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Como a Finlândia, país referência em educação, está mudando a arquitetura de suas escolas

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Distinção entre salas de aula e corredores deixam de existir (Foto: Kuvatoimisto Kuvio Oy)

Distinção entre salas de aula e corredores deixam de existir (Foto: Kuvatoimisto Kuvio Oy)

Com plano aberto e menos divisórias, centros de ensino buscam mais flexibilidade, autonomia dos alunos e um espaço mais adequado ao aprendizado baseado em projetos.

Publicado no G1 [via BBC Brasil]

Faz anos que a Finlândia se tornou referência mundial em educação, mesclando jornadas escolares mais curtas, poucas tarefas e exames e também adiando o início da alfabetização até que as crianças tenham sete anos de idade.

E, mesmo com um dos melhores resultados globais no PISA (avaliação internacional de educação), o país continua buscando inovações – inclusive na estrutura física das escolas.

Uma das apostas é o chamado ensino baseado em projetos, em que a divisão tradicional de matérias é substituída por temas multidisciplinares em que os alunos são protagonistas do processo de aprendizado.

Parte das reformas é imposta pela necessidade de se adaptar à era digital, em que as crianças já não dependem apenas dos livros para aprender. E tampouco os alunos dependem das salas de aula – pelo menos não das salas de aula atuais.

Adeus às paredes

Por isso as escolas finlandesas estão passando por uma grande reforma física, com base nos princípios do “open plan”, ou plano aberto. A busca é, essencialmente, por mais flexibilidade.

As tradicionais salas fechadas estão se transformando em espaços multimodais, que se comunicam entre si por paredes transparentes e divisórias móveis.

O mobiliário inclui sofás, pufes e bolas de pilates, bem diferentes da estrutura de carteiras escolares que conhecemos hoje.

“Não há uma divisão ou distinção clara entre os corredores e as salas de aula”, diz à BBC Mundo (serviço em espanhol da BBC) Reino Tapaninen, chefe dos arquitetos da Agência Nacional de Educação da Finlândia.

Desse modo, explica ele, professores e alunos podem escolher o local que considerarem mais adequado para um determinado projeto, dependendo, por exemplo, se ele for individual ou para ser executado em grupos grandes.

Mas não se trata de espaços totalmente abertos, mas sim de áreas de estudo “flexíveis e modificáveis”, agrega Raila Oksanen, consultora da empresa finlandesa FCG, envolvida nas mudanças.

“As crianças têm diferentes formas de aprender”, diz ela, e por conta disso os espaços versáteis “possibilitam a formação de diferentes equipes, com base na forma como eles prefiram trabalhar e passar seu tempo de estudo”.

Diferentes ambientes

O conceito de plano aberto deve ser entendido de forma ampla – não só sob perspectiva arquitetônica, mas também pedagógica.

Segundo a consultora, isso significa que não se trata apenas de um espaço aberto no sentido físico, e sim de um “estado mental”.

Mobiliário passa a incluir sofás e pufes em vez de tradicionais carteiras (Foto: Kuvatoimisto Kuvio )

Mobiliário passa a incluir sofás e pufes em vez de tradicionais carteiras (Foto: Kuvatoimisto Kuvio )

Tradicionalmente, as salas de aula “foram projetadas para satisfazer as necessidades dos professores”, afirma Oksanen.

“A abertura (física) almeja que a escola responda às necessidades individuais dos alunos, permitindo a eles que assumam a responsabilidade por seu aprendizado e aumentem sua autorregulamentação”, diz ela. “Os próprios alunos estabelecem metas, resolvem problemas e completam seu aprendizado com base em objetivos.”

Vale destacar que a ideia do plano aberto não é totalmente nova.

Na própria Finlândia, as primeiras escolas com esse modelo foram idealizadas nos anos 1960 e 70, como grandes salões separados por paredes finas e por cortinas, explica Tapaninen, da Agência Nacional de Educação da Finlândia.

