Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

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Edição em dois volumes reúne a obra completa de Vinicius de Moraes

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Organizados por Eucanaã Ferraz livros trazem músicas, poesias, prosas e teatros e permite identificar suas mudanças de estilo e sua evolução artística

Publicado no UAI

Lançada em 1968, a Obra poética de Vinicius de Moraes (1913-1980) buscava reunir a quase totalidade da escrita produzida pelo autor até então, mas o volume seguia uma catalogação que rompia com a cronologia, ainda que tomasse por base uma certa ordem temporal da escrita. Assim, destacavam-se arranjos geográficos, que associavam poemas a algumas cidades onde viveu o poeta, como Los Angeles, Paris e Montevidéu.

Vinicius de Moraes dizia que 'a maior beleza dessa arte modesta e heroica talvez seja a sua aparente inutilidade', referindo-se à poesia. (foto: Paulo Namorado/O Cruzeiro/Arquivo EM)

Vinicius de Moraes dizia que ‘a maior beleza dessa arte modesta e heroica talvez seja a sua aparente inutilidade’, referindo-se à poesia. (foto: Paulo Namorado/O Cruzeiro/Arquivo EM)

A opção provocava uma lista de problemas, como omissões ou desvalorização de trabalhos grandiosos, o que só foi ajustado em 2004, com o lançamento de Poesia completa e prosa (Nova Aguilar), sob a coordenação de Eucanaã Ferraz. É dele também a organização do box lançado agora pela Nova Fronteira, Vinicius de Moraes, continuação do primeiro trabalho e que reúne (em dois volumes) toda a sua produção em música, poesia, prosa e teatro.

Estabelecida, portanto, a magnífica escrita de Vinicius em ordem cronológica, é possível notar com mais clareza sua evolução e, principalmente, como o poeta passou de uma evidente preocupação religiosa no início da carreira para temas mais mundanos, como o cotidiano das pessoas e, principalmente, as relações amorosas.

“A obra de Vinicius de Moraes é um longo aprendizado do amor”, escreve Eucanaã na introdução de outra obra organizada por ele, Todo amor, lançada pela Companhia das Letras. “Em seus primeiros livros, a temática amorosa viu-se embaçada pela religiosidade do jovem atormentado por sentimentos e desejos que traziam consigo a nódoa do pecado. Otávio de Farias referiu-se a esse momento de poesia de Vinicius como o de uma luta entre a pureza impossível e a impureza inaceitável. Foi aos poucos que o poeta conquistou maturidade e desenvoltura nos planos afetivo e estético.”

ESTILOS De fato, a passagem do “sublime” ao “cotidiano” – como bem lembrou o crítico Carlos Felipe Moisés no volume que organizou para a saudosa coleção Literatura Comentada, da Editora Abril – não se fez de uma hora para a outra, mas “corresponde a um percurso acidentado, cheios de idas e vindas, repartido em múltiplos atalhos, que são os vários temas, estilos e direções tentados pelo poeta”.

Ele lembra, por exemplo, que logo em seu primeiro livro, O caminho para a distância (1933), Vinicius revela sua preocupação religiosa sob a forma de uma intensa angústia. “Uma consciência torturada pela precariedade da existência e, por isso, lançada na busca ansiosa de uma superação pela transcendência mística, o ‘sublime’. Some-se a isso o sentimento do pecado, um constante interrogar-se e o desejo de autopunição e estará explicado o porquê do desconsolo e do desespero”, observa Moisés.

O livro seguinte, Forma e exegese (1935), revela uma mudança de perspectiva do poeta, com os versos ganhando liberdade expressiva e, principalmente, em extensão. Também a mulher começa a merecer o foco de Vinicius, passando a ocupar um lugar primordial em sua poesia.

“A partir das Cinco elegias (1943), dois recursos básicos serão convocados por Vinicius de Moraes no sentido da definitiva superação da fase inicial”, comenta Moisés. “De um lado, o apelo ao cotidiano, à (aparente) banalidade da existência diária, como fontes de motivos e inspiração; de outro, a linguagem coloquial, enxuta, mais simples e direta, em que a espontaneidade será um triunfo imediato e não um árduo resultado obtido através do esforço retórico e teatral.”

