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Sim, estresse: escola top de Brasília incentiva clima de pressão

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Aluno do Colégio Olimpo, de Brasília. Campeão do Enem por Escola, o colégio incentiva o estresse como motivação. Na camiseta: "Yes, Stress"

Aluno do Colégio Olimpo, de Brasília. Campeão do Enem por Escola, o colégio incentiva o estresse como motivação. Na camiseta: “Yes, Stress”

Edgard Matsuki, no UOL

Basta uma rápida caminhada pelo pátio da escola que teve a melhor nota do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) no Distrito Federal e se percebe o clima de pressão no ambiente. No Colégio Olimpo de Brasília, o estresse é considerado combustível para o bom desempenho do estudante. Tanto que a instituição adota slogans como “exigente como a vida” e alunos desfilam no local com camisetas e pastas com a sugestiva mensagem “Yes, Stress” [Sim, estresse].

Alunos da instituição chegam a estudar 16 horas por dia para se preparar para o Enem e para as provas do vestibular. Desse total, cerca de oito horas são em sala de aula e o resto do tempo é dividido em atividades de apoio pedagógico, oficinas e a preparação individual dos estudantes. “Deixamos o ambiente da escola para o aluno estudar. Alguns ficam até a noite”, diz o diretor pedagógico Vinicius de Miranda.

Todos os alunos que desejam entrar na escola passam por uma avaliação de suas notas anteriores e já recebem um aviso na entrevista de admissão. “Avisamos a ele que ninguém tem tratamento especial. Se o aluno não tem um desempenho tão bom em outra escola, avisamos que ele pode ter dificuldades”, explica Miranda.

Estresse que motiva

O diretor pedagógico diz que o assunto estresse chega a ser recorrente com pais de alunos: “Explicamos que a escola é adepta ao ensino conteudista [que privilegia o conteúdo, a quantidade do conhecimento] e que o estresse pode funcionar como motivador”.

As exigências na escola acabam criando um padrão de aluno. De acordo com Miranda, o perfil do estudante do Olimpo é um aluno mais introspectivo, curioso e proativo. A maioria dos estudantes postulam vagas em universidades públicas de medicina ou engenharia. A escola aponta que cerca de um terço dos alunos chegam a ter dificuldades com notas e precisam de apoio pedagógico.

Além do incentivo ao estresse, outra forma de marketing da escola é mostrar o número de estudantes aprovados nos cursos preferidos — uma estratégia bastante utilizada no mercado. Em um folheto de divulgação, há o número de 16 aprovações no IME (Instituto Militar de Engenharia) e no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica)  e mais de 100 aprovações em medicina em diversas universidades. O mesmo folder mostra o preço para o semi-intensivo deste ano: quase R$ 9 mil por seis meses de estudo.

Os alunos Luis Cury e Kessi Jhones são da turma que encara longas jornadas

Os alunos Luis Cury e Kessi Jhones são da turma que encara longas jornadas

Jornada de 16 horas de estudo

Candidatos a uma vaga no IME ou no ITA, os estudantes do terceiro ano Luis Cury e Kessi Jhones, ambos com 17 anos, são dois exemplos de alunos que ficam 16 horas ao dia em cima dos livros.

No dia da entrevista, Cury havia chegado mais cedo à escola para aulas de reforço: “Em um dia regular, eu estudo das 6h às 22h. Pela manhã, plantões de estudo e das 14h às 21h, aulas. Eu gosto daqui porque uma escola regular não te exige tanto e não motiva tanto”.

Kessi adota outro horário de estudo: “Eu fico das 8h até a meia-noite. Meu hobby é o estudo”. O rapaz se mudou há cerca de um mês do Rio e está morando com outros sete alunos do Olimpo em um alojamento próximo à escola. “Eu já estudava esse quantidade de tempo. Mas admito que tem que gostar de estudar”.

