Lavvi - Movva SP

Posts tagged Segmento

Livros de colorir: entenda fenômeno em 10 cifras impressionantes

0

G1 lista números do filão que está ‘salvando’ o mercado editorial em 2015.
Obras já venderam R$ 25 milhões e influenciaram vendas de lápis de cor.

Os seis lviros para colorir mais vendidos de 2015 até aqui (Foto: Divulgação)

Os seis lviros para colorir mais vendidos de 2015 até aqui (Foto: Divulgação)

Cauê Muraro, no G1

Chamam-se “jardineiros” os salvadores do mercado editorial brasileiro em 2015. Não precisam ler uma linha sequer: as ferramentas são estojos de lápis de cor. O apelido é referência ao grande best-seller do ano no país: “Jardim secreto”, da escocesa Johanna Basford. A obra encabeça o atual acontecimento literário do país – livros de colorir para adultos. O G1 consultou editoras e analistas de mercado e separou dez cifras impressionantes que explicam o boom (veja abaixo).

Eles são antiestresse, interativos, sintoma da infantilização do mundo atual – as opiniões a respeito dos títulos para colorir variam.

“Eles estão movimentando gráficas, editores, ilustradores. Mas, óbvio, é um fenômeno que vai acabar. Todo ano tem algo assim”, afirma ao G1 Cassia Carrenho, gerente-geral do PublishNews, portal que analisa o mercado. Dois exemplos de ondas anteriores: livros eróticos, como “Cinquenta tons de cinza”, e os religiosos. “O mercado editorial não lança moda, ele só segue a moda. Uma tendência em todas as áreas, não é só no editorial, de voltar um pouco às raízes, o ‘handmade'”, continua Cassia.

Outra facilidade óbvia para trazer sucessos internacionais de colorir ao Brasil: eles não precisam ser traduzidos. Além disso, é comum que o “leitor”, depois de concluir a pintura, compre uma segunda obra. E eventualmente uma terceira, uma quarta… As próximas tendências do setor devem ser livros para colorir de nicho, temáticos. A nova leva terá títulos sobre gatos e bichos em geral, além de clássicos para colorir (tipo “O pequeno príncipe”) e uma série sobre “cidades do mundo’. O êxodo rural dos jardineiros era mesmo questão de tempo.

livros-de-colorir_1

Os livros de colorir também reduziram o estresse do mercado editorial do Brasil ao amenizar a crise do setor. Venderam R$ 25,18 milhões entre janeiro e maio deste ano e evitaram queda do faturamento geral com relação a 2014. O número está em um estudo do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e do Instituto de Pesquisa Nielsen.

livros-de-colorir_2Escrito – ou desenhado – pela escocesa Johanna Basford, “Jardim secreto” iniciou sua trajetória por aqui a tempo de aproveitar o Natal: saiu, muito calculadamente, em 27 de novembro. Desde então, virou o líder absoluto do ranking nacional, com 880 mil cópias (e contando…), informa a Sextante. “No nosso catálogo, entra em não ficção, mas poderia entrar em arte ou em autoajuda, pois transcende essa categorização”, afirma a gerente de aquisições da Sextante, Nana Vaz de Castro. Versátil, também transcendeu o status de livro-presente-natalino. “Em abril foi realmente um escândalo.” É que era “véspera” do dia das mães.

livros-de-colorir_3Com mais de meio milhão de exemplares vendidos desde o lançamento, em abril, o vice-campeão do ano no Brasil também é assinado por Johanna Basford. A Sextante informa que tem pelo menos outros oito títulos para colorir previstos para os próximos meses – incluindo um obrigatório sobre gatos.