É o momento em que a poética de Vinicius pousa em solo firme, solidificando seu aspecto humanista por meio do verso curto, do uso do humor e da ironia, que vão facilitar ainda mais a identificação com seu público. É também quando o amor começa a se expandir entre as métricas, atingindo a plenitude que transformou V

“Nos versos do primeiro Vinicius, o amor é exaltado com vocabulário nobre e imagens nebulosas; surge distante das experiências mais chãs e da linguagem do dia a dia, ou, ao contrário, mostra-se decaído por sua pureza aviltada”, nota Eucanaã em Todo amor. “Adiante, o poeta mais bem formado consolidaria uma escrita em que o amor baixa à esfera comum das vivências cotidianas, da expressão coloquial, numa manobra em direção à expressão mais direta, mais simples; a trama afetiva, por sua vez, adensa-se, marcada agora por erotismo e força intuitiva, leveza e naturalidade, ânimo humorístico e potência subversiva.”

Como exemplos, Eucanaã lembra dos sonetos, como os célebres Soneto de fidelidade, Soneto do maior amor e Soneto da separação. A musicalidade de sua poesia conduziu Vinicius naturalmente para as parcerias com cancioneiros célebres, como Baden Powell, Toquinho e, claro, Tom Jobim. O resultado são músicas que se tornaram clássicas graças ao talento do poeta em sintonizar sua sensibilidade pessoal com a coletiva. “O Vinicius-compositor brotou naturalmente do Vinicius-poeta”, atesta Carlos Felipe Moisés.

É curioso notar como o artista observava o próprio trabalho. Em Sobre poesia, publicado no livro Para viver um grande amor , Vinicius observa que, para o burguês comum, a poesia não se pode pendurar na parede, colocar no jardim, pôr no toca-discos ou mesmo encenar como um roteiro cinematográfico – “A maior beleza dessa arte modesta e heroica talvez seja a sua aparente inutilidade”, escreve. “Isso dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra a natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranquilidade.”

Como (e por que) ler Manoel de Barros, o poeta das miudezas

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O autor publicou seu primeiro livroem 1937, 'Poemas concebidos sem pecado'

O autor publicou seu primeiro livroem 1937, ‘Poemas concebidos sem pecado’

 

A pedido do ‘Nexo’, dois conhecedores da obra do mato-grossense aconselham por onde começar a lê-lo e destacam um poema preferido

Juliana Domingos Lima, no Nexo

O poeta mato-grossense Manoel de Barros morreu em 2014 e faria 100 anos em 19 de dezembro de 2016. Sua obra conta com 18 livros de poesia publicados, textos infantis e relatos autobiográficos. É marcada pela inventividade na linguagem, característica que já o fez ser comparado a Guimarães Rosa (autor contemporâneo a ele), pela proximidade com a natureza e com aquilo que é prosaico.

“Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios”

Manoel de Barros

No poema “Tratado geral das grandezas do ínfimo”

“A grande marca da poesia de Manoel de Barros é seu interesse de poeta pelas pequenas coisas. Pelas miudezas, dejetos, lixos, sobras – tudo aquilo que, no mundo dominado pelo consumo de hoje, nós costumamos desprezar”, afirmou o escritor e crítico literário José Castello em entrevista ao Nexo. “A poesia de Manoel nos mostra o valor do pequeno – numa época em que todos querem ser grandes e poderosos e vencedores”, completa.

Castello também ressalta a relação da obra do poeta com a transfiguração. Para ele, essa qualidade transforma o olhar do leitor frente à realidade.

