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Concurso Literário Cultural (186)

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Os meninos que enganavam nazistas

Joseph Joffo (autoria), Fernando Scheibe (tradução)

Paris, 1941. O país é ocupado pelo exército nazista e o medo invade as casas e as ruas francesas. O poder de Hitler se mostra absoluto e brutal na França… É durante um dos períodos mais turbulentos da História que a emocionante narrativa de Joseph e Maurice se desenrola. Irmãos judeus de 10 e 12 anos de idade, eles perambulam sozinhos pelas estradas, vivendo experiências surpreendentes, tentando escapar da morte e em busca da zona livre para ganhar a liberdade.

Essa é uma história real, autobiográfica, cuja espontaneidade, ternura e humor comprovam o triunfo da humanidade e da empatia nos momentos mais sombrios, quando o perigo está sempre à espreita… Os meninos que enganavam nazistas conta a fantástica e emocionante epopeia de duas crianças judias durante a ocupação, narrada por Joseph, o mais jovem.

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Em parceria com a Editora Vestígio, vamos sortear 2 exemplares de “Os meninos que enganavam nazistas”, de Joseph Joffo.

Para concorrer, mencione na área de comentários o nome de um amigo que você quer presentear com esse livro. Os dois ganharão a obra.

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O resultado será divulgado dia 8/8 neste post.

 

ATENÇÃO!

Ana Cr Marini e sua amiga Daiane, parabéns! Entraremos em contato via e-mail.

Viciados em metanfetaminas: Livro diz que nazistas eram movidos a drogas

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Reprodução

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David Segal, no Terra

Diante da quantidade imensa de livros já dedicados aos nazistas e Hitler, seria possível presumir que tudo de interessante, terrível e bizarro já seja de conhecimento sobre um dos regimes mais notórios da história e seu líder genocida. Mas então surge Norman Ohler, um romancista de fala mansa de 46 anos de Berlim, que remexeu os arquivos militares e encontrou este fato surpreendente: o Terceiro Reich era movido a drogas.

Na verdade, todo tipo de drogas e em quantidades assombrosas, como Ohler documenta em “Blitzed: Drugs in Nazi Germany” (algo como “Drogados: Drogas na Alemanha Nazista”, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil), um best-seller na Alemanha e no Reino Unido que será publicado em abril nos Estados Unidos, pela editora Houghton Mifflin Harcourt. Ele esteve em Nova York e se sentou para uma entrevista, antes de fazer uma palestra em um loft no East Village, perto da faculdade Cooper Union.

“Trata-se na verdade de meu antigo bairro”, ele disse, enquanto bebia um suco de uva em um sofá. “Eu morei aqui enquanto escrevia meu primeiro romance, uma história de detetive.”

Ohler fez uso de seu interesse por investigação durante os cinco anos que precisou para pesquisar e escrever “Blitzed”. Por meio de entrevistas e documentos que não foram estudados cuidadosamente antes, ele descobriu novos detalhes sobre como era fornecido regularmente aos soldados da Wehrmacht metanfetamina de uma qualidade que daria inveja a Walter White, do seriado “Breaking Bad: A Química do Mal”. Milhões de doses, embaladas como pílulas, eram tomadas nos combates ao longo de toda a guerra, parte de uma campanha contra a fadiga, direto da fábrica para o fronte, aprovada oficialmente.

Assim como a ressaca ocorre após o efeito das drogas, essa estratégia farmacológica funcionou por algum tempo (ela foi crucial para a invasão turbinada e derrota da França em 1940) e depois não, mais notadamente quando os nazistas ficaram atolados na União Soviética. Mas o retrato mais vívido do abuso e abstinência em “Blitzed” é o de Hitler, que por anos recebeu por seu médico pessoal doses injetadas de poderosos opiáceos, como o Eukodal, uma marca de oxicodona que já foi avaliada por William S. Burroughs como “realmente horrível”. Por alguns poucos meses sem dúvida eufóricos, Hitler também recebias doses de cocaína de alto grau, uma combinação de sedação e estímulo que Ohler compara a um “speedball clássico”.

