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Saiba quem são e como funciona o trabalho dos narradores de audiolivros

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Joana Caetano gravou O diário de Anne Frank, o relato da menina judia escrito durante a Segunda Guerra Mundial (foto: Divulgação/Ubook )

Mercado cresce e atrai dubladores e atores famosos, entre eles Paulo Betti, que descreve o trabalho como sendo ‘difícil, mas fascinante’

Ana Clara Brant, no UAI

A atriz Joana Caetano não havia se dado conta do potencial de sua voz, até que uma diretora de teatro chamou sua atenção para isso e a indicou para fazer um trabalho no mercado de audiolivros. Joana gravou O diário de Anne Frank, o relato da menina judia escrito durante a Segunda Guerra Mundial, entre junho de 1942 e agosto de 1944.

“Já conhecia o livro, mas é bem diferente na hora de narrar. Como é um diário, a leitura não pode ser exatamente interpretativa. É a Anne falando de si mesma. E era preciso transmitir a angústia que ela e a família estavam vivendo, tentando se esconder dos nazistas”, diz. A gravação das 352 páginas levou um mês e meio, e a pronúncia de nomes e expressões em alemão recebeu atenção especial. “Tive que treinar bastante isso, porque não ia soar nada bem pronunciar algo errado”, diz a narradora.

Embora o trabalho exija técnica e disciplina, o narrador não fica isento de se emocionar com o livro, o que é outro aspecto a ser administrado. “Teve momentos em que realmente tive que dar uma parada para respirar e retomar a concentração”, conta Joana. Marta Ramalhete, gerente de produção do Ubook, plataforma de audiolivros por streaming que tem em O diário de Anne Frank um dos títulos mais ouvidos de seu catálogo, contou a Joana Caetano que, durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro no ano passado, uma visitante desatou a chorar em público enquanto ouvia o livro num dos totens instalados pela empresa no ambiente da Bienal.

“Mesmo com todo aquele tumulto, a senhora conseguiu abstrair e entrar naquele universo. Além de a trama ser tocante, a narração emocionou. Acho importante dar esse feedback, para que o profissional saiba que está no caminho certo e fez um trabalho benfeito”, afirma a gerente.

Ao longo dos quatro anos de atividade do Ubook, Marta Ramalhete teve contato com cerca de 300 profissionais, entre dubladores, locutores, repórteres e atores. Nesse universo, pouquíssimos haviam tido contato com audiolivros. “É um mercado novo para todo mundo e é apaixonante como tudo o que envolve a voz. Além de ter um timbre adequado e dicção perfeita, o hábito da leitura é fundamental. O bom narrador tem que desaparecer. Quem tem que estar em evidência é a voz”, diz ela.

O ator Paulo Betti também enveredou pelos audiolivros como o 1808, de Laurentino Gomes (foto: Divulgação/Ubook )

Experiente nos palcos, nos sets de filmagem e nos estúdios de TV, o ator Paulo Betti já há algum tempo vem emprestando sua voz a obras como a trilogia do escritor Laurentino Gomes sobre a história do Brasil (1808, 1822 e 1889). “Levei tudo da minha experiência como ator para a narração”, diz Betti. “É um trabalho difícil e não consigo fazer mais do que três horas por sessão, porque exige muita concentração. Tenho que interpretar o texto de primeira, fazendo a ideia chegar até o ouvinte. Dividir e pronunciar bem as palavras, tenho que entender o que estou lendo, senão o ouvinte não se liga”, descreve o ator, que aponta o tom exato da leitura como o maior desafio. “Como dizer aquelas palavras? De forma solene? Coloquial? Qual é o tom de cada livro, de cada página, de cada capítulo, de cada frase? Mas é tudo fascinante.”

A seleção dos narradores de audiolivros tem que ser criteriosa, porque cada publicação requer um tipo de voz e de narração. “Há livros que pedem algo mais formal; outros, mais solto. Há histórias que ficam melhor com uma voz feminina ou mais madura. Outras pedem uma leitura mais didática e jornalística. E ainda há histórias que têm recursos como a sonorização”, diz Marta Ramalhete. O processo de produção de um audiolivro envolve também um revisor da narração, que verifica se o texto foi falado da forma correta, se há erros de pronúncia ou sotaque exacerbado.

