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Morre aos 94 anos a escritora de livros infantil-juvenis Tatiana Belinky
0Tatiana nasceu na Rússia e mudou-se para o Brasil aos 10 anos.
Ela é considerada uma das mais importantes autoras do segmento no país.
Publicado no G1
A escritora de livros infantil-juvenis Tatiana Belinky, de 94 anos, morreu na tarde deste sábado (15) no Hospital Alvorada, em São Paulo, após 11 dias internada, segundo a assessoria de imprensa do hospital, que não soube informar a causa da morte.
Tatiana Belinky é autora de mais de 250 livros, que lhe renderam diversos prêmios educacionais, e tradutora de muitas obras, entre elas contos do escritor russo Anton Tchekhov.
Ela nasceu em São Petersburgo, na Rússia, em 1919, e aos 10 anos mudou-se com a família para o Brasil, instalando-se em São Paulo. Na época, ela já falava três línguas: russo, alemão e letão.
A autora trabalhou como secretária bilíngue durante alguns anos, até se casar com Julio de Gouveia, com quem teve dois filhos, cinco netos e ao menos três bisnetos.
Em 1948, começou a fazer teatro para crianças, junto com o marido, para a Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo, adaptando e traduzindo textos teatrais que Julio produzia e encenava.
Com o advento da televisão, o grupo teatral de Tatiana foi convidado a apresentar suas peças na “TV Tupi”, onde realizou espetáculos de tele-teatro ao vivo, com textos sempre baseados em livros, entre 1951 a 1964. Os roteiros eram escritos pela autora, a maioria adaptados da literatura nacional e internacional.
Mais tarde, Tatiana e seu marido adaptaram para a televisão o Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato, com cerca de 350 capítulos, além de diversas minisséries criadas a paritr de romances famosos.
Belinky também escreveu críticas literárias para diversos jornais durante a vida, como “O Estado de S.Paulo”, “Folha de São Paulo” e “Jornal da Tarde”. Ela ainda colaborou com a “TV Cultura”.
De acordo com a família, o enterro será às duas horas da tarde deste domingo (16) no cemitério israelita da Vila Mariana, em São Paulo.
Bolsistas do Ciência Sem Fronteiras viram ‘embaixadores’ culturais do Brasil
0O estudante de engenharia mecânica Daniel Leite Oliveira, de 22 anos, veio fazer um intercâmbio de graduação nos Estados Unidos com o objetivo de aproveitá-lo ao máximo.
Pablo Uchoa, na BBC
A poucos meses do fim de sua estadia, ele diz ter conseguido deixar uma boa impressão nos americanos, que conheceram um pouco sobre a cultura brasileira durante um Brazilian Day que organizou com seus colegas em uma universidade do Estado de Indiana.
Oliveira foi um dos bolsistas contemplados na primeira chamada do Ciência Sem Fronteiras, programa do governo federal que financia o intercâmbio de estudantes brasileiros em países ao redor do mundo.
O brasileiro teve a oportunidade de estudar em uma escola prestigiada na sua área, a Universidade Rose-Hulman, em Terre-Haute, a cerca de uma hora de Indianápolis, no meio oeste americano.
Antes de voltar ao Brasil, Oliveira ainda fará um estágio na multinacional de papel e celulose International Paper, no estado de Kentucky.
“Daqui, eu vejo o Brasil de uma forma muito diferente”, conta o jovem. “Vou levando muitas coisas (para casa), principalmente a sensação de poder fazer do meu país um lugar melhor.”
“Depois que você vem para cá, você observa os defeitos do Brasil, mas percebe também a capacidade de mudá-los.”
O estudante está entre os que, nos próximos meses, começarão a regressar para casa após concluir o primeiro ano do programa.
Eles levam de volta ao Brasil experiências que podem ter impacto não somente nas suas vidas pessoais e profissionais, mas também no futuro da iniciativa que é a menina dos olhos da presidente Dilma Rousseff para impulsionar a mobilidade e a qualificação da mão de obra científica nacional.
Segundo números oficiais do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), o programa Ciência Sem Fronteiras concedeu até maio 22,3 mil bolsas de estudo para brasileiros interessados em fazer intercâmbios em 35 países.
Os EUA lideram a lista como país receptor, com 5,4 mil bolsistas – 69% deles, de graduação, e o restante, em diferentes modalidades de pós.
