Marcelo Nova - o Galope do Tempo

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Bob Dylan fala de cerimônia de Nobel pela primeira vez: ‘Vou se for possível’

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O cantor e compositor Bob Dylan, durante show no festival Vieilles Charrues em Carhaix-Plouguer, no oeste da França, em julho de 2012 (Foto: Fred Tanneau/AFP/Arquivo)

O cantor e compositor Bob Dylan, durante show no festival Vieilles Charrues em Carhaix-Plouguer, no oeste da França, em julho de 2012 (Foto: Fred Tanneau/AFP/Arquivo)

 

Ele pretende ir à premiação e diz a jornal ‘Telegraph’ que é ‘difícil de acreditar.
Academia Sueca diz que ele ligou e disse: ‘Se eu aceito prêmio? É claro’.

Publicado no G1

Após duas semanas de silêncio, Bob Dylan falou sobre ter ganhado o Nobel de Literatura, em entrevista ao jornal britânico “The Telegraph” e em comunicado divugado pela Academia Sueca, ambos publicados nesta sexta-feira (28). Ao ser questionado se pretende ir à cerimônia de premiação, ele disse ao jornal: “Absolutamente. Se for possível”.

A Academia Sueca, que concede o Nobel, divulgou um comunicado dizendo que o cantor ligou para eles nesta semana e disse: “Se eu aceito o prêmio? É claro”. “A notícia sobre o Prêmio Nobel me deixou sem palavras. Eu agradeço muito por essa homenagem”, disse o compositor.

O comunicado diz que ainda não está decidido se Dylan vai participar presencialmente da cerimônia do Nobel em dezembro, em Estocolmo.

O prêmio foi anunciado há duas semanas, e o cantor chegou a ser criticado por não atender às ligações da Academia nem se pronunciar sobre o prêmio

O compositor disse ao “The Telegraph” que, ao saber que tinha ganhado, achou “supreendente, incrível. Quem sonharia com uma coisa dessas?”. “É difícil de acreditar”, afirmou Bob Dylan.

O “Telegraph” questiona o artista por ele não ter respondido antes às ligações de congratulação da academia. Ele não explica a falta de resposta e afirma apenas: “Bem, eu estou aqui”.

Ao ser questionado se concorda com a afirmação da Academia Sueca de que suas canções estão no patamar da alta literatura, ele diz com “hesitação”, segundo a reportagem: “Acho que sim, de certa maneira. Algumas de minhas músicas – ‘Blind Willie’, ‘The Ballad of Hollis Brown’, ‘Joey’, ‘A Hard Rain’, ‘Hurricane’ e outras – têm um valor homérico [em referência ao poeta grego Homero, citado pela Academia ao justificar a premiação].”

Nobel
Bob Dylan, de 75 anos, foi anunciado no dia 13 de outubro como o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2016. A escolha foi divulgada em um evento em Estocolmo, na Suécia. Além do título, Dylan, que é considerado um dos maiores nomes da música do século XX, poderá receber 8 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 2,9 milhões).

A opção por um músico – e não por um escritor de ofício – soa incomum, mas o nome do Dylan vinha sendo cotado havia muitos anos. Também poeta e com diversos livros lançados (veja lista abaixo), o artista é aclamado sobretudo pelo lirismo de suas letras. Desta vez, no entanto, ele não estava entre os favoritos nas casas de apostas.

Reconhecendo que o Nobel de literatura de 2016 pode parecer surpreendente, a secretária-geral da Academia Sueca, Sara Danius, declarou que Dylan foi escolhido “por criar novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana”.

A academia citou ainda que “Dylan tem o status de um ícone” e que “sua influência na música contemporânea é profunda”. “Ele é provavelmente o maior poeta vivo”, declarou Per Wastberg, membro da instituição.

A nota biográfica do prêmio afirma que “Dylan gravou um grande número de álbuns que giram em torno de temas como a condição humana, religião, política e amor”. Dentre os clássicos compostos por ele, estão “Blowin’ in the wind”, “Subterranean homesick blues”, “Mr. tambourine man” e “Like a rolling stone”.