Cury, 17, é aluno no Olimpo há três anos e conta que a sua turma de escola tem diminuído. “Quem não entra no ritmo, cai fora da escola. [A turma] Tinha uns 45 alunos. Sempre saem umas cinco pessoas por sala. Nem sempre o método funciona para todo mundo”, aponta.

Literaturas africanas de língua portuguesa: 10 obras fundamentais

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Sandro Brincher, no Amálgama

[Nota do Editor: Em novembro de 2008 publicamos uma lista de livros fundamentais da literatura africana, elaborada por Marília Bandeira, doutoranda da USP. A relação sempre foi muito acessada, mas recebeu algumas críticas devido à carência de obras em língua portuguesa — Marília é especialista em literatura de língua inglesa. Agora publicamos essa outra lista, de Sandro Brincher, da UFSC]

Já li em alguma antologia que toda seleção é ingrata. Ora, não é preciso lembrar que o objetivo das listas e das antologias não é nem justiça, nem equilíbrio. Elas refletem, afinal de contas, uma opinião em um determinado tempo sob certas influências teóricas ou metodológicas. O objetivo de toda lista – e aqui me refiro a uma lista bibliográfica – é oferecer um panorama de leitura, um primeiro empurrão, um norte aos interessados num determinado assunto. Proponho-me então, mui injusta e desequilibradamente, a apresentar uma lista pessoal de dez obras fundamentais das chamadas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Outra questão que se faz importante é essa pluralização do objeto: literaturas. Cada país da chamada lusofonia (o conjunto de países onde se fala Português) – termo que, vale frisar, não agrada a muita gente – tem sua própria história de colonização, suas características étnicas e sociais que acabam reverberando em suas literaturas. Se já é redutor e generalizante dizer “Literaturas Africanas”, no plural, penso que no singular é ainda mais.

Passemos às obras. Algumas aí estão por conta de sua evidente aclamação crítica. Outras, por sua importância histórica ou por terem sido “vanguarda” em algum momento. Há ainda aquelas que, sem estarem em nenhuma das duas situações mencionadas, são instigantes, belas, impactantes ou terríveis – sim, porque a terribilidade da obra também é fundamental para o prazer da leitura.

Ei-las, as obras, ordenadas em ordem alfabética pelo sobrenome do(a) autor(a), seguidas de algum comentário ou da resenha da editora (indicada, quando for o caso).

Terra Sonâmbula | Mia Couto | Moçambique
O primeiro e um dos mais densos romances do moçambicano Mia Couto, hoje o mais popular dos escritores africanos de língua portuguesa, Terra Sonâmbula tem como pano de fundo o período de guerra civil pós-independência em Moçambique, mesclando realismo visceral a elementos fantásticos de forma absolutamente orgânica. Em meio a uma terra devastada, perambulando por uma estrada “mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância”, um velho e um menino buscam uma forma de sobreviver em meio àquela paisagem fantasmagórica. O romance foi adaptado para o cinema em 2007 sob a direção de Teresa Prata, com co-produção portuguesa, alemã e moçambicana.

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O vendedor de passados | José Eduardo Agualusa | Angola
Há quem indicaria Estação das chuvas ou mesmo Nação crioula como livro-chave na produção de Agualusa. Entretanto, como nesta lista um dos objetivos ao indicar um livro é sempre despertar em quem o lerá a curiosidade de conhecer mais do autor indicado, penso que O vendedor de passados cumpre muito bem tal papel. É uma narrativa densa sem ser fatigante, com humor e amor na dose certa, satirizando com comedimento a construção da História e dos “heróis” daquele país, tudo visto através do olhar de uma osga (lagartixa), o narrador do romance.

Resenha da contracapa: Félix Ventura escolheu um estranho ofício: vende passados falsos. Os seus clientes, prósperos empresários, políticos, generais, enfim, a emergente burguesia angolana, têm o seu futuro assegurado. Falta-lhes, porém, um bom passado. Félix fabrica-lhes uma genealogia de luxo, memórias felizes, consegue-lhes os retratos dos ancestrais ilustres. A vida corre-lhe bem. Uma noite entra-lhe em casa, em Luanda, um misteriosos estrangeiro à procura de uma identidade angolana. E então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer. Sátira feroz, mas divertida e bem humorada, à atual sociedade angolana, O Vendedor de Passados é também (ou principalmente) uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos.

