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Adaptações de distopias para séries de tevê renovam o interesse no gênero

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Série reproduz o livro de Margaret Atwood: na história, mulheres perdem os direitos civis e são rebaixadas

Série reproduz o livro de Margaret Atwood: na história, mulheres perdem os direitos civis e são rebaixadas

As produções trazem de volta também livros esgotados

Nahima Maciel, no Correio Braziliense

O universo distópico criado por Margaret Atwood e Philip K. Dick é um mundo marcado pelo totalitarismo, pela intolerância e pela supressão dos direitos civis. Ali, não há fantasia ou ficção científica, mas uma simples especulação. A pergunta “E se?” paira no ar quando o leitor abre as primeiras páginas de O conto da aia e O homem no castelo alto. E se os Estados Unidos voltassem ao puritanismo do século 17 e as mulheres perdessem todos os seus direitos? E se Adolf Hitler tivesse vencido a Segunda Guerra e conquistado a costa leste norte-americana? Improvável, claro, mas não impossível. Talvez essa nesga de possibilidade tenha se tornado uma verdadeira fagulha para Bruce Miller e Ridley Scott, responsáveis, respectivamente, pela produção das séries The handmaid´s tale e The man in high castle.

A história de Philip K. Dick ganhou o rumo da série homônima produzida pela Amazon sob a batuta de Ridley Scott. O diretor leu o livro na época em que filmava Blade Runner, depois de pedir a K. Dick que desse uma olhada na abertura do longa. Foi o próprio autor quem recomendou o livro por achar a abordagem de Scott em relação aos androides parecida com o universo do romance. A série, disponível para o público brasileiro no site da Amazon, apresenta um cenário no qual os Estados Unidos se divide entre Alemanha e Japão.

O Terceiro Reich comanda a costa leste, e os japoneses governam a costa oeste. Há uma resistência, judeus praticamente não existem mais e um mistério representado por filmes nos quais a história parece ter tomado outros rumos ronda os personagens. A bandeira nazista está por todos os cantos de Nova York e a população de San Francisco vive sob o cacetete dos Kempeitai, a polícia imperial japonesa, espécie de braço do exército.

A premissa de K. Dick se fundamenta em universos paralelos nos quais os personagens são os mesmos, mas a realidade é diferente. No entanto, isso não fica claro na versão criada para a telinha. Não, pelo menos, na primeira temporada. Scott, produtor-executivo de The man in the high castle, divide a produção com Frank Spotnitz, de Arquivo X, e o resultado é uma estética sombria e tensa que valoriza o mistério e o clima de desconfiança.

Em The man in the high castle, Nova York faz parte do grande reich nazista Crédito: Amazon/Divulgacao. série The man in the high castle, da Amazon.

Em The man in the high castle, Nova York faz parte do grande reich nazista Crédito: Amazon/Divulgacao. série The man in the high castle, da Amazon.

Processo criativo
O livro de K. Dick é também seu maior projeto. Publicado em 1962, é o mais distópico dos romances do autor, cujos livros tendem mais para a ficção científica. K. Dick se isolou em uma cabana para escrever o livro. A partir da vida de cada personagem, ele descreve o cenário dramático no qual Hitler comanda boa parte do mundo. Relançado no ano passado pela editora Aleph como parte do projeto de reedição da obra do autor, O homem no castelo alto não revela de cara o drama da situação.

Há muitas histórias entrelaçadas nos primeiros capítulos e nem sempre os personagens estão em total sintonia com os da série. Na versão do streaming, Juliana Crain (Alexa Davalos), Frank Frink (Rupert Evans) e Joe Blake (Luke Kleintank) concentram vários personagens. A liberdade marca a adaptação, mas Scott e Spotnitz mantêm o essencial: a maior democracia do Ocidente se curvou à submissão de um estado totalitário e cruel.

Produzida pela Hulu e ainda inédita no Brasil, The handmaid´s tale é mais fiel ao romance O conto da Aia, de Margaret Atwood, do que a produção de Ridley Scott. O totalitarismo também é a chave para entender a história de June, uma americana capturada pela polícia de um estado teocrático que decide transformar as poucas mulheres férteis ainda vivas em reprodutoras para o alto-comando da organização.

Publicado originalmente em 1985, o romance foi editado no Brasil pela primeira vez pela Rocco, em 2007, e estava esgotado desde o início do ano. Este mês, ele retorna às livrarias em edição revisada e com novo projeto gráfico. Na distopia imaginada pela autora canadense, um grupo de fundamentalistas católicos toma o poder nos Estados Unidos após uma guerra civil e instala um governo que pretende colocar a Bíblia literalmente em prática.

