O biólogo Sidarta Ribeiro, professor da Universidade de Federal do Rio Grande do Norte

O biólogo Sidarta Ribeiro, professor da Universidade de Federal do Rio Grande do Norte – Zanone Fraissat/Folhapress

 

Iara Biderman, na Folha de S.Paulo

O uso do prefixo “neuro” em cursos de qualquer especialidade é uma preocupação do biólogo Sidarta Ribeiro, coordenador do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

Embora o estudo do funcionamento do cérebro possa ser usado nas mais diversas disciplinas, muitas das aplicações da neurociência não têm evidências consolidadas e validação quantitativa, segundo ele. “Há muita neuropicaretagem”, afirma Ribeiro à Folha.

Na entrevista a seguir, ele fala sobre o que considera abusivo nos desdobramentos dessa área, as aplicações mais promissoras e as mais problemáticas e o que esperar de cursos que pretendem usar esse ramo da ciência.

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Folha – Muitos cursos de pós lato sensu e educação continuada em áreas ligadas a negócios estão oferecendo uma formação supostamente apoiada na neurociência. Isso é um bom sinal?
Sidarta Ribeiro – Gostaria que fosse diferente, mas isso parece sinalizar uma apropriação mercantilista do prefixo “neuro”, que entrou em moda há mais de uma década e é amplamente abusado para agregar valor simbólico a produtos tipicamente descolados da boa prática científica.

Por que o apelo neurocientífico atrai alunos?
Vivemos ainda uma era do fetiche “neuro”, como antes houve com a engenharia genética. Não por acaso a neurociência é a disciplina em que as ciências biomédicas se encontram com as ciências humanas. Isso acaba fomentando metáforas sem qualquer base real e emprestando roupagem científica a muitas terapias e métodos sem qualquer validação quantitativa.

O “sucesso de público” ajuda ou atrapalha a pesquisa científica?
Ajuda e atrapalha. Atrai pessoas e simpatias ao custo de desinformação e nivelamento por baixo.

Há estudos mais aprofundados em alguns dos desdobramentos da neurociência?
A neuroeconomia é um ramo legítimo da neurociência que vem encontrando os correlatos neurais da tomada de decisões e suas contingências, o que tem implicações importantes para os pesquisadores que modelam as escolhas de agentes econômicos. A neuroeducação é um ramo recente e, com ressalva a certos cursos e pós-graduações caça-níqueis, bastante promissor, especialmente quando não desconsidera o conhecimento já existente no ensino de ciências.

Em quais áreas os conceitos da neurociência são usados de forma mais arbitrária e distorcida?
Neurolinguística e neuromarketing me parecem apenas formas espertas de vender cursos de autoajuda pessoal ou corporativa. No início dos anos 2000 se popularizaram nos EUA vídeos e jogos educativos para bebês supostamente baseados em neurociência, como o “Baby Einstein”. Houve uma febre comercial mas depois se verificou que aquilo não tinha nenhum valor educacional especial.

Quais as limitações ou perigos dessa banalização do conhecimento?

O perigo é perdermos noção do que é sério e do que não é. Se a ciência for contagiada pela pós-verdade, estaremos em maus lençóis. A neurociência corre mais risco do que as outras disciplinas justamente porque está na moda e porque toca tantos aspectos distintos da vida humana. Por isso ela tem sido na última década alvo de tantas iniciativas predatórias e oportunistas.

O que esperar de um curso que se propõe a ensinar neurociência, mesmo que básica?
Conceitos corretos de neuroanatomia, neurofisiologia, comportamento animal, neurobiologia celular e molecular.

Quais são os indícios de que o rótulo “neurociência aplicada” não passa de neuropicaretagem?
Aulas pagas não presenciais, a distância. E qualquer promessa exagerada de sucesso pessoal ou corporativo.

O que poderia ser feito para evitar o aumento dessas armadilhas?

É difícil… Somos uma nação de analfabetos científicos, pois mesmo as poucas pessoas que leem livros costumam ter desprezo, medo ou respeito exagerado pela ciência. É preciso fomentar o pensamento crítico, cético e sistemático.