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As seis tramas que são a base de (quase) todas as histórias já contadas

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Keira Knightley e Matthew Macfadyen em cena do filme ‘Orgulho e preconceito’, de 2005 (Foto: Divulgação)

 

Pesquisadores analisaram mais de 1,7 mil romances e chegaram a seis formas de narrativas. Mas será que elas podem ser aplicadas às nossas histórias mais populares?

Publicado no G1[via BBC Brasil]

Minha contribuição mais bonita à cultura”. Assim foi como o romancista Kurt Vonnegut descreveu sua antiga tese de mestrado em antropologia, “que foi rejeitada porque era simples e divertida demais”. A tese sumiu sem deixar rastro, mas Vonnegut continuou a promover a grande ideia por trás dela: “As histórias têm formas que podem ser desenhadas em papel gráfico”.

Em uma palestra em 1995, Vonnegut esboçou vários arcos narrativos – os desdobramentos de ações dramáticas de uma história – em um quadro negro, traçando como a sorte do protagonista muda ao longo de um eixo que se estende de “boa” a “má”. Esses arcos incluem: “homem no buraco”, no qual o personagem principal entra em apuros, e em seguida sai dele (“as pessoas adoram essa história, elas nunca se cansam!”); e “o menino fica com a menina”, no qual o protagonista encontra uma pessoa maravilhosa, perde-a, e depois a reencontra.

“Não há razão por que as formas simples de histórias não possam ser inseridas em computadores”, ele ressaltou. “São formas lindas”.

Graças a novas técnicas de mineração de texto, isto foi feito. O professor Matthew Jockers, da Universidade de Nebraska, e, posteriormente, pesquisadores do Laboratório de História Computacional da Universidade de Vermont, ambos dos EUA, analisaram dados de milhares romances. Com isso, eles chegaram a seis tipos básicos de histórias – também chamados de arquétipos – que formam os blocos de construção para narrativas mais complexas. São eles:

Ascensão – Da pobreza à fortuna, ou de má a boa sorte
Declínio – Declínio de bom a mau, uma tragédia
Icarus – ascensão e depois declínio da sorte
Oedipus – declínio, ascensão e declínio de novo
Cinderela – ascensão, queda, ascensão
Homem no buraco – queda, ascensão

Os pesquisadores se basearam na chamada análise de sentimento. Essa é uma técnica estatística comumente usada por marqueteiros para analisar posts de mídia social. Com base em dados públicos, a cada palavra é alocada uma “pontuação de sentimento”. Dessa forma, uma palavra pode ser categorizada como positiva (feliz) ou negativa (triste), ou pode ser associada a até oito emoções mais sutis, como medo, alegria, surpresa e anseio. Por exemplo, a palavra “abolir” é negativa e associada à raiva.

Ao fazer a análise de sentimento em todas as palavras de um romance, poema ou peça e traçar os resultados em relação ao tempo, é possível perceber as mudanças de humor ao longo do texto, revelando um tipo de narrativa emocional. Embora não seja um sistema perfeito – já que foca em palavras isoladas, ignorando o contexto -, ele é surpreendentemente perspicaz quando aplicado a trechos maiores de texto.

As ferramentas para fazer análises de sentimento estão livremente disponíveis, e boa parte da literatura de domínio público pode ser baixada de bancos de dados online como o Projeto Gutenberg. A BBC Culture pesquisou algumas das histórias britânicas mais populares para tentar aplicar as seis formas narrativas.

A Divina Comédia (Dante Alighieri, 1308-1320)

Tipo de narrativa: Ascensão

O poema épico de Dante conta sua jornada imaginária ao inferno, acompanhado do poeta Virgílio. Obviamente, as coisas começam mal na Divina Comédia, com uma pontuação baixa de sentimento que se afunda ainda mais à medida que a dupla desce aos círculos do inferno. Há traços de “um homem no buraco” na história, que acaba sendo literal em um texto tão alegórico como esse.

Tendo sobrevivido milagrosamente ao inferno, eles então escalam a Montanha do Purgatório onde as almas dos excomungados, preguiçosos e luxuriosos residem. E Beatriz – a mulher ideal de Dante – acaba substituindo Virgílio como companhia. A ascensão do casal ao paraíso é marcada pelo aumento da alegria à medida que o poeta compreende a verdadeira natureza da virtude, e sua alma se torna plena “do amor que move o sol e outras estrelas”.

