Sua Segunda Vida Começa Quando Você Descobre Que Só Tem Uma

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Alunos do ITA fazem a primeira paralisação da história do instituto

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Eles reivindicam reforma nos sistemas avaliativo e pedagógico; reitor promete atender

Estudantes do ITA protestam durante a primeira paralisação da história do instituto Divulgação/Fotografita

Estudantes do ITA protestam durante a primeira paralisação da história do instituto Divulgação/Fotografita

Lauro Neto em O Globo

RIO — Alunos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José do Campos (SP), fizeram a primeira paralisação da história da instituição, nesta terça-feira (27). Os estudantes reividicam uma reforma nos sistemas avaliativo e pedagógico, entre outras reclamações. Um dos cartazes do protesto trazia dizeres como “Não é Bin Laden, é professor do ITA”. O reitor Carlos Américo Pacheco se reuniu com os alunos e professores e, em entrevista ao GLOBO, prometeu atender parte das demandas ainda neste semestre. Nesta quarta (28), as atividades voltaram à normalidade.

Segundo o presidente do Centro Acadêmico Santos Dumont (Casd), Marcus Gualberto Ganter, a paralisação foi aprovada em assembleia geral na semana anterior. Em nota (leia a íntegra aqui), o Casd informa que entre as reivindicações estão a abertura de sindicância para casos críticos e abusos evidentes por parte de professores; afastamento de docentes se for de concordância unânime dos alunos; e presença dos estudantes na Comissão de Verificação de Aproveitamento Escolar, com ampla defesa.

De acordo com Ganter, algumas propostas do Casd precisam de atendimento imediato, como a maior transparência na divulgação da nota númerica, quantificação da distribuição de pesos entre as questões e esclarecimento dos critérios de correção.

— Decidimos paralisar as atividades pedindo mudanças tanto no sistema pedagógico quanto no processo avaliativo. Próximo à paralisação, o reitor pediu para chamar os professores para debater os problemas junto a eles. A reunião foi muito positiva. Muitos professores não tinham ideia do quão desmotivados os alunos estavam. Já tínhamos tratado dessas reivindicações antes, mas sem um resposta mais efetiva e um prazo da direção. Com a paralisação, tivemos a palavra do reitor de que haveria a formação de um grupo de trabalho para dar encaminhamento a 90% dessas reivindicações — diz Ganter, que tem 23 anos e está no 4º ano de Engenharia Mecânica Aeronáutica.

O presidente do Casd esclarece que os alunos são favoráveis ao programa de expansão do ITA, que prevê a duplicação do número de vagas, além de uma série de inovações. No entanto, ressalta que as falhas no no sistema e no modelo atuais devem ser corrigidas em conjunto com a administração o quanto antes. “Se não, passaremos de 600 alunos, para 1.200 desmotivados”. A previsão é de que 50% das novas vagas já entrem no processo seletivo do fim do ano.

— O Casd e os alunos são a favor da duplicação e temos um otimismo muito grande em relação à expansão. Mas não deixamos de estar desmotivados agora. Se nada for feito em relação ao sistema pedagógico e não melhorar a didática, a prática de engenharia, não adianta ampliar o alojamento. Temos que corrigir as falhas que existem o mais rápido possível — acrescenta Ganter.

Carlos Américo Pacheco, reitor do ITA, reconheceu que a maior parte das reivindicações dos alunos é convergente com a agenda da instituição e será atendida. Ele explicou que o instituto passa por uma reformulação, que inclui a parceria com o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e, por isso, a reforma do sistema educacional já está prevista, mas demanda tempo.

— A agenda dos alunos é bastante pragmática, de coisas menores. A reforma é mais ampla, de tentar mudar a abordagem do ensino da engenharia. Boa parte das reivindicações dos alunos é fácil de atender no curto prazo. O ITA tem um regime muito duro de avaliação. É muito difícil entrar na escola. O questionamento maior são de poucos casos, um em cada curso, em que há uma sobrecarga de trabalho ou critérios de avaliação pontuais. Eles reclamam do regime muito duro no conjunto: carga e pressão muito grandes. Boa parte do que foi conversado vamos ver como operacionalizar ainda este semestre — afirma Pacheco.

O reitor antecipa que já em setembro haverá um curso de pós-graduação em conjunto com MIT na área de transporte aéreo, com intercâmbio de professores e alunos entre as duas instituições.