Conceito de "plano aberto" não se refere apenas ao ambiente físico, mas a um conceito pedagógico, dizem especialistas (Foto: Kuvatoimisto Kuvio Oy)

Conceito de “plano aberto” não se refere apenas ao ambiente físico, mas a um conceito pedagógico, dizem especialistas (Foto: Kuvatoimisto Kuvio Oy)

Mas na aquela época a cultura de aprendizado e os métodos de trabalho não estavam adaptados a esse tipo de ambiente. Além disso, havia reclamações quanto ao barulho e à acústica. Por tudo isso, nos anos 1980 e 90 o pais retomou o modelo de salas de aula fechadas.

Agora, um dos objetivos da reforma do sistema educacional finlandês é desenvolver novos ambientes de aprendizado e métodos de trabalho.

A ideia é que espaços físicos inspirem o aprendizado, mas não é preciso limitar-se à escola ou mesmo a um lugar físico.

“(As aulas) devem usar outros espaços, como a natureza, museus ou empresas”, explica Tapaninen.

“Videogames e outros ambientes virtuais também são reconhecidos como ambientes de aprendizagem. A tecnologia tem um papel crescente e significativo nas rotinas escolares, permitindo aos alunos envolver-se com mais facilidade no desenvolvimento e na seleção de seus próprios ambientes.”

Sem sapatos

A escolha pelo modelo trouxe desafios: o barulho e a luz intensificados pelo plano aberto, por exemplo, precisam ser levados em conta na criação de um bom ambiente de aprendizado.

“O uso de carpete no chão eliminou o ruído causado pelos móveis e pelo caminhar das pessoas”, explica o arquiteto.

E as escolas se converteram em espaços “sem sapatos”: os alunos ficam descalços ao entrar ou usam calçados leves.

Escolas mais abertas podem ser também mais vulneráveis, o que desperta preocupações com segurança.

“Já tivemos na Finlândia casos de invasores que atacaram escolas, matando estudantes e professores”, explica Tapaninen.

Ele se refere, por exemplo, ao caso de um estudante de 18 anos que dez anos atrás disparou contra seus colegas em uma escola em Tuusula, deixando oito mortos.

Por conta disso, cada escola finlandesa é obrigada a ter um plano de segurança com base na análise de riscos, criar rotas de fuga em cada espaço e fazer simulações de ataques para preparar os alunos.

Mas, segundo Tapaninen, a abertura das escolas “ajuda a orientação a rotas de fuga, mais do que em salas de aula fechadas e em corredores”.

A Finlândia tem 4,8 mil centros de ensino básico e superior. Anualmente, o país está reformando ou construindo entre 40 e 50 espaços, explica o arquiteto. E a maior parte deles segue o conceito de plano aberto.

“As escolas e seus usuários podem escolher livremente seu próprio conceito de ambiente de aprendizado, dependendo da visão local, do plano de estudos, da cultura de trabalho e de seus métodos”, diz ele. “Aparentemente, a tendência de abertura nos ambientes educativos está se tornando a favorita (das escolas).”

Livro do menino do Acre: quais os ensinamentos de Bruno Borges em ‘TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento’?

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Imagem de Bruno Borges (Foto: Arquivo Pessoal)

Imagem de Bruno Borges (Foto: Arquivo Pessoal)

Jovem desapareceu em março e deixou manuscritos que começaram a ser publicados. Obra chegou ao ranking das mais vendidas do Brasil; G1 lista 10 ‘lições’ do 1º volume.

Cauê Muraro, G1

Ele tem aversão a sexo, gula e crase. Faz zero questão de parecer modesto (cita a si mesmo, inclusive). Gosta de usar termos associados a quem escreve difícil (“não obstante”, “antemão”, “entrementes”, “outrossim”, “amiúde”), mas não liga se a frase sai do nada e chega a lugar nenhum. Fiel ao “espírito do tempo”, arrisca até uma mesóclise eventual. Humor? Só do tipo involuntário, e vamos encerrar a discussão a esse respeito citando o trecho em que ele define o verbete “ciência” – começa assim: “De acordo com a Wikipédia…”.