As universidades americanas receberam mais alunos que as instituições no segundo e terceiro países que mais acolheram brasileiros, Canadá e Portugal.
Atualmente, estão abertas as inscrições para mais 13,5 mil bolsas de estudos em nove países e destas, 2 mil serão destinadas aos EUA, o que colocará o país dentro da estimativa de receber cerca de um quinto dos 101 mil bolsistas que o programa pretende custear até 2015.
‘Embaixadores’
Em uma reunião de avaliação do primeiro ano do programa na Embaixada brasileira em Washington, na quarta-feira, um grupo de 17 estudantes compartilhou suas impressões com representantes do governo brasileiro e parceiros americanos.
Eles apontaram problemas pontuais no programa atual e contaram como a experiência serviu para que eles “abrissem a cabeça” e dessem o pontapé em uma rede de contatos internacionais que pode ser valiosa no futuro.
A reunião também indicou que os 5 mil brasileiros espalhados por quase 300 universidades americanas estão servindo de “embaixadores” culturais do país, através de eventos estudantis, atividades culturais e jornadas dedicadas ao Brasil.
“O resultado é que muitos estudantes americanos nos campi começaram a entender melhor quão vasto e diverso é o Brasil e o seu corpo discente”, disse Allan Goodman, presidente do Instituto de Educação Internacional (IIE, na sigla em inglês), órgão que atua como intermediário entre os estudantes brasileiros e as universidades americanas.
“Eles estão criando laços culturais, que acho que vão resultar em mais estudantes americanos interessados em estudar no Brasil e trabalhar com colegas brasileiros.”
Daniel, que estuda engenharia mecânica na UFMG, participou de um Brazilian Day em fevereiro passado.
“De manhã fizemos um workshop e teve até uma minifeira de carreiras, que inclusive ajudou alguns estudantes brasileiros a arrumar emprego”, contou. “À tarde, fizemos um evento para a comunidade e atraímos 600 pessoas. Os americanos ficaram muito impressionados.”
Segundo o IIE, Indiana é o sétimo Estado que mais recebeu estudantes brasileiros até meados de maio. Nova York, Califórnia, Michigan e Illinois lideram a lista.
De acordo com informações repassadas à Embaixada brasileira, as instituições que mais receberam estudantes brasileiros foram a Universidade da Califórnia em Davis, e da Flórida, ambas com 126 bolsistas.
As áreas mais procuradas pelos brasileiros são engenharia (mecânica, elétrica e industrial no topo da lista) e ciências da computação.
Allan Goodman diz que, apesar dos desafios de “aclimatação”, como adaptar-se a uma nova cultura, a climas em geral mais frios e ao estudo uma língua estrangeira, os brasileiros têm demonstrado “uma excelente ética de trabalho”.
“Eles dão muito duro, querem aprender a língua, querem ser embaixadores culturais do Brasil e querem aproveitar ao máximo a sua experiência aqui”, avalia.
Volta para casa
A partir de agora, o programa e os seus primeiros bolsistas começam a passar para a próxima fase, de voltar para casa e aplicar os conhecimentos e a experiência adquiridos no exterior.
Mas só daqui a alguns meses, ou anos, será possível avaliar os resultados concretos do programa, disse o chefe do setor educacional da Embaixada brasileira em Washington, Pedro Saldanha.
A maioria dos estudantes retorna para casa para finalizar seus estudos de graduação ou pós, e os que receberam bolsas integrais de doutorado no exterior ainda estão fazendo as suas pesquisas, ele observou.
Mas Ana Paula Morais Krelling, 27 anos, graduada em Oceanografia pela Universidade Federal do Pará, com mestrado em engenharia oceânica pela Federal do Rio (UFRJ), e atualmente fazendo doutorado com titulação dupla no Instituto Oceanográfico da USP e na Universidade de Massachusetts, já sente que uma das dificuldades será encontrar um emprego para aplicar tanto conhecimento.
“As empresas no Brasil estão reticentes em contratar doutores, principalmente em razão do custo”, diz. “Para mim, as oportunidades são institutos de pesquisa e universidades, e isso é um problema, porque estamos formando mais doutores do que as universidades estão absorvendo.”
Mas ela insiste que fazer o doutorado foi uma boa opção. “A gente ganha na língua, em networking, e ao conhecer outras maneiras de pensar a pesquisa e até as relações humanas”, opina.
