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Lição das prostitutas ao Brasil

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Gilberto Dimenstein, na Folha de S.Paulo

As prostitutas de Belo Horizonte que, como noticiou a Folha, começam a estudar inglês para receber os turistas para a Copa do Mundo, são uma interessante lição ao Brasil.

Uma das mais consistentes mudanças na paisagem social brasileira é como as pessoas mais pobres estão descobrindo a educação e demandando mais repertório cultural. Basta andar pelas favelas e periferias, vendo o número de pessoas interessadas em fazer cursos profissionalizantes, técnicos e superior.

Daí se entende a explosão dos cursos à distância mais baratos –é a modalidade que mais cresce, e de longe, em ensino superior. É crescente o sucesso na internet de videoaulas gratuitas. Há sites ganhando milhões de leitores apenas traduzindo essas aulas para o português.

Estou cada vez mais convencido de que se o país conseguir disseminar a inclusão digital com esses novos materiais, o país dará um salto educacional –mesmo sem ter mudado radicalmente suas escolas públicas.

Afinal, há uma vontade de aprender –e as prostitutas de BH simbolizam isso– com materiais pedagógicos cada vez mais baratos e eficientes.

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A palavra que dói

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As mulheres ganharam o direito duvidoso de serem chamadas de corna

Ivan Martins, na Época

Os melhores dicionários brasileiros ainda não incluem a palavra “corna”, mas acho que falta pouco para que isso aconteça. O termo está no ar. Os dicionaristas, que têm uma natureza democrática, não vão suportar a pressão. Quando uma palavra ganha a rua e cai na boca do povo, como aconteceu com corna, o pessoal dos dicionários adere e incorpora. Na profissão deles, não vale ser o último a saber.

Você acha a palavra corna detestável? Eu também. Assim como corno, ela implica uma invasão da privacidade alheia e um julgamento a respeito dela. Só poderia ter sido inventada numa cultura de fofoqueiros como a nossa, que confunde o público e o privado. Na nossa sociedade é ridículo e profundamente vergonhoso ser enganado por um parceiro, embora aconteça o tempo inteiro. Por isso a gente aponta o dedo e xinga as pessoas de corno, e agora de corna. Em algumas línguas, ser enganado é apenas triste. Em outras, não tem tanta importância. Para nós, é o fim.

Essa mentalidade tem uma longa tradição. Chegou ao Brasil com os primeiros criminosos que Portugal fez deportar para a colônia. Entre assassinos, ladrões e prostitutas, havia os “cornos mansos”. Eram homens que não haviam lavado em sangue sua honra conspurcada. A mansidão deles era crime. Dava cadeia e degredo. Desde então, maridos e namorados traídos têm sido objeto de escárnio público no Brasil. São quinhentos anos de humilhação. Um dia, quando a mentalidade machista mudar, isso também mudará. Um dia.

Enquanto isso, vejo uma forma perversa de progresso na palavra corna. Ela significa que “a honra” da mulher agora vale tanto quanto a do homem. No passado, não se empregava esse adjetivo para mulheres porque não havia ultraje em ser enganada. Era como engravidar, parir e cuidar dos filhos. Estava no pacote, como parte natural da condição feminina. Muita coisa mudou deste então – para melhor.

As mulheres ganharam independência, prestígio social, poder e dinheiro. Sua força legal e econômica dentro do relacionamento impõe que a outra parte se comporte com respeito. Agora, elas têm, inclusive, o direito de serem chamadas de corna quando são enganadas – porque ninguém mais assume com naturalidade que isso vá acontecer. É considerado uma quebra de contrato. Quando ela acontece, as mulheres podem rodar a baiana, se acharem que é o caso. Seu direito à vergonha e à indignação foi conquistado.