“Há todas essas histórias sobre líderes do partido vindo para se queixarem de suas cidades bombardeadas”, disse Ohler, “e Hitler apenas dizia: ‘Vamos vencer. Essas perdas nos deixam mais fortes’. E os líderes diziam: ‘Ele sabe de algo que não sabemos. Ele provavelmente conta com uma arma milagrosa.’ Ele não tinha uma arma milagrosa. Ele tinha uma droga milagrosa, para fazer com que todos pensassem que ele tinha uma arma milagrosa.”

Magro e ossudo, Ohler transmite discretamente o humor mordaz que ocasionalmente vem à tona em seu livro. “Blitzed”, ele explicou, nasceu quando um amigo de Berlim, que é DJ e fã de substâncias que alteram a percepção, perguntou: “Você sabia que os nazistas se enchiam de drogas?” Enquanto crescia em Munique, o amigo ouviu sobre o uso de metanfetamina na guerra por ex-soldados.

Fora um documentário sobre o assunto, Ohler encontrou pouca informação online. Então ele contatou um acadêmico do documentário, que forneceu dicas valiosas sobre como pesquisar nos arquivos militares, que não eram indexados para buscas sobre “drogas”. Inicialmente, o resultado de sua pesquisa era destinado para um quarto romance, mas seu editor lhe disse que a história era louca demais para ficção. Ele foi aconselhado a contá-la de modo direto.

A história pode ser uma disciplina traiçoeira para neófitos, mas alguns profissionais deram altas notas ao exaustivamente pesquisado “Blitzed”, que conta com meticulosas notas de rodapé. O renomado biógrafo de Hitler, Ian Kershaw, o chamou de “trabalho acadêmico sério”. E apesar de elementos dessa história já terem sido contados, a extensão do consumo de narcóticos pelos soldados nazistas e por Hitler surpreendeu até mesmo aqueles que passaram décadas pesquisando essa época.

Como isso é possível?

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“É um dos velhos problemas da especialização”, disse Antony Beevor, autor de vários livros altamente respeitados sobre a Segunda Guerra Mundial. “Nenhum historiador sabe muito sobre drogas. Quando alguém de fora vem com mente aberta e interesses diferentes, os resultados podem ser fantásticos e muito esclarecedores.”

O fascínio de Ohler por drogas vem de uma experiência pessoal. Quando tinha 20 e poucos anos e estava visitando Nova York, ele tomou um ácido e alucinou um distúrbio racial em plena escala na Segunda Avenida.

E ele fez outras viagens?

“Sim”, ele disse.

“Blitzed” começa com o sucesso dos alemães no século 19 como preeminentes inventores, fabricantes e exportadores de drogas mundiais, indo desde o benigno (aspirina) ao infame (heroína). Uma dessas drogas foi a metanfetamina, que era inicialmente comercializada livremente nas farmácias ao público alemão como estimulante para todas as finalidades, desde o combate à depressão até febre do feno.

Tubos vermelhos, brancos e azuis de pílulas, vendidos sob o nome comercial de Pervitin, chamaram a atenção de um médico da Academia de Medicina Militar em Berlim, que supervisionaria a logística do fornecimento de milhões de pílulas às tropas. Os soldados alterados corriam incansavelmente pelas Ardenas no início da guerra, um desempenho adrenalizado que deixou Winston Churchill “estupefato”, como ele escreveu em suas memórias. Um general alemão se gabou posteriormente de que seus homens permaneceram acordados por 17 dias consecutivos.

“Acho que isso é um exagero”, disse Ohler, “mas a metanfetamina foi crucial naquela campanha”.

O outro foco de “Blitzed” é um homem há muito considerado um dos farsantes da era: Theodor Morell, o médico corpulento e arrogante que conquistou a confiança de Hitler em 1936, após curar uma dor de estômago que afligiu o Fuhrer por anos. Um oportunista e maestro com uma seringa, Morell respondia às exigências incessantes do Paciente A, como ele chama Hitler em suas anotações, com um regime cada vez maior de vitaminas injetáveis, hormônios e esteróides, que incluíam extratos de corações e fígados de animais. (Apesar da dieta de Hitler ser vegetariana, suas veias contavam uma história diferente.) A partir de meados de 1943, o coquetel passou a incluir quantidades generosas de opiáceos.

