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Maior ladrão de papéis raros do Brasil diz que Itaú Cultural tem outras obras roubadas da Biblioteca Nacional

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Biblioteca Nacional. Ladrão afirma que peças que extraiu da Biblioteca Nacional estão em posse do Itaú Cultural Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Famoso por seus roubos, Laéssio Rodrigues diz que material inclui um desenho de Lasar Segall

Leonardo Lichote, em O Globo

RIO — Conhecido como o maior ladrão de livros, fotos e gravuras raras do Brasil, Laéssio Rodrigues de Oliveira, hoje em liberdade, afirma que o acervo do Itaú Cultural tem mais obras roubadas por ele na Biblioteca Nacional entre 2004 e 2005. Em março de 2018, Laéssio revelou que oito gravuras do alemão Emil Bauch, de 1852, expostas na instituição paulistana, pertenciam, na verdade, à biblioteca carioca . Peritos foram acionados e confirmaram a informação. Logo a seguir, as obras foram devolvidas à BN.

Agora, ele diz ao GLOBO que roubou da Biblioteca e que ainda estão em posse do Itaú Cultural: um desenho a lápis de título “Mulheres do mangue”, de Lasar Segall; uma aquarela da cidade de Manaus de Franz Keller-Leuzinger do século XIX; e litogravuras ovais do “Álbum do Rio de Janeiro moderno”, de 1960, de Sebastien Auguste Sisson.

Na semana passada, Laéssio depôs à Polícia Federal. Na manhã de sábado, a Biblioteca Nacional anunciou que, nesta segunda (3/12) faria uma entrevista coletiva, com participação da PF e do Itaú Cultural, para apresentar o resultado da perícia feita nas demais obras do instituito após a denúncia de Laéssio. “Além da Biblioteca Nacional, foram roubados o Itamaraty, o Arquivo Nacional, a UFRJ e o Museu Nacional, entre outros”, diz o comunicado de aviso de entrevista.

Carimbos raspados

Os peritos da Biblioteca Nacional preferem não se manifestar antes da coletiva, mas Laéssio afirma que o resultado da investigação pode provar o que ele diz. Ele também diz que alguns laudos podem ser inconclusivos porque as obras foram manipuladas justamente para impedir a identificação — com páginas raspadas para extrair carimbos que apontavam sua origem. E conclui: o procedimento para esconder a procedência da obra prova que ela foi produto de roubo.

— No livro “Brasiliana Itaú” (que mostra a coleção Brasiliana do Itaú Cultural) , há uma coleção de revistas do século XIX “Polichinello” com o carimbo nitidamente arrancado. Fui eu que arranquei.

Laéssio afirma que mostrou essa e outras evidências a representantes do Itaú Cultural. Diretor da instituição, Eduardo Saron conta que as cartas nas quais Laéssio apontava denúncias do tipo foram entregues à Polícia Federal e motivaram uma auditoria para verificação do acervo.

— A única vez em que tivemos conexão entre uma obra de nosso acervo e uma outra instituição da qual ela teria sido roubada foi nessa ocasião das gravuras de Emil Bauch — conta Saron. — Na única vez em que isso aconteceu, eu pessoalmente procurei a Biblioteca Nacional pra oferecermos o acervo para que eles fizessem uma análise e propusemos uma parceria.

‘Mero ladrão em processo de especialização’

Como já havia feito em março, Laéssio afirma que boa parte do material que roubou foi a pedido de Ruy Souza e Silva. Segundo ele, de 2003 a 2007 recebeu, no total, “quase R$ 1 milhão” por encomendas do “doutor Ruy”, que é colecionador e ex-marido de Maria Alice Setubal (filha de Olavo Setubal, banqueiro do Itaú).

Na época, Souza e Silva negou a acusação de que teria comprado as ilustrações de Laéssio, afirmando que as adquiriu da loja Maggs Bros., em Londres. Semanas depois foi comprovado por perícia que as obras eram as roubadas. Após o resultado, o colecionador manteve sua posição em entrevista ao GLOBO , “destacando a compra documentada do Maggs, em Londres, ocorrida 13 anos antes de qualquer notícia relacionada ao furto”. Souza e Silva disse, na época, que estava sendo chantageado por Laéssio.

