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Alunos assistem a aulas debaixo de lonas e sem merenda na Paraíba

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Filhos de Ana Maria Firmino vão juntos para a escola improvisada; para levá-los para a nova unidade, teriam de percorrer 4 km – Francisco França/UOL

Publicado no UOL

Crianças debaixo de lonas, sem água nem ventilador. O chão é de terra batida. Mães de estudantes varrem o local e espalham as cadeiras pela sala.

Nesse improviso, cerca de 50 alunos assistem às aulas na comunidade São José, na zona rural do município de Areia (PB), a 130 km de João Pessoa. Também faltam merenda e material escolar, embora exista sinal de internet Wi-Fi.

As aulas, que inicialmente eram de manhã e à tarde, agora só acontecem no turno matutino em razão do calor sufocante debaixo do plástico. E a situação precária não tem prazo para terminar, já que o caso está em disputa na Justiça.

A denúncia feita pelo Ministério Público Estadual aponta que foram fechadas 13 escolas na região, afetando cerca de 300 alunos. O anúncio do fechamento aconteceu no final de janeiro, quando teve início o ano letivo. A medida atinge crianças e adolescentes com idades entre 4 e 15 anos, tanto na educação infantil quanto no ensino fundamental.

Segundo o MP, a maioria dos pais, ainda que insatisfeitos, realocaram as crianças em unidades de ensino mais distantes de onde moram. Outros não aceitaram a situação e estão em casa, esperando a decisão judicial. A escola Emília Maracajá foi a única a insistir nas aulas, mesmo sem mínimas condições.

A prefeitura local argumenta que a estrutura desses estabelecimentos era precária, havia demanda insuficiente de alunos e que o desempenho escolar era baixo. “Ou a gente reestruturava ou continuaria com a fábrica de analfabetos”, diz a secretária de Educação de Areia, Sandra Araújo Medeiros. Ela também contesta o número de locais fechados (leia mais abaixo).

Já os pais reclamam da distância das escolas para onde seriam transferidas as crianças e da qualidade do transporte escolar.

Tudo é doado na sala debaixo das lonas: lousa, merenda, giz e garrafão de água – Francisco França/UOL

“A outra escola é longe. Eu tenho três filhos pequenos, não tenho condições de sair com dois e deixar a mais nova em casa ou sair carregando os três. Eles [da prefeitura] dizem que tem transporte escolar, mas os ônibus estão caindo aos pedaços”, afirma a dona de casa Ana Maria Firmino. A antiga escola ficava a 800 metros de sua casa. A nova está a quatro quilômetros.

De acordo com a prefeitura, há transporte para levar os estudantes, mas apenas dois dos 14 ônibus foram aprovados em vistoria recente.

Para o promotor Newton da Silva Chagas, autor da ação civil pública que contesta o fechamento das escolas, o prefeito João Francisco (PSDB) não tomou as providências determinadas pelo Ministério da Educação e pela Lei das Diretrizes de Bases ao pôr fim ao sistema de ensino multisseriado, no qual alunos de séries e idades diversas têm aula na mesma sala.

Segundo o MEC, a orientação é que alunos de idades e séries diferentes estudem em salas diferentes, com conteúdos específicos. Para o MEC, colocar todos na mesma sala compromete o aprendizado.

“Os pais dos alunos denunciaram que alguns veículos não têm freio de mão, que as portas não fecham e outras situações que colocam em perigo a vida dos estudantes”, relatou o promotor.

Ele também pediu mais dados à prefeitura sobre esse problema e sobre as medidas tomadas depois do resultado da vistoria. “Mas, pelo que estou vendo, só querem ganhar tempo, enquanto os alunos sofrem os riscos.”

A dona de casa Martiliana Targino, que mora ao lado de uma das escolas fechadas, se disse indignada. “Não entendo de leis, mas sei que isso é um absurdo. Meu filho de nove anos está fora da escola. Todos os dias ele me pergunta quando o prefeito vai reabrir as salas de aula, e eu não tenho resposta”, afirmou.

Professoras sem salário e giz doado

No quadro da sala de aula improvisada, uma frase a giz chama a atenção: “O Brasil é minha pátria”. Também se espalham desenhos coloridos sob o título “Minha Escola”.