“Quando você for um pesquisador mais experiente, e for lidar com um projeto internacional, vai conseguir ver como a diferença cultural vai interferir na maneira como sua mensagem será interpretada.”
Como Daniel, Ana Paula diz que a experiência mudou sua percepção sobre o Brasil. Para ela, trata-se de um país com defeitos e qualidades.
“A gente vê que temos conhecimento, tecnologia, e que só estamos um pouco engessados”, diz. “Avançar da teoria para a prática é difícil, tem muita burocracia. Mas tem muita gente boa no Brasil que quer fazer pesquisa. A gente não precisa importar tudo.”
‘Aluno gênio’ é desqualificado por participar em feiras de ciência demais
0Diretora de Feira Estadual de Ciência baniu participação de americano.
Conrad Farnsworth, de 18 anos, foi impedido de competir.
Publicado por G1
Um estudante de ensino médio de Newcastle, em Wyoming (EUA), responsável por construir um reator nuclear por conta própria foi desqualificado da Feira Internacional de Ciência e Engenharia este mês por uma falta técnica: o rapaz de 18 anos competiu em feiras demais.
De acordo com o jornal “Casper Star-Tribune”, a “infração” de Conrad Farnsworth teria sido reportada pela antiga diretora da Feira Estadual de Ciência de Wyoming, que não teve o contrato renovado.

Conrad Farnsworth teria sido desqualificado de evento por ter participado por feiras demais (Foto: The Casper Star-Tribune, Dan Cepeda/AP)
Representantes da Universidade de Wyoming, que patrocina o evento, afirmam que a diretora teria agido fora de sua autoridade.
O jornal afirma também que Farnsworth é um entre apenas 15 estudantes de ensino médio do mundo a construírem com sucesso em reator de fusão nuclear. Farnsworth acredita que sua desqualificação foi desnecessária. O rapaz se formou em junho deste ano e planeja estudar na SDSMT (sigla para South Dakota School of Mines and Technology).
USP vai receber mais de cinco mil cartas inéditas de intelectuais brasileiros
0Pastas e fichários têm ainda cartas de autores como João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado
Acervo pertencia ao embaixador Mário Calábria, morto há um ano

Em carta a Mário Calábria, em 1962, Afonso Arinos de Melo Franco descreve problema dentário da mulher Reprodução / Reprodução
Maurício Meireles, em O Globo
RIO – Quando João Guimarães Rosa chegava perto das jaulas do zoológico de Munique, na Alemanha, girafas, macacos e elefantes se aproximavam. O escritor olhava-os por trás dos óculos fundo de garrafa e conversava com todos eles. Seu amigo, o embaixador Mário Calábria, observava curioso a intimidade estabelecida com os animais. A girafa era como “uma velha amiga” do autor de “Grande sertão: veredas”, já que o bicho inclinava o pescoção e “parecia entender tudo” que lhe era dito.
Esta é uma das histórias a que, em breve, o público poderá ter acesso e consultar. Mário Calábria morreu em junho de 2012, mas deixou um tesouro: cartas trocadas com grandes intelectuais brasileiros, às quais O GLOBO teve acesso.
Guimarães Rosa, que gostava de rechear as folhas com assuntos literários, é apenas um. A correspondência soma mais de cinco mil cartas trocadas com Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Afonso Arinos de Melo Franco, Manuel Bandeira — e muitos outros. Além de cultural, a coleção tem também valor para a história política do Brasil, por conta das missivas que Mário Calábria trocava com políticos e outros diplomatas. Embaixador do Brasil na Alemanha Oriental, antes da queda do Muro de Berlim, Calábria também acompanhou, mais tarde, as atividades culturais do Itamaraty naquele país, como a organização da Feira de Frankfurt de 1994.
Agora, os herdeiros do diplomata querem doar tudo para uma instituição de ensino. A ideia surgiu depois que a filha Vera Lucia Calábria encontrou nos papéis do pai uma carta de Marta Rossetti, então professora da Universidade de São Paulo. Biógrafa de Anitta Malfatti, ela pedia a ele, no documento escrito no fim dos anos 1990, que doasse seu acervo à instituição. Marta já faleceu, mas Vera procurou a USP, que se movimentou para receber o material. A universidade enviou o professor aposentado de literatura brasileira Flávio Wolff à casa dos Calábria, em Berlim, para emitir parecer sobre a conservação do material e avaliar seu valor.