O uso predatório do planeta ajudou a espalhar a infertilidade e a humanidade corre o risco de desaparecer quando os bebês deixam de nascer. A solução é transformar as mulheres férteis em aias reprodutoras. Elas perdem, então, todos os direitos civis e a sociedade acaba dividida em castas nas quais o papel feminino é restrito, embora ainda exista.

Os homens comandam o governo e os dissidentes vão para a forca. Há sessões de tortura e lavagem cerebral para quem discorda do regime, assim como há uma resistência. Certas palavras, como liberdade, são proibidas e os homossexuais são classificados como “traidores de gênero”.

June se transforma em Offred — as aias recebem patronímicos correspondentes ao homem ao qual pertencem — e, para sobreviver, se rende à submissão. Há poucas diferenças entre a série e o livro e a maioria diz respeito à personalidade de June e à aglutinação de uma ou outra personagem. Offred é vivida por Elisabeth Moss — a Peggy Olson de Mad Man — em interpretação precisa que concentra a dose certa de indignação, determinação e submissão.

Mercado favorável

O mercado editoriail para distopias sempre existiu, mas para Barbara Prince, editora da Aleph, houve um incremento nos últimos anos graças à trilogia Jogos vorazes e a tendência é o interesse continuar crescendo. “O que a gente está vendo é um momento político mundial muito complicado. A gente está vendo aumento de intolerância, xenofobia, violação de direitos humanos e tendências a governos totalitários. É uma tendência histórica, no momento em que as pessoas se sentem ameaçadas, elas se voltam para possíveis governos totalitários, que têm inimigos comuns e que reduzem os direitos individuais em prol de estabilidade. Isso aumenta o consumo de distopias porque elas refletem sobre o que acontece quando esse tipo de governo chega ao poder”, explica Barbara.

As distopias já ocuparam um lugar muito distante daquele destinado à alta literatura nas bibliotecas de acadêmicos. Autores como George Orwell e Aldous Huxley escreverem clássicos como 1984 e Admirável mundo novo, mas o preconceito contra esse gênero literário o rebaixou à categoria de fantasia e entretenimento. “Livros de fantasia e ficção científica eram tratados como literatura menor, e tudo que era relacionado ao que hoje chamamos de cultura` nerd´ era visto de maneira pejorativa”, avalia Tiago Lyra, editor da Rocco, responsável pela publicação de O conto da Aia. “Hoje, o que se vê é uma aceitação muito maior do gênero entre o grande público e a formação de novos leitores.”

Goiano ganha bolsa de mestrado em 5 universidades dos Estados Unidos

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Luis Fernando Apolinário, de 23 anos, realiza o sonho de estudar no exterior.
Jovem dá dicas para estudantes que desejam se especializar fora do país.

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Publicado no G1

Depois de um rigoroso processo de seleção, o advogado Luis Fernando Apolinário, de 23 anos, ganhou bolsa integral de mestrado em cinco universidades dos Estados unidos. Ele escolheu estudar na Loyola University New Orleans e embarca, nesta sexta-feira (7), para a cidade de News Orleans, no estado de Louisiana.

“Estudar nos Estados Unidos era um sonho antigo, que se desenvolveu ao longo dos anos, na medida em que eu me tornava mais próximo da língua inglesa. Ao entrar na faculdade, me apaixonei pela docência e pela pesquisa. E os Estados Unidos são um grande incentivador da pesquisa acadêmica”, disse o jovem ao G1.

Luis Fernando, que é formado em direito pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, escolheu a Loyola University New Orleans por trabalhar com dois sistemas jurídicos, um similar ao brasileiro e outro norte-americano. Ele ainda foi selecionado pela Vermont Law School, Hofstra University, University of Saint Thomas e Lousiana State University.

O bolsista conta que admira a cultura americana e que lá as instituições de ensino trabalham tanto o conhecimento teórico quanto o prático. “Vejo no estudo comparado dos sistemas legais e das legislações entre Brasil e Estados Unidos uma grande oportunidade para aumentar a qualidade do conhecimento jurídico no Brasil”, relata.

