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Após sucesso do Diário de Classe, Isadora Faber colhe os frutos com livro, palestras e ONG

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Página no Facebook tem 626 mil seguidores e foi criada para denunciar a falta de estrutura na escola onde Isadora estudava, em Florianópolis

Isadora Faber mostra a capa do livro em seu computador (Foto: Eduardo Valente/ND)

Isadora Faber mostra a capa do livro em seu computador (Foto: Eduardo Valente/ND)

Felipe Alves, no Notícias do Dia

Quase dois anos após criar no Facebook a página Diário de Classe – a verdade, na qual denuncia as precariedades na escola onde estudava em 2012, Isadora Faber, 14 anos, não parou mais. O seu primeiro livro está para ser lançado – na quinta-feira, recebeu da editora a capa do livro -, participa de eventos, palestras e entrevistas e, junto com os pais, cuida da ONG Isadora Faber.

Isadora foi convidada no ano passado pela editora Gutenberg, de São Paulo, para contar sua história em um livro. O desafio foi aceito e o lançamento deve acontecer em maio, em São Paulo, onde a história de Isadora teve grande repercussão. Depois, a editora pretende lançar o livro em Florianópolis e em outros Estados. “A editora enviou a capa do livro por e-mail e estou ansiosa para o lançamento. Espero que as pessoas gostem”, diz.

Ela passou quase um ano trocando e-mails com a editora para ajustar todos os detalhes. Nos nove capítulos do livro, Isadora conta sobre sua vida, sua família, do início dos estudos na Escola Municipal Maria Tomázia Coelho, no Santinho, a decisão de criar a página no Facebook relatando as más condições da escola, a repercussão que o caso teve e os frutos que colheu após a criação do diário. A obra ainda tem fotos de Isadora e depoimentos de jornalistas de todo o país que a entrevistaram.

Depois de denunciar os problemas e ajudar a melhorar a escola municipal do Santinho, Isadora mudou de colégio no início deste ano. Seguindo as irmãs mais velhas, ela foi para uma escola particular (Curso e Colégio Solução), no Centro da Capital Na nova escola não há problemas de estrutura e, agora, o Diário de Classe, que tem 626 mil curtidas no Facebook, é atualizado somente para relatar casos de outros colégios.

Aluno Nota 10 é a aposta da ONG Isadora Faber

Dividindo seu tempo entre os estudos, as aulas de inglês e participações em eventos, a agenda de Isadora Faber é supervisionada pela mãe, Diamela Faber, 47, a Mel, orgulhosa das conquistas da filha. “Espero que o livro seja bom para ela e que a vendagem seja boa para ela ter uma boa recompensa, pois a luta não foi pouca”, afirma.

Além do livro, Isadora e a família se dedicam a outro projeto este ano: a ONG Isadora Faber. Criada em junho de 2013, a organização busca melhorar a educação pública em escolas de todo o país.

A prioridade este ano está na concretização do projeto Aluno Nota 10, inspirado no projeto de mesmo nome criado por um empresário na cidade de Morro do Chapéu, na Bahia, que valoriza e recompensa os melhores alunos de escolas públicas, incentivando-os a obter melhores rendimentos. “Esse projeto foi crescendo na Bahia e tomou grandes proporções. Hoje são quase cem cidades que fazem o Aluno Nota 10, melhorando o desempenho de estudantes em até 60%. A proposta é dar uma recompensa palpável ao melhores alunos, premiando-os com notebooks ou tablets no fim do ano”, conta Mel.
De acordo com Mel, esta é a grande aposta da ONG Isadora Faber. Com o projeto pronto para ser aplicado em Florianópolis, a família Faber busca apoiadores para ajudar no processo. Quem quiser participar pode entrar em contato pelo telefone (48) 3207-6364.

Na capa do Google

A repercussão da página de Isadora Faber no Facebook fez com que o jornal inglês Financial Times a colocasse, em fevereiro de 2013, na lista dos 25 brasileiros que deveriam ser observados nos próximos meses. Isadora estava listada ao lado do jogador Neymar, do presidente do STF Joaquim Barbosa, dos cineastas Carlos Saldanha e Fernando Meirelles e da modelo Gisele Bündchen.