“Historiadores tentaram explicar os tremores que Hitler passou a exibir em 1945 dizendo que ele sofria de Parkinson”, disse Ohler. “Eu não descartaria isso, mas não há prova. Eu acho que Hitler estava sofrendo de síndrome de abstinência.”

Ohler acredita que o consumo de drogas por Hitler prolongou a guerra, ao estimular seus delírios. Mas “Blitzed” não aspira mudar nosso entendimento do Nacional Socialismo ou da psique de Hitler, mas sim acrescentar detalhes que fazem outros retratos parecerem incompletos.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

A Casa de Anne Frank: um museu para um livro

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Anne Frank, em 1940 | © Domínio público / WikiCommons

Anne Frank, em 1940 | © Domínio público / WikiCommons

 

A partir de Primo Levi e Anne Frank, Roney Cytrynowicz analisa a difusão da fotografia do menino Omran Dagneesh dentro de uma ambulância após ser ferido no bombardeio de Alepo

Publicado no Publishnews

Mais de 1,2 milhão turistas visitam anualmente a Casa de Anne Frank, em Amsterdam, na Holanda, inaugurada como museu em 1960. O que atrai as pessoas é a possibilidade de conhecer a casa e o anexo clandestino no qual Anne Frank viveu e escreveu, dos 13 aos 15 anos, seu diário / romance durante a Segunda Guerra Mundial.

De manhã a visita é realizada com ingressos previamente comprados e, à tarde, por ordem de chegada em uma fila quilométrica. É literalmente uma peregrinação com turistas de todo o mundo, especialmente jovens, tornando a casa um dos locais turísticos mais concorridos da capital holandesa.

Entram a cada cinco minutos grupos de cerca de 50 pessoas e o percurso dura de 30 a 40 minutos. O que se visita é uma casa vazia e seu anexo, com algumas fotos da mobília original, mas o percurso emociona e emudece profundamente os visitantes. O pesado silêncio raramente é rompido por algum comentário. Crianças e jovens se identificam profundamente quando a história contada no diário se torna real e palpável.

Uma frase do escritor italiano Primo Levi pode ser uma das chaves para se aproximar do apelo singular exercido em torno do diário, de sua jovem escritora e da visita à Casa: em uma história com a dimensão do Holocausto, em que seis milhões de pessoas foram mortas, a história de uma única vítima, uma menina, comove, emociona. Porque se fôssemos tentar nos aproximar do que significa o genocídio de milhões de pessoas, entre os quais um milhão e meio de crianças e jovens como Anne, escreve Primo Levi, simplesmente não aguentaríamos continuar vivendo.

A frase de Primo Levi pode ser estendida, claro, para a lógica individualizada da cobertura de mídia sobre outros genocídios e massacres, como vimos na semana passada com a difusão da fotografia do menino sírio Omran Dagneesh, de cinco anos, dentro de uma ambulância após ser ferido no bombardeio de Alepo, Síria, ou de Aylan Kurdi, o menino de três anos cujo corpo foi jogado pelo mar na praia em 2015. Segundo a Unicef, a guerra na Síria afeta profundamente a vida de 8,6 milhões de crianças sírias.

Na visita à Casa de Anne Frank, os recortes de jornal no quarto de Anne, uma das poucas características originais preservadas, comovem. Anne sonhava com Hollywood, gostava de histórias de reis e rainhas. Esta banal normalidade da vida de uma jovem contrasta dolorosamente com o seu destino: o assassinato em uma câmara de gás e depois a incineração em um crematório.