Ele afirma que a Justiça brasileira é lenta e desanimadora. “É uma oportunidade de buscar ferramentas para conhecer uma legislação mais eficaz. A lentidão da Justiça no Brasil é um fato que, além de gerar consequências desastrosas para um Estado Democrático de  Direito, me deixou bastante frustrado como advogado”, explica.

Processo seletivo
Luis Fernando revela que as universidades americanas, em geral, têm um processo de admissão para alunos internacionais com poucas variações de uma instituição para outra.”As instituições avaliam o potencial acadêmico e pessoal do candidato, que é feita por um comitê formado pelos professores e diretores da instituição”, conta o jovem.

advogado explica que é um processo “demorado e burocrático”, por isso, é preciso ter perseverança. “Tente estabelecer um bom contato com os coordenadores de admissão das universidades que deseja a bolsa, eles podem te ajudar muito durante o processo”, afirma.

Dicas
Para Luis Fernando, quem deseja uma bolsa de estudo no exterior precisa se preocupar com a trajetória acadêmica. “Comecei a minha preparação para pleitear uma bolsa de estudo no 1º período da faculdade. As universidades americanas valorizam muito a média geral de notas durante a graduação”.

O advogado ressalta que as cartas de recomendação durante a graduação ajudam a manter uma relação próxima com os futuros professores. “Eles têm argumentos para fazer uma avaliação bem consistente sobre a sua conduta como aluno e as características pessoais que demonstra no ambiente acadêmico”, explica.

Luis Fernando revela que as universidades querem que o candidato seja dedicado, tenha fluência no idioma inglês, habilidade de se relacionar e de liderança. Mostrar interesse pelo local da instituição também é importante: “Pesquise um pouco sobre as instituições as quais você deseja se inscrever”.

Mãe é processada por deixar filha com câncer faltar à escola

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Britânica queria ‘ficar de olho’ em menina que amanheceu com dores; escola diz que não conseguiu obter justificativa da ausência.

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Publicado no G1

A mãe de uma menina de sete anos de idade que luta contra o câncer foi processada na Inglaterra por não enviar a filha à escola durante uma semana.

Kerry Capper disse que decidiu deixar a filha em casa quando ela acordou reclamando de dor na barriga certo dia.

A filha, Libby, faltou durante uma semana à escola, que fica em Birmingham, no centro-sul da Inglaterra. A garota foi diagnosticada com um tumor no fígado há cinco anos e ainda está sob tratamento.

“Libby acordou dizendo que estava com dor de barriga e eu fiquei assustada. Eu queria ficar de olho nela”, disse a mãe.

Autoridades locais disseram que Kerry está sendo processada não por a menina ter faltado, mas porque a ausência não foi justificada.

Os advogados de Kerry disseram que a ação foi exagerada e que as autoridades foram “inflexíveis”.

Multa

Segundo a escola, a mãe foi contatada e convidada a explicar os problemas.

“Quando mesmo assim não obtivemos resposta, aplicamos uma multa e, quando ela não foi paga, enviamos o caso para a Justiça”, afirmou um porta-voz da escola.

Kerry, que está desempregada, disse que não tinha crédito no celular para retornar a ligação da escola. Ela contou ainda que tentou ir à escola tratar do assunto, mas se enganou de data e perdeu a reunião.

“Eu me desculpei por ter perdido a reunião. Mas a professora disse apenas ‘me desculpe, mamãe, mas agora o caso está sendo enviado ao tribunal’. E então eu recebi a multa, mas não tinha dinheiro para pagá-la.”

A audiência de Kerry está marcada para o dia 5 de setembro.

A rotina diária de escritores famosos

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Anastácia Ottoni, no Literatortura

“Um escritor que espera por condições ideais para trabalhar
vai morrer sem colocar uma palavra no palavra no papel.”

Trabalhar com a escrita é “ter dever de casa para sempre”, como diria o personagem de Californication; e, de fato, para aqueles que pensam que escrever é um ofício que não poderia ser considerado trabalho – com T maiúsculo -, saibam que o desgaste intelectual no processo é enorme, e cansa, como cansa ficar horas a fio buscando as palavras exatas para se colocar em sequência.

Dito isto, conheça a rotina que grandes pensadores e autores criaram para conseguir escrever sem depender da tão chamada inspiração.

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Simone de Beauvoir, grande pensadora existencialista e feminista, também precisou criar uma rotina que lhe favorecesse a escrita:

“Estou sempre com pressa de começar, embora em geral não goste de começar o dia. Primeiro preciso tomar chá e, por volta das dez, começo a escrever e trabalho até a uma da tarde. Então, vejo os meus amigos e depois, às cinco, volto ao trabalho e continuo até as nove. Não costumo perder o fio da meada.”.

