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Como (e por que) ler Manoel de Barros, o poeta das miudezas

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O autor publicou seu primeiro livroem 1937, 'Poemas concebidos sem pecado'

O autor publicou seu primeiro livroem 1937, ‘Poemas concebidos sem pecado’

 

A pedido do ‘Nexo’, dois conhecedores da obra do mato-grossense aconselham por onde começar a lê-lo e destacam um poema preferido

Juliana Domingos Lima, no Nexo

O poeta mato-grossense Manoel de Barros morreu em 2014 e faria 100 anos em 19 de dezembro de 2016. Sua obra conta com 18 livros de poesia publicados, textos infantis e relatos autobiográficos. É marcada pela inventividade na linguagem, característica que já o fez ser comparado a Guimarães Rosa (autor contemporâneo a ele), pela proximidade com a natureza e com aquilo que é prosaico.

“Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios”

Manoel de Barros

No poema “Tratado geral das grandezas do ínfimo”

“A grande marca da poesia de Manoel de Barros é seu interesse de poeta pelas pequenas coisas. Pelas miudezas, dejetos, lixos, sobras – tudo aquilo que, no mundo dominado pelo consumo de hoje, nós costumamos desprezar”, afirmou o escritor e crítico literário José Castello em entrevista ao Nexo. “A poesia de Manoel nos mostra o valor do pequeno – numa época em que todos querem ser grandes e poderosos e vencedores”, completa.

Castello também ressalta a relação da obra do poeta com a transfiguração. Para ele, essa qualidade transforma o olhar do leitor frente à realidade.

Um mecanismo usado pelo poeta que propõe um novo olhar para o mundo é dar voz às coisas: “É o que acontece no poeminha sobre os caracóis: ‘Ah, como serão ardentes nos caracóis os desejos de voar!’ Essa é uma perspectiva que vem do caracol. Quem vai imaginar que o caracol quer voar? Manoel imagina pontos de vista que não são humanos. Isso significa se tornar ‘coisal’, quando o homem se funde com a natureza”, diz Adalberto Müller Jr., professor de Teoria da Literatura da UFF (Universidade Federal Fluminense), em uma entrevista para a revista “Ciência e Cultura”.

“Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa,
Eram quase quatro da manhã.
Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.”

Manoel de Barros

No poema “Difícil carregar o silêncio”

Bacharel em Direito e nome da geração de 45

Barros se formou bacharel em Direito no Rio de Janeiro em 1941. Depois, viveu entre a capital carioca e o Pantanal, seu habitat de origem. Antes de se formar, em 1937, o autor publicou seu primeiro livro: “Poemas concebidos sem pecado”.

Manoel de Barros foi personagem no documentário “Só dez por cento é mentira” (2008) dirigido por Pedro Cézar. Seus textos também inspiraram peças de teatro e o álbum “Música de sobrevivência”, de Egberto Gismonti.

“Eu o fantasiei magro e triste, mas ele é gorducho e tem o vigor de um empresário feliz. Eu imaginei um homem quieto e inadaptado, e ele é um senhor firme, que se move com nobreza e não esconde o desencanto. Eu imaginei um homem ingênuo, que passasse os dias entre cachorros e passarinhos, catando frutos no mato, os pés metidos na terra, e agora devo aceitar que Manoel de Barros não é a figura que eu tirei de seus poemas. Poemas e poeta estão separados por um abismo, e é ele que, a partir de agora, deve me interessar. A poesia está nessa divisão, é essa fenda que se abre à minha frente.”

José Castello

Trecho do perfil do poeta, parte do livro ‘Inventário de Sombras’

Manoel de Barros pertenceu à geração de 45, da qual também fizeram parte os poetas João Cabral de Melo Neto e Mário Quintana. Sua linguagem é cheia de neologismos e resgata uma fala pura, de matuto.

“Para mim, o que torna o Manoel de Barros um grande poeta é um olhar grande para as coisas pequenas e uma certa liberdade de usar as palavras e brincar com elas de uma maneira bem matuta, bem interiorana. De conseguir ver que a poesia está nesse modo de falar mais rústico, de uma certa maneira”, diz o leitor e artista plástico Kammal João.