Assinado por Bruno “o menino do Acre” Borges, o livro “TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento” (Arte e Vida) tem 191 páginas nas quais o autor (desaparecido desde março) faz grande esforço para explicar sua criação. A obra, que saiu no final de junho, acaba de entrar no ranking das mais vendidas do país.

Faz quatro meses que Borges está desaparecido. Antes de sair da casa onde morava, em Rio Branco, o rapaz deixou 14 livros escritos à mão e criptografados (ou seja, usando um código com símbolos no lugar de letras, para cifrar a mensagem). Parte do material estava registrada nas paredes, no teto e no chão do quarto. A polícia trabalha com a hipótese de que o sumiço é, na verdade, marketing para promover a obra.

Pelo que se vê neste volume inicial, houve alguma dificuldade na hora de “traduzir” o texto para a língua portuguesa. Exemplos: “tão pouco” no lugar de “tampouco”; “a” no lugar de “há”; e “atoa” no lugar de “à toa”.

Capa do livro 'TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento', de Bruno Borges, o 'menino do Acre' (Foto: Divulgação)

Capa do livro ‘TAC: Teoria da Absorção do Conhecimento’, de Bruno Borges, o ‘menino do Acre’ (Foto: Divulgação)

Mas a ambição do autor está mais no conteúdo do que na forma. Quer compartilhar conosco suas técnicas – ele chama de “porta para a inteligência” e “totalmente original”. Como o conceito de conhecimento é mesmo bastante vasto, vale recorrer a Platão, Aristóteles e Augusto Cury, todos mencionados pelo nome.

Já no começo, Borges avisa não estar “com a tentativa de fazer ciência, até porque nem cientista eu sou”. “Eu apenas quero mostrar, (…) essa é uma teoria pela qual eu coloquei em prática durante anos suas funcionalidades e pude perceber que dava certo, uma vez que foi dela que saiu tantas ideias totalmente originais partidas de mim mesmo”.

A abordagem pode até soar mais “científica” e “filosófica” do que religiosa, mas o escritor garante nada ter contra a religião e reconhece sua importância para a TAC. Reconhece que, aos 20 anos, teve “um arrebatamento e uma experiência profundamente mística”. Faz sentido: o livro é catalogado como 1. Filosofia e Teoria da Religião 2. Religião 3. Relações Humanas.

Após 4 horas de leitura, os 10 ‘conhecimentos’ que o G1 absorveu de ‘TAC’:

1. Mire-se no exemplo dos ‘sábios’ (cadê ‘aquelas mulheres’?)

Bruno Borges não gosta de deixar dúvidas: escreve que o título de “TAC” é formado pelas iniciais de “Teoria da Absorção do Conhecimento” – só para o caso de algum leitor menos perspicaz não ter notado, nunca se sabe. Mas o que ele propõe, afinal?

Em síntese, temos de absorver e acumular conhecimento. E que façamos isso a partir de pessoas (só homens, nada de mulheres na lista) que ele chama de “sábios”.

E que, com esse conhecimento, criemos algo novo. E que deixemos esse algo novo para as gerações futuras. Há até uma fórmula, ela é assim: AB1 + CAB = ABT. Traduzindo: AB1 significa Absorção de Conhecimento Novo; CAB significa Conjunto de Conhecimento Absorvido; e ABT significa Absorção Total.

2. Sexo? Não, obrigado

O que têm em comum Leonardo da Vinci, Jesus Cristo, Platão, Waldo Vieira, Chico Xavier, Heráclito de Éfeso, Isaac Newton, Nikola Tesla e Michael Jackson? Para Bruno Borges, o fato de serem “sábios assexuados”. A qualificação é do próprio autor e é usada em sentido positivo.