O resultado da tarefa, passada pela professora Josivânia da Silva Lisboa, a Tia Vaninha, contrasta com a realidade atual. Mostrando os desenhos colados nas paredes, ela conta que a ideia era que os alunos desenhassem a escola como a viam. “Os desenhos mostram que eles sonham com uma escola melhor”, disse.

Tudo é doado na sala debaixo das lonas: lousa, merenda, giz e garrafão de água.

Mas há também espaço para solidariedade, conta Tia Vaninha. “Quando veio o anúncio de que a escola ia fechar, os pais se mobilizaram. A comunidade se sentiu tocada, e cada um passou a ajudar da forma possível, seja com biscoitos para a merenda das crianças, seja auxiliando na limpeza do local.”

Ela e outras duas professoras dão aulas de forma voluntária depois de terem seus salários cortados pela prefeitura.

Emocionada, ela diz que sabe que aquela sala de aula não é o modelo ideal. “Eu penso em cada um dos meus alunos. Eu quero um futuro para eles. Tudo isso é muito triste, mas pelo menos estou fazendo a minha parte”, diz.

Fabiana Batista, também professora voluntária, defende a permanência dos alunos nas escolas antigas. “Dói muito presenciar essa cena, não era para ser assim. A educação é linda na teoria, mas na prática a história é bem diferente.”

“A gente passa quatro anos estudando e vendo teoria. Mas, quando chega ao batente, encontra várias dificuldades. Não é fácil para ninguém, mas quem mais sofre são os alunos. O futuro deles fica comprometido”, afirma Batista.

O que diz o MEC e a prefeitura?

Procurado pelo UOL, o MEC (Ministério da Educação) destacou que, “de acordo com a Constituição Federal, os municípios, estados e a União têm autonomia garantida pelo Pacto Federativo”. “Nenhum órgão da União está acima de qualquer órgão municipal ou estadual.”

O MEC também informou que seu papel é de apoio e que o assunto deveria ser tratado com a Secretaria Municipal de Educação, “uma vez que qualquer decisão de fechamento ou abertura de escolas é da própria secretaria, dentro de sua autonomia garantida por lei”.

Já a secretária de Educação de Areia, Sandra Araújo Medeiros, reclama das condições anteriores das escolas municipais.

“Antes da nossa gestão, havia escola em que merendeira dava aula e escola que estava fechada em dia letivo. As mudanças foram necessárias”, afirmou ao UOL, ressaltando que foram 11, e não 13, o número de escolas fechadas.

Segundo ela, também há uma tentativa de politizar o fechamento das escolas.

No cargo desde janeiro de 2017, a secretária diz que, das 24 escolas municipais, apenas seis não eram multisseriadas, o que precisou ser reavaliado para atender as exigências do Ministério da Educação.

“Além disso, o desempenho era muito baixo. Havia escolas com distância de 900 metros de uma para outra e com estruturas péssimas. Outras eram assaltadas diversas vezes. Diante disso, ou a gente reestruturava ou continuaria com a fábrica de analfabetos”, afirmou.

Sobre o caso da escola Emília Maracajá, Medeiros disse que só depois de muitas conversas foi apresentada aos pais dos alunos a opção de transferência para outras escolas.

“A ideia era reabrir a escola por 60 dias e ver se realmente seria produtivo. Mesmo tendo apenas 14 alunos, íamos reabrir a escola, desde que os outros estudantes de salas multisseriadas fossem transferidos, mas a proposta não foi aceita [nem pelos pais nem pelo MP]”, afirmou.

Segundo ela, os alunos da Emília Maracajá não estão formalmente matriculados e correm o risco de perder o ano letivo.

Pais também se preocupam com o cancelamento do benefício do Bolsa Família por causa da falta de frequência escolar.

O impasse só deve ser resolvido na Justiça, tendo em vista as tentativas frustradas de acordo entre as partes.

Em relação ao sinal de internet, a secretária disse que a antena foi instalada, mesmo com a escola fechada, devido a um atraso na liberação do processo pelo MEC.

