Posts tagged Nem

Dicas que as Livrarias poderiam aprender com as Lojas de Quadrinhos

0

comic_book_store_photoshoot_03

Fábio Mourão, no Dito pelo Maldito

Apesar de atrair um público semelhante, as Livrarias e as Lojas de Quadrinhos, sempre preservaram diferenças notáveis entre si. E apesar de hoje em dia os dois ambientes buscarem uma harmoniosa fusão dentro de grandes empresas do ramo, ainda se nota uma desnecessária distância entre ambos.

Considerando que 2016 foi o melhor ano de vendas de HQs desde 1997, é visível que o negócio dos quadrinhos voltou a prosperar com a ajuda inegável das adaptações cinematográficas.
Como todo bom leitor eu amo uma boa livraria, mas creio que sempre há espaço para melhorias, e veremos aqui que muitas delas podem ser aprendidas com sua vertente colorida, superpoderosa, e obcecada por continuidade.

Construa, e eles virão
Antes de decidir me estabelecer definitivamente em São Paulo, eu aproveitava cada visita rápida para percorrer algumas das lojas de quadrinhos mais conhecidas da cidade. Mesmo sem saber me locomover pela metrópole, arriscava me desviar quilômetros do meu roteiro original de viagem, só para perder algumas horinhas na Comix Book Shop, Geek.Etc e outras do tipo que, apesar de trabalharem no mesmo ramo, quem conhece sabe que possuem particularidades únicas. Algumas são especialistas em Mangá, outras perfeitas para se encontrar números antigos, e uma grande parte delas oferece um espaço dinâmico com mesas para RPG, eventos esporádicos, e um point fixo para encontro de fãs do estilo.

Em resumo, as gibiterias aprenderam a agregar valor aos seus produtos. Algo que traga o público à loja por razões alheias aos quadrinhos, tornando-se praticamente um ponto turístico para os leitores de fora. E acredito que algumas livrarias poderiam investir em alguns espaços temáticos nesses modelos, com atrações periódicas e itinerantes em sua rede de lojas.

Algo como o “Mês Stephen King”, por exemplo. Com sessões de filmes baseados no trabalho do autor, oficinas literárias e palestras com autores nacionais do mesmo gênero, concurso de contos, sorteio de kits e brindes e, claro, descontos nos exemplares do mestre do terror durante o evento.

Nem todo evento precisa ser ‘literalmente’ literário

Muitas redes de livrarias já possuem espaços adequados para esses tipos de eventos, algumas portando teatros excelentes, porém, diversas vezes mal utilizados pela falta de variedade e criatividade de temas, deixando o público bocejando ao conferir o calendário de atividades.
Nossa sugestão é usar esses ambientes para hospedar pocket shows de comédia, microfones abertos, aulas de teatro, torneios de Card Game, e outras semânticas que pouco, ou nada, tem a ver com livros. Os eventos trazem as pessoas para a loja, e quando lá estão eles compram coisas pela impulsividade. Isso é matemática simples.

Antecipe os lançamentos

Devido a longevidade e continuidade dos quadrinhos, os seus leitores sempre sabem quais serão os próximos lançamentos das suas séries favoritas, permitindo um planejamento mensal antecipado dos compradores, que podem deixar as edições desejadas pagas e reservadas na loja. Gerando uma pré-venda natural dos exemplares.

As editoras anunciam seus lançamentos com semanas de antecedência na internet através de sites e blogs literários, mas nas livrarias só ouvimos falar deles depois de lançados e expostos nas prateleiras. A ideia aqui é criar o seu próprio boletim de notícias, com capas e sinopses dos próximos livros à venda, incluindo cupons de desconto, e promovendo uma excitação dos frequentadores para retornar a livraria. Como um plus a mais, contrate alguns blogueiros para preencher as páginas com matérias, e tornar o seu boletim irresistível ao público.