— Será um curso experimental: vão 13 alunos de graduação e outros de pós. Do pessoal de civil e aeronáutica, todo mundo vai fazer. A ideia é que consigamos um jeito de financiar que todos passem pelo menos uma semana lá. A escola precisa renovar sua forma de ensinar. Temos tido sucesso na formação de bons profissionais, mas podemos fazer melhor e nos adaptar a um perfil da nova geração Y, mais conectada ao mundo, sem perder as qualidades da formação técnica. O desafio é como despertar a curiosidade científica independente do sistema de cobrança, como produzir qualificações usando processo pedagógico diferente — reconhece Pacheco. — No acordo com o MIT a partir do ano que vem, um dos componentes é o reexame do código de educação do engenheiro.

Carioca de 20 anos cria escola e bibliotecas em Marajó

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Estudante de Direito, Luti Guedes transforma realidade dos moradores de comunidades ribeirinhas na ilha ao Norte do Pará

William Helal Filho em O Globo

Luti Guedes. O estudante de 20 anos, sentado sobre uma pilha de livros que levaria para comunidades ribeirinhas da Ilha de Marajó, No Pará. Paula Giolito / Agência O Globo

Luti Guedes. O estudante de 20 anos, sentado sobre uma pilha de livros que levaria para comunidades ribeirinhas da Ilha de Marajó, No Pará. Paula Giolito / Agência O Globo

RIO – Esta segunda-feira é um dia importante para a pequena comunidade de São Miguel, no município de Portel, que fica na Ilha de Marajó, no Pará. Nesta manhã, começa a funcionar uma escola pública que vai atender a cerca de 150 moradores da região. São pessoas que, até o semestre passado, viajavam duas horas de barco até o colégio mais próximo. Muitos deixavam de estudar por causa disso.

O responsável por reunir os recursos para a construção da casa com quatro salas de aula é um estudante de 20 anos, que mora a cerca de 2,5 mil quilômetros de distância, na Gávea, Zona Sul do Rio. Luiz Carlos Guedes, chamado de Luti pelos amigos, não tinha relação nenhuma com os moradores de São Miguel até 2009, quando fez uma excursão escolar para conhecer algumas comunidades ribeirinhas da ilha.

— Achei que estava só indo a um lugar bonito fazer fotos. Mas, na viagem, eu chorava muito vendo as condições dos moradores. Eram pessoas felizes, mas sem acesso a educação, saúde e outros direitos básicos. Ninguém se importava com elas. Eu não queria simplesmente ir embora, como se aquilo fosse uma visita ao zoológico. Decidi fazer alguma coisa a respeito — conta o aluno de Direito da PUC-Rio.

Luti foi embora, mas voltou. Várias vezes. Produziu cartilhas sobre direitos civis, levou uma engenheira agrônoma que ensinou os moradores a cultivar hortas comunitárias, ajudou a construir cinco bibliotecas (o acervo total já passa de dois mil títulos) e, hoje, comemora a abertura do colégio, batizado de Imagine: Uma Escola. Os professores são da prefeitura de Portel, mas Luti quer incentivar o intercâmbio de docentes de outras partes do país.

— A escola tem alojamento para receber professores de fora interessados em viver essa experiência. Ninguém precisa ir à África para ver o que tem no Brasil — argumenta Luti, que está em Marajó para acompanhar a abertura do colégio e matar a saudade dos locais, que já o têm como parte da família.

A vida de Luti e dos moradores de São Miguel não foi mais a mesma depois de 2009. O carioca estudava no Colégio Santo Agostinho, que, anualmente, promove a excursão CSA Sem Fronteiras, para levar alunos a comunidades na Ilha de Marajó. O objetivo é apresentar outra realidade, para incutir neles o espírito de “solidariedade cristã”.

No apartamento do carioca, filho de um engenheiro e uma professora, tem TV de LCD com som surround, ar condicionado e mais desses aparelhos comuns em residências de classe média alta no Rio. Ao se deparar com pessoas vivendo sem sequer saneamento básico ou luz, Luti não se conformou.

— Na hora, fiquei com um sentimento ruim de impotência. O que um garoto de 16 anos poderia fazer pra ajudar aquela gente? — conta ele.

Um ano depois, o adolescente estava de volta, com um tio médico que prestou atendimento aos moradores. Naquela segunda vez, Luti foi convidado para ser padrinho do recém-nascido Luan. Foi o pretexto ideal para “ter que ir a São Miguel sempre que pudesse”.