“O texto que o narrador lê é exatamente o que está no livro; não há nenhuma adaptação. Por isso, tudo o que causa estranheza no leitor não pode entrar. Daí a importância do revisor. O leitor tem que mergulhar na história; não pode parar e ficar pensando no narrador”, comenta a gerente de produção. Ela afirma que a palavra-chave, quando se trata de audiolivro, é credibilidade. “Independentemente de ser ficção ou não, o narrador deve incorporar o autor, suas ideias. Nada pode soar fake.”

Duda Baguera narra audiolivros da editora Mundo Cristão (foto: Ana Cristina Varão/DBvoz.com/divulgacao)

CURSO Foi por perceber um mercado em expansão que Marta Esteves e o dublador, locutor, professor e narrador de audiolivros Flávio Carpes criaram em junho passado um curso para qualificar profissionais de audiolivros. Em outubro, eles promoverão outra edição do curso, que é ministrado em dois sábados, com 16 horas no total. Flávio Carpes atua no mercado de locução desde 1984. Em 2015, passou a gravar audiolivros. Hoje, tem 28 livros gravados no currículo.

 

Diferentemente do que fazem muitos de seus colegas, Flávio não costuma ler os livros antes de entrar em estúdio. Ele diz que sua decisão não se deve apenas à falta de tempo – há obras com até mil páginas, além dos livros em série –, mas tem a ver com a vontade de não estragar a surpresa. “Sei que há essas recomendações de ler antes, mas ac

Flávio Carpes ajudou a criar um curso para qualificar profissionais de audiolivros (foto: Márcia Carvalho/divulgacao)

ho que tem um encantamento quando você entra em contato com o livro pela primeira vez e é isso que tento passar ao leitor. Tem sido uma experiência maravilhosa fazer parte disso. Livro é algo fantástico. A gente sempre aprende. O grande lance é fazer dessa profissão não apenas um ganha-pão, mas um prazer para a gente e, principalmente, para quem está ouvindo.”

Paulo Betti também enfatiza o aspecto do aprendizado relacionado a essa atividade. “A história do Brasil é tão rica e surpreendente. Às vezes eu ficava abismado com o que estava lendo. Aprendi muito”, diz o ator.

Saiba porquê estas adolescentes são colecionadoras de livros

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A paixão pela leitura das colecionadoras de livros. | Foto: Hermann Traub/Pixabay

Tatiana Marin, no Midiamax

O insetinho que desperta o prazer pela leitura está picando os adolescentes desta geração. Mesmo com um leque de dispositivos eletrônicos a disposição, a paixão pelos livros acomete os jovens com esta “doença” saudável que é o vício pela leitura e as fazem ser colecionadoras de livros.

Em 2015 a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Ibope, por encomenda do Instituto Pró-Livros revelou um dado interessante. Entre os que afirmam que leem por gosto, a grande maioria compõe-se e adolescentes entre 11 e 13 anos (42%) e crianças de 5 a 10 anos (40%).

Outro indicativo é o perceptível aumento de esforços do mercado editorial direcionado aos jovens. Sagas e coleções infanto-juvenis vem ocupando cada vez mais espaço nas prateleiras das livrarias e, com isso, impulsionam os ávidos jovens leitores em busca dos novos lançamentos.

Em mais um capítulo do especial sobre bibliotecas e a Lei 12.224, contamos um pouco sobre adolescentes que amam ler e são colecionadoras de livros.

“Sair da realidade”

Com a meta de ler 50 livros em 2018, Fernanda Sanches Machado Rocha, de 13 anos tem no mínimo 40 livros em sua estante – entre eles, 5 em inglês -, mas este número não representa a quantidade de livros que já leu. “Eu só guardo os meus preferidos, os outros eu troco no sebo”, diz ela. Até o momento, Fernanda já leu 29 livros.

“Sempre gostei de ler e lia gibi, mas parei de ler por um tempo”, conta ela. Mas o livro de fantasia “Enraizados” recobrou a avidez pela leitura. “Depois que li este livro pensei ‘ler é tão legal, porque eu parei?’”, questionou-se. Ela também lê livros digitais, mas prefere os de papel.

