Posts tagged Rocinha

Italiana aproxima crianças da Rocinha aos livros: ‘A leitura é uma paixão’

0

Barbara Olivi é criadora do Garagem das Letras Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Bruno Alfano, no Extra

Bárbara Olivi, de 57 anos, estava meio jururu no fim da última semana. Eram 11h e, naquele momento, a italiana retratava bem o astral da Rocinha, favela onde mora há 17 anos e que está em guerra desde setembro de 2017. Ela era a cara do desânimo. Mas não passou nem uma hora, e uma criança entrou no Garagem das Letras, um misto de biblioteca comunitária e cafeteria numa das ladeiras da comunidade que Bárbara abriu há três anos. E não foi só aquele menininho. Outros tantos mais passaram por ali, vindos da aula na Escola municipal Francisco de Paula Brito, que fica ali pertinho. Já era outro o semblante da italiana, personagem de hoje da série “Extraordinários” — que, para comemorar as duas décadas de vida do jornal EXTRA, conta a história de vida de pessoas que mudam a vida de outras.

— Todo dia é um desafio. Todo dia você não sabe o que vai acontecer — diz Bárbara: — Mas essas crianças entram aqui e dizem: “Tia, cadê meu abraço?”. Isso é o que me deixa bem para continuar lutando.

O bem que as crianças fazem para Bárbara é fruto de muito trabalho da italiana com projetos sociais na comunidade. A gringa, como já foi muito chamada pelos moradores locais, chegou ao Brasil em 1998 para morar na casa de uma amiga na Gávea e ficou encantada pelas luzes da Rocinha. Um porteiro do prédio em que ela vivia soube do desejo da italiana e a convidou para almoçar na casa dele, na comunidade. Lá ela conheceu Célia, sua amiga até hoje. Três anos depois, alugou uma casinha na favela.

— Eu achei a Gávea tranquila demais, quieta demais. Sou italiana. Preciso de movimento ao redor de mim. Eu vim para cá para ficar mais perto das crianças. Eu trabalhava como guia turística e fiquei apaixonada por eles. Ou seja, vim por puro egoísmo para receber o abraço deles — conta, invertendo um pouco a lógica dos fatos.

Assim, naturalmente surgiu a vontade de ter um espaço para, sistematicamente, oferecer algo a essas crianças de abraços quase terapêuticos para Bárbara. O Garagem das Letras nasceu em 2015. O local, cheio de livros e brinquedos, recebe eventos gratuitos, como saraus, oficinas, aulas de idiomas e exibições de filmes. Também funciona como uma cafeteria.

Crianças frequentam espaço como segunda casa Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

— Não é preciso muito, nem dinheiro. E preciso tempo. É preciso um ombro e ouvido para as crianças falarem o que elas querem falar — explica a moradora da Rocinha. — Quem quiser (fazer evento no espaço) é só organizar. Não é preciso pagar nada.

Em várias frentes

O Garagem das Letras não é o único projeto que Bárbara coordena na Rocinha. Ela também administra uma escola de maternal comunitária e o Casa Jovem, um espaço que, segundo ela, “sempre tem lanche e pessoas para dar um abraço”. Lá também há diferentes tipos de cursos. Um terceiro trabalho, esse mais recente, é o Projeto Aldeia, que é de terapia de emergências.

— Toda a nossa equipe participou de um curso de terapia de emergência na Cruz Vermelha. Essa instabilidade da insegurança pública deixa nossas crianças traumatizadas. A gente monta atividades para que isso venha à tona e seja trabalhado — conta Bárbara, que segue como guia de turismo na comunidade.

O fascínio da moça pela favela é, como ela diz, “ancestral”. Bárbara é filha de um engenheiro que trabalhava na companhia de petróleo italiana, e ela passou a infância morando em diferentes locais do planeta, como Congo e Egito. Na Nigéria, aos 14 anos, saía dos portões do condomínio para brincar com meninas locais.

Barbara é italiana Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

— Eu ia para conhecer o que estava ao meu redor. Eu queria saber desde então como eles brincavam, como dormiam, o que falavam, o que comiam… Eu me lembro até hoje da brincadeira delas — diz.