livros-de-colorir_4Nem só de jardim e floresta vive o filão dos livros para colorir. A categoria se divide em subespécies: tem, por exemplo, a vertente “gatos” (por enquanto, apenas os animais, mas nunca se sabe), a vertente “mandalas” e a vertente “datas comemorativas” (“Mãe, te amo com todas as cores” para o dia das mães e “Amor em todas as cores” para o dia dos namorados”). O Instituto Nielsen – responsável junto do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) pelo Painel das Vendas de Livros do Brasil – calcula que existam pelo menos 76 títulos de colorir para adultos circulando atualmente. Por enquanto.

livros-de-colorir_5O portal PublishNews, que monitora o mercado editorial brasileiro, informa que cinco dos dez livros de não ficção mais vendidos do ano, entre janeiro e maio, são títulos de colorir para adultos. Mas por que não ficção? “Teve até uma tendência a colocar como autoajuda. Mas, se não fosse para relaxar – o que, aliás, é um grande marketing –, seriam o quê? Livros de ilustração. É não ficção”, justifica ao G1 Cassia Carrenho, gerente-geral do site.

livros-de-colorir_6É culpa das mães. Graças a elas, ou ao dia delas, maio foi um mês especialmente bom para os livros de colorir: os oito primeiros colocados no top ten de não ficção foram de colorir, mostra PublishNews. Sintomaticamente, “Mãe, te amo com todas as cores” foi o quarto colocado no ranking de maio. Comparando com o mesmo mês de 2014, neste ano as vendas cresceram 27% em volume e 21% em faturamento, totalizando R$ 115,8 milhões – em 2014, foram R$ 95,7 milhões.

livros-de-colorir_8O Instituto Nielsen informa que o preço médio dos livros de colorir é de R$ 27,98 – considerando todos os segmentos, o preço é R$ 39,26. O mais caro dentre os “coloridos” pesquisados é “Netter anatomia para colorir”, que custa R$ 91,73. Mas ele tem função didática e é voltado a público específico. O vice-campeão é a versão em inglês de “Floresta encantada”, que sai por R$ 64,54. O mais barato de todos é “Contos de fada supercolorir”, com preço médio de R$ 7,89.

945-preco-do-estojoCom 120 cores, o estojo metálico top de linha da Faber-Castell é o mais caro da marca, que o descreve como voltado a “profissionais [designers, ilustradores] e amadores exigentes”. De acordo com a fabricante, há “jardineiros exigentes”, que gastaram R$ 945 para adquirir um desses, com itens importados da Alemanha. A empresa informa, no entanto, que os favoritos dos consumidores dos livros de colorir são os estojos aquareláveis de 48 cores (R$ 80) e de 36 cores (R$ 60).

livros-de-colorir_9Um efeito colateral do fenômeno foi o aumento das vendas de lápis de cor. O G1 apurou que chegou a faltar o produto em grandes redes do setor. A Kalunga informa que houve alta de 210% das vendas em maio de 2015 na comparação com o mesmo mês do ano passado. Canetas hidrográficas e apontadores também saíram mais. Na Armarinhos Fernando, a procura por lápis de cor chamou atenção sobretudo por ter ocorrido fora do período “voltas às aulas”, em que as vendas são tradicionalmente altas. A Faber-Castell informa que, em abril, as vendas cresceram cinco vezes em relação a abril de 2014. Desde então, houve reforço na produção dos estojos de 36 e de 48 cores.

livros-de-colorir_10Editado pela independente Bebel Books, “Suruba para colorir” convenientemente não tem qualquer ilustração na capa. Na  contracapa, um aviso: “18+”. Assinado pelo jornalista e escritor Xico Sá, o texto ali avisa: “Tons de cinza um cacete”. Segundo a editora, o projeto nasceu de “uma brincadeira entre amigos’. São 34 ilustrações, de nomes como Laerte, Adão, João Montanaro e Fabio Zimbres. A primeira edição saiu com 1,8 mil exemplares.  A segunda, com 3,6 mil. Diante do sucesso e dos pedidos, chegou-se a uma terceira – com 25 mil exemplares, um recorde da editora. “Pra gente, é um número inimaginável. Nem nos meus sonhos mais dourados eu iria ter conseguido”, comemora ao Bebel.

