Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

Posts tagged romance

‘Tartarugas até lá Embaixo’ será o novo livro de John Green nos cinemas

0

tartarugas-até-lá-embaixo

Publicado no Cineset

A baixa repercussão de “Cidades de Papel” não desanimou a 20th Century Fox em investir de novo em uma adaptação dos livros de John Green. A mais recente obra do escritor, “Tartarugas até lá Embaixo” será o próximo romance do escritor a ganhar versão para os cinemas. As informações são do site da Variety.

“Tartarugas até lá Embaixo” acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro – enquanto lida com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Ainda não há nomes definidos para o elenco (as fãs, claro, desejam ver Ansel Elgort no elenco).

“A Culpa é das Estrelas” segue sendo o grande sucesso cinematográficos de John Green nos cinemas: o romance faturou US$ 307,2 milhões ao redor do planeta contra US$ 85,5 milhões de “Cidades de Papel”.

Nova Fronteira Lança dois volumes de obra póstuma de Ariano Suassuna

0
© Agência Brasil

© Agência Brasil

 

Os dois volumes concluídos, ‘O Jumento Sedutor’ e ‘O Palhaço Tetrafônico’, se dividem em quatro capítulos estruturados em cartas

Publicado no Notícias ao minuto

A criação de uma síntese de sua obra e de seu pensamento sobre a cultura brasileira perseguiu o escritor Ariano Suassuna (1927-2014) ao longo de 33 anos. Perto de morrer, em 2014, ele concluiu os dois primeiros volumes dos sete previstos para a série “A Ilumiara”, nome inspirado nos anfiteatros de ancestrais.

O fascínio pela arte rupestre, vista como um painel do poder criativo dos brasileiros, se estende às ilustrações do “Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores”, a esperada autobiografia de Suassuna, agora lançada pela editora Nova Fronteira.

Os dois volumes concluídos, “O Jumento Sedutor” e “O Palhaço Tetrafônico”, se dividem em quatro capítulos estruturados em cartas “aos nobres Cavaleiros e belas Damas da Pedra do Reino”, dedicadas aos povos formadores do Brasil, numa reverência a índios, negros, portugueses, árabes, judeus, ciganos, japoneses, alemães, entre outros.

Suassuna define as narrativas como “Cartas, Depoimentos-Entrevistosos e Diálogos-de-Narrativa-Espetaculosa”, abordando episódios biográficos e ideias sobre cultura popular e erudita. Com heterônimos, o dramaturgo contraria a autobiografia tradicional e assimila vários gêneros literários, compondo relatos intertextuais e polifônicos raros na memorialística brasileira.

“Ele consegue unir, numa única narrativa, todas as formas literárias possíveis e imagináveis, todas as maneiras de se narrar algo: romance, poesia (os versos são transcritos como se fossem prosa), teatro, ensaio, autobiografia, entrevista, cartas, artigos de jornal e assim por diante”, avalia o professor e ensaísta Carlos Newton Júnior, prefaciador da “Ilumiara”.

“Talvez seja este o romance mais pós-moderno de nossa literatura, e isso realizado por um escritor considerado ‘arcaico'”, acrescenta o especialista na obra do fundador do Movimento Armorial, seu amigo e ex-professor de Estética, que lhe confiou a missão de digitar os originais, no Recife.

O líder político paraibano João Suassuna (1886-1930), assassinado no início da Revolução de 1930, é uma presença expressiva na narrativa do filho. Este costumava relacionar o impulso literário ao trauma da morte violenta do pai.

“(“¦) A ‘Ilumiara’ é uma espécie de Orestíada, narrada, não por Ésquilo, mas sim por aquele que, na trama, seria um outro Orestes ou um novo Hamlet (ambos filhos de Pai assassinado, de um Rei assassinado). Mas este ‘Hamlet’ acertaria a vencer sua dor no Palco e na Estrada, por meio das Armas que Deus lhe concedeu -‘o galope do Sonho’, do Rei, e ‘o Riso a cavalo’, do Palhaço”, diz o heterônimo Antero Savedra.

A carpintaria de “Dom Pantero” ficou ainda mais complexa por envolver a concepção de uma tipografia própria e de numerosas ilustrações de Ariano Suassuna.Suassuna era um pesquisador de figuras da arte rupestre. Um filho do escritor, o artista plástico Manuel Dantas Suassuna, organizou os vídeos mencionados no romance, que podem ser vistos por meio de QR Code.

