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Com Rapunzel rastafári e fadas do acarajé, baiana lança livro inspirado em contos de fadas clássicos com personagens negros

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‘Os Contos de Fadas na Realidade Afro-baiana’ será lançado no dia 7 de julho, em Salvador.

Livro Os Contos de Fadas na Realidade Afro-Baiana será lançado no dia 7 de julho, em Salvador (Foto: Divulgação)

Livro Os Contos de Fadas na Realidade Afro-Baiana será lançado no dia 7 de julho, em Salvador (Foto: Divulgação)

Lílian Marques, no G1

Rapunzel rastafári, fadas do acarajé, príncipe jamaicano, Chapeuzinho Vermelho protegida por um orixá são alguns dos personagens do primeiro livro da escritora baiana Maria Izabel Nascimento Muller. Intitulada de “Os Contos de Fadas na Realidade Afro-baiana”, a obra foi inspirada em clássicos da literatura infantil e tem personagens negros ou que vivem em cenários da Bahia, como o Pelourinho e Chapada Diamantina.

O livro é também definido pela escritora como muvulcultura, uma forma de incentivar as crianças negras, criando uma identificação com os personagens, antes pertencente ao mundo tido como dos brancos.

Após quase 30 anos de escrita, a publicação será lançada no dia 7 de julho, na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, em Salvador, e tem ainda os santos Cosme, Damião e Do’ou, representando os três porquinhos, os irmão João e Maria cantando e dançando ao som do Olodum e da Timbalada. O livro tem também um trecho dedicado ao tema “histórias de baianidade”, no qual a escritora cria histórias divertidas, como o diário de um tênis, as aventuras de um personagem no carnaval da Bahia e a miscigenação dos anjos.

Em entrevista ao G1, Maria Izabel revelou que a ideia de escrever a publicação surgiu há muitos anos, quando ainda era professora da rede pública de ensino da Bahia e viu a necessidade da sensação de pertecimento em seus alunos negros. Maria Izabel trabalhou em escolas de Salvador por 33 anos. Episódios de racismo que marcaram a vida dela também foram determinantes para essa iniciativa. Hoje, aos 68 anos, ela se divide entre Brasil e Suíça, terra natal do marido dela.

“Começou nos idos de 1982, quando passei por uma situação de racismo em uma pós [graduação]. Quando eu comecei a ensinar estudos africanos passei a ter uma nova visão. Descobri que minhas alunas eram fascinadas pelos contos de fadas. Negras, pobres, que não tinham a realidade dos contos de fadas. Depois de estudos, eu fui observando e olhando os livros de contos de fada. Vi que aqui vivemos numa realidade de 80% de negros e [esses contos] não condizem com nossa realidade, mas não sou contra”, afirmou.

A escritora, que também ilustrou o livro, conta que começou a escrever a obra em 1988, ainda com muita insegurança em falar sobre negritude no Brasil. “Era muito difícil”, disse.

Sem perspectivas de publicação, Maria Izabel guardou os escritos do livro, mas compartilhou o trabalho com alguns colegas de escola. “Só foi publicado agora por falta de oportunidades. Me cobraram muito caro na época e para financiar pelos órgãos públicos eu precisava participar de editais”, disse.

Após pouco mais de dez anos, o trabalho de Maria Izabel foi divulgado em alguns jornais de Salvador e em uma edição especial da Revista TV Escola, do Ministério da Educação, mas ainda sem perspectivas de publicação.

“O trabalho ‘fugiu’ das minhas mãos e foi parar nos jornais e revistas. Em 2000, o Ministério da Educação estava buscando por trabalhos inéditos e me procurou. Veio uma delegação do MEC e fui escolhida para representar o povo negro quando o Brasil completou 500 anos”, afirmou.

A escritora afirma que ainda hoje considera que existe um racismo velado no Brasil, mas que o país já avançou muito em relação a isso. Quando teve a ideia do livro, conta Izabel, o tema mal era debatido. “O racismo colonialista se alimenta até hoje. Mas isso tem melhorado muito. Pelo menos, a gente ja tem a coragem de dizer, não tem mais medo. Minha intenção [no livro] não foi fazer uma separação, mas pegar metáfora e escrever numa realidade mais próxima. A literatura é volátil, usei a metáfora da inclusão e não da exclusão. Existem vários caminhos para a gente se incluir”, disse.