Madame Bovary (Gustave Flaubert, 1856)

Tipo de narrativa: Declínio

Em dado momento da história de Flaubert, a dona de casa entediada e desleal – a protagonista, Emma Bovary – reflete que, se sua vida até então foi tão ruim, a parte a ser vivida será com certeza melhor.

Não é bem assim. Emma embarca em relações amorosas falidas e desesperadas, que oferecem apenas um breve respiro a um tédio angustiante. Bovary é uma mulher criativa casada com o homem mais sem graça do mundo, acumula dívidas exorbitantes e acaba se suicidando com arsênico.

Seu marido de luto, após descobrir suas várias infidelidades, também morre, e a então filha órfã do casal vai viver com uma tia pobre, que a manda trabalhar em uma fábrica de algodão. É uma clássica tragédia, conduzida implacavelmente rumo ao total declínio.

Romeu e Julieta (William Shakespeare, 1597)

Tipo de narrativa: Icarus

Romeu e Julieta é comumente considerada uma tragédia por conta da descrição do próprio Shakespeare, mas, quando a analisamos, a história se alinha mais à forma de Icarus: ascensão e declínio. Afinal, o menino precisa encontrar a garota e se apaixonar antes que ambos se percam. O pico romântico acontece quando se passa cerca de um quarto da peça, na famosa cena da varanda, na qual eles declaram amor eterno um ao outro.

É uma descida morro abaixo a partir daí. Romeu mata Tybalt e foge. Logo, o plano de Friar de forjar a morte de Julieta traz um pequeno salto de esperança à trama, mas, depois que a jovem bebe a poção, nada consegue evitar o final trágico.

Orgulho e Preconceito (Jane Austen, 1813)

Tipo de narrativa: Homem no buraco ou Cinderela

A primeira metade do romance de Austen traz um animado baile (embora comedido), gracejos e propostas de casamento cômicas. como a do vigário Mr Collins. As coisas ficam mais sombrias quando Bingley parte, e Elizabeth começa a se estranhar com Darcy (mas por um mal-entendido, obviamente).

O sentimento do romance entra em um território decisivamente negativo depois da proposta desastrosa de Darcy, alcançando seu ponto mais baixo quando Lydia foge com o desonesto Wickham. Isso, claro, serve de oportunidade para Darcy provar a que veio, o que ele faz com dignidade e segurança. Assim, ele ganha o coração de Elizabeth e assegura um comedido final feliz, em que todos estão ligeiramente mais sábios do que antes.

Frankenstein (Mary Shelley, 1818)

Tipo de narrativa: Oedipus

O influente romance de Shelley narra a lamentável vida de Victor Frankenstein e sua Criatura. O primeiro narrador é o capitão Robert Walton, que, em cartas à sua irmã, conta o enredo de Victor – que aparece em primeira pessoa no texto. Num certo ponto, a Criatura assume a narrativa, transformando o romance em uma história dentro de uma história dentro de uma história. Esse é o momento de respiro da trama, que em geral segue uma trajetória descendente desde o início, com a descrição de Victor sobre sua vida feliz, até o surpreendente final.

Em um momento crucial, a dois terços do romance, a Criatura oferece a Victor uma saída – fazer para ele uma companheira feminina. Mas Victor recusa. Desse ponto em diante, seu destino está selado. “Lembre-se, eu estarei contigo na noite de seu casamento”, ameaça a Criatura. E assim o faz.

O Patinho Feio (Hans Christian Andersen, 1843)

Tipo de narrativa: Complexa

Embora seja curta, a famosa fábula de Hans Christian Andersen tem estrutura complexa. Ela incorpora tipos narrativos de “dois homens no buraco” (ou melhor, um pato no buraco) dentro de uma narrativa de “ascensão”. Ou seja, as coisas melhoram ao longo da história para o patinho, mas há flashes de luz e escuridão no caminho.

Ele sai do ovo (oba!), mas sofre bullying por ser diferente (ahhh). Ele descobre que pode nadar melhor que os outros patos e sente um indício de afinidade com o grupo de cisnes em sobrevoo (oba!). Em seguida, quase morre no inverno gelado (ahhh). E finalmente torna-se um cisne, de uma forma completamente prevista desde o início. A ideia é essa, claro: “Nascer num ninho de pato não tem importância se ele vem do ovo de um cisne”. A história termina com a pontuação mais alta, aquele que sempre foi um cisne exclama que “nunca sonhou com tamanha felicidade”.