“Quando chegaram para instalar, a escola já estava fechada, mas, como havia a perspectiva de reabrir, optamos por deixar, pois fazia parte do acordo com os pais não retirar nada da escola até que a situação fosse definitivamente resolvida. Infelizmente não teve acordo e agora vamos aguardar a decisão da Justiça.”

A Justiça estadual deu um prazo de 30 dias, que vence no final deste mês, para a prefeitura se justificar oficialmente sobre o fechamento das escolas. Só então a questão vai ser colocada em julgamento.

As piores coisas de se trabalhar em uma livraria

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Fabio Mourão, no Dito pelo Maldito

Creio que não seja necessário citar aqui as vantagens incríveis em se trabalhar em uma livraria. Acho que todo leitor já deve ter deslumbrado essa possibilidade em seus sonhos mais remotos. E em termos de emprego no ramo de vendas no varejo, acredito que ser livreiro deva ser, de longe, o melhor deles. Um ambiente descontraído, colegas de trabalho inteligentes, clientes interessantes, e a vantagem de passar o dia cercado por livros.

Mas como qualquer outro trabalho comum, é claro que esse também possui as suas desvantagens. E para mostrar que nem tudo são flores, mostramos aqui o que há de pior em se trabalhar numa livraria.

Você acaba gastando parte do seu salário em livros
É algo inevitável. Você começa a trabalhar em uma livraria, consegue um desconto como empregado, e logo percebe que está sendo pago com livros. Talvez você já tenha gastado mais do que devia com livros em uma outra ocasião, mas agora você está cercado por centenas desses exemplares te tentando a todo instante, e outros tantos continuam chegando a cada momento.

Imagino que seja necessário anos de experiência e auto-controle para se construir a tolerância de não gastar uma parcela significativa do seu salário em seu próprio emprego.

Sua lista de leitura cresce descontroladamente
Mesmo que você, de alguma forma, consiga se controlar com o gasto em livros, não há como evitar o seu interesse natural por novas leituras, já que agora obrigatoriamente conhecerá cada lançamento que chegar à loja.

Entre as recomendações dos clientes e colegas de trabalho, e os livros que acidentalmente descobrirá em um dia normal de trabalho, lamento dizer que sua lista de leitura será sempre uma ‘missão impossível’.

É o fim da agradável experiência de conhecer novas livrarias
A felicidade de explorar uma nova livraria, nunca mais será a mesma depois que você trabalha em uma. Além do fato de ser difícil comprar livros na loja concorrente, quando você pode conseguir o mesmo produto mais barato no próprio trabalho.

E, é claro, comparações com a sua própria loja serão inevitáveis, e passará grande parte do tempo tentando encontrar diferenças das quais você tem absoluta certeza que faria de uma forma bem melhor.

Livros são pesados
Apesar de ser uma informação um tanto óbvio, é algo que realmente só se leva em consideração depois que se sente a dor muscular de levar caixas e mais caixas de livros de um lado pro outro. Algo que passei recentemente com a minha recente mudança.

Algumas grandes livrarias ainda possuem prateleiras que vão até o teto, o que implica em subir escadas com pilhas de livros. E mesmo nas menores, ser livreiro exige mais do físico do que se imagina. Pode não parecer, mas carregar pilhas de livros, agachar para alcançar as prateleiras inferiores e organizar as estantes, é um trabalho bem cansativo.

Você tem que ajudar as pessoas a encontrar algumas leituras ‘questionáveis’
Claro que nem todo cliente terá o mesmo interesse literário que o seu, mas por mais que você conviva bem com esse fato, você encara as suas ‘dicas de leitura’ como parte do seu trabalho. Mas nem sempre conseguirá evitar que o público leve uma uma obra, ou autor, que você desaprova e fez de tudo para escondê-lo nos cantos obscuros da loja.

Certamente a pior parte desse trabalho é ter que ajudar as pessoas a encontrar livros que você considere moralmente desprezíveis. Livros que apoiam algum regime autoritário, obras com ‘desinformações perigosas’, e autores de ideias duvidosas. Cada funcionário tem a sua própria forma de lidar com essa situação, mas em qualquer ocasião é sempre uma posição terrível para se estar.