O projeto de publicar o livro foi retomado recentemente, em maio 2017. “Minha intenção é, através da venda do livro, dar oportunidade a alguém que está necessitando, fazer um trabalho social, porque ele está agregado à minha carreira, à minha realidade. É uma contribuição, não é uma vaidade minha. Eu vim de uma realidade muito humilde e, graças a Deus, a meus pais, e muita outras pessoas, tive a oportunidade de estar realizando esse sonho”, revelou.

Izabel conta que investiu cerca de R$ 8 mil para publicar 200 exemplares da obra. Cada livro será vendido por R$ 30. Como a escritora não tem vínculo com nenhuma distribuidora, a publicação pode ser adquirida no dia do lançamento. Quem tiver interesse também pode fazer contato com a escritora pelos telefones 71 98806-4872 ou 71 3230-1219.

Maria Izabel define livro como uma forma de incentivar as crianças negras (Foto: Roberto Leal/ Divulgação)

Maria Izabel define livro como uma forma de incentivar as crianças negras (Foto: Roberto Leal/ Divulgação)

Racismo

Ao G1, a escritora Maril Izabel contou uma história marcante de racismo que ocorreu quando ela ainda era criança. Segundo a escritora, à época do ocorrido ela estava com 9 anos e não chegou a perceber com clareza que, junto com três colegas, estava sendo excluída de uma ativdade escolar por ser negra.

“Uma vez uma pró integrou uma turma de teatro e os quatro negros foram excluídos. Eu questionei e, no dia seguinte, ela trouxe um texto muito direcionado aos negros. Vivi com isso por toda a minha vida, me feriu muito. Era uma cantiga que dizia assim: ‘eram quatro pretinhos, todos quatro da Guiné, e deitaram a fugir dançando siricoté'”, disse a escritora cantando o trecho da música.

Mesmo diante da resistência da mãe, que orientou Izabel a não participar da atividade com a cantiga, ela disse que não tinha consciência do que estava ocorrendo e se sentia feliz por poder se apresentar com os colegas. “No dia da apresentação, todos os colegas apresentaram seus pápeis, e nós quatro [negros] ficamos no fundo da sala, ouvimos todos. Quando terminou todos foram embora, só ficou a professora. Eu perguntei da nossa apresentação e ela mandou a gente se apresentar para a sala vazia. Mas isso para mim foi uma alegria tão grande, mas ao mesmo tempo tinha um sentimento que eu não sabia explicar. Só hoje eu tenho noção de que era tristeza, frustação”, relatou.

Sobre a autora

Maria Izabel do Nascimento Muller nasceu em Jacobina, cidade localizada na Chapada Diamantina, onde se formou em Magistério. Após prestar concurso para professor da rede pública de ensino da Bahia, ela se mudou para Salvador, onde fez o curso de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, pela Universidade Católica de Salvador (Ucsal). Depois, Izabel fez pós-graduação em Estudos Afro e Tradição e Cultura, nas Universidades Federal (UFBA) e do Estado da Bahia (Uneb).

Em 2002, casou com um suíço, se aposentou e foi viver no país do marido, onde estudou alemão e trabalhou como voluntária em um programa da Organização das Nações Unidas (Onu). Em 2012, após o marido se aposentar, Izabel voltou com ele para Salvador e o casal começou a viajar o mundo. Juntos, os dois já conheceram mais de 25 países e fizeram alguns cursos de idiomas por onde passaram. Hoje eles se dividem entre o Brasil e a Suíça.

Projeto reúne lista de livros com protagonistas negras

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Algumas das obras falam sobre, por exemplo, como é bonito ter o cabelo crespo ou tratam de preconceitos  |  Fonte: Shutterstock

Algumas das obras falam sobre, por exemplo, como é bonito ter o cabelo crespo ou tratam de preconceitos | Fonte: Shutterstock

 

Criado por livreira, perfil já conta com mais de cem obras

Publicado no Universia Brasil

Sabemos como a representatividade é fundamental para a construção do ser humano e seu sentimento de pertencimento, porém, ainda é difícil encontrar diversidade em algumas áreas e a literatura é uma delas. Pensando nisso, a livreira Luciana Bento criou um projeto no qual reúne uma lista com mais cem livros protagonizados por meninas negras.

O foco da página são histórias que mostrem heroínas, guerreiras e princesas, mas também há muito espaço para garotas comuns. São diversos temas, estilos e faixas etárias, tudo reunido com o conhecimento prévio do trabalho e a ajuda de amigos. O intuito é dar visibilidade às meninas negras e trazer isso para outros ambientes, como o escolar.