— Enviei parecer positivo à USP. O acervo é um tesouro cultural e está em ótimo estado. Também me surpreendeu a organização dele. Tudo está guardado em pastas e fichários — afirma Wolff. — E ainda há a biblioteca, cheia de livros raros sobre o Brasil publicados na Europa, além de várias primeiras edições com dedicatórias.
As cartas trocadas com os intelectuais brasileiros chamam a atenção pela elegância do estilo. Mesmo em assuntos que de literários não têm nada. Em 1962, por exemplo, a mulher de Afonso Arinos teve uma infecção do siso que ficou feia. O marido, mesmo preocupado, estava encantado com a cirurgia: “O remédio é extrai-lo, mas isto representa um trabalho delicado de abertura da gengiva e do próprio maxilar. Aqui há um cirurgião especialista, que opera em ambiente pomposo, com assistentes, enfermeiras, anestesista, ficando a paciente deitada, com o rosto coberto por um pano verde esterilizado etc. Como você vê, uma beleza para quem não sofre nem assiste ao espetáculo.” Ele e Calábria trocaram 125 cartas, durante 38 anos.
Já as escritas por Jorge Amado não mostram uma relação de amizade tão próxima: o baiano comunica o envio de livros autografados. “Como estou com o pé no estribo, ou seja, no avião, remeterei esses livros para você de Portugal, onde estarei nos meados de novembro. Chegarão mais rapidamente do que se eu os mandasse daqui, por via maritma.” A carta é de 1980. Em outra, Jorge Amado agradece pelos “recortes e xerox” enviados a ele por Calábria.
O melhor amigo era mesmo Guimarães Rosa. Sempre que voltava à Alemanha, Rosa ficava hospedado na casa da família. Nas cartas, ele se refere aos filhos do amigo como “os Três Calabrinhas”. Mário Calábria foi consultor informal na tradução para o alemão de “Grande sertão: veredas”, de Curt Meyer-Clason, a preferida do autor. Em nome de Guimarães Rosa, o embaixador ajudava Mayer-Clason a traduzir termos do sertão.
A correspondência entre os dois chega quase a 200 cartas, só cessou com a morte de Guimarães Rosa, em 1967, e está entre as maiores travadas pelo escritor mineiro. Eles falam do cotidiano e de literatura, o que torna essa parte do acervo um material valioso para pesquisadores interessados na obra rosiana. O escritor também reclama da forma como o Itamaraty tratava a literatura: “Foi ela sempre a gata borralheira, a irmã pobre, madrasteada no Departamento Cultural.”
Parte do acervo quase veio à tona em 2008. O poeta Alexei Bueno visitou a casa de Calábria e conseguiu cópias de cartas. A editora Bem-te-vi tentou publicar, mas não chegou a um acordo com os herdeiros de Rosa.
Outro amigo foi o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Os dois se conheciam desde os tempos de Instituto Rio Branco e, por um período, foram próximos. Isto fica claro em uma carta de Cabral de 29 de novembro de 1945: “Vejo que você continua o mesmo lírico de antigamente. Como já o conhecia, sei que o atual lirismo não é de cerveja. Aliás: há cerveja aí? Vejo também que você continua adiando nosso encontro. Veja se se decide, ‘hombre’!”
Mas a amizade acabou rompida. Calábria foi acusado por Cabral, em 1952, de divulgar uma carta que fez o poeta ser tachado de comunista e afastado do Itamaraty. Mário Calábria sempre afirmou não ter espalhado a carta. Mas ele e o poeta nunca voltaram a se falar.
As cartas
Jorge Amado
Salvador, 7 de outubro de 1980
Caro Calábria,
Venho de receber a sua carta e fico sabendo quais livros faltam à sua coleção: “Tieta do agreste”, “O gato malhado e a andorinha sinhá” e “Farda fardão camisola de dormir”. Como estou com o pé no estribo, ou seja, no avião, remeterei esses livros para você de Portugal, de onde estarei nos meados de novembro. Chegarão mais rapidamente do que seu os mandasse por aqui,
por via marítima.
Recomendações a todos os seus,
meus e de Zélia.
