Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

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DarkSide Books lançará coletânea dos melhores contos e escritos de H.P. Lovecraft

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Claudio Gabriel, no Torre de Vigilância

A editora DarkSide Books irá lançar a coletânea completa de obras – desde contos, até livros, novelas e outros – de um dos maiores escritores da fantasia e terror: H.P. Lovecraft. A primeira edição é intitulada “Medo Clássico” e conta com notas comentadas de Ramon Mapa, ilustrações de Walter Pax e uma seleção de cartas e documentos coletados pelo historiador Clemente Penna na Brown University, conseguidos especialmente pela editora para esse número. Confira a capa do Volume 1:

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Lovecraft é um dos maiores escritores da história da humanidade, principalmente no gênero fantástico. Suas obras e escritos inspiraram Conan, Soul Eater, Supernatural, Metallica, Arctic Monkeys, Doom, Castlevania, Stephen King e muito mais. Praticamente de tudo de fantasia do século XX e XXI, principalmente focado em gêneros mais sombrios, possui alguma referência ou influência do autor.

Escritora canadense Margaret Atwood se torna ícone pop

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Daniel Oliveira. em O Tempo

Nascida em Ottawa, capital do Canadá, em 1939, Margaret Atwood começou a escrever poemas e peças aos 6 anos. Com 21, ela se formou em literatura na Universidade de Toronto e, aos 23, concluiu o mestrado em Harvard. Desde então, já publicou 16 romances, 15 coletâneas de poemas e inúmeros contos e ensaios.

Isso tudo já a havia consolidado como uma das grandes escritoras da atualidade. Mas foi só em 2017 que o nome de Atwood ultrapassou os confinamentos da alta literatura e ganhou um novo status: o de ícone da cultura pop. Com as adaptações dos romances “O Conto da Aia” (na série “The Handmaid’s Tale”, grande vencedora do último Emmy) e “Vulgo Grace” (na minissérie “Alias Grace”, que estreou na Netflix no último dia 3), a autora e sua obra se tornaram uma espécie de bíblia oracular da atual onda do feminismo – antecipando todas as questões em voga no movimento.

“É difícil responder o porquê disso. Porque ‘The Handmaid’s Tale’ começou a ser produzida antes da eleição do Trump. E ‘Alias Grace’, antes das atuais acusações de assédio em Hollywood. Essas são questões que sempre existiram para nós, mulheres, e de repente se tornaram mais prementes”, analisa Maria Rita Drummond, professora de literatura da Universidade Federal de Santa Catarina.

O que a pesquisadora, que ministra um curso sobre distopias, reconhece na obra de Atwood é uma capacidade de enxergar na dominação da mulher pelo homem e no culto a uma masculinidade tóxica a raiz de vários dos problemas que assolam o mundo hoje. “Mesmo ‘1984’, que é o livro que pula na cabeça das pessoas quando se fala de distopia, é absolutamente cego, surdo e mudo para questões de gênero. Muito do que ele diagnostica ali como problemas da humanidade, como características natas do ser humano, ela diz que não, que são traços de um culto à masculinidade e a uma ideia de homem que não é natural, é algo que se cria”, analisa.

Maria Rita ressalta, porém, que isso não é uma qualidade exclusiva da canadense. Escritoras como Katharine Burdekin, em “Swastika Night” (1937), e Mary Shelley, em “Frankenstein” (1818), já haviam realizado reflexões similares. E o curioso é que, mesmo que a opressão feminina por uma ideologia patriarcal seja um dos temas mais recorrentes em sua obra, Atwood nega que romances como “A Mulher Comestível”, “O Conto da Aia” e “Oryx e Crake” sejam feministas, alegando que esse título se aplicaria apenas a escritores que trabalham conscientemente dentro dos parâmetros do movimento.

“Acho que essa declaração dela tem muito daquela coisa do autor que não quer ser colocado em uma caixinha, o que é válido”, argumenta a professora. No entanto, ela acha que o que importa é o texto. “E se a gente levar em conta as questões centrais propostas pelo feminismo, ou pelos feminismos, não tem como não pensar em ‘O Conto da Aia’ e quase na obra inteira dela, que discute noções recebidas de dominação sexual e estereótipos de gênero”, afirma.