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Yaka | Pepetela | Angola
Yaka, apesar de não ser o livro mais representativo da produção ficcional de Pepetela (aliás, é destacar apenas um), é um dos mais importantes para entender questões fundamentais com as quais o autor vai trabalhar ao longo de toda sua obra, sobretudo a relação colonizado/colonizador, tema que está na pauta do dia de discussões acadêmicas há algumas décadas.

Orelha da edição brasileira lançada pela Ática em 1984: Uma estátua, Yaka, pura ficção, surge como motivo condutor deste romance em que, nos finais do século passado, uma família de colonos se estabelece em Benguela, centro comercial que ombreava com Luanda. Recorrendo à memória familiar, Pepetela traça os vários momentos da saga desses colonos, misto de comerciantes e agricultores, mostrando como criaram a sua verdade referencial, tão diferente do contexto africano, que não tinham condições de entender. Alexandre Semedo, o velho colono, desde cedo convive, em segredo, com o mito da estátua; ao morrer, fica sabendo, pela voz de Yaka, que sua geração será a última. Yaka simboliza a migração de povos caçadores, mais tarde grandes guerreiros, que após chegarem à região de Luanda e irromperem, no século XVI, no reino do Congo, atingiram o Cunene, no extremo sul de Angola. O mito da unificação do território nacional, posteriormente tornado realidade, acompanha o Autor ao criar Yaka. A estátua está cuidadosamente guardada por Alexandre Semedo, desprezada por seus familiares, que com a independência fogem para o sul, e respeitada pelo jovem neto, que se torna um combatente do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), é mito ou realidade?

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Os flagelados do vento leste | Manuel Lopes | Cabo Verde
Considerado um romance neo-realista, nele o fenômeno da seca cabo-verdiana é ao mesmo tempo paisagem e personagem. José da Cruz é um homem a quem as forças e as esperanças se esvaem, mas cujo ímpeto de sobrevivência o leva a procurar as forças de trabalho do antigo sistema colonial. A luta dura e inescrupulosa pela vida vai moldando personagens áridos como a própria ilha de Santo Antão, palco deste drama no qual a natureza, sempre implacável, é a força que dá alento e o tira com a mesma fluidez do vento que corta o arquipélago de Cabo Verde.

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O testamento do Sr. Napomuceno | Germano Almeida | Cabo Verde
Da contracapa da edição da Cia das Letras: Dez anos antes de morrer, o Sr. Napumoceno escreveu um testamento de “387 laudas de papel almaço pautado”. Ninguém imaginava que pudesse haver tanta novidade na vida do comerciante solteirão, de hábitos rigorosamente metódicos. Mas, nas centenas de folhas onde o Sr. Napumoceno registrou a própria vida com toda a sinceridade, não se conta apenas a história do garoto de pés descalços que enriqueceu com trabalho, sorte e alguma malandragem: entrelaçado àquela existência surpreendente emerge o quadro vivo do cotidiano em uma cidade de Cabo Verde antes da independência de Portugal, da década de 40 em diante.

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Luuanda | Luandino Vieira | Angola
Terceiro livro de contos deste angolano por adoção – Luandino nasceu em Portugal –, é constituído por três narrativas: “Vovó Xíxi e seu neto Zeca Santos”, “A estória do ladrão e do papagaio” e “A estória da galinha e do ovo”. Através do olhar do narrador, conhecemos o cotidiano dos musseques (favelas) de Luanda, a capital angolana. A falsidade da política de assimilação colonial, a falta de esperanças num futuro decente, a descoberta da solidariedade como forma de alívio da dor da existência, o olhar transformador da criança em meio a essa realidade dura: eis alguns dos temas que Luuanda nos oferece.

