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7 motivos para ler João Ubaldo Ribeiro

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João Ubaldo Ribeiro morre aos 73 anos no Rio

Nathália Bottino, no Brasil Post

1 – Ele ganhou não um, mas dois prêmios Jabuti

O escritor ganhou o prêmio de melhor autor revelação, em 1972, com o romance Sargento Getúlio – segundo romance do autor. O livro é considerado uma obra prima e já foi traduzido para diversos idiomas. Já em 1985, o jornalista foi condecorado na categoria Melhor Romance do Ano, com a obra Viva o povo brasileiro. Apesar de ser baseado em fatos reais da história brasileira, como a ocupação portuguesa, trata-se de uma narrativa com personagens fictícios. Em cada momento da obra, um personagem se destaca e, mesmo sendo de núcleos diferentes, muitos deles interagem entre si.

2 – Ele também ganhou o Prêmio Camões

Não bastassem os dois Jabutis, João Ubaldo faturou o mais importante prêmio da literatura em língua portuguesa. Criado pelos governos do Brasil e de Portugal, a condecoração é atribuída aos autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa.

3 – Ele é elogiado pelos elogiados

De Luis Fernando Verissimo, escritor, a Antônio Torres, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, muitos autores reconhecem o talento de João Ubaldo. À GloboNews, Veríssimo disse: “talvez o mais brasileiro dos nossos escritores. Foi herdeiro do Jorge Amado, da baianice”.

4 – Ele era irônico e engraçado como poucos

“Jogar ovos, tomates e tortas na cara de autoridades e pomposos variados é comportamento relativamente comum nas democracias mais consolidadas, com exceção da americana, onde o pessoal prefere dar tiro mesmo.”
“Descrevo a masturbação feminina em alguns dos meus livros. Mas não sou eu ali masturbando todas elas. Só tem um dedo meu.”
“Recebo praticamente um convite por dia para participar de festas literárias. A última que recebi foi de uma cidadezinha perto da minha terra, Itaparica, no interior da Bahia. Não tenho nada contra essas festas, tenho contra minha participação nelas.”
“Se alguém chegasse para mim e dissesse que eu não poderia escrever mais, seria insuportável. Agora, já que ninguém me proíbe, não ando com muita pressa. Nem penso nisso.”

5- Ele entendia os brasileiros

Assim como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro buscou reinterpretar o Brasil por meio de suas obras. Viva o povo brasileiro, que é considerado um dos mais importantes romances da literatura nacional, volta às origens do Recôncavo Baiano para recriar quase quatro séculos da história do país por meio de múltiplos personagens. Em entrevista ao jornal O Globo, Marcos Vinicios Vilaça, ex-presidente da ABL, ressaltou o conhecimento da realidade do país por parte do escritor: “O João era um artista singular na vida cultural brasileira. Um valorizador da circunstância brasileira. Ele extraía do cenário brasileiro uma história com qualidade narrativa extraordinária. E não se pode pedir nada mais de um grande escritor.”

6- Ele transformou em livro o testemunho “caliente” de uma senhora

De acordo com João Ubaldo, A casa dos budas ditosos trata-se de uma história real. A tal de Valentina teria enviado um pacote com a transcrição de várias fitas contando suas peripécias sexuais ao longo da vida, com o intuito de ter sua história contada em um livro. Se é verdade ou apenas uma brincadeira do autor? Perto da riqueza narrativa do livro, isso pouco importa.

7- Ele também era querido pelos gringos

Fora do Brasil, João Ubaldo recebeu prêmios na Alemanha e Suíça (Anna Seghers e Die Blaue Brillenschlang, respectivamente). Além disso, seus livros foram traduzidos em 12 línguas, como o inglês, espanhol, finlandês, francês, hebraico e italiano.

Quem é o assassino? (ou por que ainda lemos romances policiais)

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Ainda hoje muitos de nós ainda lêem romances policiais. Mas você já parou para pensar por quê?

Dashiell Hammett, Sir Donan Coyle, Edgar Allan Poe e Agatha Christie.

Dashiell Hammett, Sir Donan Coyle, Edgar Allan Poe e Agatha Christie.