O lance é que fazer sexo toma tempo – e um tempo precioso, que poderia ser aplicado precisamente na busca pelo conhecimento. Escreve ele: “Embora muitos não saibam, o tempo que perdemos pelas nossas impulsividades sexuais, impedindo-nos de absorver conhecimentos úteis a fim de criar coisas novas, é imenso. Ora, mas uma relação íntima por vezes não dura 30 minutos? Certo, mas aí é que entra o fator comportamento, em outras palavras, o fim justifica o meio”.

E tem ainda um efeito colateral evidente: o bebê que resulta da reprodução – outra coisa que consome horas.

O negócio é o seguinte: quem faz sexo tem três preocupações – sobreviver, reproduzir e absorver conhecimentos; quem não faz sexo tem só duas preocupações – sobreviver e absorver conhecimento, segundo a teoria de Bruno Borges.

“Ele não necessitará dispor de uma quantia exorbitante do seu tempo para cuidar dos seus filhos, pois nem mesmo filhos terá.” Sagaz.

3. Não cometerás o pecado da gula (nem da carne)

Michael Jackson, Leonardo da Vinci, Albert Einstein, Abraham Lincoln, Aristóteles, Darwin, Isaac Newton, Pitágoras, Platão, Sócrates, Thomas Edison, Voltaire, Gandhi, Buda, Van Gogh e Nikola Tesla… Todos “sábios vegetarianos/veganos/crudívoros” na definição do autor de “TAC”. Ah, mas e daí?

Daí que essa gente toda “evitaria de comer coisas que são fonte de prazer para muitos, e que é o maior responsável pelo vício, pela gula na comida: o apreço pela carne e seus derivados temperados, fazendo com que os assexuados veganos aumentem ainda sua taxa de absorção de conhecimento”.

Também chama de “idiotice” a teoria de que “a carne ou comida queimada foi à [crase do texto original] geradora de uma inteligência mais protuberante do homem”.

Sim, o próprio Bruno Borges assegura que tem “uma alimentação e dieta totalmente frugívera”. E acha certo fazer longos períodos de jejum absoluto, pois isso ajudaria na tarefa de ficar pensando melhor.

4. Sem anabolizantes nem ‘santa erva’

Bruno Borges é contra o uso de anabolizantes, maconha (que ele chama de “santa erva”, naquele que talvez seja o único exemplo de ironia de toda a obra), remédios para déficit de atenção e cirurgias estéticas.

E ele consegue esclarecer isso num único parágrafo do livro, utilizando-se de um fluxo de pensamento e livre associação que são típicos de seu método.

A coisa é realmente inflamada, veja você mesmo: “(…) fumar a santa erva diariamente, impossibilitando de estudar ou trabalhar com rigor, pela dispersão do foco, o ajuda, em algures verão o absurdo de alguns obesos não conseguirem emagrecer, alegando que é predisposição ou problemas na tireóide, mas na verdade só não conseguem refrear a gula, e por isso pagam para um doutor pegar uma faca e cortar sua banha (…)”.

5. Seja rebelde, mas com disciplina e durma pouco

Bruno Borges não só defende que adeptos da TAC sejam radicais como orgulha-se da invenção de um neologismo: “Nós, radicalistas e adeptos do radicalismo, determinamos que só se pode ser um membro da radicalidade (sim, este termo também criamos)”.

O autor recomenda fortemente o “sono polifásico” (modalidade em que o sujeito não dorme as 8 horas regulamentares, mas sim tira cochilos breves), que seria praticado por vários de seus “sábios do coração”, como Jesus e Napoleão.

E chegamos, então, a um outro conceito: disciplina, que sem ela ninguém alcança nada.

Rola até uma ameaça, num raro confronto menos educado com o leitor: “caso sinta-se distraído ou ache uma tarefa enfadonha estudá-las, o que obviamente não passa de 2 laudas, seria útil pedir-lhe somente mais um favor: cerre este livro de uma vez e senta-te sobre o gramado, escancare a tua boca cheia de dentes e espere a morte chegar. Talvez consigas, de praxe, observar um disco voador sobre o céu, se tiveres sorte, caso não, apenas permaneça como está”.