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Balada de Amor ao Vento | Paulina Chiziane | Moçambique
As histórias que Paulina ouvia na infância são a fonte de onde Paulina extrai o material humano que descreve neste romance. Aqui conhecemos Sarnau, uma jovem que amava Mwando, rapaz a quem o sacerdócio estava designado como carreira. Entretanto, a relação não vinga, pois seus destinos se separam. Sarnau torna-se uma das mulheres do rei de Mambone. Tempos depois, ela reencontra Mwando e o romance é atualizado; pela perseguição que sofrem, entretanto, separam-se de novo, tomando rumos igualmente terríveis: ele, deportado a Angola, cumprirá quinze anos plantando café e cana. Sarnau, que teve um filho de Mwando enquanto ainda era rainha, vê o menino ser coroado rei após morte do falso pai, mas amargará uma vida de prostituição para sobreviver a partir daí.

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A louca de Serrano | Dina Salústio | Cabo Verde
A produção de textos curtos é dominante na literatura caboverdiana. Segundo a professora e pesquisadora brasileira Simone Caputo Gomes, isto se deve, entre outras questões, à escassez de editoras e necessidade de se publicar em periódicos, de um lado, e a uma tensão, uma urgência na necessidade do que se quer comunicar, de outro. Sendo uma literatura de poucos romances, A louca de Serrano se destaca não somente por pertencer a tal gênero, mas também por ser o primeiro romance de autoria feminina na literatura de Cabo Verde. As marcas do feminino, porém, não se limitam à mão que escreve: estão evidentes nas faces, nos gestos, nas vidas que Salústio vai pintando sobre as paisagens hostis da ilha de Santo Antão. Enfim, um romance crucial para entender a condição sui generis de Cabo Verde no vasto panorama das literaturas escritas em língua portuguesa.

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Bom dia camaradas | Ondjaki | Angola
Da resenha de Helena Sut: “Bom Dia Camaradas, romance do escritor angolano Ondjaki, expõe a trajetória de Angola depois da independência, ambientado em Luanda na década de 80. Narra um momento que “aconteceu” ao autor e faz parte da formação da sociedade e da utopia. O protagonista é um menino da classe média pós-colonial que narra seus dias em paralelo com o ano letivo. Uma poética história que revela o mundo nos diálogos com o camarada Antônio, nas aulas dos professores cubanos, nos cartões de racionamento, na visita da tia que vem de Portugal, nos medos, nas despedidas, nos sonhos e nas percepções em câmara lenta”.

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Os filhos da pátria | João Melo | Angola
Ao invés da epígrafe de Gabriel Pensador, “Essa é a Pátria que me pariu”, talvez a célebre frase dos Racionais MCs fosse igualmente apropriada: “Periferia é periferia em qualquer lugar”. Isso porque o retrato que João Melo – romancista, poeta, político, editor da revista eletrônica África 21 – faz dos musseques não é em muitos aspectos diferente daquele conhecido da favela brasileira. Entretanto, sua visão não é essencialmente fatalista. A efervescência de etnias, culturas e línguas imprime, sob a ótica do narrador, um caráter único a esses espaços. Os filhos da pátria percorre as formas através das quais a interseção dessas características plurais dá corpo a uma identidade nacional, seja ela baseada num “tipo coerente de psicologia social humana” (citando Appiah) ou nas próprias diferenças que lhe são constitutivas.

dica do Sidnei Carvalho de Souza

Candidatas a Miss Brasil 2013 trocam ‘O Pequeno Príncipe’ pela Bíblia

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Publicado no Terra

Capa do livro O Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry Foto: DivulgaçãoPode parecer preconceito (e é!), mas para muita gente o famoso livro O Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry, ficou estigmatizado como um “livro de miss”. E de onde surgiu esse apelido? Bom, de acordo com o Guia dos Curiosos, do autor Marcelo Duarte, foi nos anos 70, quando parte da imprensa brasileira reparou que as candidatas frequentemente citavam a obra como seu livro de cabeceira. Além disso, as misses costumavam citar as frases do personagem em seus discursos, como “só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

As candidatas ao título de mulher mais bonita do Brasil deste ano, mostraram que essa história de O Pequeno Príncipe é uma tremenda bobagem. Entre as 27 candidatas, apenas uma citou o livro (sim, ele ainda está presente no universo dos concursos de beleza). A miss em questão foi a representante do Piauí, que justificou sua escolha com a seguinte frase: “porque fala sobre valores sentimentos e relacionamento de amor e amizade”. Assuntos que fazem parte e muito do universo deste tipo de competição.