José Figueiredo, no Homo Literatus

É um fato inegável que o romance policial faz sucesso até hoje. Na verdade, se formos seguir a fundo, veremos que esse tipo de literatura – relegada a segunda por alguns – é base de toda a literatura (pós)-moderna, da alta à baixa, por onde poucos passaram sem ao menos serem arranhados por essa estrutura.

A questão persiste por de mais de dois séculos: por que o romance policial continua em voga?

A resposta pode estar no simples fato da sua estrutura: temos um crime – normalmente um assassinato, mas também pode ser um roubo – e o resto da trama se baseia em saber o quem, onde, quando, e, principalmente, por que (Talvez a maior inversão da qual tenho notícia dentro do romance policial seja A Louca de Maigret, onde o crime ainda não aconteceu e a vítima insiste em avisar o comissário Maigret que está prestes a ser morta – até isso inevitavelmente ocorrer).

Aqui se estabelece a estrutura dupla responsável por fazer a maioria de nós lermos mesmo sabendo, até certo ponto, onde tudo vai acabar. Temos duas tramas estabelecidas: a primeira sobre o crime e a trilha percorrida pelo(s) culpado(s) seguiu(ram) até praticar o ato; a segunda é a do investigador e as peripécias que ele passa para chegar. Ter um objetivo bem estabelecido, mesmo conhecido por parte do leitor, faz com que tenhamos um contrato de leitura com a narrativa, sabendo desde a partida aonde iremos chegar. O interessante, por vezes, não é saber quem, mas por quê. Conhecer os caminhos que levam uma pessoa a sair da linha cotidiana dos seus atos para cometer um delito é instigante, bem como saber qual caminho o investigador seguiu para chegar ao(s) culpado(s).

Nesse ponto, também podemos apontar o segundo trunfo do romance policial.

Normalmente, os investigadores desses crimes seguem caminhos diversos para chegar ao seu objetivo. Podemos criar categorias e subcategorias, ajustando por métodos, características etc. O fato, contudo, é que essas personagens ou o caminho narrado até chegar ao fim, por mais que a forma seja fixa, podem ser tão diversos que na maioria dos casos não conseguimos parar de ler.

Georges Simenon, criador do comissário Maigret.

Georges Simenon, criador do comissário Maigret.

Alguns exemplos sempre ajudam. Então, vai abaixo uma breve amostra de tipos e características.

Dostoiévski não foi o primeiro a fazer romance policial. Foi ele, porém, o primeiro a dar profundidade psicológica muito além do imaginado. Duas dessas obras funcionam na base de um crime e com a mesma estrutura – cada qual posta de uma forma diferente. Em Crime e Castigo, como o nome diz, temos um crime. O estudante Raskólnikov planeja (ou não) um assassinato e o comete. O caso é que as coisas acabam fugindo ao seu controle, tanto no momento do crime como depois. Vemos durante o resto da narrativa o crime de Raskólnikov ser investigado pela polícia até se chegar ao culpado. Já em Os Irmãos Karamazov, o crime acontece bem no centro da narrativa, deixando-nos quinhentas páginas em busca do culpado. Ao contrário do primeiro romance citado – no qual o onde, quando, como e por que é dado desde o início -, aqui temos uma construção de várias razões que levariam qualquer um dos personagens a cometer o assassinato, a ação em si e a subseqüente tentativa de resolução dos vários suspeitos. Devemos admitir que ambos os textos são muito mais profundos em comparação a uma simples narrativa, mas esse pano de fundo, ao convergir com outros pontos, acrescenta e se torna ponto central das tramas.

Não podemos falar de romance policial sem falar em Agatha Christie, a rainha do crime. Suas narrativas nunca foram muito longe do que Edgar Allan Poe e Sir Conan Doyle haviam feito até ali. O bigodudo Poirot tem um caso e usa de suas técnicas lógicas para resolver todo um caso apenas sentado em sua mesa, deixando a busca selvagem aos outros detetives da Scotland Yard esse método de “cães de caça”, segundo ele. Mesmo assim, a autora, ainda hoje, tem uma legião de fãs mundo afora que se sentem cativados pelos ares aristocráticos e rabugentos do detetive ao esquadrinhar tudo e todos até chegar ao culpado. Seja em Londres ou em Istambul, a curiosidade despertada por Agatha e Poirot é a mesma – e nós ficamos aqui, lendo sem fim seus romances.