“Livro para mim é um jeito de sair da realidade, a gente pode entrar em qualquer história e se perder totalmente. Leitura é uma coisa que muda a vida. Quanto mais a gente lê, mais forma seu caráter. É um jeito diferente de se divertir, se entreter e escapar do celular”, define

Alguns dos livros de Fernanda. | Foto: Arquivo Pessoal

A mãe de Fernanda, a médica Magali da Silva Sanches Machado, de 54 anos, acha muito interessante este gosto pela leitura. “Ainda mais nesses dias de hoje que a gente vê eles no celular. Acho muito interessante ela gostar de ler. Abre um outro mundo, aumenta o vocabulário”, avalia Magali e conta que Fernanda até influencia os amigos.

O gosto da filha é tamanho que às vezes é preciso refrear os impulsos. “Se ela vai na livraria, quer comprar uns 4 ou 5 livros, então às vezes dou uma segurada. Às vezes eu digo ‘não aguento mais comprar livro’, mas meu marido diz ‘não reclama’. A gente fala assim brincando, mas gosto muito desse hábito dela”, explica.

“Um trem invisível”

A vida de leitora de Giovanna Pereira, de 14 anos, é dividida entre a época em que apenas gostava de ler e agora, que é viciada em leitura. O responsável por isso foi um livro dado de aniversário pela avó. Nos nichos do seu quarto estão distribuídos cerca de 60 livros, entre os que leu a pedido da escola e os que comprou e ganhou. Ela não se desfaz de nenhum. “Eu tenho dó”, explica.

Neste ano ela já leu 11 livros e tem 17 publicações na sua lista de desejos. Mas seu sonho de consumo é a coleção “Instrumentos Mortais”. “Não é de terror”, adverte, “mas tem tema sobrenatural”, adiciona.

Vitória Gomes Rodrigues, de 14 anos, é outra das colecionadoras de livros e tem um acervo um pouco menor, com cerca de 30 livros. Ela conta que na 6ª série sua família mudou-se de cidade e na nova escola havia um projeto de leitura nas férias. “A escola de antes não incentivava a leitura”, conta.

Com a incumbência da escola para as férias, ela não só escolheu e leu o livro, como descobriu a paixão pelas histórias. “Eu achei um livro com histórias de garotas normais, baseadas em histórias das princesas, eu gostei muito”, relata ela.

400 livros

Júlia Mazzini ainda não é adolescente, tem 9 anos, mas quando chegar lá vai bater, não só os da sua idade, mas também adultos. Na verdade, já bate. Segundo seu pai, o jornalista André Mazzini, “ela já deve ter lido uns 400 livros. Ela tem muito mais livros do que eu e minha esposa já lemos na vida inteira”.

Júlia lê desde os 3 anos. | Foto: Arquivo Pessoal

Também, pudera, Júlia aprendeu a ler e escrever aos 3 anos. “Começou o fascínio desde então. Minha esposa, que é pedagoga, e eu sempre lemos muito e temos muitos livros em casa”, afirma o jornalista. “Este gosto dela começou a se espalhar para outros mundos. Ela ganhou o concurso nacional de redação da Folha de São Paulo aos 6 anos”, conta o pai.

“Eu gosto da sensação de entrar no personagem, é uma viagem que se faz sem sair do lugar, a gente mergulha como se fosse uma lagoa e se esquece do mundo”, descreve Julia, que prefere os grandes livros, “com mais história”.

Ao ser perguntada sobre qual livro ela está lendo no momento ela responde: “vários”. Simples assim. Alguns deles são “Harry Potter e a Ordem da Fênix” que faz parte da coleção que ela está terminando. Ainda tem “Pax”, que está lendo com a mãe e, com o irmão mais novo, está relendo “Felizmente o Leite”.

O pai percebe o benefício que a leitura trouxe à filha. “Ela consegue desenvolver diálogos de reflexões muito interessantes com a gente por conta da leitura. Consegue lidar com os sentimentos, situações adversas, na escola ou em outro ambiente. Ela tem a capacidade de refletir sobre o que acontece, o que é um tanto incomum com a maioria das crianças, e acredito que isso seja devido à leitura”, pontua.

