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Série inspirada em A Bússola de Ouro terá James McAvoy no elenco

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Reprodução/FOX

Renan Lelis, na Poltrona Nerd

O canal BBC One confirmou que James McAvoy (Fragmentado) está se juntando ao elenco da série inspirada em A Bússola de Ouro, saga literária de Philip Pullman.

O ator irá interpretar Lorde Asriel, personagem vivido por Daniel Craig no filme de 2007.

No elenco também estão Dafne Keen (Logan) como a protagonista Lyra Belacqua. Clarke Peters (Treme) e Lin-Manuel Miranda (Hamilton).

A saga Fronteiras do Universo é composta pelos livros A Bússola de Ouro, A Faca Sutil eA Luneta Âmbar. Os livros ficaram famosos pela polêmica religiosa e o assunto que abordam, como ateísmo e perda da inocência infantil. Uma adaptação do primeiro livro foi lançada em 2007 com Dakota Blue Richards, Nicole Kidman e Daniel Craig nos papeis principais.

Tom Hooper (O Discurso do Rei) será produtor executivo e showrunner da série. Ele também deve dirigir alguns dos oito episódios da temporada.

Clube do livro: saiba o que os famosos estão lendo

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Veja aqui quais celebridades têm seus próprios grupo de leitura e fique por dentro dos lançamentos literários que agradaram Emma Watson, Oprah e até Barack Obama

Thais Freire, no Destak Jornal

Ler um livro sozinho é bom, mas ter com quem debater a obra é ainda melhor. É com esse espírito que surgiram os clubes de leitura e agora atrizes, cantores e até presidentes têm seus grupos para recomendar e discutir livros.

Nomes como o da apresentadora e atriz Oprah Winfrey, Emma Watson, David Bowie e até o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, estão entre as celebridades que ficaram conhecidas por seus gostos literários.

Quer acompanhar o que eles estão lendo? Confira alguns dos clubes do livro e listas de melhores obras com curadoria dos famosos.

Emma Watson
A atriz britânica que ficou conhecida por interpretar a bruxa Hermione, na saga Harry Potter, criou o clube do livro “Our Shared Shelf” (Nossa Estante Compartilhada). É possível acompanhar o grupo pelo Instagram (@oursharedshelf) e pelo site Goodreads, onde são divulgados os novos títulos que serão lidos e onde é possível enviar perguntas para as autoras de cada obra. Notável por seu trabalho como representante do projeto feminista He for She, da ONU, Emma indica livros escritos por mulheres e que debatem questões como relacionamentos abusivos, machismo e racismo.

Apesar de nem todos os livros terem sido publicados no Brasil, alguns dos que ganharam traduções recentemente são “Minha Vida na Estrada”, a biografia de Gloria Steinem, “Fome”, de Roxanne Gray, e agora “Mamãe & Eu & Mamãe”, de Maya Angelou, recém-lançado pelo selo Rosa dos Tempos.

Reese Witherspoon
A atriz americana, vencedora do Oscar por sua performance em “Johnny & June”, indica livros em seu clube, o Hello Sunshine. É possível acompanhar os títulos debatidos pelo Instagram (@reesesbookclubxhellosunshine) e pelo Facebook. Reese tem uma produtora, a Pacific Standard, que está por trás de adaptações de romances como “Garota Exemplar” (Gillian Flynn), “Livre” (Cheryl Strayed) e “Big Little Lies”, de Liane Moriarty, que virou série na HBO.
Um dos títulos mais recentes lidos pelo grupo foi “Pequenos Incêndios por Toda Parte”, de Celeste Ng.

Oprah Winfrey
A apresentadora e atriz americana é a celebridade que tem um clube do livro há mais tempo. Desde 1996, Oprah compartilha com seus fãs seu gosto literário, e frequentemente entrevistou autores em seu programa, que terminou em 2011. Em 2012, o clube foi relançado após passar por uma reformulação, ressurgindo com foco nas redes sociais. Se quiser acompanhar as novidades, é possível se inscrever na newsletter oficial do grupo, onde Oprah compartilha entrevistas com autores, comentários pessoais sobre a obra e outras curiosidades [tudo em inglês].
Nestes mais de 20 anos de clube, Oprah escolheu autores como Maya Angelou, Gabriel García Márquez, Isabel Allende e Toni Morrison.

David Bowie
O músico britânico, morto em 2016, ficou conhecido por suas canções e seu estilo único, mas também por seu vasto gosto literário. Para celebrar o lado leitor do pai, seu filho Duncan Jones decidiu, no final de 2017, criar um clube do livro para ler a lista completa das 100 obras favoritas do cantor e fez o anúncio no Twitter. O próximo livro na sequência é indicado no site oficial de Bowie, e entre as opções há títulos clássicos como “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, “O Estrangeiro”, de Albert Camus, e “1984” de George Orwell.

