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O menino que roubava livros

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Sem edição ou o glamour do cinema, drama da vida real é o dedo na ferida do ensino brasileiro…

Camila Abud, no DCI

No livro de Zusak, lançado em 2006, é difícil não se emocionar com o drama da protagonista Liesel, uma menina que aprende a ler a duras penas e, assim, consegue sair da letargia

No livro de Zusak, lançado em 2006, é difícil não se emocionar com o drama da protagonista Liesel, uma menina que aprende a ler a duras penas e, assim, consegue sair da letargia

O best-seller “A menina que roubava livros” aborda de maneira direta e impactante as mazelas do nazismo, em uma época de perseguição a comunistas e jovens que se rebelavam contra o genocídio de judeus por Hitler. Na obra, uma jovem aprende a ler e se apoia nas publicações para obter um sopro de esperança no futuro. E o que isso tem a ver com o Brasil? Bem, enquanto a obra de Markus Zusak trata de uma história fictícia, aqui ela é real, e guardadas as devidas proporções, também impressiona.

Um menino foi preso em flagrante na região Nordeste quando roubava três livros, em uma livraria no Salvador Shopping. Há informações de que a fiança teria sido fixada em dois salários mínimos e o jovem teria roubado os livros por não ter dinheiro para comprá-los. Pior, ainda confessou ter levado outras obras, com conteúdo pedagógico.

No contexto social, as convenções indicam que um meliante deve ser punido, pois há a ideia de se manter um perfil corretivo, com a intenção de reeducar o indivíduo para que não volte a cometer delito. Há, ainda, o caráter exemplar, com a intenção de desincentivar outras pessoas a cometerem atos semelhantes. Apesar disso, imaginar um jovem de 19 anos preso por esse motivo, realmente é alarmante.

No livro de Zusak, lançado em 2006, é difícil não se emocionar com o drama da protagonista Liesel, uma menina que aprende a ler a duras penas e, assim, consegue sair da letargia. Com os pensamentos soltos, ela ganha um tipo de sobrevida em meio ao caos, pois amplia o vocabulário e cria uma espécie de Aurélio, usando as paredes de um sótão como o seu grande quadro negro. O drama fez tanto sucesso que ganhou até uma adaptação para o cinema, e o longa-metragem ainda pode ser conferido, pois ainda está em cartaz.

A fatalidade no caso da vida de Liesel era a de ter sido abandonada pela mãe, após ter perdido o irmão mais novo. Ela ainda tinha de viver aos sobressaltos, pois temia a aproximação de militares da Gestapo. Já o jovem que mora na Bahia, e que fora perseguido por policiais de verdade, sentiu na pele o resultado de suas escolhas. Sem apologia ao crime, longe disso. A ideia aqui é discutir a respeito da condição humana e de como a sociedade reage em um caso como esse. Afinal, do ponto de vista dos negócios, o que caberia à rede de livrarias fazer? É complicado.

A família do jovem preso teve de angariar dinheiro para pagar a fiança e tirá-lo do Complexo Penitenciário da Mata Escura. O garoto brasileiro informou que viu no furto uma das poucas opções para adquirir os livros, já que a sua mãe não tinha condições de comprá-los. E confessou ainda o roubo de cerca de dez outras obras, todas para estudar. No best-seller sobre Liesel, contado de maneira exótica por ser narrado por ninguém menos do que a morte, é difícil não se chocar. Já no drama lado B — justamente de Brasil —, a demora dos royalties do pré-sal para a Educação poderá custar muito caro, ao que parece. O preço pode ser aquele a ser pago por uma geração inteira de pessoas carentes, e cada vez mais marginalizadas pela falta de oportunidades, onde se verifica um abismo social a perder de vista.

Por falta de estrutura da escola, estudante autista repete série pela 3ª vez

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Sem dificuldades de aprender, alunos autistas ficam retidos porque escolas não têm salas pequenas em todas as séries

Julia Carolina, no Último Segundo

Mayara tinha dois anos e meio quando, após os pais notarem que ela não pronunciava uma única palavra, foi diagnosticada com autismo. Hoje, aos dez, ela fará o 3º ano do ensino fundamental pela terceira vez. E não é por dificuldade no conteúdo. Longe disso.