O que Tite lê? Saiba quais livros o técnico usa para fazer a cabeça de seus atletas

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Tite foi jogador com passagens obscuras por times como Portuguesa e Guarani, mas chegou ao comando da Seleção com trabalho celebrado e metódico, que inclui presentear seus atletas com livros (Foto: LUCIANA WHITAKER/AGÊNCIA O GLOBO)

O treinador da Seleção fez a cabeça de seus atletas com muitos livros de autoajuda e superação

João Pedro Fonseca, na Época

Entre quadros táticos e muitas anotações, a sala que o técnico Adenor Leonardo Bacchi, o Tite, ocupa na sede da CBF, na Barra da Tijuca, revela aqui e ali pilhas de livros. Alguns títulos relembram carreiras vitoriosas; outros, a preocupação ética que o treinador derrama em suas entrevistas sinceras e longas. Muitos deles vão parar na mão dos jogadores, categoria não exatamente conhecida por sua intimidade com a leitura.

Antes dos amistosos contra Rússia e Alemanha, em março, cada jogador convocado recebeu um exemplar de Liderar com o coração (Sextante, 2016), escrito por Mike Krzyzewski, assistente do Dream Team de basquete dos Estados Unidos e técnico tricampeão olímpico entre 2008 e 2016. O “Coach K”, como é conhecido, capitaneou uma mudança radical de mentalidade após o fracasso americano em Atenas-2004. Mais do que o trabalho de quadra, dedicou-se a entender e moldar o caráter dos indivíduos que comandava. E exaltou virtudes que o técnico da Seleção Brasileira certamente encamparia.

Mas estender o hábito de leitura aos 23 convocados para a Copa do Mundo não é fácil. Durante as últimas semanas, ÉPOCA procurou diversos jogadores para que falassem sobre os livros indicados por Tite. Apenas um, o meio-campista Renato Augusto, admitiu à reportagem: não chegou a ler nenhum daqueles sugeridos.

Romper essa barreira, que separa os jogadores da literatura, é um desafio quixotesco que Tite se impôs desde 2011. Em agosto daquele ano, quando comandava o Corinthians, Tite presentou os jogadores com um exemplar de Nunca deixe de tentar (Sextante, 1994), de Michael Jordan — no livro de 80 páginas, o Pelé do basquete narra a busca pela excelência ao longo de sua carreira. Naquela temporada, o time paulista foi campeão brasileiro. Um ano depois, conquistou a Libertadores e o Mundial. No elenco, estava Paulo André, hoje no Atlético-PR. O zagueiro, com reconhecido hábito de leitura, admitiu que nem todos embarcam na proposta de Tite. Mas valorizou o esforço do treinador para transformar os jogadores da Seleção.

“O fato de Tite oferecer essa oportunidade de leitura não a torna obrigatória. Depende da disposição de crescimento de cada um. A leitura permite isso. Os homens mais inteligentes e preparados para a vida se tornam jogadores melhores dentro de campo. E a leitura faz um bem danado: expande horizontes, te faz uma pessoa melhor e forma times mais vitoriosos.”

Tite também se preocupa em fazer carinhos pontuais. Quando sacou Filipe Luís do time para dar lugar a Marcelo, em 2016, entregou ao lateral esquerdo um exemplar de Maktub (Rocco, 1994), compilação de crônicas de Paulo Coelho sobre caminho, opções e destino. O lateral ficou sensibilizado. “Tite é uma pessoa extremamente justa. Ele me chamou, disse que me respeitava e que queria me dar um livro de presente. Isso me conquistou. A maneira como ele falou comigo me trouxe ainda mais para o lado dele”, disse Filipe Luís na ocasião.

Caso abram um dia o livro de Krzyzewski, os astros canarinhos vão deparar com um diagnóstico óbvio, muitas vezes esquecido pelos torcedores: a reunião de astros do esporte não forma um time coeso — um cenário que lembra muito a Copa de 2006, em que o quadrado mágico formado por Kaká, Ronaldinho, Adriano e Ronaldo, com Robinho no banco, nunca engrenou. Tite, que tem possivelmente o melhor plantel do mundo à disposição, sabe que evitar essa armadilha é uma de suas missões. E espera que tal noção também seja absorvida por seus comandados.