Um abraço cordial do velho amigo
Jorge Amado
Guimarães Rosa
Rio de Janeiro, 14 de novembro de 1964
Meu caro Mário,
De repente, houve o vácuo, fiquei com saudades, mais. Também está chegando o Natal, Weihnacht, as Festas, e quero pôr aqui, em papel e formulação, os votos, lautos, vivos, muitos, altos: de alegrias e felicidade para a Família completa, os Calábrias usufruindo e sorrindo, festando: Paz na terra aos de boa-vontade. De vez em quando, torno a sentir-me em Munique. Vocês merecem muito; e eu sou um dos que mais sabemos disso. Canto, junto, o “Oh tannenbaum…” Vocês. Uschi abre uma lata daqueles “frutti di mare”, uma garrafa de Mosel ou de “branca-berlinêsa”. Eu, também. — “Prosit!…”
Você já deve saber, esteve aqui a Snra. De Siervi. E gostei muito dela, conversamos de verdade. Sua gente é sempre de primeira. (…)
Por via aérea, recebi o primeiro exemplar de “CORPO DI BALLO”, roba da Feltrinelli, uma beleza. Achei a tradução estupenda, notável, insuperável, meyer-clasoniana. (…)
Abraço enorme do
Guimarães Rosa
João Cabral de Melo Neto
Londres, 3 de janeiro de 1945
Meu caro Mário:
Coincidência: sua carta me chega na manhã mesma em que lhe estou mandando seus três Mirós. Portanto, a pergunta última que você me fez está respondida. Botei dedicatória no seu e deixei os outros em branco. Como você os oferece, você é que deve dedicá-los.
Vejo que você continua o mesmo lírico de antigamente. Como já o conhecia, sei que o atual lirismo não é questão de cerveja. Aliás: há cerveja aí?
Vejo também que você continua adiando o nosso encontro. O Geraldo, com quem estive há dois dias em Paris, também prometeu vir e não veio. Veja se se decide, hombre!
Grande abraço. (…)
Do seu
João Cabral de Melo Neto
Afonso Arinos de Melo Franco
Genebra, 15 de junho de 1962
Compadre,
(…) Anah teve uma repetição daquela infecção dentária que a fez sofrer uma operação a bordo, há cerca de 30 anos. Coincidência curiosa: em 1932 ela veio se operar em Genebra como agora. Felizmente, desta vez, não só a infecção foi muito menos séria, como também a operação — pois se trata de verdadeira operação — pode ser feita em muito menos tempo e com muito menor sofrimento. (…) Provocada pelo dente siso incluso no osso da face, e que nunca nascera, mas que, de repente, provoca dores fortes e grande inflamação do rosto. O remédio é extrai-lo, mas isto representa um trabalho de abertura da gengiva e do próprio maxilar. Aqui há um cirurgião especialista, que opera em ambiente pomposo, com assistentes, enfermeiras, anestesista, ficando a paciente deitada, com o rosto coberto por um pano verde esterilizado etc. Como você vê, uma beleza para quem não sofre nem assiste ao espetáculo. O resultado é que ela perdeu três quilos (…)
Grande abraço do compadre e amigo,
Afonso Arinos
Colaborou Graça Magalhães-Ruether, correspondente em Berlim
Um relato sobre o diário escrito quando eu tinha nove anos durante seis meses em 1992
1Emilio Fraia, no Blog da Companhia
Quando tinha nove anos, durante seis meses, mantive um diário. Escrevia todos os dias. É uma agendinha velha, preta e com adesivos de marcas de surfwear na capa (Hang Loose, Sea Club e Ocean Pacific). Cada entrada possuía doze linhas, que eu preenchia inteiramente, o que pensando agora devia fazer apenas para não deixar espaço vazio.
O caderninho ficava na casa dos meus pais, num armário abarrotado de pastas. Nunca dei muita bola para ele, até ler aquele que se tornaria o meu conto favorito da Lydia Davis.
Em 2009, a Farrar, Straus & Giroux publicou uma edição com os contos reunidos da autora norte-americana, um volume de capa salmão, 733 páginas e 197 histórias. O conto chama-se “We Miss You: A Study of Get-Well Letters from a Class of Fourth-Graders” (“Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”, que integra Tipos de perturbação, primeiro livro da autora publicado no Brasil, com tradução da destemida Branca Vianna).
O relato é exatamente o que diz o título: uma dissecação linguística e sociológica de vinte e sete cartas que alunos de uma classe do quarto ano escreveram para um coleguinha, Stephen, enquanto este se recuperava no hospital. Em dezembro de 1950, Stephen teve uma grave osteomielite (espécie de inflamação óssea, causada por uma bactéria) e foi internado. Após as férias de fim de ano, as aulas recomeçaram e a professora pediu, como tarefa de classe, que cada um dos alunos lhe escrevesse uma carta.