Arquivo pessoal Lucinete luta para que a filha Mayara tenha educação

Arquivo pessoal
Lucinete luta para que a filha Mayara tenha educação

Apesar de não se comunicar, aos 3 anos ela já sabia ler, conta a mãe, Lucinete Ferreira de Andrade, presidente da Associação Brasileira de Autismo e Intervenção (Abraci). Atualmente, consegue acompanhar o conteúdo. “Hoje a Mayara é alfabetizada, está trabalhando com números, mas não retiro o desgaste que foi”.

Um desgaste que, em partes, continua. Pelas características próprias do autismo, Mayara tem dificuldade de comunicação e socialização. Por isso, precisa estudar em salas com poucos alunos. O que, na escola em que estuda, só existe até o terceiro ano.

Logo, quando iria passar para o quarto ano, em uma sala com muitos alunos, Lucinete precisou procurar a Defensoria e entrar com um pedido para que a filha não fosse promovida e continuasse a frequentar as aulas na sala de integração inversa, que comporta no máximo 15 alunos.

“É claro que eu queria que ela fosse adiante, mas ela não pode ficar em uma turma grande, ainda mais sem monitoria. A sala grande, além de assustar, não tem tanto suporte. O professor não consegue falar ao lado da criança. A criança com autismo precisa de um atendimento diferente.”

A falta de infraestrutura também é uma realidade para outros pais. Ana Paula dos Santos Carvalhos, 33, dona de casa, é mãe de duas crianças com autismo: Gabriel, oito anos, e Verônica, de nove. Neste ano, os dois deixaram a sala de integração inversa e começaram a estudar em um classe de tamanho padrão, com cerca de 30 alunos.

“Eles acompanham a matéria, mas têm suas limitações. O autismo é uma caixinha de surpresa. O Gabriel fica bastante frustrado na presença de muitas pessoas. Gostaria de manter, ao menos por mais um ano, os meninos na sala de integração inversa”.

A diretora ofereceu a mudança para o período da tarde, que tem as turmas de integração inversa, mas Ana Paula não aceitou porque é o período em que eles frequentam as atividades terapêuticas. O combinado é que, caso eles não se adaptem à nova sala, a direção tentará outro esquema.

Muitos alunos na sala

Sem opção de salas pequenas, a dona de casa Luciene Pereira de Almeida, 34, tenta ajudar Felipe, o filho autista de 9 anos, a adaptar-se ao ambiente populoso. “É muito difícil porque a audição dele é muito sensível. Ele não gosta de barulho, então quer sair do local, chora, é muito sofrido”, afirma.

Atualmente, Felipe cursa o 5º ano do ensino fundamental em uma sala com 22 alunos. Se tivesse opção, Luciene matricularia o filho em uma turma menor. Mas desde que fosse com alunos de sua idade e série. “Ele precisa estar incluído com alunos da sua idade. (…) Mas se ele estivesse em uma sala menor, seria melhor para seu aprendizado. Se tem muito barulho, ele não consegue copiar ou fazer atividades. Com menos alunos, ele conseguiria entrar no mesmo ritmo das outras crianças.”.

Falta estrutura para atendimento

Questionada pelo iG, a responsável pela política de inclusão da Secretaria de Educação do Distrito Federal, Maraisa Borges, afirmou que os estudantes passam por equipes de avaliação para definir em que sala ficarão. Eles podem ser encaminhados para salas menores – que têm de dois a quinze alunos – ou para uma sala regular.

Maraisa disse, ainda, que os pais podem solicitar um docente para acompanhar o aluno nas salas regulares, mas admite que não é fácil conseguir o profissional na rede pública “por falta de professores”.

O primeiro passo, orienta, é procurar a regional de ensino responsável pela escola. Um caminho que Lucinete diz já ter percorrido. “Já procurei. Fazer esse caminho é o mais fácil. O problema é que a Mayara não pode ficar em uma sala grande, e não tem sala de integração inversa no 4º ano”, diz.

Sem rugas, Mafalda faz 50 anos

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Mafalda foi criada em 1962 para uma campanha publicitária, mas alcançou o sucesso só depois da primeira tirinha, em 1964

Foto: Ver Descrição / Reprodução

Foto: Ver Descrição / Reprodução

Publicado por Zero Hora

Viva Mafalda! A menina anticonformista criada por Quino em 1964 completa 50 anos sem perder a atualidade porque muitas das coisas que ela questionava continuam sem solução na Argentina e no mundo, afirma o famoso autor.