Existe um método para estudar?

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Entendendo o processo do conhecimento, entenderemos o método da aprendizagem.

Bruno Rissatto, no Blasting News

A palavra “#Estudar” remete a inúmeras incertezas e confusões sobre uma definição clara e precisa do que significa tal conceituação. Algumas pessoas assemelham “estudar” com decorar, ler, escrever, assistir aula, elaborar um cronograma de estudos etc. Mas o que de fato determina afirmarmos que alguém está estudando de maneira correta ou que está estudando de forma errada?

Com base na psicologia histórico-cultural, na dialética do conhecimento, tentaremos definir o #método preciso, cientificamente analisado, que determina qual a melhor forma para #aprender um conteúdo específico.

Existe um processo pelo qual aprendemos, e entendendo como este processo funciona, nos possibilitará ter uma eficiente e rápida aprendizagem nas próximas vezes em que formos pegar um caderno ou um livro para ler.

A dialética do conhecimento

O conhecimento funciona da seguinte forma: primeiro nos deparamos diante de um mundo de coisas e situações diversas, todavia, estas coisas estão no mundo externo, e para aprendermos devemos nos apropriar, internalizar este mundo.

Grosso modo, o conhecimento sempre parte do externo para o interno, e o indivíduo ao se apropriar do objeto do conhecimento, retorna a ele – agora o compreendendo em seu modo mais amplo – com uma nova e mais desenvolvida forma psíquica e basilar para futuros conhecimentos mais avançados.

Analisemos o processo da aprendizagem da fala de uma criança. Antes da criança pequena começar a falar as primeiras palavras, a linguagem já existia independentemente dela. A criança nasce numa cultura já “pronta” e seu desenvolvimento requer uma apropriação desta cultura.

A linguagem, portanto, existe fora dela, externamente a ela. Deve por conseguinte internalizar este código de comunicação paulatinamente, aos poucos.

A criança no início da fala não sabe o significado da palavra – a sua essência – ela apenas está aprendendo sua sonoridade. Ao aprender a pronunciar determinada palavra, o psiquismo da criança ganha uma forma mais desenvolvida que possibilitará à ela aprender outra nova palavra, e assim por diante, mas sempre apoiada em uma base biológica que permite este desenvolvimento acontecer.
O método para estudar

Como então aplicamos a presente análise nos estudos em si e por conseguinte ter a certeza de que estamos estudando da maneira correta? Para aplicarmos o método, devemos usar como analogia a aprendizagem da criança.

Pensemos num conteúdo específico de química, matemática – que ainda não o sabemos e que é um tipo de conhecimento avançado – ou um texto de filosofia super complexo. Devemos ter a consciência, a priori, que não há possibilidade de aprender tais conteúdos de forma imediata, da mesma maneira que o bebê não começa conjugando os verbos ou fazendo concordância nominal.

Primeiro ele parte do simples, conteúdo este pelo qual seu psiquismo está apto a aprendê-lo no momento.

Para isso servem as aulas e por isso é importante assistir às aulas. O professor nada mais é que um facilitador e auxiliador no processo da aprendizagem. Mas quem estuda e deve estudar é o próprio indivíduo.

Vejamos o seguinte exemplo para compreendermos o método de estudo.

O aluno se depara com um texto específico de filosofia, o qual contém uma linguagem super avançada. Naturalmente, na primeira vez que o aluno ler o texto, não irá entender praticamente nada do que está ali escrito. Entretanto, ao assistir à aula sobre o conteúdo em si, o professor terá facilitado parcialmente a compreensão do presente texto.

Na próxima vez em que o aluno retornar ao texto de filosofia, ele terá – através da aula do professor – ganho uma nova forma de conhecimento que servirá de base para uma melhor compreensão do conteúdo, melhorando paulatinamente o entendimento da leitura.

Aplicando o método

O método para estudar pode ser sintetizado na seguinte linha de pensamento: antes da aula, é imprescindível que o aluno leia e estude; por mais que o mesmo não entenda nada do conteúdo.

