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Universitários fazem exposição de livros gigantes em Vitória

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Livros gigantes são recriados por estudantes de pedagogia (Foto: Carlos Alberto Silva/ A Gazeta)

Livros gigantes são recriados por estudantes de pedagogia (Foto: Carlos Alberto Silva/ A Gazeta)

 

Alunos recriaram clássicos da literatura infantil, como a ‘Bela e a Fera’.
Exemplares atingem 1,60m de altura e têm 1,15m de largura.

Tatiana Moura, no G1

Alunos do curso de pedagogia de uma faculdade particular de Vitória realizam, nesta sexta-feira (6), uma exposição de livros clássicos da literatura infantil, entre eles ‘A Bela e a Fera’ e ‘Rapunzel’. O curioso da história é que os exemplares atingem 1,60m de altura e têm 1,15m de largura.

A atividade é parte da disciplina Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Alfabetização, e integra o projeto de exposição e contação de histórias idealizado e coordenado pela professora Lilian Menenguci.

Ao todo, a exposição vai contar com dez livros, que foram confeccionados ao longo de três meses. Foram usadas as mais variadas técnicas e materiais, entre eles PVC, cartão paraná, adesivação e relevo.

As turmas foram divididas em grupos e cada uma escolheu uma obra da literatura infantil. A estudante do 3° período Adriana Duarte da Silva, de 31 anos, reproduziu o clássico ‘O Patinho Feio’, junto às amigas Adriana Alves, Alice Ellen Rozário, Andréa Santana, Juliene Patrocínio.

“Foi uma missão quase impossível, porque ninguém imaginava um livro desse tamanho. Quebramos a cabeça e, no final, nos fascinamos com o resultado”, contou Adriana.

Ela afirma que um dos principais aprendizados que teve durante a realização do trabalho foi a capacidade de trabalhar em grupo. “E respeitar as opiniões diferentes das minhas, cada uma tinha um ponto de vista e, às vezes, era difícil entrarmos em consenso”, lembrou.

A aluna do 2º período Janisse Siman afirma que recebeu a missão de construir o livro gigante como um desafio. “Especialmente pela aprendizagem que ele significará no exercício de nossa futura profissão. É uma atividade que está nos dando a oportunidade de enriquecer nossos conhecimentos e, além disso, encher de magia o espaço educacional”, falou.

Leitura
Lilian acredita que a exposição incentiva não só a leitura, como a escrita. “Inclusive no próprio processo de formação dos alunos, porque daqui a pouco eles serão professores também, e a leitura e a escrita são os instrumentos de trabalho do professor”, destacou.

Os alunos do CMEI Jacyntha Ferreira Simões, em Goiabeiras, serão os convidados da exposição.
Na faculdade a mostra só permanece nesta sexta, mas ela vai ter continuidade na programação da 3ª Feira Literária Capixaba, de 12 a 15 de maio, com entrada franca.

“Brasil nunca aplicou Paulo Freire”, diz pesquisador

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Camilla Costa, em UOL

“Chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire”. A frase, que aparecia em uma faixa durante a manifestação contra o governo Dilma Rousseff em Brasília, em março de 2015, causou polêmica nas redes sociais e provocou até uma resposta da ONU, defendendo o educador brasileiro famoso mundialmente pela teoria da pedagogia crítica.