Um mecanismo usado pelo poeta que propõe um novo olhar para o mundo é dar voz às coisas: “É o que acontece no poeminha sobre os caracóis: ‘Ah, como serão ardentes nos caracóis os desejos de voar!’ Essa é uma perspectiva que vem do caracol. Quem vai imaginar que o caracol quer voar? Manoel imagina pontos de vista que não são humanos. Isso significa se tornar ‘coisal’, quando o homem se funde com a natureza”, diz Adalberto Müller Jr., professor de Teoria da Literatura da UFF (Universidade Federal Fluminense), em uma entrevista para a revista “Ciência e Cultura”.

“Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa,
Eram quase quatro da manhã.
Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.”

Manoel de Barros

No poema “Difícil carregar o silêncio”

Bacharel em Direito e nome da geração de 45

Barros se formou bacharel em Direito no Rio de Janeiro em 1941. Depois, viveu entre a capital carioca e o Pantanal, seu habitat de origem. Antes de se formar, em 1937, o autor publicou seu primeiro livro: “Poemas concebidos sem pecado”.

Manoel de Barros foi personagem no documentário “Só dez por cento é mentira” (2008) dirigido por Pedro Cézar. Seus textos também inspiraram peças de teatro e o álbum “Música de sobrevivência”, de Egberto Gismonti.

“Eu o fantasiei magro e triste, mas ele é gorducho e tem o vigor de um empresário feliz. Eu imaginei um homem quieto e inadaptado, e ele é um senhor firme, que se move com nobreza e não esconde o desencanto. Eu imaginei um homem ingênuo, que passasse os dias entre cachorros e passarinhos, catando frutos no mato, os pés metidos na terra, e agora devo aceitar que Manoel de Barros não é a figura que eu tirei de seus poemas. Poemas e poeta estão separados por um abismo, e é ele que, a partir de agora, deve me interessar. A poesia está nessa divisão, é essa fenda que se abre à minha frente.”

José Castello

Trecho do perfil do poeta, parte do livro ‘Inventário de Sombras’

Manoel de Barros pertenceu à geração de 45, da qual também fizeram parte os poetas João Cabral de Melo Neto e Mário Quintana. Sua linguagem é cheia de neologismos e resgata uma fala pura, de matuto.

“Para mim, o que torna o Manoel de Barros um grande poeta é um olhar grande para as coisas pequenas e uma certa liberdade de usar as palavras e brincar com elas de uma maneira bem matuta, bem interiorana. De conseguir ver que a poesia está nesse modo de falar mais rústico, de uma certa maneira”, diz o leitor e artista plástico Kammal João.

“A obra de Barros é inexplicável como o milagre, como qualquer obra de arte quando é genuína. É um poeta por necessidade, por dom… Do estado de ruína do mundo, à inevitável fragmentação do sujeito, sua obra reflete o desmoronamento de uma cultura e de uma forma de humanidade. Seu universo pantaneiro aparece poeticamente filtrado por pontos de vista humanos, animais, vegetais e minerais altamente elaborados: um mundo intocado e profundamente humanizado, um mundo poético, encantado”

Jorge La Rossa

Escritor e tradutor da obra de Manoel para o espanhol, no site da Fundação Manoel de Barros

O Nexo perguntou a dois conhecedores da obra do poeta sobre seus poemas eleitos e sobre a melhor entrada para começar a ler Manoel de Barros:

Kammal João é artista plástico e ilustrador
José Castello é crítico literário e escritor, autor de “Inventário de Sombras”, coletânea de perfis literários que captam captar uma face desconhecida de escritores, entre eles Manoel de Barros

Por onde começar a ler Manoel de Barros

Kammal João Por afinidade, por afetividade, “Tratado geral das grandezas do ínfimo”, que tem bem a ver com o meu modo de olhar para a poesia dele.

José Castello Por qualquer lado. Na “Poesia Completa” publicada pela editora Leya, por exemplo, os livros são apresentados em ordem cronológica. Mas isso é totalmente dispensável. Há várias maneiras de entrar na poesia de Manoel e cada leitor deve escolher a sua, inventar a sua. Eu, por exemplo, gosto muito de abrir a “Poesia Completa”, ou os livros separados agora republicados pela Alfaguara, ao acaso. Deixar que o acaso me ajude a ler Manoel. Ele valorizava muito o acaso e agindo assim sei que estou me aproximando um pouco mais dele.