– Às vezes fico surpreso como algumas tiras desenhadas há mais de 40 anos ainda podem ser aplicadas a questões de hoje – declarou o roteirista e desenhista argentino de 81 anos, em uma entrevista por e-mail à AFP de Madri, onde mora parte do ano.

O restante do tempo ele vive em Buenos Aires. Por motivos de saúde não compareceu ao Festival Internacional de Quadrinhos de Angulema (sudoeste da França), que montou uma exposição em homenagem a Mafalda.

Através do olhar crítico da menina de classe média, Quino apresentou a própria visão anticonformista do mundo. Não gosta de futebol – diz que não entende – e que foi apenas duas vezes a um estádio. Mafalda não gosta de sopa e critica o mundo dos adultos. Seus temas favoritos são os problemas econômicos e sociais, as desigualdades, a injustiça, a corrupção, a guerra e o meio ambiente.

– Sem ir muito longe, ano passado saiu na Itália um livro sobre Mafalda. O mais incrível é como muitas histórias pareciam fazer referência direta à campanha de Berlusconi – comenta.

Revanche imediata

Há exposições previstas na Argentina, Itália, Espanha, Canadá e México sobre Mafalda e os 60 anos de carreira de seu autor, cujo nome verdadeiro é Joaquín Salvador Lavado Tejón, nascido em 17 de julho de 1932 em Mendoza (oeste da Argentina).

Desde o primeiro álbum, Mundo Quino, publicado em 1963, é considerado um dos principais humoristas gráficos do país. Mas foi a pequena menina de cabelo preto e fita vermelha que o levou à fama em 1964. Quino havia esboçado a personagem um ano antes, em uma tira de publicidade de uma marca de eletrodomésticos que não prosperou.

– Adaptei a tira. Como não tinha que elogiar as virtudes de nenhum aspirador, a fiz reclamar, carrancuda. Foi uma revanche imediata.

Quino fazia desenhos cheios de humor e poesia 11 anos antes de criar Mafalda e continuou nesta área depois de encerrar as aventuras da popular personagem em 1973.

Sem censura

Depois veio o exílio em Milão em 1976, com o golpe militar, o pior momento de sua vida.

– A pátria significa juventude, portanto o fato de estar longe tornou meu humor um pouco menos vivaz, mas talvez algo mais profundo.

Segundo o desenhista, durante a ditadura “Mafalda não foi censurada”. – Acredito que porque a arte das tiras era considerada um gênero menor, que não representava uma ameaça como voz histórica. Os desenhos não aparentavam ser uma arte altamente intelectual e eram percebidos como entretenimento. Quino explica que acabou com a série porque “estava cansado de fazer sempre a mesma coisa”.

– A decisão passou até por áreas conjugais, porque minha mulher estava chateada de não saber se podíamos ir ao cinema, convidar pessoas para jantar, porque eu ficava até as 10 da noite com as tiras. Além disso, era muito difícil não repetir. Quando não tinha mais ideia, recorria a Manolito ou a Susanita, que eram os mais fáceis. Se tivesse continuado, os mais ricos eram Miguelito e Libertad – diz.

– Havia um professor da minha geração, Oski, e ele nos disse que nunca tivéssemos um personagem fixo. E que se tivéssemos, deveríamos pegar a tira e tapar o último quadrinho com a mão. Se o leitor adivinhasse como terminaria, deveríamos parar de fazê-lo. Me pareceu um bom momento e não imaginei que 40 anos depois continuaria vigente.

Mafalda é muito famosa em vários países e Quino diz que fica surpreso com o fato de ser uma das 10 figuras argentinas mais famosas do século XX.

– Acredito que a temática é comum a todos os grupos familiares humanos, estejam na China, na Finlândia ou na América Latina.

Alguns comparam a menina argentina de classe média a Charlie Brown, personagem criado pelo americano Charles Schulz. Para Quino, “Mafalda pertence a um país denso de contrastes sociais, que apesar de tudo queria integrá-la e fazê-la feliz, mas ela se nega e rejeita todas as ofertas”.

– Charlie Brown vive em um universo infantil próprio, do qual estão rigorosamente excluídos os adultos, com a diferença de que as crianças querem virar adultos. Mafalda vive em um contínuo diálogo com o mundo adulto, mas o rejeita, reivindicando o direito de continuar sendo uma criança.