Segmento juvenil lidera crescimento nas vendas de livros em 2013

0

Publicado na Folha de S.Paulo

O segmento juvenil foi o que mais cresceu em vendas nas livrarias em 2013, segundo dados da empresa de pesquisa GfK. Em relação a 2012, passou de 7,4% para 8,4% do total de exemplares vendidos, um aumento de 24%.

O único segmento maior que o juvenil é o de literatura estrangeira, com 21% das vendas. Mas esse número é inflado pelos juvenis, já que livros lançados lá fora como “young adult” saem aqui como ficção estrangeira, caso de “A Culpa É das Estrelas” (Intrínseca), de John Green.

Embora as editoras invistam cada vez mais nesse mercado, não há uma fórmula de sucesso. Levantamento da empresa de pesquisa Nielsen mostra que 80% das vendas dos juvenis estão nas mãos de cinco das centenas de casas publicadoras do país.

Leonardo Soares/Folhapress
A americana Jamie McGuire, do 'new adult' 'Belo Desastre
A americana Jamie McGuire, do ‘new adult’ ‘Belo Desastre’

São elas Intrínseca (“Os Heróis do Olimpo”, de Rick Riordan), V&R (“Diário de um Banana”, de Jeff Kinney), Rocco (“Jogos Vorazes”, de Suzane Collins), Galera Record (“Cidade dos Ossos”, de Cassanda Clare) e Gutenberg (“Fazendo Meu Filme”, de Paula Pimenta, raro nacional num cenário de estrangeiros).

Se na década passada o mercado editorial viveu uma multiplicação dos selos infantis, esta é a dos selos juvenis. Ou, mais do que isso, a de uma reorganização no que se entende por selo juvenil.

Há um ano, a Companhia das Letras extinguiu seu selo infantojuvenil Cia das Letras e estreou o Seguinte, para público um pouco mais velho. “Concentramos no Seguinte livros com temas mais adultos. Outros, para leitores de 12, 13 anos, migramos para o Companhia das Letrinhas”, diz a editora Julia Schwarcz.

A criação do Seguinte marcou uma guinada comercial do segmento na editora, antes mais focado em livros para escolas. O maior sucesso é “Seleção”, de Kiera Cass.

Na Record, onde o juvenil garante 30% do faturamento total, o selo Galera acaba de passar por uma subdivisão.

Divulgação
John Green, autor do 'young adult' 'A Culpa é dos Estrelas
John Green, autor do ‘young adult’ ‘A Culpa é dos Estrelas’

Antes dividido em Galerinha (crianças) e Galera (adolescentes) agora tem o intermediário Galera Junior, para público de 10 a 14 anos, de séries como “Artemis Fowl”, de Eoin Colfer. Com isso, o Galera passa a visar jovens com 15 anos ou mais. “Não é tão rígido, mas ajuda a orientar os pais”, diz a editora Ana Lima.

Já a Rocco, que tem o selo Jovens Leitores desde 2000, prevê para 2014 seu selo de “new adult” (18 a 25 anos).

Curiosamente, embora sejam vendidos como juvenis, nem todos os autores de “new adult” gostam de se ver associados a esse público.

“Leitores jovens não são o alvo dos meus livros. Menos de 1% dos meus leitores têm de 13 a 15 anos. O resto tem 16 ou mais”, diz Jamie McGuire, autora da série “Belo Desastre”. (RAQUEL COZER)

Lydia Megumi/Editoria de Arte/Folhapress

Pôquer é disciplina optativa mais procurada da Unicamp em Limeira

0
Aula de pôquer na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em Limeira (foto: Rafaela Pille/Divulgação)

Aula de pôquer na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em Limeira (foto: Rafaela Pille/Divulgação)

Eduardo Schiavoni, no UOL

A aula de Fundamentos do Pôquer, que começou a ser oferecida aos estudantes do campus de Limeira da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em agosto, já é a disciplina optativa mais procurada pelos estudantes da Faculdade de Ciências Aplicadas da instituição. Já são 130 alunos matriculados e, devido à procura, a Unicamp deve expandir novamente o número de vagas.

