State Ibirapuera

Posts tagged Pequim

China mira em novo inimigo: os livros infantis estrangeiros

0
Foto: Maria João Gala/Global Imagens

Foto: Maria João Gala/Global Imagens

Publicado no Terra

O governo da China quer proteger as crianças das influências de outros países e, para isso, mirou em um novo inimigo: os livros infantis que vêm do exterior, que começarão a ser eliminados, de acordo com um grupo de livreiros.

As autoridades de Pequim preparam uma ordem que reduzirá drasticamente o número de contos infantis estrangeiros publicados no país, conforme disseram várias fontes do setor editorial ao jornal independente de Hong Kong “South China Morning Post”.

A medida faz parte de uma campanha para enfraquecer a influência de ideias estrangeiras e melhorar o controle ideológico deste coletivo, embora esses textos tenham pouco ou nenhum envolvimento político.

As fontes afirmam que o governo pretende impor um sistema de cotas, como já existe no mundo cinematográfico, que limite o número de contos estrangeiros publicados a cada ano na China.

Esta norma, que por enquanto só foi transmitida de forma verbal aos livreiros, exigirá que as editoras publiquem mais contos escritos e ilustrados por autores chineses.

Outro dos editores entrevistados argumentou que os livros de Coreia do Sul e Japão terão agora “poucas possibilidades” de serem publicados na China e que a permissão para livros de outros países será “muito limitada”.

O “South China Morning Post” informou que tentou entrar em contato com as autoridades de Pequim para confirmar a notícia, mas não obteve resposta.

A China é um dos mercados mais atrativos para a literatura infantil. Os livros ilustrados estrangeiros ficaram cada vez mais populares entre os 220 milhões de jovens leitores menores de 14 anos e são muito mais lidos que as publicações chinesas.

Personagens como a porquinha “Peppa Pig”, um dos contos mais vendidos na China, são uma referência entre os pequenos chineses e podem ser afetados por esta medida protecionista governamental.

Os livros infantis se tornaram o segmento mais lucrativo do mercado de livros da China e no ano passado, segundo dados proporcionados pelo jornal, foram publicados mais de 40 mil títulos entre importados e locais.

Embora poucos veículos de imprensa chineses tenham repercutido esta polêmica, o jornal oficial “Global Times” publicou há poucos dias que vários pais se queixavam da possível norma e diziam que muitos estão se preparando e comprando os livros favoritos dos filhos para caso não consigam encontrá-los depois.

O jornal reproduz outras opiniões que asseguram que a nova medida pode ser uma estratégia das livrarias para aumentar as vendas. De acordo com Chen Shaofeng, subdiretor do Instituto de Indústrias Culturais da Universidade de Pequim, a informação ainda tem que ser divulgada por fontes “confiáveis” e as acusações por enquanto são “infundadas”.

No entanto, em outra entrevista ao mesmo meio oficial, o responsável por uma editora infantil de Pequim declarou que agora leva muito mais tempo para conseguir a permissão oficial para publicar novas obras. Enquanto antes demorava só três semanas para ter o “sim” das autoridades, agora demora mais de dois meses.

Há um ano, o governo chinês lançou uma campanha contra as universidades e, ao mesmo tempo, o Ministério da Educação pedia às instituições de ensino que eliminassem os livros didáticos que promovem valores ocidentais ou difamem o Partido Comunista.

Clássico de Gabriel García Márquez chega à China 27 anos depois

0
O Nobel de Literatura Gabriel García Marquez

O Nobel de Literatura Gabriel García Marquez
Imagem: Fernando Vergara – 26.mar.07/Associated Press

Publicado originalmente na Folha de S. Paulo

A primeira versão autorizada em mandarim de “O Amor nos Tempos do Cólera”, um dos mais famosos romances do escritor Gabriel García Márquez, chegou finalmente à China, um mercado em que durante anos circularam versões ilegais de muitas obras do Nobel de Literatura colombiano.

A professora de espanhol Yang Ling foi encarregada da tradução da obra, de 1985, publicada pela editora Thinkingdom e lançada nesta segunda-feira na estatal Academia Chinesa de Ciências Sociais, em Pequim.

“Com o livro, cada um pode reencontrar seu próprio sentimento do ‘primeiro amor’ e García Márquez aparece como um homem real, de carne e osso, e sentimos profundamente o que ele sente”, descreveu Yang à Agência Efe ao comentar a obra célebre, sua primeira tradução de um romance latino-americano.

A professora acrescentou que enquanto “Cem Anos de Solidão” pode ser definido como um livro escrito com “a caneta de Deus”, em “O Amor…”, “Márquez se revela como Jesus: com um lado humano e um lado divino”.

“O que mais me impressionou foi o amor. É um tipo de amor diferente. Os chineses não falam tanto disso porque geralmente somos mais tímidos. García Márquez fala muito do amor. O amor que está em seu livro me comoveu muito. E acaba nos mostrando que é a coisa mais importante da vida e que sem ele não podemos viver”, refletiu Yang.

Chen Zhongyi, pesquisador de Filologia Hispânica da Academia de Ciências Sociais da China e que traduziu “Gabo” nos anos 1980, elogiou a tradução lançada hoje e afirmou que “no plano de fundo há muito da história da sociedade (colombiana), mas o mais importante é a imaginação e o estilo de García Márquez”.

Por sua vez, a diretora do Instituto Cervantes de Pequim (organismo que colabora com a editora do livro), Inmaculada González, opinou à Efe que a nova tradução é admirável porque durante muitos só se conheciam na China edições não reconhecidas nem por “Gabo” nem por seu agente.

“É um grande passo adiante e também representa um novo momento da situação editorial na China, que cada vez adquire mais direitos de autores estrangeiros e também certamente significa que cada vez serão traduzidos mais autores chineses”, opinou González.

O primeiro-secretário da Embaixada da Colômbia na China, Luis Roa, encarregado de Assuntos Culturais, opinou por sua vez que a obra “é um grande presente cultural e literário que ‘Gabo’ dá ao povo chinês e um grande legado literário da literatura colombiana que finalmente se torna oficial”.

Em 1990, o Nobel de Literatura colombiano chamou os chineses de “piratas” ao descobrir que suas obras eram traduzidas sem autorização, e reza a lenda entre os hispanistas chineses que afirmou que “nem 150 anos após sua morte autorizaria”.

Com o protocolo de 1991 do Convênio de Berna para a Proteção das Obras Literárias e Artísticas, editoras chinesas, primeiro estatais e depois privadas, tentaram adquirir os direitos da obra prima do realismo mágico latino-americano, mas consideraram muito alto o preço que Carmen Balcells, agente de “Gabo”, havia estabelecido.

A tradução agora publicada, de Thinkingdom Media Group Ltd, é a terceira que a casa editorial apresenta de García Márquez após ter lançado em maio do ano passado a versão oficial de “Cem Anos de Solidão” e pouco depois o ensaio “No he venido a dar un discurso” (não publicado no Brasil).

“Anteriormente seus trabalhos não haviam sido publicados formalmente, por isso achamos que temos a responsabilidade de publicá-los para contribuir com a melhora da literatura que existe na China e para que os leitores chineses possam conhecer o trabalho de García Márquez”, declarou à Efe Liu Cancan, representante da editora.

Go to Top