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200 anos após a morte de Jane Austen, sua obra segue atual

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Bridget Jones é uma das inúmeras personagens inspiradas na obra de Jane Austen DIVULGAÇÃO

Bridget Jones é uma das inúmeras personagens inspiradas na obra de Jane Austen DIVULGAÇÃO

Publicado em O Globo

Com passeios em sua Hampshire natal, exposições e, inclusive, uma nota com seu retrato, a Inglaterra homenageia a romancista Jane Austen, que, 200 anos depois de sua morte, é um ícone da literatura que transcende fronteiras.

Quando faleceu, em 18 de julho de 1817, aos 41 anos, já começava a ser reconhecida e hoje é uma das autoras preferidas dos britânicos.

Seus seis romances já venderam milhões e suas tramas, que dissecam a pequena nobreza provincial do início do século XIX, inspiraram centenas de adaptações.

“No teatro é Shakespeare e, no romance, Jane Austen”, proclama a escritora francesa Catherine Rihoit, que prepara uma biografia e destaca o fato de como a autora inglesa consegue atingir leitores de países tão distantes e culturas tão diferentes.

Virginia Woolf também destacou a genialidade de Austen, assim como Vladimir Nabokov.

Cada um tem seu romance favorito, apesar de Orgulho e Preconceito ser alvo de um culto particular e ter produzido adaptações de todos os tipos, do cinema indiano ao estilo Bollywood (Noiva e Preconceito), passando pelo gênero fantástico (a minissérie Lost in Austen) até o terror (Orgulho e Preconceito Zumbi).

A personagem vivida por Renée Zellweger, Bridget Jones, também é inspirada em Lizzie Bennet, a heroína austeniana que prefere se casar por amor e não por dinheiro.

Outro filme que brinca com a questão do amor e das aparências e males-entendidos é Mensagem para Você, em que Orgulho e Preconceito é explicitamente citado.

Mais um sucesso inspirado em um livro de Austen é Patricinhas de Beverly Hills, que traz para um contexto supermoderno e igualmente crítico o romance Emma, a história de uma adolescente de natureza independente, mas com pendores casamenteiros.

Em O Clube de Leitura de Jane Austen (2007), a vida dos personagens se misturam com as tramas de Austen. E até a autora da saga Crepúsculo se declarou apaixonada pela autora e produziu Austenland (2013), um mergulho no universo austeniano.

Feminista
A trama de seus livros, entre bailes, chistes em torno de uma xícara de chá e busca de casamentos convenientes para jovens mal saídas da adolescência, levou alguns críticos a injustamente comparar Austen com Barbara Cartland, a rainha do romance açucarado britânico.

“É muito mais que isso”, assegura Louise West, curadora da exposição, que tenta dar uma nova luz à vida desta mulher sobre a qual pouco se sabe, depois que sua irmã, Casandra, destruiu quase toda sua correspondência.

Outra curadora da mostra, Kathryn Sutherland, professora de literatura na Universidade de Oxford, destaca que, além da visão de uma Inglaterra idealizada, com suas lindas mansões e campina verde, Austen se mostra “uma escritora que fala de ética, de responsabilidade social em uma sociedade de classes”, com as guerras napoleônicas e a conquista dos mares como pano de fundo.

Austen também ilumina de maneira precisa as relações humanas e a condição das mulheres, cujo único futuro repousava no casamento.

“Ela tinha um conhecimento arguto da situação desesperada das mulheres, de sua dependência econômica dos homens e isso a frustrava”, diz Kathryn Sutherland, que a considera uma verdadeira feminista.

Uma das adaptações mais recentes de Orgulho e Preconceito, de 2005, mostra uma Elizabeth Bennet (vivida por Keira Knightley, indicada ao Oscar de melhor atriz por sua interpretação) ainda mais independente ante sua atração pelo sr. Darcy, o grande galã de Austen, neste filme interpretado com mais sensibilidade do que arrogância por Matthew McFadden.

O casamento é uma forma de escapar da pobreza, apesar de não para Austen, que permaneceu solteira, apesar de ter sido pedida em casamento.