E se vocês querem saber, o livro mais citado é muito mais antigo do que o amigo de 70 anos. Cerca de 14,9% das misses de 2013 preferem a Bíblia. As justificativas lembram muito as da escolha de O Pequeno Príncipe. Algumas dizem que “inspira”, outras porque traz paz, ou então porque é cheia de “ensinamentos”.

Os livros com inspiração religiosa ou de autoajuda também se destacam. Ao menos 11,1% das candidatas apontaram A Cabana, de William P. Young, como livro favorito. Com a mesma porcentagem, outras preferiram O Segredo, de Rhonda Byrne. A obra O Futuro da Humanidade, do psiquiatra Augusto Cury, também foi citado e ficou em terceiro lugar entre os mais lidos pelas candidatas.

Porém, nem só de autoajuda e religião vive o Miss Brasil. Algumas beldades inovaram na escolha e citaram O Alienista, de Machado de Assis, 1808, de Laurentino Gomes, e até A Força Normativa da Constituição, de Konrad Hesse. Este último, foi uma escolha de Cristiana Alves da Silva, do Rio Grande do Norte. “Explica a força normativa da Constituição na concretização dos direitos fundamentais e da dignidade da pessoa humana”, afirmou. Então, tá!

O Miss Brasil acontece no dia 28 de setembro, em Belo Horizonte, e conta com a transmissão ao vivo da Band. Os apresentadores deste ano são Renata Fan e Sérgio Marone.

Candidatas ao título de Miss Brasil 2013 Foto: Carol Gherardi/Band / Divulgação
Candidatas ao título de Miss Brasil 2013
Foto: Carol Gherardi/Band / Divulgação

Scott Turow: ‘A Amazon quer tirar as editoras do mercado’

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Meire Kusumoto, na Veja

O escritor americano Scott Turow, no Brasil para participar do Pauliceia Literária, evento da Associação dos Advogados de São Paulo (Aasp) que teve início nesta quinta e segue até domingo na capital paulista, divide a vida e a carreira entre dois mundos que, com muita frequência, se encontram: o direito e a literatura. Advogado formado em 1970 pela Amherst College, em Massachusetts, e atuante como tal, publicou seu primeiro romance, Acima de Qualquer Suspeita (Record), em 1987, pelo qual alcançou reconhecimento e foi considerado o criador de um gênero novo, o thriller jurídico, em que o tribunal de justiça é o principal cenário de acusações e reviravoltas.

Além de usar o conhecimento prático da profissão para construir suas histórias, Turow também usa o direito para defender seus colegas escritores no que ele chama de “ambiente de guerra”, em que o Google e a Amazon são os principais inimigos, atacados pelo escritor em um artigo publicado no jornal americano The New York Times em abril. “A Amazon quer tirar as editoras do mercado e ser a única ponte entre o autor e o leitor”, disse em entrevista ao blog VEJA Meus Livros. Para ele, autor de onze livros – que venderam 30 milhões de cópias no mundo – e presidente do Sindicato Americano de Autores, as políticas agressivas de redução de preços de livros praticadas pela Amazon e as tentativas do gigante de buscas de digitalizar bibliotecas inteiras não deveriam ser aceitas pela justiça, já que colocam a sobrevivência dos autores em risco.