Florence Welch
A cantora britânica, líder do grupo Florence and the Machine, também tem seu próprio clube de leitura, o Between Two Books (Entre Dois Livros). O nome é uma brincadeira com o título de seu álbum “Between Two Lungs” (Entre Dois Pulmões). As obras escolhidas por Florence podem ser vistas na página de Facebook do clube e os livros da lista ficam arquivados em uma estante virtual.

Entre os títulos já lidos estão “Aqui Estou”, do americano Jonathan Safran Foer, “Só Garotos”, de Patti Smith, e o clássico “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald.

Emma Roberts
A jovem atriz, sobrinha de Julia Roberts, criou, junto com a produtora Karah Preiss, o clube do livro Belletrist. O grupo, que surgiu em 2017, escolhe todo mês um novo livro e indica ainda uma livraria independente – em geral nos EUA – para que os fãs visitem ou comprem seus livros por lá. Normalmente Emma e Karah também disponibilizam um cupom de desconto para compras nas livrarias indicadas. O Instagram (@belletrist) do clube tem fotos ótimas. A maioria das obras lidas até agora, no entanto, não foi publicada no Brasil.

Barack Obama
O ex-presidente americano indicava, todo ano, sua lista de livros favoritos. Agora, mesmo longe da presidência, é possível acompanhar as indicações de Obama em sua página oficial do Facebook, onde ele também lista as músicas que mais gostou no ano que passou.
Entre os títulos já indicados pelo ex-presidente estão “The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade”, de Colson Whitehead, premiado livro sobre o período da escravidão nos EUA. Em 2017, Obama indicou também “O Poder”, de Naomi Alderman, em pré-lançamento aqui no Brasil, e “Um Cavalheiro em Moscou”, de Amor Towles.

Mark Zuckerberg
Como parte de uma meta de fim de ano, o criador do Facebook decidiu, no início de 2015, ler um livro a cada duas semanas, criando assim o projeto A Year of Books. Com uma página oficial em sua rede social, Zuckerberg passou a postar os livros que lia e debater os temas com quem acompanhava o projeto. O sucesso foi tanto que o primeiro livro escolhido,”O Fim do Poder”, de Moisés Naím, esgotou em poucas horas na Amazon americana.

Zuckerbeg terminou o ano com 23 livros lidos, entre eles “Por que as Nações Fracassam”, de Daron Acemoglu e James Robinson. A página não é mais atualizada, mas ainda é possível ler os debates e as sugestões de leitura.

12 livros úteis para momentos de crise

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Quando você não sabe o que fazer, talvez seja a hora de procurar sabedoria em outros lugares.

Nivaldo Gomes, no Papo de Homem

Essa história começa algum tempo atrás.

Quando 2017 chegou, eu estava crente que superaria todos os meus limites e seria o melhor ano da minha vida. Estava concentrado em todas as minhas metas e onde queria chegar. Parecia o começo de um filme dramático onde o mocinho está feliz mas quem está assistindo sabe que em qualquer momento o jogo vai virar.

Em menos de um mês eu vi minhas finanças ficando em um estado deplorável. O negócio que eu tinha montado não dava resultado, minha alimentação e saúde indo pro saco, meu cachorro ficando doente e falecendo em seguida. Assim, entrei em uma crise.

Não foi fácil.

Sem muita opção, a primeira coisa que fiz foi aceitar o que estava acontecendo. A segunda foi buscar forças em livros para aprender como viver e sair dela.

Dentre os livros que li, estes foram os que mais me ajudaram.

A sutil arte de ligar o foda-se (Mark Manson)

Por mais que você esteja passando por um momento difícil, lembre de uma coisa … você não é especial. Nesta obra Mark Manson se figura como um amigo sincero e mostra, de uma forma bem bacana, que a vida é uma sequência interminável de problemas e o máximo que você pode fazer é preenchê-la com problemas que valem a pena.

Através do livro comecei a perceber que às vezes acabava me irritando com coisas que eu não tinha controle, como o ônibus que não parava para eu subir, o uber que demorava para chegar enquanto eu estava atrasado para algum compromisso.

O ponto final do autor não é que você ligue o foda-se para tudo, mas que remova tudo que não vai trazer retorno e foque no que realmente importa para a sua vida.

Em um momento de crise como o que eu vivia, esta foi a melhor coisa a ser feita.