Professor primário no Brasil ganha pouco, mas universitário tem ‘salário de país nórdico’, diz OCDE

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Professores de ensino fundamental e médio no Brasil ganham menos da metade da média nos países da OCDE

Professores de ensino fundamental e médio no Brasil ganham menos da metade da média nos países da OCDE

 

Daniela Fernandes, na BBC Brasil

Os professores brasileiros do ensino público fundamental e médio ganham menos da metade da média salarial dos professores de países analisados em um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado nesta quinta-feira.

O estudo, Um Olhar sobre a Educação 2016, também revela que os salários de professores universitários de instituições federais públicas no Brasil – entre US$ 40 mil e cerca de US$ 76 mil por ano (de R$ 133,7 mil a R$ 254 mil) – “são bem mais elevados do que em muitos países da OCDE e comparáveis aos dos países nórdicos, como Finlândia, Noruega e Suécia”.

Segundo o documento – um compêndio de estatísticas que analisa a situação da educação nos 35 países membros da organização e em 11 economias parceiras, como Brasil, China, Índia e Colômbia -, os professores no Brasil têm o mesmo salário mínimo legal da categoria, US$ 12,3 mil por ano (cerca de R$ 41 mil), independentemente de lecionarem no ensino fundamental ou médio.

Eles ganham menos da metade da média nos países da OCDE e abaixo de professores de outros países latino-americanos como Chile, Colômbia e México.

E além disso, são os que trabalham o maior número de semanas por ano entre todos os países do estudo que disponibilizaram dados a respeito.

“Os professores brasileiros, nesses níveis de ensino, lecionam, em média, 42 semanas por ano. A média na OCDE é de 40 semanas no pré-primário e de 37 semanas nos cursos técnicos.”

Investimento e diploma

O documento revela também que o Brasil gasta mais com o ensino universitário, por aluno, do que vários países, mas o número de diplomados no país – apenas 14% da população na faixa etária de 25 a 64 anos -, está abaixo de todos os países da América Latina analisados pelo estudo (Colômbia, Costa Rica, Chile, Argentina e México).

Os gastos públicos para cada estudante do ensino superior no Brasil somam US$ 13,5 mil por ano (cerca de R$ 45 mil), calculados com base na paridade do poder de compra (PPC) para efeito de comparação internacional.

Esse valor é bem acima da média de US$ 3,8 mil por ano (R$ 12,7 mil) investida por aluno do fundamental e médio no Brasil, segundo o estudo.

Os gastos públicos para cada estudante do terceiro grau no Brasil somam US$ 13,5 mil por ano (cerca de R$ 45 mil)

Os gastos públicos para cada estudante do terceiro grau no Brasil somam US$ 13,5 mil por ano (cerca de R$ 45 mil)

 

Os gastos com cada estudante universitário brasileiro, de US$ 13,5 mil por ano, estão próximos à média dos países da OCDE, que é de US$ 15,8 mil.

Já as despesas por aluno do fundamental e médio no Brasil, abaixo de US$ 4 mil, representam menos da metade da média da OCDE, de US$ 8,5 mil no fundamental e de US$ 9,8 mil no médio.

Apesar dos gastos elevados por aluno do superior, o Brasil tem uma das menores taxas de diplomados nesse nível de ensino entre os países analisados no estudo: apenas 14% entre pessoas de 25 a 64 anos. Na Costa Rica, o índice é de 23% e, na Colômbia, de 22%.

“A geração mais jovem no Brasil, entre 25 e 34 anos, mostra alguns sinais de progressos: 16% concluíram o ensino superior, enquanto para as pessoas com 55 a 64 anos a taxa é de 11%”, afirma a OCDE.

O Brasil está à frente apenas da China e da Indonésia em relação ao percentual da população que cursou o ensino superior.

Diferença salarial

O estudo também revela que a média de salários de pessoas com nível universitário no Brasil chega a ser duas vezes maior que a de trabalhadores com ensino secundário.

Essa diferença salarial no Brasil é uma das maiores apontadas no estudo da OCDE. A organização atribui isso, em parte, ao baixo número de pessoas que cursam universidades no Brasil.

Na Dinamarca, na Suécia e na Noruega, os trabalhadores com ensino superior ganham 25% a mais do que os com nível secundário.