Um filme de 2007, Amor e Inocência, especula a respeito desse episódio na vida da autora. Anne Hathaway vive Jane Austen, que se enamora de um advogado e é pedida por ele em casamento.

Filha de um pastor anglicano, viveu toda a vida no limite da pobreza. “Sempre tinha que calcular as finanças, fingir estar bem de situação”, explica Catherine Rihoit. Por isso se pôs a escrever livros, para ganhar a vida.

O manuscrito de Razão e sensibilidade foi finalmente aceito por um editor em 1811, depois de várias tentativas infrutíferas.

“Infelizmente, morreu quando o sucesso e o dinheiro começaram a chegar”, constata Rihoit, autora de uma biografia da autora.

O túmulo de Jane Austen, na Catedral de Winchester, ou as casas onde morou em Chawton, ao norte, em Bath, ou na região de Somerset, atraem anualmente milhares de admiradores que seguem os passos de seus personagens ou buscam indícios sobre a personalidade da autora.

No entanto, mesmo seu rosto continua sendo um enigma, destaca Kathryn Sutherland, que pela primeira vez reuniu em um mesmo lugar os poucos retratos que supostamente são da autora.

As certezas a respeito da eterna Jane Austen são tantas que deixam abertas as portas para a imaginação. (AFP)

Como a literatura escandinava dominou o gênero policial

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O sucesso da Trilogia Millenium de Stieg Larsson é só um exemplo de como a literatura policial domina a paisagem fria desses países

Publicado no 24 Horas News

Stieg Larsson nunca soube do sucesso que a sua trilogia Millenium se tornou. O autor sueco morreu logo depois de entregar o livro para a editora e não teve oportunidade de desfrutar do sucesso estrondoso que a história de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander fez. Mas os três livros, “ Os Homens que Não Amavam as Mulheres ”, “A Menina que Brincava com Fogo” e “A Rainha do Castelo de Ar” são sucessos da literatura e já venderam mais de 80 milhões de cópias cópias em todo o mundo, foram transformados em filme na Suécia , e o primeiro volume ainda ganhou uma adaptação hollywoodiana indicada ao Oscar .

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Divulgação
Noomi Rapace and Michael Nyqvist deram vida a Lisbeth Salander e Mikael Bomkvist na adaptação do sucesso de Stieg Larsson

Já o norueguês Jo Nesbo tem acompanhado de perto o sucesso de Harry Hole pelo mundo da literautura . O autor, responsável por uma série de livros com o detetive mais peculiar da polícia norueguesa, continua vendo suas histórias serem traduzidas e adaptadas. Esse ano, ele verá Michael Fassbender no papel que começou a escrever em 1997, quando o primeiro livro protagonizado pelo detetive Hole foi lançado. Desde então, foram dez títulos sobre seu personagem mais famoso, fora outros títulos sem o personagem, mas igualmente sombrios, como “Sangue na Neve”.


Divulgação
Jo Nebo é um dos maiores escritores noruegueses da atualidade

Nas histórias de Nesbo, Hole passeia pelo submundo do crime, primeiro em países estrangeiros como Austrália e Tailândia, para depois voltar para sua gelada Oslo. Lá, ele lida com serial killers , traficantes de drogas e armas, além de pessoas atrás de vingança. Parece muito diferente da Noruega que vemos nos jornais, e talvez esse seja exatamente o ponto.

Mas a verdade é que Stieg e Nesbo despontaram nos últimos anos como os líderes de uma literatura escandinava que tomou conta do mundo: o romance policial. Baseados em investigadores incomuns (no caso de Harry ele é da polícia, mas nos romances de Larsson um jornalista e uma hacker se unem em investigações), esses livros navegam por paisagens sombrias e assassinatos macabros, colocando em cheque a sanidade dos próprios investigadores.

O romance policial é um dos tipos de literatura mais lidos no mundo. De Edgar Allan Poe a Agatha Christie , passando por Sidney Sheldon, a temática do “quem matou?” intriga o público, que dificilmente consegue largar esses livros. Por que então, a região escandinava se tornou berço dessa produção?