Quando foi incluída no calendário, a matéria tinha 60 vagas. Com a procura, o total aumentou para 90 e, hoje, chegou a 130 – quantidade máxima de alunos suportada pelas instalações. No semestre que vem, segundo a instituição, uma nova turma poderá ser formada, já que pelo menos 200 pessoas se inscreveram, fazendo com que um excedente de 70 interessados não pudessem cursar a disciplina. Na média, as demais disciplinas ofertadas não passam de 60 alunos.

O professor Cristiano Torezzan, 36, é responsável pela disciplina de Fundamentos do Pôquer na Unicamp

O professor Cristiano Torezzan, 36, é responsável pela disciplina de Fundamentos do Pôquer na Unicamp

“Formamos pessoas que irão liderar equipes, liderar projetos e invariavelmente terão que tomar decisões. O pôquer é um bom laboratório para exercitar este tipo de habilidade”, avalia o matemático Cristiano Torezzan, 36, professor responsável pela matéria.

Para ele, entender as variáveis ao se tomar uma decisão é essencial para o ambiente corporativo, e a disciplina atua nesse segmento. “O poker é um jogo de estratégias, que exige concentração, paciência e coragem para tomar decisões inteligentes num cenário de informações incompletas. Cada decisão tomada em um jogo de pôquer envolve um conjunto de fatores como matemática, estratégia e análise de conjuntura, dentre outros, que devem culminar com a identificação de padrões comportamentais dos outros jogadores frente a situações de risco. É isso que queremos desenvolver com a disciplina”, disse.

O professor ressalta que cartas de baralho não são utilizadas em aula: “As aulas serão teóricas. Não haverá prática do jogo durante as aulas regulares em sala de aula, mas teremos diversos exercícios envolvendo situações de jogo online. Para isso, vamos filtrar situações onde os jogadores de pôquer precisem tomar decisões difíceis no jogo e analisar qual a melhor saída em cada caso”.

Público

Vinculada ao curso de ciências do esporte, a disciplina Fundamentos do Pôquer é frequentada também por alunos das engenharias de produção e de manufatura, administração e administração pública, nutrição e tecnologia.

Além das aulas, Torezzan informa que os alunos praticam pôquer em casa, em servidores de pôquer online, para que possam entender o jogo e criar as analogias com outras situações cotidianas. “Parte da avaliação da disciplina será baseada no desempenho dos alunos em torneios gratuitos online entre a própria turma”, esclareceu.

O futuro não é o fim, ainda

0
Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais: “A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet”

Javier Celaya, vice-presidente da Associação Espanhola de Revistas Digitais: “A grande pergunta de todo mundo é onde está o dinheiro na internet”

João Luiz Rosa, no Valor Econômico

Há dois anos, parecia que o livro impresso começava a tomar o caminho da extinção. Em abril de 2011, a Amazon anunciou que a venda de livros eletrônicos superara pela primeira vez a de papel – 105 volumes digitais para cada 100 tradicionais – e a Borders, uma das maiores cadeias de livrarias dos Estados Unidos, baixou as portas, em setembro, apenas sete meses depois de entrar com um pedido de recuperação judicial. Das 511 lojas que tinha um ano antes restavam 399.

Agora, os sinais são diferentes. As vendas dos aparelhos eletrônicos para leitura de livros, ou e-readers, que pareciam os substitutos naturais do livro em papel, vão cair dos 5,8 milhões de unidades projetadas para este ano para 2,3 milhões em 2017, prevê a consultoria Forrester. O interesse do público parece tão morno que nesta semana a Barnes & Noble, outra gigante americana das livrarias, anunciou que vai abandonar parte da produção do seu e-reader, o Nook, depois de a receita com o negócio cair 34% no trimestre, duplicando as perdas na área.