No caso de quem concluiu mestrados ou doutorados no Brasil, a renda pode ser acima de quatro vezes maior que a de trabalhadores que têm apenas o segundo grau.

Como o número de estudantes universitários no Brasil é comparativamente baixo, diz a OCDE, os gastos públicos, embora mais elevados por aluno, representam apenas uma pequena fatia, pouco acima de um quinto, do total dos investimentos em educação.

Aumento dos investimentos

Os professores dos cursos primário e secundário no Brasil ganham menos e são os que trabalham o maior número de semanas por ano entre todos os países do estudo

Os professores dos cursos primário e secundário no Brasil ganham menos e são os que trabalham o maior número de semanas por ano entre todos os países do estudo

 

A organização destaca que uma ampla fatia dos investimentos públicos no Brasil é destinada à educação. Em 2013 (último dado disponível), o custeio do ensino primário ao superior no país representou 16,1% do total dos gastos do governo, “bem acima”, diz a organização, da média da OCDE, de 11,3%.

“Embora os investimentos públicos tenham aumentado em todos os níveis de ensino entre 2005 e 2013 no Brasil, o crescimento foi consideravelmente acentuado no primário e secundário, de 1.1 ponto percentual, passando para 4,3% do PIB”, afirma o estudo.

No ensino superior, o aumento dos investimentos foi mais “modesto”, passando de 0,7% para 0,9% do PIB.

Segundo a organização, os gastos públicos com educação no Brasil representaram 5,5% do PIB em 2013 contra 4,1% do PIB em 2005, se situando na média dos países da OCDE e acima de países como o Chile e o México.

Para pagar faculdade, universitária de RO troca lixão para ser diarista

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Cursando pedagogia, Kleziane diz que o salário de catadora era pouco.
‘Depois que comecei fazer diárias estou ganhando mais’, revela jovem.

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Publicado no G1

As reviravoltas continuam acontecendo na vida da estudante de pedagogia Kleziane de Lima Costa, de 18 anos. Após ficar desempregada e se tornar catadora de lixo para continuar pagando a faculdade, a universitária tornou a mudar de ramo profissional e agora atua como diarista em casas de Vilhena (RO), município do Cone Sul do estado.

Segundo a jovem, a vida de catadora precisou ficar para trás, pois com o lucro das vendas de resíduos recicláveis não estava conseguindo pagar a faculdade. Mesmo com parcelas atrasadas, a universitária não desistiu do sonho de se tornar professora. Com experiência em trabalhos domésticos, a jovem postou em uma rede social que trabalhava como diarista e as oportunidades foram aparecendo gradativamente.

“Depois que comecei a trabalhar como diarista eu ganho bem mais do que eu ganhava lá”, ressalta Kleziane, que afirma ainda, que se for necessário, ela retorna à reciclagem para não interromper os estudos.

Enquanto esteve desempregada, a jovem até pensou em abandonar o curso e retornar quando tivesse condições. “Foi há pouco tempo, quando as parcelas estavam atrasadas, com outras contas para pagar, pensei em desistir. Daí chorei muito de raiva, porque não queria desistir e falei pra mim mesma ‘não vou desistir’, porque coloquei na cabeça que com 21 anos eu queria terminar a minha faculdade e se eu parasse agora não iria terminar com 21”, relembra.

Para quitar a dívida que se acumulava na faculdade, a jovem recorreu ao pai, que emprestou uma quantia em dinheiro, à qual ela juntou o valor de duas diárias que havia feito e conseguiu quitar a entrada do débito. O restante foi parcelado e incluso nas mensalidades que continua a pagar. Como diarista, trabalhando durante as manhãs e algumas vezes à tarde, Kleziane está conseguindo pagar a faculdade.

Esperança de bolsa
Já no 4º período do curso, a universitária vai fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na esperança de conseguir uma boa nota e quem sabe uma bolsa de estudos. Quanto à trocar de instituição de nível superior, Kleziane diz preferir terminar pedagogia na faculdade em que iniciou os estudos. “Se não conseguir uma bolsa através do Enem, vou trabalhando e tentando pagar, porque não quero sair de lá enquanto não terminar”, destaca.

