome de mais. Dias de Abandono é um de seus trabalhos mais elogiados e pode ser uma boa porta de entrada no universo da autora. Retrata a dor de uma separação com muita sinceridade, dor e alguma dose de humor. Vale também investir na série napolitana, formada por quatro livros: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida. Já são bem mais de sete livros nessa lista. Acho melhor me despedir. Boa leitura!

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