App transforma poemas de Manoel de Barros em animações

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O app oferece quatro recursos: Clipes, Poesias, Desenhar e Foto - Agência O GLOBO / Reprodução

O app oferece quatro recursos: Clipes, Poesias, Desenhar e Foto – Agência O GLOBO / Reprodução

Publicado em O Globo

RIO — Musicados por Márcio de Camillo e ilustrados e animados pelas iluminuras de Martha Barros, os versos de Manoel de Barros viraram “poesias brincantes” em um novo aplicativo para tablets e celulares iOS e Android, lançado nesta semana. Intitulado Crianceiras, reúne dez clipes animados e quatro poesias interativas, além de um “caderno” no qual os leitores podem tocar nas palavras e ver animações, sons e definições. O aplicativo, que pode ser baixado gratuitamente, é um desdobramento do projeto de mesmo nome, concebido por Camillo e lançado em 2012, como disco e espetáculo.

Responsável pela direção e produção do app, Bruna Pligher diz acreditar que a interação da tecnologia com a poesia tem “um enorme potencial”:

— Nada vai substituir a poesia em seu estado mais puro. Mas o app serve como um convite à poesia e a apresenta em uma nova forma. Colocar a obra do poeta numa tecnologia de que as crianças gostam pode provocar nelas uma nova percepção da arte e aumentar o interesse pelos livros do Manoel.

O app oferece quatro recursos: Clipes, Poesias, Desenhar e Foto. Poemas musicados por Camillo, como “Boa sombra” e “O menino e o rio”, ganham clipes com animações de Martha Barros, filha de Manoel. Já no tópico Poesias, as palavras se transformam em brinquedos, num formato interativo em que o usuário vai aprendendo mais sobre o poema a partir de sons e desenhos. Outro recurso permite desenhar com as cores, as texturas e os personagens das iluminuras.

— Não acho que o aplicativo pode ajudar a compreender a poesia de Manoel de Barros, porque o próprio Manoel de Barros já dizia que a poesia não era para ser compreendida. A ideia é incorporar um novo olhar para a poesia no cotidiano. Nesse sentido, acho que o carro-chefe são as animações. Foi um desafio aproximar as crianças do visual, sem deixar de manter a identidade da Martha, que tem uma obra visualmente poética, muito próxima da do Manoel. Quisemos trabalhar só com textura, com o sugestivo, porque queríamos estimular a imaginação — diz Bruna.

Aluna da UFSCar encontra poemas ‘inéditos’ de Drummond

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Estudante encontrou poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade (Foto: Wilson Aiello/EPTV)

Estudante encontrou poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade (Foto: Wilson Aiello/EPTV)

 

Obras foram publicadas em edição da revista Raça, em São Carlos, SP.
Trechos podem ajudar na compreensão do processo criativo do escritor.

Publicado no G1

A estudante Mayra Fontebasso, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), descobriu três peças importantes no mundo literário: poemas ‘inéditos’ de Carlos Drummond de Andrade. Publicados em uma revista de São Carlos (SP) em 1929, os trechos nunca foram estudados e pertencem à fase jovem do escritor. “São inéditos pelo fato de não terem sido catalogados. Eles foram publicados em revista, mas nunca foram recolhidos em livros e nem estudados”, explicou o professor de literatura Wilton Marques, que coordena a pesquisa. (Veja as obras no fim do texto).

Os “poemas perdidos”, como são intitulados, foram encontrados em um exemplar da revista Raça doado pela família Damiano. Na época, o jornalista Carlos Damiano era o editor responsável pelas publicações. Agora, o acervo pertence à Fundação Pró-Memória.

Segundo Marques, as características dos textos correspondem a uma época desconhecida da vida de Drummond, de quando ele tinha cerca de 20 anos, e por isso eles se tornaram relíquias. “Ainda é um Drummond jovem e excitante literariamente, mas que já apresenta um tipo de poema que vai caminhar para a modernidade depois”.

Até então desconhecidos, os achados são considerados ‘inéditos’ porque não fazem parte do conjunto principal de sua obra e mostram um modo diferente do acostumado modernismo de Drummond.

