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David Nichols quer que seu livro, ‘Nós’, vire série de TV

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David Nicholls na Bienal durante o painel Conexão Jovem.

David Nicholls na Bienal durante o painel Conexão Jovem.

Autor dos best-sellers ‘Um Dia’ e ‘Nós’ revelou o desejo durante a Bienal do Livro, no último sábado (5).

Laysa Zanetti, no Adoro Cinema

O escritor David Nicholls, autor do livro que deu origem ao filme Um Dia, esteve no Brasil para participar da Bienal do Livro no Rio de Janeiro, no último sábado (5). Em uma sessão de perguntas e respostas com seus leitores, o inglês revelou um desejo: Quer que o seu romance mais recente, ‘Nós’, seja transformado em série de TV.

Diferente de Um Dia, cuja versão cinematográfica foi protagonizada por Anne Hathaway e Jim Sturgess, ‘Nós’ é centrada na história de uma família. Douglas é um bioquímico aos 54 anos casado há 25 com Connie, que o acorda no meio da noite para dizer que quer o divórcio – justamente no momento em que o filho do casal, Albie, está para sair de casa para ir para a faculdade. Antes de tudo mudar, os três partem para uma viagem de um mês pela Europa, no que Douglas acredita ser a ocasião perfeita para reacender o romance no casamento e se aproximar mais do filho.

A história leva os três personagens ao redor de 13 cidades em diferentes países do continente europeu e, por isso, Nicholls acredita que na televisão, a narrativa pode ter um desenvolvimento melhor que no cinema: “É muito frustrante resumir tudo em 90 minutos. Então, prefiro que a história seja levada para a TV, onde você tem mais tempo para desenvolvê-la”, afirmou.

O autor revelou ainda que a história reflete um pouco de sua relação com o próprio pai, e que o livro conta a história do que acontece depois que duas pessoas se apaixonam e decidem ficar juntos: “Ainda é uma história de amor. Escrevi sobre aquilo que acontece nos dias depois do casamento”, finalizou.

Seus livros são muito procurados no Brasil pelo público jovem, o que surpreendeu o autor, acostumado com leitores na faixa entre 30 e 40 anos na Europa. A pergunta é: Você assistiria a esta série?

‘Não imaginei ver tantos leitores no Brasil’, diz David Nicholls na Bienal

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Publicado no TNOnline

“Não sabia que chovia no Rio. Está parecendo até Londres. Londres com praia”, brincou o inglês David Nicholls no início de seu bate-papo com o público na Bienal do Livro do Rio.
O clima no auditório Conexão Jovem foi bastante caloroso, o exato oposto do frio desta noite de sábado (5) no Rio. Uma legião de fãs, especialmente garotas, lotou o auditório para ver o escritor.

David Nicholls, 48, é autor do best-seller “Um Dia”, que já vendeu mais de 5 milhões de exemplares no mundo -450 mil no Brasil desde 2011, quando foi publicado pela Intrínseca. A editora lançou neste mês “Nós”, novo romance do autor.

Bastante simpático, mandou recados para as fãs, ouviu declarações de amor e comentou com ironia e modéstia o início de sua carreira.

“Não posso expressar como estou feliz em ver tantos jovens leitores no Brasil. Nunca imaginei isso. Estou muito honrado”, afirmou.”Na Inglaterra, temos que lutar para fazer os jovens lerem. Muitos só querem saber de jogos, dos computadores.”

‘UM DIA’
Vários fãs fizeram perguntas sobre a criação do romance “Um Dia”, que inspirou um filme homônimo em 2011, protagonizado por Anne Hathaway e Jim Sturgess. O romance retrata o encontro de Dexter e Emma na noite de formatura da faculdade e os acompanha ao longo de 20 anos, sempre na mesma data: 15 de julho.

“Quando escrevi ‘Um Dia’, tinha acabado de virar pai. Foi como uma despedida de minha juventude.”

Terceiro romance de Nicholls, o livro tornou-se um sucesso em vários países.
“Tenho muito orgulho dele. Foi uma virada na minha carreira. Se tivesse que escolher apenas um entre meus livros, seria ele.”

No mais recente romance, “Nós”, ele narra a história de um homem de 54 anos que planeja uma viagem pela Europa para tentar reacender seu casamento.