Ainda mais significativo é que as próprias vendas dos livros digitais não seguiram o ritmo espetacular que se esperava a princípio. Em uma década, entre 2002 e 2012, os e-books saíram de invisíveis 0,05% da receita do mercado editorial americano, o mais avançado na área digital, para 20% das vendas. Em outros países, permanece longe desse patamar – 10% na Espanha, 3% na Itália, pouco mais de 2,5% no Brasil.

Contra as probabilidades, os números parecem indicar que o livro é mais resistente ao tsunami digital que a música. Segundo a IFPI, principal organização mundial da indústria fonográfica, o segmento digital representou 37% da receita total do setor no ano passado, mas os números só levam em consideração as vendas legais. O que é obtido por meio da pirataria fica fora do levantamento, o que distorce o cenário. Foram as vendas ilegais, afinal, que destroçaram as regras estabelecidas no setor, cujos personagens ainda estão em busca de novos formatos comerciais viáveis. No mercado editorial, talvez por não ter ocorrido o mesmo efeito devastador, fica a impressão de que a maré digital está fraca, mas muitos especialistas acham que a grande onda ainda está por vir.

“Há 500 anos, desde a invenção da imprensa por Gutenberg, não se via uma revolução da mesma ordem e magnitude na indústria da informação”, disse o professor Silvio Meira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na abertura do IV Congresso do Livro Digital, ocorrido neste mês em São Paulo. Meira, que também é cientista-chefe do Cesar, centro de inovação com sede no Recife, contou que algum tempo atrás um executivo perguntou se as mudanças viriam antes de sua aposentadoria, daqui a dez anos. “Dez anos? Ih, pode ter certeza de que você vai enfrentar turbulência”, respondeu o professor.

Tempo, portanto, ocupa um papel especial na digitalização do livro. “Eu não diria que o ritmo [de vendas dos livros digitais] está lento ou abaixo das expectativas”, afirma Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e sócia-diretora da Girassol Brasil Edições. Embora o assunto esteja em discussão há anos, as vendas de e-books no país só começaram para valer no fim do ano passado, com uma resposta positiva tanto da indústria quanto do consumidor, avalia Karine. Pelas contas da CBL, o número de títulos em formato digital triplicou no Brasil em um ano, passando de 5 mil em 2011 para 15 mil no ano passado.

A expectativa é que a redução dos preços dos tablets dê um forte impulso aos livros digitais. Enquanto os e-readers, voltados basicamente para leitura, sofrem uma redução prematura das vendas, os tablets – que também permitem navegar na internet, ver filmes, ouvir música etc. – ficam mais baratos e ganham consumidores de mais classes sociais. A previsão da consultoria IDC é que as vendas mundiais de tablets vão chegar a 229,3 milhões de unidades neste ano, superando pela primeira vez a de notebooks, de 187,4 milhões de unidades. O preço médio vai ficar quase 11% mais baixo, em US$ 381. É por isso que, apesar do desinteresse pelos e-readers, os livros digitais teriam espaço para crescer. Em vez de aparelhos exclusivos para leitura, o consumidor estaria preferindo os tablets na hora de ler.

1

A competição acirrada pode contribuir para a adoção mais rápida dos e-books. Companhias como a Amazon, dona do Kindle, estão lançando equipamentos básicos a preços reduzidos, com margens baixíssimas de lucro, na expectativa de vender livros digitais e recuperar o investimento mais tarde. É uma manobra que tomou emprestada do setor de tecnologia da informação: fabricantes de impressoras, por exemplo, também vendem máquinas com margens apertadas para ganhar dinheiro com tinta e papel. (mais…)

Por que publicar os clássicos?