A ideia é totalmente colaborativa. Disponível em um perfil do Tumblr, Luciana convida os leitores a deixarem suas sugestões e ajudar a aumentar ainda mais a lista. As postagens são feitas sempre no mesmo modelo: foto da capa, nome do autor, ilustrador, editora e um resumo.

Algumas das obras falam sobre, por exemplo, como é bonito ter o cabelo crespo ou tratam de preconceitos, porém, há histórias que abordam outras questões e apenas usam protagonistas negras. O objetivo é fazer também que não apenas as meninas negras conheçam esses livros, mas sim todas as crianças, introduzindo de uma maneira saudável e inteligente temas importantes e debates pertinentes.

Há um projeto para livros com meninos sendo pensado também, mas, por enquanto, o foco ainda são elas. A iniciativa de Luciana, aliás, lembra em muito a da jovem Marley Dias. Aos onze anos, a estudante americana também criou um projeto para encontrar livros com protagonistas negras. A ideia, que é anual, pretende reunir mil títulos.

Inclusão desigual amplia distância entre negros e brancos na educação

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Sala de aula de escola estadual, em Guarulhos, na Grande São Paulo - Rivaldo Gomes/Folhapress

Sala de aula de escola estadual, em Guarulhos, na Grande São Paulo – Rivaldo Gomes/Folhapress

 

Angela Pinho, na Folha de S.Paulo

Embora tenha ampliado o acesso à educação, o Brasil incluiu de maneira desigual crianças brancas e negras na escola na última década. Com isso, a distância entre elas não só persiste como até aumentou recentemente em algumas etapas de ensino.

A conclusão está em relatório sobre o Plano Nacional de Educação feito pelo Inep, instituto federal que realiza pesquisas sobre o setor.

O estudo utilizou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, do IBGE, sobre o número de crianças dentro e fora da escola. Foram consideradas negras as declaradas como pretas e pardas.

Com exceção do ensino fundamental, praticamente universalizado, a distância entre a população negra e branca subiu em todas as etapas nos últimos anos, segundo o trabalho (veja quadro ao lado). O monitoramento usa dados de 2004 a 2014, ano com estatísticas mais recentes.

A fase mais problemática é a de 0 a 3 anos, correspondente à creche. Em 2014, 38% das crianças brancas nessa faixa etária estavam matriculadas. Entre as negras, o índice era de 29%. Em 2009, a distância era menor –28% ante 24%.

Na faixa de 4 e 5 anos, correspondente à pré-escola, a diferença subiu 2,3 pontos de 2013 para 2014. No mesmo ano, cresceu também entre jovens de 15 a 17 anos, com idade para o ensino médio.

Para especialistas, após uma expansão forte das matrículas nas últimas décadas, houve uma primeira onda de inclusão de crianças tanto brancas como negras. Passado esse momento, restaram populações mais vulneráveis, o que penalizaria mais os negros, devido à renda. Mas não é a única explicação.

“O fator socioeconômico é relevante, mas não podemos esquecer que a sociedade discrimina de forma recorrente os jovens negros”, diz Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco.

Para ele e outros especialistas na área, é necessário adotar políticas específicas para essa população na educação básica. “Se continuarmos tratando todos como iguais, a desigualdade até vai cair, mas vai demorar muito para isso acontecer”, afirma Henriques.

Presidente da ONG Todos pela Educação, Priscila Cruz concorda. Para ela, é preciso fazer uma radiografia para saber onde estão as crianças negras dentro e fora da escola e incluir ações específicas voltadas para elas em todas as políticas educacionais, o que hoje não ocorre.

“Tirando as cotas no ensino superior, não há outras ações que mexam com a mesma intensidade na cultura escravocrata do Brasil.”

Presidente do instituto Idados, Paulo Oliveira afirma que é preciso esperar os próximos resultados do IBGE para saber se há de fato uma tendência de aumento da desigualdade.

Ele afirma, porém, que a distância tende a cair na pré-escola, pelo fato de essa etapa, por lei, estar perto da universalização. Em 2014, 89,6% nessa idade estavam matriculadas. O maior desafio é a creche, que só atende um terço das crianças e ainda exclui mais as negras do que as brancas –embora penalize ambas.

Negra, Cleia Lima, 36, diz que chegou a dormir na porta de uma unidade para conseguir vaga para os filhos. Foi a primeira da família a entrar na universidade. “Meus pais diziam: todo mundo aqui trabalha, por que só você quer estudar? Com os meus filhos quero que seja diferente.”