“A gente percebeu que não só é inédito em livros, como nenhum estudioso nunca se debruçou sobre eles porque, provavelmente, por ser uma revista local, nunca foi alvo de estudos da área de literatura, são pedras preciosíssimas”, afirmou a universitária, aluna do último ano do curso de graduação em letras.

História
Drummond nasceu em Minas Gerais em 1902 e é considerado um dos poetas mais influentes do século 20. Seus primeiros poemas são marcados pela individualidade do autor, que, ao longo o tempo, começa a jornada pelo modernismo, onde deixa sua marca registrada.

Mas as descobertas podem alterar essa linha. “Primeiro eu desconfiei muito desses poemas porque não tinham a assinatura completa do autor, ele assinava só como Carlos Drummond. Esses são poemas que não são parecidos com o Drummond que a gente conhece, o Drummond famoso e modernista”, disse Mayra.

Os achados serão estudados pelos pesquisadores para a melhor compreensão do processo criativo do escritor e também farão parte de uma antologia da Revista Raça, editada na cidade entre 1927 e 1934, com circulação tanto na região quanto na capital paulista.

“Agora eu espero encontrar outras pedras no meio do meu caminho, no meio dessa minha pesquisa, e provavelmente há textos inéditos de outros escritores, não só do Drummond”, finalizou Mayra. Veja abaixo os poemas encontrados.

O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica
Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina…
As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam…
As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada…
As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida…
Como é bela a volúpia inútil de teus dedos…

O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho
Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão…
Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre…
E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos…
E as mãos viúvas tateiam, insones, as friorentas mãos viúvas…

O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra
Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias…
E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes…
E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas…
E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra…

CARLOS DRUMMOND.

Os 10 maiores poemas dos últimos 200 anos

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Carlos William Leite, na Revista Bula

Perguntamos aos leitores, seguidores do Facebook e Twitter: quais os melhores poemas de autores brasileiros e estrangeiros publicados nos últimos 200 anos (1815 a 2015). Mais de 3 mil participantes responderam a enquete. A partir da opinião dos convidados, sintetizamos a lista reunindo os dez poemas mais citados. Os poemas estão classificados de acordo com o número de votos que obtiveram. Dois poetas brasileiros estão na lista: Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar. Por motivo de direitos autorais, alguns poemas tiveram apenas trechos publicados. O resultado não pretende ser abrangente ou definitivo e corresponde apenas à opinião das pessoas consultadas.
1 — A Terra Desolada
(T. S. Eliot)

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.
Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam,
nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

(Trecho de “Terra Desolada”, de T. S. Eliot. Tradução de Ivan Junqueira)
2 — Tabacaria
(Fernando Pessoa)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

(Trecho de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa)
3 — A Máquina do Mundo
(Carlos Drummond de Andrade)

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.

(Trecho de “A Máquina do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade)
4 — Os Homens Ocos
(T. S. Eliot)

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular (mais…)

Opções para apresentar a poesia às crianças

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poesia

Anna Rachel Ferreira, em Nova Escola

Eu tenho uma questão pessoal com poesia. O primeiro livro de poemas que me lembro de ter lido por completo foi Libertinagem, de Manuel Bandeira (1886-1968), quando cursava o Ensino Médio. Não me recordo de muita coisa sobre os textos, só de que, na época, não gostei. Depois tentei outros autores, mas sempre ficava com a sensação de que os poetas só complicam as coisas simples por alguma razão desconhecida. A maneira rebuscada, exagerada e abstrata – na minha concepção – como eles se expressam me deixava irritada. E eu sempre acabava deixando a leitura de lado com a decepção de quem não compreendeu o que tentavam lhe dizer.

