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Renato Lessa fala dos desafios à frente da Biblioteca Nacional
0Cientista político explica em entrevista os primeiros passos que pretende dar para resolver os sérios problemas de infra-estrutura da instituição
Ele discorda dos gastos assumidos pelo governo para a Feira de Frankfurt, mas garante que vai cumprir os compromissos
André Miranda, em O Globo
RIO – Quando foi anunciado que o cientista político Renato Lessa, de 58 anos, seria o novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, uma amiga mandou a ele uma mensagem de parabéns, com um recado: “Que Deus e o governo ajudem você”.
Pelos problemas que o esperam, Lessa realmente vai precisar da ajuda de todos os lados na gestão da instituição. Há um ano, desde uma inundação, sua sede no Rio está sem ar-condicionado, o que, no verão, levou a temperatura dos armazéns de livros para até 50 graus. Outro ponto a ser enfrentado por Lessa, oficialmente no cargo desde segunda-feira, são as críticas quanto aos atrasos e ao orçamento elevado na organização brasileira na Feira de Frankfurt, a maior do mundo para o mercado literário, que vai homenagear o Brasil em outubro.
Em entrevista no gabinete da presidência da Biblioteca Nacional — com as janelas abertas pela falta de refrigeração —, Lessa reconheceu que há muito a ser feito. Segundo ele, serão necessários mais 120 dias para que um sistema antigo de ar-condicionado volte a funcionar na Biblioteca, e o tempo para que o sistema geral seja religado é indeterminado. Lessa também discorda dos gastos assumidos pelo governo para Frankfurt — R$ 15 milhões de investimentos diretos e a possibilidade de mais R$ 3 milhões via renúncia fiscal —, por acreditar que a homenagem deveria ser de responsabilidade do setor privado. Mas promete cumprir os compromissos.
Por fim, o novo presidente da Biblioteca Nacional discorda de Galeno Amorim, que esteve no cargo nos últimos dois anos, quanto à quantidade de municípios sem bibliotecas no Brasil: “É um número vergonhoso”.
Como foi feito o convite para o senhor assumir a presidência da Fundação Biblioteca Nacional? A ministra (Marta Suplicy, da Cultura) pediu algo específico ao senhor?
Foi em meados de março, poucas semanas antes de ela anunciar a mudança. Nós tivemos uma primeira conversa excelente, muito franca. O que me deixou muito seguro para aceitar o convite foi a possibilidade de institucionalizar políticas para a Biblioteca Nacional, sem que dependam de rompantes ou projetos pessoais, com um clima de independência. Além disso, ao mesmo tempo em que a ministra me deu autonomia e liberdade para estruturar a gestão da Biblioteca, ela manifestou também um enquadramento geral de como vê a coisa. A maior preocupação da ministra, da qual eu compartilho inteiramente, é ter uma restruturação tanto da Biblioteca Nacional quanto da política do livro. É um movimento que não incidiu apenas sobre a Biblioteca Nacional, ele inclui também a vinda do Castilho (José Castilho Marques Neto, presidente da editora Unesp) para a reorganização da política do livro e do Sistema Nacional de Bibliotecas como política pública de Estado em Brasília.
A junção de responsabilidades da Biblioteca Nacional com a política do livro era justamente uma das maiores críticas que parte do mercado fazia ao seu antecessor, Galeno Amorim.
A Biblioteca Nacional estava sobrecarregada. O excesso de atribuições torna impossível que todas recebam igual atenção. Não era um desenho adequado. Agora, a Biblioteca vai ficar desasfixiada para cuidar de suas atribuições naturais.
Em alguns de seus artigos publicados em jornais, o senhor já expressou críticas aos governos do PT. Isso em algum momento foi impeditivo para aceitar o convite?
Não foi só ao PT, também fui crítico aos governos anteriores. Mas em momento algum esse assunto apareceu na conversa com a ministra. Meus artigos não são secretos, têm a ver com meu lado de intelectual público, como observador dos hábitos políticos brasileiros. Não foram artigos que se dirigiam a este ou aquele governo. Isso é sabido, é público, estou longe de abjurar as coisas que eu escrevi. E acho que isso qualifica o convite, mostrando a ideia de independência de pensamento e de juízo.
Ainda há uma infinidade de livros físicos em circulação, mas ao mesmo tempo existe hoje um processo de digitalização em curso, de aumento da presença dos livros digitais. Em vista disso, qual o senhor considera ser o papel de uma biblioteca hoje? Esse papel está mudando?
