Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

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Aos 11 anos, poetisa comemora mil livros vendidos e dá até palestras

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Jovem se inspira em momentos do cotidiano (Foto: Carlos Dias/G1)

Jovem se inspira em momentos do cotidiano (Foto: Carlos Dias/G1)

 

Exemplar foi publicado em fevereiro deste ano, após convite de editora.
‘Escrever é minha paixão’, diz adolescente de Sorocaba (SP).

Publicado no G1

“Uma jovem garotinha, começando a crescer. Uma bela menininha, aprendendo a viver”. Esse é um trecho das diversas poesias da escritora mirim Ana Cristina Rodrigues, de Sorocaba (SP). Aos 11 anos, a jovem comemora mil exemplares vendidos do livro “Sementes de Ana Cristina”, após ser convidada a publicar a obra em fevereiro deste ano.

Em entrevista ao G1, a poetisa conta que a relação dela com a literatura começou aos 6 anos, antes mesmo de aprender a escrever. De forma despretensiosa, juntando folhas de caderno e formando pequenos livros, na época já se formava a paixão pelas palavras. “Sempre fui curiosa, acredito que isso tenha ajudado na época em que estava aprendendo a escrever. Além disso, minha mãe lia livros para mim antes de dormir, o que me fez aprender a ler e até a escrever um pouco, antes de entrar na escola”, lembra Ana.

Conforme ia crescendo, a criatividade e a vontade de aprender a acompanhavam. Motivada pela família, ela usava histórias em quadrinhos, músicas e livros adquiridos pelos pais. “Apesar de ser uma novidade tudo isso para mim, eu sempre apresentei histórias para ela, porém, eu não imaginava que ela aquilo estava a ajudando a se tornar uma poetisa”, diz a mãe, Andréia Rodrigues.

Sementes plantadas
A vida de Ana se transformou fazendo o que mais gosta: declamando versos. De acordo com ela, para não guardar para si mesma e apresentar para outros amantes da poesia os seus versos, ela aperfeiçoou a técnica com visitas frequentes a um sarau na cidade. “Tenho um vizinho que também é poeta e ele sempre via os meus textos. Foi então que ele me levou em um sarau, tudo com apoio dos meus pais, que nunca me forçaram a nada”, comenta a mini escritora.

Em meio a pesquisas e percepção do dia a dia, surgiu a inspiração para a poesia “Amigos de verdade”. Nos versos estão momentos com amigos da época, retratados em rimas que garantiram o convite inesperado do representante de uma editora para que um livro dela, com 20 poesias, fosse publicado. “Ficamos feliz com o convite, mas não tínhamos nenhuma condição de pagar a publicação. Dias depois da proposta, ele retornou e disse que os 100 primeiros seriam de presente para ela. Com o passar do tempo, compramos de acordo com a quantidade de venda, que nos surpreendeu já no primeiro dia de lançamento, com 52 exemplares vendidos”, comemora a mãe.

'Amigos de Verdade' foi a poesia que 'abriu portas' (Foto: Carlos Dias/G1)

‘Amigos de Verdade’ foi a poesia que ‘abriu portas’ (Foto: Carlos Dias/G1)

 

A obra repercutiu e passou a marca dos mil exemplares vendidos, cada um por R$ 10. A poetisa agora tem a preocupação com agenda de palestras. Com um banner, caixas de livros e o microfone em mãos, ela busca despertar a leitura dentro de escolas e motivar adultos nas empresas. “Em escolas eu tento ajudar os outros da minha idade ou até mais velhos a terem o gosto pela leitura e a importância de entender e saber cada vez mais as palavras. Já para os adultos em empresas, a minha missão é mostrar a minha história e mostrar que nunca deve desanimar da vida e temos que acordar cedo e batalhar por aquilo que queremos”, diz.

Apesar da correria entre palestras, poesias e estudos, ela garante que consegue se organizar para que o rendimento rendimento escolar não seja prejudicado. “Faço todas as lições e até ajudo as amigas que pedem dicas”, brinca.