RENDA

A diferença de renda entre negros e brancos com a mesma formação é maior no Brasil do que nos Estados Unidos, indica estudo feito pelo IDados, instituto de pesquisa de estatísticas educacionais.

Para Paulo Oliveira, presidente da entidade, o resultado indica que uma melhora do acesso à educação não será suficiente para reduzir a desigualdade entre brancos e negros. “O buraco é mais embaixo. Há ainda uma discriminação do mercado de trabalho.”

Segundo o estudo, nos dois países negros ganham menos do que brancos com a mesma escolaridade.

A diferença é o valor do diploma para reduzir essa distância. Nos EUA, os negros têm ganho salarial maior do que os brancos quando obtêm nível superior –181% contra 177%.

Já no Brasil, ocorre o contrário. Quando um negro obtém diploma universitário, passa a receber, em média, 268% a mais. Quando o mesmo ocorre com um branco, o ganho aumenta em 363%.

ENSINO SUPERIOR

O estudo mostra ainda que também no ensino superior o acesso da população negra aumentou nos últimos anos, mas continua desigual.

Em 2014, ano com dados mais recentes, 7% dos jovens de 18 a 24 anos negros estavam no ensino superior. Em 2009, esse índice era de apenas 2%.

Entre os brancos da mesma faixa etária, no entanto, essa proporção cresceu de 6% para 14% no mesmo período.

Melhorar a equidade no atendimento de creche e pré-escola é fundamental para reduzir a desigualdade entre os jovens, diz Frei David Santos, diretor-executivo da ONG Educafro.

“A criança negra começa a ser discriminada desde quando nasce”, afirma.

O arraial da branca atitude

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Público foi grande para assistir pelo telão à Nobel Svetlana Alekiévitch - Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Público foi grande para assistir pelo telão à Nobel Svetlana Alekiévitch – Alexandre Cassiano / Agência O Globo

 

Esta deveria ser a questão central: por que não há mais negros nas plateias?

José Eduardo Agualusa, em O Globo

Estou em Paraty. Dei-me conta, no momento em que me sentei para escrever esta coluna, de que já se passaram doze anos desde a primeira vez que visitei a Flip, para participar num debate com Caetano Veloso, moderado por Cacá Diegues. Foi um desses momentos intensos e maravilhosos, que ficam ecoando em nós pela vida afora e, nesse sentido, nunca se transformam em passado. Lembro-me que regressei a Luanda mesmo a tempo de assistir ao nascimento da minha filha. Desde esse dia até hoje a menina cresceu, lindíssima, e a Flip também. Muitos dos escritores que passaram pela Flip acabaram criando uma ligação com o festival e com a cidade que o acolhe. Comigo aconteceu algo semelhante. Confesso que as críticas ao evento, mesmo as mais justas, me irritam um pouco, como se fossem dirigidas a um familiar ou amigo próximo.

Uma crítica que sempre escuto tem a ver com a ausência de escritores negros. Este ano a acusação repetiu-se, com mais motivos do que em edições anteriores. O próprio curador do evento, Paulo Werneck, reconheceu a falha. Sou amigo da maior parte dos escritores africanos que participaram no evento ao longo dos últimos anos. Em 2008, aliás, moderei um debate entre a Chimamanda Adichie e Pepetela. Em conversa com Chimamanda, Teju Cole e Uzodinma Iweala, em diferentes ocasiões, e em diferentes lugares do mundo, todos eles manifestaram surpresa, e até alguma indignação, não tanto pelo fato de haver poucos escritores negros nas mesas, mas sim por terem falado para uma plateia quase exclusivamente branca, num país onde a maioria da população possui ascendência africana.

Esta deveria ser a questão central: por que não há mais negros nas plateias? A verdade é que continua a existir uma linha de cor separando aqueles que no Brasil têm acesso ao livro e a vasta maioria da população. Para formar escritores é preciso primeiro formar grandes leitores. Se queremos formar bons escritores negros teremos primeiro de formar muitos milhões de bons leitores negros.

Participei há poucas semanas num outro festival literário, muitíssimo menos badalado do que a FLIP, mas não menos interessante — a FLUPP, Festa Literária Internacional das Periferias. O debate decorreu no Teatro Mário Lago, na Vila Kennedy, no Rio de Janeiro. Teju Cole e Uzodinma Iweala teriam gostado de estar ali, diante daquela plateia, constituída por uma forte maioria de jovens de ascendência africana. Foi uma experiência gratificante. Não é muito comum encontrar leitores tão interessados e informados. A sofisticação de uma plateia avalia-se pela qualidade das perguntas. Aquela foi uma plateia particularmente interessante, cujas questões, em alguns casos, me apanharam desprevenido, levando-me a reavaliar convicções. Uma plateia assim é tudo o que um escritor pode ambicionar.

