Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

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Fé, devoção e 40 horas de fila: a saga dos fiéis e do padre Marcelo Rossi no Recife

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Capital pernambucana foi a 12ª cidade do roteiro de lançamentos de “Philia”, em evento com oito horas de duração

Lançamento do terceiro livro do Padre Marcelo Rossi durou quase oito horas. Foto: Brenda Alcâtara/DP/D.A Press

Lançamento do terceiro livro do Padre Marcelo Rossi durou quase oito horas. Foto: Brenda Alcâtara/DP/D.A Press

Luiza Maia, no Diário de Pernambuco

A primeira fã chegou às 6h do dia anterior, improvisou uma cama e fez refeições ali mesmo, em frente à Livraria Cultura do Paço Alfândega. O padre Marcelo Rossi estava acordado desde as 3h. Em tarde de tanta fé quanto esforço físico, o religioso recebeu cerca de 5 mil pessoas no lançamento no Recife, ontem, do livro Philia, sobre 14 males da alma.

“Deus permitiu que eu passasse por uma depressão. Eu podia ter escondido. Mas se eu escondesse, não é o meu jeito de ser. Eu mostei para as pessoas a verdade: eu passei por uma depressão, mas eu venci e agora posso ajudar as pessoas a vencer também”, contou o autor, sobre a doença. “Cheguei ao ponto de a vida perder o colorido para mim”, diz ele. Philia, o terceiro livro dele, é inspirado na depressão e anorexia que o fizeram perder 60 quilos.

“Comi uma misturada”, brincou o pedreiro José Lopes, o segundo a chegar, junto com a irmã, atrás somente de Dona Osana, 33, moradora de Surubim. Os dois cederam lugar à senhorinha falante de 82 anos conhecida como Maria Alegria, que chegou às 8h da segunda, de carona com um vizinho. “É um lugar a que a gente vem e só encontra gente boa, amigos”, comemora ela, já no terceiro encontro com Rossi – foi a 10ª da fila em 2011, durante a sessão de autógrafos de Ágape, e visitou duas vezes o Santuário Mãe de Deus, em São Paulo.

Durante a manhã, guarda-chuvas coloriam a fila, que se estendia pelas ruas vizinhas, no Bairro do Recife, e abrigavam os fiéis do calor típico da cidade. Ali, enquanto esperavam, compartilhavam lanches, pães e bolos trazidos de casa ou comprados das dezenas de ambulantes que deixaram outros pontos da cidade para seguir o padre.

Onde há gente, há pipoca, manda a lei dos vendedores itinerantes. E é por isso que o pipoqueiro Jorge Luiz dos Santos, 45, deixou a Rua Nova para aproveitar o movimento em frente à livraria. Apurou mais que o dobro de um dia comum e abriu a gavetinha de alumínio para mostrar a conquista. Os irmãos, Pio e Ana, colegas de profissão, também estavam nos arredores. Outro que comemorava era Gilberto Costa, 64, “pipoqueiro desde que se entende por gente”. Aproveitou para comprar uma maçã do amor, comercializada na barraca da frente.

A tarde de autógrafos começou com uma Ave-Maria. “Ao trabalho”, disse o padre, logo concluída a oração. O cansaço daquele homem tão alto e magro era visível – antes de chegar ao local, às 14h30, ele já havia caminhado 10,5 km na orla de Boa Viagem (por isso acordou às 3h) e concedido três entrevistas. Nas primeiras duas horas e meia de evento, deu quatro pequenas pausas, para descansar, tomar café e energético. Numa delas, conversou rapidamente com o Viver.

Após as 17h, as assinaturas à mão foram substituídas por carimbos e bênçãos, acompanhados por fotografias, que serão disponibilizadas no site https://www.flickr.com/photos/globolivros/. A dupla de voluntários do Santuário Laerte e Antônio (o pai do padre, de 73 anos) marcava cada livro. Às vezes, pilhas de 10 exemplares.

Recife foi a 12ª cidade de 70 destinos previstos na travessia de aproximação com os leitores. Com Ágape, 60 eventos ajudaram a catapultar o livro ao topo dos mais vendidos, com 10 milhões de unidades. A turnê de Kairós (que não passou dos 2 milhões) passou por apenas 20 locais. Philia já vai em 900 mil.

Sentados no auditório da Livraria Cultura, os fiéis davam sinais de esgotamento físico. Alguns levavam pequenas cadeiras dobráveis, sacolas com alimentos. Outros carregavam os filhos, sobrinhos, netos. Até bebês. “Quando a gente consegue tocar uma criança, consegue tudo”, acredita o padre.