“A obra de Barros é inexplicável como o milagre, como qualquer obra de arte quando é genuína. É um poeta por necessidade, por dom… Do estado de ruína do mundo, à inevitável fragmentação do sujeito, sua obra reflete o desmoronamento de uma cultura e de uma forma de humanidade. Seu universo pantaneiro aparece poeticamente filtrado por pontos de vista humanos, animais, vegetais e minerais altamente elaborados: um mundo intocado e profundamente humanizado, um mundo poético, encantado”

Jorge La Rossa

Escritor e tradutor da obra de Manoel para o espanhol, no site da Fundação Manoel de Barros

O Nexo perguntou a dois conhecedores da obra do poeta sobre seus poemas eleitos e sobre a melhor entrada para começar a ler Manoel de Barros:

Kammal João é artista plástico e ilustrador
José Castello é crítico literário e escritor, autor de “Inventário de Sombras”, coletânea de perfis literários que captam captar uma face desconhecida de escritores, entre eles Manoel de Barros

Por onde começar a ler Manoel de Barros

Kammal João Por afinidade, por afetividade, “Tratado geral das grandezas do ínfimo”, que tem bem a ver com o meu modo de olhar para a poesia dele.

José Castello Por qualquer lado. Na “Poesia Completa” publicada pela editora Leya, por exemplo, os livros são apresentados em ordem cronológica. Mas isso é totalmente dispensável. Há várias maneiras de entrar na poesia de Manoel e cada leitor deve escolher a sua, inventar a sua. Eu, por exemplo, gosto muito de abrir a “Poesia Completa”, ou os livros separados agora republicados pela Alfaguara, ao acaso. Deixar que o acaso me ajude a ler Manoel. Ele valorizava muito o acaso e agindo assim sei que estou me aproximando um pouco mais dele.

O poeta em um poema

Kammal João Tendo que escolher um poema, escolheria exatamente um do livro “Tratado das grandezas do ínfimo”, que chama “A Pedra”. A escolha vem porque nesse momento, me encontro em um projeto [http://www.cadernosecaminhos.com/] na Chapada Diamantina, cercado por pedras. Esse poema tem reverberado bastante no meu olhar para o entorno por aqui.

José Castello Escolheria “Matéria de poesia”, o poema em três partes que abre o livro de mesmo nome, publicado em 1970, quando ele tinha 54 anos. Nesse poema, Manoel tenta fazer um resumo de sua estratégia poética. Fala do inútil, do pouco, dos detritos, do ordinário, das “coisa sem préstimo”, do “sem importância”, dos destroços, do inexistente, da loucura, etc, como matéria de sua poesia. Nele, Manoel age, um pouco, como um crítico de si mesmo. Tenta ler a si mesmo. Cita um verso do poeta francês Arthur Rimbaud que resume tudo isso: “Perder a inteligência das coisas para vê-las”. Vê-la não com a razão, mas com a invenção – o que significa reinventá-las. “Poesia é a loucura das palavras”, ele define. Escreve também: “Cada um tem seu caminho”, o que significa uma defesa intransigente do Singular e do Um. Coisas como a cópia, as “tendências”, o consagrado, o premiado não interessavam a Manoel. Ele escrevia em direção contrário: para buscar aquilo por que ninguém se interessava. As “inutilidades”, como definia com tanta precisão.

Poeta Pablo Neruda é tema do novo filme do diretor de “O clube”

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Luis Gnecco vive o ganhador do Nobel de Literatura de 1971 e senador comunista na cinebiografia "Neruda" Foto: imovision / Divulgação

Luis Gnecco vive o ganhador do Nobel de Literatura de 1971 e senador comunista na cinebiografia “Neruda” Foto: imovision / Divulgação

Produção assinada por Pablo Larraín representa o Chile na corrida por uma indicação ao Oscar 2017

Roger Lerina, no Zero Hora

O chileno Pablo Larraín vem despontando no cinema internacional como um dos mais inventivos realizadores latino-americanos. O jovem diretor de filmes elogiados e premiados como Tony Manero (2008), No (2012) e O clube (2015) encerra 2016 emplacando dois longas entre os mais comentados do ano, ambos inspirados em personalidades históricas: Jackie, cinebiografia da ex-primeira-dama norte-americana Jacqueline Kennedy (1929 — 1994), que acaba de render uma indicação ao Globo de Ouro à atriz Natalie Portman, e Neruda.

Representante do Chile na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, o singular perfil do poeta Pablo Neruda (1904 — 1973) foi exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes e chegou nesta quinta-feira aos cinemas brasileiros. O retrato que Larraín traça do escritor chileno ganhador do Nobel de Literatura de 1971 está longe da hagiografia: Neruda lança luz sobre o amálgama de talento, vaidade, engajamento, egoísmo, paixão e convicção que forjou uma das figuras mais influentes da cultura ocidental no século 20.