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Ray Bradbury, autor de obras como Fahrenheit 451, de forma brincalhona responde a uma pergunta sobre rotinas literárias numa entrevista feita em 2010:

“Minha paixão me leva até a máquina de escrever todos os dias da minha vida; e tem me levado a ela desde os meus doze anos. Não preciso me preocupar com uma agenda. Alguma coisa nova está sempre explodindo em mim e isso me programa, não eu. Essa coisa diz: Vá para a máquina de escrever agora mesmo e termine isso. […] Posso trabalhar em qualquer lugar. Escrevi em quartos e salas enquanto morava com os meus pais e meu irmão na pequena casa em Los Angeles, onde cresci. Trabalhava na máquina de escrever na sala, com o rádio ligado e com minha mãe, meu pai e meu irmão conversando ao mesmo tempo. Mais tarde, quando quis escrever Fahrenheit 451, eu fui para a UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) e encontrei no porão um quarto para digitação, onde, se você colocasse dez centavos na máquina de escrever, você tinha trinta minutos para digitar.”.

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Joan Didion, autora norte-americana, cria para si um período de encubação de ideias, como disse na entrevista de 1968:

“Eu preciso de uma hora sozinha antes do jantar com uma bebida para repassar o que escrevi no dia. Não consigo fazer isso à tarde, pois ainda estou perto demais. Inclusive, a bebida ajuda. Ela me tira das páginas. Uso esse momento para tirar e colocar coisas novas no escrito. Então, começo o dia seguinte refazendo tudo o que fiz no anterior, seguindo anotações. Quando estou trabalhando realmente, não gosto de sair de casa ou receber ninguém no jantar porque assim perco minha hora. Se eu não tiver meu momento, começarei o dia seguinte com páginas mal escritas e sem nenhum caminho a seguir. Ficarei melancólica. Outra coisa que preciso fazer, quando estou próxima ao fim do livro, é dormir no mesmo quarto que ele. Esse é o motivo para eu ir para Sacramento quando quero terminar coisas. De alguma forma, o livro não lhe deixa quando você dorme perto dele. Em Sacramento ninguém liga se eu dou as caras ou não, então posso acordar e começar a escrever.”

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Hemingway, conhecido por escrever em pé, gostava de uma rotina diurna:

“Quando estou trabalhando em um livro ou história, escrevo toda manhã assim que surge o primeiro feixe de luz. Não há ninguém para te perturbar e faz frio, e você começa a escrever e o trabalho te esquenta. […] Você escreve até chegar num momento em que ainda está bem inspirado e sabe o que vai acontecer em seguida, e você para e tenta viver até o próximo dia quando você é pego pela escrita novamente. Digamos que você começou às seis da manhã, e irá continuar escrevendo até a tardinha, ou pouco antes disso. Quando você para, você está vazio e, ao mesmo tempo, nunca vazio e sim preenchido. Como se tivesse feito amor com alguém que ame. Nada pode te machucar, nada pode acontecer, nada significa nada até o próximo dia quando você o fizer de novo. É a espera até o próximo dia de escrita que é difícil.”

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Maya Angelou, grande poeta e autora norte-americana, disse certa vez:

“Escrevo pela manhã e por volta do meio dia vou para casa e tomo um banho, porque a escrita como você conhece é um trabalho difícil; você precisa fazer uma limpeza dupla. Então vou às compras – sou uma cozinheira de mão cheia – e finjo ser normal. — Bom dia! Bem, muito obrigada, e você? E volto para casa. Preparo o jantar para mim, e se tiver visitas, coloco velas e uma bela música. Quando toda louça é deixada de lado, eu leio o que escrevi pela manhã. Geralmente, das nove páginas escritas, consigo salvar duas e meia, ou três. É o momento mais cruel, sabe, ter que admitir que não deu certo. Quando termino cinquenta páginas e as leio – cinquenta páginas aceitáveis – não está tão ruim. Tive o mesmo editor desde 1967. Muitas vezes ele me perguntou durante esses anos, por que você usa um ponto e vírgula no lugar de uma vírgula? E muitas vezes durante esses anos eu lhe disse coisas como: Nunca mais falarei com você. Adeus. Para sempre. Isso é tudo. Muito obrigada. E vou embora. Então releio o trecho e penso em sua sugestão, e lhe envio um telegrama dizendo: OK, você está certo, e daí?”.