No dia 8 de março deste ano, Isadora voltou a ser destaque, desta vez na capa do Google, que fez uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Ao lado das brasileiras Maria da Penha, a empresária Viviane Senna, a deputada Mara Gabrilli e a jogadora de futebol Marta, Isadora ganhou destaque em um vídeo reunindo cem mulheres de destaque mundial. “A equipe do Google me enviou um e-mail, pediu para eu fazer um vídeo e disseram que eu participaria da homenagem. Gostei bastante, a edição ficou bem legal”, diz a ainda tímida estudante do 1º ano do ensino médio.

O desafio final da literatura jovem

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“Divergente” é mais um filme de ação baseado numa saga juvenil, gênero que conquistou o mundo – e começa a entrar em decadência

ADIANTADA A americana Veronica Roth (abaixo) assinou o contrato para adaptar a saga Divergente para o cinema antes da publicação do primeiro volume. O último volume, Convergente, sai agora no Brasil (Foto: Jaap Buitendijk)

ADIANTADA
A americana Veronica Roth (abaixo) assinou o contrato para adaptar a saga Divergente para o cinema antes da publicação do primeiro volume. O último volume, Convergente, sai agora no Brasil (Foto: Jaap Buitendijk)

Luís Antônio  Giron e Nina Finco, na Época

Em 2010, Veronica Roth tinha 21 anos e cursava o último ano da faculdade de letras na Northwestern University, de Chicago, quando assinou um contrato milionário com a editora HarperCollins, para publicar e adaptar para o cinema um romance que  ela ainda escrevia. “Foi chocante”, afirma Veronica. “Eu disse: ‘Vocês querem fazer isso com este livro?’. Mas vocês não sabem nem mesmo como ele vai terminar!” Nem precisava. O que Veronica produzira durante um curso de escrita criativa bastava para o agente literário encaminhar com confiança os originais – e obter a resposta imediata de um mercado sedento por produtos daquele tipo, que logo ganhariam um nicho de sucesso garantido, a literatura adulta jovem (Young Adult, ou YA), destinada ao público de faixa etária entre 15 e 25 anos. Tratava-se do primeiro volume inacabado de uma trilogia que tinha tudo para se tornar um megassucesso literário e cinematográfico: uma história ambientada no futuro sobre uma jovem, Beatrice “Tris” Prior, que se rebela contra uma sociedade controladora e hiperorganizada.

O primeiro romance, Divergente, forneceu o título à saga adolescente futurista e agourenta. Ele chegou às livrarias americanas em abril de 2011, com direito a uma enorme campanha promocional. Na semana de lançamento, o livro atingiu o sexto lugar da lista de livros mais vendidos do jornal The New York Times e se manteve nas primeiras posições por seis meses. Era o auge do sucesso de outras “sagas adultas jovens”, como Crepúsculo (2006-2008), de Stephenie Meyer, e Jogos vorazes (2008), de Suzanne Collins. Veronica foi então comparada às duas autoras que vendiam milhões de exemplares com seus romances seriados – e no caso de Stephenie atraía milhões de fãs ao cinema, com a adaptação da saga Crepúsculo, que estreara três anos antes, em 2008. Jogos vorazes chegou aos cinemas em 2012. Ambos foram sucessos de bilheteria.

Foto: Annie I. Bang/AP

Foto: Annie I. Bang/AP

Veronica seguiu as pegadas das colegas mais velhas. O segundo e o terceiro volumes de Divergente Insurgente e Convergente – viraram best-sellers nos Estados Unidos em 2012 e 2013, respectivamente. Boa parte do sucesso se deveu, segundo Veronica, às redes sociais e a centenas de blogs dedicados à saga espalhados pelo mundo – até no Brasil. A trilogia vendeu 10 milhões de exemplares nos Estados Unidos e foi lançada em 15 países. Os dois primeiros volumes atingiram 100 mil exemplares vendidos no Brasil. Agora, a saga estreia nos cinemas americanos, ao mesmo tempo que o último volume, Convergente (editora Rocco, 528 páginas, R$ 39,50, tradução de Lucas Petersen), sai em versão brasileira, com tiragem de 30 mil exemplares. O longa-metragem Divergente, dirigido por Neil Burger (de O ilusionista) e estrelado por Shailene Woodley (como Tris), está programado para entrar em cartaz no Brasil em 17 de abril.