O escritor Paulo Coelho, autor de Maktub, obra escolhida por Tite para presentear o lateral Felipe Luís, quando esse perdeu a posição para Marcelo na Seleção (Foto: MATEJ DIVIZNA/GETTY IMAGES)

Lendário treinador do basquete americano, John Wooden escreveu Jogando para vencer, obra recomendada pelo ex-técnico da seleção brasileira de vôlei (Foto: ROBERT LABERGE/GETTY IMAGES)

O técnico Mike Krzyzewski (à dir.) fez história ao comandar o Dream Team do basquete americano e publicou Liderar com o coração, um dos preferidos de Tite (Foto: ROBERT LABERGE/GETTY IMAGES)

No livro que os jogadores levaram para casa, o hoje treinador do time da Universidade de Duke compartilha histórias humanas, para além do debate técnico-tático. São capítulos intitulados como “Comunicação”, “Empatia” ou “Integridade”, embalados em episódios comoventes, sabor Sessão da tarde. No capítulo sobre abnegação, um Krzyzewski furioso com o desempenho dos titulares avisa a todos que, na próxima partida, mandará à quadra um time só de walk-ons — espécie de reservas dos reservas. Divulgado o time do jogo seguinte, porém, um dos walk-ons o procura e diz, pleno de humildade: “Treinador, agradeço muito à oportunidade e à confiança, mas acho que seria melhor para a equipe se o Shelden (Williams) começasse em meu lugar amanhã…”.

Valorizar os objetivos do grupo sobre as ambições individuais é uma das lições de Tite, mas há outras. Trata-se de uma profissão que atingiu um enorme grau de conhecimento científico, e é preciso dosá-lo. Ao mesmo tempo, é necessário motivar os jogadores a obter um equilíbrio entre disciplina e criatividade. Em Guardiola confidencial, do jornalista Martí Perarnau, o técnico espanhol reconhece que seus jogadores sofrem diante do volume excessivo de orientações que recebem. Tite parece enfrentar a mesma dificuldade, tanto que, quando anunciou os 23 nomes convocados, agradeceu a todos os atletas que comandou e que o aturaram em preleções de mais de uma hora. “Nem eu me aguentaria por uma hora”, brincou. É possível que Tite recorra à literatura para, quem sabe, falar menos.

“Ler livros é um indício de que ele se coloca em estado de aprendizado, o que inspira as pessoas que estão em volta. O Tite também tem generosidade mental, que é a capacidade de repartir o que sabe, sem achar que essa atitude o diminuiria”, afirmou o filósofo pop Mario Sergio Cortella. “Identifico nele a preocupação com uma liderança edificadora.”

Autor best-seller de autoajuda, Cortella se preparava para uma palestra em um hotel de Porto Alegre, no segundo semestre de 2016, quando foi alertado sobre a presença de Tite, então já técnico da Seleção. Entre os mais de 500 ouvintes, Tite tinha em mãos um exemplar de Qual é a tua obra? (Editora Vozes, 2007), sobre gestão, liderança e ética, e queria um autógrafo. Torcedor do Santos, mas admirador do trabalho do treinador no Corinthians, Cortella fez questão de convidá-lo para um papo no camarim. Nascia ali um intercâmbio de ideias, no qual o filósofo enviava seus lançamentos à sede da CBF e o técnico frequentemente fazia comentários.

Foi assim que os quadros táticos começaram a dividir espaço na sala com outros livros de Cortella, como Viver em paz para morrer em paz (Planeta, 2017), que discute o que realmente importa na vida, e A sorte segue a coragem! (Planeta, 2018), um convite à busca interna para as razões do sucesso e do fracasso. Para os jogadores, no entanto, Tite prefere enviar livros motivacionais, mais voltados para esporte, chancelados pela aura da glória, como Liderar com o coração, que chegou por meio de um esforço de Bernardo Rocha de Rezende, o Bernardinho, técnico bicampeão olímpico com o vôlei masculino.