Da mesma forma que outro filme chileno recente sobre o escritor, igualmente chamado Neruda (2014), a produção em cartaz na Capital também situa-se em 1948, quando o já consagrado intelectual destaca-se na política como senador e liderança da esquerda no país. Quando o presidente Gabriel González Videla – interpretado pelo ótimo Alfredo Castro, ator-fetiche dos filmes de Larraín – consegue a aprovação da chamada Lei Maldita, a cruzada anticomunista do governo obriga Pablo Neruda (Luis Gnecco) a esconder-se em um apartamento em Santiago ao lado da esposa, a artista plástica argentina Delia del Carril (Mercedes Morán), à espera que seus camaradas organizem um plano para tirá-lo do país. Na clandestinidade, Neruda começa a escrever o que muitos consideram sua obra-prima: o livro de poemas Canto geral.

Se no Neruda dirigido por Manuel Basoalto o lado resistente e heroico do poeta militante em luta contra a repressão e em fuga pelo sul do Chile, atravessando os Andes até a Argentina, era apresentado de maneira convencional, no título de Pablo Larraín a forma narrativa inusitada ganha relevo. O roteiro de Guillermo Calderón acrescenta um fascinante antagonista ficcional aos episódios reais da trama: o chefe de investigações federais Óscar Peluchonneau — vivido pelo ator mexicano Gael García Bernal, que também estrelou No — leva a incumbência de localizar e prender Neruda ao nível da obsessão pessoal. O policial torna-se um contraponto do protagonista, alternando-se entre o desprezo e a admiração pelo artista e pontuando o filme com comentários perspicazes e derrisórios sobre as contradições do caráter e os gostos burgueses de seu célebre fugitivo, apresentados na tela como uma narração sobreposta às imagens.

Além do pitoresco introduzido por esse recurso – que evoca no filme o estilo do romance policial e elogia o poder de fabulação da literatura —, Neruda ganha também vivacidade graças a expedientes curiosos como transpor subitamente os personagens para cenários diferentes no meio dos diálogos, sem interromper as conversas, e ao artificialismo de algumas falas e situações, cujo objetivo parece ser o de alertar o espectador de que ele está assistindo a uma encenação. O resultado lembra outra ótima cinebiografia de tons farsescos: Il divo (2008), de Paolo Sorrentino, sobre o morfético ex-primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti.

“A morte é o nada”, diz Ferreira Gullar em entrevista inédita

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O poeta Ferreira Gullar na entrega do Prêmio Jabuti, em São Paulo, em 2011

O poeta Ferreira Gullar na entrega do Prêmio Jabuti, em São Paulo, em 2011

Pedro Maciel, na Folha de S.Paulo

RESUMO Em entrevista inédita, Ferreira Gullar, um dos mais importantes poetas brasileiros, morto no domingo (4), fala sobre a importância e o papel da poesia e da arte, sobre os intérpretes do Brasil e sobre o futuro, o amor e a morte. Dois encontros de Gullar com o escritor que assina as perguntas estão aqui compilados.

Poeta, crítico, teórico de vanguardas, letrista, ilustrador e dramaturgo. O maranhense José Ribamar Ferreira, ou Ferreira Gullar, morto no domingo (4), aos 86 anos, deixou sua marca em variadas áreas da cultura brasileira.

Ex-militante do Partido Comunista, ao qual se filiou no dia em que começou a ditadura militar no país, em 1964, Gullar se notabilizou posteriormente como um dos mais ferozes críticos da esquerda e do chamado lulismo, como se constatava nas páginas da Folha, onde manteve coluna por 11 anos.

Em conversas e desconversas que tivemos, no entanto, o poeta pouco falou de política, mas muito de poesia, arte, vida e morte. Amigo e leitor de meus originais, permitiu que eu gravasse dois encontros, um em 2010 e outro em 2015. A síntese dessas conversas está na entrevista que segue, que permaneceu inédita até o momento.

*

Como o poeta se sente num tempo em que a poesia perdeu sua importância cultural?

Ferreira Gullar – Não sei se a poesia perdeu sua importância cultural. Acho que não perdeu.

Uma coisa é a cultura de massa, a badalação em torno de bobagens que preponderam na nossa sociedade. Outra coisa é a verdade, a verdadeira arte, a verdadeira poesia, os verdadeiros valores.