“Eu quis contar o que acontece depois do casamento, o que acontece depois que o casal tem um bebê. Ainda é uma história de amor, mas numa etapa posterior a ‘Um Dia'”, contou.
“Eu queria que o livro fosse uma espécie de viagem, uma perseguição, uma coisa épica. As viagens podem ser emocionantes, revigorantes, mas também trazer alguns desastres.”
A relação entre o protagonista de “Nós” e seu filho universitário reflete um pouco o convívio tenso que Nicholls teve com o pai.

“Resolvi respirar fundo e confrontar esse assunto. Na metade do livro ele morreu. Isso tornou o processo muito emotivo.

ATOR HORRÍVEL
Nicholls contou que levou muito tempo para assumir a vontade de ser um escritor. Por um longo período tentou viver como ator. “Mas era um ator horrível”, comentou, arrancando risos do público.

Só começou a escrever profissionalmente aos 33 anos. Um dos fãs perguntou qual era seu conselho para aspirantes a escritor.

“Ler, ler, ler e pensar da forma como um escritor pensa. Tentar entender por que o escritor construiu determinada cena dessa forma. O mais difícil de escrever é justamente escrever, ter disciplina e foco.”

Sobre a literatura brasileira, diz conhecer apenas um livro, um escrito por Clarice Lispector -não revelou o título.”É uma escritora muito difícil. Vocês acham difícil? A reputação de Clarice está crescendo muito na Europa e nos EUA”, comentou.

Uma outra fã quis saber para qual time de futebol o escritor torce.
“Isso pode ser uma coisa horrível para se dizer no Brasil, mas eu nunca vi uma partida inteira de futebol na minha vida”, confessou, aos risos da plateia.

Texto de MARCO RODRIGO ALMEIDA, ENVIADO ESPECIAL
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

David Nicholls: “Detesto livros que pretendem nos dizer como a vida é”

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O autor visitará o Brasil em setembro, na Bienal do Livro do Rio Foto: Chal Shinnie / Divulgação

O autor visitará o Brasil em setembro, na Bienal do Livro do Rio Foto: Chal Shinnie / Divulgação

Leia entrevista com o escritor britânico David Nicholls, autor de “Um Dia” e “Nós”

Alexandre Lucchese, no Zero Hora

Autor do best-seller Um Dia (2009), que se tornou filme estrelado por Anne Hathaway em 2011, o escritor britânico David Nicholls tem data para conhecer o Brasil. No dia 5 de setembro, ele estará na Bienal do Livro do Rio para divulgar seu novo romance, Nós, sobre o qual conversou por telefone com o 2º Caderno.

Nós é um livro sobre o fim de um casamento, mas também é uma narrativa de viagem, pontuada com humor. Foi uma opção consciente falar de um tema pesado com leveza?

Quando comecei como escritor, já escrevia comédias para a TV. A comédia é algo instintivo para mim, mesmo quando escrevo roteiros para projetos sobre temas mais obscuros, como solidão, envelhecimento e fins de relacionamentos. Eu não havia viajado muito até as turnês de promoção de Um Dia (best-seller lançado em 2009). A partir daí, fiquei empolgado para fazer um livro sobre os aspectos difíceis das viagens, que podem ser estressantes e desastrosas.

E também é um modo de dar mais movimento a uma história muito íntima, que poderia ser monótona caso se desenrolasse em um mesmo lugar.

Exatamente. O maior desafio para quem quer escrever sobre amor, família e relacionamento é manter a história empolgante. Há uma grande tradição de comédia sobre o cotidiano na Grã-Bretanha, mas queria escrever algo com aventura, meio épico.

Um Dia virou filme. Você já pensou em escrever uma sequência, transformá-lo em uma série?

Muita gente me pede isso, mas não sei como poderia ser desenvolvida ou melhorada uma história que, para mim, acabou definitivamente. Além disso, Um Dia tem uma estrutura que só pode ser usada uma vez: os capítulos narram um dia a cada ano na vida dos personagens. O que eu poderia fazer para continuar? Escrever o dia de amanhã? Os próximos 20 anos? Isso faz com que não consiga voltar a essa história, por mais que goste dela.

Você também é roteirista. Quando escreve um livro, pensa que ele poderá se tornar filme?

Não. Quando tenho uma história, penso muito para decidir onde funcionará melhor. Há benefícios e problemas diferentes que a ideia terá de enfrentar ao ir para as telas ou se tornar um livro. Na tela, é difícil mostrar as pessoas envelhecendo, por exemplo, e você precisa contar uma história em duas horas. As melhores piadas de um livro não estão nos diálogos, é preciso pensar de que modo podem funcionar na tela. Por outro lado, claro que sou muito influenciado pelo cinema, por isto meus romances têm muito movimento. Mas não acho que livros devem ser tratados como filmes não realizados, e sim como… livros.