O pequeno Lucas, de 5 anos, foi um dos responsáveis por fazer valer a pena todo aquele esforço, diz o padre. O garoto acompanha as missas, aos domingos, e acredita que a bênção do padre pode ajudar no tratamento da Doença de Perths, que compromete os movimentos da perna. Ele mora em João Alfredo, no Agreste pernambucano, e foi trazido pelos pais, os agricultores Lucicleide e Justino Manuel.

A médica Henny Barreto, 80, se locomovia com ajuda de um andador, depois de sofrer um acidente na BR-101, mas estava lá. A doméstica Amara Gouveia, 32, queria pedir oração para o marido, que bebe muito, e para a filha, cardiopata, de apenas três meses – mas já abençoada pelo padre Marcelo. Maria de Lourdes, 61, sofre depressão desde criança. “Estou em cada capítulo”, confessou, com os olhos marejados, logo após conseguir o autógrafo.

Outras histórias ficaram perdidas, mas denunciadas pelos olhares cheios de devoção e paixão de cada um. São narrativas de dificuldades e superações. Mas, acima de tudo, de esperança, vindas de pessoas simples, de várias cidades pernambucanas e estados vizinhos. As primeiras palavras eram sempre de gratidão. E a bênção retribuía.

Déjà vu dos mais vendidos

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Edir Macedo, Laurentino Gomes e Padre Marcelo voltam para ficar

Cassia Carrenho, no PublishNews

Os autores dos 3 primeiros lugares da lista geral, Nada a perder 2 (Planeta), 1889 (Globo) e Kairós (Principium), são conhecidos por recorde de vendas e/ou períodos longos na lista de mais vendidos. Nessa semana, Nada a perder 2, do bispo Edir Macedo, garantiu o 1º lugar na lista geral, vendendo 26.843 exemplares para seu público fiel (ou melhor, de fiéis). 1889 (Globo), de Laurentino Gomes, alcançou o 2º lugar na lista geral, com 11.481 exemplares, e alavancou as vendas dos livros anteriores, colocando 1808 (Planeta) e 1822 (Nova Fronteira) na lista de não ficção. O 3º lugar geral ficou com o Padre Marcelo Rossi e seu Kairós, com 10.761 exemplares vendidos. Com estratégias de venda distintas, os 3 devem garantir uma briga nada santa por algum tempo!

Outro livro que merece destaque é O príncipe da privataria (Geração Editorial), que na sua estreia garantiu lugar na lista geral e um excelente 4º lugar na lista de não ficção.

Intenso (Harmelin), novo romance erótico de Sylvia Day, garantiu lugar na lista de ficção, mostrando que, embora já não arranque tanto suspiro, a literatura erótica continua fazendo sucesso. Na lista de ficção, por exemplo, aparecem 6 livros do gênero, ou seja, ainda falta muito para Mr Grey se aposentar.

No ranking das editoras, as 3 velhas conhecidas continuam liderando. A Sextante voltou ao seu posto habitual, 1º lugar, com 15 livros; Intrínseca, 2º lugar, com 14, e Record em 3º lugar, com 10.

Ler não é obrigação

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Diego Antonelli, na Leitura na Prática

Felipe Lindoso, pesquisador e consultor de leitura

O jornalista, tradutor e consultor Felipe Lindoso tornou-se uma voz necessária ao se falar de leitura no Brasil. Por uma razão prática – ele povoou de informações seguras um setor dado a discursos inflamados e bem-intencionados a favor do livro. O resultado é flagrante. Para ele, ler é atividade lúdica e necessária, mas também é algo tão concreto quanto o mercado da soja.

Parece exagero, mas ao costurar leitura e desenvolvimento, o especialista em políticas públicas criou uma estratégia para fazer do negócio dos livros e da leitura um assunto tão sério quanto os demais. Não é uma guerra vencida. Há muito que se palmilhar para que os índices de leitura no Brasil estejam à mesma mesa de negociação em que se discute o pré-sal ou o Código Florestal. Mas o pesquisador figura entre os que trabalham para criar uma cultura que considere as letras um capital decisório no vai não vai que balança as economias emergentes.

O livro O Brasil pode ser um país de Leitores?, de 2004, é uma prova de sua ambição. A obra radiografa os maus humores nacionais com o livro e a literatura desde os princípios da Nação. Entre uma tragédia e outra, o estudo levanta fontes para outros pesquisadores – como os interessados em entender um fenômeno como Ágape, o livro de 7 milhões de exemplares do padre Marcelo Rossi. E retoma pendengas já bastante debatidas, porém crônicas, como os tropeços da escola e da família na formação dos leitores.

Felipe Lindoso é entrevistado da série “Leitura na prática”, que a Gazeta do Povo publica até 21 de outubro. Confira:

Para que tornar-se um leitor?