0

Editor aposta nos ícones da ficção científica para formar leitores do gênero no Brasil

Diogo Sponchiato na revista Galileu

Editora Globo

Já leu Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?. Não? Ok, mas você já assistiu (ou pelo menos ouviu falar) Blade Runner: O Caçador de Androides, certo? É bem provável que não sejam muitos os brasileiros que mergulharam nas páginas do livro de título misterioso de Philip K. Dick, que inspirou o filme de Ridley Scott. Mas, em breve, você terá uma chance de conhecê-lo e se perturbar (e se encantar) com esse autor clássico da ficção científica. A obra será lançada no segundo semestre pela Editora Aleph, principal referência em publicações do gênero no país. Para Adriano Fromer Piazzi, publisher da casa, K. Dick ilustra bem um dos papéis da ficção científica: especular e debater as inquietações humanas em relação ao futuro. Desde que lançou em 2003 Neuromancer — prestigiado livro de William Gibson, uma das fontes do filme Matrix — , a Aleph enveredou para esse nicho que, aos poucos, ganha cada vez mais leitores. Piazzi acredita que muito do preconceito contra o segmento já veio abaixo e, no Brasil, sua valorização se reflete no maior interesse da crítica e da academia. Nessa entrevista, concedida em seu escritório em São Paulo, ele fala dos clássicos e do futuro do gênero e da missão de mostrar ao mundo que ficção científica não se resume a Guerra nas Estrelas e historinhas de robôs.

Em ano de lançamento de ícones da ficção científica no Brasil, conversamos com Adriano Fromer Piazzi, publisher da Aleph, editora que virou referência no segmento. Confira a entrevista na íntegra:

GALILEU: Como é que a ficção científica entrou na editora e veio a se tornar seu carro-chefe?

A Aleph tem 27 anos e foi uma das pioneiras a publicar o gênero. Ela iniciou, nos anos 1990 com o meu pai, uma série de ficção científica com cinco livros, a coleção Zênite. Um deles era o clássico Neuromancer, de William Gibson. Depois passamos por diversas mudanças estratégicas até que, em 2003, por causa do filme Matrix, um consultor nos sugeriu: por que vocês não relançam Neuromancer, já que ele foi uma das fontes inspiradoras do filme? Analisamos essa possibilidade e começamos a discutir a oportunidade de retomar não apenas o Neuromancer, mas uma linha de clássicos de ficção científica com uma proposta diferente: fazer o público jovem conhecer os principais livros de ficção científica. Não só o jovem, mas o público não-leitor de ficção científica. Se ficássemos só com os fãs do gênero, estaríamos ferrados, porque o número deles, em 2003, era muito pequeno. Precisávamos aumentar esse público e nossa estratégia foi buscar dar aos livros uma cara que não fosse tanto de ficção científica. Abandonamos nas capas aquele conceito de naves espaciais e robôs. Pensamos em projetos gráficos mais pops, com mais cara de obra literária. E o marco disso foi o relançamento do Neuromancer, com nova tradução e ilustração do Titi Freak, grafiteiro super conhecido hoje. Depois dele veio Laranja Mecânica, cuja edição no Brasil estava esgotada. Retomamos essa linha e percebemos que havia interesse para um segmento que estava abandonado pelas editoras brasileiras. Daí nossa proposta de publicar tudo que é clássico, livro importante de ficção científica, inédito por aqui ou que se encontrava esgotado há algum tempo. E lançamos Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Philip K.Dick…

E desde então mudou o panorama de leitores desse gênero no Brasil?