A poesia, mais do que nunca, é fundamental para as pessoas exatamente porque elas vivem uma vida alucinada em que todo valor é banalizado. Então, as pessoas recorrem à poesia. É claro que não é a maioria, mas nunca foi a maioria. Em época alguma do mundo a maioria procurou a poesia.

O que é a poesia para você?

Eu não sei o que é a poesia. Ninguém sabe. Ninguém define o que é a poesia. A poesia se concretiza nos poemas, no que está escrito. E existe poesia em tudo. Existe poesia na música, no teatro, no cinema. Mas o que se chama poesia no sentido literário é o que está no poema. Fora do poema, ela é uma promessa, uma expectativa.

O poema é um objeto visual, sonoro e intelectual?

O poema é um lugar onde a palavra vira poesia. Porque fora do poema, fora da obra de arte, a poesia não está em parte alguma.

O ritmo é, como disse Octavio Paz, o núcleo do poema?

Eu não acho isso. O núcleo do poema é o que ele diz, é o significado dele, é o que está sendo expresso –que é uma coisa que não pode ser dita a não ser daquela maneira, não é traduzível em linguagem lógica. O que o poema diz, só o poema diz.

O ritmo, a melodia e todos os outros elementos compõem a expressão do poema, mas o essencial não é o ritmo, é o significado.

A arte poética é uma tentativa de salvação da existência?

Depende do que a gente está chamando de salvar. Se é salvar a alma, aí não, porque a poesia não serve para isso. A poesia ajuda as pessoas a viverem, é para isso que ela serve. As pessoas necessitam ser felizes, ter uma vida com alguma alegria, com alguma maravilha, com alguma beleza. E a função do artista é propiciar isso. A poesia não salva ninguém porque isso aí é função de bombeiro.

O artista tende a criar algo inútil?

A arte é inútil no sentido das coisas práticas e pragmáticas. Mas ela não é inútil no sentido mais amplo da palavra, porque o que ajuda as pessoas a viver não é inútil.

A arte se relaciona com o mundo real para além do campo simbólico?

Fora do mundo real, o que existe? Tudo é o mundo real. Quer dizer, existe o mundo real concreto, palpável, e existe a fantasia, a imaginação. E isso tudo constitui a realidade do ser humano.

Mas o mundo que nós vivemos, o mundo das relações afetivas, das relações concretas, do dia a dia, é o mundo real. Sem ele, nada tem sentido. A própria fantasia existe pra tornar esse mundo real melhor e mais desfrutável. E a arte tem a ver com o mundo real –pelo menos a minha tem.

O artista é naturalmente um humanista?

De certo modo é porque a arte é uma afirmação da humanidade das pessoas. Porque a qualidade humana do ser humano é inventar. Nós nascemos bichos e nos transformamos em seres humanos. Então a arte, como a filosofia e as outras coisas, são o homem se inventando como ser humano.

O artista sempre pretende passar uma mensagem?

Existem poesias de muitas diferentes naturezas. Existem poetas que querem passar uma mensagem para as pessoas, ou filosófica ou política mesmo. E existem outros poetas para quem a poesia é a busca de uma linguagem, até de uma revelação. Uma busca do que nem ele sabe o que é. É a busca de um significado oculto. Um poeta como Mallarmé busca expressar uma coisa que está oculta, que nem ele sabe o que é, e o seu poema é a tentativa de criar uma linguagem simbólica em que se reflete a intuição que ele tem de uma coisa não definível logicamente.

Mas Drummond, por exemplo, numa certa altura da vida, passa uma mensagem de humanismo e de rebeldia em relação à sociedade da época. Já um poeta como Bandeira não é assim. Ele fala muito mais dos afetos e de coisas mais simples, de sua condição de ser humano e do desamparo da vida. Tem de tudo.

Você não acha que já está na hora de pararem as releituras sobre o grupo modernista? O modernismo completa cem anos em breve, e outras gerações surgiram, como a de João Cabral, a sua, a de Leminski e a dos dias atuais.

Sem dúvida. Eles foram maravilhosos, foram pessoas incríveis. Mário, Oswald e os outros eram criativos, mas é preciso dar voz a outras gerações.

O Oswald de Andrade se intitulava sem profissão e sem esperança.