Escrever é um modo de encontrar soluções para suas próprias questões?

Nunca encarei a escrita como uma terapia, e certamente nada do que já escrevi me deu alguma resposta. Inevitavelmente escrevemos sobre o que acontece conosco, o que nos assusta e nos mantém acordados à noite, no entanto jamais abordei essas coisas diretamente. Acredito que bons livros nos fazem olhar melhor para nossas perguntas, mas sem trazer respostas. E é bom que seja assim. Detesto livros que pretendem nos dizer como a vida é.

Inspirado em trilogia de best sellers, “Divergente” chega hoje aos cinemas

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Inspirado em trilogia de best sellers, "Divergente" chega aos cinemas Paris Filmes/Divulgação

Zoe Kravitz e Shailene Woodley em ação no longa Foto: Paris Filmes / Divulgação

Dois primeiros volumes da série já venderam 100 mil exemplares no Brasil

Alexandre Lucchese, no Zero Hora

Ter um livro na lista dos mais vendidos é um grande feito para qualquer jovem escritor. Que dirá três best-sellers em sequência, todos já com adaptação garantida para as telas.

Essa é a história da americana Veronica Roth, 25 anos, autora do fenômeno literário da vez, a trilogia Divergente, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas. Iniciada em 2011, a série já vendeu mais de 10 milhões de exemplares em 15 países e agora tenta repetir o sucesso com o primeiro longa-metragem da franquia. Há cerca de um mês em cartaz nos Estados Unidos, o filme dirigido por Neil Burger (de O Ilusionista) arrecadou mais de US$ 125 milhões em ingressos – o que não é um recorde, mas uma boa performance. Também no Brasil a expectativa é que o filme repita a boa trajetória de Crepúsculo e Jogos Vorazes, sagas que conquistaram jovens leitores devotados, o que acabou se refletindo nas bilheterias.

– Já esperávamos que o livro fosse um sucesso. No entanto, fomos pegos de surpresa pela intensidade da recepção do público – afirma Ana Martins Bergin, gerente do departamento infantojuvenil da Rocco, editora da saga literária no país.

A série acompanha a vida da Beatrice Prior (interpretada no cinema por Shailene Woodley, de Os Descendentes), jovem que mora nos escombros de Chicago num futuro distópico, em que as cidades foram devastadas por uma guerra global. Na busca de uma paz perene, a sociedade se dividiu em cinco facções, conforme as qualidades que deveriam cultivar: Abnegação, Amizade, Audácia, Erudição e Franqueza. Aos 16 anos, cada habitante deve escolher entre permanecer na facção dos pais ou renunciá-la. No caso de renúncia, eles jamais deverão retornar ao lar. A trama do primeiro livro, Divergente, flagra Beatrice às vésperas de fazer sua escolha.

Formada em escrita criativa na Universidade Northwestern, Veronica Roth prova que sabe combinar os ingredientes de uma boa saga para jovens adultos: distopia, ação e uma personagem frágil, que precisa aprender a fazer escolhas adultas. E, claro, não falta uma boa dose de romance, já que Beatrice se apaixona por Quatro (interpretado por Theo James, de Anjos da Noite – O Despertar), um enigmático e experiente mentor de sua facção.

Com bons cenários criados a partir das descrições do livro, o filme traz boas cenas de ação, derrapando apenas nas enfadonhas pausas para o açucarado romance.

– Não tenho dúvida de que Divergente aponta uma tendência forte no mercado, aberta com Crepúsculo e seguida com Jogos Vorazes. São livros de grande identificação com o público jovem adulto, mas que foram, de certa forma, negligenciados pelos grandes estúdios e tiveram sucesso com as produtoras independentes. Acredito que isso esteja gerando uma busca por novos autores – avalia Pedro Butcher, crítico de cinema especializado em pesquisa e análise de mercado.

A saga

Divergente (Rocco, 504 páginas, R$ 39,90) > Em um futuro distópico, a jovem Beatrice Prior vive em um mundo dividido em facções. A versão cinematográfica estreou nos EUA em 21 de março e arrecadou mais de US$ 125 milhões.