O último caso desta rodada é o pai literário de Dan Brown: Umberto Eco e o seu O Nome da Rosa. Nada mais pós-moderno do que juntar o velho e o novo, a alta cultura com a baixa: aqui, por exemplo, temos o novo e desprezível romance policial com o velho e elevado romance histórico. Em meio à Idade Média, Eco, na época já um respeitado professor de Semiologia, mostra a busca de um frade franciscano e de um noviço ao autor de vários crimes dentro de uma abadia. Há quem diga que Eco criou toda a trama para poder matar alguns padres e acabam virando a cara ao romance. Muitos outros vieram depois dele, isso é fato – e Dan Brown é só o mais famoso dentre eles. Unindo o velho e o novo, a busca improvável em um cenário nada comum de crimes é a prova de que o gênero, embora tenha algo de kitsch, pode sempre se reinventar e continuar nos cativando.

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Poderíamos ter citado vários outros nomes, é verdade. De Poe a Simenon, passando por Raymond Chandler, Dashiell Hammet e Rubem Fonseca – para citar ao menos um autor nacional. O texto é curto e as possibilidades, infinitas. Então, sobra a nós leitores nos divertirmos em meio às tramas cativantes que o romance policial tem a nos oferecer.

Os 7 narradores menos-confiáveis da Literatura Mundial

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LOLITA - FILM

Lorena Robinson, no Literatortura

No papel de leitores ou autores, nossos primeiros contatos com a literatura sedimentam-se na arte (inicialmente simples, mas regrada) da narrativa. Aprendemos no bê-á-bá os elementos estruturais necessários para uma narração completa, dinâmica e informativa; e descobrimos, talvez, que o principal para pôr tais conhecimentos em prática consiste na materialização formal de uma prática rotineira: contar e repetir histórias.

Uma familiaridade inevitável surge do nosso papel de ouvinte ávido e curioso: acostumados a sermos aves de rapina sedentas de (e que exigem) informações completas, somos críticos odiosos de brechas e furos até no mais simples dos boatos. Natural que, construindo nossa primeira narrativa, tenhamos ouvido na cabeça perguntas que faríamos se estivéssemos na posição de leitores (ou ouvintes): o que aconteceu? quando aconteceu? onde aconteceu? como aconteceu? por quê? quem estava lá?

Tempo, espaço, personagens, enredo, clímax… Todos os elementos organizados e conduzidos por uma figura muito, muito importante.

Você mesmo (ou ele?). O narrador.

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Primeira pessoa ou terceira pessoa. Onisciente, personagem ou observador. Independente do tipo, conhecemos como um personagem – que pode ou não fazer parte da história que está prestes a narrar – responsável por quebrar a “quarta parede” para o leitor: é ele quem expõe o mundo ficcional, assim como todos os elementos necessários, segundo o autor, para que se compreenda plenamente a história narrada. O narrador existe no mundo ficcional, mas, de certa forma, reconhece e direciona a audiência para contar a história desejada ou expor seus elementos contextuais – deixando que outras personagens desenvolvam a narrativa. O narrador mais simples e direto é conhecido como a entidade onisciente e imparcial; conta e só, geralmente não chegando a participar dos acontecimentos registrados. No entanto, um narrador que seja também um personagem atuante, protagonista de sua própria história (narrador autodiegético) ou não (narrador homodiegético), possuirá particularidades. Um personagem, por definição, é uma pessoa ficcional, com perfil e personalidade características que serão colocadas a dispor do desenvolvimento e enriquecimento da obra. Um personagem atuante que seja narrador, além de trazer consigo a bagagem de sua personalidade, trará, provavelmente, uma boa dose de parcialidade. O estilo narrativo acentuará suas características e preferências, portando o diferencial-chave desse tipo de narração: um ponto de vista.