A Casa de Anne Frank é um dos lugares turísticos centrais em uma cidade cheia de atrações imperdíveis, como o museu Van Gogh e o Rijkssmusem. Além do Museu Judaico e diversos outros edifícios, como a Sinagoga Portuguesa do século 17, e a ativa Ets Haim Bibliotheek, fundada em 1639 (vale a pena conhecer o site de manuscritos digitalizados, há um roteiro de museus e monumentos relacionado à Segunda Guerra Mundial: o Hollandsche Schouwburg (o teatro judaico que se tornou o trágico ponto de partida da deportação), um novo museu do Holocausto (em uma antiga escola cujo diretor salvou dezenas de crianças da deportação) e o Museu da Resistência.

A memória da guerra em Amsterdam não deixa de ter suas tensões. Entre os países da Europa Ocidental, a comunidade judaica da Holanda foi a que, proporcionalmente, teve o maior número de mortos: 110 mil de cerca de 140 mil pessoas. Muitas causas poderiam explicar isso, entre elas a força do governo colaboracionista local e a ação de sua polícia em apoio aos nazistas.

Estes números e fatos contrastam com a imagem de um país inteiro solidário (embora a resistência tenha sido vigorosa), imagem que é muito reforçada pela história da pequena e corajosa rede de solidariedade em torno dos habitantes do anexo da família Frank. Como conta Miep Gies em seu livro (Anne Frank: o outro lado do diário, Best Seller), ajudar os Frank era apenas o certo a fazer.

O Museu da Resistência (imperdível e com uma seção para crianças; o site tem versão em português) integra também um circuito de memória local, entre eles o museu de história da cidade, que celebra e exalta a memória de uma Holanda livre, altiva, independente, empreendedora, lembrando que o país foi a principal potência colonial no século 17, quando ocupou Pernambuco para romper o bloqueio que a união entre Portugal e Espanha impôs à circulação do açúcar produzindo no Nordeste brasileiro.

Quando se pensa na história do livro no século 20, suas diferentes edições, tiragens, circulação, leituras e, principalmente, possibilidades de releituras e reinterpretações, o Diário de Anne Frank é certamente uma das histórias mais interessantes e complexas em seu impacto e sua repercussão, traduzido em pelo menos 72 línguas.

O livro tem já uma expressiva bibliografia em torno da história de suas edições, entre eles Anne Frank: A história do diário que comoveu o mundo, da ensaísta e escritora norte-americana Francine Prose (Zahar, 2010), já resenhado nesta coluna. Prose mostra a força literária das duas camadas de texto que Anne escreveu: o diário e, depois, o romance em forma de diário – e a consciência literária que ela foi adquirindo como escritora. O extraordinário é uma menina de sua idade, naquelas circunstâncias, produzir um texto com tal potência literária e de testemunho.

O Diário, editado pela primeira vez em 1947, tem figurado seguidamente na lista dos livros mais vendidos no Brasil. O número de leitores é crescente e o livro passa de geração em geração, novos leitores descobrem renovados sentidos e mensagens, entre inspirações e esperanças sobre a própria vida e o mundo. É intrigante a contínua apropriação do diário por tantas leituras e metáforas adolescentes e adultas, subjetivas e pessoais.

Abordando por um prisma diferente do de Primo Levi, o psicanalista Bruno Bettelheim sugeriu que uma chave para entender o fascínio pelo livro de Anne Frank é que, embora seja uma história relacionada a Auschwitz, o diário em si não conta o destino final de Anne, de sua família e dos moradores do anexo. O diário termina antes, como se pudéssemos esconder de nós mesmos o que aconteceu depois.

Um texto da psicológica Roseli Sayão sobre adolescência sugere que uma das diferenças da adolescência de hoje para a de anos atrás é que enquanto na de anos atrás jovens escondiam seus segredos dos pais e adultos, hoje eles os escancaram nas redes sociais, sem qualquer constrangimento. Questões da mais profunda intimidade são expostos em público.