Seja um de nós

Faça parte da comunidade dos seus leitores. Isso é importante.
As lojas de quadrinhos já estão acostumadas com frequentadores portando armadura, maquiagem, máscaras e todo tipo de fantasias, e no fundo eles sabem que toda essa indumentária acaba compondo um atrativo a mais para o comércio.

Seus leitores também serão seus divulgadores se sentirem que, de alguma forma, fazem parte daquele ambiente. Promova concursos de cosplay, caças ao tesouro, e outras ações do estilo que deixem o público entretido e interagindo com o ambiente. Isso gerará uma constância na frequência, além de atrair um público todo novo.

Nem investiu em política de bem estar social na Rocinha, diz autor de biografia

0
O escritor inglês Misha Glenny - Barbara Lopes / O Globo

O escritor inglês Misha Glenny – Barbara Lopes / O Globo

 

Inglês Misha Glenny está lançando ‘O Dono do Morro’ na Flip

Lucas Altino, em O Globo

PARATY — O inglês Misha Glenny não se intimidou, na manhã desta quinta-feira, com a quantidade de jornalistas brasileiros presentes para fazer perguntas sobre o livro “O Dono do Morro”, que narra a história de Antonio Francisco Bonfim Lopes, mais conhecido como Nem, o chefe do tráfico da Rocinha preso em 2011. Falando quase o tempo todo em português, Glenny garantiu que o desafio era pequeno para alguém que morou por três meses na Rocinha, em 2014, a fim de entender o personagem principal de sua obra.

Lançado nesta Flip, o livro conta a história de Nem, chefe do tráfico na favela entre 2005 e 2011 e responsável, segundo o escritor, por investir num sistema de bem estar social na comunidade, permitindo a segurança do seu negócio e o aumento do lucro com o comércio de cocaína. O inglês de 58 anos, correspondente do “Guardian” e da BBC, se especializou em investigações criminais. Depois de presenciar in loco a detenção de Nem, decidiu que escreveria sobre a sua vida.

— Eu estava no Rio em novembro de 2011, quando ele foi preso. Foi um acontecimento público, fiquei impressionado com a cobertura intensa. Na ocasião, metade do Rio o demonizava e a outra o tratava como herói. Me impus duas condições: aprender português e morar por pelo menos dois meses na Rocinha — explica Glenny.

Muito além de uma biografia, o livro contextualiza os problemas sociais das favelas brasileiras, e o impacto do tráfico de cocaína na sociedade.

— Não é somente sobre o Nem, mas sobre a Rocinha, a guerra às drogas e a desigualdade social no brasil. A estatística mais importante do livro, na minha opinião, é que em 1982 o Rio teve a mesma taxa de homicídios que Nova Iorque; em 1989, os números de Nova Iorque se mantiveram e os do Rio já eram três vezes maiores. Isso ocorreu porque o Brasil se tornou a principal rota do pó para a Europa, o que desenvolveu hábito local também.

Crítico da política de guerra às drogas, Glenny, por outro lado, constatou o impacto do comércio de cocaína na Rocinha, durante o período em que Nem controlava o morro. Impressionado com a força da atividade econômica no local, o escritor acredita que o bem-estar vivido pelos moradores naquela época foi resultado da visão de mercado do traficante.

— É uma relação complexa, mas o tráfico teve um impacto positivo na favela. Em 2005, quando o Nem assumiu, a taxa de violência na Rocinha caiu. Foi a primeira favela a receber bancos, e até a primeira a receber uma sex shop. Acho que isso tudo tem a ver com a política do Nem. Ele percebeu que se a violência caísse, o lucro subiria. Apesar de negar que fez conscientemente, o fato é que grande parte dos lucros foram direcionados para um sistema de bem estar social. Naquele período era uma favela muito segura, muitos políticos e jogadores de futebol frequentavam o local. E muitos cantores, como Ja Rule, Ivete Sangalo e Claudia Leite, também fizeram show nos espaços de lá.