Com a palavra corna não se inventou a humilhação feminina, claro. Ela estava lá desde sempre. Ser enganada sempre doeu, mas agora a dor ganhou legitimidade social. Virou um drama que testa o caráter da vítima. Quando a situação é pública, espera-se que a mulher enganada tome uma atitude. Parentes e amigos pressionam para que ela encha uma mala, reúna os filhos e abandone o sujeito. Ou ponha para fora o safado. O adjetivo corna é tão pesado, tão degradante, que exige reação. Mesmo que a mulher tenha vontade de apenas calar em tristeza e desapontamento. Mesmo que ela preferisse olhar para o outro lado e fingir que não está acontecendo nada. A pressão social contra as “cornas mansas” é enorme.

Os homens convivem com isso há séculos. Sempre foi inaceitável aceitar. Muitos devem ter morrido tomando satisfações por mulheres que não amavam – e a quem, provavelmente, negligenciavam. Quantos não se sacrificaram no altar da opinião pública para compensar a mancha invisível da traição? Sempre foi preciso ser mais homem que a média para deixar-se chamar de “corno manso” em vez de acabar com o casamento (ou com a mulher!) por causa de uma traição pública. Agora as mulheres têm de lidar com a mesma pressão.

Não é fácil. Quando a dor íntima vira conversa pública os sentimentos se exaltam. Todo mundo tem ego, afinal. Uma coisa é lidar com a dor entre quatro paredes. Outra é descobrir-se no centro de uma rede de piadas e comentários. Quando as pessoas envolvidas são famosas, os detalhes sórdidos vão parar na primeira página dos jornais. A celebridade não pode andar na rua sem que estranhos lhe façam perguntas. Nessas circunstâncias dolorosas, relações de décadas podem explodir – destruindo famílias, reputações e planos conjuntos de aposentadoria.

Num mundo ideal, não haveria nada disso. Homens e mulheres seriam verdadeiros o tempo inteiro. Numa bela tarde de sábado, olhariam a parceira ou o parceiro nos olhos e diriam: desculpe, mas eu estou atraído por alguém e quero que aconteça. A pessoa poderia aceitar ou mandar o outro à merda e cair fora. Ninguém seria enganado ou traído. Mas a vida não é assim nem em filmes do sueco Ingmar Bergman. A vida atropela. As pessoas fazem primeiro e contam depois. Ou fazem e não contam. Às vezes fazem sistematicamente e não contam. Ou contam sistematicamente, e o parceiro ou parceira enlouquece. A vida é difícil e nossos sentimentos são intensos.

O que ninguém precisa, de verdade, é de palavras como corna e corno. Elas transformam o ruim em péssimo. Humilham no auge da dor e da fragilidade. As palavras machucam, por isso existe pressão para que deixemos de usar algumas delas. A mentalidade muda e certas expressões deveriam desaparecer, varridas por uma visão mais generosa do mundo. Infelizmente, ainda não é o caso. As pessoas ainda são chamadas de corno, e agora de cornas. Nas ruas e, futuramente, nos dicionários. Eu só espero que não seja por muito tempo. Tomara que não demore mais 500 anos para esse velho insulto medieval português sair de circulação. Na verdade, já passou da hora.

Foto: Internet

Prostitutas mais velhas de Amsterdã contam segredos em livro

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As irmãs martine e Louise afirmam que os jovens de hoje bebem demais

Publicado originalmente na BBC

O filme “Meet the Fokkens” (Conheça as Fokkens, em tradução literal) segue as gêmeas idênticas Louise e Martine Fokken, de 70 anos de idade, que compartilham os segredos da venda de sexo no famoso distrito da luz vermelha da cidade.

Louise e Martine se embaralham no apartamento de dois quartos que dividem em Ijmuiden, a oeste de Amsterdã. Uma de chinelos, a outro de sandálias, elas pegam canecas de café e seus bolos de creme favoritos. Há uma sincronicidade inconsciente em seus movimentos.

Martine cantarola enquanto Louise resmunga sobre famílias forçadas a fugir durante a Segunda Guerra Mundial. Sua mãe tinha origem judia, algo que conseguiu esconder das forças de ocupação nazistas, permanecendo na Holanda. Já o tema da canção de Louise transita entre a alegria de viver e a tristeza de deixar alguém.