‘O livro pode virar o seu melhor amigo’

O meu sonho para o Garagem das Letras é que ele se torne autoadministrado. Ou seja, um lugar público, que não tenha dono, mas que tenha uma organização feita por jovens da Rocinha de acordo com suas próprias necessidades. A leitura é umas verdadeira paixão. O livro pode virar seu melhor amigo. Quantos sonhos você aprende num livro? Quantas viagens você faz? Quantos choros numa história de amor? É isso que a gente tenta transmitir para as nossas crianças.

Nem investiu em política de bem estar social na Rocinha, diz autor de biografia

0
O escritor inglês Misha Glenny - Barbara Lopes / O Globo

O escritor inglês Misha Glenny – Barbara Lopes / O Globo

 

Inglês Misha Glenny está lançando ‘O Dono do Morro’ na Flip

Lucas Altino, em O Globo

PARATY — O inglês Misha Glenny não se intimidou, na manhã desta quinta-feira, com a quantidade de jornalistas brasileiros presentes para fazer perguntas sobre o livro “O Dono do Morro”, que narra a história de Antonio Francisco Bonfim Lopes, mais conhecido como Nem, o chefe do tráfico da Rocinha preso em 2011. Falando quase o tempo todo em português, Glenny garantiu que o desafio era pequeno para alguém que morou por três meses na Rocinha, em 2014, a fim de entender o personagem principal de sua obra.

Lançado nesta Flip, o livro conta a história de Nem, chefe do tráfico na favela entre 2005 e 2011 e responsável, segundo o escritor, por investir num sistema de bem estar social na comunidade, permitindo a segurança do seu negócio e o aumento do lucro com o comércio de cocaína. O inglês de 58 anos, correspondente do “Guardian” e da BBC, se especializou em investigações criminais. Depois de presenciar in loco a detenção de Nem, decidiu que escreveria sobre a sua vida.

— Eu estava no Rio em novembro de 2011, quando ele foi preso. Foi um acontecimento público, fiquei impressionado com a cobertura intensa. Na ocasião, metade do Rio o demonizava e a outra o tratava como herói. Me impus duas condições: aprender português e morar por pelo menos dois meses na Rocinha — explica Glenny.

Muito além de uma biografia, o livro contextualiza os problemas sociais das favelas brasileiras, e o impacto do tráfico de cocaína na sociedade.

— Não é somente sobre o Nem, mas sobre a Rocinha, a guerra às drogas e a desigualdade social no brasil. A estatística mais importante do livro, na minha opinião, é que em 1982 o Rio teve a mesma taxa de homicídios que Nova Iorque; em 1989, os números de Nova Iorque se mantiveram e os do Rio já eram três vezes maiores. Isso ocorreu porque o Brasil se tornou a principal rota do pó para a Europa, o que desenvolveu hábito local também.

Crítico da política de guerra às drogas, Glenny, por outro lado, constatou o impacto do comércio de cocaína na Rocinha, durante o período em que Nem controlava o morro. Impressionado com a força da atividade econômica no local, o escritor acredita que o bem-estar vivido pelos moradores naquela época foi resultado da visão de mercado do traficante.

— É uma relação complexa, mas o tráfico teve um impacto positivo na favela. Em 2005, quando o Nem assumiu, a taxa de violência na Rocinha caiu. Foi a primeira favela a receber bancos, e até a primeira a receber uma sex shop. Acho que isso tudo tem a ver com a política do Nem. Ele percebeu que se a violência caísse, o lucro subiria. Apesar de negar que fez conscientemente, o fato é que grande parte dos lucros foram direcionados para um sistema de bem estar social. Naquele período era uma favela muito segura, muitos políticos e jogadores de futebol frequentavam o local. E muitos cantores, como Ja Rule, Ivete Sangalo e Claudia Leite, também fizeram show nos espaços de lá.

Depois da prisão de Nem, a Rocinha sofreu um choque de realidade com a entrada da UPP, que Glenny classifica como um trabalho corajoso e bem feito. O grande problema, para o escritor, foi o “fracasso absoluto da UPP social”.

— Entrevistei o secretário de Segurança José Mariano Beltrame. Ele me disse que o que mais chocou ele, ao entrar no governo, foi a percepção de que o estado estava ausente das favelas por 50 anos. A UPP foi uma ação corajosa, proporcionada pela união das esferas municipal, estadual e federal. As taxas de homicídio caíram, mas as de outros crimes como furto e estupro subiram. O caso Amarildo expôs como o projeto, sem a UPP social, era frágil. Agora, com o impacto da crise, acho que a situação da violência irá piorar muito depois das Olimpíadas.