Depois da prisão de Nem, a Rocinha sofreu um choque de realidade com a entrada da UPP, que Glenny classifica como um trabalho corajoso e bem feito. O grande problema, para o escritor, foi o “fracasso absoluto da UPP social”.

— Entrevistei o secretário de Segurança José Mariano Beltrame. Ele me disse que o que mais chocou ele, ao entrar no governo, foi a percepção de que o estado estava ausente das favelas por 50 anos. A UPP foi uma ação corajosa, proporcionada pela união das esferas municipal, estadual e federal. As taxas de homicídio caíram, mas as de outros crimes como furto e estupro subiram. O caso Amarildo expôs como o projeto, sem a UPP social, era frágil. Agora, com o impacto da crise, acho que a situação da violência irá piorar muito depois das Olimpíadas.

Glenny descreve Nem como um homem que só entrou para o tráfico aos 24 anos, idade considerada tardia, e uniu sua inteligência com a experiência de gerência de equipes, adquirida quando comandava a entrega de revistas na Zona Sul. Para ele, a história do traficante ainda não foi compreendida por policiais, advogados e mídia. Crescido sob a marca da violência doméstica, Bem mudou de vida quando sua filha de apenas sete meses desenvolveu uma doença rara. O escritor lembra pesquisas que mostram como a violência doméstica, endêmica nas favelas brasileiras, causa consequências na vida adulta da vítima.

Minha primeira pergunta ao Nem (em entrevista feita na penitenciária de Mato Grosso do Sul) foi sobre sua família. Ninguém nunca o havia perguntado sobre isso. Pesquisando, descobri que sua filha ficou doente ainda bebê. Foi quando ele entrou para o tráfico. Seus pais eram alcóolatras, e ele sofreu muito com isso, mas mesmo assim era bastante apegado ao pai, de quem teve que tomar conta após ser baleado numa tentativa de assalto. Na ausência da mãe, que precisava trabalhar o dia inteiro, Nem acompanhou de perto o fim da vida do pai. Depois disso, ele prometeu que seria um bom pai e teve sete filhos.

Os donos do morro não são necessariamente visto como heróis em suas favelas, diz Glenny. Ele citou, por exemplo, o caso da Maré, onde “há medo real dos moradores”. Em sua pesquisa, o autor constatou que os chefes do tráfico exercem sua influência política através de três instrumentos: o monopólio da violência, o apoio da comunidade e a corrupção policial.

— Nem, que era chamado de mestre ou presidente pelos moradores, diria que o mais importante era o apoio da comunidade. Investigadores dirão que é a corrupção policial, prática mais usada por ele, que preferia corromper a usar da violência — disse Glenny, para quem a legalização da maconha seria um avanço, mas insuficiente para melhorar os índices criminais — Alguns traficantes brincam dizendo que a maconha é um problema, porque é mais pesado, fede e não dá tanto dinheiro. A cocaína é muito mais rentável.

Conheça sete maneiras de levar os games para a sua graduação

0
O Vida de Calouro traz dicas para você levar sua paixão por games para os estudos na universidade.

O Vida de Calouro traz dicas para você levar sua paixão por games para os estudos na universidade.

Yuri de Castro, no Extra

Não são poucos os que ingressam no curso de Ciência da Computação esperando proximidade com uma paixão: os games. A realidade é dura com os que fazem a escolha. Pouco (ou quase nada) do ambiente gamer é abordado em um curso voltado para a programação. Portanto, o Vida de Calouro quer que você não caia nessa armadilha. Gosta de games? É viciado? Quer levar isso para além da diversão? Saiba que passos seguir para que você se transforme em algo a mais do que consumidor.