Insurgente (Rocco, 512 páginas, R$ 39,90) > Beatrice começa a melhor compreender os conflitos políticos e ideológicos na disputa pelo poder. No Brasil, os dois primeiros livros da saga já venderam mais de 100 mil exemplares.

Convergente (Rocco, 528 páginas, R$ 39,50) > Com o sistema de facções em ruínas, Beatrice precisa fazer novas escolhas. Lançado no Brasil em março, com tiragem inicial de 30 mil exemplares, o volume explica como o mundo foi devastado. Nos cinemas, Convergente será dividido em dois filmes.

 

Quatro (Rocco, no prelo)> Contos narrados pelo ponto de vista de Quatro, o par romântico de Beatrice. Previsto para ser lançado no Brasil em outubro, o livro configura uma trama complementar para os fãs da saga da história.

Nos arquivos de Susan Sontag

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Biógrafo de Clarice Lispector relata visita aos arquivos da escritora Susan Sontag (1933-2004), conservados na Universidade da Califórnia. A partir da experiência, reflete não só sobre os “restos literários” de sua próxima biografada mas também sobre as peculiaridades do trabalho de pesquisador na era digital.

Benjamin Moser, na Folha de S.Paulo

Tradução de Clara Allain

Ao longo da vida, Susan Sontag encheu seus diários com listas de palavras (“tegumento”, “fedora de aba caída”, “mingau”, “mofa”) que encontrava em suas leituras e viagens. Essas listas e os diários que as contêm podem ser consultadas, em grande medida, do mesmo modo como pesquisadores sempre consultaram arquivos literários: indo à biblioteca onde estejam -no caso, o Departamento de Coleções Especiais da Biblioteca de Pesquisas Charles E. Young, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA)-, preenchendo alguns formulários e aguardando enquanto o encarregado busca o desiderato nas estantes.

Uma expressão brasileira faz logo sentido para qualquer um que já tenha pesquisado uma coleção tão vasta quanto a de Sontag: “arquivos implacáveis”.

A escritora Susan Sontag na França, em 1972/ Jean-Régis Roustan - 3.nov.1972/Roger-Viollet

A escritora Susan Sontag na França, em 1972/ Jean-Régis Roustan – 3.nov.1972/Roger-Viollet

Quando cheguei a Los Angeles, no início de janeiro, para trabalhar na biografia de Sontag que estou escrevendo, imaginei que três meses seriam mais que suficientes. Ao longo dos dois últimos anos, li a obra dela e viajei, principalmente pela Europa e pela América Latina, a fim de encontrar as pessoas que possam me ajudar a reconstruir seu eu implacável.

É difícil -impossível- pensar em um escritor norte-americano importante do século 20 com uma vida tão internacional quanto a de Susan Sontag. Mesmo os expatriados famosos de gerações anteriores tendiam a se fixar em destinos bastante comuns, como Londres, Paris ou Roma. Londres, Paris e Roma eram importantes para Sontag, mas São Paulo, Estocolmo e Sarajevo também.

Na maioria desses lugares, alguns dias ou uma semana bastavam. O tempo de que eu dispunha em Los Angeles parecia um verdadeiro luxo. Mas os arquivos são
tão vastos que já perdi a esperança de algum dia poder examinar tudo: centenas de caixas com pedaços de papel, fotos, diários, faturas de hotel, programas de ópera, cartas de amor, rascunhos de manuscritos (em muitos casos, inéditos) -materiais que emocionam quem os tem em mãos e que revelam coisas que às vezes só um documento original pode expressar.

É possível ver na caligrafia de Sontag, de uma forma como nunca o permitiria uma carta datilografada, o modo febril com que ela, pouco após completar 40 anos, lidando com o diagnóstico que lhe apontou a finitude da própria vida, esboçou as meditações sobre o câncer que se tornariam “Doença como Metáfora”, e com que cuidado, entre as mesmas páginas, guardou as receitas que seu médico em Paris escreveu para um tratamento de quimioterapia então impensável nos Estados Unidos. Ela não tinha como saber, enquanto escrevia o livro, que os medicamentos nessas listas, rabiscadas entre seus escritos, a salvariam.

Mesmo quando lemos sobre temas menos carregados, há algo de melancólico nessa proximidade com uma pessoa que existiu e não existe mais. Essas coleções eram conhecidas, em tempos passados, como “restos literários”: após uma vida escrevendo, o que resta é isso.

Ou era.