Eu acho que o papel da biblioteca não se altera. O que as configurações novas trazem é a importância de uma biblioteca acrescentar dimensões a seu papel, que é a guarda de acervos valiosos. Fazer a guarda desses acervos incorporando tecnologias que permitam a recuperação e o restauro, mas isso tudo associado a uma perspectiva de publicização, de conquistar públicos leitores de diferentes níveis. Desde o leitor eventual até pessoas profissionalmente ligadas à pesquisa que têm na biblioteca seu local de trabalho. Acho que o futuro da biblioteca tem a ver com a capacidade de atender essa diversidade pública. Mas isso implica naturalmente um projeto agressivo de digitalização, mas não só do acervo específico de uma biblioteca, mas uma digitalização que componha redes de acervos digitalizados. Por exemplo, você pode imaginar uma grande biblioteca virtual que reúna as bibliotecas dos países lusófonos, em que os usuários possam compartilhar os acervos. Outro recorte possível é com a América do Sul. Existe um mundo para ser explorado de compartilhamentos de base da nossa Biblioteca Nacional com outras bibliotecas do mundo.
Como vai a digitalização do acervo da Biblioteca Nacional?
Ainda é muito pequeno, temos cerca de 25 mil títulos digitalizados. São 11 milhões de páginas.
De um total de quantos?
O total é complicado. Nunca houve um censo rigoroso de qual é o tamanho da Biblioteca, é uma coisa que precisamos fazer. Existe um número mágico de 9 milhões.
Mas são 9 milhões de títulos, de volumes físicos?
Por exemplo, naqueles 25 mil títulos digitalizados, a gente considera “O Globo” um título. Mas se forem exemplares, esse número já aumenta. Então não tenho como dizer um percentual do que já foi digitalizado. Mas posso dizer que é muito pouco, muito pequeno em função do volume do acervo. É uma prioridade das maiores, até porque, voltando à pergunta anterior, o papel da biblioteca depende da digitalização.
Falando sobre os problemas que a Biblioteca Nacional enfrentou nos últimos meses, o que ainda mais chama a atenção é a falta de ar-condicionado. É uma situação que se estende há um ano e que é prejudicial para usuários e funcionários, mas também é prejudicial para os livros. Ainda falta muito para isso se resolver?
É horrível para os livros. No pico do verão, me disseram que a temperatura no armazém de obras gerais bateu 50 graus. Você não pode ter um acervo valioso assim. O ideal são 23 graus, 22 graus. Mas, infelizmente, ainda está longe de chegarmos lá. Em marcha, começamos agora um processo de recuperação de um sistema antigo de ar-condicionado, e a estimativa que me deram é que a obra termine em 120 dias. Então a expectativa é que enfrentemos o verão com esse sistema antigo em funcionamento. Será um verão melhor do que o anterior, mas ainda longe do que a Biblioteca precisa. Já o sistema geral de refrigeração é de uma complexidade imensa e vai depender de um projeto de reforma. Temos dinheiro para isso e temos decisão de fazer a obra em seguida. Mas seria irresponsável eu dizer quando isso vai ficar pronto.
Qual a verba para essa reforma da refrigeração?
Existe um volume de recursos para as obras gerais da Biblioteca, que incluem as obras da sede e do anexo. O BNDES entra com pouco mais de R$ 40 milhões. Conseguimos também uma parte do PAC das cidades históricas, fizemos jus aos recursos porque somos um prédio histórico. E vamos ter ainda aplicações do orçamento da Biblioteca. Tudo isso vai dar um total de R$ 70 milhões. Vão ser usados para obras de estrutura, da refrigeração, da recuperação da claraboia, do reboco que andou caindo para a rua, da segurança, coisas assim. Enfim, são obras para levantar a infraestrutura. A administração anterior contratou a Fundação Getulio Vargas para fazer os termos de referência dessas obras, e eu vou ter uma reunião com eles na segunda-feira para saber em que pé isso está.
Mas olhando o acervo hoje, é possível que alguma obra tenha sofrido algum dano por causa do calor?
Não tenho notícias de danos ao acervo.
Outra questão muito discutida é a participação brasileira na Feira de Frankfurt, em outubro, quando o país será homenageado. Com a mudança na diretoria da Biblioteca Nacional, muda algo na organização da feira?