— Dr. Ruy me pagava todas as vendas me pagava com cheques dele. A Polícia Federal tem essa lista de cheques — diz Laéssio. — A soma dos cheques, entre 2003 e 2007, dá quase um milhão. A quantia é muito mais pelo volume de coisas que roubei do que pelo valor das obras, porque senão eu teria ganhado muito mais. Eu me senti usado pelo Dr. Ruy. Porque eu sabia roubar, mas era ele que tinha expertise em obras raras, era ele quem dava o preço. Eu era um mero ladrão em processo de especialização e aperfeiçoamento. Se eu era o maior ladrão de livros raros do Brasil, ele deveria ser o maior interceptador de livros raros do Brasil, afinal 80% do que roubei foram para ele.

Procurado pelo GLOBO para se manifestar sobre as acusações, Souza e Silva respondeu que preferia não conceder entrevista no momento.

A história de Laéssio já foi contada no documentário “Cartas para um ladrão de livros”, de Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini. Agora, há o projeto de transformar sua vida num filme de ficção, com direção de Mauro Lima (“Meu nome não é Johnny”). Laéssio assume que suas denúncias — além de movidas pela vingança contra Ruy, que não teria pago a ele uma quantia devida por um roubo — são movidas por seu desejo de divulgar o filme:

— Perguntaram quem eu gostaria que fizesse meu papel, eu escolhi Matheus Nachtergaele pra fase mais velha. Pra juventude, disse que podia ser o Daniel Oliveira ou o Caio Blat.

Vaquinha banca ida de filho de pedreiro e empregada para estudar em Harvard

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Reprodução/Facebook O estudante Rafael José da Silva, que fará intercâmbio nos EUA

Reprodução/Facebook
O estudante Rafael José da Silva, que fará intercâmbio nos EUA

Aline Torres, no UOL

Filho de pedreiro e empregada doméstica, Rafael José da Silva, 19, foi selecionado para um concorrido intercâmbio com duração de um ano na Harvard Medical School, em Boston, nos Estados Unidos. A universidade norte-americana ofereceu 17 vagas, para as quais mais de cem estudantes se candidataram –a seleção não é feita por prova e comporta uma análise ampla, de experiências como estudante e pessoais.

Com renda familiar de, em média, 2,5 salários mínimos por mês, o estudante da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) poderia ter desistido da vaga. Mas encontrou outra solução.

Sem recursos para bancar passagem, seguro-saúde, alimentação e estadia, ele abriu no dia 10 de outubro uma campanha na plataforma de financiamento coletivo Catarse. A meta era arrecadar R$ 50 mil até 31 de dezembro.
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Reprodução
Trecho da carta recebida de Harvard

Em apenas dez dias, ele conseguiu financiar a empreitada –o valor reunido até quinta-feira (2) era de R$ 86 mil, entre 948 apoiadores. As doações começavam em R$ 20 e não havia limite máximo. Como recompensa, nenhum prêmio gigantesco, apenas um agradecimento pessoal e fotos. Onze pessoas doaram R$ 1.000, mas a grande maioria foram valores menores.

“Fiquei muito surpreso com tamanho apoio. Eu não esperava atingir a meta tão rápido. Outros estudantes que passaram no mesmo intercâmbio anos antes tentaram arrecadar R$ 20 mil e demoraram dois, três meses. Só tenho a agradecer”, disse o universitário.

Com o excedente, Silva pode dispensar o auxílio mensal dos pais e ainda vai ajudar a bancar sua formatura.
Sonho de ser médico veio por causa do câncer da avó

Natural de Blumenau (SC), sempre estudou na Escola Estadual Santos Dumont, onde colecionou notas altas ao longo do ensino fundamental e médio.