Disciplina e determinação. E o primeiro exemplo de quem sabia o que queria é Kurt Cobain, o líder do Nirvana. Depois vêm Martin Luther King, Freud e… Hitler.

7. Isole-se

Para a Polícia Civil do Acre, que investigou o desaparecimento de Bruno Borges, o sumiço do autor foi parte de um plano para garantir a divulgação da obra. A questão ainda não está fechada, mas “TAC” dá uma pista:

Ao longo da obra, há recorrentes lembranças de que “sábios” gostavam de praticar o isolamento. De novo, a turma aparece: Da Vinci, Tesla, Jesus, Newton, Einstein, Buda e… Michael Jordan (porque ele treinava sozinho). E Raul Seixas.

No final de maio, conversas encontradas no celular de dois amigos de Bruno Borges mostraram a intenção deles de ficarem ricos com a divulgação dos livros criptografados, informou o delegado responsável pela investigação. “O desaparecimento em si vem coroar a parte da publicidade”, afirmou Alcino Júnior.

Dias depois, o delegado disse que a polícia não tinha “mais responsabilidade sobre o caso”.

8. Hitler, o ‘calamitoso’

Outro que se isolava, lembra Bruno Borges, era o Adolf Hitler. O líder nazista alemão aparece em duas passagens de “TAC”, sendo chamado de “calamitoso” em ambas. O primeiro comentário é este: “E o calamitoso Hitler, conseguiria ele colocar em prática todos os seus sonhos incluídos em seu livro ‘Minha luta’, escrito quando preso, em isolamento, se ele não tivesse feito uso de praticamente todos os itens aqui neste estudo, pelo qual não coloquei seu nome em nenhuma categoria para não inflamar o ódio sobre leitores que não aceitariam que ele fosse visto como sábio”.

Borges cita uma passagem de “O carisma de Adolf Hitler”, de Laurence Rees, na qual “seus companheiros achavam estranho que ele nunca quisesse tomar uns tragos (veganismo, gula) ou fazer sexo com uma prostituta (assexuado), passando o tempo livre lendo ou desenhando (absorvendo conhecimento), ou eventualmente discursando para quem estivesse por perto sobre algum assunto de que gostasse, estranho que parecesse não ter amigos ou familiares e, consequentemente, fosse um homem decidido a ser só (isolamento)”.

9. Usar a TAC pode ser perigoso

Alerta: a TAC não é só alegria, não. De acordo com o autor, “a história tem se encarregado de demonstrar que a grande maioria destes sofriam mais que qualquer outro ser humano na terra”, não deixando de assegurar que “o sofrimento psíquico é muito pior do que o sofrimento físico”. Ele pede “cuidado, muito cuidado” a quem tiver uma “ideia absurda” e quiser divulgar por aí.

Na hora de exemplificar com “praticantes da TAC” que se deram mal, recorre a casos de gravidade muitíssimo variada: tem Jesus (“crucificado”), Giordano Bruno (“queimado vivo”) e o coitado do Thomas Edison (“expulso do primário porque o professor disse que ele era muito burro e tinha a cabeça oca”).

10. ‘Penso, logo crio’

“O ser humano é uma espécie curiosa”, avisa Bruno Borges. Mas por quê? Porque, ao contrário dos outros animais, “se transvia da natureza animalesca” – muito embora muitas vezes não se dê “conta de que também é um animal nu e cru como os demais”.

O fato é que o homem consegue efetivamente criar (teorias, livros etc.), que é “o real propósito da inteligência humana”.

“Eu digo, diferentemente de Descartes ‘penso, logo crio’”, ousa Borges, dando cara nova ao famoso “penso, logo existo”.

Mas o autor é meio radical aqui de novo: “preferiria eu ser qualquer outro primata a um ignorante humano”, conclui, depois de citar que os primatas sabem “exatamente o que tem que fazer no mundo”.