Talvez seja pelo frio congelante ou pelo fato da maioria desses países serem constantemente usados como exemplo de boa política, educação e economia. Talvez seja o alto consumo de literatura no geral, ou a percepção de que os romances policiais são altamente vendáveis, mas o fato é que a região escandinava, que inclui ainda Dinamarca e Finlândia, é fértil para essa literatura.
Outros autores

Nesbo e Larsson podem até ter os números mais altos e a popularidade mais evidente, mas eles definitivamente não são os únicos que prosperam no estilo. Outro nome de destaque é do também sueco Henning Mankell , criador do inspetor Kurt Wallander. A Suécia e sua paisagem bucólica também fazem parte de suas histórias como uma personagem coadjuvante. Em um de seus principais livros, e um dos poucos traduzidos para o português, “ O Homem de Beijing ”, uma série de assassinatos a velhinhos altera a rotina de um pequeno vilarejo na Lapônia, cidade do Papai-Noel.

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Reprodução/Facebook
Casal Ahndoril escreve romances policiais sob o pseudônimo de Lars Kepler

Camilla Lackberg também se destaca na Suécia. Seus livros – e os crimes contidos neles, se passam em uma pequena cidade na costa ocidental do país. A autora tem altos índices também. Suas obras, como “ A Princesa de Gelo ”, já foram traduzidas para 35 idiomas e já venderam mais de 18 milhões de cópias no mundo.

Já Lars Kepler é interessante não só pela qualidade de seus thrillers, mas também por que o nome nada mais é do que um pseudônimo para o casal Ahndoril, composto por Alexander e Alexandra Coelho. O casal iniciou tardiamente no mundo dos romances, mas fez sucesso em sua estreia com “O Hipnotista”. Se o estilo remete a temática policial, o nome do pseudônimo não é coincidência: “Lars” é uma homenagem justamente à Stieg Larsson.

Por fim, Arnaldur Indridason também tem um personagem detetive para chamar de seu. Erlendur também ganhou uma série de livros, iniciada em 1997 com o lançamento de “Sons of Dust”, não traduzido no Brasil. A série tem 11 títulos, mas somente alguns como “O Silêncio do Túmulo” e “Vozes” foram lançados em português.
Além dos crimes

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Reprodução/Facebook
Sofi Oksanen se destaca na literatura finlandesa

Se a literatura policial é o destaque dos países escandinavos, isso não significa que esses países não prosperem em outros estilos. Knut Hamsun foi um polêmico escritor nascido na Noruega em 1859. Sem uma educação formal, eles escreveu mais de 30 títulos e foi premiado com o Novel de Literatura por “Os Frutos da Terra”. Não chegou a se filiar ao partido nazista mas simpatizava com a ideologia, chegando a presentear a medalha que recebeu pelo Nobel ao chanceler nazista Joseph Goebbels. Com “Fome”, um dos seus livros de maior sucesso, ele também tem a gélida Oslo como personagem. Mas, ao invés de destacar o crime como os autores acima, ele descreve uma vida dura e pobre, numa Noruega que ainda não era o “olimpo” que é hoje.

Por fim, Sofi Oksanen é a voz finlandesa a ser escutada. Com livros, peças de teatro e artigos escritos em diversas publicações, ela alcançou maior sucesso com “The Purge”, inicialmente escrito como peça, e depois transformado em romance. O livro ainda ganhou um filme na Finlândia e é a sua obra de maior destaque. Sofi também é ativista e parte disso se traduz em seus romances, como a causa LGBT , retratada em seu segundo livro, “Baby Jane”. Suas obras também lidam com elementos históricos e políticos sobre a antiga União Soviética.

A literatura policial está cheia de adeptos, leitores e escritores, na região escandinava , mas a região guarda outros ótimos representantes de boas histórias, tenham ela assassinatos ou não.

Por que Machado de Assis é o maior escritor brasileiro?

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(Google/Reprodução)

(Google/Reprodução)

Pamela Carbonari, na Superinteressante

Se você está lendo este post é porque está online, logo deve ter visto na sua página inicial de buscas do Google o doodle feito em homenagem ao 178º aniversário de Machado de Assis. Nas ilustrações do artista brasileiro Pedro Vergani, o precursor do realismo no país aparece cercado por elementos que remetem à sua vida no Rio de Janeiro e às cenas icônicas de suas obras-primas, como as batatas de Quincas Borba e Bentinho e Capitu, de Dom Casmurro.