A escola está situada na rua Amazonas, onde Silva nasceu e morou até ir para São Paulo. Tem 1.435 alunos e uma média de 510,7 no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), um pouco acima da média nacional, de 492,4. O jovem diz que a escola ofereceu a base e que ele buscou aprofundá-la.

Um dos motivos foi o episódio triste que viveu ao lado da avó Olindina, a quem era muito apegado. Ela foi diagnosticada com câncer quando ele tinha 13 anos. O sofrido processo da doença despertou no estudante a vontade de ser médico.

“Eu sempre tive muita curiosidade pelo funcionamento do corpo humano, as doenças e as curas. Com o câncer da minha avó, a medicina se tornou um destino natural para mim”, explicou.

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Reprodução/Facebook
Com amigos, o estudante Rafael José da Silva (de óculos) comemora intercâmbio

A mãe dele, Valdirene da Silva, 47, contou que com apenas quatro anos de idade o menino já entrava em sebos da cidade e pedia livros grossos de anatomia.

“Não queria brinquedo, só livros. Era engraçado voltar dos sebos com ele segurando um livro grosso embaixo do braço. Chamava a atenção”, lembra.

Aos dez anos, comprava tubos de ensaio para brincar com os amigos de laboratório. Gostava de se imaginar cientista.

“Foi a 1ª vez de avião, não sabia comprar passagem”

Decidido a fazer medicina, Silva logo definiu a instituição onde iria estudar: a USP (Universidade de São Paulo). Sem recursos para um cursinho pré-vestibular, desenvolveu um método para encarar a prova da Fuvest, uma das mais concorridas do país.

“Organizei um cronograma e comecei a estudar todo o conteúdo do edital. Baixava e fazia provas dos anos anteriores e trocava informações com quem já tinha passado no vestibular”, disse.

“Eu e meu marido saíamos para trabalhar e ele estava estudando no quarto. Quando voltávamos, à noite, ele ainda estava lá, ralando”, contou a mãe.

Tamanho esforço sensibilizou Valdirene, que sacrificou uma parte das economias e pagou uma passagem de avião e estadia em um hotel em São Paulo para ela, o marido e o filho durante o período das provas.

“Foi a primeira vez que viajamos de avião, eu nem sabia comprar a passagem. Mas achei que um pouco de conforto ia deixá-lo mais relaxado para fazer os exames”, contou Valdirene.

A “operação família” deu certo e o jovem foi aprovado entre os primeiros lugares, com apenas 17 anos.

“Sou muito grato aos meus pais. Eles não têm ensino superior, mas sempre me apoiaram a estudar. Chegavam em casa cansados e faziam os deveres de casa comigo. Quando eu desanimava, eles me incentivavam a continuar.”

“Investir nos estudantes é investir no futuro”

Devidamente matriculado na FMUSP e instalado na Casa do Estudante de Medicina –um alojamento fornecido pela faculdade para pessoas em condições de vulnerabilidade social–, Silva não parou de sonhar alto: agora queria ser selecionado para o intercâmbio na Harvard Medical School.

A parceria entre a faculdade de medicina paulista e Harvard existe há mais de dez anos, ajudou na formação de 92 estudantes brasileiros e rendeu mais de cem publicações científicas.

John Godleski, um dos fundadores do programa, explicou que o principal benefício é a total imersão nos jovens na pesquisa.

No Catarse, Silva escreveu que, “antes mesmo de entrar na faculdade de medicina, quando eu estava no ensino médio, já conhecia o programa de intercâmbio para Harvard e as histórias de alguns estudantes que nele puderam participar”.

“Da mesma forma como as histórias deles me inspiraram a buscar seguir uma carreira de excelência e a fazer pesquisa científica, minha história pode servir de inspiração a muitos outros jovens com grande potencial em nosso país. Investir nos estudantes é investir no futuro.”

Em dois anos de curso na FMUSP, participou de extensas atividades extracurriculares, de monitoria e se tornou tutor no MedEnsina, um cursinho pré-vestibular voluntário organizado por alunos para ajudar jovens sem condições de bancar aulas privadas.