Glenny descreve Nem como um homem que só entrou para o tráfico aos 24 anos, idade considerada tardia, e uniu sua inteligência com a experiência de gerência de equipes, adquirida quando comandava a entrega de revistas na Zona Sul. Para ele, a história do traficante ainda não foi compreendida por policiais, advogados e mídia. Crescido sob a marca da violência doméstica, Bem mudou de vida quando sua filha de apenas sete meses desenvolveu uma doença rara. O escritor lembra pesquisas que mostram como a violência doméstica, endêmica nas favelas brasileiras, causa consequências na vida adulta da vítima.

Minha primeira pergunta ao Nem (em entrevista feita na penitenciária de Mato Grosso do Sul) foi sobre sua família. Ninguém nunca o havia perguntado sobre isso. Pesquisando, descobri que sua filha ficou doente ainda bebê. Foi quando ele entrou para o tráfico. Seus pais eram alcóolatras, e ele sofreu muito com isso, mas mesmo assim era bastante apegado ao pai, de quem teve que tomar conta após ser baleado numa tentativa de assalto. Na ausência da mãe, que precisava trabalhar o dia inteiro, Nem acompanhou de perto o fim da vida do pai. Depois disso, ele prometeu que seria um bom pai e teve sete filhos.

Os donos do morro não são necessariamente visto como heróis em suas favelas, diz Glenny. Ele citou, por exemplo, o caso da Maré, onde “há medo real dos moradores”. Em sua pesquisa, o autor constatou que os chefes do tráfico exercem sua influência política através de três instrumentos: o monopólio da violência, o apoio da comunidade e a corrupção policial.

— Nem, que era chamado de mestre ou presidente pelos moradores, diria que o mais importante era o apoio da comunidade. Investigadores dirão que é a corrupção policial, prática mais usada por ele, que preferia corromper a usar da violência — disse Glenny, para quem a legalização da maconha seria um avanço, mas insuficiente para melhorar os índices criminais — Alguns traficantes brincam dizendo que a maconha é um problema, porque é mais pesado, fede e não dá tanto dinheiro. A cocaína é muito mais rentável.

Ex-traficante vira escritora: “matei gente, era o trabalho”

0
 Raquel de Oliveira: "A literatura me liberou e me salvou da loucura" Foto: Divulgação/BBC Brasil / BBCBrasil.com

Raquel de Oliveira: “A literatura me liberou e me salvou da loucura”
Foto: Divulgação/BBC Brasil / BBCBrasil.com

 

Moradora da Rocinha, Raquel de Oliveira começou a se drogar aos seis anos e, aos nove, foi vendida pela avó a um chefe do jogo do bicho

Publicado no Terra [via BBC Brasil]

Raquel de Oliveira olha nos olhos do interlocutor e dispara palavras como balas: “matei pela primeira vez aos 15 anos”. Lembra que fazia uma entrega importante de maconha a um comprador. Ele marcara o encontro na Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro. Subiram a um apartamento pelas escadas. O dinheiro estava lá, à vista. O homem, de São Paulo, trancou a porta e guardou a chave no bolso. E a convidou a fumar um baseado, um após o outro. “Ele queria me deixar tonta e abusar de mim”, diz ela.

Oliveira se drogava desde aos seis anos com cola de sapateiro e maconha, e na Rocinha era conhecida pela sua capacidade de fumar a erva sem perder a consciência. “Ele veio para cima e eu não estava tonta”, afirma. Ela diz que a faca que a salvou estava sobre uma mesa velha, ao lado de vários objetos. “Deixei-o lá, morto.”

 Raquel na juventude Foto: Arquivo pessoal

Raquel na juventude
Foto: Arquivo pessoal

 

Seu “padrinho” era um chefe do jogo do bicho, e quando a viu voltar com o dinheiro e a droga, com uma camisa de outra pessoa, percebeu o que havia ocorrido. E ficou nervoso com ela. Mandou um de seus capangas vigiar a entrada da cena do crime, para descobrir se alguém havia visto algo. E ela deveria levar comida para ele, como castigo.

O corpo foi encontrado três dias depois, pelo odor da decomposição. Outro homicídio sem solução no Rio.