Considerado patrono da educação no Brasil desde 2012, Freire dá nome a institutos acadêmicos em países como Finlândia, Inglaterra, Estados Unidos, África do Sul e Espanha, mas, em sua terra natal, tem sido criticado por manifestantes e articulistas pelo que consideram sua “influência esquerdista” no ensino.
O historiador e doutor em Educação José Eustáquio Romão, seu amigo pessoal e especialista em sua obra, discorda: “Paulo Freire nunca foi aplicado na educação brasileira. (…) Ele entra (nas universidades) como frase de efeito, como título de biblioteca, nome de salão.”
Em entrevista à BBC Brasil, ele diz que as ideias e o método de alfabetização de adultos criado por Freire já serviram de base para políticas públicas em diversos países, mas ainda se resumem a experiências pontuais no Brasil.
“Estou convencido de que se aplicarmos hoje (o método), acabamos com o analfabetismo no Brasil em um ano”, afirma.
Segundo os dados mais recentes do IBGE, o Brasil ainda possui 13 milhões de analfabetos, apesar da diminuição do índice nos últimos anos.
Romão, um dos fundadores do Instituto Paulo Freire, passou os últimos 15 anos em busca do manuscrito perdido do livro Pedagogia do Oprimido, obra mais conhecida e traduzida do educador pernambucano, morto em 1997.
O manuscrito, que contém trechos inéditos do livro – publicado nos Estados Unidos em 1970 e proibido pelo regime militar brasileiro até 1974 – sobreviveu à ditadura chilena nas mãos de Jacques Chonchol, ex-ministro de Agricultura no governo de Salvador Allende (1970-1973). Agora, foi devolvido ao Brasil.
Confira alguns dos principais trechos da entrevista.
BBC Brasil: Como o senhor descobriu a existência do manuscrito? E como o encontrou?
José Eustáquio Romão: Foi uma busca de 15 anos. Algumas vezes ele (Paulo Freire) dizia para nós, que éramos amigos mais próximos, que gostaria de rever o manuscrito antes de morrer. Mas, pelo que a gente sabia, os originais do livro tinham sido datilografados.
Paulo era muito desorganizado. Ele escrevia até em guardanapo quando tinha uma boa ideia. Então um de seus amigos juntou essa papelada e datilografou em 1968. Quando Paulo falava de manuscrito, eu achava que ele estava delirando. Mas não estava.
Ele foi um dos primeiros a ser preso pelos militares, em abril de 1964, porque havia sido convidado a fazer parte de um projeto do governo João Goulart após o sucesso da sua experiência de alfabetização de camponeses no Rio Grande do Norte, em 1963.
Após 70 dias na prisão, ele conseguiu se exilar na Bolívia e, de lá, foi para o Chile, onde conheceu o ministro Jacques Chonchol, uma figura de destaque na política chilena, que articulou a eleição de Salvador Allende. Chonchol chamou Paulo para trabalhar com ele e os dois ficaram amigos.
Anos depois, Paulo foi convidado a ensinar aos doutores em Harvard (nos Estados Unidos), mesmo sem nenhum título, por causa de seu método de alfabetização de adultos. Antes de ir, decidiu copiar os originais de seu livro e dar este manuscrito de presente ao casal Chonchol.
Só que, depois de Allende, Chonchol era o homem mais visado pela polícia do (general Augusto) Pinochet. Ele só não foi morto no palácio junto com Allende (no golpe militar chileno, em 1973) porque estava em missão, mas chegou a Santiago no dia do golpe. Avisado pelos amigos, ele fugiu pela cordilheira (dos Andes). No fim, foi parar na França e ficou 20 anos no exílio.
A polícia de Pinochet invadiu a casa de Chonchol em Santiago, levou uma série de documentos e queimou livros. Mas o manuscrito de Paulo Freire parecia um documento sem importância, então ficou intacto. Anos depois, a irmã do ex-ministro conseguiu sair do país para visitá-lo na França e levou o manuscrito, achando que poderiam ser documentos pessoais.
Quando eu finalmente consegui localizá-lo, Chonchol me disse que várias vezes teve a tentação de doar o manuscrito para a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em Paris, mas resolveu não fazê-lo. Eu consegui convencê-lo a devolver o manuscrito para o Brasil.
BBC Brasil: Quais são as principais diferenças entre o livro Pedagogia do Oprimido como é conhecido hoje e o manuscrito?
Romão: A parte do livro em que Paulo Freire fala sobre a “teoria da ação revolucionária” não existe em nenhuma edição em nenhuma parte do mundo. O que nos faz supor que os (editores) americanos tiraram diversas partes – eu já fiz uma leitura comparada e comprovei que não estão lá.