Poesia e romance
Empolgada com a nova experiência, dois livros estão prontos para serem publicados: um de poesias, com vocabulário mais diversificado e um romance. “Leio muito. Só em 2015 quase 200 livros já passaram por mim. Isso aperfeiçoou meu conhecimento. O novo livro de poesia é inspirado em tudo que vejo. Já o romance apresenta a história de um casal que se conheceu na infância aos 8 anos e, após encontros e desencontros, só se casam aos 85 anos, depois de momentos bons e ruins”, finaliza a jovem.

Se lançar um livro é um sonho já realizado, a pequena escritora mira o futuro, apesar do receio em uma carreira focada apenas nos livros. “Escrever é minha paixão. Mas sei que não dá para viver só com a venda de exemplares. Por isso, penso em fazer uma faculdade de Direito ou até Publicidade e Propaganda, mas sempre escrevendo”, revela a poetisa.

Livros são vendidos em um shopping em Sorocaba (Foto: Carlos Dias/G1)

Livros são vendidos em um shopping em Sorocaba (Foto: Carlos Dias/G1)

Ex-educador da Fundação Casa usa rap e funk para ensinar poesia

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‘Sempre usava algum elemento de atrativo para os garotos’, diz rapper.
Ex-aluno conta como rap e ajuda do educador o tiraram da rua e do crime.

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Publicado em G1

Quando foi ensinar poesia para os internos da Fundação Casa, em São Paulo, o rapper e educador Dugueto Shabazz ouviu de um aluno: “Eu aprendi que poesia é coisa de viado”. Dugueto rebateu com um trecho de “Jesus chorou”, dos Racionais, o grupo de rap da Zona Sul que fez uma legião de fãs relatando os problemas e a violência nas comunidades carentes: “O que é, o que é, clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada”, e os meninos começaram a cantar junto. “Isso é poesia cara, a gente é tudo viado então”.

“Eles têm uma homofobia muito grande que é reflexo de toda a sociedade, mas dentro do crime é muito forte, coisa de ser homem e tal, no sentido macho da palavra”, disse o educador, que trabalhou por três anos na Fundação Casa contratado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação e Ação Comunitária (Cenpec) (veja o vídeo acima).

Por intermédio do rap e do funk, crianças e adolescentes de abrigos de rua e da Fundação Casa, a instituição pública responsável pela ressocialização de menores infratores no estado, conheceram de Racionais a João Cabral de Melo Neto. “Queria contribuir com a realidade deles e achava que a música tinha potencial pra isso”, explica Ridson da Paixão, educador e rapper conhecido como Dugueto Shabazz, de 32 anos. Ele usava autores consagrados para mostrar como métrica e sonoridade também eram importantes na composição de letras de rap e funk.

Criado no Jardim Jaqueline, na Zona Oeste de São Paulo, Dugueto Shabazz escolheu esse nome artístico por ser da periferia e como referência ao nome completo do ativista americano Malcom X (Al Hajj Malik Al-Shabazz). Pelo trabalho na Fundação Casa, recebeu o Prêmio Cultura Hip Hop 2014, do Ministério da Cultura. Com o dinheiro do prêmio, quer produzir o clipe da sua música “Menores infratores”.

“Tudo de mais sofisticado, mais denso que eu levasse pra eles, eu sempre usava algum elemento de atrativo”, disse Dugueto. Assim, ele levou a meninos e meninas a poesia de Castro Alves, Pablo Neruda, Patativa do Assaré e João Cabral de Melo Neto por meio do rap e do funk – que têm mais apelo hoje em dia, segundo o rapper.

A música também abriu portas em uma unidade da Fundação Casa na Raposo Tavares, que abriga menores considerados de alta periculosidade. “O lugar não tinha nada, eles quebraram tudo e mandavam no negócio”, disse Dugueto. Esses menores ainda não tinham aceitado nenhum tipo de oficina cultural, até saber que o professor ia “ajudar nas letras”. “Um trouxe um caderno todo cheio de letra, falou ‘a gente tem um grupo de rap aqui’”, e o educador contou que bem recebido pelo grupo.