“Em 1839, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu de uma família simples no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, Brasil. Ele era neto de escravos libertos, em um país onde a escravidão não foi totalmente abolida mesmo 49 anos depois. Machado enfrentou muitos desafios por ser mestiço no século 19, dentre eles acesso limitado à educação formal. Mas nada disso o impediu de estudar literatura. Ao trabalhar como tipógrafo, ele experimentou poemas, romances, romances e peças de teatro. ”, descreveu a empresa na homenagem. O doodle à Machado de Assis foi elogiado nas redes sociais sobretudo por ter representado o autor negro como de fato era e não com a pele clareada como costuma ser retratado.

São muitos os motivos que fazem de Machado o gênio das letras no Brasil. Ao contrário da maioria dos grandes escritores do país, Joaquim Maria Machado de Assis é de origem humilde, era neto de escravos alforriados, cresceu no Morro. Se quase dois séculos depois pessoas negras ainda têm menos acesso à educação, a primeira metade do século XIX estava longe de ser um período de igualdade racial. Machado estudou em escola pública, não frequentou a universidade – o que fez Joaquim virar Machado de Assis foi sua grande ambição intelectual.

Autodidata, ele aprendeu francês quando trabalhou em uma padaria e, posteriormente, enquanto tipógrafo teve contato com poesias, romances e outros tipos de literatura. Aos 16 anos já participava de um grupo de escritores e, na mesma época, publicou seu primeiro poema, Um Anjo.

Depois disso, Machado explorou quase todos os gêneros literários e se a versatilidade impressiona, a quantidade de material produzido também: escreveu nove romances, 200 contos, mais de 600 crônicas, diversas peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e sonetos. Sem contar que trabalhou como tipógrafo, revisor, funcionário público e colaborou para revistas e jornais do Rio de Janeiro. O carioca assistiu ao fim do Império e o surgimento da República – e isso não passa despercebido na sua obra. Vale notar os reflexos dessa mudança política tanto em seu trabalho como escritor quanto jornalista.

Assim que completou 40 anos, suas crises de epilepsia pioraram e ele quase perdeu a visão, mas foi nesse período que seus escritos ganharam ainda mais força: Machado foi fundamental para a transição do romantismo para o realismo no país, tendo Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) como marco inaugural. No entanto, falar de sua obra-prima apenas como um primeiro passo para um movimento literário seria reducionista, para não dizer burro. A começar pela dedicatória provocativa do livro escrito em primeira pessoa por um narrador-defunto: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”.

O romance racional em que um morto escracha a decadência da burguesia, seus vícios, mesquinharias e frustrações é o ponto alto de Machado de Assis como Machado de Assis. A partir de Memórias Póstumas, ele se consagrou como um profundo conhecedor da psique humana, explorando as hipocrisias e vaidades de seus personagens em narrativas irônicas onde o pessimismo se veste de bom-humor sem perder a profundidade e a oportunidade de alfinetar a política e a sociedade da época.

Não à toa, esse é seu livro mais reconhecido fora do país. Para a crítica Susan Sontag, Machado é o melhor escritor da América Latina, superando o argentino Borges; o poeta Beat Allen Ginsberg o descreveu como outro Kafka; Philip Roth o comparou ao dramaturgo Samuel Beckett e Harold Bloom foi ainda mais longe dizendo que Machado é o maior escritor negro de todos os tempos.

Apesar de Memórias Póstumas ter aberto as portas para o realismo no país, ser um hino literário do Niilismo e de Quincas Borba também ser uma obra de destaque, muitos leitores brasileiros são mais apegados ao hino da desconfiança, Dom Casmurro (1899). O público nacional se envolveu tanto mais nos olhos de Capitu que nas batatas humanitistas de Quincas Borba que existe um boato de que o ciúme da obra tenha pinceladas autobiográficas: alguns dizem que o filho do também escritor José de Alencar foi fruto da traição de sua esposa com Machado de Assis. A história, assim como a de Capitu e Escobar, amigo de Bentinho, nunca foi confirmada. Entre a publicação desses dois grandes livros, Machado participou da fundação da Academia Brasileira de Letras e, dado o reconhecimento que tinha entre seus colegas, foi o primeiro presidente da ABL.