O artista gráfico Ricardo Gouveia de Melo, designer do livro, desenvolveu para Suassuna uma tipografia específica, não mais baseada no alfabeto armorial dos anos 1970.

“Ele fez desenhos à mão com traços mais sinuosos, com uma aparência diferente daquela rigidez do ferro (de marcar o boi). Ele já estava pensando nesse romance e numa tipografia como se fosse inscrita na pedra”, lembra Ricardo, também feito personagem da “Ilumiara”.

Em dezembro de 2013, em entrevista ao repórter Fabio Victor, na Folha de S.Paulo, Suassuna apresentou o heterônimo por trás da máscara de Dom Pantero: “O negócio ficou mais complexo, porque Antero Savedra desdobrou-se. Fiz de Antero Savedra um alter ego mais próximo de mim”.

Portando nomes reais ou acrescidos de sobrenomes ficcionais, amigos surgem em epígrafes e são incorporados pelo escritor como personagens dos diálogos sobre a cultura brasileira e seu projeto literário. As atrizes Inez Viana e Marieta Severo, os diretores Aderbal Freire-Filho e Luiz Fernando Carvalho, os poetas José Laurenio de Melo e Adélia Prado se situam entre esses interlocutores de Dom Pantero na “Autobiografia Musical, Dançarina, Poética, Teatral e Vídeo-CinematoGráfica”.

Transformada em personagem, a arqueóloga Niède Guidon diz que Suassuna se interessava por seu trabalho de preservação e pesquisa no Parque Nacional Serra da Capivara.

“Ariano era uma pessoa extremamente culta, tinha um interesse universal por todas as coisas que dizem respeito à cultura humana.”

Em 1982, cativada pelo “Romance d’A Pedra do Reino” (1971), a fotógrafa Maureen Bisilliat pediu ao escritor uma pequena apresentação para o livro “Sertões – Luz & Trevas”. Ele aceitou a encomenda, mas subverteu o prefácio e criou em uma centena de páginas a história “Maurina e a Lanterna Mágica”, protagonizada pela artista. “Ou publica tudo, ou nada”, exigiu o dramaturgo.

Por falta de espaço, o relato permaneceu inédito. A série fotográfica de Maureen terminou dedicada ao paraibano, “terceira ponta do triângulo literário, místico, telúrico, mítico, sertanejo -Euclides, Guimarães, Suassuna”.

Ela se comove ao saber da presença no novo livro. “Ele foi um dos grandes. Tive a sorte de visitar o Guimarães Rosa e de conhecer um pouco mais o Suassuna. É muito difícil ter a sabedoria, a espontaneidade e o humor dele”, diz Maureen, que quer conversar com os herdeiros sobre a publicação do inédito.

O cineasta paraibano Vladimir Carvalho aparece nas memórias durante a gravação de “Ariano Suassuna em Aula Espetáculo” (1997), pioneiro registro audiovisual da popular faceta de conferencista.

Três meses antes da morte do conterrâneo, Vladimir o entrevistou para o documentário “Cícero Dias, o Compadre de Picasso” (2016). “Ele me mostrou a parte do visual do livro, num entusiasmo de criança, e leu uns trechos pra mim”, relembra o diretor.

O personagem Gilberto Francis parece mesclar o sociólogo Gilberto Freyre e o jornalista Paulo Francis, que divergiram de Suassuna. Um trecho autoirônico parodia uma reprimenda desse crítico imaginário ao dramaturgo: “O referido Antero Schabino conseguiu a façanha de, juntando-se a Rubem Braga, Miguel Arraes e Oscar Niemeyer, entrar no privilegiado grupo dos maiores chatos do Brasil”.

Suassuna “aproveita para responder, com muito bom humor, a críticas que recebeu ao longo do tempo, algo que já havia feito, de forma mais velada, na ‘Farsa da Boa Preguiça’, através do personagem Joaquim Simão”, diz Carlos Newton.

Os mestres de Ariano, onipresentes em suas aulas e entrevistas, voltam a aparecer nas citações de “A Divina Comédia” (Dante), “Dom Quixote” (Cervantes), “Os Sertões” (Euclides da Cunha), “Eu” (Augusto dos Anjos), “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (Lima Barreto), “Scaramouche” (Rafael Sabatini) -e, sem surpresa, Homero, Shakespeare e Machado de Assis.