Eles tiraram coisas que acharam um pouco mais perigosas para a ideologia liberal norte-americana. Não fazem por mal, mas por princípio ideológico. É uma teoria de esquerda mesmo, diz que o sujeito da história não são as lideranças, é o coletivo das massas oprimidas. Americano não vai admitir isso, nem os Democratas.
BBC Brasil: O que a Fundação Paulo Freire pretende fazer com o original?
Romão: A família dele nos autorizou a fazer mil exemplares do texto, mas não a vendê-los. Estamos distribuindo uma versão digitalizada a editores e às grandes bibliotecas do mundo, para que as novas edições se baseiem nisso aqui.
O manuscrito atualmente está escondido, eu o escondi. Ele vale milhões. Além disso, não queremos que suma novamente (risos).
BBC Brasil: Que relevância teria uma nova edição deste livro num momento em que setores da sociedade fazem duras críticas ao PT – do qual Freire foi membro fundador – e à influência dele na educação brasileira?
Romão: Alguns críticos falam muita bobagem, dizem que a educação brasileira está ruim por que Paulo Freire está sendo aplicado. Primeiro, Paulo Freire nunca foi aplicado na educação brasileira. Estamos lutando para ver se ele entra nas universidades até hoje.
Ele entra como frase de efeito, como título de biblioteca, nome de salão. Isso eu já vi no Brasil inteiro. Mas o pensamento dele não entrou até hoje.
BBC Brasil: Por que não?
Romão: Antes eu achava que era porque ele não tinha títulos e o Brasil é um país muito credencialista. Isso a gente deveria aprender com os norte-americanos, que o convidaram para Harvard. Eles não fazem questão de diploma, fazem de competência.
Paulo nunca fez Pedagogia, nunca fez licenciatura. Fez Direito à noite, um curso mal feito, abandonou a profissão na primeira causa. Mas era um gênio.
Lendo com mais calma e profundidade a obra dele, vejo que ele faz uma inversão intelectual tão violenta que os intelectuais tremem nas bases. Todos eles têm a mania de considerar que devemos partir da teoria para iluminar a realidade, e Paulo Freire desmonta isso. Ele diz que a legitimidade do conhecimento só vem da prática.
BBC Brasil: Como você responde a críticas sobre o viés de esquerda na obra de Paulo Freire?
Romão: Eu não tenho o conceito de ideologia que (a filósofa) Marilena Chauí tem. Ela considera que ideologia é algo ruim, para mim é apenas a visão de mundo. Todo discurso é ideológico no sentido de que parte de determinada perspectiva, do olhar de quem olha.
Quem faz esse tipo de crítica está considerando que seu próprio discurso não é ideológico. Ao meu juízo, é menos ideológico (de maneira negativa) quem revela a sua visão de mundo logo no início, porque prepara o interlocutor para dizer “há outras visões de mundo, há outras ideologias que interpretariam isso de maneira diferente”.
Há um grupo conservador que considera Paulo Freire de extrema esquerda. E há o grupo de esquerda que considera Paulo Freire conservador, idealista. Quem tenta conciliar teorias, como ele tentou conciliar – sem fazer ecletismo – leva tiro de todos os lados.
BBC Brasil: A obra de Freire também é criticada por ter referências a figuras como Che Guevara (guerrilheiro argentino) e Mao Tsé-Tung (líder comunista chinês).
Romão: Quero que me apontem o texto de Paulo Freire em que ele insiste tanto em Mao Tsé-Tung.
BBC Brasil: Pedagogia do Oprimido tem uma referência…
Romão: Ele faz apenas uma referência a uma teoria das mais amenas de Mao. Marx dizia que o motor da história é a classe operária. E Mao dizia que não, que existe o motor, mas que a fagulha do motor são as classes médias, que desencadeiam acontecimentos.
Ele diz que o povo pode fazer coisas irracionais e, por isso, tem que haver coordenação do processo revolucionário e isso nem sempre ocorre pelo proletariado. Marx e os marxistas ortodoxos, inclusive, devem ter se revirado no túmulo com essa.
Além disso, Paulo não aceita o maoísmo puro, nem o marxismo puro. Aliás, ele usava uma metáfora interessante, dizia que era “um barbudo no meio de dois barbudos”: Jesus Cristo e Karl Marx.
Por isso, há repercussões políticas importantes na teoria dele. Os freireanos não propõem eliminar o opressor e, sim, salvá-lo também, a partir do momento em que os oprimidos se libertam.
BBC Brasil: O que Paulo Freire diria sobre a violência no regime comunista chinês, no soviético e no cubano?