‘Os moradores são agradecidos’

São quatro horas de voo até Belém, mais 19 de barco até Portel e outras seis horas rio acima. Luti já refez o trajeto mais de dez vezes. Sempre com uma mala estufada de livros e uma mochila com algumas mudas de roupa.

A horta local é administrada por mulheres de São Miguel, que, com isso, sentem-se valorizadas. A cartilha de direitos informou sobre a importância de documentos de identidade, o valor do voto e a utilidade de órgãos como o Ministério Público. As bibliotecas do projeto “Sonho de papel” atendem a cerca de 400 pessoas de três comunidades.

As séries “Harry Potter” e “Jogos Vorazes” fazem o maior sucesso entre os ribeirinhos, assim como livros de Fernando Pessoa e Monteiro Lobato.

— Tem gente que não confia na capacidade dele, por causa da idade, mas o Luti já fez muito. Eu nem gostava de ler, e hoje leio bastante. As crianças adoram. Os moradores são agradecidos — elogia Andrei Pinheiro, de 20 anos, um líder comunitário de São Miguel que virou fã da série “As Crônicas de Artur”, do britânico Bernard Cornwell.

Em 2011, o universitário fundou sua ONG, a Lute Sem Fronteiras. Para realizar seus projetos, Luti faz vaquinhas entre amigos. Quando ele e os moradores de São Miguel resolveram fazer a escola, a prefeitura de Portel concordou em ceder professores, mas informou que não tinha dinheiro para a obra, orçada em R$ 10 mil. Metade desse valor foi doado por Marcos Flávio Azzi, fundador do Instituto Azzi, que busca investidores para trabalhos sociais. Para conseguir os outros R$ 5 mil, o carioca fez uma lista de cem amigos para arrecadar R$ 50 de cada. Acabou reunindo um total de R$ 16 mil. Tudo investido no projeto. A escola vai receber alunos desde a creche até o Ensino de Jovens e Adultos (EJA).

— Quando me deparo com uma pessoa que canaliza toda a energia para ajudar o próximo sem visar a nada além do bem comum, me emociono, quero cooperar para que Luti se desenvolva cada vez mais — elogia Azzi.

Professora do Santo Agostinho, Kity Guedes, mãe de Luti, integrou o primeiro grupo de alunos e professores a ir a Marajó. Na volta, reuniu recursos para fazer poços artesianos no local.

— Depois, pensei: “Pronto. Fiz minha parte”. No ano seguinte, o Luti foi a Marajó e, na volta, não conseguia entender como não fiz mais por aquelas pessoas — conta ela.

O universitário, que este mês parte para um intercâmbio na Universidade Pontifícia Comillas, em Madrid, onde vai estudar Direito e Políticas Públicas, tem consciência de agente transformador. Ajuda os ribeirinhos, mas também os incentiva a não depender dele.

— São esses jovens que transformarão o país e servirão de inspiração para muitos outros — elogia Vera Cordeiro, fundadora da Associação Saúde da Criança, que conheceu Luti recentemente.

Agora, Luti planeja arrecadar dinheiro para construir um posto de saúde em São Miguel.

Alguém duvida?

A dura realidade marajoara

Localizada na Foz do Rio Amazonas, a cerca de 90km de Belém, Marajó mistura cenários paradisíacos e problemas sociais graves. Dos 16 municípios da ilha, nove estão entre os cem piores do Brasil, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado na semana passada. Dom José Luis Azcona Hermoso, bispo de Marajó, é uma voz que tenta chamar atenção não apenas para o pouco acesso a educação e saúde como também a ocorrência de crimes como tráfico de seres humanos e a exploração de menores de idade. Ele vem acompanhando de perto o trabalho da ONG Lute Sem Fronteiras, de Luti Guedes.

— Poucos têm coragem de enfrentar a dura realidade marajoara. Luti combate a gravidade da situação com cultura, leitura e educação. A comunidade precisa sair da mentalidade insular e conhecer o universo dos escritores — elogia o bispo. — Um grupo de alemães veio conhecer Marajó após a Jornada Mundial da Juventude, no Rio, e percebeu como São Miguel se destaca em termos de desenvolvimento social. O Luti está fazendo a diferença.

O carioca conhece o poder das ferramentas que usa:

— As pessoas se tornam vítima de tráfico de humanos por falta de opção. Elas são iludidas pelos criminosos. Quero dar opção a elas.