A Nova Fronteira lançará quase 20 livros de Ariano Suassuna nos próximos anos, conjunto que envolve teatro, romance, poesia e ensaio, e inéditos como a peça “As Conchambranças de Quaderna” (1987), encenada, mas nunca publicada.

“Auto da Compadecida” (1955), próximo lançamento, terá ilustrações de Manuel Dantas. “Ele queria dar uma unidade estética à obra, como se fosse uma coleção”, afirma o filho, que deve organizar em Pernambuco, neste ano, uma exposição com gravuras e manuscritos do pai. Com informações da Folhapress.

Novo livro de Guillermo del Toro, ‘A forma da água’ chega ao Brasil em 2018!

0

qqweqw

Guilherme Cepeda, no Burn Book

A forma da água, romance que retrata e expande o universo do filme homônimo, será publicado no Brasil pela Intrínseca. O longa, que já ganhou o cobiçado Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Veneza e abriu o Festival de Cinema do Rio, será lançado pela Fox Searchlight Pictures no dia 1º de dezembro de 2017, nos Estados Unidos, e em 11 de janeiro de 2018 nos cinemas brasileiros. Baseado em uma ideia original de Guillermo del Toro e Daniel Kraus, A forma da água foi desenvolvido desde o início como uma história pensada pelos dois artistas de maneira independente para o cinema e a literatura.

A história se passa durante a época da Guerra Fria, em Baltimore, em um centro de pesquisa aeroespacial que acaba de receber um bem precioso: um homem anfíbio capturado na Amazônia. O que se desenrola é uma angustiante história de amor entre o anfíbio e uma das zeladoras do laboratório, uma mulher muda que usa a linguagem de sinais para se comunicar com a criatura. O livro traz ilustrações do artista James Jean e mistura fantasia, fábula e romance para criar uma narrativa envolvente tanto nas páginas quanto na tela de cinema.

the-shape-of-water-poster

Del Toro e Kraus colaboraram previamente no romance jovem Caçadores de Trolls, que, adaptado pela Netflix, é hoje a produção mais assistida da história do site na categoria de programas para a família. Foi durante uma reunião sobre esse projeto que os dois começaram a desenvolver a ideia que se tornou A forma da água.

“Essa é uma história na qual eu tenho pensado desde quando tinha seis anos e vi Julie Adams em O monstro da Lagoa Negra”, diz Guillermo del Toro. “Sempre esperei que ela e a criatura acabassem juntos, mas não acabaram. Foi durante um café da manhã que Daniel Kraus, coautor de Caçadores de Trolls, me contou sua versão de uma ideia parecida, e eu soube imediatamente que nós faríamos a história funcionar, tanto para o filme quanto para o livro.”

“A forma da água é a fagulha de ideia mais antiga que eu tenho — eu a trago comigo desde os quinze anos”, conta Daniel Kraus. “Mas não era uma história totalmente desenvolvida até eu conhecer o Guillermo. Segundos depois que eu lhe contei a premissa, ele começou a preencher as lacunas na narrativa. Amo escrever com o Guillermo porque ele é o artista mais sincero e emocionalmente aberto que eu conheço, e essa sensibilidade complementa minhas tendências mais obscuras e grosseiras.”

O livro tem publicação mundial prevista para 27 de fevereiro de 2018. O filme, dirigido por del Toro e estrelado por Sally Hawkins, Michael Shannon, Octavia Spencer e Richard Jenkins, é fortemente cotado para o Oscar.

George Saunders vence Man Booker Prize 2017

0
Autor americano George Saunders com a capa de seu livro - CHRIS J RATCLIFFE / AFP

Autor americano George Saunders com a capa de seu livro – CHRIS J RATCLIFFE / AFP

 

Americano levou prêmio de cerca de R$ 200 mil por seu romance ‘Lincoln in the Bardo’

Publicado em O Globo

RIO – O escritor americano George Saunders ganhou, nesta terça, o prestigiado Prêmio Man Booker para ficção pelo romance “Lincoln in the Bardo”, romance sobre almas inquietas à deriva após a morte.

O livro é baseado em uma visita do presidente Abraham Lincoln, feita em 1862, ao corpo de seu filho de 11 anos, Willie, em um cemitério de Washington. É narrado por um coro de personagens mortos e incapazes de voltar à vida.

É o segundo ano consecutivo que um americano ganhou o prêmio de £ 50 mil (cerca de R$ 210 mil), que só foi aberto aos autores dos EUA em 2014.