De acordo com o autor, “Schulz criou personagens antipáticos, simpáticos, bons, maus, invejosos e isto foi uma revolução. Eu peguei bastante dele, mas como não sou americano fiz uma adaptação muito argentina da coisa”. Ao ser questionado sobre como vê a Argentina e o mundo de hoje, Quino mantém a postura.

– Nossa obrigação é acreditar que o futuro vai ser melhor, mas no fundo sabemos que tudo continuará sendo como até agora.

Sem descanso após Fuvest, aluno faz aniversário em ‘aulão’ da Unicamp

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Sem bolo e festa, estudante comemorou a data estudando em Campinas.
João Teixeira é um dos candidatos do vestibular 2014 para engenharia.

João Guilherme Teixeira intensificou os estudos para a 2ª fase da Unicamp (Foto: Arthur Menicucci/ G1)

João Guilherme Teixeira intensificou os estudos para a 2ª fase da Unicamp (Foto: Arthur Menicucci/ G1)

Publicado por G1

Um dia após a maratona de provas do vestibular da Fuvest 2014, as salas dos cursinhos em Campinas (SP) voltaram a lotar para os “aulões” nas vésperas da segunda fase da seleção para a Unicamp, que começa neste domingo (12). Na reta final e sem descanso, o aniversariante João Guilherme Teixeira ‘comemorou’ os 21 anos entre os 170 candidatos no plantão do Objetivo na manhã desta quarta-feira (8). Entre testes e atenção redobrada para as últimas orientações dos professores, um pedido especial: passar em engenharia, em pelo menos uma das três universidades públicas que escolheu.

A segunda fase será realizada em três dias consecutivos, a partir de domingo (12). Os candidatos respondem a 24 questões dissertativas. No primeiro dia, a prova é de língua portuguesa, de literaturas da língua portuguesa e matemática. Os exames seguintes são de artes, língua inglesa e ciências humanas. Para o terceiro dia fica o conteúdo de ciências da natureza.

Apesar do dia do aniversário, candidato não deixou os estudos (Foto: Arthur Menicucci/ G1 Campinas)

Apesar do dia do aniversário, candidato não deixou
os estudos (Foto: Arthur Menicucci/ G1 Campinas)

Com a concorrência acirrada e o prazo curto, Teixeira deixou as comemorações de lado e optou por livros e uma série de testes de simulado. Festa só depois do término da temporada dos últimos três dias de prova. No segundo ano dedicado apenas para os estudos para ingressar na carreira de engenheiro, o candidato explica que o cansaço já “aperta”, pois além da Unicamp e da Fuvest, ele também prestou o concurso para Unesp.

“Não vejo a hora de terminar, sinceramente parece que não é meu aniversário, porque normalmente eu chego a celebrar até três vezes a data”, diz Teixeira. Apesar da siatuação, o estudante não se desanima.

A esperança é a última que morre”
João Guilherme Teixeira
candidato da Unicamp

Preferência por química
Caso passe nas instituições, Teixeira pretende escolher a Fuvest, já que a especialidade do curso por química é a mesma opção que fez na escola técnica. “A esperança é a última que morre. Meu sonho futuro é trabalhar em uma boa multinacional e ser bem remunerado”, deseja o candidato. Para o vestibular da Unicamp, ele tenta passar no curso integral de engenharia agrícola, em que a concorrência é de 3,3 por vaga.

Reforço extra
Desde novembro e até mesmo durante as festas de fim de ano, Teixeira disse que não deixou de se dedicar. Durante a semana, ele saia do Jardim do Lago e se dirigia para a região central da cidade para se concentrar e ficar ao menos 12 horas estudando. “Desde o início do ano estabeleci passar no vestibular como meta e abri mão de muitas coisas. Meus amigos até tiram sarro e chegam a falar que estou morando no cursinho e do jeito que estou estudando dá até para entrar na Nasa [agência espacial americana]”, brinca. Ainda segundo o aluno, além do apoio dos colegas, ele conta com os pais para o suporte financeiro e também o reforço psicológico.

Cerca de 170 estudantes compareceram as aulas na véspera do vestibular (Foto: Arthur Menicucci/G1)

Cerca de 170 estudantes compareceram as aulas
na véspera do vestibular (Foto: Arthur Menicucci/G1)

2ª fase da Unicamp
Para a segunda fase do vestibular são esperados 15.761 candidatos. Os candidatos concorrem a 3.460 vagas em 69 cursos da Unicamp e dois cursos da Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto).