Como em praticamente todos os contos de Tchekhov, a tensão aqui não está dirigida para o desfecho. Logo no início, o narrador de Lydia diz, sem alarde: “Após algumas semanas de muita preocupação por parte de médicos, família e amigos, Stephen se recuperou, graças em parte a [...]”. Já sabemos, portanto, que nada de pior vai acontecer, que Stephen saiu dessa, que não precisamos passar a história tensos torcendo pela sua melhora.
A linguagem do conto é clara, direta, o que contribui para o efeito maravilhoso de relatório. No mais, nada acontece — ou pelo menos não aparentemente. O narrador descreve a escola (um edifício grande, de tijolinhos, com salas de aula bem iluminadas), fala sobre a aparência geral das cartas (a maioria das crianças usa papel tipo carta, apenas quatro optam pelo tamanho ofício), analisa a caligrafia dos alunos (a letra cursiva “é consistente, toca na linha inferior e tem espaçamento regular”) e a extensão dos textos (“variam de três a oito linhas e de duas a oito frases”).
Seus comentários abrangem estilo, coerência, uso de verbos, conjunções e metáforas, além de categorizar tipos de saudações e expressões de simpatia — “volte logo/ queria que você estivesse aqui” aparece dezessete vezes.
À medida que as cartas vão sendo esmiuçadas, detalhes do cotidiano das crianças, de sua personalidade, seu estado de espírito e a relação delas com Stephen são revelados.
Algumas crianças falam do clima e de seus animais de estimação, outras relatam brincadeiras na neve e o que ganharam de presente no Natal. Cynthia, por exemplo, escreve: “Fui brincar de trenó uma vez e foi divertido. Fiz bonecos de neve mas eles caíram todos”. Joseph abre seu texto com uma expressão de empatia generosa: “Sei como você se sente”. E completa, de maneira 100% coerente: “Vou ganhar um casaco novo com capuz”.
Através desses fragmentos (e suas elipses), Lydia Davis apresenta essa pequena comunidade de crianças de nove anos, confrontada com a morte, a possibilidade da perda e o tédio. Ao terminar a leitura, a pergunta parece ser: quem é o narrador do conto? Por que ele está analisando essas cartas? É alguém que em posse de cartas antigas tenta descobrir ou lembrar algo de sua infância ou de algum irmão ou amigo? Não há nenhuma evidência de que o narrador seja homem ou mulher, mas talvez pelo fato da autora ser mulher, leio sempre como se fosse uma narradora.
Há uma frase de Tchekhov que poderia se passar por uma frase de Lydia: “mandem-me que escreva sobre esta garrafa, e sairá um conto intitulado ‘Uma garrafa’”.
É nas coisas e episódios pequenos, triviais e aparentemente sem importância que recai o interesse da autora, que na semana passada ganhou o prestigioso Man Booker Prize — o que podemos entender como a vitória cabal das garrafas, dos diários escritos aos nove anos, das cartas dos amigos de Stephen, das histórias sem desfecho nem fábula e, sobretudo, de uma outra frase de Tchekhov (que poderia se passar por uma frase de Lydia): “nada de pensamento: as imagens vivas e verdadeiras criam pensamentos, e um pensamento jamais criará uma imagem”.
Quando li “Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”, pensei que o conto talvez tivesse me ensinado a ler o meu diariozinho — prestando atenção nas lacunas, no que não está lá. Por que meu amigo voltou chorando da diretoria? Por que não gostei das pinturas? Que pinturas eram aquelas? Em que praia estávamos?
Num levantamento rápido, praticamente todas as entradas começam com “Hoje acordei/ Levantei/ Tomei café” e terminam com “vi televisão e fui dormir/ tomei banho, jantei e dormi”. As ações mais recorrentes são: jogar videogame, nadar, ver filmes, jogar bola e gravar programas de tevê. A conjunção mais comum é a inexpressiva aditiva “e”. Quase não há vírgulas nem pontos. Há, todavia, momentos de superação, como em 15 de janeiro: “hoje levantei notei que meu dente estava mole mas não liguei”.