Já a estudante de letras Barbara Deister reconhece a importância do chamado à reflexão de “Aia”, mas não acredita que o romance possa ser considerado estritamente feminista. “No livro, a protagonista é uma personagem insípida, emocionalmente dependente dos homens, que mantem uma postura resignada ante sua nova realidade e, em algumas passagens, faz críticas pesadas a sua mãe, que ia para a rua fazer piquete e protestar ‘junto com suas amigas feministas e barulhentas’”, descreve. Para ela, as críticas e a desqualificação do feminismo feitas no livro representam a opinião da própria escritora e, por isso, ela preferiu a série, “que mostra uma personagem muito mais complexa, feminista, com mais atitude e menos dependente dos personagens masculinos”.

Outra polêmica envolvendo Atwood diz respeito à sua rejeição de que obras como “Aia” e “Oryx e Crake” sejam categorizadas como ficção científica. Para ela, mesmo sendo distopias futuristas, os livros são “ficções especulativas”. “Para mim, o rótulo da ficção científica pertence a romances com elementos que a humanidade ainda não é capaz de fazer, enquanto a ficção especulativa emprega recursos já disponíveis e se passa no planeta Terra”, explicou.

Drummond vê nisso outra recusa da autora a ser enquadrada numa caixinha. Para além de discussões categóricas, porém, a professora acredita que o verdadeiro poder da obra de Atwood está na compreensão que ela tem da impossibilidade de se entender totalmente o outro – especialmente as mulheres, a quem tão pouca voz foi dada historicamente. Tudo a que se tem acesso são pedaços, fragmentos de discursos – acadêmicos, científicos, jornalísticos, históricos, pessoais. E a obra dela, desde romances como “Vulgo Grace” e “O Assassino Cego” a contos como “O Ovo do Barba Azul”, é sempre construída a partir desses diferentes olhares e gêneros textuais – o que, Drummond reconhece, pode torná-la de difícil leitura para não-iniciados.

Status. Adaptações da obra de Atwood conquistaram o público

Status. Adaptações da obra de Atwood conquistaram o público

“Mas é o que eu mais gosto na literatura dela, essa consciência que você tem de que há sempre mais de uma história sendo contada ao mesmo tempo: alguém contando uma história para alguém, uma história sendo escrita, um futuro imaginado a partir de questões atuais. Essa característica de grandes escritores de questionar a permeabilidade da verdade e enxergar o poder da história que contamos para os outros e para nós mesmos”, sintetiza.

Romances

‘A Mulher Comestível’ (1969)

‘O Laço Sagrado’ (1972)

‘Madame Oráculo’ (1976)

‘A Vida Antes do Homem’ (1979)

‘Lesão Corporal’ (1981)

‘O Conto da Aia’ (1985)

‘Olho de Gato’ (1988)]

‘A Noiva Ladra’ (1993)

‘Vulgo Grace’ (1996)

‘O Assassino Cego’ (2000)

‘Oryx e Crake’ (2003)

‘A Odisseia de Penélope’ (2005)

‘God’s Gardeners’ (2009)

‘O Ano do Dilúvio’ (2009)

‘MaddAddam’ (2013)

‘The Heart Goes Last’ (2015)

Vem mais aí

A ‘Trilogia MaddAddam’ – formada pelos livros “Oryx e Crake”, “O Ano do Dilúvio” e “MaddAddam” – está atualmente sendo adaptada pela HBO.

Os filmes clássicos que são adaptações de livros e você provavelmente não sabia

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Cena do filme Clube da Luta

Cena do filme Clube da Luta

Publicado no Preparado pra Valer

Alguns livros fazem tanto sucesso que vão parar nos cinemas através de um filme ou mesmo uma franquia inteira. É o caso, por exemplo, de “Harry Potter”, “Jogos Vorazes” e “Garota Exemplar”. Mas em outros casos a obra cinematográfica obtém tanto destaque que nem imaginamos que a história original não veio da cabeça do roteirista (que muitas vezes também é o diretor), mas sim de um livro. Muitas vezes isso ocorre porque a obra até então não era tão conhecida, ou mesmo porque a história original tem um nome diferente do utilizado pelo filme.