A participação brasileira na Feira de Frankfurt é uma política de governo que mobiliza o Ministério da Cultura e o Itamaraty. Acho importante desfazer um pouco a ideia de que a Feira de Frankfurt é a Biblioteca Nacional. Não é. A homenagem em Frankfurt significa que o governo brasileiro aceitou e entendeu que essa é uma oportunidade de promoção brasileira no exterior. O projeto é gerido por um comitê gestor, e a Biblioteca faz parte desse comitê, mas há outros integrantes, como a Funarte e o Ministério da Relações Exteriores.
Mas a Biblioteca tem um papel grande na organização.
Tem um papel grande, sim. Mas, na minha perspectiva, não é um papel compatível com as funcões próprias da Biblioteca. Como a Feira de Frankfurt tem uma dimensão econômica muito forte, algumas questões deveriam estar a cuidado dos editores do setor privado. Eu entendo que também há um interesse estratégico do Brasil, o que leva o poder público a participar, mas não me parece correto que isso seja pensado como exclusivamente fincado dentro de uma esfera estatal. Mas isso foi decidido em 2010 com comprometimentos financeiros e com o comprometimento da Biblioteca em algumas decisões, e isso será mantido. Estamos discutindo, hoje, que esse paradigma não se repita em outros eventos dessa natureza. Não cabe ao presidente da Biblioteca Nacional ser o dirigente dessa internacionalização dos livros brasileiros, e não associo o que penso sobre a Biblioteca Nacional a eventos do tipo. E ainda tenho uma reserva aos custos assumidos para a viabilização de negócios, sobretudo numa indústria que tem pujança, força e muita qualidade.
Quanto vai ser o gasto do governo em Frankfurt?
O orçamento total não vai passar de R$ 18 milhões. Desses, R$ 15 milhões vêm do orçamento do Estado brasileiro, pelo Fundo Nacional de Cultura. Já a Câmara Brasileira do Livro teve autorização para captar, via Lei Rouanet, R$ 13 milhões, dos quais nada ainda foi captado. Então, o que temos garantido hoje são R$ 15 milhões, e ainda faltam R$ 3 milhões para fechar o orçamento. Esse dinheiro virá ou de renúncia fiscal ou de patrocínio.
Houve algumas críticas sobre possíveis atrasos da preparação brasileira para Frankfurt. Alguma dessas críticas chegou ao senhor?
Com relação a prazos, nada chegou a mim. O que eu sei é que houve uma preocupação natural em relação à mudança na presidência da Biblioteca. Essas coisas são institucionais, mas envolvem relações pessoais. Então, quando há uma mudança dessas, surgem incertezas. Mas eu garanto que estamos trabalhando com a perspectiva de realizar o projeto na integridade.
Uma pergunta que é feita há anos e cuja resposta sempre foi um pouco nebulosa é sobre o número de municípios brasileiros ainda sem bibliotecas. O senhor sabe quantos faltam?
Eu não sei o número para te dizer, mas sei que é um número vergonhoso. A questão não é apenas o número de municípios sem biblioteca, mas temos que nos perguntar que bibliotecas existem e que pessoas trabalham nessas bibliotecas. Há gente que trabalha sem salários, com heroísmo. Essa é uma preocupação fortíssima da Elisa Machado, que dirige o Sistema Nacional de Bibliotecas: dar consistência a esse sistema, criando bibliotecas e fortalecendo as bibliotecas que existem.
É curioso porque, quando Galeno Amorim assumiu a presidência da Biblioteca Nacional, há pouco mais de dois anos, ele disse que faltavam “poucas dezenas” de municípios sem biblioteca no Brasil.
Eu não acho. A leitura no Brasil ainda é muito pequena, precisamos aumentar a familiaridade do brasileiro com o livro. Temos que ver isso realisticamente, como um obstáculo e desafio. Não como uma maldição que se abateu sobre a gente. A democratização do país não é só poder votar e ter liberdade para dizer o que pensa, democratização é a população ter acesso à cultura. E a biblioteca é um espaço fundamental desse processo.
Como funciona a luta pelo poder em “Game of Thrones”
0Publicado por Época
Felipe Pontes (Texto), Marco Vergotti, Otávio Burin (Gráfico) e Renato Tanigawa (online)
dica do Jarbas Aragão
Marta Suplicy tira políticas de livro e leitura da Biblioteca Nacional
0Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo
As políticas de livro e leitura do país deixarão de ser atribuição da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e voltarão à estrutura do Ministério da Cultura, em Brasília.