Apesar do embate contra as gigantes da internet, Turow é adepto da tecnologia e diz levar um iPad durante as viagens que faz, por questão de praticidade. “Eu não considero o papel sagrado, mas as palavras e o texto, sim. Geralmente eu compro o livro digital e o físico, porque uma vez que você termina o e-book, não há nada para você colocar na prateleira”, afirmou. Mas, coerente, não compra livros da Amazon por acreditar que a empresa pode ser o agente exterminador do modo de publicação tradicional. “Eles defendem um modelo em que todos os escritores se autopublicam, negócio que rende à Amazon 30% dos lucros de venda da obra. O risco que vejo é de que, quando a Amazon tiver efetivo controle do mercado, ela pague cada vez menos a autores para vender livros por preços menores para os consumidores.”

Scott Turow participa do Pauliceia Literária na mesa “Advogado, profissão: escritor”, nesta sexta-feira, às 19h, com mediação do jornalista Arthur Dapieve. Confira a entrevista do escritor.

Em 2011, você deu uma entrevista durante a sua passagem pela Bienal do Livro do Rio em que afirmou que o advogado Rusty Sabich era seu alter-ego. Você disse que não sabia se ele seria feliz eventualmente porque, talvez, você mesmo não soubesse como ser feliz. Isso mudou com o tempo? (Risos) É tão engraçado, minha namorada me faz essa pergunta o tempo todo, coisas do tipo: “Você aguenta ser feliz?”. Acho que a resposta é sim, é a recompensa por envelhecer.

Sabich voltará em breve em um de seus livros? Ele precisa aparecer mais alguma vez para ser feliz, também. Mas eu preciso de mais experiência sendo feliz para escrever essa história.

Nos seus livros, você mostra como a justiça pode ser falha. Foi algo que observou na prática do direito? A justiça não é perfeita e escrevi sobre como a lei, mesmo com seu propósito nobre, nem sempre é seguida.

No artigo The Slow Death of the American Author, publicado no jornal The New York Times, você diz que o valor dos direitos autorais está sendo depreciado. Podemos responsabilizar somente o mercado digital por isso? A revolução digital criou um ambiente de guerra de todos contra todos, em que muitos aliados tradicionais já não são mais aliados, como editores e autores, livrarias e autores. Um está no pescoço do outro, todos viraram competidores. As editoras querem pagar valores menores de royalties para autores por e-books. Escritores acadêmicos cujos livros não vendem defendem um mundo em que os livros são gratuitos porque eles são sustentados por universidades. E também temos forças novas, como Amazon e Google, que têm modelos diferentes para o funcionamento do mundo editorial. O Google quer copiar o conteúdo das bibliotecas das principais universidades e depois disponibilizar on-line para buscas, com o risco tremendo de que essa biblioteca seja hackeada. Para mim, o mais ridículo e injusto é que eles querem fazer uso comercial dos trabalhos de autores, lucrando em cima disso. A Amazon quer tirar as editoras do mercado e ser a única ponte entre o autor e o leitor. Eles defendem um modelo em que todos os escritores se autopublicam usando a plataforma da Amazon, negócio que rende à empresa 30% dos lucros de venda da obra. Além de tudo, há o problema muito sério dos livros piratas, distribuídos em vários sites. Meus livros foram pirateados depois de uma semana de publicação e estão sendo distribuídos gratuitamente na internet por sites sustentados por anúncios publicitários. Nem os anunciantes nem os mecanismos de busca que levam as pessoas a essas páginas são punidos por isso.

Você não acha que a autopublicação foi benéfica para novos autores? Os e-books e a Amazon não ajudaram nesse sentido? É ótimo para novos escritores, fico feliz que as dificuldades para entrar no mercado editorial tenham diminuído. Nos Estados Unidos, é difícil publicar um livro por uma editora, então é uma coisa boa que as pessoas consigam vender seu trabalho na Amazon. Não sou contra isso nem um pouco. Meu medo, no entanto, é que a Amazon use o modelo de autopublicação para todos os autores e tire as editoras da jogada. Vários executivos de editoras acreditam que esse é o objetivo da Amazon.