Em busca de sentido (Viktor Frankl)

Viktor foi um psiquiatra austríaco que viveu na pele o terror causado pelos Nazistas. Foi no campo de concentração que ele teve que colocar em prática toda a sua filosofia de vida.

Esse livro é o encontro da teoria com a prática vivenciada pelo próprio autor.

É dividido em duas partes. Na primeira, Viktor mostra o que viveu em um campo de concentração e mostra tanto o ponto de vista dele quanto dos seus amigos. Na segunda parte ele fala sobre a Logoterapia, uma psicoterapia fundada pelo próprio autor, que teve seus trabalhos interrompidos durante a prisão mas que retomou após a liberdade.

Esse foi o primeiro livro que li quando fechei a minha startup e me senti sem rumo.

O obstáculo é o caminho (Ryan Holiday)

Esse livro foi o meu portão de entrada para o estoicismo. Ryan Holiday demonstra uma forma diferente de encarar os nossos problemas do dia a dia e como eles podem nos alavancar. O livro é dividido em três partes: percepção, ação e vontade.

No momento em que li este livro, estava enfrentando vários problemas, tanto profissionais quanto pessoais e acabei começando a culpar tudo. A obra me mostrou uma perspectiva diferente de como enxergar os problemas logo nos primeiros capítulos.

Um fato interessante é como o autor exemplifica seus argumentos através de grandes nomes da história como Marco Aurélio.

Além desse, também indico o Ego é Seu Inimigo, do mesmo autor.

Se por um lado o livro “O Obstáculo é o Caminho” mostra como encarar problemas entre você e o mundo, o Ego é Seu Inimigo mostra como encarar problemas que surgem entre você e você. Novamente, o autor divide o livro em 3 partes, aspiração, sucesso e fracasso, e mostra o quanto o ego aparecer em cada um destes momentos.

Eu comecei a ver várias atitudes minhas que batiam com algumas descrições e o quanto aquilo estava me prejudicando—principalmente na parte de fracasso.

Sobre a brevidade da vida (Sêneca)

Geralmente em momentos tensos, você começa a refletir sobre o que está fazendo com a sua vida. Foi dessa forma que achei esse livro. Simples, pequeno e incrivelmente rico.

A obra se trata de cartas escritas por Sêneca e dirigidas a Paulino. Além de ser um dos maiores nomes do estoicismo, Sêneca demonstra como acabamos encurtando a vida com futilidades, e como ela pode ser não só mais longa mas também mais rica.

O livro é bem curtinho e pode ser lido em uma tarde.

A Guerra Da Arte (Steven Pressfield)

Todo mundo já teve ou tem dificuldade de iniciar algo novo. Steven Pressfield afirma que essa dificuldade é causada pelo nosso maior inimigo, a Resistência, que se encontra no meio das nossas duas vidas, aquela que vivemos e aquela que não é vivida por nós.

Ele divide o livro em 3 partes. A primeira foca em detalhar mais a Resistência, a segunda parte aborda como combatê-la e a terceira mostra o que acontece quando vencemos.

Personificar todos os meus bloqueios através da Resistência e criar este combate dentro da minha cabeça foi de grande ajuda para sair da inércia e começar a campanha contra a crise.

Not caring what other people think is a super power (Ed Latimore)

Se você quer saber como dar a voltar por cima e quer usar alguém como espelho, Ed Latimore pode ser a pessoa que vocês procura. Ele cresceu em um “ghetto”, onde crime e violência era companheiras do seu dia a dia. Conseguiu achar no boxe uma saída, mas teve problemas com álcool. Hoje ele é um veterano militar, escritor e graduando em física.

O que me chamou atenção no Ed, é que além de ser bem transparente, ao ponto de falar sobre o nocaute que sofreu em rede nacional, a sua escrita é simples porém repleta de riqueza. Infelizmente, seu livro não tem versão em português, mas não precisa ter o inglês tão afiado para apreciar a obra.

Antifrágil (Nassim Taleb)

A fragilidade faz não só pessoas entrarem em crise, mas sistemas e grande corporações, uma vez que é impossível prever todos os cenários. Mas mesmo sem tal poder, podemos nos preparar para as consequências dos seus efeitos. Isto que diferencia o frágil do antifrágil, o primeiro pode ser destruído com o caos, o outro se beneficia dele.

Sem sombra de dúvidas, foi um dos livros mais bem escritos e densos que já li. Ele não só vai ajudar você a ter uma visão melhor do mundo como vai preparar para qualquer crise futura que venha a acontecer.