Seja qual for o caso, há muitos clássicos ou títulos premiados que talvez você nem saiba que tiveram a sua inspiração em uma publicação. Se você é dessas pessoas que gosta de ler a história original para compará-la com a adaptação, dá uma olhada nas obras que tiveram a sua origem na literatura em uma lista feita pelo #P:

Blade Runner (1982)

O clássico que recentemente ganhou uma continuação para os cinemas foi inspirado em uma obra de ficção científica intitulada “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”. Pois é, o nome é tão diferente que é bem possível que você já tenha até visto na livraria e nem tenha percebido. Embora a obra original também fale de um futuro distópico, ela acaba se aprofundando mais em relação ao filme ao oferecer também subtramas que se desenvolvem com a narrativa.

O autor do livro, Philip K. Dick, infelizmente morreu pouco tempo antes do longa chegar aos cinemas, e embora estivesse envolvido diretamente com a produção do filme ele vivia mudando de ideia a respeito de sua qualidade. Por isso não temos como saber se ele teria aprovado a sua adaptação para as telonas ou não.

Um Corpo que Cai (1958)

Esse clássico de Alfred Hitchcock já chegou a ser considerado o melhor filme do mundo de acordo com uma lista elaborada por Hollywood. O que poucos sabem é que ele foi uma adaptação do livro homônimo dos franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac, que costumavam assinar suas obras como Boileau-Narcejac. Se você é fã da trama, que segue um estilo policial, talvez seja interessante conhecer outros títulos dos autores, que têm uma obra bem extensa.

Pois é, os filmes dirigidos por Hitchcock não eram de sua autoria, como muita gente pensa. Mas isso não significa que ele fosse menos cuidadoso ao manter suas histórias em segredo. Em “Psicose” (1960), por exemplo, ele chegou a comprar todos os exemplares da editora do livro para que ninguém pudesse saber qual era o desfecho da trama e tivesse que ir ao cinema para descobri-lo.

A Chegada (2016)

Indicado a 8 Oscars este ano, incluindo o de Melhor Filme, e vencedor da categoria Melhor Edição de Som, “A Chegada” também teve suas origens na literatura. Só que desta vez a história não veio de um livro, mas sim de um conto de Ted Chiang publicado em “História da sua vida e outros contos”. E é justamente o “História da sua vida” que acabou dando origem ao longa estrelado por Amy Adams. O autor chegou a receber diversos prêmios por suas obras, que são quase obrigatórias a qualquer amante de ficção científica.

Tubarão (1975)

Não, a história não foi escrita por Steven Spielberg, como muitos acreditam, mas sim por Peter Benchley. Embora o livro tenha sido um sucesso de vendas, hoje são poucos os que o conhecem se compararmos ao número de pessoa que já viram a adaptação para os cinemas. Por isso, após seu lançamento nas telonas, o autor acrescentou na introdução do livro o relato que conta que Spielberg decidiu tirar a parte da máfia da história para produzir o longa. Tal detalhe chama a atenção de quem viu o filme, claro. Afinal, não há máfia na trama! Pois é, a história acabou sendo modificada, o que por si só já é motivo suficiente para ler a obra original.

Um Sonho de Liberdade (1994)

Como o filme não segue o gênero de terror muita gente nem sabe que ele é do aclamado escritor Stephen King. Mas a razão chega a ser justificada, já que a história que deu origem ao filme é o conto “Rita Hayworth e a redenção de Shawshank” que está no livro “Quatro Estações”, que é bem pouco conhecido de uma forma geral. Ainda assim, vale a pena adquiri-lo, já que ele mostra o lado dramático de King. Além disso, o livro de quatro contos contém outros dois que se tornaram adaptações cinematográficas. “Aluno inteligente” deu origem a “O aprendiz” (1998), enquanto “O corpo” foi a base para “Conta comigo” (1986).

Laranja Mecânica (1971)

Assim como Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick também se baseava em livros para fazer as suas obras. E foi assim com o clássico “Laranja Mecânica”, cujo autor é o britânico Anthony Burgess. Um detalhe interessante é que o dialeto utilizado pela gangue se trata de uma língua inventada pelo autor do livro. Para criá-la ele misturou principalmente o russo e o inglês, e por isso a maior parte das edições vem com um glossário. Uma leitura difícil, mas que vale a pena para quem se interessa em histórias distópicas.