Em 69 anos, o Bruxo do Cosme Velho conseguiu abordar uma pluralidade de assuntos tão densa e diversa quanto os gêneros que trabalhou. Caçoou dos jogos políticos e do cinismo dos mais abastados, expôs as fraquezas, os arrependimentos e as ilusões humanas com a mesma concisão com que tratou temas universais como o amor, a ganância e o ciúme. Morreu na primavera de 1908 cercado de amigos e, dali em diante, tornou-se ainda mais imortal. Difícil não concordar com Harold Bloom.

Prêmio Sesc de Literatura 2017 anuncia vencedores

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José Almeida Junior e João Meirelles Filho: vencedores na categoria romance e contos, respectivamente - Divulgação / Agência O GLOBO

José Almeida Junior e João Meirelles Filho: vencedores na categoria romance e contos, respectivamente – Divulgação / Agência O GLOBO

 

José Almeida Junior e João Meirelles Filho foram selecionados na categoria romance e contos

Publicado em O Globo

RIO – O potiguar José Almeida Junior e o paulistano João Meirelles Filho são os vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2017, nas categorias Romance e Conto, respectivamente. Os dois autores concorreram com os livros “Última Hora” e “Poraquê e Outros Contos”, que superaram outras 1.793 obras inscritas, sendo 980 romances e 813 contos.

Desde 2003, o Prêmio Sesc de Literatura escolhe um romance e um livro de contos ainda inéditos, de autores ainda não publicados. os vencedores terão suas obras publicadas pela editora Record, com tiragem inicial de 2 mil exemplares. A avaliação ficou por conta de uma comissão especializada formada pelos escritores e críticos literários Andrea del Fuego, Luis Rufatto, Sidney Rocha e Ronaldo Correa de Brito.

Vencedor da categoria Romance com “Última Hora”, o potiguar José Almeida Júnior, de 34 anos, é natural de Mossoró (RN) e reside em Brasília há 10 anos, onde exerce o cargo de Defensor Público do Distrito Federal. O romance é uma narrativa histórica, que retrata o jornal fundado por Samuel Wainer, sob o ponto de vista de um repórter ficcional torturado no Estado Novo.

Ativista ambiental e empreendedor social, João Meirelles Filho, 57 anos, é o ganhador da categoria Conto com “Poraquê e Outros Contos”. Nasceu em São Paulo e há 13 anos vive em Belém do Pará. Seu livro trata da relação do homem e o desconhecido na Amazônia – seja diante do impacto de mudanças climáticas, seja das encantarias.

Os ganhadores da 14ª edição do Prêmio Sesc de Literatura estão confirmados na programação do Centro Cultural Sesc Paraty, durante a Flip 2017, que acontece de 26 a 30 de julho, e também serão premiados em cerimônia, no segundo semestre, por ocasião do lançamento dos livros.

Isabel Allende lança romance, revela-se apaixonada aos 74 anos e critica Donald Trump

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“Para Além do Inverno” sai em espanhol com um tiragem de 300 mil exemplares. A escritora chilena defende imigrantes e afirma que seus netos estão incomodados porque está namorando

Euler de França Belém, no Jornal Opção

A chilena Isabel Allende é desses escritores que não entusiasmam os críticos literários, mas vendem tanto quanto roupas Armani em liquidação. Leitores amam sua prosa direta e fluida e a percebem como uma contadora de grandes histórias, por vezes doridas, mas sem perder certo humor. Trata-se, digamos, de uma Gabriel García Márquez prêt-à-porter. Aos 74 anos, está lançando mais um romance, “Más Allá del Invierno” (Plaza y Janes, 352 páginas), sem tradução no Brasil, e concedeu uma entrevista ao jornal “La Vanguardia”, de Barcelona.