A decisão da ministra Marta Suplicy foi consolidada na última segunda-feira, quando José Castilho Marques Neto, presidente da Editora Unesp, aceitou o convite para voltar ao cargo de secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), com mais responsabilidades do que tinha de 2006 a 2011.
A transferência de todas as políticas de livro e leitura do MinC para a FBN, oficializada em junho de 2012, na gestão de Ana de Hollanda, levou às principais críticas a Galeno Amorim como presidente da biblioteca, de 2011 até o mês passado.
Na avaliação de especialistas, o acúmulo de funções sobrecarregou a Biblioteca Nacional num momento crítico da instituição, responsável pela preservação da memória nacional –em maio, a bicentenária biblioteca deve completar um ano sem ar condicionado, uma ameaça ao maior acervo do país.
No último dia 27, Marta demitiu Galeno, substituindo-o pelo cientista político Renato Lessa. Não comentou o que faria com as políticas de livro e leitura, mas dias depois convidou Castilho a assumi-las.
Com a decisão, Marta retoma um posicionamento de Juca Ferreira como ministro da Cultura, até 2010. Na ocasião, o MinC buscava centralizar em Brasília as políticas da área, historicamente divididas entre a capital e o Rio.
INSTITUTO DO LIVRO
Esse poderá ser o primeiro passo para a criação de um novo Instituto Nacional do Livro (INL), órgão instituído em 1937 –tendo Monteiro Lobato como defensor– e esvaziado em 1990, no governo Collor, que o transformou em um departamento da FBN.
Desde então, essas ações eram divididas entre o MinC, em Brasília, e a FBN, no Rio, com mais ou menos atribuições para cada lado conforme as mudanças de governo.
Esses trabalhos incluem formação de bibliotecários, modernização de bibliotecas, estímulo à cadeia produtiva do livro, circulação de autores pelo país e divulgação da nossa literatura no exterior.
Quando Galeno Amorim assumiu a FBN a convite de Ana de Hollanda, ficou claro que assumiria todas essas atribuições. “A ida para a FBN nunca foi um projeto definitivo, mas o possível naquele momento. O Instituto do Livro seria o ideal. Meu pai [o historiador Sérgio Buarque de Holanda] inclusive trabalhou lá nos anos 1940″, disse a ex-ministra à Folha.
José Castilho sempre foi um dos maiores críticos da migração para o Rio, o que considerava um retrocesso. Quando percebeu que isso ocorreria, pediu demissão do PNLL, em abril de 2011.
Mesmo especialistas que trabalharam com Galeno e que o defendem, como Lucília Garcez, secretária-executiva do PNLL durante 2012, dizem que a biblioteca não é a instância mais adequada para essas políticas. “A estrutura não é suficiente. É necessário apoio direto do MinC, mais ágil e bem equipado.”
Uma exceção é Maria Antonieta Cunha, que, em apoio a Galeno, pediu dias atrás demissão da Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), sem saber que Marta já decidira levar a unidade a Brasília, sob coordenação do PNLL. “A passagem para o Rio não afetou as ações de estímulo à leitura, ao contrário do que tantos dizem.”
Segundo relatório de gestão de 2012 da FBN, metas como o de modernização de bibliotecas não foram atingidas -de 241 bibliotecas previstas, foram modernizadas 82. Outras, como o apoio para aquisição de acervo por bibliotecas comunitárias, foram superadas (828, ante meta de 400).
SEM CASA PRÓPRIA
A mudança física prejudicou os trabalhos, segundo o relatório. A DLLLB, com cerca de 80 funcionários, entre servidores e terceirizados, nunca teve sua sede no Edifício Capanema, no centro do Rio. Espalhou-se por unidades. O andar prometido seria entregue neste mês.
Com a mudança agora proposta por Marta, unidades historicamente ligadas à FBN, como o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas e o Proler, ficarão sob comando de Castilho.
A FBN continuará à frente da participação do Brasil como país convidado da Feira de Frankfurt, maior evento editorial do mundo, em outubro, e com o trabalho de internacionalização da literatura.
Já o PNLL terá entre as prioridades transformar em lei o Plano Nacional do Livro e da Leitura –ele está instituído por decreto– e criar o Instituto Nacional do Livro.
E José Castilho retomará tema polêmico: o Fundo Setorial Pró-Leitura, que receberia 1% da receita de editores, distribuidores e livreiros para financiar programas de incentivo à leitura. Isso equivaleria a R$ 50 milhões por ano. O assunto está em aberto desde 2004, quando a cadeia do livro foi desonerada de impostos que chegavam a 9% do faturamento.