“É a segunda vez que vejo jogadores de futebol usando esse livro. O meu filho (o levantador Bruninho) já tinha levado um exemplar para o Daniel Alves”, comentou Bernardinho, que escreveu a apresentação da edição brasileira. “O que o Tite faz é trazer um vencedor de outra área para inspirar os jogadores. É uma iniciativa extremamente interessante de um cara que tem a preocupação de desenvolver o lado humano dos atletas e mostrar a importância de todos. Muitas vezes as pessoas só se preocupam com o ganhar ou perder. Mas há muita coisa além. Numa Copa do Mundo, então, você precisa de muito mais.”

A busca de Tite por exemplos no esporte não deixa de ser um contraponto à estratégia adotada por Luiz Felipe Scolari, o Felipão, no triunfo da Copa de 2002, ganha no Japão e na Coreia do Sul. Naquela ocasião, o elenco foi motivado por A arte da guerra, escrito pelo filósofo e general chinês Sun Tzu durante o século IV a.C. e provavelmente o mais famoso “livro de cabeceira” de um técnico verde-amarelo. Inspiração para Napoleão e Mao Tsé-Tung, o livro parte da premissa de que questões de autoconhecimento são mais importantes para a vitória na guerra do que o simples poderio militar de um exército. Se o bélico Felipão teve tempo de reler Sun Tzu antes do fatídico 7 a 1 de 2014, no Mineirão, não se sabe.

Outro título edificante distribuído por Tite a seus convocados foi Jogando para vencer (Sextante, 2010), de John Wooden, decacampeão universitário de basquete com o time da Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla). Para o americano, hoje aposentado, não são as vitórias que determinam o sucesso de um profissional, mas a consciência de que deu o melhor de si.

O livro chegou a Tite por meio do mesa-tenista Israel Stroh, prata nos Jogos Paralímpicos de 2016. A dupla se encontrou na sede da CBF após a conquista da medalha. “Estava com o livro, que havia comprado uns dois anos antes, na bagagem. Decidi levá-lo como presente, e ele disse que não conhecia”, contou Stroh. “O Wooden nunca cobrava vitória, mas, sim, alto desempenho. E gosto dessa filosofia de respeitar o adversário e o esporte, sem ser frouxo. O brasileiro é muito preocupado com a vitória, e esse livro desmistifica esse culto”, disse o medalhista.

Protagonista inteligente, Tite ecoou muito desse espírito nas entrevistas que concedeu no dia da convocação. A cada vez que alguém perguntava sobre promessa de título, preferia reforçar o esforço. “O resultado final, eu não sei, mas (o time) vai jogar muito”, repetia, arregalando os olhos, cada vez mais fáceis de ler.

Saiba por que você precisa (re)ler A Hora da Estrela, de Clarice Lispector

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Foto: Divulgação

Cíntia Moscovich* na Revista Donna

O ano de 1977 reservou dois eventos que viriam marcar a vida literária do país – e não só –, ambos relacionados a uma mesma autora e igualmente imprescindíveis para se compreender a história da cultura brasileira. Completando agora 40 anos, a primeira efeméride cai no dia 26 de outubro: era o dia em que se publicava A Hora da Estrela, que viria a se tornar um dos mais lidos romances de Clarice Lispector. Naquele mesmo ano, no dia 9 de dezembro, no Rio, um dia antes de completar 57 anos, Clarice Lispector morria vítima de um câncer de ovário, sem saber exatamente a repercussão daquele romance que, comparado aos demais, era diferente de tudo o que fizera até ali. Ao lado, listamos alguns motivos pelos quais vale a pena aproveitar a data redonda e ler 1) a obra de Clarice Lispector e 2) ler especificamente A Hora da Estrela.