Sem profissão, sim. Agora esperança ele tinha. Ele vivia falando da utopia, né? Da sociedade do ócio. Que o ócio vence o negócio. Então, o ideal é chegar na sociedade do ócio. Ele acreditava nessa.

Como Oswald e Mário de Andrade ajudaram a desvendar o Brasil?

Eles ajudaram a criar o Brasil moderno e a moderna poesia brasileira. Ajudaram a criar uma visão nova do Brasil. Aí as pessoas ficam querendo que os caras tivessem sozinhos feito tudo, e aí tem erros –nós temos também. Você tem que olhar as coisas com um pouco mais de compreensão e não ficar pedindo tomate à pimenteira, porque pimenteira não dá tomate.

Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Euclydes da Cunha reinventaram o Brasil?

São pessoas extraordinárias. São nossos pais, nossos avós, e ajudaram a criar as coisas. Somos herdeiros deles. Se o mundo é uma invenção e o país é uma invenção, como nós –que é a minha teoria–, esses caras fizeram uma doação extraordinária a todos nós.

Eles ajudaram a construir um outro Brasil, a imaginar e a inventar um outro país. E nós, como herdeiros deles, só somos o que somos porque eles pensaram e escreveram esses livros. Como cada um de nós também, dentro dos nossos limites, estamos tentando ajudar a inventar o Brasil daqui pra diante.

Agora, se não concorda com tudo, tudo bem, não é para concordar com tudo. É para reinventar.

Há certas leituras de “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, que nos faz pensar: que livro eles leram? Dizem que o ponto de vista de Freyre é sempre o da casa grande.

Há essa crítica. Há algumas coisas, evidentemente, naquela visão do Gilberto Freyre, que você pode criticar. Mas, ao mesmo tempo, há uma compreensão e uma visão nova do Brasil através daquela interpretação dele. Ele ajuda você a entender o Brasil. Você vai discordar de algumas coisas, tudo bem. Eu já li as mais diversas críticas. Mas não há dúvida nenhuma de que, ao ler “Casa-Grande & Senzala”, você começa a descobrir um Brasil que desconhecia.

Não tiramos os olhos do futuro. O futuro nos aliena?

Eu não sei. Nós estamos condenados ao futuro, não tem saída. Eu acho que o futuro, de algum modo, é também a esperança. Porque o futuro é a possibilidade da transformação, da mudança, da vida melhor. Quer dizer, se você não tem futuro e é o estrito presente, se o presente está bom, está ótimo. Mas e se o presente estiver ruim? Como é que é? Tem que ter o futuro.

Uns e outros vivem do passado ou do futuro, enquanto o presente vai passando.

Bom, nós vamos entrar numa discussão filosófica se existe passado ou futuro. O que existe é o presente. O passado já era e o futuro ainda não é. Então, o que existe é o presente.

Agora, evidentemente que a expectativa do futuro pode ser o caminho da esperança, a possibilidade da esperança. E o passado é o que houve, mas é o que constitui você porque é a sua história. Sem passado não existe nada porque o presente é constituído do passado. O passado é a sua história.

O que uma pessoa com a sua idade mais guarda da vida, lembranças ou esquecimentos?

Guarda tudo. É evidente que quando você tem o seu passado, você tem culpas, lembranças legais e tem coisas que te gratificam. Mas o mais importante de viver muito é que você aprende a ser melhor como ser humano.

É difícil tornar-se humano?

Sim, claro. Tanto que você vê aí, um garoto de 17 anos cortar o pescoço do outro. Não é humano. Isso aí é o ser animal, brutal, que nós somos também, mas que não queremos ser. Então, inventamos um ser humano utópico, que tem ética, tem solidariedade, e que nós tentamos ser. Mesmo que a gente não consiga, nós aspiramos a ser esse ser humano melhor.

Falemos um pouco do amor.

O amor é uma das melhores coisas da vida. No meu modo de ver, o sentido da vida é o outro. E a pessoa amada é o outro mais pleno ainda. Quer dizer, é o outro com o qual você tem uma identificação profunda e que é o companheiro ou a companheira, com quem você constrói um dia a dia, ou o futuro. Então, o amor é uma coisa altamente significativa. Porque o amor também transfigura o relacionamento das pessoas. E tem outra coisa também, o entendimento e a compreensão que estão envolvidos no amor. Quer dizer, o amor não te julga. Pelo menos como eu entendo, o amor é um refrigério, é um recanto onde você é aceito sem o julgamento implacável que normalmente as pessoas fazem umas das outras.