Maestria (Robert Greene)

Em momentos difíceis é fácil nos sentimos inferiores e começarmos a nos comparar com os outros. Acabamos idolatrando e colocando essas pessoas em lugares de Deuses, por achar que elas são mais bem sucedidas que nós. Porém, além de serem humanos como nós, eles tiveram uma longa jornada para chegar em sua melhor versão.

Esse livro, de Robert Greene, demonstra os passos para alcançar a maestria por meio do exemplo de grandes nomes como Mozart, Newton, Paul Graham e outros.

Minha Luta, Sua Luta (Ronda Rousey)

A Ronda, além de me chamar atenção em suas lutas, me chamou mais atenção sobre a maneira que ela vê o mundo. Sua carreira teve muitos altos e baixos e ela faz questão de mostrar isso, desde o suicídio do pai, até ser a primeira mulher a ir para o UFC.

Muitos acham a Ronda um pouco arrogante e, graças a isso, se recusam a ler o livro. Eu penso que se uma mulher fez história no judô e no UFC (onde o presidente falou que nunca teria uma mulher lutando na sua organização), ela deve ser estudada. Apenas acho que o livro tenha saído cedo demais e não cobriu a parte da queda dela no UFC, mas é mais uma obra que mostra o lado humano de um campeão.

Escolha Você (James Altucher)

Você está em um momento de crise e se depara com o James, descobrindo que ele já escreveu vários livros e fundou algumas empresas. Porém, não é isso que chama mais atenção. O impressionante é que ele foi milionário, quebrou e perdeu tudo. Depois, se tornou milionário novamente e (adivinha?) perdeu tudo mais uma vez. Não sem se recuperar de novo.

Acho que não preciso falar mais nada, se isso não fizer você ler este livro, eu não sei o que mais vai te convencer.

Meditações (Marco Aurélio)

Marco Aurélio foi simplesmente o homem mais poderoso do seu tempo. Certamente, tinha que administrar várias crises, tanto dele quanto do seu império. Ao ler este livro, você tem um dos um dos grandes imperadores romanos ensinando como viver e se livrar das dores do mundo material.

Não importa a crise que você esteja passado, se é amorosa, financeira, profissional ou todas juntas, você vai encontrar algo que vai ajudar.

O melhor dessa obra é que ela não foi feita com o objetivo de ser publicada e, pra mim, é um dos melhores livros que já li e continuo relendo.

Para você, qual foi o livro que mais ajudou em um momento difícil?

Clássico ‘O velho e mar’, de Hemingway, ganha versão em HQ e chega à 94ª edição

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Ilustração do designer francês Thierry Murat para a novela gráfica adaptada do clássico do escritor americano. (foto: Thierry Murat/Bertrand Brasil/Reprodução)

Lançamentos mostram saga do pescador que se tornou alterego do escritor e sua vida de aventuras

Paulo Nogueira, no UAI

“É uma estupidez não ter esperança”, diz o velho em seu barco com o enorme peixe-espada amarrado e cercado por tubarões. Agora, ele já podia ver as cabeças enormes e as barbatanas brilhando ao sol. Eram tubarões idosos, malcheirosos, assassinos e comedores de carne podre atraídos pelo rastro de sangue. Quando tinham fome, eram capazes de morder os remos ou o leme de um barco e atacar um homem na água. O velho está exausto, à beira do desespero, mas desafia: “Venham”. E vieram. Para tristeza do velho, as feras famintas ignoram sua coragem e começam a abocanhar o espadarte, o gigantesco peixe-espada de meia tonelada. É mais um ataque assustador ao pequeno barco e hora de lutar outra vez até a última gota de suor e de sangue.

Obra mais popular e a última de Ernest Hemingway (1899-1961), O velho e o mar (The old man and the sea) foi publicada em 1952, deu ao escritor norte-americano o Prêmio Pulitzer de 1953 e teve peso decisivo na sua escolha como Nobel de Literatura em 1954. Já teve milhares de edições ao redor do mundo, rendeu dois filmes em Hollywood, em 1958 e 1990, e um curta de animação, que ganhou o Oscar em 2000. Além da 94ª edição no Brasil, chega ao mercado brasileiro uma belíssima adaptação do livro em quadrinhos.

O velho e o mar é uma angustiante novela dramática ambientada em Cuba e no Mar do Caribe, onde Hemingway viveu na década de 1950 e baseou sua história, seja pelas próprias pescarias ou pelas que ouviu. Um libelo contra o abandono e a solidão da velhice e a perseverança em superar forças que parecem invencíveis. Conta a história de Santiago, que está há 84 dias sem pescar nada e, por isso, é motivo de chacota de outros pescadores de Havana. Por causa disso, perdeu também a companhia do garoto Manolin, que sempre o incentiva e ajuda na pescaria em alto-mar, mas é proibido pelo pai de acompanhá-lo porque o velho não consegue pescar mais.