Romão: Tem um texto seminal dele, que está na Pedagogia da Autonomia, em que ele diz que somente a consciência fanática, que ele chama de fundamentalismo, leva ao processo de violência e destruição.
Ele diz que a tendência do oprimido – ao incorporar o discurso, os valores e a atitude do opressor – é a violência física ou simbólica.
Por isso mesmo a humanidade só avança quando os oprimidos deixam de tentar imitar seu opressor. Quando eles não querem trocar de lugar com o opressor, mas mudar as relações de opressão. E por isso que é raro na história isso ocorrer.
BBC Brasil: Como você responderia aos críticos que dizem que é ruim ter Paulo Freire sendo lido por estudantes porque isso pode, de alguma maneira, “transformá-los em esquerdistas”?
Romão: Não significa transformá-los em esquerdistas porque o que Paulo Freire mais insiste é “não me repita”.
Esse é o princípio fundamental da metodologia freiriana de construir conhecimento: “não me repita, mas se considerar que alguma ideia minha resolve algum problema da realidade, reinvente essa ideia em cada contexto”. Não sei que influência maléfica nos alunos seria essa.
No Brasil, Freire é criticado por viés de esquerda em suas obras mais conhecidas
BBC Brasil: Algum país realmente aplicou as ideias de Paulo Freire na educação?
Romão: Um país muito simpático ao conjunto da obra do Paulo Freire é a Finlândia, que avançou muito na educação. Cuba também acabou com o analfabetismo com base no método. A Coreia do Sul também. Para você ter uma ideia, o maior seminário internacional sobre Paulo Freire foi realizado na Universidade Nacional da Coreia do Sul há três anos. Estávamos lá debatendo com todas as autoridades coreanas e todos os freirianos do mundo.
Há projetos freirianos na Hungria, no Japão… tem um grupo trabalhando com a alfabetização de decasséguis que sofrem por ir viver lá e não dominar o idioma. Estão usando o método de Paulo Freire para alfabetizá-los na segunda língua. Os grupos que estão tendo sucesso são os que reinventaram. Aplicaram só os princípios, mas têm pontos de partida que são bem diferentes.
O Brasil não aplica sequer esse método. Há experiências de sucesso pontuais, mas isso não é usado como política. Sei também que na Armênia agora estão fazendo agora mesmo uma grande experiência com as ideias de Paulo Freire. E no País Basco.
Certa vez, eu estava no deserto de Góbi, na Mongólia, com o povo nômade, em missão. Em uma tenda, vi os criadores de cabra sendo alfabetizados por dois professores. Eu não entendia nada do que eles falavam, mas um nome soava meio familiar. Era Paulo Freire. Eles estavam com o último capítulo da Pedagogia do Oprimido nas mãos, traduzido para o chinês, que trata justamente do método de alfabetização.
BBC Brasil: O que há de tão extraordinário no método de alfabetização de adultos de Paulo Freire?
Romão: Fui a Angicos, no sertão do Rio Grande do Norte, porque lá, Paulo Freire, com um grupo de estudantes – nenhum deles de Educação – alfabetizou primeiro uma turma de 30 e, no final, 300 camponeses. Por que hoje a gente começa com uma turma de 30 adultos e termina com três? Por que eles não aguentam o curso?
Conseguimos conversar com os alfabetizados daquela época. Eu saí convencido de que, se aplicarmos hoje o que fizeram lá, acabamos com o analfabetismo no Brasil em um ano. É tão simples.
A pessoa precisa aprender que as letras constroem as palavras, mas não vai ter interesse nenhum se não souber pra que a palavra serve na sua vida. Por isso, um “círculo de cultura” substitui a aula. Nele, você vai discutir a vida das pessoas. Parece que está perdendo tempo, mas em um mês eles são alfabetizados, com 40 horas de aula.
Tenho uma experiência escrita à mão por uma pessoa que foi alfabetizada por ele em Brasília, a famosa experiência do tijolo. Tijolo foi uma palavra (usada por Paulo Freire como) “geradora” porque (os alunos) eram operários da construção civil, estavam construindo Brasília.
Ele mostrou aos alunos um tijolo físico, o partiu e colou nele as sílabas da palavra tijolo. E pediu que as pessoas formassem outras palavras a partir daquelas sílabas. As pessoas primeiro gravaram mentalmente as sílabas e as combinaram: jiló, laje, etc. Uma senhora, no entanto, fez uma frase: “Tu já lê”. Estava alfabetizada.
A gente, que trabalha com alfabetização, sabe que a pessoa só começa a ler na hora em que dá um clique. Esse clique é a grande descoberta do Paulo Freire.