1. Você já pode ser um bacharel, jovem gamer

Ainda haja uma grande quantidade de cursos voltados para a formação de tecnólogos (no Guia do Estudante há uma lista de todos os ofertados país afora), é possível ser um bacharel na área de games. A Anhembi Morumbi, por exemplo, é uma pioneira na área. O curso de Design de Games tem 12 anos e é três estrelas no Guia do Estudante. O bacharel e o tecnólogo têm funções complementares: o primeiro, com uma visão estratégica dos jogos; o segundo, responsável direto pela produção dos games.
– A faculdade permite que o aluno trabalhe em várias das complexas áreas que envolvem os games. Muitos alunos nossos já saíram formados para irem trabalhar direto em estúdios como a Ubisoft – revela Eliana Formiga, coordenadora do curso de Design da filial carioca da ESPM e que também oferece graduação na área.

A professora da ESPM acredita que interessados na área podem iniciar nos cursos livres ainda bem jovens. Foto: Divulgação

A professora da ESPM acredita que interessados na área podem iniciar nos cursos livres ainda bem jovens. Foto: Divulgação

2. Há cursos livres que falam o dia inteiro sobre apenas um assunto: games

Antes da graduação, você já pode estreitar seus laços com o processos de criação de games.

– Há vários cursos livres de longa e pequena duração. É um passo importante para uma auto-descoberta. A vida acadêmica é um tanto engessada e isso pode atrapalhar o aluno na hora de se descobrir e acaba se frustrando na graduação porque não sabe muito bem o que fazer – explica Lucas Ribeiro, coordenador acadêmico da Redzero, de Minas Gerais, e formado em Produção Multimídia pela PUC-MG.

– Recomendo esses cursos para a garotada de 12, 13 anos e que já descobriu o prazer dos games. Muito do que eles vão encarar na graduação pode ser iniciado já nesses cursos de pequena e média duração – ressalta Eliana.

Lucas Ribeiro aconselha a busca por cursos livres para que o futuro estudante de games descubra o que gosta de fazer.

Lucas Ribeiro aconselha a busca por cursos livres para que o futuro estudante de games descubra o que gosta de fazer.

3. Escolha um direcionamento e não seja monotemático

Não vacile: estude e mapeie a área dos games que mais lhe agrada. Se você gosta de programação, verifique a grade do curso escolhido. Faça o mesmo caso sua ambição seja mais artística. Errar o direcionamento pode trazer frustração e perda de tempo (e de dinheiro!). Só pra citar algumas das possibilides, você pode ser um artista 2d, ilustrador, artista conceitual, designer, modelador, animador, roteirista, game designer, designer de niveis, designer de som, programador…

– Muitos jogos aprofundam-se em questões culturais e antropológicas. É necessário que esse aluno estude artes para que seja um profissional completo. Uma hora o trabalho dele irá esbarrar em história, roteiro, ponto de decisão de um personagem – alerta a professora da ESPM.

4. Nem só de jogos vive a área de games.

Há espaço para funções que necessitam bem mais do que sua paixão por games. Um roteirista, por exemplo, vai necessitar de um amplo conhecimento que extrapolam os jogos. Conhecimento cultural é essencial.

– O aluno terá que buscar outras referências culturais. É uma área multidisciplinar e cheia de oportunidades – reforça Lucas.

– Há 12 anos, o mercado era outro. O curso era voltado para os jogos e mercado internacional. Só que a indústria mudou demais. Hoje há diversos canais de distribuição. É preciso que o aluno tenha um perfil empreendedor, monte um pequeno estúdio, crie games independentes. Quando eu falo de “games independentes” ou “indie” não estou falando com menosprezo, pelo contrário – alerta Delmar Galisi, coordenador do curso de Design de Games da Universidade Anhembi Morumbi.

Para que se almeje a criação de jogos, por exemplo, para PlayStation, é preciso que ter se envolvido experiências anteriores e não menos importantes. E para tal, não deixe de ser um profissional de conhecimento abrangente.

Coordenador de curso pioneiro, Delmar Galisi alerta para os perfis necessários e para necessidade de o aluno saber trabalhar em grupo.

Coordenador de curso pioneiro, Delmar Galisi alerta para os perfis necessários e para necessidade de o aluno saber trabalhar em grupo.