“Lincoln in the Bardo” justapõe os acontecimentos reais da Guerra Civil dos EUA – através de passagens de historiadores tanto reais quanto fictícios – com um coro de personagens do outro mundo, masculino e feminino, jovem e antigo. No budismo tibetano, bardo é o estado de transição entre a morte eo renascimento.

Saunders recebeu o prêmio da esposa de Prince Charles, Camilla, duquesa de Cornwall, durante uma cerimônia no Guildhall medieval de Londres.

Aceitando seu troféu, Saunders disse que o estilo do livro pode ser complexo, mas a questão que ele colocou em seu coração era simples: ou “respondemos a tempos incertos com medo e divisão” ou “tomamos esse antigo grande salto de fé e tentamos responder com amor”?

A baronesa Lola Young, que presidiu o julgamento de Booker, disse que o romance “se destacou por sua inovação, seu estilo muito diferente, a maneira pela qual, paradoxalmente, trouxe à vida essas almas quase mortas”.

“Lincoln in the Bardo” é o primeiro romance de Saunders, de 58 anos, um aclamado escritor de histórias curtas que ganhou o Prêmio Folio em 2014 por sua coleção de contos “Tenth of December”.

Atração da Flip, Paul Beatty ouviu ‘não’ de 18 editoras antes de publicar romance premiado

0

‘O vendido’, ácido romance do americano, venceu o Man Booker Prize

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO — “Eu”, o protagonista do romance “O vendido” (Todavia), do escritor americano Paul Beatty, assim se apresenta no início da história: “sendo otimista, sou um agricultor de subsistência, mas, três ou quatro vezes por ano, engato um cavalo numa carroça e troto por Dickens, vendendo minhas mercadorias”. As mercadorias a que ele se refere são melancias quadradas e maconha. Dickens é um imaginário subúrbio pobre e meio rural de Los Angeles, na Califórnia.

SC O escritor americano Paul Beatty, um dos convidados da Flip 2017 - Hannah Assouline / Divulgação / HANNAH ASSOULINE

SC O escritor americano Paul Beatty, um dos convidados da Flip 2017 – Hannah Assouline / Divulgação / HANNAH ASSOULINE

Já Eu é um jovem negro que escolheu estudar zoologia com o sonho de “transformar a fazenda do pai em um viveiro para vender avestruzes aos rappers que tocavam loucamente nas rádios do início dos anos 1990, aos estreantes mais disputados da NBA e a coadjuvantes de filmes de grande bilheteria”. O personagem, que teve o pai assassinado por policiais, vai parar na Suprema Corte americana por reintroduzir a escravidão e a segregação racial na sua cidade.

— Minha esposa falou uma frase muito boa quando eu estava escrevendo o livro: “o inimaginável acontece o tempo todo” — afirma Beatty, em entrevista ao GLOBO por telefone, de Nova York, onde vive, dando uma pista para decifrar a obra que venceu o Man Booker Prize no ano passado. “O vendido” é o primeiro romance lançado no Brasil do escritor, que é um dos convidados da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Beatty participa da mesa “O grande romance americano” ao lado do jamaicano Marlon James, no dia 29.

Na história que criou, o real e o absurdo se retroalimentam. Eu, por exemplo, teve uma infância atormentada pelo pai, um psicólogo que utilizou o filho como cobaia dos mais diversos — e perversos — experimentos cognitivos e criou o círculo de intelectuais negros de Dickens, que se reunia numa loja de donuts nas tardes de domingo. Hominy Jenkins, que voluntariamente se torna o primeiro escravo de Eu, é um ator idoso e decadente cuja maior glória foi ser o primeiro reserva do elenco do seriado de TV “Os batutinhas”, entre as décadas de 1950 e 1960, sem nunca ter tido a chance de fazer o papel principal.

HUMANOS E SURREAIS

Esses personagens, ao mesmo tempo muito humanos e um tanto absurdos, materializam o questionamento de Beatty sobre a percepção e a maneira como vemos o mundo. Em “O vendido”, situações grotescas, comentários preconceituosos e gestos violentos são narrados no mesmo tom de absoluta normalidade e com um humor que deixa o leitor desconfortável: “Talvez seja a iluminação discreta, ou a decoração brilhante, cujo esquema de cores é projetado para ser um emblema de um donut granulado multicolorido. Seja como for, meu pai reconheceu que a loja era o único lugar de Dickens onde os negros sabiam como agir”, narra Eu. Formado em Psicologia, o escritor reconhece a influência da disciplina no romance.