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E.B. White, autor de Stuart Little e Charlotte’s Webb, era cético quando o assunto era inspiração:

“Nunca ouço musica quando estou trabalhando. Não tenho esse tipo de atenção, e não gostaria [de ouvir música] de qualquer forma. Por outro lado, consigo trabalhar de forma decente com distrações comuns. Minha casa tem uma sala que é o coração de tudo: é uma passagem para o sótão, para a cozinha, para o telefone. Há muita movimentação. Mas é um local iluminado e agradável, e geralmente uso esse espaço para escrever, apesar do carnaval que acontece ao meu redor. Uma garota varrendo por baixo da minha mesa de escrita nunca me incomodou realmente, nem me desconcentraria, a não ser que a garota fosse particularmente bonita, ou particularmente desastrada.”

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Jack Kerouac quase fazia um ritual:

“Já tive um ritual de acender uma vela e escrever sob sua luz, e assoprá-la assim que tivesse terminado pela noite… Ajoelhar-me e rezar antes de começar a escrita (acabei pegando isso de um filme francês sobre George Frideric Handel)… Mas agora eu simplesmente odeio escrever.”

E então acrescenta, a respeito da melhor hora e lugar para a escrita:

“Na mesa do quarto, perto da cama com uma boa iluminação, meia noite até a madrugada, uma bebida quando estiver cansado, de preferência em casa, mas se não tiver uma casa, faça uma casa do seu hotel: paz.”

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Henry Miller, em 1932, sob uma sessão intitulada Rotina Diária, mostrou pequenas anotações que incluíam seus 11 mandamentos da escrita:

MANHÃ:

Se grogue, fazer anotações como estímulo.
Se em bom estado, escrever.

TARDE:

Trabalho dos capítulos em mãos, seguir planos de capítulos escrupulosamente.
Sem intrusão, sem distrações.
Escrever para terminar um capítulo de cada vez, para o bem.
NOITE:
Encontrar amigos, ler em cafés.
Explorar lugares desconhecidos — a pé se chovendo, na bicicleta se seco.
Escrever, caso estiver no clima, mas apenas coisas pequenas.
Pintar se vazio ou cansado.
Fazer anotações. Fazer gráficos, planos. Fazer correções.

Nota: Dê tempo suficiente durante o dia para fazer visitas ocasionais ao museu ou a um rabisco ocasional, ou a um passeio de bicicleta ocasional. Rabiscos em cafés e trens e ruas. Corte os filmes! Livrarias para referências uma vez na semana.

Você também possui uma rotina de escrita? Compartilhe conosco nos comentários.

Você é um “Ledor”? Saiba a diferença entre leitor e essa estranha classificação

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Rafhael Peixoto, no Literatortura

Este texto teve início em 2010, quando trabalhei como ledor no ENEM. Na época, não conhecia o que era o “ser ledor” e na internet era quase impossível encontrar elementos que esclarecessem as minhas dúvidas. Assim sendo, resolvi publicar o relato da minha experiência como forma de ampliar a visão que se tinha e permitir que outras pessoas pudessem ter um norte como referência. (para ler o relato, clique aqui. Três anos se passaram e a literatura em torno da questão continua escassa ou marginalizada (as margens do foro principal). Hoje, o texto serve então a outro objetivo: apresentar a figura do ledor e o processo estabelecido perante o mesmo. Sem falar, é claro, na amplitude dada ao tema, trazendo novos olhares a partir do Literatortura.

A primeira grande questão a ser trabalhada é a diferença de papeis entre o ledor e o leitor, que causa certa estranheza. Todos nós somos leitores, no sentido mais amplo da palavra. Segundo Maria Helena Martins (1982), tem-se que compreender que cada indivíduo nasce capacitado para exercer a função de leitor. Os sentidos que são concebidos aos seres humanos aos nascer permitem conhecer o mundo, o aprendizado natural, aquele que nos coloca diante do desconhecido como receptores. “Na verdade o leitor pré-existe à descoberta do significado das palavras escritas” (Martins, Maria. 1982, pág 17). A inserção do individuo no âmbito escolar vem apenas ajudá-lo a conceber com maior clareza o signo linguístico, o código lingüístico de seu povo. O ledor, por sua vez, é aquele que lê em voz alta para um outro, neste caso, para os portadores de Deficiência Visual (DV). Assim, leitor e ledor realizam o ato da leitura. Neste processo, para além do ato de leitura do signo linguístico, é preciso que observemos outras questões, tais como velocidade, tempo, dicção, altura da voz, tonalidade das palavras – habilidades que podem ser desenvolvidas em algumas pessoas, mas que passará longe de tantas outras. Logo, não é todo leitor que pode se aventurar a ser ledor.