Logo, após a explicação da aula, o aluno deve retornar a ler e estudar o conteúdo – desta vez o compreendendo mais – por conta e através da explicação do professor. Por conseguinte, o aluno deve repetir este processo sucessivamente, criando novas formas basilares de pensamento que o possibilitará a apropriar-se de novos aprendizados e de novos conteúdos mais avançados.

O método para estudar, portanto, se encontra neste processo dialético da apropriação de novos conteúdos. Aprendendo num determinado nível de complexidade, deve-se partir para o próximo e assim consecutivamente.

Por que o maior escritor do Brasil parou de escrever?

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Escritor Raduan Nassar, vencedor do prêmio Camões 2016 - RICARDO BASTOS/FOLHAPRESS

Escritor Raduan Nassar, vencedor do prêmio Camões 2016 – RICARDO BASTOS/FOLHAPRESS

 

Publicado no Jornal Cruzeiro do Sul

Título original: Revista ‘The New Yorker’ publica entrevista com escritor Raduan Nassar

A revista “The New Yorker” publicou no sábado (21), em seu site, um perfil do escritor Raduan Nassar, sob o título “Why Brazil’s Gretatest Writer Stopped Writing” (por que o maior escritor do Brasil parou de escrever).

No texto, Alejandro Chacoff, que mora no Rio e é jornalista da revista “piauí”, repassa a trajetória de Raduan e relata a conversa com o autor dos romances “Lavoura Arcaica” e “Um Copo de Cólera”, que foram traduzidos para o inglês recentemente pela primeira vez.

É uma rara ocasião em que o escritor de 81 anos se deixa entrevistar -no texto, Chacoff recorda que foi em uma entrevista à Folha de S.Paulo, em 1984, que Raduan comunicou que abandonaria a literatura.

Na ocasião, Raduan já havia recebido a aclamação pelos seus dois livros. Ele declarou a Augusto Massi e a Mario Sabino, do suplemento dominical “Folhetim”, que a literatura era uma paixão que se havia esgotado e que naquele momento estava interessado mais interessado em assuntos rurais.

“Minha cabeça hoje fervilha com outras coisas, ando às voltas com agricultura e pecuária, procurando me enfronhar sobre tratores, implementos, formação de pastos, tipos de capim, braquiária, pangola, setária, humidícula etc., tudo isso que, com perdão da autocitação, nada tem a ver com o ‘pasto das ideias’. A menos que me engane.”

Aparentemente, porém, a afirmação do escritor não foi tomada ao pé da letra; o título da reportagem da Folha de S.Paulo não destacava o abandono, que ficou claro quando o escritor, de fato, se retirou da vida literária.

SILÊNCIO

Desde então, Raduan Nassar se expôs muito pouco também à vida pública, de modo geral, falando com a imprensa raras vezes, quase sempre em breves declarações.

Mesmo ao ganhar o principal prêmio da literatura em língua portuguesa, o Camões, em maio de 2016, não quis dar entrevista, limitando-se a exclamar: “Eu não entendi esse prêmio, minha obra é um livro e meio!”

Tampouco deu entrevistas quando lançou sua obra completa, em outubro de 2016 -o volume incluía um ensaio e dois contos avulsos, até então inéditos.

O livro fazia parte das comemorações de 30 anos da Companhia das Letras, que publica sua obra, e o autor surpreendeu os leitores ao aparecer num dos eventos comemorativos do aniversário. Subiu ao palco para receber um prêmio dado pela editora, mas não disse uma palavra.

Raduan Nassar viveu de sua fazenda até se aposentar também desse ofício e mudar-se para São Paulo. Ele doou as terras à Universidade Federal de São Carlos em 2011, com a condição de que elas servissem a um novo campus que facilitasse o acesso de estudantes de comunidades rurais, como conta Chacoff no texto publicado na revista norte-americana.

Chacoff relata o temor de Raduan de ver essas terras privatizadas pelo governo. O texto frisa a convicção do escritor de que o impeachment de Dilma Rousseff foi golpe -durante o processo, Raduan se manifestou publicamente e chegou a discursar a favor de Dilma em Brasília e a publicar um artigo na Folha de S.Paulo.

O autor do perfil tenta, ao final, prover a explicação que o título do texto encerra.

“Em encontros anteriores”, escreve Chacoff, “eu havia hesitado em fazer a pergunta óbvia -‘Por que você parou de escrever?’- dizendo-me que era uma estratégia para deixá-lo à vontade”.