Raquel nega ter sentido remorso. “Nada, porque foi a mesma coisa de sempre: alguém querendo abusar de mim”, afirma à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC. “E eu ainda era virgem.”

Ela hoje tem 54 anos e é escritora. Encaminhou sua vida após deixar o mundo da bandidagem e já soma dez anos em tratamento contra a dependência de cocaína. “Meu vício era muito cruel. Ia tomar uma cerveja e passava três dias na rua. Voltava do trabalho e não conseguia chegar em casa. Às vezes tinha que mandar um recado a meus filhos para que viessem pegar meu dinheiro, senão eu acabava com tudo.”

 Oliveira com os dois filhos, na época em que vivia no mundo do tráfico: "Parece até que fui outra pessoa” Foto: Arquivo pessoal

Oliveira com os dois filhos, na época em que vivia no mundo do tráfico: “Parece até que fui outra pessoa”
Foto: Arquivo pessoal

 

Trabalhou como camareira em um hotel, em restaurantes de Copacabana, como recepcionista de imobiliária e secretária. Completou o ensino médio e graduou-se em pedagogia no ano passado. Também já escreveu poesia e contos.

Seu livro mais recente é A Número Um (Editora Casa da Palavra). É um romance, mistura de autobiografia e ficção. Relata sua infância e juventude, e os anos em que foi mulher de Naldo, chefe do tráfico na Rocinha dos anos 1980. E relembra a trajetória de sua carreira no tráfico na favela, após a morte de seu grande amor, em 1988.

O livro foi lançado em um festival literário recente no Morro da Babilônia, no Rio, onde Raquel recebeu a reportagem da BBC. “A literatura me liberou e me salvou da loucura”, conta.

Ela se mostra orgulhosa do que alcançou. Diz que a primeira edição do livro está esgotada. “Meu livro não é sobre uma ex-bandida que escreveu algo. É uma obra literária.”

Raquel descarta que o relato possa lhe trazer problemas com a lei, porque ela procurou assegurar que os crimes estivessem prescritos antes da publicação. “Eu nunca iria para a cadeia. Se ler o livro verá que tenho uma bala reservada para minha cabeça”, diz. “Uma coisa que nunca vou enfrentar na minha vida é o sistema carcerário.”

A Rocinha se impõe em meio a bairros ricos do Rio, o que a converte em ponto privilegiado para o crime organizado. Ali, Raquel se criou. Sua mãe era empregada doméstica em Copacabana e o pai, segundo a filha, era um “pedófilo”.

 Raquel quando criança, antes de ser vendida pela avó a um chefe do jogo do bicho Foto: Arquivo pessoal

Raquel quando criança, antes de ser vendida pela avó a um chefe do jogo do bicho
Foto: Arquivo pessoal

 

Eles a deixavam trancada num barracão, sozinha por vários dias. Aos seis anos, escapou por uma janela e descobriu os telhados da Rocinha. Viu crianças empinando pipas, e também bandidos armados. E começou a se drogar.

Aos nove anos, sua avó, viciada em jogo, a vendeu ao homem que se converteria em seu “padrinho”. Então voltaram a prendê-la, dessa vez para trabalhar em um centro de umbanda. Mas em vez de encaminhá-la à prostituição, como ocorria com (mais…)

Formandos da UFF elegem o pedreiro Amarildo como patrono da turma

0

Ana Carolina Pinto no jornal Extra

A turma de Arquitetura e Urbanismo: foco na responsabilidade social

A turma de Arquitetura e Urbanismo: foco na responsabilidade social

Em um ano marcado por manifestações populares em todo o país, os 16 jovens formandos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) mostraram que estão antenados com os acontecimentos no Brasil e escolheram como patrono da turma o pedreiro Amarildo de Souza, torturado e morto por policiais da UPP da Rocinha, comunidade carioca onde morava.

– A gente não pode fechar os olhos para o que está acontecendo. Escolher um arquiteto seria a escolha de qualquer turma de Arquietetura. Os jovens estao acordando e achamos que essa colação seria um bom momento de mostrar que nós também temos esse foco. Os professores tentam deixar isso bem presente para a gente. A paraninfa, professora Sonia Ferraz, de Teoria da Habitação, foi escolhida por este trabalho também, de reflexão. Os dois formam um conjunto da crítica politcosocial da turma – conta Amanda Barros Ferreira, de 24 anos, formanda que participou da organização da cerimônia.