Prouni: estão abertas inscrições para bolsas de estudo

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Programa federal oferece mais de 90.000 bolsas em instituições privadas de ensino superior. Prazo se encerra no dia 25 de junho

Prouni exige nota mínima de 450 pontos no Enem 2012 (Foto: Agência Brasil)

Prouni exige nota mínima de 450 pontos no Enem 2012 (Foto: Agência Brasil)

Publicado na Veja on-line

Estão abertas as inscrições do 2º semestre de 2013 do Programa Universidade para Todos (Prouni), programa do Ministério da Educação (MEC) que oferece bolsas de estudos em universidades privadas.

Para concorrer, o candidato deve ter feito o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2012, obtendo desempenho mínimo de 450 nas provas objetivas e nota superior a zero na redação. Além disso, não pode possuir diploma de curso superior e se encaixar em pelo menos uma das seguintes condições: ter cursado o ensino médio em escola pública, ou como bolsista em instituição privada, ser portador de deficiência ou ser professor na rede pública de ensino para cursos com grau licenciatura.

As inscrições são gratuitas e deverão ser feitas pela internet na página do Prouni (http://siteprouni.mec.gov.br) até as 23h59 (horário de Brasília) da próxima terça-feira, dia 25 de junho.

No total, estão previstas 90.010 bolsas, sendo 55.658 integrais e 34.352 parciais, segundo informações do MEC. As bolsas integrais serão destinadas a candidatos com renda familiar mensal de até 1,5 salário-mínimo por pessoa. Para as bolsas parciais (50% da mensalidade), o limite são três salários mínimos.

Os estudantes pré-selecionados na primeira chamada, que será divulgada no dia 28, deverão comprovar as informações nas universidades até o dia 5 de julho. O segundo resultado sairá em 13 de julho, e a comprovação deverá ser feita entre os dias 15 e 19 do mesmo mês.

Assim como ocorre no Sisu, o Prouni possibilita aos candidatos a indicação de duas vagas, que podem ser alteradas enquanto estiverem abertas as inscrições. Quem não entrar nas duas primeiras chamadas, poderá manifestar interesse na lista de espera entre os dias 26 e 29 de julho. A convocação será feita em dois momentos: nos dias 2 e 12 de agosto.

Resenhas literárias de amadores na internet atraem leitores e abrem filão para editoras

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Editoria de Arte/Folhapress

Editoria de Arte/Folhapress

Fernanda Ezabella e Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo

Todo mês, 75 mil pessoas acessam os vídeos em que o paulista Danilo Leonardi, 26, comenta livros. A carioca Ana Grilo, 37, diz ler até 150 títulos por ano para seu blog de resenhas, escrito em inglês. O americano Donald Mitchell, 66, já publicou 4.475 resenhas na Amazon -por parte delas, levantou R$ 70 mil, doados para uma ONG beneficente.

Os três são personagens de um movimento que, nos últimos anos, chamou a atenção de editoras e virou negócio: o de críticas de livros feitas na internet por amadores, que, com linguagem mais simples, atraem milhares de leitores.

Com o aumento na venda de e-books, a expansão da autopublicação e a concorrência ferrenha entre editoras, textos escritos por hobby ou por até R$ 1.000 tornaram-se uma alternativa de divulgação capaz de atingir nichos e multiplicar vendas de livros.

Nos EUA, páginas como o Hollywood Book Reviews e o Pacific Book Review cobram de autores e editoras de R$ 250 a R$ 800 por textos a serem publicados em até 26 sites, incluindo seções de comentários de lojas virtuais.

Editoras estrangeiras passaram, em meados da década passada, a enviar livros para blogueiros resenharem, tal como já faziam com a imprensa. Em 2009, casas como Record e Planeta importaram a ideia, que logo ganhou jeitinho brasileiro: concursos tão disputados quanto vestibulares.

Nesse formato, as editoras criam formulários de inscrições e selecionam blogs após criteriosa avaliação da audiência e da qualidade dos texto. O “pagamento”, ressaltam editoras e blogueiros, são apenas os livros a serem avaliados, nunca dinheiro.

No fim do ano passado, 1.007 blogueiros concorreram a cem vagas de parceiros da LeYa. Na Companhia das Letras, foram 779 candidatos para 50 vagas no semestre.