O poeta em um poema

Kammal João Tendo que escolher um poema, escolheria exatamente um do livro “Tratado das grandezas do ínfimo”, que chama “A Pedra”. A escolha vem porque nesse momento, me encontro em um projeto [http://www.cadernosecaminhos.com/] na Chapada Diamantina, cercado por pedras. Esse poema tem reverberado bastante no meu olhar para o entorno por aqui.

José Castello Escolheria “Matéria de poesia”, o poema em três partes que abre o livro de mesmo nome, publicado em 1970, quando ele tinha 54 anos. Nesse poema, Manoel tenta fazer um resumo de sua estratégia poética. Fala do inútil, do pouco, dos detritos, do ordinário, das “coisa sem préstimo”, do “sem importância”, dos destroços, do inexistente, da loucura, etc, como matéria de sua poesia. Nele, Manoel age, um pouco, como um crítico de si mesmo. Tenta ler a si mesmo. Cita um verso do poeta francês Arthur Rimbaud que resume tudo isso: “Perder a inteligência das coisas para vê-las”. Vê-la não com a razão, mas com a invenção – o que significa reinventá-las. “Poesia é a loucura das palavras”, ele define. Escreve também: “Cada um tem seu caminho”, o que significa uma defesa intransigente do Singular e do Um. Coisas como a cópia, as “tendências”, o consagrado, o premiado não interessavam a Manoel. Ele escrevia em direção contrário: para buscar aquilo por que ninguém se interessava. As “inutilidades”, como definia com tanta precisão.

Poeta Pablo Neruda é tema do novo filme do diretor de “O clube”

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Luis Gnecco vive o ganhador do Nobel de Literatura de 1971 e senador comunista na cinebiografia "Neruda" Foto: imovision / Divulgação

Luis Gnecco vive o ganhador do Nobel de Literatura de 1971 e senador comunista na cinebiografia “Neruda” Foto: imovision / Divulgação

Produção assinada por Pablo Larraín representa o Chile na corrida por uma indicação ao Oscar 2017

Roger Lerina, no Zero Hora

O chileno Pablo Larraín vem despontando no cinema internacional como um dos mais inventivos realizadores latino-americanos. O jovem diretor de filmes elogiados e premiados como Tony Manero (2008), No (2012) e O clube (2015) encerra 2016 emplacando dois longas entre os mais comentados do ano, ambos inspirados em personalidades históricas: Jackie, cinebiografia da ex-primeira-dama norte-americana Jacqueline Kennedy (1929 — 1994), que acaba de render uma indicação ao Globo de Ouro à atriz Natalie Portman, e Neruda.

Representante do Chile na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, o singular perfil do poeta Pablo Neruda (1904 — 1973) foi exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes e chegou nesta quinta-feira aos cinemas brasileiros. O retrato que Larraín traça do escritor chileno ganhador do Nobel de Literatura de 1971 está longe da hagiografia: Neruda lança luz sobre o amálgama de talento, vaidade, engajamento, egoísmo, paixão e convicção que forjou uma das figuras mais influentes da cultura ocidental no século 20.

Da mesma forma que outro filme chileno recente sobre o escritor, igualmente chamado Neruda (2014), a produção em cartaz na Capital também situa-se em 1948, quando o já consagrado intelectual destaca-se na política como senador e liderança da esquerda no país. Quando o presidente Gabriel González Videla – interpretado pelo ótimo Alfredo Castro, ator-fetiche dos filmes de Larraín – consegue a aprovação da chamada Lei Maldita, a cruzada anticomunista do governo obriga Pablo Neruda (Luis Gnecco) a esconder-se em um apartamento em Santiago ao lado da esposa, a artista plástica argentina Delia del Carril (Mercedes Morán), à espera que seus camaradas organizem um plano para tirá-lo do país. Na clandestinidade, Neruda começa a escrever o que muitos consideram sua obra-prima: o livro de poemas Canto geral.