Dugueto preferia não saber e não perguntava que tipo de infração cada adolescente cometeu. Tinha receio de descobrir, por exemplo, um caso de estupro, e acabar tratando o aluno de maneira diferente. “Não perguntava o que fez na rua, nunca perguntava isso pros moleques. Tinha medo de tratar diferente. Sei lá, por alguma reação minha maior que minha parte consciente ou profissional.”

Antes de trabalhar por três anos na Fundação Casa, em dois períodos diferentes, Dugueto trabalhou em abrigos para crianças e adolescentes, os Centros de Referência da Criança e Adolescente (Crecas). Além de dar oficinas e aulas, ele saía com grupos para passeios no Centro, em lugares como o Centro Cultural Banco do Brasil e a Galeria do Rock. “Às vezes eu saía com 20 e voltava com 7, porque quando eles achavam os outros amigos do crack ou da cola, do tinner, eles evadiam.” Foi em um desses abrigos que conheceu Filliphe Augusto Gomes, na época com 13 anos.

Da casa da mãe à Fundação Casa

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Filliphe cresceu em Guaianases, na Cohab Juscelino Kubitschek, extremo da Zona Leste de São Paulo. Filho de mãe evangélica, conta que “ela sempre passava os valores do cristianismo”. “A minha educação não foi largada. Mas em contrapartida minha mãe precisava sustentar três filhos, então ela saía de manhã e voltava onze da noite.”

Na rua, a realidade da década de 1990 em Guaianases era violenta. “Quando eu era pequeno, meu irmão ia me levar para escola, cheguei a ver um homem enforcado numa árvore.” Como ficava muito na rua, jogava bola, empinava pipa, ele entendeu que aquilo seria “o normal”. “Eu não imaginava que tinha bairro nobre, pra mim São Paulo era aquilo ali. Meu bairro era minha cidade pra mim.”

Aos 12 anos, mais uma agressão das rotineiras agressões do padrasto o fez sair de casa. “E a minha mãe era submissa a ele e não me defendeu. E aí eu discuti com a minha mãe e ela falou palavras que eu não consegui absorver. Ela falou que só tinha obrigação de cuidar de mim até os 18 anos de idade, por lei. Isso daí eu nunca me esqueço. Quando ela falou isso daí, acordei pra vida. Então daqui sei lá, 5, 6 anos não sou mais nada. Então vou embora agora. Você não precisa mais ter essa responsabilidade. Peguei e fugi de casa.”

Pegou um ônibus até Itaquera, depois o metrô e, pela primeira vez, esteve no Centro da cidade. “Havia chorado o dia inteiro, então tava muito cansado”. Filliphe viu um aglomerado de pessoas, que seriam evangélicos distribuindo comida para moradores de rua, se envolveu e acabou conhecendo outras crianças que estavam na rua. “Eu era muito ingênuo, nunca tinha usado drogas, cometido nenhum tipo de crime, era apenas um moleque revoltado. Mas a partir daí eu comecei a conhecer a realidade da rua, e aprender.”

Após uma semana, uma frente fria o levou para um abrigo para menores de rua. Os novos colegas de rua falaram que era um bom lugar para tomar banho, descansar, comer e depois ir embora. Filliphe disse que há uma “aversão” ao abrigo pelos moradores de rua. “Pra quem mora na rua, não tem regra. Não tem horário pra dormir, não tem horário pra acordar. Criança e adolescente geralmente tem aversão a isso pela metodologia. Ali é um refúgio. Algo que você vai garantir a sua sobrevivência por alguns dias.”

E foi em um desses abrigos, os Crecas, que ele conheceu Dugueto. “Foi um cara que logo de cara eu me identifiquei porque ele falava a nossa linguagem. Entendia as nossas gírias, os nossos códigos. Ele sabia se comunicar com a gente”.

Filliphe já conhecia Racionais, mas pela primeira vez escutou “um homem na estrada”, recitada pelo educador. “A letra é muito forte, de cara você se identifica com aquilo”, contou. “No abrigo foi onde eu me apaixonei pela poesia e pelo rap. Eu entendi o real propósito da poesia do rap. Foi um momento que eu tive alguns discernimentos que me fizeram amadurecer.”