Como você vê o futuro do mercado editorial e de autores, nesse cenário? Sempre vão existir leitores, livros e novos autores. O risco é de que, quando a Amazon tiver efetivo controle do mercado, ela pague cada vez menos a autores para vender livros por preços menores para os consumidores. Vai ser cada vez mais difícil para autores que não os mais famosos ganhar a vida fazendo literatura. Muitos vão sumir em meio aos milhares de livros da Amazon. Com isso, a cultura literária americana será prejudicada, vai haver menos vozes. Essa não é a visão que os fundadores da nação tinham quando eles estabeleceram as regras de direitos autorais, criadas para a proteção do trabalho de um autor.

Você tem um leitor de livros eletrônicos? Tenho um iPad. Leio a maior parte dos meus livros no iPad, tenho três romances carregados no leitor e outros cinco guias turísticos por causa da viagem ao Brasil. É muito mais fácil viajar com o iPad, eu não considero o papel sagrado, mas as palavras e o texto, sim. Geralmente eu compro o livro digital e o físico, porque uma vez que você termina o e-book, não há nada para você colocar na prateleira. Você se cerca do status físico do livro, o que você leu é uma forma de lembrar quem você é. Eu não acho a experiência de leitura diferente, mas a experiência de vida diferente. Eu não sou contra a tecnologia, amo meu iPad, eu escrevo com o auxílio dele, faço compras com ele. Faço compras na Amazon! Compro coisas como a tigela do cachorro e brinquedos para o meu neto, mas não livros. Também não acredito em visitar lojas físicas e depois comprar os produtos na Amazon, os vendedores fizeram um investimento ao comprar e exibir aquilo. Mas os americanos, especialmente, são muito sensíveis ao preço, parece que é a única coisa que importa.

Qual a sua sugestão para proteger autores e editoras? Eu gostaria que as leis mudassem, que as pessoas que anunciam em sites piratas e que mecanismos de buscas que dão link para sites piratas pudessem ser responsabilizados pelo que fazem. É o mesmo quando alguém diz onde comprar heroína, ele está ajudando a vender a droga. É o sistema louco em que as empresas de internet encontraram uma forma de suspender nossas noções legais para benefício próprio.

O que você pode falar sobre seu novo romance, Identical? Vai ser publicado nos Estados Unidos no mês que vem e no Brasil em março (com o título Idênticos, pela Record). A história é sobre gêmeos idênticos, assunto que sempre me fascinou, mal consigo imaginar como é ter alguém idêntico a você. Minha irmã era gêmea, mas meu irmão morreu durante a infância. Como eu era criança, fiquei confuso, cheguei a pensar que, como era um irmão, um menino, ele era de certa forma meu gêmeo, não da minha irmã. O novo livro é baseado no mito de Castor e Pólux, uma releitura moderna de personagens da mitologia grega. Um irmão é um político de sucesso, que está concorrendo a prefeito, enquanto o outro irmão sai da prisão por ter matado sua namorada 25 anos antes. O irmão da vítima acusa o político de ter se envolvido no crime também.

Você está trabalhando em um novo projeto? Estou tentando escrever um livro do gênero young adult (para jovens adultos) baseado vagamente no meu relacionamento com o meu avô. Tive meu primeiro neto no ano passado e isso me fez pensar muito em meu avô. E depois vou voltar para um romance adulto que vai se passar na Corte Penal Internacional de Haia.

Humpfs

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Érico Assis, no Blog da Companhia

Contexto: era uma aula. Eu era aluno. Eu tinha que fazer uma apresentação do projeto que iria desenvolver dali em diante no curso. O projeto — ou “princípio para o projeto de um projeto”, como chamei — tem a ver com quadrinhos. As pessoas para quem eu ia apresentar não tinham grande familiaridade com quadrinhos, mas sim com Literatura.