Certa tarde, conta ele, sentiu abertura, e viu que Raduan considerava a questão com cuidado. “Por um momento, nos sentamos um de frente para o outro em silêncio. Então ele olhou ao longe e disse: ‘Quem sabe? Eu realmente não sei’.”

Confira a reportagem na íntegra aqui. 

(Folhapress)

A educação como privilégio de classe

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Alunos realizam simulados para o Enem em uma escola pública da Bahia. Suami Dias GOVBA

Alunos realizam simulados para o Enem em uma escola pública da Bahia. Suami Dias GOVBA

 

O que o governo Temer pretende com a PEC 241 é dificultar ainda mais o acesso ao ensino superior

Luiz Ruffato, no El País

Em 2007, o escritor Raduan Nassar – autor da obra-prima Lavoura Arcaica – tentou doar sua fazenda Lagoa do Sino, situada em Buri, interior de São Paulo, para a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), com uma única condição: a de que as terras, transformadas em campus universitário, fossem utilizadas para propiciar acesso a jovens sem poder aquisitivo, incluindo filhos de trabalhadores rurais, negros e indígenas. A doação incluía mais de 3.500 m² de área construída, três pivôs centrais de irrigação, quatro silos armazenadores, dois secadores de grãos, sistema de secagem a gás, maquinaria (colheitadeira, tratores, pulverizadores), e muitos outros implementos. O estado São Paulo, à época governado por José Serra, rejeitou a oferta.

Três anos depois, Raduan Nassar conseguiu efetivar a doação para o governo federal, então sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva – hoje a fazenda pertence à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e vem cumprindo seu objetivo de democratização do ingresso no ensino superior. No entanto, o campus corre agora o risco de ser privatizado ou fechado por conta do estrangulamento de recursos, caso seja aprovada, em definitivo, a PEC 241, em discussão no Senado após tramitar pela Câmara dos Deputados. Se isso ocorrer, o escritor deixou claro que abrirá litígio contra a União por ver frontalmente contrariado o objetivo da doação.

A rara atitude de Raduan Nassar, de desprendimento pessoal e visão de coletividade, se notabiliza ainda mais quando nos sabemos mergulhados em uma sociedade doentiamente egoísta e individualista, que enxerga no próximo alguém a ser explorado ou confrontado, nunca aquele com quem possamos partilhar algo. Mas, infelizmente, a ação contrária, que se desenha em um horizonte próximo, de manter a educação não como direito, mas como privilégio de classe, não é novidade para os que agora estão no poder. O presidente não eleito, Michel Temer, apenas sistematiza o pensamento corrente da elite paulista (não por coincidência também elite tucana), que, acima de partidos, defende interesses ideológicos.

O sistema de cotas em universidades estaduais para alunos provenientes de escolas públicas existe no estado do Rio de Janeiro desde 2000 – no ano seguinte, estabeleceu-se também o critério de cotas raciais para negros ou pardos, adotadas por outros estados ao longo da primeira década do século XXI, incluindo cotas para indígenas. A partir de 2003, as universidades federais também instituíram pouco a pouco os sistemas de cotas, atualmente vigentes em todas elas, além de abolir o vestibular na maioria das instituições, substituído pelo resultado da prova do Enem, submetidas as vagas ao Sistema de Seleção Unificada (SISU). Mas não o estado de São Paulo, comandado pelos tucanos desde 1995, há 21 anos, portanto.

São Paulo possui três sistemas públicos de ensino superior – e apenas a Unesp, com campus espalhados por 24 cidades e oferta de cerca de 7 mil vagas, possui cotas para alunos provenientes de escolas públicas (45% do total), sendo que, destas, 35% são reservadas para negros, pardos ou indígenas, processo iniciado em 2014. As outras duas universidades, USP e Unicamp, permanecem alheias aos sistemas de cotas. Somente a partir do ano passado, a USP passou a disponibilizar parte de suas 11 mil vagas ao ingresso por meio do SISU. Para o próximo ano, serão 2,3 mil vagas, sendo 1,1 mil vagas para alunos vindos de escolas públicas e 586 para autodeclarados negros, pardos ou indígenas.