Se no Neruda dirigido por Manuel Basoalto o lado resistente e heroico do poeta militante em luta contra a repressão e em fuga pelo sul do Chile, atravessando os Andes até a Argentina, era apresentado de maneira convencional, no título de Pablo Larraín a forma narrativa inusitada ganha relevo. O roteiro de Guillermo Calderón acrescenta um fascinante antagonista ficcional aos episódios reais da trama: o chefe de investigações federais Óscar Peluchonneau — vivido pelo ator mexicano Gael García Bernal, que também estrelou No — leva a incumbência de localizar e prender Neruda ao nível da obsessão pessoal. O policial torna-se um contraponto do protagonista, alternando-se entre o desprezo e a admiração pelo artista e pontuando o filme com comentários perspicazes e derrisórios sobre as contradições do caráter e os gostos burgueses de seu célebre fugitivo, apresentados na tela como uma narração sobreposta às imagens.

Além do pitoresco introduzido por esse recurso – que evoca no filme o estilo do romance policial e elogia o poder de fabulação da literatura —, Neruda ganha também vivacidade graças a expedientes curiosos como transpor subitamente os personagens para cenários diferentes no meio dos diálogos, sem interromper as conversas, e ao artificialismo de algumas falas e situações, cujo objetivo parece ser o de alertar o espectador de que ele está assistindo a uma encenação. O resultado lembra outra ótima cinebiografia de tons farsescos: Il divo (2008), de Paolo Sorrentino, sobre o morfético ex-primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti.

“A morte é o nada”, diz Ferreira Gullar em entrevista inédita

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O poeta Ferreira Gullar na entrega do Prêmio Jabuti, em São Paulo, em 2011

O poeta Ferreira Gullar na entrega do Prêmio Jabuti, em São Paulo, em 2011

Pedro Maciel, na Folha de S.Paulo

RESUMO Em entrevista inédita, Ferreira Gullar, um dos mais importantes poetas brasileiros, morto no domingo (4), fala sobre a importância e o papel da poesia e da arte, sobre os intérpretes do Brasil e sobre o futuro, o amor e a morte. Dois encontros de Gullar com o escritor que assina as perguntas estão aqui compilados.

Poeta, crítico, teórico de vanguardas, letrista, ilustrador e dramaturgo. O maranhense José Ribamar Ferreira, ou Ferreira Gullar, morto no domingo (4), aos 86 anos, deixou sua marca em variadas áreas da cultura brasileira.

Ex-militante do Partido Comunista, ao qual se filiou no dia em que começou a ditadura militar no país, em 1964, Gullar se notabilizou posteriormente como um dos mais ferozes críticos da esquerda e do chamado lulismo, como se constatava nas páginas da Folha, onde manteve coluna por 11 anos.

Em conversas e desconversas que tivemos, no entanto, o poeta pouco falou de política, mas muito de poesia, arte, vida e morte. Amigo e leitor de meus originais, permitiu que eu gravasse dois encontros, um em 2010 e outro em 2015. A síntese dessas conversas está na entrevista que segue, que permaneceu inédita até o momento.

*

Como o poeta se sente num tempo em que a poesia perdeu sua importância cultural?

Ferreira Gullar – Não sei se a poesia perdeu sua importância cultural. Acho que não perdeu.

Uma coisa é a cultura de massa, a badalação em torno de bobagens que preponderam na nossa sociedade. Outra coisa é a verdade, a verdadeira arte, a verdadeira poesia, os verdadeiros valores.

A poesia, mais do que nunca, é fundamental para as pessoas exatamente porque elas vivem uma vida alucinada em que todo valor é banalizado. Então, as pessoas recorrem à poesia. É claro que não é a maioria, mas nunca foi a maioria. Em época alguma do mundo a maioria procurou a poesia.

O que é a poesia para você?

Eu não sei o que é a poesia. Ninguém sabe. Ninguém define o que é a poesia. A poesia se concretiza nos poemas, no que está escrito. E existe poesia em tudo. Existe poesia na música, no teatro, no cinema. Mas o que se chama poesia no sentido literário é o que está no poema. Fora do poema, ela é uma promessa, uma expectativa.