A tiragem em espanhol de “Más Allá del Invierno” (“Para Além do Inverno”) — 300 mil exemplares — impressiona, mas não quando se trata de Isabel Allende, que tem milhões de leitores espalhados pelo mundo, inclusive no Brasil (“A Casa dos Espíritos”, um belo romance, e “Paula” se tornaram best sellers). A obra conta a história da chilena Lucía, do americano Richard e da guatemalteca Evelyn.

Isabel Allende exibe o livro “Para Além do Inverno”, que conta a história de uma jornalista chilena, de um professor universitário americano e de uma imigrante guatemalteca; ela diz que não é possível viver sem riscos e aventuras

Isabel Allende exibe o livro “Para Além do Inverno”, que conta a história de uma jornalista chilena, de um professor universitário americano e de uma imigrante guatemalteca; ela diz que não é possível viver sem riscos e aventuras

 

O repórter Xavi Ayén, no começo da entrevista, diz que não se trata de “um romance ‘negro’ [policial], mas há uma parte policial”. Isabel Allende afirma que “precisava” de “algo suficientemente forte para provocar uma mudança”. Há algum tempo, alugou uma casa, no Brooklin, que teria sido da máfia, nas décadas de 1940 e 1950. Na casa da família ao lado, encontraram um cadáver. A partir da história, aparentemente real, decidiu escrever o livro.

A personagem Lucía, inspirada (e não totalmente plasmada) em Isabel Allende, é uma jornalista exilada que vive nos Estados Unidos. A escritora afirma que ela tem o seu caráter, pois ambas apreciam o risco e a aventura — “e está aberta à dor”. Richard, americano típico, busca um vida segura, sem riscos. A escritora frisa que aquele que busca uma vida cautelosa praticamente não vive. Por isso, ao escrever o romance, envolve Richard em tramas complexas, tornando sua vida mais movimentada do que ele gostaria, por certo.

O entrevistador nota que há aspectos horríveis na vida tanto de Evelyn (tartamuda) quanto de Richard. Mesmo assim, sublinha, há um tom otimista no romance. Isabel Allende assinala que uma frase do escritor francês Albert Camus a inspirou: “No meio do inverno, descobri que havia em mim um verão invencível”. “Há um verão invencível em cada um de nós. Na vida, passamos por invernos que parecem eternos, mas, se se escapa disso, há sempre um verão esperando para aparecer. Os Estados Unidos vivem o inverno de [Donald] Trump. Eu também estava vivendo um inverno, acabava de me separar de Willy, depois de 28 anos [de casamento]. Acreditava que minha vida seria só trabalho até o fim, que o amor havia passado. Mas todos temos a possibilidade de renascer, e eu encontrei um novo amor quando escrevia o romance ‘Más Allá del Invierno’”.

Isabel Allende diz que a encanta a possibilidade do “amor maduro”. “Eu mesma, ao dizer aos meus netos que tenho um namorado, os escandalizei. O amor entre pessoas mais velhas provocam rechaço, os jovens ficam horrorizados, não podem acreditar que na minha idade alguém possa se enamorar. É preciso romper tais tabus estúpidos, como o que avalia que uma mulher mais velha não pode ter atrativos e deve renunciar ao prazer sexual”, afirma a escritora.

O romance é dedicado a Roger, o namorado de Isabel Allende. Ele escreveu um e-mail para a escritora depois de ouvi-la numa rádio. “Começamos a trocar e-mails e, a cada manhã, me chegava um ramo de flores.” Depois de muita conversa virtual, decidiram se encontrar. Ela percebeu que se tratava de um homem agradável. Mas ressalvou: “Olha, não tenho tempo a perder, aos 74 anos: ‘Interessa-lhe algo mais do que uma amizade ou não?’ Ele comeu de uma vez o ravióli e agora estamos organizando sua mudança de Nova York para a Califórnia. Ataquei como uma barracuda.”