Um narrador com particularidades pode escolher quais acontecimentos narrar e quais ignorar. Pode escolher como narrá-los. Pode despejar uma série de juízos de valor sobre as demais personagens. Um narrador-personagem discorrerá sobre o mundo através de suas perspectivas únicas – pois uma história nunca será a mesma quando contada por bocas diferentes. Histórias são moldadas por peculiaridades individuais.

E se o narrador-personagem em questão ostentar uma moral duvidosa, uma mente insana ou um prazer sádico? Será que ele pode omitir, conduzir, manipular ou mentir para o leitor?

O nosso narrador, no entanto, pode ser completamente anônimo. Pode soar como a clássica voz a descrever ambientes e situações da história; pode ser nosso narrador onisciente e imparcial. Entretanto, ser onisciente não significa partilhar sua onisciência: narradores em terceira pessoa podem ser igualmente argutos. O mecanismo sutil de narrar a história sobre uma perspectiva, ao mesmo tempo em que a camuflando elegantemente, é capaz de surpreender até o mais detalhista dos leitores. O narrador onisciente pode ser seletivo, conduzindo a história de modo a influenciar o leitor tanto com uma opinião quanto sobre os próprios fatos. O narrador onisciente seletivo se abstém, de modo a não comprometer o suspense ou a reviravolta estapafúrdia prometida para o fim da trama. A surpresa é sincera quando chegamos ao final de um livro ao modo Agatha Christie e torcemos o nariz pensando: oras, ele sabia disto o tempo todo.

Seja por malevolência, insanidade ou como um mecanismo para direcionar e conduzir a obra, é certo dizer que um narrador não confiável capaz de provocar uma experiência única em um texto. Um autor com desenvoltura para construção de personagens intrigantes e complexos pode aproveitar-se desse tipo de narração para explorar o subconsciente e os lados da mente do personagem mais interessante – expondo-o ao fazê-lo contar uma história a seu próprio modo. Assim como pode usar a narração como um treinamento eficaz de escrita: analisando um texto narrado em terceira pessoa, como seria a mesma história narrada por algum personagem da trama?

Explorar a vivacidade independente de um personagem é útil e interessante tanto para o leitor quanto para o autor; e podemos certamente considerar esse artifício como enriquecedor e diferenciador de qualquer história.

Quando você se der conta de quanto foi enganado; quando descartar o pressuposto de que todo narrador provavelmente está contando a verdade… Pode se encontrar intrigado e – por que não? – divertido por uma narrativa peculiar, engenhosa e brilhantemente diferente.

Conheça, então, alguns dos narradores menos confiáveis da literatura. E, lógico, comente quais, na sua opinião, estão faltando.

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1. Humbert Humbert em Lolita, de Vladimir Nabokov
A esmerada e graciosamente fluída narração em Lolita pode ter sido o elemento-chave para tornar o livro o maior sucesso do russo Vladimir Nabokov e a consagrá-lo como um clássico da literatura. A obra polêmica, inicialmente rejeitada por diversas editoras, possui um enredo direto: um professor de poesia de meia-idade, cínico e irreverente, conta a história de seu caso de amor obsessivo com Dolores Haze (Lolita), uma menina de apenas 12 anos.

Humbert Humbert possuía tão absurda inclinação para a manipulação e omissão que sua narrativa sobre seu caso de evidente pedofilia virou, aos olhos de uns (ou de muitos), um curioso caso de amor. “Um relato apaixonado”, dizem. Em alguns pontos do livro somos conduzidos a achar que Lolita o seduziu; em outros que ela retribuía o amor compulsivo de Humbert em alguma escala. Perdidos na narrativa envolvente de Nabokov, negligenciamos os elementos que apontam para o mau-caratismo de Humbert (como o fato de ele ter sido preso por conta de seu envolvimento com Dolores e o fato de ter se aproximado da mãe dela só para passar mais tempo com a menina), tal como pequenas passagens em que ele alega ter uma “memória fotográfica” para páginas depois afirmar que possuía uma memória falha e traiçoeira.

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2. O Narrador em Clube da Luta, de Chuck Palahniuk
O Narrador da obra mais marcante do norte-americano Chuck Palahniuk é conhecido exatamente assim, como “o Narrador”, pelo simples fato de seu nome não ser dito em um único momento ao longo de toda a obra.