No 85º dia, então, tragado pelo sofrimento e pela força da dignidade, ele parte sozinho para o mar em seu desafio definitivo. Pesca o maior peixe da sua vida, de mais de cinco metros de comprimento, maior que o seu barco. Durante dois dias e duas noites, o longo confronto de Santiago com o imenso espadarte e suas dramáticas consequências em mar aberto constituem a grandeza da obra.

A simplicidade da narrativa em O velho e o mar e outras obras de Hemingway exemplifica sua filosofia para escrever. Ele sempre buscou uma prosa baseada na linguagem jornalística, porque também trabalhou como repórter, sem firulas ou embelezamentos, contundente e econômica, e não em adjetivos ou excessos emotivos, como destaca o escritor Luiz Antonio Aguiar, no prefácio da nova edição em português.

Santiago é um homem muito simples, que mora sozinho numa cabana paupérrima, esquecido pelos pescadores, conta apenas com a solidariedade do pequeno Manolin e notícias do beisebol e seu ídolo máximo, o famoso Joe DiMaggio, que o inspira em sua aventura no mar.

MONÓLOGO DA SOLIDÃO
Acima de todas as dificuldades está sua força de vontade, que o impede de pedir dois dólares emprestados para ver a partida do seu time. “Não quero pedir emprestado a ninguém. Primeiro pede-se emprestado, depois pede-se esmola”, ele diz ao menino. Sua obstinação aparece também no encontro com as grandes forças que enfrenta, principalmente nas conversas com o gigantesco espadarte fisgado. “Peixe, eu gosto muito de você, é como se fosse meu irmão e o respeito muito, mas vou matá-lo”, diz.

Santiago está sozinho no mar. Sobram-lhe os solilóquios. “Em toda a sua grandeza e glória, tenho que matá-lo. Vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer o que é capaz de aguentar”, ele diz em outro momento ao peixe, ao qual resta lutar ferozmente pela vida, fazer sangrarem as mãos do velho em meio ao dia e à madrugada, ao frio e ao calor, à fome e ao perigo.

Belos e inquietantes são seus devaneios durante sua luta com o peixe: “Imagine o que seria se um homem tivesse que matar a lua todos os dias. A lua corre depressa. Imagine só se um homem tivesse de matar o sol. Nascemos com sorte. É bom que não tenhamos de tentar matar a lua, o sol ou as estrelas. Já é ruim o bastante viver no mar e ter de matar os nossos verdadeiros irmãos”, filosofa o velho.

Mas o embate com o espadarte é apenas parte da luta. Depois virão os terríveis tubarões. E serão muitos e muitos… E ele está ali, firme, pronto para continuar o combate: “O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”.

Um fator que contribuiu para a popularidade do livro é apontado por Moacy Scliar (1937-2011), um dos maiores escritores brasileiros, em texto publicado em 1999, no qual ele fala da inquietude de Hemingway. Segundo ele, o sucesso de O velho e o mar, tratado como resgate literário de Hemingway, que estava em baixa no fim da vida, sensibilizou os leitores devido ao aspecto simbólico do texto. “O velho era claramente o próprio Hemingway e o peixe com que ele lutou a literatura ou a própria vida. É o laconismo do macho americano, do herói do Oeste”, afirmou Scliar.

HEMINGWAY VIRA PERSONAGEM
O velho e o mar merecia uma bela versão HQ. E ela veio da imaginação e das mãos do ilustrador e designer gráfico francês Thierry Murat, de 52 anos. A crítica do jornal Libération dá o tom da obra: “Thierry Murat escolheu privilegiar a elipse e a sugestão, com uma incrível paleta de cores, um obscuro alaranjado. Um beijo de poesia”. A sofreguidão de Santiago, seus sonhos com a África natal e os “leões brincando como gatinhos” estão muito bem retratados em cor laranja para os dias sofridos e o azul sombrio para as noites estreladas, quando parece que a solidão engole a alma do velho pescador.

Óbvio que a linguagem sucinta dos quadrinhos reduz o apelo dramático da prosa de Hemingway, mas Murat soube dosar o lirismo inerente à realidade de Santiago ao pinçar uma definição tirada do livro: “Sua pele, seu cabelo, suas lembranças, tudo nele era velho. Menos seu olhar, que ainda brilhava como um sol triscando a crista das ondas”.