Talvez aqui se encontre outra dimensão para entender o sucesso do Diário de Anne Frank: o acesso ao mundo íntimo, aos sentimentos, conflitos, angústias, desejos, sonhos de uma jovem, em uma situação histórica absolutamente limite. Mas o diário não apenas guardava seus segredos dos adultos do próprio anexo. É como se o diário guardasse sua vida do perigo máximo, a ocupação nazista a poucos metros, em uma corrida contra o tempo, da própria morte certa, a morte por gás. E Auschwitz é parte do mundo que os adultos (fora da casa) criaram.

No recém-publicado em português A assimetria e a vida. Artigos e ensaios 1955-1987 (Editora da Unesp, uma edição muito bem cuidada), Primo Levi, no artigo (1980) Com Anne Frank falou à história, conta em uma frase singela o encontro com Otto Frank, pai de Anne: “cruzei em Auschwitz durante uns poucos minutos logo depois da libertação: estava procurando as duas filhas desaparecidas”.

Otto sobreviveu, voltou para casa e encontrou o diário / romance, guardado por Miep Gies. O Diário de Anne Frank e É Isto um Homem?, de Primo Levi, foram publicados pela primeira vez no mesmo ano, em 1947.

Por que você deveria ler o livro ‘Minha Luta’ de Hitler

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Congresso do Partido Nazista na cidade de Nuremberg, em 1935 (Foto: Reprodução)

Congresso do Partido Nazista na cidade de Nuremberg, em 1935 (Foto: Reprodução)

 

Thiago Tanji, na Galileu

As fotos em preto e branco e os vídeos borrados dão impressão de que a Segunda Guerra Mundial aconteceu há muito tempo e já está devidamente enterrada no jardim da História. Mas década de 1940 não está tão longe assim de nós: é muito provável que familiares e conhecidos de você, caro leitor, já eram nascidos enquanto o conflito global acontecia. Em termos históricos, somos praticamente contemporâneos das milhões de mortes de soldados e civis, da bomba atômica e do genocídio sistemático de judeus, homossexuais, eslavos, ciganos e outras minorias. O fantasma do nazismo e o horror liderado pelo ditador austríaco Adolf Hitler, infelizmente, ainda nos assombram.

Parece difícil entender como a nação que foi o berço de Johan Bach, Ludwig van Beethoven, Immanuel Kant, Friedrich Hegel e Albert Einstein também tenha abrigado uma ideologia sustentada a partir do ultranacionalismo e de pseudoteorias raciais para empreender perseguições e assassinatos em massa. Mais espantoso ainda é saber que Hitler não chegou ao poder por conta de um golpe de Estado ou de uma conspiração militar: em 1932, ele recebeu mais de 13 milhões de votos durante as eleições presidenciais da Alemanha, ficando na segunda colocação da disputa, e deputados do Partido Nazista conseguiram dezenas de cadeiras no Parlamento – em 1933, com grande respaldo popular, Hitler seria nomeado chanceler alemão até tomar definitivamente o poder no ano seguinte e iniciar a perseguição a opositores políticos.

É verdade que o carisma e o poder da oratória de Hitler contribuíram para esse momento de “transe coletivo” da população alemã, mas a ascensão do Partido Nazista e os fatos que culminaram com a Segunda Guerra Mundial não devem ser entendidos como uma obra exclusiva do ditador.

Afinal, quando Hitler chegou ao poder, a Alemanha passava por um momento de profunda crise política e econômica: as lembranças da derrota na Primeira Guerra Mundial ainda eram muito recentes e as pesadas sanções impostas por França e Inglaterra se refletiam nos altos índices de desemprego e na inflação incontrolável — para ter ideia, durante a década de 1920, um pão de 50 gramas custava o equivalente a 21 bilhões de marcos alemães, com um índice de inflação superior a 1000% ao mês. Para piorar, o sistema político estava fragilizado e a população não confiava em seus representantes: o Partido Social-Democrata, ligado aos trabalhadores, estava no poder na década de 1920, mas não foi capaz de lidar com os anseios das classes populares.