Aprovada na UFPE pelo Sisu, travesti recebe trote da mãe e posta manifesto no Facebook

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Maria Clara Araújo é a primeira pessoa da família a entrar na universidade e vai cursar Pedagogia

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Publicado em O Globo

RIO – “Hoje tive minha sobrancelha raspada por minha mãe, emocionada por ter sido a primeira pessoa de minha família a ser aprovada na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O que pra ela é uma realização pessoal de mãe que, diga-se de passagem, sempre me incentivou a estudar, para mim, uma travesti negra, é uma conquista com imenso valor simbólico.” Com estas palavras, a estudante Maria Clara Araújo, de 18 anos, inicia um manifesto que já teve mais de 7 mil compartilhamentos no Facebook. O texto foi a maneira escolhida por ela para comemorar sua aprovação no curso de Pedagogia pelo Sisu.

Ao longo do depoimento, acompanhado por uma imagem que mostra o trote aplicado pela mãe, Maria relembra toda a sua trajetória até chegar ao banco de uma universidade.

“Desde muito cedo, o âmbito educacional deixou o mais explicito possível suas dificuldades em compreender as particularidades de minha vida: aos 6 anos, desejando ser a Power Range Rosa , aos 13 usando lenços na cabeça, aos 18 implorando pelo meu nome social e, logo, o reconhecimento de minha identidade de gênero. Nenhuma foi atendida”, escreve.

A luta pelo reconhecimento dos seus direitos, como ela bem sabe, está longe de terminar. Uma das questões que tem pela frente, por exemplo, é garantir que será tratada pelo nome social na universidade. “Se ontem a professora tirou a boneca de minha mão, hoje o Reitor diz não ter demanda para meu nome social.”

Em entrevista por telefone, Maria contou que fez o manifesto ao observar que era a primeira travesti a passar na UPPE. Justamente por isso, queria fomentar o debate sobra a falta deste público no ambiente educacional.

– Estou muito feliz com minha aprovação e, por ser a primeira, quero levar essa reflexão às pessoas. Por que sou a primeira? Por que tantas outras não têm a mesma oportunidade que eu? – questiona a jovem, que tem se aproximado cada vez mais com a militância.

Em seu relato no Facebook, ela também faz questão de lembrar as violências que sofreu em função da sua identidade sexual durante toda a sua rotina escolar e as consequências dessa realidade sobre a vida das pessoas:

“Não era só comigo, mas fui a única que aguentei. Vi, de pouco em pouco, outras possíveis travestis e transexuais desaparecendo daquele ambiente, porque ele nunca simbolizou um espaço de acolhimento, educação e aprendizagem. Mas sim de opressão, dor e rejeição.”

Ao finalizar o texto, ela comenta que a própria escolha do curso parte da vontade de mudar essa realidade:

“Optei por Pedagogia com a esperança de poder ser um diferencial. De finalmente pautar a busca por uma educação que nos liberta e não mais nos acorrente”, afirma. “A escolha é apenas uma: lutar ou lutar. E eu, Maria Clara Araújo, escolhi ser um símbolo de força.”

Pedagogia, Educação e Superação pela esperança.