Narrado pelo protagonista (ou um dos), em 1ª pessoa, são expostos ao leitor alguns fatos ou detalhes que poderiam tirar o crédito do Narrador como condutor de uma história. Além de frequentar assiduamente grupos de apoio (para causas em que ele não precisa de apoio algum), nosso personagem é atormentado por uma terrível insônia – que pode o levar a dormir em um lugar e acordar em outro completamente diferente, sem qualquer lembrança do ocorrido. Evitando estragar uma das surpresas literárias mais esmagadoramente deliciosas, basta dizer que O Narrador é certamente um dos menos confiáveis da literatura, e é justamente isso que torna a leitura tão prazerosa e antológica.

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3. Holden Caulfield em O apanhador no campo de centeio, de J.D Salinger

“Sou o maior mentiroso que você já viu na vida. É terrível. Se vou até a esquina comprar uma revista e alguém me pergunta onde estou indo, sou capaz de dizer que vou a ópera.”

Brevemente, a história de Holden narra sua iminente entrega a traumas emocionais. Mas, obviamente, isso não é dito ao leitor ao longo de sua narrativa. Holden não só omite como mente ao dizer, em momentos da história, como ele supostamente estava se sentindo. Outro fator marcante é que reconhecemos que não podemos levar a sério ou confiar na maioria das coisas que ele diz: em um momento ele difere acusações sobre a indústria cinematográfica, em outro ele está recomendando seu filme favorito.

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5. Eva em Precisamos falar sobre Kevin, de Lionel Shriver
A obra de Lionel Shriver foi levada aos cinemas por Lynne Ramsay em 2011, e podemos dizer que, no longa, algumas características de Eva subentendidas no livro foram mais claramente acentuadas. Carregado de uma atmosfera obsessiva e sombria, registra e reflete a personalidade da narradora – que, também no filme, apresenta os acontecimentos sob seu ponto de vista, em uma experiência profunda e introspectiva. Em alguns momentos, no entanto, chegamos a duvidar dos fatos narrados por Eva, ou, pelo menos, em sua acurácia narrativa. Sentimos um leve desconforto e estranhamento quando Eva insiste na malevolência de seu filho, mesmo ainda tão jovem, como se exagerasse as situações para, posteriormente, livrar-se de qualquer culpa. Também é ligeiramente curioso seu marido ser tão cego em relação ao comportamento de Kevin que ela evidencia – talvez, porque, alguns acontecimentos foram moldados por seu ponto de vista (visto que Eva escreve após o grande feito de Kevin).

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6. Bentinho em Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Todos nós, enquanto estudantes, já lemos ou ouvimos falar em Dom Casmurro, obra pertencente à “trilogia realista” do nosso célebre Machado de Assis. O enredo, portanto, não deve ser uma surpresa: Bentinho, o narrador-personagem e protagonista, conta a história de sua vida; dos pormenores da infância até o presente em que está escrevendo o livro. Nas reminiscências de sua juventude, conhecemos Capitu, nossa moça dos famosos olhos de ressaca; de cigana oblíqua e dissimulada. Conhecendo-se desde crianças, Bentinho e Capitu enlaçam uma história de amor marcada, por parte do nosso protagonista, por fortes doses de ciúmes e inseguranças. Apresentando um comportamento quase psicótico agravado por suas crises de ciúmes, fica claro que a narrativa de Bento é tendenciosa, permeada por suas fortes emoções e fruto de uma mente insegura e conturbada. Não é à toa que uma dúvida antológica ecoou nas gerações de leitores desde 1899: Capitu traiu ou não Bentinho?

Fica evidente que a questão só poderia ser esclarecida se Dom Casmurro tivesse sido narrado por um personagem mais imparcial e confiável; e é essa a grande marca da obra.

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6. Huckleberry Finn em As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain
A narrativa de Finn é ameaçada e marcada por seu mau-caratismo, seu cinismo e sua irreverência – fazendo dele um dos narradores pouco confiáveis mais famosos. No primeiríssimo capítulo, além de quebrar a “quarta parede” dirigindo-se à audiência e ao próprio autor, ele questiona a sinceridade do livro anterior e (é claro) desse próprio.