4.1 Frequente eventos e feiras dedicados aos games

Claro, aproveite para se divertir em eventos armados para gamers. Mas, lembre-se: é possível usar esses momentos para trocar informação e portfólio. Fique de olho nas novidades e faça contatos enquanto experimenta um jogo. Em dezembro, por exemplo, ocorre a Rio GamePlay & Conference.

5. Não seja tímido ou egocêntrico: saiba trabalhar em equipe

Uma característica dos alunos que buscam os cursos afins de games é a timidez. Em outros casos, o egocentrismo. Em uma área multidisciplinar e que desenvolve projetos coletivos, estes tipos de perfis precisam ser mudados durante o curso.

– Isso é relevante de se falar: é impressionante a quantidade de alunos tímidos. Como nosso é voltado para projetos, este aluno acaba sendo treinado e entende que vai ter que mudar de postura. – reitera Galisi, que completa mostrando que o inverso também se faz presente – Há os que são egocêntricos também.

– A faculdade permite que o aluno passe por várias áreas e trabalhe em equipe. Muitos quando querem trabalhar sozinho acabam desenvolvendo aplicativos para celulares. Mas o ideal é que se perceba como, em um estúdio, vários grupos cuidam de áreas diferentes. Ou seja, um grupo fica com roteiro, outro com modelagem, outro com programação. É preciso desenvolver essa habilidade – salienta Formiga.

6. Tá difícil agora? Calma.

“Infelizmente, não posso me deslocar para outro estado”, “não tenho dinheiro pra cursar essa faculdade”. Se essas frases podem ser ditas por você, calma.

– Temos o ProUni, o Fies que podem facilitar o acesso do aluno à universidade particular. Claro que se ele não mora em São Paulo [no caso específico da Anhembi], fica difícil – lamenta, Galisi.
Mas, calma.

6.1 Sério, calma.

Se você não pode se mudar pro estado em que está localizada a universidade desejada, não se desespere. Quer ver?

– Procure um curso correlato e direcionado ao que você quer fazer. Seja você progamador ou artista. Tente olhar em qual lugar você se encaixa. Se o aluno gosta muito de programação, faça Ciência da Computação, mas sabendo que não haverá quase nada de games ali. Mas é possível que depois você se direcione pra área desejada. O mesmo vale pro artista. Faça o curso de Artes Plásticas e procure um estágio em um estúdio – aconselha o próprio Galisi.

6.2 Construa seu portfólio

Não está em um curso voltado para games? Outra solução pra sua vida profissional pode ser a construção de um bom portfólio.

– Estamos falando de uma área em que ainda existe uma demanda maior do que o número de profissionais. O mercado valoriza muito um bom portfólio. Se você não pratica profissionalmente a sua paixão, o portfólio fica estagnado – também aconselha Lucas.

Ou seja: enquanto cursa sua graduação, tente ao máximo se aproximar dos games. Construa o seu portfólio e mostre que, apesar de não ter sido formado em um curso específico e voltado para os games, suas habilidades e experiência podem ser comprovadas em experiências profissionais.

7. E calma: não abandone seu curso de graduação. Seja o de Ciência da Computação ou de Artes Plásticas (ou outro que você acredite que possa te ajudar a se aproximar da área desejada).

Se enganou? Está frustrado? Não culpe o curso. Ainda não seja igual ao desejado, ele pode conferir uma boa base de conhecimentos para posteriores trabalhos e experiências na área de games.
– Pode-se tentar uma especialização depois da graduação. Especialize-se em uma área já próxima dos games. Se não for possível, tente um estágop; Não há receita, mas caminhos.

Concurso Cultural Literário (75)

38

capa como eu realmente

LEIA UM TRECHO

Nem sempre o que esperamos é o que realmente acontece na vida real. Para combater a constante quebra de expectativas ao seu redor, Niazinha acabou desenvolvendo uma imaginação um pouquiiinho criativa demais. São seus exageros que fazem cada história do Como eu realmente… um passeio único pelo lado meio esquisito, mas superdivertido da nossa imaginação.