Philip Roth escreveu dois livros terríveis sobre a velhice: “Patrimônio” e “Homem Comum”. “Patrimônio” é a história de sua convivência com o pai, que tinha câncer. Trata-se de uma história devastadora, com a ficção servindo de instrumento para iluminar a realidade. No caso, patrimônio são as fezes do pai que emporcalham o banheiro da casa de Philip Roth. “Homem Comum” é um romance sobre a velhice, que, no dizer do escritor, é um “massacre”. Xavi Ayén nota que as personagens do romance de Isabel Allende têm “achaques”. De fato, admite a escritora, pois eles têm 60 anos. Achaques são, pois, regras. “Mas não é verdade que com a idade uma pessoa se torna mais sábia. Se era tonta vai continuar tonta. Se era miserável vai se tornar mais miserável. Quem era sábio quando jovem tende a permanecer sábio ao se tornar velho.”

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Donald Trump: o presidente americano aposta numa certa tradição de intolerância contra imigrantes

O entrevistador diz que “Más Allá del Invierno” é um de seus romances mais políticos: “Há o tema das ditaduras latino-americanas, o maltrato dos imigrantes nos Estados Unidos, a violência das gangues e as drogas”. Isabel Allende corrobora, mas indo além de sua ficção: “Esta é a realidade na qual vivo. Dirijo uma fundação, trabalhamos com meninas e mulheres de alto risco. Desde que Trump assumiu a Presidência e eliminou tantos apoios, nosso trabalho com os mais necessitados se multiplicou”.

Naturalizada americana, a autora diz que conhece muitos casos como a de sua personagem Evely Ortega. “Muitas pessoas são deportadas e seus filhos ficam nos Estados Unidos, sem pais. E a polícia está cada vez mais impune.”

O inverno, com Donald Trump, vai ser longo, sugere o jornalista de “La Vanguardia”. Isabel Allende afirma que há, porém, “forças contrárias” àquelas que “perseguem” imigrantes. “Várias cidades se oferecem como refúgios e não obedecem ao governo de Trump, acolhem os que não têm documentos [legais] e respeitam as leis ambientais do Acordo de Paris. Não deixa de ser curioso que os Estados Unidos sempre recebem com racismo e xenofobia cada onda de imigrantes: os italianos, os chineses… e logo, com o passar das gerações, os integram.”

O repórter pergunta: “Qual livro enviaria a Trump?” Isabel Allende pilheria: “Trump não sabe nem ler, eu creio”. É provável que o presidente americano seja, mais do que um não-leitor, um mau leitor. Países assimilacionistas tendem a dar mais certo do que os que rejeitam os chegantes. A história dos Estados Unidos, apesar da rejeição inicial, sempre foi a de “absorver” os que “escaparam” da Europa, da Ásia e da América Latina. Sua sociedade, apesar das reticências e do discurso de políticos radicais como Donald Trump, sempre foi aberta à integração. Desde que os indivíduos se adaptem ao modo de vida americano, com o acatamento das leis. Os Estados Unidos odiados são o da política externa; internamente, o país é um dos mais democráticos e abertos do mundo.

O repórter de “La Vanguardia” nota que “há algum elemento mágico, quase nada” no romance. Isabel Allende diz que há menção a “algum orixá, uma xamã da Guatemala, que existe de verdade” e ao “ritual da ayahuasca, uma experiência que eu tive”. A escritora conta que, ao tomar o chá, sentiu como se estivesse em “outro mundo”, com “a sensação física do frio”. Ela tomou a beberagem em Manaus, capital do Amazonas. “É um culto religioso, uma espécie de igreja estabelecida” e não é ilegal tomá-lo.

“Para Além do Inverno” é o primeiro livro de Isabel Allende que não será lido por Carmen Balcells, uma das mais importantes agentes literárias da história (o boom literário latino-americano seria até literário, mas não seria boom sem sua ação, sem sua energia). “Estou contente com Luis Miguel, que está fazendo um trabalho estupendo. Ninguém esperava, pois cresceu à sombra de sua todo-poderosa mãe, e de repente aparece essa pessoa com uma calma impressionante, capaz de agregar os escritores e de tirar o melhor de cada um.”

Quando Carmen Balcells morreu, o agente Andrew Wylie “começou a chamar todos seus autores”. Mas, ante o trabalho paciente e competente de Luis Miguel, os escritores optaram por ficar com a agência criada pela matriarca.. O repórter quer saber se Andrew Wylie a convidou. “Claro, porém eu não, jamais, jamais, [ele] é um tubarão”.

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