Luana Fonseca Damásio, responsável pelo discurso junto com Bruno Amadei, enfatiza ainda a tradição de pensamento crítico da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF.

– Escolhemos o pedreiro Amarildo pois muitos de nós não estão satisfeitos com o modo como a arquitetura do mercado e das instituições corrobora com um modelo de cidade excludente e baseado nos interesses do capital. Essa tradição de pensamento crítico é mantida por uma série de professores ao longo dos anos, inclusive o falecido professor Carlos Nelson Ferreira dos Santos, uma referência nacional.

A escolha do patrono foi feita no grupo que a turma mantém no Facebook, através de uma enquete. Vários nomes foram sugeridos, mas o de Amarildo foi o que teve maior força.

Confira o discurso na íntegra

“O patrono desta turma foi auxiliar de pedreiro. Dedicava-se a executar, com mente, mãos e músculos, o que nós, arquitetos, planejávamos em nossas telas de computador. Seu nome era Amarildo. Pensar no pedreiro Amarildo é pensar no trabalho alienante (no escritório e no canteiro), na divisão social do trabalho, na mão-de-obra executora, afastada do conhecimento… Em uma realidade que reserva a nós, arquitetos, um diploma em mãos, e a ele sacos de cimento nos ombros. Mas é também pensar na potência da autoconstrução, do conhecimento encarnado de quem todos os dias experimenta, improvisa, se desdobra e constrói um saber arquitetônico que a academia não ensina. Ser o homem Amarildo é viver na favela da Rocinha, que, como o professor Gerônimo nos lembra, tem o mais alto índice de tuberculose da cidade. É habitar uma casa e percorrer ruas sem condições básicas de habitabilidade, de segurança, de salubridade. É saber que a Rocinha não precisa de teleférico. Talvez precise, mas antes precisa de coleta de lixo e saneamento de qualidade, dos quais se tem direito apenas na limpa cidade dos ricos. Falar em Amarildo é falar do Morro da Catacumba, na Lagoa, da Praia do Pinto, no Leblon, do Morro do Pasmado, em Botafogo; algumas das favelas apagadas da paisagem carioca. É falar, mais recentemente, da Vila Autódromo e das portas marcadas do Morro da Providência. É falar da gestão municipal que mais removeu no último século e dos tantos mil cariocas que, às custas de um sonho olímpico, têm ameaçado o seu inalienável direito à moradia. É falar do déficit habitacional e, ao mesmo tempo, da política de governo que há décadas vem esvaziando os centros e lotando as favelas e periferias das grandes cidades. É falar dos sem-teto, das ocupações Machado de Assis, Zumbi dos Palmares, Quilombo das Guerreiras, removidas ou ameaçadas de remoção. Saber da prisão, tortura e morte de Amarildo implica em ter o dever de saber da política pública de segurança higienista, da violência policial injustificada e injustificável. Do projeto de segurança e de cidade que extermina a juventude pobre, negra e favelada. Amarildo não foi o primeiro. É saber que estamos a mercê dos desmandos de um Estado que aumenta a cada dia o efetivo policial, constrói mais prisões, instala mais câmeras e atira mais balas de borracha nos professores em greve; ao passo que destrói casas e bairros construidos com suor e autonomia corajosa. Escolher como patrono um pedreiro é apenas um lembrete acerca do compromisso ético que firmamos enquanto arquitetos, de entender quem são os Amarildos, onde moram, como moram, porque moram. Mais que fazer uma homenagem, afirmamos: somos também Amarildos e seguiremos perguntando por ele e por todos os outros.”

Aluna passa em 2º lugar em mestrado com projeto sobre Valesca Popozuda

2

Mariana Gomes agora é aluna de Cultura e Territorialidades da UFF, no RJ. Projeto discute ideia de que funk seria o último grito do feminismo.

Isabela Marinho, no G1

Mariana Gomes passou em 1º lugar no mestrado em Cultura e Territorialidades na UFF (Foto: Arquivo Pessoal)

Mariana Gomes passou em 1º lugar no mestrado
em Cultura e Territorialidades na UFF
(Foto: Arquivo Pessoal)

Mariana Gomes, de 24 anos, passou em segundo lugar na Pós-graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, com o projeto “My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural. Entre os objetivos do projeto está a desconstrução da ideia de que o funk seria o último grito do feminismo através das músicas de Valesca Popozuda, Tati Quebra Barraco, entre outras. Recentemente, Valesca foi escolhida como patronesse de uma turma de calouros de Mariana.