O poema é um objeto visual, sonoro e intelectual?

O poema é um lugar onde a palavra vira poesia. Porque fora do poema, fora da obra de arte, a poesia não está em parte alguma.

O ritmo é, como disse Octavio Paz, o núcleo do poema?

Eu não acho isso. O núcleo do poema é o que ele diz, é o significado dele, é o que está sendo expresso –que é uma coisa que não pode ser dita a não ser daquela maneira, não é traduzível em linguagem lógica. O que o poema diz, só o poema diz.

O ritmo, a melodia e todos os outros elementos compõem a expressão do poema, mas o essencial não é o ritmo, é o significado.

A arte poética é uma tentativa de salvação da existência?

Depende do que a gente está chamando de salvar. Se é salvar a alma, aí não, porque a poesia não serve para isso. A poesia ajuda as pessoas a viverem, é para isso que ela serve. As pessoas necessitam ser felizes, ter uma vida com alguma alegria, com alguma maravilha, com alguma beleza. E a função do artista é propiciar isso. A poesia não salva ninguém porque isso aí é função de bombeiro.

O artista tende a criar algo inútil?

A arte é inútil no sentido das coisas práticas e pragmáticas. Mas ela não é inútil no sentido mais amplo da palavra, porque o que ajuda as pessoas a viver não é inútil.

A arte se relaciona com o mundo real para além do campo simbólico?

Fora do mundo real, o que existe? Tudo é o mundo real. Quer dizer, existe o mundo real concreto, palpável, e existe a fantasia, a imaginação. E isso tudo constitui a realidade do ser humano.

Mas o mundo que nós vivemos, o mundo das relações afetivas, das relações concretas, do dia a dia, é o mundo real. Sem ele, nada tem sentido. A própria fantasia existe pra tornar esse mundo real melhor e mais desfrutável. E a arte tem a ver com o mundo real –pelo menos a minha tem.

O artista é naturalmente um humanista?

De certo modo é porque a arte é uma afirmação da humanidade das pessoas. Porque a qualidade humana do ser humano é inventar. Nós nascemos bichos e nos transformamos em seres humanos. Então a arte, como a filosofia e as outras coisas, são o homem se inventando como ser humano.

O artista sempre pretende passar uma mensagem?

Existem poesias de muitas diferentes naturezas. Existem poetas que querem passar uma mensagem para as pessoas, ou filosófica ou política mesmo. E existem outros poetas para quem a poesia é a busca de uma linguagem, até de uma revelação. Uma busca do que nem ele sabe o que é. É a busca de um significado oculto. Um poeta como Mallarmé busca expressar uma coisa que está oculta, que nem ele sabe o que é, e o seu poema é a tentativa de criar uma linguagem simbólica em que se reflete a intuição que ele tem de uma coisa não definível logicamente.

Mas Drummond, por exemplo, numa certa altura da vida, passa uma mensagem de humanismo e de rebeldia em relação à sociedade da época. Já um poeta como Bandeira não é assim. Ele fala muito mais dos afetos e de coisas mais simples, de sua condição de ser humano e do desamparo da vida. Tem de tudo.

Você não acha que já está na hora de pararem as releituras sobre o grupo modernista? O modernismo completa cem anos em breve, e outras gerações surgiram, como a de João Cabral, a sua, a de Leminski e a dos dias atuais.

Sem dúvida. Eles foram maravilhosos, foram pessoas incríveis. Mário, Oswald e os outros eram criativos, mas é preciso dar voz a outras gerações.

O Oswald de Andrade se intitulava sem profissão e sem esperança.

Sem profissão, sim. Agora esperança ele tinha. Ele vivia falando da utopia, né? Da sociedade do ócio. Que o ócio vence o negócio. Então, o ideal é chegar na sociedade do ócio. Ele acreditava nessa.

Como Oswald e Mário de Andrade ajudaram a desvendar o Brasil?