Ele viveu em abrigos dos 12 aos 17, pulando de um para outro. Alguns tentaram uma reaproximação com a família, que não deu certo, segundo Filliphe, porque o vínculo havia se quebrado. Quando se viu na rua com 17 anos, percebeu que a realidade não era a mesma de quando era pequeno. “Quando era criança, me davam algo pra comer, mas um marmanjo de 17 anos ninguém ajudava, virava as costas e foda-se. Eu me revoltei e tentei fazer um assalto”.

Após assaltar uma mulher na Avenida Nove de Julho, foi detido por policias que estavam perto e encaminhado para a Fundação Casa. “Só que eu também tinha uma noção de é que melhor eu tá sendo preso agora do que está sendo preso com 18. Senão ia ser muito maior minha pena”. Como era réu primário, após duas audiências ganhou liberdade assistida e saiu da instituição um dia antes de completar 18 anos.

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“Quando eu saí da Fundação Casa, eu quis deixar bem claro na minha mente que aquilo ali não era o lugar pra mim. Eu não podia ser mais um menor saindo da Fundação que ia voltar pra mesma vida. Eu me apeguei ao rap pra poder ter força e condições pra mudar o meu rumo. Comecei a escrever”. Segundo Filliphe, foi essa época que as palavras de Dugueto passaram a fazer ainda mais sentido para ele.

Como nome artístico, escolheu Cafuzo, em referência à cultura negra e às raízes indígenas. Foi morar com o irmão na Zona Leste, em uma casa que a mãe tinha deixado após morrer. Filliphe contou que começou a ir atrás de tudo que tinha relação com o rap, festas, MCs, contatos em redes sociais.

“Quando eu fiz 18 anos, eu decidi. Eu vi que era a única pessoa que conhecia que tinha sobrevivido aquilo, tanto à rua, quanto ao crime e a Fundação Casa. Então eu falei mano, na moral, eu acho que eu sou um cara iluminado mano, eu preciso ser referência, não posso ser mais um uma estatística”, contou.

Trabalhou como chapeiro, garçom, montador de exposição de arte, vendedor de loja, panfleteiro, entre outras atividades. Hoje, aos 23 anos, trabalha no salão de beleza da esposa, com quem tem uma filha pequena.

A música e a arte são projetos paralelos, mas que ainda estão no sonho de se tornarem atividade principal. “Acho que tenho que passar minha mensagem pra talvez quem sabe algum dia tocar o coração de algum moleque e poder salvar a vida dele também.”

As belas coisas inúteis que nos salvam a vida

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Ou olhamos para a poesia como algo inútil, ou exigimos que nos salve a nós e ao mundo

José Eduardo Agualusa, em O Globo

A poeta portuguesa Matilde Campilho foi este ano uma das estrelas da Flip. “A poesia não salva o mundo, mas salva o minuto”, disse, a determinada altura. A frase foi muito citada em Paraty. Acho isto curioso: ou olhamos para a poesia como um exercício inútil, ou exigimos à poesia que nos salve a nós e ao mundo. Nunca ouvi ninguém fazer o mesmo tipo de pergunta a um gramático ou a um geólogo: “A gramática já lhe salvou a vida?” Ou: “Acha que é possível alcançar Deus através da geologia?”

Matilde tentou, de forma elegante, permanecer poeta sem parecer demasiado doida. Devia ter optado pela doidice. Se é para ser poeta, não há que temer a loucura. Se é para ser louco, que seja com poesia.

Na verdade, acho muito mais provável a poesia salvar vidas do que a gramática. Posso imaginar a história de um tipo desesperado, disposto a lançar-se da janela de um décimo andar, após ter perdido a fortuna, os filhos ou a mulher amada. É então que surge alguém que o faz mudar de opinião declamando versos de (cada leitor pode colocar aqui o nome do poeta que o impediria de saltar). Já no caso de uma criança prestes a afogar-se não me parece sensato atirar-lhe com versos. Mais vale atirar-lhe uma boia.

Vamos então pela loucura: sim, eu acredito que se não for a poesia a salvar o mundo, o mundo está perdido.

A poesia é uma intuição e na história da ciência a intuição tem um papel fundamental. Os ingleses chamam serendipity aquelas descobertas felizes, que parecem acontecer por acaso, mas que, na realidade, obedecem às mesmas leis misteriosas da poesia. Como acontece com a poesia, a serendipidade não resulta do acaso — implica um talento particular.