“Você não me conhece a menos que tenha lido um livro chamado As Aventuras de Tom Sawyer; mas não importa. Aquele livro foi escrito por Mark Twain, e ele contava essencialmente a verdade. Algumas coisas ele exagerou, mas no geral ele disse a verdade. Isso não é nada. Eu não conheço ninguém que nunca tenha mentido uma vez ou outra, a não ser a Tia Polly, ou a viúva, ou talvez Mary. Tudo sobre a Tia Polly – ela é a tia do Tom – a Mary, e a Viúva Douglas, está escrito naquele livro, que é principalmente um livro que diz a verdade, com alguns exageros, como eu disse antes.”

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7. Kvothe em O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss
Com a história de Patrick Rothfuss, temos um interessante caso de narrador não confiável.

A história da trilogia é narrada em primeira pessoa por Kvothe, que decide relembrar e registrar, pela primeira vez, a história da sua vida e os acontecimentos que o tornaram uma lenda de seu próprio tempo. Ao longo do livro percebemos que Kvothe, ao menos em sua adolescência, tinha um ego notável: gostava de ser reconhecido, e não havia modéstia que impedisse a vontade de ter pessoas repetindo seu nome e contando histórias sobre ele, a ponto de ele próprio espalhar boatos absurdos sobre si. Além da possibilidade do orgulho de Kvothe ter modificado alguns acontecimentos narrados, sabemos que Kvothe está longe de ser imparcial. Temos, inclusive, algumas dicas de que seu depoimento não é inteiramente confiável; como quando outro personagem afirma que Denna, moça adorada por Kvothe, não era tão bonita quanto ele fazia parecer.

Jornalistas chineses deverão passar por teste ideológico para o exercício da profissão

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Jornalistas da agência estatal de notícias Xinhua: testes para comprovar unidade ideológica

Jornalistas da agência estatal de notícias Xinhua: testes para comprovar unidade ideológica

Simone Pieranni, no Il manifesto Beijing [via Revista Samuel]

Para trabalhar como jornalista na China é necessário ter uma espécie de carteirinha, mas muitos o fazem mesmo sem tê-la. A partir de agora isso não será mais um problema. Estão previstos para o início deste ano os novos testes elaborados pelos gênios do mal do Escritório de Propaganda do Partido Comunista. São testes “ideológicos”, frutos de um volume de 700 páginas (“Material preparatório para redatores e jornalistas”) que os repórteres chineses e aspirantes terão que estudar. Estão previstas também aulas e sessões de estudo, inclusive com exigência de frequência, mas muitos já preveem doenças ou licenças que lhes impossibilitarão a presença.

Os testes, no entanto, serão fundamentais para o exercício da profissão. Segundo algumas pessoas que desabafaram no Weibo, o Twitter chinês, ou deram entrevistas anônimas a publicações internacionais, poderia se tratar de um experimento único, que não seria repetido no futuro. Mas é certamente uma novidade relevante, mesmo que grotesca, a ser interpretada no contexto da estratégia do presidente Xi Jinping de reunir em torno do partido todas as forças possíveis, garantindo uma unidade ideológica.

Teste de marxismo
O que significa “socialismo com características chinesas”, ou o que Xi Jinping quer dizer com “sonho chinês”? São algumas das perguntas a que os jornalistas deverão dar a resposta correta. O manual especifica que, para que se possa informar o público adequadamente, é necessário conhecer os fundamentos da política ideológica do partido, evitando assim desinformar através de notícias e artigos que estejam fora dos cânones prescritos. Fazer jornalismo na China não é simples: frequentemente os repórteres locais se defrontam com temas considerados “sensíveis” ou com o “diktat” dos membros da Propaganda, que mantém uma representação em cada redação (um famoso jornalista da Xinhua, a agência oficial de imprensa da China, é um conhecido escritor de ficção científica: escreve as notícias obrigatórias, e depois as eleva em contos de ficção cientifica).