Mercado de livros fecha 1º semestre de 2017 melhor que no ano passado e vê ‘volta’ de autoajuda e biografias

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Faturamento cresceu 6,59% e volume de vendas 5,47%. Ao G1, presidente de sindicato do setor diz ver resultado com ‘cautela’: ‘Reverte parcialmente as perdas’.

Cauê Muraro, no G1

Após um 2016 que esteve mais para história de terror do que para contos de fada, o mercado de livros do Brasil começa a dar sinais de recuperação.

O setor fechou o primeiro semestre de 2017 com dados positivos tanto em faturamento (alta de 6,59% com relação ao ano anterior) quanto em volume de vendas (alta de 5,47%).

Nos primeiros seis meses de 2017, foram R$ 931,6 milhões – contra R$ 873,9 milhões no ano passado. Já o número de exemplares vendidos cresceu de 20,9 milhões para 22 milhões.

Os números estão na edição mais recente do Painel das Vendas de Livros no Brasil, divulgado nesta quinta-feira (3).

O livro 'Batalha espiritual', do padre Reginaldo Manzotti, o mais vendido no primeiro semestre no Brasil, segundo o site PublishNews (Foto: Divulgação)

O livro ‘Batalha espiritual’, do padre Reginaldo Manzotti, o mais vendido no primeiro semestre no Brasil, segundo o site PublishNews (Foto: Divulgação)

Divulgado mês a mês e agora com o balanço do semestre, o estudo é feito pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e pela Nielsen. A pesquisa baseia-se no resultado da Nielsen BookScan Brasil, que verifica as vendas em livrarias, supermercados e bancas.

Vale registrar que 2016 foi considerado um ano bastante difícil para o setor. Além da crise econômica, faltou um fenômeno editorial.

‘Reverte parcialmente as perdas’

Mas como o mercado de livros vê o balanço deste primeiro semestre de 2017? “Com bons olhos e com cautela”, responde o presidente do Snel, Marcos da Veiga Pereira, em entrevista ao G1.

A avaliação é que o resultado “reverte parcialmente as perdas” do ano passado. “Acredito que a estabilidade da economia, a interrupção do aumento do desemprego e a queda da inflação, impactaram positivamente as vendas em geral”.

Pereira cita ainda que os primeiros três meses registraram a maior parcela do crescimento, atribuindo o aumento aos “resultados positivos no volta às aulas e promoções no Dia da Mulher”.

“Os números de 2017 também são relevantes por não estarem vinculados à nenhum fenômeno específico”, afirma ele, citando que “algumas promoções das principais redes de livrarias ‘puxaram’ as vendas para cima”.

Sem fenômeno como livros de colorir

Em 2015, houve o fenômeno dos livros de colorir. Em 2016, não houve fenômeno nenhum – os YouTubers até ajudaram, mas não deu para chamar de febre.

E em 2017: alguma tendência, pelo menos, no horizonte? Não exatamente. Mas dá para notar que livros de não ficção estão em alta (ou seja, nada de romance, contos ou poesia, por exemplo).

“Há uma volta ao livro de autoajuda e espiritualidade, em que autores como Mario Sergio Cortella, Augusto Cury, Prem Baba e o padre Reginaldo Manzoti se destacaram”, lista o presidente do Snel.

“Vale mencionar o crescimento das biografias, que após a decisão do Supremo Tribunal Federal passar a ocupar consistentemente as listas de mais vendidos.”

Em junho de 2015, os ministros do STF decidiram, por unanimidade, derrubar a necessidade de haver autorização prévia de uma pessoa biografada para publicação de obras sobre sua vida. A decisão liberou biografias não autorizadas pela pessoa retratada (ou por seus familiares) publicadas em livros ou veiculadas em filmes, novelas e séries.

O Painel das Vendas de Livros no Brasil informa que, no primeiro semestre de 2016, os livros de não ficção haviam vendido R$ 196,8 milhões. No mesmo período de 2017, vendeu R$ 220,8 milhões.