O bom desempenho e as experiências pessoais chamaram a atenção da instituição americana e, no dia 27 de setembro, Silva recebeu a confirmação no intercâmbio. Em uma carta, o chefe do Center for Interdisciplinary Cardiovascular Sciences, Masanori Aikawa, disse ter gostado do seu perfil.

Em Boston, o estudante vai trabalhar em uma pesquisa na área de cardiologia sobre aterosclerose –desenvolvimento de placas de gorduras nas artérias do corpo que pode causar doenças como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC), duas das principais causas de mortalidade no Brasil.

Com o dinheiro garantido, Silva já deve viajar no final de janeiro do ano que vem.
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Professor quer que indígena saiba português para “conhecer seus direitos”

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Bruna Souza, em UOL

A valorização da língua indígena é um tema recorrente entre os habitantes da região do Médio Rio Purus, sul do Amazonas, onde mora e trabalha o coordenador de educação indígena Joel Morais da Silva, 38. Apesar da importância e da necessidade de valorizar a língua materna, Silva defende que os indígenas não deixem de lado o aprendizado da língua portuguesa.

Para ele, aprender português é a forma que os indígenas têm de conhecer e lutar pelos seus direitos: “A Constituição garante que nossos direitos são iguais [aos dos não indígenas]. Ela garante, mas não está escrita em nossa língua. Para entendermos a Constituição, nós precisamos saber bem o português”.

Calcula-se que existam pelo menos 9 mil indígenas nessa região, segundo dados da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), vivendo ao longo da calha do rio amazonense – mas, de acordo com a Focimp (Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Meio Purus), esse número é, na verdade, 30 mil.

Vida de professor

O coordenador entrou pela primeira vez numa sala de aula aos dez anos para cursar o 1º ano do ensino fundamental – a idade indicada para iniciar essa etapa é seis anos. Em sua comunidade, os indígenas só podiam iniciar os estudos após os dez.

Ainda criança decidiu o que seria no futuro. “Quando pude entrar numa sala de aula, meu primeiro pensamento foi de que eu seria professor para ajudar meu povo”, relembra. Mas sua primeira experiência não teve nenhuma validade, conta, pois as aulas não eram reconhecidas pelo MEC (Ministério da Educação). “Tive que ir para cidade estudar novamente o que tinha estudado. Aí fui para o EJA [Educação de Jovens e Adultos] e fiz tudo de novo.”

Apesar das dificuldades, ele não pensou em desistir. Concluiu o ensino fundamental, cursou o ensino médio e passou a dar aulas em sua aldeia. Durante oito anos teve a responsabilidade de educar as crianças e adolescentes de seu povo, da etnia Paumari. Em 2012, foi convidado pela secretaria de Educação para coordenar um dos polos de educação indígena existentes em Lábrea, que fica a 701km de Manaus. Atualmente, é responsável por dez escolas, 22 professores e 420 alunos, do 1º ao 9º ano.

“Meu papel é visitar as aldeias e ver se está tudo bem. Faço o acompanhamento pedagógico de todos os locais”, resume Silva sobre suas funções.

Futuro universitário

No próximo ano, Silva vai se dividir entre a vida de coordenador e a vida de estudante. Ele deve iniciar a graduação de pedagogia intercultural indígena, oferecida pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas). Sua alegria é ainda maior, afirma, pois fará o curso com a filha de 20 anos, que é professora na aldeia há dois.

“Estou orgulhoso de mim e dela também. A expectativa é grande demais. Meus pais nunca esperaram que um dia a gente [indígena] pudesse chegar a isso”, diz emocionado. “Para mim é importante fazer faculdade, pois vou poder ajudar melhor na área de educação do meu povo”, ressalta.

 

 

*A jornalista viajou à convite da Caravana do Esporte e da Caravana das Artes, projeto da ESPN em parceira com o Instituto Esporte e Educação, Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e Disney, que tem como objetivo levar a metodologia do esporte educacional e da arte-educação para comunidades do interior do Brasil com baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

Falta de estrutura ameaça educação de crianças indígenas em Alagoas

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Alunos estudam em casas cedidas, centro comunitários e até sob árvores.
Estado diz ‘conhecer as demandas’ e está revendo planejamento de obras.