O êxito da trilogia transformou Veronica em celebridade aos 25 anos. Ela nasceu em Nova York, cresceu em Hong Kong e na Alemanha e hoje mora em Chicago com o marido, o fotógrafo Nelson Fitch. Já não consegue andar pelas ruas. Sua presença é sempre notada, até porque é bonita e imponente com seu 1,82 metro de altura. Ela é a maior divulgadora da própria obra, pois mantém atualizados um blog, um Twitter e fan pages no Facebook. Ela prepara para julho um volume em e-book de contos em torno de Divergente, sob o ponto de vista do personagem Quatro, namorado de Tris. “No começo, achei difícil entregar minha obra para adaptação”, diz. “A partir do segundo volume, ela deixa de ser sua. Pertence ao leitor.”

O leitor se apossou facilmente do fenômeno. Para o estudante Claudio Silva do Carmo, de 16 anos, um dos responsáveis pelo blog e fã-clube Sagas Brasil, que abriga todos os tipos de séries de livros e filmes para jovens, o sucesso de Divergente se deve à base sólida dos fãs de fantasia, que começaram a gostar do gênero por causa da série Harry Potter, de J.K. Rowling. “Nosso objetivo é fugir do mundo real e nos transformarmos em mil mundos”, diz. “De bruxos, distópico ou qualquer outro onde possamos viver aventuras ou até mesmo nos emocionar.”

Divergente observa o modelo de estrelato iniciado com a série Harry Potter: a combinação de histórias seriadas, lançadas em vários volumes para alimentar a expectativa do público e, em seguida, repetir o ciclo no cinema, com direito a uma extensão e à participação das autoras como consultoras do filme. No caso de Harry Potter, os sete romances viraram oito filmes. Os leitores acostumados a acompanhar Potter logo abraçaram as sagas jovens. A tetralogia Crepúsculo foi filmada em cinco longas-metragens. A trilogia Jogos vorazes chegará a quatro partes no final de 2015. O mesmo deverá ocorrer com Divergente, embora Veronica não confirme: “Mesmo que estejam fazendo esse tipo de plano, fico na posição de espera para ver no que vai dar”.

Quanto ao conteúdo, as sagas jovens também são regidas pela repetição e saturação (leia no quadro abaixo). Segundo João Luis Ceccantini, especialista em literatura infantil e juvenil da Universidade Estadual Paulista (Unesp), as sagas começam bem para cair na monotonia. “O primeiro livro é mais interessante, depois os outros ficam repetitivos”, afirma. “O autor tem uma boa ideia, mas a indústria cultural quer estender o material ao máximo. Ao transformar a literatura numa fórmula, a qualidade acaba diluída.” Para Ceccantini, acontecem repetições flagrantes de saga para saga. “Todas as histórias têm narrativas lineares, seguem uma linguagem muito direta e fazem uso do personagem adolescente arquetípico – com tom heroico, mas também características transgressoras.”

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Esse tipo de trama busca envolver os adolescentes em desafios e dilemas típicos da idade: escolhas profissionais, iniciação sexual, atitudes a assumir diante da família e da vida nova na idade adulta. É diferente do romance juvenil às antigas, ingênuo e voltado para aventuras e lições rudimentares de moral. As sagas jovens abordam questões políticas e existenciais. É o caso de Tris Prior, de Divergente. Aos 16 anos, ela descobre num teste vocacional que não se enquadra em nenhuma das cinco facções em que a sociedade totalitária em que vive se divide: Abnegação, Amizade, Audácia, Erudição ou Franqueza. A divisão resultou de uma decisão governamental de eliminar a luta de classes. A única luta possível é das virtudes. Tris, como qualquer adolescente atual, se vê jogada ao mundo, tem de tomar decisões que marcarão sua vida, mesmo sem estar equipada para o desafio. Exatamente como Katniss Everdeen, de Jogos vorazes. A semelhança não passa de uma coincidência, segundo Veronica, já que ela diz que pensou em sua história sem considerar a de Suzanne Collins. “Se querem comparar com Jogos vorazes, tanto melhor, porque é uma história incrível”, afirma Veronica. “Mas não acredito que o fenômeno se repetirá com Divergente, já que Jogos vorazes era algo inesperado.”