Com relação à presença do partido nas redações, há pouco mais de um ano o confronto entre redatores e o representante da Propaganda em um conhecido jornal diário no sul da China foi o estopim de uma clamorosa greve, comentada inclusive na mídia internacional. E a propósito de jornalistas e publicações estrangeiras, o manual do perfeito jornalista chinês se distancia do modo de conceber notícias no resto do mundo, especificando que existem diferenças, mas que “há muita variedade com relação à modernização, portanto é normal que entre Oriente e Ocidente existam algumas diferenças, mas ‘modernização’ não quer dizer ‘ocidentalização’. E certamente ‘ocidentalização’ não pode ser entendida como ‘americanização’”. Que fique bem claro.

Jornalistas estrangeiros
Foi justamente com relação à mídia ocidental na China que, no final do ano passado,  instalou-se uma polêmica feroz, depois que os repórteres do “New York Times” e da agência Bloomberg denunciaram que seus vistos não tinham sido renovados. Os dois veículos deram a entender que estavam na mira do Partido Comunista após terem publicado reportagens sobre a riqueza dos políticos locais. Suspeitava-se inclusive que muitos dos jornalistas acabariam expulsos. Não por acaso, naqueles dias de incerteza sobre os vistos, o “Global Times” (jornal chinês de língua inglesa), filhote do oficialíssimo “Cotidiano do Povo”, disparou contra a mídia estrangeira em um editorial: “As autoridades chinesas não cumprem seu dever se permitem que a mídia ocidental trabalhe na China sem controle. A segurança das informações é uma das principais preocupações do país. A China está disposta a comunicar-se com o mundo, mas não renunciará à própria definição de seus direitos em razão da mídia ocidental”.

No fim, tudo resolvido: tanto o “New York Times” quanto a Bloomberg obtiveram os vistos e até hoje a única jornalista expulsa do país nos últimos anos foi Melissa Chan, repórter da rede Al Jazeera – seu visto não foi renovado após ela ter realizado uma reportagem televisiva sobre as “black jail”, centros onde os chamados “peticionistas”, pessoas que vêm das províncias para pedir justiça ao Partido Comunista de Pequim, são detidos ilegalmente. Durante os dias em que não havia certeza sobre a renovação dos vistos aos jornalistas do “New York Times”, Thomas Friedman, editorialista do jornal, escreveu uma “carta aberta” a Xi Jinping exortando-o a mudar de estratégia: “Acredito que vocês irão cometer um erro terrível se decidirem expulsar todos os nossos correspondentes da China. Caso isso aconteça, posso dizer exatamente o que acontecerá: serão instituídos escritórios em Hong Kong, Taiwan e Coreia do Sul, que não farão outra coisa senão passar um pente fino em todos os documentos financeiros, sem a possibilidade de equilibrar suas matérias viajando pela China, encontrando e ouvindo o povo chinês cara a cara, e reportando com nuances outras questões. Além disso, seríamos obrigados a banir também os jornalistas chineses. Não deixaremos que vocês gozem da nossa abertura enquanto nós somos amordaçados”. A pergunta é o que pensa sobre isso a agência Bloomberg, que chegou a censurar reportagens sobre os bilhões dos políticos chineses para não sofrer sanções da parte de Beijing. (mais…)

Editor de ‘Harry Potter’ quer publicar livro de escritor ‘mascarado’ brasileiro

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O editor britânico que descobriu Harry Potter, dando à então escritora desconhecida J.K. Rowling a chance de finalmente publicar a primeira obra da saga que vendeu 400 milhões de cópias em todo o mundo, quer publicar o livro de um escritor brasileiro anônimo que vem divulgando partes de sua obra pela internet.

Fernanda Nidecker, na BBC Brasil

ilustração do livro de Dark Writer | Divulgação

Leitores contribuem ativamente criando ilustrações para o livro do autor mascarado

Barry Cunningham, antigo editor da Bloomsbury, disse à BBC Brasil que quer ser o “mentor” do autor misterioso, que não revela seu nome, idade ou gênero ao seu público virtual e carrega apenas o pseudônimo de Dark Writer.

Em seus perfis no Facebook e no Twitter e no site DarkWriterProject, o escritor aparece com uma máscara que ganhou do designer de joias japonês Joji Kojima, que confeccionou máscaras para a cantora Lady Gaga.