E a grande surpresa de Murat para o leitor em sua livre adaptação da obra é transformar o próprio Hemingway em personagem. Enquanto o livro começa com o garoto Manolin em primeira pessoa e depois segue um narrador, nos quadrinhos o garoto conta a história para um amigo, que é ninguém menos que o próprio escritor americano. Impressionado com a narrativa do velho pescador, o personagem Ernest se impressiona e segue-se o diálogo: “Sua história é muito bonita, meu filho”. E Manolin responde: “Não é uma história, senhor Hemingway, é a vida”. Ernest retruca: “Sim, e é por isso que é tão bonita”. Triste e choroso, o menino conta: “Mas hoje de manhã ele cuspiu uma coisa esquisita”. E Ernest arremata: “Não chore meu garoto, vai dar tudo certo… Acho que na sua derrota o velho obteve a vitória mais bonita que um homem pode esperar”.

DO FRACASSO AO OSCAR
O velho e o mar teve três adaptações para cinema, incluindo um curta de animação. Em 1958, o diretor John Sturges (1910-1992) levou para as telas uma versão bem fiel ao livro com Spencer Tracy (1900-1967), considerado um dos principais atores de Hollywood de todos os tempos. O ator foi indicado nove vezes ao Oscar, inclusive por este filme, e ganhou três. O filme, entretanto, levou a estatueta de melhor trilha sonora.

Apesar do bom desempenho do ator, Ernest Hemingway não gostou. Segundo críticos da época, o escritor americano, que chegou a se envolver na produção do longa em cenas de pesca de marlin na costa do Peru, disse que Tracy parecia mais o homem rico que era do que um pescador cubano. Na verdade, os produtores usaram um peixe-espada de borracha nas principais cenas do peixe-espada e filmagens de que Hemingway não participou.

O ator Humphrey Bogart (1889-1957), famoso por Casablanca, que já havia protagonizado o filme Uma aventura na Martinica, inspirado em outra obra de Hemingway, se identificou com a história e quis interpretar o velho Santiago após comprar os direitos sobre o romance, mas morreu antes do início das filmagens.

A principal crítica ao filme de Sturges foi a lentidão e os longos planos de Santiago no mar em embate com o espadarte, já que os momentos tensos e de ação são poucos se comparados com as divagações filosóficas do protagonista diante do seu incrível adversário. Dessa forma, o ponto alto do livro vira deficiência no longa, mas não compromete sua mensagem de superação humana.

Se a primeira versão teve seus problemas, a segunda, de 1990, dirigida por Jud Taylor (1932-2008), foi uma lástima. Mesmo com o veteraníssimo Anthonny Quinn (1915-2001), que ganhou o Oscar duas vezes e fez mais de 100 filmes, como protagonista, com um desempenho melhor que o de Tracy, o longa de decepciona do início ao fim. O roteiro inclui elementos estranhos ao livro. Primeiro, inventa para Santiago uma filha, que tenta convencê-lo a não voltar ao mar depois de sucessivos fracassos e nada acrescenta à história. No original, a única lembrança de família do velho é uma foto da mulher falecida que ele manteu escondido em sua cabana na praia para enganar a saudade.

Aparecem também na história um jornalista e sua mulher que estão com o carro enguiçado e ficam na aldeia de pescadores acompanhando o drama de Santiago. Mais uma vez, nada acrescenta. Para piorar, de novo, o ponto forte do livro, que é o longo embate no mar, no filme é intercalado com cenas descartáveis na ilha do Caribe, enquanto Santiago se consome em sua batalha. Não é à toa que foi um fiasco e caiu no esquecimento. Passada a decepção dos longas, em 1999, a obra de Hemingway ganhou bela versão no curta de animação do diretor e designer gráfico russo Alexander Petrov, então com 42 anos. A produção em conjunto de Rússia, Canadá e Japão foi consagrada com o Oscar em 2000. A animação de 20 minutos consumiu dois anos de trabalho de Petrov, que pintou a óleo e fotografou cada um dos 29 mil frames em quadros de vidro. The old man and the sea é de grande beleza, literalmente, para encher os olhos, e está disponível no YouTube.

BIOGRAFIA TURBULENTA
A vida épica de Ernest Hemingway se confunde com a de os seus personagens desde O sol também se levanta (1927), seu primeiro livro, até O velho e o mar (1953), o último. Seus livros contam histórias sobre guerras, pescarias em alto-mar, touradas e caçadas, aventuras em que os protagonistas são seu alterego e quase sempre estão envolvidos em batalhas memoráveis e precisam superar intempéries e adversários que parecem invencíveis. Tanto que os seus principais livros, entre os quase 30 que escreveu, foram levados para o cinema.