Eles ajudaram a criar o Brasil moderno e a moderna poesia brasileira. Ajudaram a criar uma visão nova do Brasil. Aí as pessoas ficam querendo que os caras tivessem sozinhos feito tudo, e aí tem erros –nós temos também. Você tem que olhar as coisas com um pouco mais de compreensão e não ficar pedindo tomate à pimenteira, porque pimenteira não dá tomate.

Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Euclydes da Cunha reinventaram o Brasil?

São pessoas extraordinárias. São nossos pais, nossos avós, e ajudaram a criar as coisas. Somos herdeiros deles. Se o mundo é uma invenção e o país é uma invenção, como nós –que é a minha teoria–, esses caras fizeram uma doação extraordinária a todos nós.

Eles ajudaram a construir um outro Brasil, a imaginar e a inventar um outro país. E nós, como herdeiros deles, só somos o que somos porque eles pensaram e escreveram esses livros. Como cada um de nós também, dentro dos nossos limites, estamos tentando ajudar a inventar o Brasil daqui pra diante.

Agora, se não concorda com tudo, tudo bem, não é para concordar com tudo. É para reinventar.

Há certas leituras de “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, que nos faz pensar: que livro eles leram? Dizem que o ponto de vista de Freyre é sempre o da casa grande.

Há essa crítica. Há algumas coisas, evidentemente, naquela visão do Gilberto Freyre, que você pode criticar. Mas, ao mesmo tempo, há uma compreensão e uma visão nova do Brasil através daquela interpretação dele. Ele ajuda você a entender o Brasil. Você vai discordar de algumas coisas, tudo bem. Eu já li as mais diversas críticas. Mas não há dúvida nenhuma de que, ao ler “Casa-Grande & Senzala”, você começa a descobrir um Brasil que desconhecia.

Não tiramos os olhos do futuro. O futuro nos aliena?

Eu não sei. Nós estamos condenados ao futuro, não tem saída. Eu acho que o futuro, de algum modo, é também a esperança. Porque o futuro é a possibilidade da transformação, da mudança, da vida melhor. Quer dizer, se você não tem futuro e é o estrito presente, se o presente está bom, está ótimo. Mas e se o presente estiver ruim? Como é que é? Tem que ter o futuro.

Uns e outros vivem do passado ou do futuro, enquanto o presente vai passando.

Bom, nós vamos entrar numa discussão filosófica se existe passado ou futuro. O que existe é o presente. O passado já era e o futuro ainda não é. Então, o que existe é o presente.

Agora, evidentemente que a expectativa do futuro pode ser o caminho da esperança, a possibilidade da esperança. E o passado é o que houve, mas é o que constitui você porque é a sua história. Sem passado não existe nada porque o presente é constituído do passado. O passado é a sua história.

O que uma pessoa com a sua idade mais guarda da vida, lembranças ou esquecimentos?

Guarda tudo. É evidente que quando você tem o seu passado, você tem culpas, lembranças legais e tem coisas que te gratificam. Mas o mais importante de viver muito é que você aprende a ser melhor como ser humano.

É difícil tornar-se humano?

Sim, claro. Tanto que você vê aí, um garoto de 17 anos cortar o pescoço do outro. Não é humano. Isso aí é o ser animal, brutal, que nós somos também, mas que não queremos ser. Então, inventamos um ser humano utópico, que tem ética, tem solidariedade, e que nós tentamos ser. Mesmo que a gente não consiga, nós aspiramos a ser esse ser humano melhor.

Falemos um pouco do amor.

O amor é uma das melhores coisas da vida. No meu modo de ver, o sentido da vida é o outro. E a pessoa amada é o outro mais pleno ainda. Quer dizer, é o outro com o qual você tem uma identificação profunda e que é o companheiro ou a companheira, com quem você constrói um dia a dia, ou o futuro. Então, o amor é uma coisa altamente significativa. Porque o amor também transfigura o relacionamento das pessoas. E tem outra coisa também, o entendimento e a compreensão que estão envolvidos no amor. Quer dizer, o amor não te julga. Pelo menos como eu entendo, o amor é um refrigério, é um recanto onde você é aceito sem o julgamento implacável que normalmente as pessoas fazem umas das outras.