* Escritora, autora de títulos como “Por que Sou Gorda, Mamãe?” e “Essa Coisa Brilhante que é a Chuva”

Por que Clarice Lispector é leitura essencial

Tudo o que é bom segue atual: o amplo domínio da língua e uma inventividade profunda fazem com que a prosa de Clarice seja das mais elegantes, sofisticadas e ricas da literatura nacional.
Trata-se de um texto singelo: mesmo sendo literatura elaborada, ou porque é literatura elaborada, é de uma simplicidade a toda prova.
As redes sociais têm maltratado Clarice: não se pode conhecer a obra dela confiando nas citações ou excertos (que na maioria das vezes nem são dela ou de nenhum dos autores atribuídos). Para conhecer um autor, vá na fonte.
É absolutamente de vanguarda (era para a época e continua sendo). A literatura de Clarice Lispector inaugura uma nova vertente de intimismo, em grande medida contrariando as bases do realismo praticado então.
Clarice trabalha com personagens que têm a consciência alargada. Os sentidos se tornam mais aguçados, e a leitura é uma aventura praticamente erótica.
Os romances são inquietantes, mas os contos são perfeitos: dificilmente algum outro autor dominou ou dominará a narrativa curta com a mesma habilidade com que Clarice o fazia.

5 motivos para ler “A Hora da Estrela”

É um livro considerado ideal para quem quer começar a ler a obra de Clarice.
É o romance em que, do ponto de vista narrativo, a estrutura se oferece de forma mais linear, sendo sua narrativa longa mais popular.
Macabéa, a protagonista, encarna a típica nordestina que vai tentar a sorte na cidade grande: trata-se, no limite, do romance de Clarice com mais “tintas nacionais”.
Longe de se configurar uma personagem clichê ou arquetípica, Macabéa é das figuras mais comoventes e sensíveis jamais vistas.
O livro foi levado às telas por Suzana Amaral, em 1985, com Marcélia Cartaxo e José Dumont. Vale a pena comparar livro e o filme. Jorge Furtado e o pessoal da Casa de Cinema transformaram o romance em um dos episódios de Cena Aberta, de 2003. A transposição para a teledramaturgia é especialíssima.

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

A autora

Clarice Lispector é um dos grandes nomes da nossa literatura, reconhecida mundo afora. Sua escrita mistura situações simples do cotidiano (como uma dona de casa que despede a empregada e decide fazer uma faxina no quarto de serviço, em A Paixão Segundo G. H.) com um mergulho profundo nas questões que assolam suas personagens – e todas nós. Foi também cronista e tradutora e tem, entre seus títulos, Perto do Coração Selvagem, Laços de Família e Um Sopro de Vida.

O livro

“É a história de uma moça que era tão pobre que só comia cachorro-quente. Mas não só isso. A história é de uma inocência pisada, uma miséria anônima.” Assim Clarice Lispector resumiu seu livro mais emblemático e popular. Conta a história de Macabéa, nordestina que tenta a sorte no Rio de Janeiro e que, em meio à difícil tarefa de ganhar a vida com menos de um salário mínimo, não abre mão de pequenos prazeres. Como usar um batom vermelho para se sentir como uma estrela de cinema. Por ocasião dos 40 anos de lançamento, a Rocco lançou uma edição comemorativa.

A peça

Os 40 anos de A Hora da Estrela e da morte de Clarice Lispector serão lembrados nos palcos de Porto Alegre. Com direção de Bob Bahlis, Circo para Clarice terá sessão de pré-estreia no dia 7, às 21h, no Teatro Cia de Arte, e depois estreia no dia 14, às 21h, no Teatro Bruno Kiefer, da Casa de Cultura Mario Quintana. Trata-se de uma livre adaptação do livro mais icônico da escritora, incluindo ainda crônicas e cartas de Clarice.

19 anos depois: Saiba onde estão seus personagens favoritos de Harry Potter hoje em dia

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"19 anos depois"

“19 anos depois”

Caio Coletti, no Observatório do Cinema

Essa sexta-feira, 1º de setembro de 2017, é uma data muito marcante para fãs da saga Harry Potter. Isso mesmo, é a data onde aconteceria o epílogo “19 anos depois” dos livros originais de J.K. Rowling!

Explica-se: os livros da saga Harry Potter, na verdade, se passam entre os anos 1991 e 1998, com a Batalha de Hogwarts acontecendo exatamente no dia 2 de maio de 1998. No epílogo, vemos Harry, Gina, Rony e Hermione levando seus filhos para pegar o Expresso de Hogwarts – no dia 1º de setembro de 2017.