Sim, o público cresceu significativamente. E isso foi acompanhado de uma valorização da cultura geek. A ascensão do geek começou a ser observada por pessoas que não se enquadravam geralmente nesse perfil. Virou cool ser nerd, ser geek… E a ficção científica acompanhou esse processo. Antes era uma coisa de nicho, exclusiva de fã. Outras pessoas passaram a notar que ela é uma literatura de inspiração. A ficção científica tem um diferencial, por exemplo em relação à literatura de fantasia, porque se propõe a algo mais realista, de base científica. Por mais que algo seja absurdo ali, ele será embasado, terá uma explicação. Hoje ficou feio não ler Asimov. Dá pra dizer que é a mesma coisa que não ler Gabriel Garcia Márquez. E, particularmente no Brasil, a ficção científica passou a ganhar atenção da academia, a virar objeto de muitos trabalhos, dissertações de mestrado… As pessoas estão estudando, por exemplo, Philip K. Dick [autor de, entre outros, o livro que inspirou o filme Blade Runner]. Ele é um filósofo, que usa a ficção científica como pano de fundo. O preconceito contra esse nicho tem diminuído na medida em que as pessoas percebem que ele não se resume a Guerra nas Estrelas. Aliás, os puristas nem consideram Guerra nas Estrelas ficção científica. Ela seria uma fantasia espacial: a Força se refere a algo mágico. É mais fantasia que ficção científica. Diferente do Star Trek, que seria uma ficção científica no sentido clássico.

Com base nisso, dá pra dizer que o segmento tem um bom horizonte pela frente?

Temos livros que vendem muito e outros, bem pouco. O que mais vende aqui na editora hoje é o Laranja Mecânica, seguido do Neuromancer. O autor que mais vende é o Asimov. Não são vendas exorbitantes, mas é um mercado que tem muito a ser explorado. Ainda há muita gente que não sabe o que é ficção científica, que acha que isso só tem a ver com robôs. No início, fazíamos questão de não mencionar, de não propagar que aqueles eram livros de ficção científica. Queríamos passar a impressão de que William Gibson, Philip K. Dick e os outros eram somente literatura. Hoje estamos mostrando cada vez mais nossa cara de ficção científica.

Como você avalia a evolução da ficção científica ao longo do século 20, período que rendeu os clássicos que vocês têm publicado?

O grande boom da ficção científica se deu na chamada Golden Age, a idade dourada desse segmento, o que aconteceu lá nos anos 1930, 1940. Foi ali que surgiram os grandes autores: Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Robert Heinlein. Nessa época o tema era mais hard, científico mesmo. Asimov faz questão de explicar cientificamente cada um dos processos que aborda, como se viaja no espaço, como é possível chegar até certa galáxia. Eles tinham essa preocupação porque eram cientistas. Clarke foi o inventor do satélite. Sim, a ideia de um satélite veio de um autor de ficção científica. O próprio Asimov publicou, dentro da sua numerosa obra, vários livros de divulgação científica. Eles tinham esse cuidado com a precisão nas questões que envolviam ciência. Nos anos 1960 e 70, vem o movimento New Age, representado por Philip K. Dick, que procura trazer abordagens existenciais, sociológicas e filosóficas a esse tipo de literatura. É dessa fase Ursula Le Guin, uma das poucas mulheres que se sobressaem no gênero, autora de um livro fantástico, A Mão Esquerda da Escuridão, que é um verdadeiro tratado sociológico, de libertação sexual, onde a ficção científica só aparece como pano de fundo mesmo. Fazer a história se passar em outro planeta serve apenas para gerar estranheza. É um planeta onde o ser humano não tem sexo, que ele só se manifesta no momento do cio e isso é aleatório: a natureza faz o indivíduo ser homem ou mulher; na próxima vez, isso pode se inverter. Assim, você pode ser pai e mãe em uma sociedade de andróginos que, tirando o período de cio, não tem apetite sexual. Aí, um enviado especial vai para lá e passa a viver dentro dessa estranheza, se apaixona por alguém, que nem sabemos o que é. A ficção serve, nesse caso, como cenário onde são feitas indagações sociológicas e psicológicas. Já nos anos 1980 começa o movimento Cyberpunk, que pode ser resumido por aquele clima de Blade Runner. Os autores passam a abordar aspectos sombrios da tecnologia. Ela passa a ser vista não mais como algo positivo. O clássico que abre esse caminho é o Neuromancer, do Gibson.

(mais…)

Go to Top