Aqui e no exterior, editoras e autores investem em anúncios ou posts patrocinados em blogs, que com isso chegam a faturar R$ 2.000 por mês.

Mas, no geral, cobrar por resenhas pega mal, e a autorregulamentação dos blogueiros é implacável. O blog americano ChickLitGirls cobrava R$ 200 por uma “boa avaliação” até ser denunciado por uma escritora. O bate-boca subsequente levou à extinção da página, em 2012.

Para se manter com cobranças, só mesmo sendo rigoroso, como a Kirkus, tradicional publicação de resenhas que, em 2004, passou a oferecer serviço de marketing para autores autopublicados.

As críticas no site podem custar mais de R$ 1.000 a autores e editoras interessados, e nem sempre são positivas. Quem contratou o serviço pode ler antes e abortar a missão caso a avaliação seja ruim. O dinheiro não é devolvido.

Por que publicar os clássicos?

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Editor aposta nos ícones da ficção científica para formar leitores do gênero no Brasil

Diogo Sponchiato na revista Galileu

Editora Globo

Já leu Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?. Não? Ok, mas você já assistiu (ou pelo menos ouviu falar) Blade Runner: O Caçador de Androides, certo? É bem provável que não sejam muitos os brasileiros que mergulharam nas páginas do livro de título misterioso de Philip K. Dick, que inspirou o filme de Ridley Scott. Mas, em breve, você terá uma chance de conhecê-lo e se perturbar (e se encantar) com esse autor clássico da ficção científica. A obra será lançada no segundo semestre pela Editora Aleph, principal referência em publicações do gênero no país. Para Adriano Fromer Piazzi, publisher da casa, K. Dick ilustra bem um dos papéis da ficção científica: especular e debater as inquietações humanas em relação ao futuro. Desde que lançou em 2003 Neuromancer — prestigiado livro de William Gibson, uma das fontes do filme Matrix — , a Aleph enveredou para esse nicho que, aos poucos, ganha cada vez mais leitores. Piazzi acredita que muito do preconceito contra o segmento já veio abaixo e, no Brasil, sua valorização se reflete no maior interesse da crítica e da academia. Nessa entrevista, concedida em seu escritório em São Paulo, ele fala dos clássicos e do futuro do gênero e da missão de mostrar ao mundo que ficção científica não se resume a Guerra nas Estrelas e historinhas de robôs.

Em ano de lançamento de ícones da ficção científica no Brasil, conversamos com Adriano Fromer Piazzi, publisher da Aleph, editora que virou referência no segmento. Confira a entrevista na íntegra:

GALILEU: Como é que a ficção científica entrou na editora e veio a se tornar seu carro-chefe?

A Aleph tem 27 anos e foi uma das pioneiras a publicar o gênero. Ela iniciou, nos anos 1990 com o meu pai, uma série de ficção científica com cinco livros, a coleção Zênite. Um deles era o clássico Neuromancer, de William Gibson. Depois passamos por diversas mudanças estratégicas até que, em 2003, por causa do filme Matrix, um consultor nos sugeriu: por que vocês não relançam Neuromancer, já que ele foi uma das fontes inspiradoras do filme? Analisamos essa possibilidade e começamos a discutir a oportunidade de retomar não apenas o Neuromancer, mas uma linha de clássicos de ficção científica com uma proposta diferente: fazer o público jovem conhecer os principais livros de ficção científica. Não só o jovem, mas o público não-leitor de ficção científica. Se ficássemos só com os fãs do gênero, estaríamos ferrados, porque o número deles, em 2003, era muito pequeno. Precisávamos aumentar esse público e nossa estratégia foi buscar dar aos livros uma cara que não fosse tanto de ficção científica. Abandonamos nas capas aquele conceito de naves espaciais e robôs. Pensamos em projetos gráficos mais pops, com mais cara de obra literária. E o marco disso foi o relançamento do Neuromancer, com nova tradução e ilustração do Titi Freak, grafiteiro super conhecido hoje. Depois dele veio Laranja Mecânica, cuja edição no Brasil estava esgotada. Retomamos essa linha e percebemos que havia interesse para um segmento que estava abandonado pelas editoras brasileiras. Daí nossa proposta de publicar tudo que é clássico, livro importante de ficção científica, inédito por aqui ou que se encontrava esgotado há algum tempo. E lançamos Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Philip K.Dick…

E desde então mudou o panorama de leitores desse gênero no Brasil?