A Comvest também disponibilizou a relação candidatos-vaga para a segunda fase. Foram convocados para a segunda fase os candidatos que obtiverem nota igual ou superior a 550 pontos na primeira fase, em número mínimo de três e máximo de seis vezes o número de vagas do curso escolhido em primeira opção.

Locais de prova
Os locais de prova são informados individualmente, no momento da consulta à lista de aprovados, por meio do número de inscrição ou nome do candidato. Segundo a comissão, os candidatos devem ficar atentos aos locais das provas que foram divulgados em dezembro e estão disponíveis na página da Comvest, já que não serão necessariamente os mesmos onde foi feita a primeira fase.

Próximas datas
As provas de habilidades específicas, para os cursos de arquitetura e urbanismo, artes cênicas, artes visuais e dança serão realizadas em Campinas entre os dias 20 e 24 de janeiro de 2014. A chamada para matrícula virtual será divulgada dia 3 de fevereiro e os convocados nesta chamada deverão efetivar o processo nos dia 4 ou 5 de fevereiro, exclusivamente na página eletrônica da Comvest, em formulário específico.

No total foram 68.705 candidatos que fizeram a prova da primeira fase em novembro. Eles concorrem a 3.460 vagas em 69 cursos da Unicamp e dois cursos da Faculdade Pública de Medicina de São José do Rio Preto. A Comvest registrou um número recorde de inscritos no Vestibular para este ano com 73.818 candidatos.

Candidatos lotam sala de cursinho nas vésperas do vestibular da Unicamp (Foto: Arthur Menicucci/ G1)

Candidatos lotam sala de cursinho nas vésperas do vestibular da Unicamp (Foto: Arthur Menicucci/ G1)

Pesquisas mostram que o método da educação autoritária não funciona

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Ser filho de uma mãe-tigre não é uma receita de sucesso, muito menos de felicidade. E causa problemas

Thais Lazzeri na revista Época

BUSCA PELA EXCELÊNCIA Amy Chua,  a mãe-tigre, com as filhas Lulu e Sophia. Elas deram certo, mas as pesquisas mostram que  são exceção (Foto: Nancy Kaszerman/ZUMA Press/Corbis)

BUSCA PELA EXCELÊNCIA
Amy Chua (à direita), a mãe-tigre, com as filhas Lulu e Sophia. Elas deram certo, mas as pesquisas mostram que são exceção (Foto: Nancy Kaszerman/ZUMA Press/Corbis)

Quando o livro da sino-americana Amy Chua Grito de guerra da mãe-tigre (ed. Intrínseca) foi publicado, há dois anos, começou um árduo debate sobre a melhor maneira de educar os filhos. No livro, Amy, professora da Universidade Yale, nos Estados Unidos, defendeu rigidez nos estudos e nas aulas de música (violino ou piano) para criar gênios. Assim, dizia ela, pais chineses criavam seus filhos. O método ficou conhecido como “mãe-tigre”. Para demonstrar o funcionamento, Amy contou em detalhes, no livro, como era o dia a dia com suas filhas, Sophia e Lulu, hoje adultas e bem-sucedidas. Ela obrigava as filhas a estudar várias horas por dia, todos os dias, sem nenhum tipo de entretenimento. No livro, as expôs publicamente – numa passagem, chama uma delas de lixo. Para Amy, o esforço seria recompensado pelo sucesso acadêmico. Por isso, dizia ela, as famílias ocidentais falham na criação dos filhos. Os pais exigem pouco e produzem jovens desinteressados e preguiçosos. A polêmica que o livro provocou nos EUA chegou também ao Brasil. Escolas procuradas por ÉPOCA afirmam que o método “mãe-tigre” gerou intenso debate em 2011. Os pais levavam os pontos de vista de Amy às reuniões com professores.