As perspectivas de sucesso para Divergente no cinema são pouco otimistas. Os números das adaptações para o cinema dos últimos dois anos de romances jovens adultos mostram que a tendência é o esgotamento do gênero (leia no quadro abaixo). “A cobrança pelo sucesso é dolorosa e injusta”, disse a produtora Lucy Fisher à revista Entertainment Weekly. “Recebemos ligações de colegas  que trabalham com material jovem adulto, que dizem: ‘É melhor vocês não ferrarem com a gente’. Se não fizermos sucesso, será terrível para o gênero, ainda que nossa pretensão seja apenas fazer um bom filme, que fuja dos lugares-comuns e das etiquetas”.

Divergente fornece material para a especulação sobre o fim do ciclo de sucesso da literatura jovem adulta. Talvez a saga seja o canto do cisne desse tipo de história. Os chavões que Divergente traz se repetiram tanto nos últimos tempos, que os fãs podem ver tudo como algo que nada tem a ver com eles: em vez do escapismo, a previsibilidade.

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Anne Rice publicará novo livro sobre saga de vampiros

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Anne Rice em visita ao Brasil para a Bienal do Livro de 2011 Fabio Rossi / Agência O Globo

Anne Rice em visita ao Brasil para a Bienal do Livro de 2011 Fabio Rossi / Agência O Globo

Edição integra série que tem ‘Entrevista com o vampiro’, que virou sucesso também no cinema. Lançamento de ‘Prince Lestat’ está previsto para 28 de outubro

Publicado em O Globo

RIO – A autora americana Anne Rice anunciou a publicação de um novo livro da série “Vampire Chronicles”. O lançamento está previsto para 28 de outubro, nos Estados Unidos. “Prince Lestat” será uma “verdadeira continuação” da obra de 1988 “A rainha dos condenados”, segundo ela própria, e será o 11º volume da série.

A autora havia dito que a série chegou ao fim em em um vídeo publicado por ela própria no YouTube, em 2008. Porém, voltou a considerar escrever novos volumes em uma sessão de perguntas e respostas com leitores em 2012. Segundo Anne, o novo livro abordará o cotidiano dos vampiros e a ascensão de Lestat a líder da tribo.

Lestat é o vampiro protagonista dos livros da série, que já vendeu 80 milhões de cópias pelo mundo. Ele foi interpretado por Tom Cruise no filme homônimo de 1994, baseado no primeiro livro “Entrevista com o vampiro”, de 1976.

Ela criou polêmica ao fazer críticas à série “Crepúsculo” e à autora Stephenie Meyer, afirmando que achava os livros ruins e mal escritos e que são baseados na premissa tola de que imortais vão para o colégio.

A autora veio ao Rio de Janeiro para participar da Bienal do Livro de 2011, quando lançou o livro “De amor e maldade”.

Sucesso do filme “12 anos de escravidão” alavanca tiragem do livro homônimo

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Emanuelle Najjar, no Cabine Literária

De acordo com a Folha de São Paulo, os efeitos do sucesso do filme “12 anos de Escravidão” estão alavancando as projeções de vendas do livro homônimo.

Em menos de um mês, as duas editoras que publicaram as memórias de Solomon Northup, distribuíram suas tiragens iniciais e já solicitaram a impressão de novas cópias. Companhia das Letras, com 15 mil livros e Seoman, com 10 mil cópias das respectivas tiragens iniciais, mandaram imprimir mais 5 mil exemplares cada um.

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O sucesso é atribuído ao desempenho do longa na última premiação do Oscar, na qual “12 anos de Escravidão” faturou três estatuetas por melhor filme, atriz coadjuvante (Lupita Nyong’o) e roteiro adaptado (John Ridley).

Livro e filme contam a história real de Solomon Northup, nascido livre em Nova York e que, em 1841 foi atraído para Washington D.C com uma promessa de emprego. Lá foi drogado, espancado e vendido como escravo, passando os doze anos seguintes em cativeiro, trabalhando em uma plantação de algodão em Louisiana. Após o resgate dedicou-se a escrever suas memórias, que obteve sucesso quase imediato com o registro detalhado de seu período como cativo.