Um escritor da geração de Sontag -ela nasceu em 1933- trabalhou a maior parte de sua vida sobre papel. As cartas de Sontag são cartas reais; seus livros foram escritos usando caneta e máquina de escrever. Mas, quando ela morreu, em 2004, esses papéis já estavam rapidamente se convertendo em “restos”. Hoje, enviar uma carta, diferentemente do que há 20 anos, quase equivale a fazer uma declaração de princípios: como os telegramas, as cartas em papel geralmente se reservam a ocasiões especiais e o mero fato de enviar uma carta já revela coisas sobre o remetente que em outra época não teria revelado. (Com frequência, sua idade avançada.)

GUARDIÕES

A explosão de material digital nos últimos 25 anos cria um desafio especial para os guardiões dos restos literários.

Recentemente penetrei nos recônditos da biblioteca de pesquisas da UCLA para conversar com Gloria Gonzalez, uma moça de 24 anos, natural do Mississippi. Gonzalez se viu na dianteira do movimento para preservar estes materiais desde que, ainda estudante, começou a lidar com os arquivos de Sontag. Enquanto eu conversava com ela, minhas anotações começaram a se parecer com as da própria Susan Sontag, linhas cheias de palavras pouco familiares, que definiam um mundo novo para mim; “bit rot”, “software forense”, “write blocker”.

“Na verdade, não é tão novo assim”, Gonzalez me disse. “As pessoas usam e-mail há 20 anos. Mas é novo em arquivos. Não é comum universidades procurarem esse tipo de material.”
O material, propriamente dito, consiste em dois pequenos discos rígidos, cada um rotulado com um post-it, que Gonzalez me mostrou em um cubículo localizado atrás da sala dedicada às coleções especiais. “São objetos físicos”, disse Gonzalez -e, nesse sentido, não são diferentes dos livros e manuscritos que bibliotecários sempre colecionaram e conservaram.

Esses objetos, porém, são muito mais vulneráveis do que um livro tradicional. São ameaçados pelo “bit rot”, aquilo que acontece quando os zeros e uns em que os dados digitais são gravados se confundem misteriosamente; por certos equipamentos de armazenagem instáveis (drives USB, por exemplo); e pela ameaça mais grave da obsolescência tecnológica.

Enquanto ela me mostrava, na Wikipedia, fotos dos computadores que Sontag usou -um PowerBook 5300, o mesmo computador que minha mãe me deu quando entrei na faculdade, um PowerMac G4 e um iBook- tive sensação igual à de quando compramos um computador ou celular novo: aquele ligeiro encabulamento que nos alcança quando nos damos conta de que o objeto que alguns meses antes parecia ultramoderno ficou pateticamente ultrapassado.

Mas as máquinas em si não estão na biblioteca: pesquisadores futuros vão poder consultar os materiais em um laptop na sala de leitura, usando um software que os mostrará do modo como Sontag os teria visto. Isso é feito para proteger os arquivos físicos. “Cada vez que você abre um e-mail ou um arquivo do Word, o material é modificado”, disse Gonzalez. “Há atualizações automáticas, ou -por exemplo, em um arquivo do Word- a data muda para a data em que o arquivo foi consultado, e você não pode ver quando foi a última vez em que ela trabalhou nele.” (Em “Ensaios sobre a Fotografia”, Sontag escreveu que tão somente olhar para alguma coisa já significa modificá-la.)

Para preservar os arquivos, Gonzalez recorre a técnicas desenvolvidas pelo setor policial, uma área conhecida como análise forense computacional. A principal proteção dos metadados de um computador é um “write blocker”, que permite que o material seja visto sem deixar qualquer rastro do visitante. É uma intervenção técnica simples. A principal ameaça vem das pessoas que simplesmente descartam computadores velhos, desconhecendo seu valor.

MAL-ESTAR

Sontag escreveu 17.198 mensagens de e-mail, que em breve estarão disponíveis para consulta num laptop especial. Eu tive a oportunidade especial de vê-los na biblioteca, e a experiência me provocou um mal-estar que eu nunca antes tinha sentido em anos de pesquisas históricas.

Qualquer biógrafo conhece o constrangimento, que ocasionalmente beira a náusea, provocado pela pesquisa extensa sobre a vida de outra pessoa. Nunca conheci Sontag ou Clarice Lispector, tema de meu livro anterior. Mas, após anos de pesquisas, entrevistas, leituras e viagens, provavelmente sei mais sobre as duas que qualquer pessoa que não tenha feito parte de seu círculo mais íntimo. Sei de sua vida sexual, de suas finanças, conheço seu prontuário médico e seus fracassos profissionais, as dificuldades que tinham com pais e filhos, os segredos dolorosos que elas tão desesperadamente queriam manter ocultos.