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Publicado no G1

Abandono. Esta é a realidade das escolas indígenas de Alagoas. O Estado possui 12 povos espalhados por 10 municípios, mas apenas em metade deles há um local físico que pode ser chamado de escola indígena. Nos demais, as crianças têm que estudar em escolas públicas regulares, em espaços improvisados cedidos pela comunidade ou até sob árvores.

A reportagem do G1 visitou municípios onde vivem tribos indígenas e constatou a precariedade da educação oferecida às crianças (veja no vídeo acima).

“Essas crianças são verdadeiras guerreiras. Elas enfrentam o forte calor, a chuva e todo o desconforto dos locais improvisados para estudar na escola indígena, ou pelo menos no que podemos chamar de escola”, afirma Francisco João da Silva, diretor da Escola Estadual Indígena Ancelmo Bispo de Souza, em Inhapi, no Sertão alagoano.

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De acordo com a Constituição Federal de 1988, a União deveria oferecer educação específica e diferenciada aos índios, que inclui práticas tradicionais dos povos indígenas e calendários e materiais escolares adaptados às atividades das tribos. A coordenação dessas ações é do Ministério da Educação (MEC) e a execução, dos Estados.

O Estado deveria ter construído escolas indígenas, mas nenhuma obra teve início e, aos poucos, os povos vão perdendo a chance de levar a sua cultura para as salas de aula.

A secretária-adjunta da Secretaria de Estado da Educação (SEE), Laura Souza, diz que toda a parte de obras da secretaria está sendo revista, uma vez que alguns dos recursos foram liberados através do Plano de Ações Articuladas (PAR), do MEC.

“A atual gestão conhece as demandas da população indígena e é sensível às suas necessidades. Já nos reunimos com algumas tribos e participamos de audiência com o MPF [Ministério Público Federal] em Arapiraca. Estamos estabelecendo políticas para melhoria da estrutura física das unidades escolares da Rede e as escolas indígenas serão contempladas”, diz a adjunta.

Procurada pela reportagem do G1, a Fundação Nacional do Índio (Funai) afirmou que o órgão não tem o poder de fiscalizar as ações de benefícios para os povos indígenas e que apenas acompanha as questões que envolvem os índios.

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Enquanto isso, os índios se viram como podem. Na cidade de São Sebastião, região Agreste, o povo Karapotó Terra Nova tem apenas uma unidade de ensino regular para educar suas crianças de acordo com a cultura deles.

“O pessoal do Estado vem aqui, faz o levantamento do terreno, novos projetos, e a nossa escola ficou apenas no papel. É muito triste, nossas crianças vão perdendo a nossa cultura, a nossa essência”, diz o índio José Antônio dos Santos.

Em Inhapi, a escola do povo Koiupanká funciona em um Centro Comunitário, em ocas e em casas cedidas. Uma delas era a do diretor da escola Francisco João da Silva, que não suportou ver as crianças estudando de forma precária.

“Passei três meses morando de aluguel [depois que cedeu a casa para a escola]. Mas hoje, graças a Deus, construí uma casa menor e consigo me virar. Acredito na educação do meu povo e faço de tudo para que as crianças não percam a sua essência”, afirma da Silva.

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O índio Agnos Santos Souza, que trabalha como monitor na escola Tingui-Botó, diz que tem que adaptar o material escolar, que não é direcionado para a educação indígena. Um trabalho que, segundo a Constituição, deveria ser feito por indígenas com formação superior.

“Nós adaptamos, mas não sabemos se é da forma correta porque não tem ninguém para dizer como temos que fazer. Os professores, que na verdade são contratados como monitores, trabalham porque realmente gostam, porque não há uma carreira para professor indígena e nem concurso”, reforça.

Questionada sobre a contratação de monitores, a Secretaria da Educação não explicou por que eles fazem o trabalho que deveria ser feito por profissionais formados e se limitou a dizer que se reuniu com algumas tribos para tentar resolver a situação.