Ao longo dos 62 anos, o escritor rodou o mundo, se casou quatro vezes, viveu outros romances e teve vários filhos. A popularidade de suas obras, segundo os críticos, vem dessa vida aventuresca e também do estilo seco e conciso dos seus textos que permeia a linguagem jornalística, outro trabalho que marcou profundamente a trajetória do escritor americano.

Filho de um médico e de uma cantora de ópera, Ernest Miller Hemingway nasceu em 21 de julho de 1899, em Oak Park, Illinois (EUA). Foi o quinto de sete irmãos (quatro mulheres e dois homens) e desde cedo teve vocação para a aventura. A infância e adolescência estão em detalhadas na obra O jovem Hemingway (The young Hemingway), de Peter Griffin. Já aos 17 anos se alistou no exército italiano e foi à Primeira Guerra Mundial como motorista de ambulâncias. Foi ferido gravemente, se apaixonou por uma enfermeira, teve baixa e acabou condecorado. Dez anos depois, em 1929, ele lançou Adeus às armas (A farewell to arms), romance autobiográfico sobre um tenente americano que serve como motorista de ambulância e se apaixona por uma enfermeira inglesa.

Ainda durante a guerra, ele iniciou sua carreira como repórter nos EUA e viajou pelo mundo. Sua extensa obra jornalística está relatada nos volumes Tempo de viver e Tempo de morrer, lançados em 1967, após sua morte. As duas obras são encontradas por aqui apenas em sebo, lançadas em 1967 pela editoria Civilização Brasileira.

Depois da guerra, Hemingway foi viver em Paris como correspondente, entre 1921 e 1926. Foi um dos expoentes da chamada Geração perdida, que reuniu principalmente artistas e intelectuais que se autoexilaram na capital francesa. Ali conheceu personalidades como James Joyce, Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerald, Pablo Picasso, Luís Buñuel, Salvador Dalí, Ezra Pound e Cole Porter, entre outros. Relatos da época estão em O sol também se levanta (The sun also rises), obra vigorosa, em estilo direto e despojado, que mostra relações e conflitos de americanos e ingleses na Paris pós-guerra. Sobre esta época, seria lançado postumamente em 1964 Paris é uma festa (A moveable feast). Hemingway escreveu o livro entre 1957 e 1960, contando sua convivência ao mesmo tempo gratificante e cruel com intelectuais e como conheceu clássicos de Dostoievski, Tolstói e Stendhal. “Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante”, afirmou o escritor.

Nos anos 1940, Hemingway se alistou nas Brigadas Internacionais e foi lutar contra a ditadura de Franco na guerra civil espanhola. Desta época, surgiu sua grande obra-prima, Por quem os sinos dobram, For Whom the Bell Tolls, a história de um jovem americano que tem a missão de explodir uma ponte para barrar franquistas e se apaixona por uma bela e enigmática mulher. Nos anos 1940 e 1950, Hemingway morou em Cuba, onde se aventurou nas grandes pescarias.

Em 1961, de volta aos EUA, Hemingway, aos 62 anos, estava com depressão, hipertensão, diabetes e início de demência. Em 2 de junho, em sua casa em Idaho, ele se matou com um tiro de espingarda, seguindo o exemplo de seu pai. Críticos de sua obra dizem que ele representava apenas o protótipo do macho americano, heroico e viril. Má vontade à parte, ele foi um homem do seu tempo, que desafiou o mundo e venceu. Como todos, perdeu apenas a derradeira batalha, a da morte.

Morador de rua faz livro de poesia sobre como é viver nas calçadas de SP

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Gilberto com o livro “Velha Calçada”, que conta sua história vivendo nas ruas. (Foto: Celso Tavares/G1)

Gilberto Camporez mora há 13 anos no Largo São Francisco, no Centro de SP. Alunos da USP ajudaram a reunir os poemas e produzir o livro.

Rafaela Putini, no G1

Encostado na estátua de Álvares de Azevedo, no Largo São Francisco, Gilberto Camporez diz que morou 13 anos ao lado do poeta romântico do século XIX e que só descobriu quem era recentemente, quando começou a escrever poesia também. Foi nas ruas ao redor do monumento que ele viveu as experiências que estão nas 25 poesias do seu primeiro livro, “Velha Calçada”, que será lançado nesta sexta-feira (16).