Mesmo sem tais dificuldades, que fazem parte de toda e qualquer vida, também a forma impõe escolhas. Assim como a história não é o passado propriamente dito, mas um relato do passado, a biografia não é uma vida, mas a história de uma vida. Do mesmo modo como um romancista fica conhecendo seus personagens, também um biógrafo fica conhecendo os dele, e, diante do caos de uma vida inteira, sabe que qualquer coisa que possa contar sobre o sujeito é apenas uma seleção pequena que cabe em uma narrativa escolhida de acordo com seus próprios gostos e interesses.

O biógrafo também tem a consciência, sempre, de que sua posição, a qual necessariamente envolve julgamentos acerca do caráter de sua personagem e das escolhas que fez, é profundamente injusta, pela simples razão de que ela própria não pode ser consultada.

Essas preocupações me são familiares e sempre as tenho em mente. Ainda assim, ler papéis e manuscritos é uma coisa. Vasculhar os e-mails de uma pessoa é outra coisa inteiramente diferente, e a sensação de estranheza e voyeurismo que me dominou quando eu estava sentado com Gonzalez disputou espaço com a curiosidade irrefreável que sinto com relação à vida de Sontag.

Ler os e-mails de uma pessoa é vê-la pensando e falando em tempo real. Se a maioria dos e-mails não é interessante (“o carro a buscará às 7h30 se for ok beijos”), outros revelam qualidades inesperadas cuja descoberta é um deleite. (Quem poderia imaginar, por exemplo, que Sontag enviava e-mails com o título “E aí, o que rola?”).

Vemos Sontag, que tinha tantos amigos, felicíssima por poder estar em contato com eles tão facilmente (“estou pegando a febre do e-mail!”); vemos a escritora insaciavelmente solitária buscando entrar em contato com pessoas que mal conhecia e convidando-as a fazer uma visita. Nas reações delas, percebemos sua perplexidade, como hesitavam em incomodar o ícone de reputação assustadora.

Com os softwares hoje disponíveis, o biógrafo que se esforça para se colocar na posição de seu sujeito enfrenta novos dilemas. Uma das ferramentas mais interessantes usadas por Gonzalez é um programa chamado Muse, que pode fazer buscas em um banco de dados de e-mails e mapear os sentimentos do autor da correspondência com precisão espantosa.

Podemos ver categorias como “médico”, “irada” e “parabéns”. Podemos ver, em um gráfico, a porcentagem de tempo em maio de 2001, por exemplo, em que Susan Sontag esteve feliz, triste ou incomodada.

Enquanto eu me assombrava com essa tecnologia, me perguntei como me sentiria se alguém vasculhasse meus e-mails e revelasse que eu tinha proferido uma média de 321 observações mal-humoradas por ano e que meu índice semanal de tesão tinha variado entre 34,492% e 56,297%. Deveríamos realmente resumir e reduzir emoções e vidas humanas dessa maneira, simplesmente porque está a nosso alcance fazê-lo? Teria Susan Sontag desejado que sua vida fosse analisada desse jeito? Alguém o quereria?

Sontag escreveu que as fotos dizem respeito ao que não mostram tanto quanto ao que mostram e que o que vemos depende de como o fotógrafo enquadra a cena. Seus diários revelam um apreço por estatísticas e fatos surpreendentes, mas o cerne moral de seus escritos (sobre a fotografia, a guerra, a política) está na insistência em afirmar que aquilo que vemos nem sempre é o que está ali.

Hoje vivemos nossas vidas cada vez mais no computador. A quantidade de informação contida em nossos smartphones é muito maior do que Sontag poderia ter imaginado em sua vida, embora tenha morrido há menos de uma década. Quem acredita no valor da pesquisa histórica entende que cada vez mais “hard drives” como os preservados na biblioteca da UCLA serão onde essa pesquisa será feita. Mas revelarão mais sobre nossas vidas? Ou, ao mostrar demais, acabarão por revelar menos?

BENJAMIN MOSER, 37, é autor de “Clarice,” (ed. Cosac Naify, 2009)

CLARA ALLAIN, 56, é tradutora.

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