“Nós éramos muito pequenas durante a guerra. Quando as sirenes soavam, nossa mãe nos levava ao porão. Nós não tínhamos capacetes e por isso usávamos frigideiras para cobrir nossas cabeças. Ficávamos muito engraçados. E nos divertíamos lá”.

Mas suas memórias são de lágrimas ou de risos?
“Oh, risos, definitivamente risos. Você tem de rir mesmo se estiver triste, porque é a sua vida e você não pode mudá-la. É sempre melhor se você está sorrindo.”

As irmãs concordam em uníssono. Mas os seus lábios habilmente pintados de vermelho não diminuem o brilho de tristeza em seus olhos.

“É claro que quando tínhamos 14 ou 15 anos nunca pensamos em trabalhar como prostitutas um dia. Éramos criativas e cheias de sonhos”, diz Martine.

As irmãs, quando ainda trabalhavam juntas

Louise acrescenta: “Eu sempre conto que o meu marido me batia. Ele era violento e disse que iria me deixar se eu não vendesse sexo para ganhar mais dinheiro.

“Mas ele foi o amor da minha vida …”, diz ela.

As crianças de Louise foram levados para um orfanato. Ela ainda guarda fotografias, que ficam nas prateleiras de uma estante antiga, mostrando seus pequenos rostos sorridentes.

Falando da experiência

Martine ainda vende sexo. Ela diz que a aposentadoria do estado holandês não é suficiente para o seu sustento. Já Louise teve de parar por sofrer de artrite.

Martine diz que gostaria de se aposentar, mas não pode. O documentário a mostra no trabalho – sentada em um banquinho, de meias finas, cinta-liga e sapatos altos envernizados.

Homens jovens que passam em frente à sua vitrine, alguns deles fazendo turismo sexual, zombam porque ela é velha. Ela ri da situação (como faz com tudo) e afirma não se importar.

Ela diz que os tempos mudaram: “Os meninos são diferentes agora, eles bebem muito, são gordos e não respeitam você. Eles deveriam andar de bicicleta como meninos holandeses, e não apenas beber o tempo todo”.

Apesar das jovens prostitutas que competem na casa ao lado, há ainda um mercado de serviços para Martine.

Ela se especializou em bondage para homens mais velhos. Orientando-a sobre como querem que ela se vista, eles a pedem para usar uma série de (aparentemente perigosos) chicotes ou sapatos de salto alto. Parece que ela encontrou um nicho no mercado de fetiche.

“Nós sabemos os truques, nós sabemos o que eles querem. Nós sabemos como falar com eles e sabemos como fazê-los rir muito.”

Martine diz que tem sorte de estar viva e se lembra de um episódio em que recebeu um homem que lhe despertou uma sensação ruim, de desconfiança. “Ele tirou a roupa e, quando me sentei na cama, percebi que havia uma faca enorme sob o travesseiro.”

“Há sempre altos e baixos”, acrescenta Louise. “Altos e baixos, altos e baixos …” as gêmeos cantam, antes de cair em si e terem um ataque de riso.

A história das gêmeas promete, agora, se tornar global. A biografia das irmãs ficou no topo da lista de best-sellers da Holanda e, agora, uma tradução em inglês está sendo impressa e deverá ser lançada ainda neste ano.
As gêmeas dizem que “Conheça as Fokkens” ajudou a mudar atitudes e alguns dos abusos a que eram submetidas foram substituídos por respeito.

Depois de atacar os restos do bolo com creme de Louise, Martine oferece uma garfada para de um de seus três Chihuahuas, que se equilibra sobre seu colo.

“Isso é o que sabemos fazer. Se não estivéssemos na rua, o que faríamos? Esta é a nossa vida.”

“Além disso,”, ela olha novamente para a irmã, “ainda estamos nos divertindo”.

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