O termo serendipity foi criado pelo escritor britânico Horace Walpole em 1754, a partir de um conto tradicional cingalês, “Os três príncipes de Serendip”. Os príncipes do conto tendiam a fazer grandes descobertas por acidente. Serendip é o antigo nome dado pelos comerciantes árabes à ilha de Ceilão, a Taprobana a que se refere Camões nos “Lusíadas”.

Exemplos clássicos de serendipidade são a descoberta da penicilina, por Alexander Fleming, ou a elaboração da teoria da gravidade por Newton, depois que uma maçã lhe caiu na cabeça.

Cientistas propensos a esta particular forma de epifania tendem a orientar-se por uma lógica poética, revelando particular vocação para estabelecer relações entre objetos aparentemente distantes e desconexos. Retiro um livro ao acaso da estante de poesia: A “Nova antologia poética”, de Vinicius de Moraes. Abro-o e leio: “Pensem nas feridas/ como rosas cálidas”. Retiro outro: “O escriba acocorado”, do moçambicano Rui Knopfli. Leio: “Ao longe um latir de cães estilhaça o sereno/ espelho do horizonte em que trêmulas casuarinas/ perfilam a distância.” No primeiro exemplo, Vinicius aproxima as feridas resultantes das queimaduras por radiação de rosas cálidas. No segundo, onde a maioria das pessoas veria apenas a linha do horizonte, Rui Knopfli viu um espelho estilhaçado pelo súbito latir de cães.

A poesia pode, pois, salvar o mundo, ao estabelecer um outro tipo de pensamento no qual a intuição seja mais relevante do que a lógica linear.

Posto isto, parece-me que questionar a utilidade da poesia é tão absurdo quanto questionar a serventia da música, da beleza ou do amor. Certa noite, numa aldeia perdida no meio do mato, em Angola, ouvi um menino perguntar ao avô: “Para que servem as estrelas?” O velho encolheu os ombros, suspirou e disse: “Não são ocorrências de servir, meu neto. Estão lá só para fazer bonito.” A beleza é inútil e isso é tão lindo.

Uma outra excelente resposta à questão da utilidade da poesia escutei-a, há anos, na Livraria da Travessa, de Ipanema, durante um encontro de Ferreira Gullar com os seus leitores. Questionado por uma moça, sentada no chão, diante dele, Gullar contou que, nos tempos do exílio, no Chile, costumava almoçar todas as semanas com um grupo de outros expatriados latino-americanos. Havia nesse grupo um economista argentino, namorado de uma brasileira, que sempre se sentava junto de Gullar e ficava o almoço inteiro falando de economia. Um dia perdeu a namorada. Nesse dia sentou-se, como de costume, ao lado de Gullar mas não falou de economia. Falou apenas de poesia. Durante o almoço inteiro não falou senão de poesia. “Quando a morena vai embora”, concluiu Gullar, “a economia não tem serventia alguma. Quando a morena vai embora só a poesia nos pode ajudar.”

dica da Sonia Junqueira

Faça o download de 16 livros de Aluísio Azevedo gratuitamente

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Entenda também um pouco sobre a trajetória literária deste escritor conhecido por suas obras naturalistas

Publicado no Universia Brasil

Caixeiro, comerciante, gerente de hotel, professor de gramática, guarda-livros, professor de desenho, jornalista, caricaturista e vice-cônsul. Estas foram algumas das várias facetas do escritor maranhense Aluísio Tancredo Belo Gonçalves de Azevedo.

Membro de uma das famílias mais cultas de São Luís, Aluísio Azevedo desde cedo mostrou aptidão para a arte, sobretudo no desenho, razão que o levou a estudar no Rio de Janeiro, na Academia Imperial de Belas-Artes.

No entanto, com a morte de seu pai, viu-se impelido a ajudar seus parentes durante o período de dificuldades financeiras. Encontrou nos textos românticos uma maneira de fazer dinheiro fácil, já que havia uma demanda das publicações e do público para obras deste estilo, e começou a escrever. Nesta primeira fase de produção literária, pode-se destacar seu livro de estreia “Uma lágrima de mulher”, de 1879, que conta a história do amor impossível de Miguel e Rosalina.