Quem lê e amplia seus horizontes culturais tem mais oportunidades de se desenvolver. Mas essa é uma opção individual, desde que estejam dadas as condições de escolha. O que acontece hoje é que as oportunidades de acesso ao livro são reduzidas. As famílias não são leitoras, as escolas ainda não preparam as condições para essa escolha, e o sistema de bibliotecas públicas é precário, para usar uma palavra suave. Por isso, ser leitor ou não independe de uma escolha. Na maioria dos casos, não há oportunidades.

É possível reaprender a ler?

Em uma palestra, o professor Ítalo Moriconi [organizador de Os cem melhores poemas brasileiros do século] assinalou o quanto temos que aprender, inclusive sobre as posturas necessárias para uma boa leitura. Essa postura não é “natural”, é socialmente induzida. Ler é uma questão de aprendizado e de escolha. Mas é importante destacar que ler não é obrigação. Pode ser uma necessidade, inclusive profissional. Há pessoas que desfrutam da leitura por prazer. Outras, ainda, por convicções religiosas ou políticas. Por essas características, a leitura não acontece somente nos momentos de lazer e descanso, quando concorre com a tevê, o cinema, a música e a simples conversa. A leitura depende de circunstâncias…

Aproveitando a deixa, qual o papel da escola nessa seara…

Deixar de tornar a leitura obrigatória. Deixar os livros à disposição dos alunos para que escolham o que querem ler, em literatura. Aí o professor pode motivar os alunos para ler alguns títulos, mas sem obrigação. Como diz o Ziraldo, o importante é ler, não aprender…

O que diria das bibliotecas escolares?

Salvo as proverbiais exceções, são muito ruins. Começa que na maioria das escolas não existe biblioteca, nem como “salas de leitura”. Já vi escolas nas quais as diretoras “despejaram” a biblioteca para abrigar mais alunos. Mas as bibliotecas são ruins sobretudo porque as professoras não são leitoras, não foram formadas e capacitadas para transmitir o gosto pela leitura. Daí que não ligam para as bibliotecas. As bibliotecas muitas vezes viram lugar de “castigo”: aluno mal comportado vai para a biblioteca, na qual encontra muitas vezes professoras afastadas da sala de aula, por alergia a giz, problemas nervosos e outros quetais.

O que fazer para que melhorem?

Melhorando – e muito – a qualidade dos professores. Depois, é preciso capacitar adequadamente os encarregados das bibliotecas. Não que devam ser necessariamente bibliotecários – mas um conjunto de bibliotecas escolares deveria ser supervisionado por bibliotecários. Os que ali trabalham precisam ser formados para a função, e não ocupar o lugar como um quebra-galho qualquer. Finalmente, a biblioteca escolar precisa ter um acervo amplo, com diversidade de escolhas, tanto de literatura quanto dos chamados paradidáticos. E com liberdade para os alunos escolherem o que desejam ler. Sem imposições e muito menos vigilância e censura.

Na última edição da pesquisa de Retratos da Leitura no Brasil os professores aparecem como principais incentivadores do livro, ultrapassando em influência os pais. O que diria?

O grande problema é que a maioria das famílias é de não leitores. O contato com os livros não aparece em casa, tanto por essa razão como também por questões econômicas. Livros são caros, proporcionalmente ao nível de renda dos brasileiros. Programas como o “Agentes de leitura”, que vai às casas para trabalhar com as famílias a questão da leitura, levam livros e indicam as bibliotecas. É uma possibilidade.

Em seu livro O Brasil pode ser um país de leitores? o senhor fala do papel das religiões na difusão da leitura. Continua pensado assim?

Historicamente, os países do protestantismo clássico se beneficiaram da doutrina que dá aos fiéis o contato direto com a divindade, no qual a leitura da Bíblia assumia um papel de importância. A Igreja Católica, ao contrário, sempre acreditou nos intermediários. A primeira tradução da Bíblia em português só aconteceu em meados do século 19. Entretanto, hoje, os fundamentalistas evangélicos aqui no Brasil assumem esse papel de intermediação. A compra de Bíblias é o maior fenômeno editorial do Brasil – e do mundo – mas daí a dizer que a Bíblia é lida vai um grande passo. Hoje não acredito que qualquer religião contribua positivamente para a leitura e a ilustração, e aí estão os fundamentalistas negando a ciência e a evolução.

Podemos pensar em um índice de desenvolvimento a partir da leitura?

Basta ver a quantidade de bibliotecas e os índices de leituras dos países avançados econômica e socialmente. Só nos EUA existem quase 200 mil bibliotecas públicas. Na Europa Ocidental – França, Inglaterra, Itália e mesmo a Espanha e Portugal – a questão do acesso aos livros é considerado de importância estratégica. No Brasil, quando existem, as bibliotecas geralmente estão no centro que, quando não degradado, ainda é o reduto das elites.

dica do Jarbas Aragão

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