Como momentos difíceis tendem a aprofundar radicalismos, a conjuntura alemã se tornou um terreno fértil para os discursos de um homem que tinha nascido na Áustria, mas lutado pela Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Aos 36 anos, em 18 de julho de 1925, Adolf Hitler publicava Minha Luta, escrito durante o período de sua prisão após uma tentativa de rebelião na cidade de Munique, em 1923.

O livro se tornou o guia ideológico utilizado posteriormente pelo Partido Nazista e reunia a exaltação do sentimento nacionalista baseado a partir de conceitos raciais, o revanchismo contra os países vitoriosos na Primeira Guerra e o funcionamento de um Estado totalitário que não permitia a diversidade política ou partidária.

Alimentado pelos séculos de preconceito e perseguição da religião judaica na Europa, o antissemitismo se tornou uma ferramenta utilizada por Hitler para apontar quem seriam os “grandes inimigos” da Alemanha, justificando a perseguição sistemática aos judeus. Estava montado o espetáculo de horrores que se concretizaria entre as décadas de 1930 e 1940.

Após a chegada de Hitler ao poder, os direitos autorais de Minha Luta foram transferidos para o estado da Baviera, que abriga a cidade de Munique. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha iniciou uma campanha para destruir a herança nazista e impedir que iniciativas desse tipo voltassem a acontecer – até hoje, o Estado alemão se mantém distante de qualquer tipo de evocação política aos sentimentos nacionalistas. Durante 70 anos, o estado da Baviera proibiu que Minha Luta fosse reeditado e vendido, mas ao final de 2015 a obra caiu em domínio público e foi impressa por editoras de todo o mundo. Veja como foi a repercussão no Brasil.

É compreensível e justa a preocupação alemã em não permitir que os ideais de Adolf Hitler e do Partido Nazista entrassem em contato com as novas gerações. Mas a leitura de Minha Luta pode, justamente, ser uma importante ferramenta para que os horrores passados não voltem a se repetir: em um momento global de crise econômica e desencanto com a política, não faltam discursos inflamados de pessoas que prometem respostas fáceis para questões complexas, estimulando o nacionalismo e o discurso de ódio contra aqueles que têm um pensamento diferente.

O conhecimento, então, se torna a arma fundamental para que a humanidade não enfrente outros pesadelos como aqueles vividos no século 20. Nesse caso, a História é ferramenta essencial para analisar o passado, entender o presente e transformar o futuro para melhor.

Escrito por Hitler, “Mein Kampf” fica esgotado na Feira do Livro de Lisboa

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Imagem de divulgação da versão em português de "Mein Kampf", da editora Guerra & Paz

Imagem de divulgação da versão em português de “Mein Kampf”, da editora Guerra & Paz

Publicado no UOL

Os exemplares de “Mein Kampf” (“Minha luta”, em português), obra que contém o ideal político de Adolf Hitler, foram esgotados na Feira do Livro de Lisboa, segundo confirmou a editora lusitana que publica a obra, Guerra & Paz.

A publicação do livro, considerado um guia ideológico do nazismo, era proibida há até alguns meses e agora a obra está sendo reeditada no mundo inteiro.

Em Portugal, a obra já vai para a segunda edição —com o texto integral e a análise de um especialista português— e avançará com uma terceira reimpressão, após se transformar em sucesso de vendas para a editora.

Grande parte destas vendas se concentraram na Feira do Livro de Lisboa, que terminou na segunda-feira, onde foram vendidas centenas de exemplares.

As vendas de “Mein Kampf” representaram 20% das alcançadas com a trilogia dos livros que estão na base das grandes tragédias do século 20, que inclui a obra de Hitler, o “Manifesto Comunista”, de Marx e Engels, e “O Livro Vermelho”, de Mao Tsé-Tung.

A primeira edição de “Mein Kampf” foi publicada em 1924 e, até a queda do Terceiro Reich, foram impressos cerca de 12 milhões de exemplares.

Até o início deste ano não havia novas edições porque os direitos de propriedade intelectual estavam em mãos do Estado da Baviera. No entanto, a obra era acessível tanto em edições em inglês como em livrarias antigas, já que sua venda nunca esteve estritamente proibida.

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