Em Porto Real do Colégio, a diretora da Escola Pajé Francisco Queiroz Suíra, do povo Kariri-Xocó, reclama que a escola não tem muros, os ventiladores não funcionam e a fiação é exposta. A escola também enfrenta a falta de água e problemas no telhado.

“Falta tudo aqui na escola. Nós até isolamos uma parte por causa da fiação exposta. Teve uma reforma recente, mas só maquiaram os problemas. Teve um curto circuito e uma das salas pegou fogo, por sorte ninguém ficou ferido. E o governo não faz nada para mudar essa triste realidade e cumprir de fato a lei”, diz Lucicleide de Oliveira.

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Em situação ainda mais precária estudam as crianças indígenas da tribo Aconã, em Traipu, município do Baixo São Francisco alagoano. Os alunos estudam em garagens e embaixo de árvores. Há mais de 4 anos não chega merenda para as crianças, segundo a comunidade.

O cacique Saraiva diz que há um documento no governo no qual consta que a escola no município foi construída há dois anos. “Só tem paredes aqui. Os materiais que vieram para os alunos ainda estão embalados, porque não há condições deles terem aulas assim”, lamenta o cacique.

Educação para integrar o índio

No Brasil, a questão da educação indígena sempre foi tratada como um problema. Nos períodos colonial, imperial e republicano, a educação sempre foi voltada para integrar o índio na sociedade nacional, ou seja, os índios aprendiam a ser brancos.

Entre os anos de 1910 e 1967, foi criado o Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Quem ministrava as aulas eram as mulheres dos chefes do posto do SPI. O modelo continuou sendo integrar o índio à sociedade.

“Em 1967, foi criada a Fundação Nacional do Índio, mas a concepção não mudou. Logo no artigo 1º fala-se em integrar o índio à sociedade. O índio se tornou mão de obra barata e sem direitos”, afirma o antropólogo Jorge Vieira.

Ainda segundo ele, a teoria sobre a educação dos povos indígenas só mudou em 1988 com a Constituição Federal, quando a responsabilidade da educação passou para a União e, na década seguinte, para os estados.

“Todos os estados assumiram esse compromisso, mesmo sem ter capacitação técnica e pedagógica. Se a educação já não prestava, imagina com os estados assumindo. Ficou ainda pior aqui em Alagoas. Os índios estão perdendo a sua essência porque não há um ensino diferenciado e específico, como defende a Constituição”, lamenta o antropólogo.

Brasileiro Alberto Costa e Silva vence Prêmio Camões

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O poeta, ensaísta e historiador Alberto da Costa e Silva (Ana Carolina Fernandes/Folhapress)

O poeta, ensaísta e historiador Alberto da Costa e Silva (Ana Carolina Fernandes/Folhapress)

O poeta paulista é autor de livros sobre a cultura e a história da África

Publicado na Veja

O poeta, ensaísta e historiador brasileiro Alberto Costa e Silva é o vencedor do Prêmio Camões de 2014, anunciou nesta sexta-feira o júri da premiação, considerada a mais importante das letras em língua portuguesa. Costa e Silva foi escolhido por unanimidade pelos jurados, que destacaram a importância do trabalho do poeta como uma ponte entre a América Latina, África e Europa.

Nascido em São Paulo em 1931, Costa e Silva é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000 e foi presidente da instituição entre 2002 e 2003. O poeta é autor de diversos livros sobre a cultura e a história da África, como A Enxada e a Lança e A Manilha e o Libambo, ambos editados pela Nova Fronteira. Costa e Silva também atuou como diplomata nas embaixadas do Brasil em países como Portugal, Espanha e Estados Unidos.

O Prêmio Camões foi criado em 1988 pelos governos de Portugal e Brasil com o objetivo de escolher um escritor cuja obra contribua à projeção e ao reconhecimento da língua portuguesa, que conta com mais de 230 milhões de falantes no mundo. Em 2013, o moçambicano Mia Couto levou o prêmio.

(Com agência EFE)

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