Até que um dia, um ser iluminado acrescentou o livro Memórias Inventadas – A Segunda Infância, de Manoel de Barros (1916-2014), à lista de um dos vestibulares que eu prestaria naquele ano. Nunca me esqueço do estranhamento ao pegar aquela caixinha de papelão que mais parecia um presente, criado especialmente para mim. Quando aberta, ela guardava páginas soltas, mas encaixadas e amarradas com um laço de fita cor de laranja. Era uma simplicidade tão bonita que me motivou a ter bastante cuidado ao tocá-la. Após soltar o laço, eu manuseei as folhas delicadamente e as espalhei na cama dos meus pais. Permaneci um breve momento ali admirando as letras e as ilustrações em um encantamento inebriante.

Tinha ficado toda animada quando a professora explicou sobre a sonoridade de Barros, de como as palavras formavam sons que criavam imagens na nossa cabeça e traziam sensações em nossos corpos. Então, comecei a ler em voz alta, imaginando as águas batendo nas pedras, sentindo a brisa no meu rosto, totalmente mergulhada naquele universo novo. Gostei tanto que fiz meu irmão – 5 anos mais novo que eu – sentar do meu lado, fechar os olhos e me ouvir ler alguns dos textos de prosa-poética – classificação dada àquela obra. Não sei dizer como se sentiu ou ainda se ele se lembra disso mas, para mim, foi um momento mágico e, por isso, inesquecível!

Ainda tenho minhas dificuldades com o gênero, mas fico pensando se não foi uma questão de ter sido apresentada a ele muito tarde ou de maneira incorreta. Não sei dizer com certeza. Mas, a lembrança desse meu momento com Manoel de Barros me é tão cara que acho um pecado que alguém passe pela vida sem ter uma experiência assim. Cheguei à conclusão de que, nesse caso, quanto antes puder viver isso, melhor.

Por essa razão, pedi para a Bruna Escaleira, colaboradora de NOVA ESCOLA, escritora e apaixonada por poesia, fazer uma lista com indicações de leitura para apresentar os poemas às crianças. Confira os comentários dela!

 

Poesia fora da estante 2

Poesia Fora da Estante – Volume 2
(org. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, 112 págs., Ed. Projeto, tel.: 51/3346-1258, 28 reais)
Além de ser muito bem amarrada, guardo um carinho especial por essa coletânea. Foi o livro que me apresentou à poesia – pra nunca mais nos separarmos! Os poemas cuidadosamente escolhidos, de autores renomados ou pouco conhecidos, vão mostrando que poesia é uma brincadeira fácil e surpreendente.

 

 

 

 

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Ou Isto ou Aquilo
(Cecília Meireles, 66págs., Ed. Global, tel.: 11/3277-7999, 39 reais)
Um clássico da literatura infantil! A trivialidade da temática escolhida por Cecília faz com que a obra seja sempre atual. A sutileza da sonoridade cativa os pequenos desde o primeiro verso.

 

 

 

 

 

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Exercícios de Ser Criança
(Manoel de Barros, 48 págs., Ed. Salamandra, tel.: 11/2790-1300, 39 reais)
Nunca é cedo para desconstruir conceitos. Com Manoel, os pequenos aprendem que poesia não é só verso e rima – e pode estar em qualquer canto do quintal!

 

 

 

 

 

 

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O Bicho e o Alfabeto
(Paulo Leminski, 72 págs., Ed. Cia das Letrinhas, tel.: 11/3707-3500, 39 reais)
Uma leitura leve e com humor inteligente. Nesse livro para crianças, o ar brincalhão do Leminski “adulto” ganha ainda mais ternura.

 

 

 

 

 

 

 

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Berimbau e outros poemas
(Manuel Bandeira, 64 págs., Ed. Global, tel.: 11/3277-7999, 35 reais)
O poeta que falou tanto da sua infância quando adulto não podia ficar de fora das prateleiras dos pequenos. As ilustrações aproximam ainda mais os famosos poemas do cotidiano das crianças de hoje.

 

 

 

 

 

 

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Cultura
(Arnaldo Antunes, 48 págs., Ed. Iluminuras, tel.: 11/3031-6161, 38 reais)
Mais um adulto que não esqueceu como é ser criança. Ou será uma criança que aprendeu a ser adulto? De qualquer maneira, vale a pena ler as “sacadas” dignas de quem está começando a descobrir o mundo!

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