Em 2005, com 17 anos, Gilberto, saiu do interior de São Paulo e chegou às calçadas do Centro da capital paulista, que se tornaram sua moradia na maior parte do tempo até hoje. Nas mesmas calçadas, durante uma festa universitária em 2015, ele conheceu alguns alunos da Faculdade de Direito da USP, que descobriram suas poesias e o convidaram para um recital que acontecia naquele momento.

Sem ensaiar, e com medo de vaias, Gilberto declamou os versos para um grupo grande de estudantes. “Eu estava todo sujo, de chinelo e pensei: logo eu, recitar uma poesia em um lugar tão bacana”, contou Gilberto, agora com 29 anos. Quando terminou de citar o último verso começaram os aplausos e os elogios. Ali começava o projeto dos jovens com o poeta para publicar uma coletânea.

Desde esse dia, 20 jovens começaram a arrecadar dinheiro para a publicação, que foi editada por eles e que será lançada em um auditório da USP São Francisco. Hoje, enquanto anda pelo campus, professores, funcionários e alunos cumprimentam Gilberto e perguntam sobre o lançamento. O objetivo é conseguir fundos, com a venda de 500 exemplares e de camisetas com trechos da obra, para pagar um aluguel e tirar o autor das ruas.

Recomeços

A vinda para São Paulo foi uma busca por outras realidades, depois de ter problemas com drogas e de viver a infância e a adolescência em um ambiente familiar de brigas. Gilberto foi diretamente para as ruas, de onde conseguiu sair por alguns períodos. Teve empregos, de faxineiro e ajudante de cozinha, por exemplo. Em um deles chegou a ganhar um salário de mais de R$ 4 mil.

Nesse intervalo de tempo se reabilitou, teve casa, esposa e um filho, que hoje mora com a avó paterna. Depois de uma separação conturbada, há quatro anos, voltou a viver nas ruas da Sé.

Começou a escrever para ajudar a lidar com as recaídas e com a depressão. Ele conta que foi preso injustamente duas vezes e teve seus pertences, entre eles cadernos com todas as suas criações, confiscados mais de uma vez. São materiais que ele nunca recuperou.

Eu sofri muito, mas eu sempre começo de novo. Conheci muitas pessoas que me ajudaram a não desistir.”

Publicar o livro, para o escritor, é sinônimo de recomeço. Depois do lançamento ele espera conseguir alugar uma casa e encontrar um emprego, além de realizar a vontade de abrir uma empresa de bolos. Já tem até lugar para o negócio: um estacionamento no centro mesmo, bem próximo à faculdade. Para o futuro, sonha em publicar mais livros, entre eles uma biografia, que quer que um dia vire filme.

Antônio, ao lado de Gilberto, é aluno de economia da USP e foi responsável pela publicação de 500 exemplares do livro “Velha Calçada”. (Foto: Celso Tavares/G1)

Alunos da USP

“Esse é o cara”, diz Gilberto enquanto abraça Antônio Cesar, de 21 anos, em frente ao lugar onde dorme, e onde os dois se encontraram há cerca de dois anos. Antônio comanda o grupo dos 20 voluntários responsáveis por viabilizar a publicação do livro “Velha Calçada”. Na época que conheceu Gilberto, o jovem estudava no cursinho popular da universidade. Hoje, ele estuda economia.

Em uma mão, Antônio anda com uma pasta de documentos, com planilhas de orçamento, arrecadação, custos e planejamento, tanto para o lançamento quanto para o processo de aluguel de um apartamento. Na outra, com a sacola de livros e camisetas que estarão à venda no evento.

O estudante comprou os primeiros pacotes de trufas que Gilberto vendeu para começar a juntar o dinheiro necessário para imprimir os livros. Agora organiza também o evento que vai apresentar o resultado. “Eu vi ele recitando as poesias, posso dizer que até me apaixonei por algumas, e vi que era um trabalho que podia dar certo”, lembrou o jovem.

Gilberto fez questão de escrever no livro uma dedicatória para cada aluno que participou do processo. Sobre Antônio, redigiu que palavras são minúsculas se comparadas ao que tem por dentro para oferecer. O estudante reforça: “ele vai poder contar com a gente sempre”.

Velha Calçada

“Velha calçada,

Aqui me despeço depois de muito tempo.

Confesso que vou sentir saudades,

Pois foi você quem mais presenciou momentos ruins em minha vida.

Lembra aquele dia em que eu não tinha onde dormir?

Pois você deu um jeito e dormimos juntos.

E aquele dia em que eu desmaiei por sentir fome?

Então você me segurou e esperou até que a emergência chegasse.

E depois que sai do hospital, você ainda me esperava.

Obrigado, velha calçada!”

(Gilberto Camporez)

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