(Correção: Na publicação desta reportagem, o G1 informou incorretamente que a estudante havia passado em 1º lugar. Posteriormente, Mariana procurou o G1 para dizer que a universidade fez uma correção nas notas e que ela havia ficado em 2° lugar. A informação foi corrigida às 9h45).

A ideia do projeto começou a surgir em agosto de 2008, quando a estudante ainda cursava a graduação em Estudos de Mídia, na mesma universidade. Ao estudar o funk e a sociabilidade da classe trabalhadora no município do Rio, ela visitou bailes funks em lugares como a Rocinha, na Zona Sul, em Santa Cruz, na Zona Oeste, e na Ladeira dos Tabajaras, também na Zona Sul.

“Eu fui observando que havia poucas mulheres cantando e que este papel ficava com os homens. As mulheres só estavam presentes dançando e quando havia erotismo. Parecia que não tinha espaço para a participação feminina em outros assuntos. E o público do baile é em sua maioria feminino”, explica a mestranda. A pesquisa deu origem ao seu projeto de conclusão de curso intitulado “Melancia, Moranguinho e melão: frutas estão na feira – A representação feminina do funk em jornais populares do Rio de Janeiro.”

Ao longo do curso, a aluna pretende discutir se as letras de funk cantadas por Valesca Popozuda e outras intérpretes do gênero são um caso de libertação feminina ou apenas um atendimento da demanda do mercado erótico.

“A MC Dandara, que escreveu “Funk de sainha”, sucesso gravado pela Valesca, escreve músicas de protesto, como o rap “Nossa banheira”. É uma música muito politizada. Mas ela precisa escrever músicas para vender. Então é possível que o erotismo nas letras de funk seja um fator mercadológico. A questão do corpo é o que mais me interessa. A relação entre feminismo e erotismo é perigosa, inclusive para a Valesca. Ela se diz feminista, mas será que é mesmo?”, questiona Mariana, reiterando que em uma das músicas, a cantora de funk diz Mulher burra fica pobre/ Mas eu vou te dizer/ Se for inteligente pode até enriquecer/ Por ela o homem chora/ Por ela o homem gasta/ Por ela o homem mata / Por ela o homem enlouquece / Dá carro, apartamento, joias, roupas e mansão / Coloca silicone / E faz lipoaspiração / Implante no cabelo com rostinho de atriz / Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz.

Segundo Mariana, as letras trazem o valor da mulher interesseira. “A cantora afirma o corpo como espaço de liberdade, mas ele pode ser uma prisão, neste caso, porque o objetivo é conseguir bens materiais. Não chega a ser uma prostituição, mas é um jogo perigoso”.

A funkeira Valesca Popozuda é patronesse da turma de Estudos de Mídia da UFF (Foto: Alexandre Durão/G1)

A funkeira Valesca Popozuda é patronesse da
turma de Estudos de Mídia da UFF
(Foto: Alexandre Durão/G1)

Abertura na universidade
A aprovação da aluna em segundo lugar no curso com o tema e escolha de Valesca Popozuda para patronesse de uma turma de Estudos de Mídia indicam uma abertura na Universidade Federal Fluminense para um assunto que nem sempre foi acolhido pelo mundo acadêmico.

“Aquela turma ter escolhido a Valesca foi uma atitude ideológica. Estamos aqui para dizer que não existe baixa cultura. A minha turma escolheu o Saramago [José Saramago, escritor português morto em 2010]. Colocaram os dois em pé de igualdade, talvez para mostrar que a hierarquização da cultura só é prejudicial para a discussão”, considera a estudante.

Pronto falei
Reforçando a discussão da hierarquização da cultura, a jovem lembra das expressões “pronto falei” e “vou confessar que” utilizadas pelas pessoas que dizem que gostam de funk. “É comum você ouvir: vou confessar que gosto da Valesca. As pessoas já sabem que serão julgadas, ou elas mesmas se julgam. É importante quebrar este paradigma de séculos. Fazer isso vir à academia é muito importante”, encerra Mariana.

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Go to Top