Sim, o público cresceu significativamente. E isso foi acompanhado de uma valorização da cultura geek. A ascensão do geek começou a ser observada por pessoas que não se enquadravam geralmente nesse perfil. Virou cool ser nerd, ser geek… E a ficção científica acompanhou esse processo. Antes era uma coisa de nicho, exclusiva de fã. Outras pessoas passaram a notar que ela é uma literatura de inspiração. A ficção científica tem um diferencial, por exemplo em relação à literatura de fantasia, porque se propõe a algo mais realista, de base científica. Por mais que algo seja absurdo ali, ele será embasado, terá uma explicação. Hoje ficou feio não ler Asimov. Dá pra dizer que é a mesma coisa que não ler Gabriel Garcia Márquez. E, particularmente no Brasil, a ficção científica passou a ganhar atenção da academia, a virar objeto de muitos trabalhos, dissertações de mestrado… As pessoas estão estudando, por exemplo, Philip K. Dick [autor de, entre outros, o livro que inspirou o filme Blade Runner]. Ele é um filósofo, que usa a ficção científica como pano de fundo. O preconceito contra esse nicho tem diminuído na medida em que as pessoas percebem que ele não se resume a Guerra nas Estrelas. Aliás, os puristas nem consideram Guerra nas Estrelas ficção científica. Ela seria uma fantasia espacial: a Força se refere a algo mágico. É mais fantasia que ficção científica. Diferente do Star Trek, que seria uma ficção científica no sentido clássico.

Com base nisso, dá pra dizer que o segmento tem um bom horizonte pela frente?

Temos livros que vendem muito e outros, bem pouco. O que mais vende aqui na editora hoje é o Laranja Mecânica, seguido do Neuromancer. O autor que mais vende é o Asimov. Não são vendas exorbitantes, mas é um mercado que tem muito a ser explorado. Ainda há muita gente que não sabe o que é ficção científica, que acha que isso só tem a ver com robôs. No início, fazíamos questão de não mencionar, de não propagar que aqueles eram livros de ficção científica. Queríamos passar a impressão de que William Gibson, Philip K. Dick e os outros eram somente literatura. Hoje estamos mostrando cada vez mais nossa cara de ficção científica.

Como você avalia a evolução da ficção científica ao longo do século 20, período que rendeu os clássicos que vocês têm publicado?

O grande boom da ficção científica se deu na chamada Golden Age, a idade dourada desse segmento, o que aconteceu lá nos anos 1930, 1940. Foi ali que surgiram os grandes autores: Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Robert Heinlein. Nessa época o tema era mais hard, científico mesmo. Asimov faz questão de explicar cientificamente cada um dos processos que aborda, como se viaja no espaço, como é possível chegar até certa galáxia. Eles tinham essa preocupação porque eram cientistas. Clarke foi o inventor do satélite. Sim, a ideia de um satélite veio de um autor de ficção científica. O próprio Asimov publicou, dentro da sua numerosa obra, vários livros de divulgação científica. Eles tinham esse cuidado com a precisão nas questões que envolviam ciência. Nos anos 1960 e 70, vem o movimento New Age, representado por Philip K. Dick, que procura trazer abordagens existenciais, sociológicas e filosóficas a esse tipo de literatura. É dessa fase Ursula Le Guin, uma das poucas mulheres que se sobressaem no gênero, autora de um livro fantástico, A Mão Esquerda da Escuridão, que é um verdadeiro tratado sociológico, de libertação sexual, onde a ficção científica só aparece como pano de fundo mesmo. Fazer a história se passar em outro planeta serve apenas para gerar estranheza. É um planeta onde o ser humano não tem sexo, que ele só se manifesta no momento do cio e isso é aleatório: a natureza faz o indivíduo ser homem ou mulher; na próxima vez, isso pode se inverter. Assim, você pode ser pai e mãe em uma sociedade de andróginos que, tirando o período de cio, não tem apetite sexual. Aí, um enviado especial vai para lá e passa a viver dentro dessa estranheza, se apaixona por alguém, que nem sabemos o que é. A ficção serve, nesse caso, como cenário onde são feitas indagações sociológicas e psicológicas. Já nos anos 1980 começa o movimento Cyberpunk, que pode ser resumido por aquele clima de Blade Runner. Os autores passam a abordar aspectos sombrios da tecnologia. Ela passa a ser vista não mais como algo positivo. O clássico que abre esse caminho é o Neuromancer, do Gibson.

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