Para celebrar, saiba onde estão, “hoje em dia”, seus personagens favoritos de Harry Potter:

 

Harry Potter and the Deathly Hallows: Part I

HARRY & GINA | Os dois se casaram e tiveram três filhos: Alvo Severo, Tiago Sirius e Lílian Luna, além de agirem como “pais postiços” de Teddy Lupin, filho dos falecidos Lupin e Tonks. Harry é líder do Departamento de Execução das Leis da Magia no Ministério, enquanto Gina é correspondente de quadribol para O Profeta Diário.

Harry Potter and the Deathly Hallows: Part I (2010) Emma Watson as Hermione Granger and Rupert Grint as Ron Weasley

RONY & HERMIONE | Os dois também se casaram e tiveram dois filhos: Rosa e Hugo. Hermione escalou os rankings do poder até se tornar Ministra da Magia, enquanto Rony trabalhou como Auror com Harry antes de sair do Ministério para administrar a Gemialidas Weasley com seu irmão , Jorge.

HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS ? PART 2

DRACO MALFOY | Rowling não revelou detalhes da carreira do vilão redimido, mas Draco se casou com Astoria Greengrass e criou seu filho, Escórpio Malfoy, para ter visões mais tolerantes que sua família. Escórpio se tornaria melhor amigo de Alvo Potter em Hogwarts.

HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS ? PART 2

NEVILLE LONGBOTTOM | Após um breve tempo como Auror, Neville se tornou professor de Herbologia em Hogwarts. Se casou com Hannah Abbott, a nova dona do Caldeirão Furado, onde os dois ainda moram.

HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS: PART 2, Evanna Lynch, 2011. ©2011 Warner Bros. Ent. Harry Pott

LUNA LOVEGOOD | A doidinha, porém sábia, amiga de Harry se tornou uma magizoologista (como o Newt, protagonista de Animais Fantásticos). Por falar nisso, se casou com o neto de Newt, Rolf Scamander, e teve gêmeos – Lorcan e Lysanser.

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RÚBEO HAGRID | Ele continua trabalhando em Hogwarts, mas nunca se casou com Madame Maxime, apesar de um longo romance.

HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS ? PART 2

MINERVA MCGONAGALL | Após agir duas vezes como diretora interina, McGonagall finalmente assumiu o posto de Diretora de Hogwarts após a Batalha. Até onde sabemos, continua na posição até hoje.

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OS IRMÃOS WEASLEY | Mesmo após a perda de Fred, Jorge continuou administrando a Gemialidades Weasley, ao lado de Rony. Se casou com Angelina Johnson e teve dois filhos: Fred e Roxanne. Carlinhos ainda trabalha com dragões e continua um solteirão. Percy também seguiu no Ministério da Magia e se casou com Audrey, com quem teve dois filhos: Molly e Lucy.

HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS: PART 1, from left: Clemence Poesy, Robbie Coltrane, Domhnall G

GUI WEASLEY & FLEUR DELACOUR | Ainda casados, os dois tem três filhos: Victorie, Dominique e Louis. A mais velha, Victoire, foi vista no epílogo “dando uns amassos” em ninguém menos que Teddy Lupin.

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DUDA DURSLEY | O primo infernal se redimiu, construiu uma família e mantem contato com Harry. As famílias se visitam periodicamente. Tia Petúnia acabou falecendo de uma doença não conhecida, e não sabemos nada de Tio Válter.

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DOLORES UMBRIDGE | A vilã foi presa, interrogada e confinada para a eternidade à Azkaban. Isso que é um final digno para uma personagem odiável.

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RITA SKEETER | A fofoqueira virou escritora best-seller, com biografias “largamente especulativas e incorretas” de Alvo Dumbledore, Severo Snape, Harry Potter e Newt Scamander.

HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS ? PART 2

KINGSLEY SHACKLEBOLT | O poderoso mago foi imediatamente colocado no posto de Ministro da Magia após a Batalha de Hogwarts, onde ficou até ser substituído por ninguém menos que Hermione.

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