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POLÍTICAS DO LIVRO EM 2011 e 2012
Pontos positivos
- Ampliação do programa de internacionalização da literatura brasileira
- Criação do Cadastro Nacional de Bibliotecas e protagonismo de bibliotecários na ampliação de seus acervos
- Apoio a eventos literários e caravanas de autores pelo país
Pontos negativos
- Falta de capacitação de bibliotecários anterior à seleção de títulos para acervos
- Mudanças sobrecarregaram a FBN, como a ida da Diretoria de Livro e Leitura para o Rio, onde ficou sem sede própria
- Atrasos na organização de premiações, como o Vivaleitura
‘Responsabilidade é maior do que a honra’, diz indicado à presidência da Biblioteca Nacional
0Lucas Nobile, Silas Martí e Juliana Gragnani, na Folha de S.Paulo
O cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense Renato Lessa foi indicado pela ministra da Cultura, Marta Suplicy, à presidência da Fundação Biblioteca Nacional. Ele substitui Galeno Amorim, cuja saída foi anunciada também nesta quarta-feira (27).
Lessa, que também é presidente do Instituto Ciência Hoje, aceitou o convite feito pela ministra e, agora, depende apenas de “tramitação burocrática”.
“Aceitei o convite e fico muito honrado. A responsabilidade já é maior do que a honra com este convite”, disse Lessa à Folha. Ainda não há data para a nomeação dele.
No último sábado (23), Marta esteve presente na nauguração da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e fez uma promessa. “Queria assumir um compromisso público: vou recuperar a Biblioteca Nacional e torná-la à altura do acervo que ela tem”, disse, afirmando também que a Brasiliana seria referência para a recuperação da Biblioteca Nacional.
SAÍDA
Nesta quarta, a coluna da jornalista Mônica Bergamo na Folha antecipou a saída de Galeno Amorim da presidência da Fundação Biblioteca Nacional. Ele havia se reunido com a ministra na terça.
No encontro, Amorim apresentou balanço dos dois anos de sua gestão, em que citou, por exemplo, o aumento no número de feiras e eventos literários apoiados pela instituição em todo o país –de 75 para 250.
A saída de Galeno Amorim ocorreu após uma série de críticas à sua gestão, durante a qual houve a transferência das políticas públicas de livro, leitura e literatura do país para a Fundação Biblioteca Nacional.
Com isso, a gestão de Galeno passou a ser criticada por descuidar do básico: a biblioteca e seu acervo. Ocorreu, no ano passado, uma série de vazamentos no prédio da biblioteca por causa de problemas com o sistema de ar-condicionado.
Na semana passada, duas coordenadoras de área da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) deixaram a instituição com fortes críticas à gestão de Galeno.
São elas: Elisa Machado, coordenadora geral do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), e Cleide Soares, coordenadora geral de Leitura –uma unidade da Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB).
COMENTÁRIOS
A entrada de Renato Lessa no lugar de Galeno Amorim como presidente da Fundação Biblioteca Nacional causou repercussão no meio literário brasileiro.
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Leia alguns comentários ouvidos pela Folha abaixo:
“Eu lamento porque o Galeno é um homem do livro. Ele enfrentou uma máquina burocrática complexa, muito difícil e muito pesada. Ele certamente teve dificuldades. Mas acho o Renato Lessa uma ótima indicação. A saída do Galeno é uma pena, ele é um homem dedicado à democratização da leitura. O que eu acho é que é preciso uma reformulação nas rotinas burocráticas, além de um apoio significativo do Ministério da Cultura. Vamos ver se esse Renato vai conseguir.”
LUCILIA GARCEZ, que atuava como secretária-executiva do Plano Nacional do Livro e da Leitura
“Ele [Renato Lessa] não está entrando para tapar buraco, já tem um projeto. Ele não é homem de ocupar cargos sem ter um projeto em mente. Além do prestígio intelectual, ele tem uma experiência muito boa de gestão na Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), onde soube identificar os problemas de natureza estratégica. Além de sorte, ele tem muita competência.”
MANOLO FLORENTINO, presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa
“Ele [Renato Lessa] é um analista da cena política brasileira, da história brasileira, é um intelectual de renome, tem respaldo na comunidade acadêmica e acredito que ele possa sim fazer as mudanças que são necessárias.”
“A presidência da Biblioteca Nacional trabalhou até agora na contramão das políticas públicas para o livro e a leitura no Brasil. A Biblioteca Nacional tem problemas urgentes que precisam ser sanados.”