A nova rotina de trabalho de Kleziane propiciou mais tempo livre para se dedicar aos estudos. Mesmo morando longe das residências em que trabalha como diarista, a jovem, que faz o percurso de bicicleta, garante ter tempo de se dedicar às aulas e atividades virtuais da faculdade. “No lixão não tinha nem tempo de estudar direito para as provas da faculdade, pois chegava à noite em casa, cansada e não tinha nem animação para estudar”, diz.

Memórias
O sonho de Kleziane de ser professora é antigo e começou quando ela ingressou no ensino primário, aos seis anos. Mesmo não sabendo que o nome do curso que prepara universitários para se tornarem futuros professores se chamava pedagogia, a jovem já sabia o que queria.

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“Eu fui crescendo, estudando mais, foi quando descobri que o nome era pedagogia. Eu falava que eu queria ser professora dos pequenininhos. Aí eu coloquei isso na cabeça e quando terminei meu 3º ano comecei a fazer pedagogia”, relembra acrescentando que a vontade é estar apenas em sala de aula.

E a motivação de Kleziane para continuar estudando, mesmo com a incerteza de um emprego que garanta o sustento da família, acabou se propagando. O esposo da jovem começou recentemente o curso de Gestão Ambiental na mesma faculdade onde a diarista estuda.

O jovem casal está conseguindo equilibrar as contas e estudar. Quando questionada sobre a possibilidade de voltar à coleta de materiais recicláveis, ela responde: “Para não parar os meus estudos eu voltaria. Muitos amigos perguntavam se eu não sentia vergonha e eu sempre falei que eu trabalhava mexendo com reciclagem, nunca escondi isso de ninguém, não tinha vergonha não”, finaliza.

Ex-detento cursa direito após 33 anos preso: ‘Educação muda o homem’

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Incentivo foi depois que João Ferreira achou livro na cadeia de Rio Preto.
Ex-presidiário vive com salário mínimo e usa metade para pagar faculdade.

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Publicado no G1

João dos Santos Ferreira tem 68 anos, mas parte da sua vida – 33 anos – passou dentro de uma penitenciária. Mas a condenação a mais de 30 anos de prisão por furto, roubo e tráfico não foi motivo para ele desistir de estudar.

O ex-presidiário, que mora em São José do Rio Preto (SP), afirma que achou no lixo da cadeia um livro, e esse encontro mudou a sua vida. Ele se forma este ano no curso de direito.

João trocou as grades das penitenciárias pela faculdade. Aos 63 anos, passou no vestibular para direito e hoje está no último ano. “Quero trabalhar na Defensoria Pública e defender alguém como eu, porque o estado não quer ou precisa só punir, quer também recuperar o cidadão”, afirma João.

O ex-detento fez os ensinos fundamental e médio dentro da cadeia e depois prestou Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), conseguindo realizar o sonho de sentar em uma cadeira da universidade. “Quero ser útil para a comunidade. Gosto de fazer o bem para as pessoas mais incultas”, diz, agora, o estudante.

O livro é o maior símbolo de mudança para João. Foi por causa de um livro que achou no lixo que ele decidiu buscar outro caminho. Agora os livros tomam conta da casa. “Ao entrar em uma cela para cumprir 30 anos eu pensei que precisava levar o livro para ser meu companheiro. Somente a educaçao muda um ser humano e o mundo. Com ignorância você não arruma nada”, afirma.

Apertado, mas vale a pena
Após sair da cadeia, João vive hoje com um salário mínimo e usa quase a metade para pagar a faculdade. Ele tem desconto de 50% no Fies, mas ainda assim não sobra dinheiro para comprar livros, por exemplo. “Passo apertado, mas vale a pena. É gostosa a dinâmica da aula, se eu ficar sem ir eu fico doente”, diz.

João continua a jornada em casa onde estuda por mais seis horas. Uma curiosidade do imóvel é que o ex-presidiário deixa tudo pendurado, um costume que tinha na cela da cadeia. Fora da prisão, ele manteve esse hábito, mas tudo o que tem no armário é motivo de orgulho.

O certificado de conclusão do ensino médio, que ele conseguiu mesmo preso, também está pendurado no armário da cozinha, junto com o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que ele prestou, além das últimas provas da faculdade, todas com excelentes notas.

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