Júlio Ludemir, escritor, produtor cultural e um dos criadores da FLUPP, explicou-me que muitos daqueles jovens integram oficinas de literatura. Foi de um desses núcleos que emergiu, por exemplo, o escritor Jessé Andarilho, autor de “Fiel”, um romance, com a precisão de um testemunho, que conta a ascensão e queda de um menino no tráfico carioca. Foi também do mesmo ambiente que surgiu Yasmin Thayná, a jovem autora revelação de “Kbela”, um filme que discute a identidade da mulher negra através da sua relação com o cabelo. Yasmin deve lançar em breve o seu primeiro livro.

São experiências como a FLUPP que poderão mudar (provavelmente já estão a mudar) a FLIP. O curador de um festival literário não pode ser uma espécie de fiscalizador de raça, como os que existiam na África do Sul no tempo do apartheid. Quando me falam em raças lembro-me sempre da história de um pianista de jazz, nos Estados Unidos, que anunciou, durante uma conferência de imprensa, ter contratado um novo contrabaixista. “Esse novo contrabaixista é negro?” — quis saber um dos jornalistas. “Não sei.” — Respondeu o pianista. — “Nunca lhe perguntei.”

Eu próprio faço a curadoria de um festival literário, o Fólio — Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, que acontecerá em setembro. Enquanto escrevia esta coluna decidi fazer contas e descobri que dos 40 autores que teremos este ano em Óbidos, nas mesas principais, 17 são mulheres e oito têm origem africana ou asiática. Os dois escritores mais conhecidos, V. S. Naipaul e Salman Rushdie, são de origem indiana. Nada disto foi premeditado, evidentemente. Aconteceu assim. Não perguntei a raça a ninguém. Não me interessa. A verdade, contudo, é que o resultado final importa, e importa muito. Não existindo um equilíbrio, isso não significa que o festival deva ser condenado como racista ou machista. Mas é uma indicação de que a sociedade, no seu conjunto, está doente.

Em carta aberta, professoras da UFRJ acusam Flip de promover ‘Arraiá da Branquidade’

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Neil deGrasse Tyson, Elza Soares e Mano Brown foram convidados para a Flip, mas não puderam participar - Editoria de Arte / Agência O Globo

Neil deGrasse Tyson, Elza Soares e Mano Brown foram convidados para a Flip, mas não puderam participar – Editoria de Arte / Agência O Globo

 

Grupo fará oficinas e programação paralela para discutir ausência de escritoras negras no evento

Mariana Filgueiras, em O Globo

PARATY — No ano em que a homenageada da Flip é a escritora Ana Cristina César e o evento se debruça sobre a presença feminina na literatura — com 17 mulheres entre os 39 participantes da Tenda dos Autores — a ausência de autoras negras na programação causou revolta entre mulheres que integram o Grupo de Estudo e Pesquisa Intelectual Negra da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em carta aberta ao evento, elas criticam a organização do evento, chamado de “Arraiá da Branquidade”.

“Em um país de maioria negra e de mulheres, é um absurdo que o principal evento literário do país ignore solenemente a produção literária de mulheres negras como Carmen Faustino, Cidinha da Silva, Elizandra Souza, Jarid Arraes, Jennifer Nascimento, Livia Natalia e muitas outras”, diz o documento. “Que naturalizando o racismo, a curadoria considere que fez sua parte convidando autoras da raça Negra que infelizmente não puderam aceitar o convite. A não procura de planos a, b, c diante destas supostas recusas relaciona-se à falta de compromisso político da FLIP com múltiplas vozes literárias nacionais e internacionais (…) Este silenciamento do nosso existir em uma feira que se reivindica cosmopolita, mas está mais para Arraiá da Branquidade, se insere no passado-presente da escravidão”.

A carta foi publicada no site www.conversadehistoriadoras.com, e faz parte do evento “Vista nossa palavra, Flip 2016”, que integra uma série de ações organizadas para discutir a falta de visibilidade de autoras negras de uma forma geral. Além da carta, o grupo fará oficinas de escrita em escolas públicas e um dia inteiro de programação literária no sábado, em Oswaldo Cruz, no Rio, que pretende funcionar como um contraponto à programação “branca” da Flip.