O amor é uma parte de você, e a morte é o todo de uma vida?

A morte é só o fim. A morte é o fim, não é o todo. A morte é muito mais o nada do que o todo. É o fim. A morte é o nada. É o nada. Você é uma coisa temporária, particular, mas a sua origem é o todo. Você vem do todo e, momentaneamente, existe como uma individualidade. Depois, você se dissolve nesse todo e desaparece.

A realidade é sombria. Ver luz no amanhecer não parece um milagre?

Eu não tenho essa visão, não. A realidade do mundo para mim não é sombria. Essa visão é que é um pouco sombria demais para o meu gosto. Eu estou vendo luz aqui, o verão, a praia azul, o mar. Eu não tenho essa visão pessimista da vida.

PEDRO MACIEL é escritor, autor de “A Noite de um Iluminado” (Iluminuras).

Morre o poeta Ferreira Gullar, aos 86 anos

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O escritor Ferreira Goulart - Camilla Maia / Agência O Globo

O escritor Ferreira Goulart – Camilla Maia / Agência O Globo

 

Ele havia sido internado neste sábado por complicações pulmonares

Publicado em O Globo

RIO – O poeta, ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, tradutor e memorialista Ferreira Gullar morreu neste domingo, por volta das 11h, aos 86 anos. A informação foi confirmada pelo colunista Ancelmo Gois. O escritor estava internado no Hospital Copa D’Or, na Zona Sul do Rio, por complicações pulmonares. A partir de um quadro de pneumotórax, o escritor desenvolveu uma pneumonia. Ainda não há informações sobre a data do velório.

Ferreira Gullar assumiu ao longa da vida uma extensa lista de papéis que, sozinhos, não dão a dimensão do seu lugar na cena cultural do país. Um dos fundadores do neoconcretismo, o poeta participou de todos os acontecimentos mais importantes da poesia brasileira. A escritora e também imortal da ABL Nélida Piñon destacou a biografia de Gullar que, segundo ela, não foi ofuscada por sua obra.

— O seu legado é a obra, que, às vezes, faz a gente até esquecer a biografia. Mas este não é o caso. Ele teve uma vida bonita, difícil e de grande dignidade. O sofrimento do exilado não lhe tirou a graça.

Quarto dos 11 filhos do casal Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart, ele nasceu José Ribamar Ferreira no dia 10 de setembro de 1930 em São Luiz, no Maranhão. No início da década de 1950, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde, em 1956, participou da exposição concretista que é considerada o marco oficial do início da poesia concreta. Três anos depois criou, com Lígia Clark e Hélio Oiticica, o neoconcretismo, que valoriza a expressão e a subjetividade em oposição ao concretismo ortodoxo.

Militante do Partido Comunista, exilou-se na década de 1970, durante a ditadura militar, e viveu na União Soviética, na Argentina e Chile. Retornou ao país em 1977 e foi preso por agentes do Departamento de Polícia Política e Social no dia seguinte ao desembarque, no Rio. Foi libertado depois de 72 horas de interrogatório graças à intervenção de amigos junto a autoridades do regime. Depois disso, retornou aos poucos às atividades de critico, escritor e jornalista.

Eleito em 2014 para a Academia Brasileira de Letras, colecionava uma vasta lista de prêmios. Em 2002, foi indicado por nove professores dos Estados Unidos, do Brasil e de Portugal para o Prêmio Nobel de Literatura. Em 2007, seu livro “Resmungos” ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano. A obra, editada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, reúne crônicas de Gullar publicadas no jornal Folha de S. Paulo ao longo de 2005.

Em 2010, foi agraciado com o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. No mesmo ano, foi contemplado com o título de Doutor Honoris Causa na Faculdade de Letras da UFRJ. Um ano depois ganhou o Prêmio Jabuti com o livro de poesia “Em alguma parte alguma”.

Não é dinheiro que falta na periferia, diz criador de sarau literário em SP

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Gabriela Jujita, no UOL

São 15 anos de histórias recitadas e compartilhadas na periferia de São Paulo, nas vozes de um mundo quase que desconexo do centro. Elas se reúnem toda semana no Sarau da Cooperifa, criado pelo poeta Sérgio Vaz ‘no outro lado da ponte’, como se diz na zona sul paulistana.

O escritor de 52 anos recebeu a reportagem do UOL em sua casa, no Taboão da Serra (Grande São Paulo), para falar sobre os desafios do movimento cultural iniciado por ele e o amigo Marco Pezão, em 2001, na região próxima ao Jardim Ângela, que já foi considerada uma das mais violentas do mundo pela ONU.