O amor é uma parte de você, e a morte é o todo de uma vida?

A morte é só o fim. A morte é o fim, não é o todo. A morte é muito mais o nada do que o todo. É o fim. A morte é o nada. É o nada. Você é uma coisa temporária, particular, mas a sua origem é o todo. Você vem do todo e, momentaneamente, existe como uma individualidade. Depois, você se dissolve nesse todo e desaparece.

A realidade é sombria. Ver luz no amanhecer não parece um milagre?

Eu não tenho essa visão, não. A realidade do mundo para mim não é sombria. Essa visão é que é um pouco sombria demais para o meu gosto. Eu estou vendo luz aqui, o verão, a praia azul, o mar. Eu não tenho essa visão pessimista da vida.

PEDRO MACIEL é escritor, autor de “A Noite de um Iluminado” (Iluminuras).

Morre o poeta Ferreira Gullar, aos 86 anos

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O escritor Ferreira Goulart - Camilla Maia / Agência O Globo

O escritor Ferreira Goulart – Camilla Maia / Agência O Globo

 

Ele havia sido internado neste sábado por complicações pulmonares

Publicado em O Globo

RIO – O poeta, ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, tradutor e memorialista Ferreira Gullar morreu neste domingo, por volta das 11h, aos 86 anos. A informação foi confirmada pelo colunista Ancelmo Gois. O escritor estava internado no Hospital Copa D’Or, na Zona Sul do Rio, por complicações pulmonares. A partir de um quadro de pneumotórax, o escritor desenvolveu uma pneumonia. Ainda não há informações sobre a data do velório.

Ferreira Gullar assumiu ao longa da vida uma extensa lista de papéis que, sozinhos, não dão a dimensão do seu lugar na cena cultural do país. Um dos fundadores do neoconcretismo, o poeta participou de todos os acontecimentos mais importantes da poesia brasileira. A escritora e também imortal da ABL Nélida Piñon destacou a biografia de Gullar que, segundo ela, não foi ofuscada por sua obra.

— O seu legado é a obra, que, às vezes, faz a gente até esquecer a biografia. Mas este não é o caso. Ele teve uma vida bonita, difícil e de grande dignidade. O sofrimento do exilado não lhe tirou a graça.

Quarto dos 11 filhos do casal Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart, ele nasceu José Ribamar Ferreira no dia 10 de setembro de 1930 em São Luiz, no Maranhão. No início da década de 1950, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde, em 1956, participou da exposição concretista que é considerada o marco oficial do início da poesia concreta. Três anos depois criou, com Lígia Clark e Hélio Oiticica, o neoconcretismo, que valoriza a expressão e a subjetividade em oposição ao concretismo ortodoxo.

Militante do Partido Comunista, exilou-se na década de 1970, durante a ditadura militar, e viveu na União Soviética, na Argentina e Chile. Retornou ao país em 1977 e foi preso por agentes do Departamento de Polícia Política e Social no dia seguinte ao desembarque, no Rio. Foi libertado depois de 72 horas de interrogatório graças à intervenção de amigos junto a autoridades do regime. Depois disso, retornou aos poucos às atividades de critico, escritor e jornalista.

Eleito em 2014 para a Academia Brasileira de Letras, colecionava uma vasta lista de prêmios. Em 2002, foi indicado por nove professores dos Estados Unidos, do Brasil e de Portugal para o Prêmio Nobel de Literatura. Em 2007, seu livro “Resmungos” ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano. A obra, editada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, reúne crônicas de Gullar publicadas no jornal Folha de S. Paulo ao longo de 2005.

Em 2010, foi agraciado com o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. No mesmo ano, foi contemplado com o título de Doutor Honoris Causa na Faculdade de Letras da UFRJ. Um ano depois ganhou o Prêmio Jabuti com o livro de poesia “Em alguma parte alguma”.

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