Escritora chinesa faz sucesso nos EUA

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As grandes agitações da história moderna chinesa estão presentes nas bases do trabalho de Li Foto: Drew Kelly / NYTNS

As grandes agitações da história moderna chinesa estão presentes nas bases do trabalho de Li Foto: Drew Kelly / NYTNS

Yiyun Li aprendeu inglês ao se mudar para a Iowa, já adulta, e superou o preconceito da família com áreas criativas

Larry Rohter, no Zero Hora [via The New York Times]

Quando crescia em Pequim, a escritora Yiyun Li, filha de um físico, parecia destinada a seguir carreira como cientista, mas ela conta que costumava ler um livro de poesia da dinastia Tang enquanto fingia estudar matemática. Anos mais tarde, enquanto fazia doutorado em Imunologia na Universidade de Iowa, adotou uma estratégia semelhante, lendo contos recortados da revista The New Yorker enquanto ficava no laboratório.

— Meus pais eram contra eu escrever e até mesmo contra eu ler literatura, porque achavam que ela colocava pensamentos ruins na minha cabeça. Eu acho que eles só gostavam que eu lesse textos científicos, mas eu sempre gostei de literatura — lembrou recentemente em sua casa em um bairro repleto de ladeiras e árvores daqui.

Li finalmente seguiu seu chamado há pouco mais de dez anos, abandonando a Medicina e se matriculando no renomado programa de escrita criativa da Universidade de Iowa. Desde então, já publicou duas coletâneas de contos muito elogiadas, escreveu dois romances, ganhou uma “bolsa gênio” da Fundação MacArthur e foi indicada a várias listas de “melhores jovens escritores norte-americanos”.

Esses talentos chamam ainda mais atenção quando consideramos a história de Li: quando ela chegou aos Estados Unidos, em 1996, ainda não tinha escrito nada em chinês nem em inglês, uma língua que ela falava, ainda que não no dia a dia.

— Ela é um caso interessante de escritora que escreve em uma segunda língua. O estilo dela tem uma elegância e uma suavidade que na verdade disfarçam sentimentos bastante apaixonados e intensos de equívoco e perda experimentados por suas personagens. Ela é quase que uma escritora do século XIX. Dá para sentir a tradição falar através do trabalho dela de uma forma que não existe hoje — disse John Freeman, ex-editor da Granta, que indicou Li, hoje com 41 anos, à lista de melhores romancistas jovens da revista.

O último romance de Li, “Kinder Than Solitude” (“Mais suave que a solidão”, em tradução livre), que acaba de ser publicado pela Random House, se passa entre a China e os EUA. Os quatro personagens principais do livro começam como amigos adolescentes que crescem em torno de um pátio de Pequim, após o massacre da Praça Tiananmen em 1989.

Depois de o mais velho ser envenenado, talvez por um dos outros, os sobreviventes se afastam: um deles se torna um empresário próspero, mas desumano, desfrutando da ampla expansão econômica da China, enquanto os outros dois fogem para os Estados Unidos, estabelecendo-se em cidades universitárias, como Berkeley, na Califórnia; Madison, em Wisconsin; e Cambridge, em Massachusetts, mas sem conseguirem se adaptar.

Por ser imigrante, Li é muitas vezes agrupada com romancistas como Junot Díaz, Edwidge Danticat, Jhumpa Lahiri, Gary Shteyngart e seu amigo Daniel Alarcón como parte de uma primeira geração de “novos americanos” escritores. Entretanto, ela aponta rapidamente que as circunstâncias são bastante diferentes: ela veio para os EUA quando adulta, não quando criança, e não cresceu bilíngue.

— Na verdade, eu não sei sobre qual assunto uma escritora imigrante deveria escrever, e se você reparar nos meus personagens, eles não têm tantas dificuldades como imigrantes. Eles, na verdade, se saem muito bem. Se quiserem, podem ter uma vida boa. Os embates que eles enfrentam são mais internos (muitas vezes ligados aos problemas que eles trazem consigo da China) — disse ela.

Li, no entanto, parece ter se adaptado bem aos bairros residenciais norte-americanos. Ela dá aulas de escrita criativa na Universidade da Califórnia, em Davis, e contou que a sua rotina consiste em levar os filhos, Vincent e James, para aulas de música e esportes. O marido, Dapeng Li, que era seu namorado na faculdade na China, trabalha como engenheiro de software na rádio online Pandora.