Vamos sortear 3 exemplares de “Como eu realmente…“,  superlançamento da Nemo.

Para concorrer, basta completar a frase: “Percebo que sou exagerado(a) quando…” (utilize no máximo 3 linhas).

Se participar pelo Facebook, por gentileza deixe seu e-mail de contato.

O resultado será divulgado dia 11/7 neste post.

Boa sorte! 🙂

***

Parabéns aos ganhadores: Vanessa CondeLucas BenettiCalebe Pereira. \o/

Por gentileza enviar seus dados completos para livrosepessoas@gmail.com em até 48 horas.

‘Venci’, diz ex-catadora de latinhas do DF que passou em concurso do TJ

5

Marilene Lopes trocou renda mensal de R$ 50 por salário de R$ 7 mil.
‘Passei um ano com uma só calcinha’, lembra a hoje técnica judiciária.

Raquel Morais, no G1

Uma catadora de latinhas do Distrito Federal conseguiu passar em um concurso para o Tribunal de Justiça estudando apenas 25 dias durante período de repouso por causa de uma cirurgia. Ela trocou uma renda mensal de R$ 50 por um salário de R$ 7 mil. “Foi muito difícil. Hoje, contar parece que foi fácil, mas eu venci”, diz. Agora, ela diz que pensa em estudar direito.

Ex-catadora de latinhas Marilene Lopes e os filhos em frente ao barraco em que moravam em uma invasão em Brazlândia, no Distrito Federal (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Ex-catadora de latinhas Marilene Lopes e os filhos em frente ao barraco em que moravam em uma invasão em Brazlândia, no Distrito Federal (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Sem dinheiro nem para comprar gás e obrigada a cozinhar com gravetos, Marilene Lopes viu a vida dela e a da família mudar em 2001, depois de ler na capa de um jornal a abertura das inscrições para o concurso do Tribunal de Justiça do Distrito Federal.

Ela, que até então ganhava R$ 50 por mês catando latinhas em Brazlândia, a cerca de 30 quilômetros de Brasília, decidiu usar os 25 dias de repouso da cirurgia de correção do lábio leporino para estudar com as irmãs, que tinham a apostila da seleção. Apenas Marilene foi aprovada.

Nunca tinha nem fruta para comer. Eu me lembro que passei um ano com uma só calcinha. Tomava banho, lavava e dormia sem, até secar, para vestir no outro dia. Roupas, sapato, bicicleta [os filhos puderam ter depois da aprovação no concurso]. Nunca tive uma bicicleta”
Marilene Lopes, ex-catadora de latinhas que hoje trabalha no TJDF

“Minha mãe disse que, se eu fosse operar, ela cuidava dos meninos, então fui para a casa dela. Minha mãe comprou uma apostila para as minhas irmãs, aí dei a ideia de formarmos um grupo de estudo. Íamos de 8h às 12h, 14h às 18h e de 19h às 23h30. Depois eu seguia sozinha até as 2h”, explica.

O esforço de quase 12 anos atrás ainda tem lugar especial na memória da família. Na época, eles moravam em uma invasão em Brazlândia.

Marilene já havia sido agente de saúde e doméstica, mas perdeu o emprego por causa das vezes em que faltou para cuidar das crianças. Como os meninos eram impedidos de entrar na creche se estivessem com os pés sujos, ela comprou um carrinho de mão para levá-los e aproveitou para unir o útil ao agradável: na volta, catava as latinhas de alumínio.

Segundo ela, a situação durou um ano e meio, e na época a família passava muita fome. “Nunca tinha nem fruta para comer. Eu me lembro que passei um ano com uma só calcinha. Tomava banho, lavava e dormia sem, até secar, para vestir no outro dia. Roupas, sapato, bicicleta [os filhos puderam ter depois da aprovação no concurso]. Nunca tive uma bicicleta”, conta.