A Cooperifa: Por que poesia em um bar?

“Quando eu criei a Cooperifa numa fábrica abandonada [no Taboão da Serra], junto com outros malucos, a gente não tinha muitas opções de lazer nem de cultura na comunidade, nas quebradas. O único espaço público que a gente tinha eram o bar e a igreja”, diz Vaz.

Sérgio Vaz, poeta e criador da Cooperifa

Sérgio Vaz, poeta e criador da Cooperifa

Ele já era poeta, tinha livros publicados e queria um lugar para ler seus textos e trocar ideias. O Sarau da Cooperifa nasceu assim, em um galpão, depois passou para um bar no Taboão (fechado cerca de um ano e meio depois), até que se instalou no bar do Zé Batidão, no Jardim Guarujá (zona sul), de onde nunca mais saiu.

Toda noite de terça-feira, o boteco recebe poetas, cantores –iniciados ou iniciantes– e muita gente interessada em ouvir o que outros têm a dizer.

Quem quiser se apresentar, primeiro coloca o nome na lista e espera ser chamado para usar o microfone. Para os que vão assistir, “o silêncio é uma prece”, como se costuma dizer ali. É assim que funciona o encontro literário.

A gente não desconfiava do que estava fazendo. A gente estava ressignificando o bar.

A região do Jardim Guarujá também é o lugar onde o poeta cresceu e fica a mais ou menos 25 km do centro de São Paulo. É vizinha do Jardim Ângela, que em 1996 foi indicado pelas Nações Unidas como o local mais violento do planeta.

“A gente não desconfiava do que a gente estava fazendo, a gente estava ressignificando o bar. O bar sempre foi o nosso centro cultural, nós nunca demos bola pra ele. Porque é lá que ocorrem as reuniões para a comunidade de bairro, é pra lá que as pessoas vão depois do trabalho, onde se reúnem pra falar de futebol, de música, onde tem samba, onde tem forró. Faltava a gente ter humildade de reconhecer que aquele era o nosso espaço. Se é o bar que nós temos, então é o bar que nós vamos transformar.”

Por um bom tempo, o sarau foi realizado sempre às quartas-feiras, mas ficava tão lotado, com as pessoas tomando a calçada e o meio da rua, que foi preciso mudar o dia da semana.

“A gente não percebeu que outras pessoas, em outros lugares, estavam pensando como a gente. Faltava um lugar. A gente não sabia a força que estava já acumulada [nas pessoas]. A gente estava sentado em cima de urânio, faltava enriquecê-lo. Foi bem isso, a gente foi enriquecendo o urânio.”

A pobreza intelectual

O significado de ‘pobreza’, diz Vaz, uma palavra associada constantemente à periferia, não tem a ver com o carro na garagem nem com a conta no banco. E isso ele descobriu só na adolescência.

Se o centro tem, nós temos que ter também.

“Quando eu fui ao Bixiga pela primeira vez [bairro na região central de São Paulo], nos anos 1980, foi a primeira vez que eu tive noção da pobreza. Porque eu tive uma infância rica, apesar da simplicidade, de liberdade e de brincadeiras. Quando eu cheguei à [rua] Treze de Maio e vi aqueles bares, aquelas pessoas circulando, livraria, o cineclube do Bixiga, eu falei: ‘Caramba, bicho! Que coisa mais linda! Por que é que a gente não tem isso?’ Mas eu não fiquei com raiva, eu fiquei com inveja. ‘Se o centro tem, nós temos que ter também’, essa era a minha ideia.”

O segundo estalo veio alguns anos mais tarde, com o lançamento de seu primeiro livro, em 1988.

“Eu tinha noção dos problemas físicos, estruturais da periferia. Mas não sabia que a gente tinha esse problema intelectual. Essa distância do livro, esse desapego à palavra, à literatura, à poesia.”

É diferente

“É diferente porque nós ainda estamos conquistando, ainda estamos lutando por coisas para sermos considerados como gente. Nós sofremos racismo, sofremos preconceito, a gente está nas piadas, pela cor da pele, pela situação econômica. Não se reconhece o ser humano da periferia, e sim a periferia como um todo. Nós somos números [para o poder público], não seres humanos. (…) O que a gente precisa é que o Estado nos reconheça como brasileiros. Da mesma cidade, da mesma língua, da mesma pele, que paga o mesmo imposto.”