Clube da Luta (1999)

A gente sabe que a regra número um do Clube da Luta é não falar sobre o Clube da Luta. Será que é por isso que muita gente desconhece a existência do livro que deu origem ao filme? Escrita por Chuck Palahniuk, a história chamou a atenção ao ser adaptada para as telonas em uma produção estrelada por Brad Pitt e Edward Norton. Ainda assim, os fãs da obra original não são poucos, e uma continuação foi feita em forma de quadrinhos e publicada em 2015. Ah, se você viu o filme saiba que ele é fiel ao livro até aproximadamente a metade da trama, mas o final é bem diferente. Mas para conhecer o desfecho original será preciso ler a história.

por Ana Carolina Porto

Stephen King é o rei da adaptação para o cinema e a TV

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Jogo Perigoso está disponível na Netflix. Foto: Netflix/Divulgação

Jogo Perigoso está disponível na Netflix. Foto: Netflix/Divulgação

Fernanda Guerra, no Diário de Pernambuco

Nos primeiros anos da década de 1970, Stephen King lançou o livro Carrie, a estranha, o primeiro a ser adaptado para os cinemas. Após a versão do filme, outros remakes foram lançados. De lá para cá, as obras do escritor norte-americano, hoje com 70 anos, ganharam projeção expressiva no cinema e na TV, tornando-o um dos autores mais adaptado no segmento audiovisual. Só em 2017, uma longa lista de produções surgiram a partir das obras de King: os filmes A torre negra e It: A coisa estrearam nos cinemas, os longas Jogo perigoso e 1922 foram lançados pela Netflix, que também exibiu a série O nevoeiro, extinta na primeira temporada. Nos Estados Unidos, também foi lançada a série Mr. Mercedes, ainda inédita no Brasil.

Para quem é fã do gênero terror e suspense, o longa-metragem Jogo perigoso, baseado no livro homônimo publicado em 1992, traz objetos clássicos do terror psicológico, como psicopata e alucinações, elementos recorrentes na obra do autor. Dirigido por Mike Flanagan, o título abrange para questões como machismo, pedofilia e abuso sexual. A produção acompanha Jessie (Carla Gurgino) presa à cama – mote que fez o público associar ao filme Louca obsessão (1992).

Com repercussão menor que Jogo perigoso, 1922 é estrelado por Thomas Jane, na pele de um fazendeiro que mata a esposa, Arlete (Molly Paker), auxiliado pelo filho, Henry (Dylan Schmid). Ele planeja cometer o crime quando ela decide se divorciar, vender a fazenda e se mudar para a cidade acompanhada do filho. O catálogo da Netflix também contempla outros títulos assustadores da obra do autor: Pacto maligno, Conexão mortal e Cemitério maldito, além de três temporadas do seriado Under the dome.

Quem precisa de crítica literária? Algoritmos já leem romances e conseguem analisar a estrutura de obras de ficção

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Marcelo de Araújo, no Estadão

Aristóteles escreveu na antiguidade um texto conhecido como Poética, ainda hoje um clássico da teoria literária. Na obra, Aristóteles trata de examinar a estrutura típica de grandes obras dramatúrgicas. Quais são os elementos constitutivos de uma boa tragédia? Qual é a estrutura típica de uma narrativa trágica bem sucedida? A resposta que Aristóteles dá a essas perguntas exerce ainda hoje influência sobre a estrutura narrativa de muitos romances e roteiros para o cinema. Não é por acaso, aliás, que a Poética se tornou leitura obrigatória entre roteiristas e é adotada em muitos cursos de escrita criativa.

Aristóteles só foi capaz de identificar a estrutura narrativa típica de grandes obras dramatúrgicas porque ele conhecia praticamente todas as tragédias da antiguidade. No entanto, face à enorme quantidade de obras de ficção publicadas em nossos dias, ninguém mais pode ter a expectativa de ler um vasto conjunto de obras literárias na tentativa de identificar algumas estruturas narrativas comuns.