O trabalho como ledor é também um processo que necessita compromisso e dedicação por parte daqueles que assumem tal jornada – percebe que é preciso aperfeiçoar-se para tal? Ele deve estar relacionado aos objetivos de vida que vão além da necessidade corrente de curar a si mesmo de uma patologia, como a depressão, por exemplo, quando muitas pessoas buscam a cura através do trabalho voluntário. Assim, uma vez assumido a sua posição, o ledor, junto ao leitor, estabelecerão as relações que permitam o fluxo da leitura. A relação estabelecida entre os mesmos precisa ser de empatia, respeito e diálogo.

A questão acima, ou seja, como as pessoas se comprometem por motivos às vezes equivocados, foi uma das questões pontuadas por Robenildo Nascimento no documentário “Lendo Vozes”. A película fala sobre a relação entre o leitor x ledor e o processo estabelecido por ambos, trazendo depoimentos de pessoas com deficiência visual e ledores. Outra questão ainda pontuada pela mesma é o olhar social para a pessoa com deficiência visual. Destacada no documentário, a questão é apresentada quando o DV coloca que o trabalho como ledor permite ao individuo ressignificar o olhar para a pessoa cega. Em sua reflexão, ele questiona porque a pessoa cega ocupa este lugar no imaginário social, como uma figura que necessita de ajuda, e de como as pessoas pensam no DV como um ser não escolarizado. Acreditam, por exemplo, que a leitura se dará com revistas em quadrinhos e não com material teórico, não visualizando o portador de necessidades especiais cursando um mestrado, doutorado ou graduação.

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Esta reflexão permitirá entender a necessidade do ledor para auxiliar o leitor deficiente visual na leitura de textos, bem como ser compreendida a partir do contexto social em que vivemos. Segundo a Fundação para cegos Dorina Nowill, no Brasil existem cerca de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, sendo 528.624 pessoas cegas e 6.056.654 com grande dificuldade para enxergar. Apesar do elevado número de pessoas com deficiência visual, o que determina de certa forma a necessidade do papel do profissional ledor é a baixa produtividade de material em Braille e a difícil capacitação das pessoas para a sua leitura – através da escolarização. O sistema educacional não está preparado para recepcionar de forma adequada este público, assim sendo, muitas vezes a exclusão do individuo de um processo educativo amplo faz com que o nível de educação formal dado a estas pessoas seja baixo – isto não implica dizer que ela não exista. É preciso lembrar também que não é necessária apenas a inserção, mas que sejam dadas as ferramentas necessárias para a sua permanência – acessibilidade, treinamento dos professores, etc. Para além do material produzido em Braille, que é difícil de encontrar e armazenar, existem outras ferramentas tecnológicas utilizadas para captação do material escrito produzido. Existem programas, por exemplo, que fazem a leitura do texto escrito. O problema destas tecnologias, contudo, é a linearidade da leitura, diferente do ledor, que estará ali para ler, reler, alternar os parágrafos, dar ênfases e variação de vozes de acordo a necessidade do leitor.

Desta forma, é preciso compreender que, apesar das dificuldades encontradas e das limitações impostas pela deficiência visual, há um mundo que precisa e deve ser explorado por todos nós. Que percebamos a real necessidade de inserção deste público e que aprendamos a ver o mundo desta outra perspectiva.

Para encerrar a matéria – apesar de acreditar que ainda existam inúmeras colunas em branco neste assunto, tive essa semana à oportunidade de ver um vídeo chamado “As cores das flores”, que fala sobre a inserção do individuo com DV em escolas – muito interessante, por sinal, e que acredito ser capaz de nos ajudar a refletir não somente sobre esta temática, mas também sobre outros processos do cotidiano. Assistam:

Para este texto, utilizei como referencia o texto “Qualquer maneira de ler vale a pena: Sobre leituras, ledores e leitores cegos” de Luciene Maria da Silva; o livro “O que é leitura”, de Maria Helena Martins; e o documentário “Lendo Vozes”, também de Luciene Maria; Os dados estatísticos foram obtidos através da fundação Dorina Nowill.

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