Para Su Yeong Kim, pesquisadora de desenvolvimento humano na Universidade do Texas, o comportamento de Amy não surpreende. Ela estuda o comportamento de mais de 400 famílias sino-americanas, como a de Amy, há mais de uma década. O estudo de Su, considerado o mais completo já produzido, foi publicado neste ano. Com base em questionários respondidos por pais e filhos sobre educação e relacionamento familiar, Su identificou no grupo pesquisado quatro tipos de pais: “relapso”, “apoiador“, “autoritário” e um que chamou, inicialmente, de “tirano”. Ao ler as primeiras reportagens sobre o livro de Amy, Su passou a chamar os tiranos de “tigres”. Os resultados de sua pesquisa sugerem que ser uma mãe ou um pai-tigre, ao contrário do que Amy afirma, é um comportamento pouco comum nas famílias chinesas – menos de 7% dos pais se encaixaram nesse perfil. “A maioria valoriza a educação e dá apoio para que a criança consiga progredir”, afirmou Su a ÉPOCA. O sucesso acadêmico tampouco se mostrou comum nessas famílias. Os filhos dos tigres, concluiu a pesquisa, frequentemente vão mal na escola e têm dificuldade em construir amizades. Até com os pais se relacionam mal.

Por que a pesquisa de Su mostrou uma realidade tão diferente daquela descrita por Amy? Uma série de equívocos históricos e culturais explica essa diferença. Seu primeiro equívoco foi apresentar seu método de educação como intrinsecamente chinês. É verdade que valores como perseverança e determinação, que Amy defende, foram promovidos na China durante a Era Maoísta, de 1949 e 1976. Mas, a partir do século XXI, esses valores tradicionais da sociedade chinesa passaram a ser considerados fora de moda, segundo a antropóloga Terry Woronov. Ela estuda infância na China contemporânea, principalmente em áreas urbanas, para a Universidade de Sydney, na Austrália. Passou dois anos pesquisando sobre o tema na China. Para Terry, o modelo de educação praticado por chineses em todo o mundo, hoje em dia, é uma combinação entre tradição e ideologia chinesas com práticas ocidentais. Nada tem a ver com as práticas autoritárias de Amy.

O segundo equívoco da mãe-tigre, apontam as pesquisas, é menosprezar o choque cultural que as famílias chinesas enfrentaram em solo americano. Os pais chineses e seus filhos combinaram seus valores e crenças ao que percebiam de melhor na nova cultura. O resultado não é educação chinesa; é educação mista. O terceiro erro de Amy foi apresentar sua maneira de criar as filhas como um modelo de sucesso. Há três décadas pesquisadores investigam o impacto da educação rigorosa no curto e no longo prazo. A produção científica é conclusiva: ser filho de uma mãe-tigre não é uma receita de sucesso, muito menos de felicidade.

Nos anos 1980, o professor de desenvolvimento infantil David Elkind alertou sobre os riscos de criar filhos dessa maneira. Seu mergulho no universo infantojuvenil resultou no clássico Sem tempo para ser criança: a infância estressada. À medida que a cobrança por resultados cresce, afirma David, diminui a chance de a criança tentar experimentar, porque não pode cometer erros. Sem prazer, estudar fica chato. Esse ciclo compromete a curiosidade e a criatividade. O psicólogo Yves de La Taille, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, compara essa criança a uma máquina que funciona apenas buscando resultados. Por ser máquinas, não sabem interagir nem fazer as próprias escolhas. Em outras palavras, não desenvolvem habilidades sociais essenciais à sociedade atual, como relacionamento interpessoal e tomada de decisões.

A criança, por não conseguir atingir as metas impostas pelos pais, sente que não é boa o suficiente. “Sem autoestima, perde a confiança em si mesma”, diz Yves. “Isso pode levar à sensação de fracasso para a vida toda.” Essa foi a trajetória de Kim Wong Keltner, de 43 anos, sino-americana, filha de uma mãe-tigre. No começo do ano, Kim lançou Tiger babies strike back (Bebês tigres contra-atacam, em tradução livre, sem previsão de ser lançado no Brasil). Para Kim, a falta de afeto era o que mais incomodava. “Não recebia nem abraços nem beijos de boa-noite. Quando tentava abraçá-los, me perguntavam por que estava fazendo aquilo”, disse Kim a ÉPOCA. Ela se sentia frequentemente fracassada. Ainda hoje diz ser tomada por esses pensamentos. Kim precisou se afastar dos pais para recomeçar. Casou-se, mora a três horas de distância dos pais e, com o marido, decidiu fazer uma família diferente daquela que teve. Sua filha Lucy tem 9 anos. Desde que a menina nasceu, diz Kim, fazê-la feliz tem sido sua missão.

Mãe-tigre na prática (Foto: ÉPOCA)

 

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