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Publicado em Exame.com

JoaoCarlosMartinsO Maestro João Carlos Martins, considerado um dos maiores intérpretes de Bach do século XX, quando ficou impossibilitado de continuar tocando, domou o cansaço espiritual e tornou-se, aos 63 anos de idade, maestro. A esperança do vir a ser mantém pessoas vivas e incansáveis na luta. No vídeo abaixo o próprio maestro João Carlos fala a meu respeito, como um exemplo de superação pela esperança: https://www.youtube.com/watch?v=U-tXh4LdXzE.

No entanto, por que a maioria das situações demandantes de superação não são facilmente superadas, e se ainda podemos agregar a importância vital do sentido, de uma nova razão pela qual viver, após um trauma ou situação grave vivenciada? Por que então não aprendemos mais naturalmente esse segredo revelado tão sem segredos, e aberto ao mundo, para todo e qualquer habitante?

Paulo Freire (2011) explica em Pedagogia da Esperança, um reencontro com a Pedagogia do Oprimido, o grande drama das maiorias que não acreditam na possibilidade de um “inédito viável”: o medo do oprimido, como indivíduo ou como classe, o inibe de lutar. Vale lembrar um aspecto dos mais marcantes e significativos de Freire em sua Pedagogia do Oprimido: o inédito viável.

Pouco comentado, e arrisco dizer pouco estudado, essa categoria encerra nela toda uma crença de sonho possível e na utopia que virá, desde que os que fazem a sua história assim queiram. Para o educador, as mulheres e os homens como corpos conscientes sabem bem ou mal de seus condicionamentos e de sua liberdade. Assim, encontram em suas vidas pessoal e social, obstáculos, barreiras que precisam ser vencidas. A essas barreiras ele chama de “situações limite”.

Os homens e mulheres têm várias atitudes diante dessas “situações limite”; ou as percebem como um obstáculo que não podem transpor, ou como algo que não querem transpor ou ainda como algo que sabem que existe e que precisa ser rompido e então se empenham na sua superação. Nesse caso, a “situação limite” foi percebida criticamente e por isso aqueles e aquelas que a entenderam querem agir, desafiados que estão e se sentem a resolver da melhor maneira possível, num clima de esperança e de confiança, esses problemas da sociedade em que vivem.

As ações necessárias para romper as “situações-limite” Freire as chama de “atos-limite”. Esses se dirigem, então, à superação e à negação do dado, da aceitação dócil e passiva do que está aí, implicando dessa forma uma postura decidida frente ao mundo. As “situações limite” implicam, pois, a existência daqueles e daquelas a quem direta ou indiretamente servem, os dominantes; e daqueles e daquelas a quem se “negam” e se “freiam” as coisas, os oprimidos.

Os primeiros veem os temas-problemas encobertos pelas situações limite, daí os considerar como determinantes históricos e que nada há a fazer, só se adaptar a elas. Os segundos, quando percebem claramente que os temas desafiadores da sociedade não estão encobertos pelas “situações-limite”, se sentem mobilizados a agir e a descobrirem o “inédito viável”. Foi assim comigo e com o maestro João Carlos Martins, nós superamos situações limites em nossas vidas e nos tornamos “dominantes”.

‘Dar aula é como encher uma laje por dia’, diz professora da periferia de SP

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Everly Gonçalves foi bancária e leciona há 11 anos no ABC Paulista.
‘Queria trabalhar com gente, não com número ou metas’, afirma ela.

Everly Gonçalves leciona em uma escola em uma região carente do ABC Paulista (Fotos: Victor Moriyama/G1)

Everly Gonçalves leciona em uma escola em uma região carente do ABC Paulista (Fotos: Victor Moriyama/G1)

Vanessa Fajardo, no G1

Na aula de artes da professora Everly Hortolan Gonçalves, de 45 anos, todo mundo tem de participar das atividades – e fazer as provas. “Tem aluno que fala: nunca vi prova em artes. Eu digo: está vendo agora.” Formada em artes e em pedagogia, Everly leciona há 11 anos na escola estadual Palmira Grassiotto Ferreira da Silva, em São Bernardo do Campo (SP). Foi aprovada em dois concursos públicos e acumula dois cargos de professora, no período da manhã e da tarde, para alunos do segundo ciclo do ensino fundamental e do médio. É conhecida por promover eventos como o show de talentos na escola, em que até os estudantes mais tímidos mostram seus dotes artísticos.