Com o passar dos anos, o escritor romântico foi dando espaço para o autor naturalista e sua atuação nos jornais e revistas da época tiveram grande influência nessa mudança de estética literária. Como caricaturista, publicou severas críticas à sociedade brasileira em veículos como “O Mequetrefe”, “O Fígaro” e “A Semana Ilustrada”, além de demonstrar preocupação com questões relativas à exploração dos imigrantes e aos problemas habitacionais – temas que acabou tratando nas obras “O Cortiço” e “Casa de Pensão”.

Diferentemente de autores como José de Alencar, o irmão do teatrólogo Artur Azevedo posicionava-se contra o sistema escravista. Para lutar contra a persistência deste modelo de trabalho e ainda reafirmar sua posição quanto à decadência que o clero representava na sociedade brasileira, o escritor foi colaborador do jornal “O Pensador”. Contudo, ratificou sua opinião de fato com a publicação do livro “O Mulato”, em 1881, dando o pontapé inicial para o Naturalismo no Brasil.

Influenciado por escritores estrangeiros, como Émile Zola e Eça de Queirós, introduziu nas suas narrativas elementos do determinismo e incluiu o zoomorfismo, a miséria e os vícios humanos. Além disso, temas antes nunca mencionados na literatura passaram a pertencer aos enredos, como foi o caso da homossexualidade e a população marginalizada no livro “O Cortiço”.

Vale ressaltar também que Aluísio emprestou ferramentas de outros dois ofícios para a criação destas obras. As visitas aos locais que ambientariam suas histórias e as conversas com pessoas que inspirariam suas personagens, por exemplo, podem ser relacionadas aos seus anos como jornalista. Já seu hábito de desenhar estes indivíduos tem origem no seu gosto pela arte e seu trabalho como caricaturista.

Além de romances, ele deixou peças de teatro, contos e crônicas antes de deixar a literatura de vez para seguir, como seu pai, a carreira de diplomata, em 1895.

A seguir, você poderá baixar 16 obras deste importante escritor brasileiro, incluindo “O Cortiço”, livro obrigatório da Fuvest 2016. Boa leitura!

 

1. A Condessa Vésper de Aluísio Azevedo em pdf


2. A Mortalha de Alzira de Aluísio Azevedo em pdf


3. Aos Vintes Anos de Aluísio Azevedo em pdf


4. Casa de pensão de Aluísio Azevedo em pdf


5. Demônios de Aluísio Azevedo em pdf


6. Filomena Borges de Aluísio Azevedo em pdf


7. Girândola de amores de Aluísio Azevedo em pdf


8. Mattos, Malta ou Matta? de Aluísio Azevedo em pdf


9. O Cortiço de Aluísio Azevedo em pdf


10. O Coruja de Aluísio Azevedo em pdf


11. O Esqueleto de Aluísio Azevedo em pdf


12. O Homem de Aluísio Azevedo em pdf


13. O Japão de Aluísio Azevedo em pdf


14. O Livro de uma Sogra de Aluísio Azevedo em pdf


15. O Mulato de Aluísio Azevedo em pdf


16. Uma Lágrima de Mulher de Aluísio Azevedo em pdf

 

Confira 10 momentos marcantes da Flip 2015 em 10 palavras

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Evento teve palco invadido, Machado ‘psicografado’ e poesia com pandeiro.
13ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty acabou neste domingo.

Cauê Muraro, Letícia Mendes e Shin Oliva Suzuki, no G1

A Festa Literária Internacional de Paraty encerrou a 13ª edição neste domingo (5) com diversos momentos marcantes, mesmo perdendo sua atração mais esperada pouco antes do início e com a cidade com menos turistas do que em outros anos.

O cancelamento da ida de Roberto Saviano deixou a Flip sem uma grande estrela internacional dos livros, mas a maior parte dos debates conseguiu empolgar o público.