Então preparei uma introdução para explicar que (1) quadrinhos não são literatura infantojuvenil e (2) tampouco são literatura. Que quadrinhos são uma linguagem ou mídia própria ou autônoma e, por serem linguagem ou mídia própria ou autônoma, não se comportam do mesmo jeito que um suporte só com letrinhas, nem se restringem a uma só faixa etária de leitores.

Seguiram-se slides de Eisner, Spiegelman, Bechdel, do Chris Ware. Expliquei que alguns destes autores, fora não serem direcionados ao público infantojuvenil, haviam ganhado prêmios ligados ao sistema literário. Expliquei “graphic novel”. A partir do Ware, passei às explorações formais contemporâneas: Jon McNaught, OuBaPo, Shintaro Kago, Laerte.

Foram só uns dez minutos de introdução para dizer que, reconhecidos os trocentos mil anos de desenvolvimento da Literatura, quadrinhos também tinham alguma história, algum desenvolvimento, alguma variedade, alguma experimentação e, humpf, não eram só a Mônica.

Enquanto eu apresentava o restante do trabalho, deixei circular pela turma exemplares de Você é minha mãe? e Jimmy Corrigan. Para não ficar só nos slides.

Um dos professores (pós-doutorado na França etc.) folheou o Você é minha mãe?, leu a quarta capa, um pouquinho da orelha, perguntou se Bechdel era homem ou mulher e também “você acha que minha filha de 17 anos vai gostar?”

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O professor Paulo Ramos (pós-doutorado na Unicamp etc.) recentemente publicou dois textos no Blog dos Quadrinhos comentando a mania pelas adaptações literárias em quadrinhos no ensino brasileiro. O grande estimulador é o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), que há sete anos tem selecionado HQs para comprar (em grande quantidade) e levar às bibliotecas de escolas públicas. Na conta de Ramos, mais da metade das HQs selecionadas este ano — 61% — são adaptações literárias. Quanto a isso, o texto expõe alguns prós e vários contras.

No segundo texto, o professor comenta a declaração de uma representante do Instituto Pró-Livro, Zoara Failla (mestrado na PUC etc.), que apoia a utilização dos quadrinhos em sala de aula. Porém, diz ela: “eu acho que [a HQ] pode ser um meio, nunca um fim. Porque o quadrinho pode até trabalhar algum conteúdo, mas o faz de forma superficial. Como incentivo à leitura, ele pode ser um mobilizador.”

Para Ramos, humpfamente, “há uma infinidade de obras que poderiam ser utilizadas como exemplos do quão equivocada é essa leitura”. Humpf, sem dúvida. (E poucas dessa infinidade seriam adaptações literárias.) Zoara Failla não é a primeira a quem se atribui um pensamento retrógrado sobre os quadrinhos. E os avaliadores do PNBE aparentemente pensam parecido. O fato é que os exemplos da impropriedade em chamar HQ de “nunca um fim” ou “superficial” estão por aí, são comentados e explicados a torto e a direito. Mas a carga de pré-concepção e de humpfs para as HQs ainda vence.

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Queria ter respondido que “Humpf! Sim, acho que sua filha pode gostar. Mas não só a sua filha. O engraçado é que o senhor não mencionou sua filha quando a gente estava comentando Literatura. Aliás, a autora de Você é minha mãe? é até mais velha que você, professor.”

Mas só respondi que “sim… se ela tivesse uns 13 anos, eu diria que não, mas com 17 acho que sim.”

O que rendeu um “humpf” e reprimenda do outro professor na sala (doutorado na Bélgica etc.), que não gostou da minha aparente desconfiança quanto à capacidade de leitura ou intelectual de adolescentes de 13 anos.

Tive que me justificar: “Não é por capacidade. Só acho que alguém de 13 anos tem mais chance de considerar chata uma história em que a autora analisa a relação com a mãe com base em teoria psicanalítica.” Ou seja, que não só existem quadrinhos para faixas etárias variadas mas que, por conseguinte, alguns deles não são atraentes para o público infantojuvenil.

Em resposta, levei outro “humpf”. A discussão nunca acaba.

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