Não seria então possível delegarmos a máquinas a tarefa de “ler” obras literárias em nosso lugar? Uma máquina não poderia talvez identificar os “arcos emocionais” comuns a diversas obras literárias com mais precisão do que qualquer ser humano? Na verdade, isso já vem ocorrendo.

Medindo arcos emocionais

Em 2016, Andrew Reagan e colegas publicaram um artigo intitulado “Os arcos emocionais das histórias são dominados por seis formas básicas” [1]. Um algoritmo desenvolvido pelos pesquisadores, batizado de “Hedonometer”, analisou 1.327 obras literárias disponíveis no site do Projeto Gutenberg. Cada obra foi dividida em segmentos ou “janelas” de 10 mil palavras. Cada janela foi submetida então a uma “análise de sentimentos.” A análise consiste na avaliação quantitativa dos sentimentos que algumas palavras, que ocorrem nas janelas, tendem a provocar no leitor. Palavras como, por exemplo, “estupro” e “terrorista” tendem a provocar nas pessoas uma reação negativa, por oposição a palavras como “sorriso” ou “amor”.

O Hedonometer contém um dicionário com as 10 mil palavras mais frequentes no conjunto de obras a serem analisadas. A cada palavra do dicionário foi atribuído um valor que varia entre 1 e 9. Palavras que têm uma conotação negativa receberam um valor baixo, por oposição às palavras que têm uma conotação positiva. (O valor 5, intermediário entre 1 e 9, indica que a palavra é emocionalmente neutra, não desperta nenhum sentimento especial no leitor). Os valores foram atribuídos graças ao trabalho de milhares de pessoas recrutadas especialmente para essa tarefa. As três palavras que receberam a maior pontuação média foram, respectivamente, “riso”, “felicidade”, e “amor”. As três últimas palavras no ranking foram “estupro”, “suicídio”, e “terrorista” [2].

A ocorrência dessas palavras, em cada segmento de 10 mil palavras, permite ao Hedonometer avaliar a carga emocional predominante em cada segmento da obra, e retraçar as flutuações emotivas ao longo da obra como um todo. São essas flutuações emotivas que Reagan e colegas denominam de “arco emocional” da narrativa [3]. A análise de sentimento realizada pelo Hedonometer consiste na representação gráfica das flutuações emotivas ao longo de cada obra analisada. Segundo Reagan e colegas, é possível detectar, no conjunto das 1.327 obras analisadas, seis tipos básicos de arcos emocionais.

Uma história com final feliz, por exemplo, é marcada por um arco ascendente na parte final, diferentemente de narrativas com finais trágicos, que são marcadas por um arco emocional descendente. O artigo de Reagan e colegas, porém, não é o único trabalho recente que descreve o modo como algoritmos podem ser utilizados para “ler” grandes quantidades de textos literários com o objetivo de analisar certas estruturas comuns, inerentes a praticamente qualquer obra de ficção.

Detectando best-sellers

Em 2016, Jodie Archer e Matthew Jockers lançaram um livro chamado The Bestseller Code: Anatomy of the Blockbuster Novel, publicado no Brasil como O Segredo do Best-Seller (Astral Cultural, 2017). A dupla desenvolveu um programa, chamado “Bestseller-ometer”, na expectativa de poder identificar potenciais best-sellers. O programa “leu” mais de 20 mil romances buscando identificar características típicas dos títulos que entram para a lista de best-sellers do New York Times. A descrição técnica do programa aparece no último capítulo do livro. Mas o que me interessa aqui não é a descrição técnica do algoritmo, mas sim examinar algumas implicações que a difusão de programas como o “Hedonometer” e o “Bestseller-ometer” poderia ter para o mercado editorial e para a nossa compreensão acerca do conceito de “leitor.”

O número de manuscritos que editoras e agências literárias recebem todos os dias costuma ultrapassar bastante a capacidade que seus funcionários têm de ler. Histórias de livros que se tornaram sucessos literários, mas que foram inicialmente ignorados por várias editoras, se tornaram famosas. Mas isso geralmente ocorre, não porque os autores rejeitados sejam gênios incompreendidos, mas porque os profissionais do mercado simplesmente não conseguem dar conta do volume de leitura que recebem. Muitas editoras e agências literárias contratam leitores externos, que decidem quais manuscritos merecem ser avaliados para possível publicação.