Não foi uma edição tão política quanto a de 2013, que adaptou sua programação ao momento de protestos pelo país. Mas neste ano, nas vezes em que o tema foi evocado, a efervescência no público era perceptível.

O erotismo também esteve presente em diversos momentos desta Flip. Foi destaque também o interesse pelas mesas de ciência: em 2015, o cérebro e a matemática foram temas que atraíram uma grande multidão à tenda da festa.

Confira abaixo dez momentos marcantes da Flip em dez palavras:

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O salve (Foto: Editoria de Arte/G1) Roberto Saviano fala sobre sua ausência na Flip 2015 (Foto: Divulgação/Flip)

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Roberto Saviano fala sobre sua ausência na Flip 2015 (Foto: Divulgação/Flip)

Ele não veio. Mas esteve presente. Roberto Saviano, jurado de morte pela Máfia italiana, cancelou sua participação alegando questões de segurança. Mas emocionou o público com um vídeo de pouco mais de 11 minutos bastante contundente em que abordou sua condição de constante ameaça e atacou as conexões que possibilitam à indústria do narcotráfico uma condição cada vez mais forte.

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a invasão (Foto: Editoria de Arte/G1) O ator Pascoal da Conceição invade o palco vestido de Mário de Andrade na mesa de abertura da Flip (Foto: Divulgação/Flip)

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O ator Pascoal da Conceição invade o palco vestido de Mário de Andrade na mesa de abertura da Flip (Foto: Divulgação/Flip)

O ator Pascoal da Conceição, que interpretou Mário de Andrade na minissérie da Globo “Um só coração” (2004), em peças e performances, resolveu voltar ao papel na conferência de abertura e invadiu o palco da Flip 2015. Nada combinado. Ele andou pela plateia, segurando um buquê de flores e caracterizado como Mário de Andrade, e declamou um poema. Ao G1, falou: “Eu sinto, como ator, quase uma obrigação artística de estar presente”. Disse ainda que arcou sozinho com os custos da iniciativa, inclusive com os R$ 1,8 mil do terno.

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a psicografia (Foto: Editoria de Arte/G1) Reinaldo Moraes participa de mesa sobre erotismo da 13ª Flip (Foto: Divulgação/Flip)

a psicografia (Foto: Editoria de Arte/G1)
Reinaldo Moraes participa de mesa sobre erotismo da 13ª Flip (Foto: Divulgação/Flip)

O escritor Reinaldo Moraes “psicografou” Machado de Assis, acrescentou sexo – oral, inclusive – em “Memórias póstumas de Brás Cubas” e arrancou muitas risadas (e aplausos) do público da Flip. Em mesa sobre literatura erótica, ele leu em voz alta dois textos, feitos especialmente para o evento, em que crivou cenas pornográficas envolvendo os protagonistas do clássico de Machado. Fã de um trocadilho (nem sempre sofisticado), Reinaldo dividiu a mesa com Eliane Robert Moraes, especialista em Sade. Foi o encontro mais debochado do evento. E algum recorde de termos de duplo sentido mencionados por segundo deve ter sido quebrado.

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a comoção (Foto: Editoria de Arte/G1) O crítico literário, ensaísta e músico José Miguel Wisnik em conferência na Flip (Foto: Divulgação/Flip)

a comoção (Foto: Editoria de Arte/G1)
O crítico literário, ensaísta e músico José Miguel Wisnik em conferência na Flip (Foto: Divulgação/Flip)

Foi arrebatadora a conferência de encerramento da Flip 2015, ministrada pelo professor, ensaísta e músico José Miguel Wisnik. Na “aula”, ele juntou Mário de Andrade e política emocionando a plateia. Foi aplaudido de pé ao dizer que o Brasil não trata a cultura e educação como se fosse “um luxo [acessível] para todos” e “faz de tudo para jogar a juventude pobre e negra no esgoto das prisões”. Também cantou, comovido, o poema “Garoa do meu São Paulo”, do próprio Mário de Andrade, homenageado do evento: “Garoa do meu São Paulo / Timbre triste de martírios / Um negro vem vindo, é branco / Só bem perto fica negro / Passa e torna a ficar branco”. Terminou com voz embargada o último verso: “Garoa sai dos meus olhos”.

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