— Toda vez que vou ao consultório do ortodontista, digo: ‘Essa é a minha vida americana’ — disse ela com uma risada.

A sua amiga Brigid Hughes, que, como editora do The Paris Review, foi a primeira a publicar uma das narrativas de Li, disse:

— Ela insiste bastante no fato de que quer ser definida de acordo com seus próprios termos, em ser um indivíduo, e não ser definida pela sociedade, pela história ou até mesmo pela sua língua materna.

“Kinder Than Solitude” marca uma virada na literatura de Li, visto que inclui também personagens americanos. O seu primeiro romance, “The Vagrants” (“Os vagabundos”, em tradução livre), publicado em 2009, se passa em um universo totalmente chinês, em uma cidade provincial sombria chamada Muddy River (inspirada na cidade natal de seu marido), logo após a morte de Mao Zedong. Na seção de resenhas de livros do The New York Times, Pico Iyer descreveu o livro como uma história de “lamento incessante”, povoada por “vítimas de uma sociedade mutilada em que não há mais humanidade e onde a inocência foi criminalizada.”

Apesar de Li ter cautela quanto a ser rotulada como uma escritora de viés político, as grandes agitações da história moderna chinesa estão presentes nas bases de seu trabalho. A guerra civil, as guerras com o Japão, os anos de fome do Grande Salto Adiante, a Revolução Cultural, o massacre da Praça Tiananmen: esses eventos raramente figuram no primeiro plano de seus livros, mas eles limitam e muitas vezes arruínam a vida de seus personagens, impedindo-os de se casar com quem amam, de viver onde querem ou de seguir a carreira que desejam.

— Os livros de Li vem de um lugar muito pessoal, mas eu penso nela como particularmente política, embora não seja algo explícito. A história da China nos últimos cem anos tem sido tão reprimida e ignorada de maneiras diferentes que qualquer personagem adquire um caráter político, e se isso não é abordado, não se está retratando de fato um chinês. Mas eu gosto do jeito que ela faz isso, de uma forma indireta, com habilidade e criatividade — disse o diretor de cinema Wayne Wang, de São Francisco, que por duas vezes fez filmes baseados em contos de Li, “A Thousand Years of Good Prayers” e “The Princess of Nebraska” (“Mil Anos de Boas Orações” e “A Princesa do Nebraska”, em tradução livre).

Li nasceu em plena Revolução Cultural, mas na época em que ela estava aprendendo a ler, já havia alguns livros de literatura estrangeira disponíveis novamente.

Na China, ela leu romancistas politicamente palatáveis, como Dickens, Theodore Dreiser e Jack London, mas foi apenas quando já estava nos EUA que descobriu os escritores que hoje cita como influências e inspirações, muitos deles especialistas em contos, gênero que ela mais aprecia: seu mentor William Trevor, Elizabeth Bowen, V.S. Pritchett, Elizabeth McCracken e Amy Bloom. Os russos são outra grande influência, especialmente Tolstói, Turguêniev e Tchékhov.

Li conta que quando morava na China, não escreveu nada em chinês, a não ser um diário que teve quando era adolescente.

— Só porque a pessoa sabe uma língua não significa que ela pode ser expressar bem nela — disse ela.

Mesmo agora, embora a maioria de suas personagens seja chinesa, quando ela escuta as suas vozes na sua cabeça, elas falam inglês, um mistério que ela não consegue explicar.

Escrever em inglês “se tornou algo muito natural para mim bastante rápido. Eu penso em inglês, eu sonho em inglês. Eu passei a falar inglês já adulta, o que provavelmente foi vantajoso para mim. A desvantagem foi que eu não tinha muita intimidade com o idioma; tem coisas que realmente passam batido em uma língua”.

A escritora Amy Leach, colega de classe de Li em Iowa e sua amiga até hoje, disse:

— Nós conversávamos sobre como poderia ser vantajoso não ter uma série de clichês prontos na cabeça, impedindo um pensamento e uma escrita mais originais.

Segundo Li, “várias expressões idiomáticas, coisas culturais, passam batido” se a pessoa não fizer o ensino fundamental ou médio nessa língua.

— Por outro lado, acho que ao nos aproximarmos de uma língua já adultos e, em seguida, a utilizarmos para escrever, também não chegamos a aprender um monte de bobagens.

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