Segundo Archer e Jockers, o Bestseller-ometer teria 80% de chance de detectar um manuscrito que tem o potencial para se tornar um bestseller. Se algoritmos desse tipo se tornarem correntes no mercado editorial, então, no futuro, os primeiros “leitores” de muitas obras de ficção não serão mais pessoas, mas máquinas que, para todos os efeitos, estarão realizando o mesmo tipo de atividade que os leitores contratados por editoras e agências literárias realizam.

Novos escritores, ávidos para publicar seu primeiro romance, talvez prefiram então buscar o aval de algoritmos ao invés de consultar escritores experientes ou críticos literários. Por outro lado, é possível também que muitos romances, que têm o potencial para se tornar um sucesso literário, sejam rejeitados com menos frequência, pois haverá um novo “leitor”, mais rápido e eficiente, atuando no mercado.

Lendo e aprendendo

Essa ampliação do conceito de “leitor” tem implicações jurídicas. Em setembro de 2016, pesquisadores da Google publicaram um artigo no qual descrevem o funcionamento de um algoritmo desenvolvido para gerar frases em linguagem natural [4]. O algoritmo “leu” mais de 11 mil obras de ficção para que as frases geradas pelo algoritmo fossem estilisticamente melhores do que as frases geradas por outros algoritmos para geração de linguagem natural.

Empresas como Google e Facebook vêm investindo bastante na geração de “assistentes virtuais”, capazes de responder perguntas e manter uma conversa coerente sob a forma de chats online. Programas desse tipo, na verdade, não são nenhuma novidade. Em 1966, por exemplo, Joseph Weizenbaum criou um programa de chat chamado Eliza, em homenagem à personagem de mesmo nome da peça Pigmalião (1913) de Bernard Shaw. O problema é que programas como Eliza contam com um número limitado de frases prontas, que são reutilizadas com alguns ajustes gramaticais conforme o input do interlocutor. Isso torna a interação com o programa repetitiva e pouco natural. Para evitar esse problema a Google e outras empresas pretendem desenvolver agora assistentes virtuais inteligentes, capazes de gerar frases novas e que soem naturais. Para isso, é necessário que o assistente virtual “leia” milhares de obras a fim de identificar uma diversidade de padrões e estilos de conversação, mas sem repetir literalmente as frases que lê.

O artigo publicado pelos pesquisadores da Google, no entanto, gerou um problema jurídico. As obras de ficção “lidas” pelo algoritmo não estavam em domínio público. No momento em que foram disponibilizadas online, não havia ainda sido considerada a possibilidade de que, entre os seus “leitores”, estariam também algoritmos, capazes de “ler” milhares de obras e de reutilizá-las para fins comerciais. Muitos escritores e escritoras se sentiram lesados ao saberem que suas obras haviam sido “lidas” por algoritmos, e não por pessoas.

O uso de algoritmos para a análise de obras de ficção não se limita à “leitura” de romances de maior apelo comercial. O uso se estende também à análise de clássicos da literatura. Pesquisadores poloneses desenvolveram em 2016 um algoritmo para analisar textos de autores como, por exemplo, James Joyce, Virginia Woolf, e Roberto Bolaño. Os pesquisadores constataram que muitos clássicos da literatura, diferentemente de best-sellers, têm uma estrutura fractal. Isso significa dizer que o tamanho das frases, contado em número de palavras, vai se alternando segundo padrões específicos. Esses padrões conferem à narrativa um ritmo próprio, do qual os leitores (e talvez até mesmo os autores) nem sempre são inteiramente conscientes [5].

No contexto da antiguidade, Aristóteles ainda estava em condição de conhecer praticamente todas as obras dramáticas relevantes e de examinar certas estruturas comuns a todas elas. Nos dias de hoje, porém, nenhum ser humano consegue ter sozinho essa visão de todo.

Algoritmos, eu acredito, não substituirão o trabalho de filósofos ou críticos literários. Mas algoritmos, ainda assim, podem muito bem, no futuro, vir a se tornar ferramentas indispensáveis para a análise da estrutura narrativa de obras literárias.

Marcelo de Araújo é professor de Ética e Filosofia do Direito da UFRJ e da UERJ.

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