“Eu li o primeiro capítulo em inglês pelo Twitter e vi logo que ele tinha talento, mas que precisava aprimorar a estrutura da narrativa”, diz Cunningham, que mantém contatos frequentes com Dark para discutir sobre os avanços do livro de estreia do autor, que deve ter vinte capítulos.

O editor o compara a um “trovador moderno” que tem mostrado que os livros não têm apenas de viver em prateleiras empoeiradas, mas podem florescer no espaço virtual.

“Dark Writer é um dos precursores e um dos melhores escritores até agora a abrir caminho para que suas histórias cresçam online com uma interação direta com seu público”, afirma Cunningham, que hoje comanda a editora Chicken House, que publica a série Túneis, sucesso no Brasil entre o público infanto juvenil.

Dark Writer | Divulgação

Autor ganhou máscara de Joji Kojima, designer de Lady Gaga

Em entrevista à BBC Brasil, Dark Writer explicou que a escolha pelo anonimato foi motivada por uma mistura de timidez e a vontade de brincar com a imaginação das pessoas.

“Fiquei com vontade de ver como reagiriam ao ler algo de alguém que não sabem se é jovem, velho, homem ou mulher”, diz.

“Acho que os leitores muitas vezes se preocupam demais com quem escreveu o livro, em vez de simplesmente mergulhar na história.”

Criaturas medonhas

No livro, Dark Writer conta a história de Mary, uma jovem britânica de 16 anos que durante um ano muito conturbado para todo planeta parte de férias com os pais.

Após vários contratempos que retardam a viagem de verão, entre os quais a queda de um meteorito que levou a torre do Big Ben ao chão, uma forte luz surge na estrada e vira a vida da garota de cabeça para baixo.

Quando abre os olhos, Mary está em um ambiente completamente diferente e não vê seus pais. Ela carrega um estranho medalhão de prata no pescoço e tem de enfrentar criaturas medonhas.

A inspiração para a trama vem da infância, quando Dark gostava de criar mundos alternativos e escrevia pequenos contos usando amigos da escola como personagens.

O primeiro capítulo foi postado em 2010 no Orkut, onde o autor começou a atrair leitores enviando pedidos de amizade com a pergunta “Quer participar da criação de um livro?”

Em 2011 migrou para o Twitter e para o Facebook, onde continuou conquistando adeptos com convites enviados por perfis dos personagens da trama.

A personagem Mary e os demônios | Divulgação

Livro conta a história da jovem Mary, que vive atormentada por criaturas medonhas

Dark chegou a publicar nove capítulos no Twitter e lembra que a grande virada veio quando uma fã brasileira traduziu o primeiro capítulo para o inglês, popularizando a história entre leitores de vários países.

Entre os novos seguidores que adquiriu nas redes sociais – hoje são mais de nove mil -, estava Barry Cunningham.

“Começamos a trocar mensagens em que ele me dava conselhos, até que veio o convite para um café em Londres. Cheguei em janeiro deste ano já de mudança”, conta.

Leitores participativos

Dark considera imprescindível estar na Grã-Bretanha para buscar inspiração para caracterizar melhor seus personagens e retratar de forma mais fiel o cenário onde passa a história.

Para isso, ele conta com o apoio dos leitores, que participam ativamente da criação do livro fazendo ilustrações que são postadas no site DarkWriterProject e nas redes sociais.

autor mascarado e leitores | Divulgação

Dark Writer distribuiu cópias do primeiro capítulo em Londres

O autor mascarado acabou virando ele próprio um integrante da trama, sendo retratado nas ilustrações ao lado dos personagens.

E foi também com doações de seu público virtual que Dark conseguiu imprimir 200 cópias do primeiro capítulo em inglês que foram distribuídas nas ruas de Londres e de Oxford durante o verão.

Por orientação de Cunningham, Dark Writer retirou do ar o que tinha postado até agora, mas ainda é possível baixar o primeiro capítulo em inglês e em português no site Darkwriterproject.com.

Para descobrir o desfecho da história de Mary, o público terá de esperar até o final do ano que vem, quando o livro chegará às livrarias, e também deverá ter fim o mistério que ronda a identidade do autor mascarado.

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