— Nosso grupo de estudos existe há três anos, é formado por estudantes, pesquisadoras da UFRJ e mulheres não ligadas à universidade. No último dia 16 de maio fizemos um seminário sobre Intelectuais Negras, que acabou motivando esta reflexão. Decidimos escrever um “textão”, que é esta carta aberta à Flip, criar uma hashtag para a mobilização, que também conta com vídeos de apoiadores, como o escritor Alberto Mussa. Mas nossa ação vai muito além disso, a carta não se encerra nela — explica a idealizadora da campanha, a historiadora e professora Giovana Xavier. A programação completa do evento de sábado está na página do Facebook “Vista nossa palavra Flip2016”.

CURADOR RESPONDE

Paulo Werneck, o curador da Flip, comentou a ausência de autores negros em geral e admitiu que essa acabou sendo uma lacuna da atual edição do evento. As primeiras críticas já haviam surgido quando a programação foi anunciada, em meados de maio.

— Quando se fala “não foi convidada”, na verdade, a gente convidou. Mas nenhum dos autores negros que convidamos pôde aceitar. Essa crítica é pertinente. É verdade. Falta mesmo. Fica como uma falha, uma lacuna. A Flip tem uma história de diversidade, mas a construção das coisas da cultura não são simples: nós fizemos oito convites a autores negros.

Werneck afirma que entre esses convidados estavam grandes nomes da cultura e da ciência e cita os nomes de alguns deles, como o astrônomo americano Neil DeGrasse Tyson e o jornalista e ensaísta americano Ta-Nehisi Coates. O curador afirma ainda que convidou pelo segundo ano o arquiteto Francis Diebedu Keré, de Burkina Faso, entre outros.

— Chamei a a Elza Soares, que está com agenda apertada de shows; o Mano Brown, numa conversa que levou quatro meses e infelizmente a gente bateu na trave. Convidamos a Fatou Diome, escritora franco-senegalesa, que viralizou outro dia na internet (em vídeo sobre a questão dos refugiados), o Paulinho da Viola também não pôde.

Durante essa escolha dos nomes para a programação oficial, ele comenta que houve um momento que “entregou os pontos”.

— Eu entendo essa reivindicação, recebo a crítica, não vou tentar rebater. Vou dar ouvidos a elas, mas não se trata de não ter sido convidado. Foi convidado. E a gente em algum momento entregou os pontos. Foi quando a Elza não podia aceitar, a gente decidiu: precisamos fechar. Em 2014, a Flip abriu uma temporada de sugestões para a programação, justamente para receber informações e ideias que não estão no meu radar, que não me ocorrem. Acho curioso que esta reivindicação não tenha aparecido naquele momento. Mas eu vou ficar sensível a isso, acho que é assim que funciona o debate intelectual.

Ao receber a carta, a organização da Flip enviou uma nota oficial: “Recebemos a carta aberta à Flip com respeito e atenção. A crítica é pertinente. A certo ponto, após uma sucessiva recusa dos artistas, escritores e cientistas negros que convidamos, fechamos a programação com essa lacuna, que também se verifica no mercado editorial, na imprensa, nas instituições culturais brasileiras. Neste ano, num gesto inédito, reservamos um espaço na Programação Principal para Elza Soares até o limite do nosso prazo, mantendo a mesa reservada até mesmo após a divulgação da programação. A Flip 2016 inclui, no Espaço Itaú Cultural de Literatura, que integra a programação oficial da festa, debates sobre autores que discutem a questão da representação negra, como Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Sérgio Vaz e Roberta Estrela D’Alva.

A Flip tem uma história na diversidade na literatura, tendo convidados grandes nomes da cultura negra brasileira e internacional em seus 15 anos de história, tais como Chimamanda Ngozi Adichie, Toni Morrison, Ngugi wa Thiong’o, Dany Laferrière, Gilberto Gil, Ondjaki, Paulo Lins, entre outros, e por isso se compromete a manter os olhos abertos à questão da representatividade negra em suas próximas edições. No ano passado, recebemos Deocleciano Moura Faião, poeta morador da Rocinha. Mantemo-nos abertos ao debate e à interlocução.”

— Não é uma questão de convidar ou não mulheres negras, este argumento reflete o “racismo à brasileira”. É uma questão de compromisso político e de coerência com o evento. Falar de racismo, pautar o debate sobre a questão racial não é uma opção — avalia Giovana Xavier.

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