A escola está no Parque São Bernardo, rodeada por uma região carente do ABC, e por inúmeras vezes foi roubada, pichada e depredada. Por volta de três anos, quando ainda não era cercada por muro de concreto, a quadra de esportes era sempre invadida impedindo que os alunos tivessem aula de educação física. Não consegue atingir as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp). A história da Palmira Grassiotto também ficou marcada pela morte de um professor em 2011. Ele foi atingido por um molho de chaves na cabeça jogado por um aluno e morreu dias depois por causa de um coágulo no cérebro – não se sabe se em decorrência do ato do aluno.

Nada disso, porém, abalou Everly na escolha em ficar na Palmira. “Apesar de estar em uma comunidade carente, aluno é igual em toda a escola. Em artes eu tenho a vantagem de trabalhar com outras linguagens, como música e teatro, e consigo trazer os alunos para perto de mim.” Leia a seguir mais uma das entrevistas do especial do G1 sobre o Dia do Professor.

G1 – Por que decidiu lecionar?
Everly Hortolan Gonçalves – Sempre gostei de dar aulas, mas era bancária, não ganhava mal, tinha filhos pequenos, só depois de um tempo fui fazer o que gosto. Acho que professor nasce professor. Fui bancária por oito anos, sempre procurei fazer bem meu trabalho, mas me faltava algo. Queria trabalhar com gente, não com número ou metas.

G1 – Já foi vítima de agressão, violência ou ofensa na sala de aula?
Everly Hortolan Gonçalves – Não, nunca. A gente sempre ouve relatos, mas eu mesma nunca passei por nada disso. Acho que o professor não pode ser o dono do saber, quando o aluno percebe que estamos aqui para aprender também, além de ensinar, eles se abrem e é possível entender o problema deles. Sabendo respeitar o aluno, ele vai te respeitar. Trabalhei em escolas de outros bairros, aluno é aluno em toda escola, o que muda é o grupo de professores, o gestor.

G1 – Em algum momento pensou em desistir?
Everly Hortolan Gonçalves – Me sinto completa como professora, apesar das dificuldades. Dar aula é como encher [fazer] uma laje por dia, a gente chega em casa moída, mas desistir jamais. Esta é a profissão mais gratificante que existe porque você pode fazer a diferença na vida dos alunos. Tive de passar em dois concursos para acumular dois cargos, mas aprendemos a não trabalhar pelo salário. Saí do banco para ganhar metade do que ganhava e trabalhar mais.

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G1 – Sabemos das dificuldades como salário baixo, falta de estrutura, etc. O que a motiva na profissão?
Everly Hortolan Gonçalves – O desenvolvimento dos alunos. Eles chegam sem saber usar uma régua, com vocabulário pequeno. Hoje falam da materialidade da arte, sabem das características dos movimentos artísticos. Os alunos da comunidade que atendemos não têm família estruturada, muitas vezes a gente tem de ser mãe, psicóloga, fazer um trabalho individualizado. E a gente se afeiçoa, principalmente aos menores. Eles contam coisas para mim que não contam nem para os pais. Às vezes o aluno não conhece a mãe, o pai está preso, há problema de uso de álcool na família. Temos de saber a realidade de cada um. Se é possível? A gente tenta. Em uma escola da rede particular, por exemplo, seria mais fácil, mas gosto de desafio. Professores têm de gostar de desafio.

G1 – Vale a pena ser professor?
Everly Hortolan Gonçalves – Sim, acho que é um dom. A pessoa que nasce professor não desiste. Não me vejo fazendo outra coisa. Ter contato com criança é o que eu gosto de fazer. E me sinto muito realizada quando encontro ex-alunos que falam que resolveram estudar arquitetura, design e se lembram das minhas aulas.

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