Mesmo para se inscrever na prova Marilene, que é técnica em enfermagem e em administração, encontrou dificuldades. Ela lembra ter pedido R$ 5 a cada amigo e ter chegado à agência bancária dez minutos antes do fechamento, no último dia do pagamento. E o resultado foi informado por uma das irmãs, que leu o nome dela no jornal.

“Tinha medo [de não passar] e ao mesmo tempo ficava confiante. Sabia que se me dedicasse bem eu passaria, só precisava de uma vaga”, diz. “Dei uma flutuada ao ver o resultado. Pedi até para minha irmã me beliscar.”

Ganhando atualmente R$ 7 mil, a técnica judiciária garante que não tem vergonha do passado e que depois de formar os cinco filhos pretende ingressar na faculdade de direito. “Mesmo quando minhas colegas passavam por mim com seus carros e riam ao me ver catando latinhas com o meu carrinho de mão eu não sentia vergonha. E meus filhos têm muito orgulho de mim, da nossa luta. Eles querem seguir meu exemplo.”

Marilene já passou pelo Juizado Especial de Competência Geral, 2ª Vara Cível, Órfãos e Sucessões de Sobradinho, 2ª Vara Criminal de Ceilândia, 12ª Vara Cível de Brasília e Contadoria. A trajetória dela inspira os colegas. Por e-mail, o primeiro chefe, o analista Josias D’Olival Junior, é só elogios. “A sua história de vida, a sua garra e o seu caráter nos tocavam e nos inspiravam profundamente.”

Servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal Marilene Lopes, que foi catadora de latinhas (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal
Marilene Lopes, que foi catadora de latinhas
(Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

A técnica afirma ainda que não se arrepende de nada do que passou, nem mesmo de ter tido cinco filhos – como diz terem comentado amigos. “Ainda hoje choro quando me lembro de tudo. Eu não tinha gás e nem comida e não ia falar pra minha mãe. Se falasse, ela me ajudaria, mas achava um abuso. Além de ficar 25 dias na casa dela, comendo e bebendo sem ajudar nas despesas, ainda ia pedir compras ou o dinheiro para o gás? Ah, não. Então assim, quando passei, foi como se Deus me falasse ‘calma, o deserto acabou’.”

Da época de catar latinhas, Marilene diz que mantém ainda a qualidade de ser supereconômica. Ela afirma que não junta mais alumínio por não encontrá-los mais na rua. “As pessoas descobriram o valor, descobriram que dá para vender e juntar dinheiro”. Já as irmãs com quem estudou, uma se formou em jornalismo em 2011 e outra passou quatro anos depois no concurso do TJ de Minas Gerais, e foi lotada em Paracatu.

Dificuldades

O primeiro problema enfrentado por Marilene veio na posse do concurso. A cerimônia ocorreu três dias após o nascimento do quinto filho, em um parto complicado. A médica não queria liberá-la para a prova, mas só consentiu com a garantia de que ela voltaria até 18h30. Por causa do trânsito, a catadora se atrasou em uma hora.

“A médica chamou a polícia dizendo que eu tinha abandonado meu filho. É que eu estava de alta, mas o bebê não, e ele precisava tomar leite no berçário enquanto eu estivesse fora”, lembra. “A enfermeira ligou para a polícia do hospital e explicou a situação e aí pararam de me procurar. A médica me deixou com o problema e foi embora, no término do plantão dela.”

Resolvida a situação, Marilene e a família viveram bem até 2003, quando o marido resolveu sair de casa. O homem, que já havia sido preso por porte ilegal de arma, havia “se deslumbrado” com a situação econômica da mulher. A casa e o carro comprados a partir do salário do tribunal precisaram ser divididos.

Atualmente, ela mora com os filhos na casa de um amigo, na Estrutural, enquanto aguarda a entrega de um apartamento de três quartos em Águas Claras. Marilene tem uma moto e, junto com uma das irmãs, está pagando um consórcio para comprar um carro zero.

Go to Top