JOSÉ CASTILHO, ex-secretário do Plano Nacional do Livro e Leitura no Ministério da Cultura
“Fomos pegos de surpresa por essa escolha. Ainda não temos como avaliar a mudança.”
MANSUR BASSIT, diretor-executivo da Câmara Brasileira do Livro
“Não quero discutir os nomes. Substituir um nome por outro não interessa. O que interessa é que o Ministério da Cultura defina o papel da Fundação Biblioteca Nacional. O problema da participação do Galeno Amorim na gestão é que a Fundação Biblioteca Nacional passou a conduzir todos os passos da política de livro, leitura e literatura no país. Quando se sabe que a Fundação sempre teve um papel importante na preservação da memória brasileira.”
NILTON BOBATO, escritor, vereador do PCdoB e representante da Região Sul do Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura
A escola não me preparou para o ambiente de trabalho (o recreio me ensinou tanto quanto a sala de aula)
3Renato fala sobre sua experiência em sala de aula
Renato Steinberg, no Blog do Empreendedor
O meu colega de blog Marcelo Nakagawa (além de um grande amigo e mentor) escreveu, na semana passada, sobre as várias inteligências e que alguns dos maiores empreendedores do mundo não foram grandes alunos. Eu não quero me comparar com eles, mas acho que vale eu contar um pouco da minha história nesse assunto.
Eu nunca fui um excelente aluno. Passava de ano no limite. O meu problema era a preguiça…
Eu detestava estudar, então, eu prestava atenção (mais ou menos) na aula e depois estudava na véspera da prova só para não fazer muito feio. Deu certo. Eu era o cara que ficava no meio da classe. Eu tinha alguns amigos no fundão, mas me dava bem também com o pessoal da frente, aquele pessoal que copiava toda a lição e ia bem nas provas.
Eu sabia como conversar com esses dois públicos. Uma das coisas que fez eu me destacar quando comecei a trabalhar acho que foi exatamente isso. Eu sabia conversar com o pessoal do front-office e também conseguia falar com o pessoal de tecnologia. Durante muitos anos no banco, esse foi o meu diferencial. O pessoal vinha falar comigo sobre problemas que estavam tendo com a equipe de tecnologia porque era eu quem sabia como traduzir isso para eles.
A escola não me preparou para o que vinha no ambiente de trabalho. Eu achava, de forma inocente, que se eu fosse um bom técnico, ia me dar bem. E eu era um excelente técnico. Aí, o pessoal resolveu colocar uma equipe para eu gerenciar. Adivinha se eu tinha algum preparo para isso?
Essa equipe foi crescendo cada vez mais e eu, que já não tinha preparo para gerenciar uma equipe pequena, tive que aprender na marra a gerenciar um time grande. Gerenciar relacionamentos é outra coisa que a escola não me ensinou.
Como você faz quando uma pessoa da sua equipe briga com a outra? E quando você tem que mandar embora um amigo? Quanto você deve se envolver nos problemas pessoais deles? Além dos meus próprios funcionários, eu comecei a perceber a importância de uma outra rede. As pessoas que trabalhavam em parceiros e em concorrentes. Pessoas que estavam passando pelas mesmas situações que eu em outras empresas. Quando eu botei o nariz para fora da empresa e comecei a falar com eles, até com os concorrentes, meu mundo mudou. Eles me deram as dicas, me ensinaram os caminhos para gerenciar uma equipe melhor.
Hoje eu acho que um dos ativos mais preciosos que você tem é a sua rede de relacionamentos. Na época eu me perguntava: por que eu preciso estudar química? Será que algum dia eu vou precisar saber a equação dos gases perfeitos? Até hoje, 20 anos depois, eu nunca usei. Até entendo que química me ensinou um pouco sobre o universo que a gente vive e que entender o mundo na escala atômica é um exercício para entender um mundo abstrato. Mas existem tantas outras coisas que eu uso no dia-a-dia. Finanças pessoais, por exemplo, não seria uma ótima matéria para o ensino? E empreendedorismo então? Que tal liderança?
Quase todos os problemas na escola tem uma e apenas uma solução. Na vida real os problemas são ambíguos, tem muitas soluções ou as vezes não tem nenhuma. Só tem um jeito de se preparar para isso, vivendo!
Acho que a hora do recreio me ensinou tanto quanto a sala de aula.