Simbolicamente, dá para lembrar que o best-seller do Brasil no ano passado foi o doce e romântico “Como eu era antes de você” (Intríseca), de Jojo Moyes, segundo o site PublishNews. Já em 2017, o campeão até aqui é “Batalha espiritual” (Petra), do Padre Reginaldo Manzotti.

Harry Potter é tema de curso de história na Unicamp para público da terceira idade

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Harry Potter (Foto: Divulgação)

Harry Potter (Foto: Divulgação)

Obra literária da escritora britânica J. K. Rowling é destaque em oficina do programa UniversIDADE, gratuito e aberto a pessoas com mais de 50 anos.

Fernando Evans, no G1

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) oferece, a partir de agosto, um curso de história cujo tema é o clássico literário Harry Potter, da escritora britânica J. K. Rowling. A oficina faz parte do programa UniversIDADE, que desenvolve atividades de extensão gratuita para o público acima dos 50 anos.

Instrutor da oficina, Victor Henrique da Silva Menezes, de 25 anos, conta que foram alunos do curso que ministrou no primeiro semestre deste ano os responsáveis pela incursão no universo de Harry Potter.

“Dei aulas sobre a Roma antiga no cinema, comentando referências históricas nas produções, e alguma vezes usei o Harry Potter como exemplo, para falar da influência na literatura. Para minha surpresa, boa parte da sala conhecia a história e eles sugeriram a obra como tema.”

Aluno do curso de mestrado em história no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Menezes é fã da série, e acompanha os livros desde os 11 anos de idade. Apesar disso, apronfundou-se nas pesquisas para preparar 17 aulas sobre o tema.

“O Harry Potter é como um fio condutor do curso. Vamos partir da obra, discutir os livros e a história, mas também questões que aparecem ali. Estou desde maio preparando o curso. Tenho lido bastante sobre história contemporânea, da Inglaterra e Europa, livros sobre cultura inglesa. Vamos ler o livro tentando entender o nosso mundo contemporâneo”, explica Menezes.

Para todas as idades

O instrutor lembra que um dos maiores erros de quem não conhece a obra de J. K. Rowling é imaginá-la como literatura infantil. “Há uma ideia de que é um livro para crianças, e não é. Temas importantes são abordados, como o papel da mulher, sexualidade.”

A força dos personagens também é destaque na oficina, que conta com alunos da chamada “melhor idade”.

Sem preconceito

Trabalhar com questões de gênero e sexualidade com um público acima dos 50 anos deixou o instrutor um pouco receoso, mas a reação dos alunos ajudou a quebrar paradigmas e serviu de lição para Menezes.

Para o historiador, a abertura encontrada com o grupo de alunos, com idades entre 51 e 85 anos, serviu para mostrar que o preconceito não tem relação com as visões de diferentes gerações.

“Fiquei um pouco com medo de como seria a reação, e logo na primeira aula do outro curso eles falaram tranquilamente sobre sexualidade, gênero. Às vezes, achamos que determinado público não terá interesse em debater determinado tema. Numa sala de aula, tudo pode ser falado. Esse curso demonstrou bastante isso.”

Entre os temas que Harry Potter levará às salas do UniversIDADE é a homosexualidade. “Nos últimos livros da J. K. Rowling, havia indício que o personagem Dumbledore seria gay. A autora confirmou isso depois. O bacana que isso não precisa ser um rótulo. Ele é importante na história, é o tutor do Harry Potter, e o fato de ser gay não muda nada na história”, comenta.

Entre os personagens de Harry Potter, também haverá destaque para a força da mulher. “É uma característica da autora criar personagens muito fortes, protagonistas”, destaca o instrutor.

Inscrições

O programa UniversIDADE, mantido pela reitoria da Unicamp, oferece cursos de extensão em quatro diferentes áreas para o público que tem acima de 50 anos. “O programa tem um caráter social e é aberto a toda a comunidade da universidade e moradores de Campinas e região”, destaca Katia Stancato, coordenadora do UniversIDADE.