— Eu aprendi muito estudando psicologia, aprendi sobre a maneira como eu vejo o mundo, como eu vejo as pessoas e, nesse sentido, a psicologia ajuda muito a minha escrita. No caso da percepção, a psicologia se debruça sobre o que você acha que está acontecendo quando algo está acontecendo, sobre o que você acha que sente quando você sente. Há muita liberdade para interpretação ali — afirma.

A Dickens de Beatty não é um cenário pós-apocalíptico tão em voga em certa literatura recente. A ideia para um subúrbio rural californiano surgiu durante uma visita do escritor à cidade de Compton, no sul de Los Angeles. Beatty, que nasceu na região, se surpreendeu ao ver pessoas andando a cavalo e, em conversas, descobriu que há estudantes da região que compram leite não nos mercados, mas dos seus vizinhos. Ele chama a atenção para um passado ainda presente, mas esquecido.

— É estranho, na Califórnia ainda permanece uma certa iconografia western nos arredores de cidades como Los Angeles. Daí comecei a pensar sobre isso e me deixei levar para esse legado cultural da agricultura na região. Não há fazendas lá, mas há todo esse antigo contexto histórico que fica perdido e você nem sempre percebe.

ENTREVISTADO ARREDIO

Antes de vencer o prestigiado Man Booker Prize com o romance, no ano passado, Beatty enfrentou muitas dificuldades para publicar “O vendido” no Reino Unido. Ele foi recusado por nada menos do que 18 editoras diferentes até fechar com a independente Oneworld — curiosamente, a mesma casa que publicou “Uma breve história de sete assassinatos”, de Marlon James, vencedor do mesmo prêmio em 2015 e seu companheiro de mesa na Flip.

O enorme assédio da imprensa após o prêmio britânico rendeu a fama de entrevistado difícil para Beatty. Ao tratar de temas candentes na sociedade americana — racismo, desigualdade, violência policial e justiça —, não raro seu romance foi lido como um manifesto sobre o momento presente dos Estados Unidos, ainda antes da eleição de Donald Trump. O escritor fica incomodado com essa interpretação e não vê o livro como uma crítica à sociedade americana. Na sua opinião, se há alguma crítica no romance, a crítica é à maneira como nós lemos e pensamos sobre nós mesmos.

— É muito louco como as pessoas leem hoje em dia — aponta Beatty, que com “O vendido” só pretendia fazer uma ficção que fosse, nas suas palavras, “única”. — Ao falar com todos esses jornalistas, eu percebi que, muitas vezes, eles têm uma estranha agenda política na qual querem encaixar o livro e me encaixar também. Isso apenas para afirmar a maneira como eles acham que eu vejo o mundo, eu vejo o Brasil, esse tipo de coisa. Isso é tão cansativo e falso, ao menos vindo de mim. Não tenho nenhum interesse em fazer isso.

Essa confusão entre narrador e autor não é à toa. A obra é recheada de comentários políticos. Em certa passagem do romance, o protagonista Eu afirma: “Como no caso do presidente negro, você acha que, depois de dois mandatos vendo um camarada de terno fazer o discurso do Estado da União, vai se acostumar com uma melancia quadrada, mas por alguma razão isso não acontece nunca”. Perguntado se ele concordava com o seu protagonista, Beatty criticou a maneira como os dois mandatos de Barack Obama foram encarados por muitos americanos.

— Nós agimos como se tudo fosse tão novo o tempo todo. No caso de um presidente negro, agimos como se fosse uma supernova. Uma supernova leva bilhões e bilhões de anos. Novamente, estamos falando de percepção. Em literatura, é a mesma coisa. Estava lendo uma peça antiga de Aristófanes, de 2,5 mil anos atrás, e ele já questionava o que era literatura. Essa passagem no livro é sobre isso — afirma ele.

Contudo, ligar a televisão e ver Donald Trump como presidente dos Estados Unidos tampouco tem sido uma experiência banal:

— A cada vez que eu vejo Trump na televisão eu penso: não acredito que esse cara virou presidente. Não sei se daqui a alguns anos vou continuar chocado. Ele não é o primeiro idiota a ser presidente, mas é um tipo único de idiota. A questão que se coloca é quando e como nós nos acostumamos com certas coisas. E por que nos recusamos a nos acostumar com outras.

Go to Top