Participante do Sarau da Cooperifa se apresenta em bar na zona sul de São Paulo

Participante do Sarau da Cooperifa se apresenta em bar na zona sul de São Paulo

O estigma do fracasso: Como é sentida esta diferença entre o centro e a periferia?

“É difícil ser feliz sem sonhar. Eles roubam isso da gente, não é o dinheiro. Quando a gente fala de infraestrutura, você vai ter, mas não vai ter total. ‘Eu vou te dar educação, mas não vai ser aquela. Eu vou te dar lazer e cultura, mas nem fica sonhando em montar uma banda’. Acima de tudo, o que eles estão roubando do país é o sonho, de nação, de pátria. A periferia é quem sofre mais, mas todo mundo sofre, ainda que não saiba.”

O que ainda falta?

“O grande desafio é tirar das pessoas o fracasso que nos foi imposto. O meu nome não pode estar aliado ao sucesso, ao dinheiro, ao bem-estar. A gente precisa perder isso, e colocar no lugar um rótulo de vencedor. É por isso que é importante falar dos Racionais, do Emicida, do rap nacional, do funk, do samba. Essas pessoas são vencedoras. A gente não pode ter vergonha de vencer, como se tivesse roubado de alguém. Temos que ser inspiração.”

Uma das conquistas marcantes recentes, na opinião do escritor, é a parte pobre da população ter conseguido acesso a mais bens materiais. Mas, para ele, mais importante do que dar o poder de compra é fazer com que o cidadão periférico compreenda que pode ser alguém que vence. E Vaz acredita que não virá de fora da periferia o incentivo para evoluir.

A gente está fazendo filho, mas quer ter direito ao gozo. É isso que as pessoas não entendem.

“Um dos gritos mais fortes que a periferia deu foi com o nascimento do hip hop aqui no Brasil. Foi quando a periferia se assumiu: ‘eu posso, eu sou possível, sou negro, e daí? Sou da favela, e daí?’ Quem tem que ter vergonha é o governo, não somos nós. (…) Tudo que acontece neste país é feito por gente trabalhadora, da classe média, gente rica, nós fazemos parte disso também. Mas a gente também quer gozar, não só fazer filho. A gente está fazendo filho, mas a gente quer ter direito ao gozo. É isso que as pessoas não entendem. Parece que fecharam a panela e não entra mais ninguém.”

O pensamento crítico: O que mudou nesses 15 anos?

“Falando da Cooperifa, mudou um pouco a autoestima. Nós crescemos num lugar que era conhecido só pelo Gil Gomes [repórter policial do programa de TV ‘Aqui Agora’], pelo Afanásio Jazadji [jornalista policial e ex-deputado estadual], pelo [jornal] Notícias Populares. A referência que a gente tinha do nosso bairro era quando matava-se ou morria alguém. Agora é diferente: ‘eu moro onde tem o Sarau da Cooperifa, onde fazem o Cinema na Laje’. A referência mudou.”

Qual é o benefício da autoestima?

“É o pensamento crítico. Você começa a questionar por que é que você mora em um barraco de madeira e o cara mora na mansão. ‘Por que aquele cara foi fazer faculdade e eu não fui?’ (…) Nós estamos vivendo a nossa Primavera de Praga, é a nossa Nouvelle Vague. Só que a gente quer mostrar para os nossos vizinhos, pro cara do baile, pro cara da rua.”
Como fica o contraste entre cultura e violência?

“É uma palavra da moda, mas é o empoderamento: ‘estou vivo e quero fazer valer a minha existência, então vou brigar um pouco’. A cultura tem esse poder de fazer cobranças. A si e aos outros. O Raul Seixas fala: ‘falta cultura pra cuspir na estrutura’. A gente precisa ter cultura para cuspir na estrutura.”

O que foi mais difícil nesses 15 anos?

“O mais difícil foi conscientizar as pessoas do poder da palavra, do poder do livro. A importância da literatura, que a literatura não pode mais ser o pão do privilégio. Três anos atrás, nós fizemos uma campanha na comunidade, ‘Natal com livros’, distribuímos 12 mil livros. Mesmo de graça as pessoas não queriam o livro. O mais difícil é isso, é fazer com que a pessoa entenda que ela não é responsável por ser alienada, por aquela ignorância que ela está sentindo. E nada de pedir para Deus o que é obrigação dos políticos.”

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