As oficinas estão separadas em quatros áreas: Arte e Cultura, Esportes e Lazer, Saúde física e mental, e Sociocultural e Geração de renda. As inscrições podem ser feitas no site do programa, e funcionarão em duas etapas:

Dias 24 e 25 de julho – Inscrições nas oficinas para os alunos inscritos no programa
Dias 26, 27 e 28 de julho – Inscrições de novos alunos

O curso “Harry Potter: História, Cultura e Relações de Gênero no Mundo Mágico de J. K. Rowling” começa no dia 15 de agosto e vai até 5 de dezembro, com aulas às terças, das 14h às 17h.

Sem computador e internet em casa, jovem do ES faz apelo em rede social para conseguir livros para estudar para o Enem

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Apelo de Felipe foi atendido através das redes sociais (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

Apelo de Felipe foi atendido através das redes sociais (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

 

Felipe Sanderson, de 21 anos, quer cursar Educação Física. Sem dinheiro para comprar apostilas, ele fez pedido em um grupo do Facebook.

Michele Ferreira, no G1

Depois de fazer um apelo em uma rede social, um jovem de 21 anos, morador de Píúma, no Sul do Espírito Santo, conseguiu livros para estudar para o Exame Nacional do Ensino Médio (Exame). De uma família simples, Felipe Sanderson não tem computador nem internet em casa, e nem dinheiro para comprar as apostilas.

Felipe mora com a mãe e um irmão mais novo, que é deficiente físico. A renda mensal da família é de pouco mais de R$ 1,3 mil. Todo o dinheiro é gasto com as contas, e não sobra nada para comprar os livros.

Foi então que Felipe decidiu pedir ajuda em um grupo do Facebook, que tem milhares de integrantes. “Alguém que more em Piúma teria alguns livros didáticos do Ensino Médio, cadernos de questões do enem para emprestar?”, escreveu.

Postagem de Felipe em rede social (Foto: Reprodução/Facebook)

Postagem de Felipe em rede social (Foto: Reprodução/Facebook)

 

Foi com um celular compartilhado com a mãe, usando o 3G e a internet de vizinhos, que Felipe fez a postagem. O pedido repercutiu e acabou gerando uma corrente de solidariedade. E a ajuda foi além do esperado. “Teve muita gente que me ofereceu a casa para estudar, de entrar na casa da pessoa, de usar o computador. É bem gratificante”, contou o estudante.

Felipe já fez duas provas do Enem e até começou o curso de Engenharia de Pesca no Instituto Federal de Piúma, mas acabou desistindo. Segundo ele, sem acesso à internet em casa, ficou difícil acompanhar o cronograma do curso, que exige bastante conhecimento em matemática.

“Como eu não tenho computador em casa e acesso à internet, fica difícil estar na escola em tempo integral. E eu não conseguia manter meu foco, a atenção. Foi aí que eu tive a ideia de trancar e manter o foco no que eu quero”, explicou.

Desta vez, o jovem tentou investir na paixão pelos esportes. Eles quer cursar Educação Física.

“Sempre gostei de esporte, até que sofri um acidente doméstico em casa e não pude mas fazer isso profissionalmente. E como sobraram resquícios dessa paixão, eu queria poder passar para as crianças como professor de Educação Física”, disse.

A estudante Izabella Neves, amiga de Felipe nos tempos de escola, viu a postagem e foi uma das pessoas que ajudou o jovem.

“Quando eu li a postagem, pensei ‘lógico que vou ajudar’. Não podia deixar aquilo passar, então resolvi separar os livros para ele. O que eu mais quero é que ele vença na vida, que tenha um futuro brilhante, e quero fazer parte disso”, falou a amiga.

Aos poucos, através da solidariedade, Felipe acredita em uma oportunidade melhor para ele e a família. “Essas pessoas provaram para mim que eu posso fazer a diferença naquilo que eu quero fazer”, disse o jovem.

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