No entanto, quando observamos de perto esses números – já bastante modestos, 21% do total – nos deparamos com a mentalidade classista do processo: das 2,3 vagas a serem preenchidas pelo resultado da prova do Enem, mais da metade (1,2 mil) são destinadas às Humanidades – só a área de Letras absorve 252 candidatos. E as vagas para quem se autodeclarar negro, pardo ou indígena concentram-se em cursos como Pedagogia, Letras, Ciências Sociais, Filosofia, História, Geografia e licenciaturas em Ciências da Natureza e Matemática (322 vagas, 55% do total). Ou seja, aquelas carreiras pelas quais nossa elite, de forma equivocada, possui verdadeiro desprezo, pois destinam-se à formação de professores.

Outros cursos, considerados mais “nobres”, mantêm-se redutos exclusivos. Por exemplo, as várias engenharias oferecem um total de 1892 vagas, das quais 175 pelo SISU (9%) e 5 (sim, cinco!) para quem se autodeclarar negro, pardo ou indígena – enquanto nos cursos de Medicina, de um total de 275 vagas, apenas 10 são oferecidas pelo SISU e nenhuma para negros, pardos ou indígenas. Já a Unicamp, que possui outras 3,3 mil vagas, não participa diretamente do SISU e nem possui sistema de cotas – oferece bônus para alunos oriundos de escolas públicas e para quem se autodeclara negro, pardo ou indígena.

As universidades públicas brasileiras sempre foram espaço reservado para formação da nossa elite econômica, que também o é intelectual e politicamente. O panorama mudou um pouco com os sistemas de inclusão social – cotas para alunos oriundos de escolas públicas (em geral pobres) e para negros, pardos e indígenas. Mudou um pouco, repito, porque a grande massa de jovens pobres – seja de que etnia for – ainda tem que pagar para estudar em escolas privadas, em geral de péssima qualidade. Mas o que o governo Temer pretende com a PEC 241 é dificultar ainda mais o acesso ao ensino superior, realizando o desejo da nossa sociedade, que, como afirmou o ex-secretário da Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, defende a manutenção da pobreza para que continuem existindo cozinheiras, faxineiras, lavadeiras – ou, em outras palavras, para que subsista um exército de mão de obra disponível para o usufruto da casa grande.

Caminhos para combater a intolerância literária no Brasil

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É um absurdo completo a não obrigatoriedade de livros literários para o Enem. Ou para qualquer vestibular

Afonso Borges, em O Globo

O tema da redação do Enem foi estimulante: “caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. Para escrever sobre este assunto, os alunos precisam de uma coisa só: terem lidos livros. E será que isso foi feito? Querem apostar que a internet vai ficar recheada de teorias conspiratórias sobre a questão das igrejas evangélicas, eletrônicas e, principalmente, sobre os atentados terroristas?

É um absurdo completo a não obrigatoriedade de livros literários para o Enem. Ou para qualquer vestibular. Ou para qualquer prova classificatória para o ensino superior. Dou aqui sete motivos:

1. Muita gente tem birra da palavra “obrigatório”, aqui mal utilizada. A palavra certa deveria ser “selecionado”. E pronto. Normalmente, são dez livros. E é pouco. Só dez livros que devem ser lidos no curso de um ano, até a data de realização da prova. É pouco;

2. A maioria dos opositores à lista obrigatória alega que ninguém deve ser obrigado a nada. Esta teoria é covarde, porque transfere para um amigo imaginário, bem infantil, a eleição dos títulos que devem ser lidos para a prova do Enem. E pior: tira a responsabilidade do professor, em especial de literatura, de criar um método inteligente de abordagem e análise dos livros selecionados;

3. Está provado e comprovado que a lista de livros para o vestibular aumenta o índice de leitura no país. Muito a contragosto, os estudantes têm que ler. E quem lê, mesmo que obrigado neste momento, tem uma grande, imensa chance de ler outros, por vontade própria;

4. Vamos falar da literatura brasileira. A lista de livros para o vestibular é, tradicionalmente, um tremendo apoio aos autores brasileiros. Tem a lista dos clássicos, claro, sempre cai Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Rubem Braga. Mas a lista sempre inclui autores novos, e isso é um estímulo às vendas, ao mercado e à popularidade destes autores;

5. Para fazer o Enem não é necessário ler livro algum. Eles defendem a generalidade, que o estudante leia de tudo um pouco, porque pode cair qualquer coisa. Mas que teoria é esta? Se pode cair qualquer coisa, de preferência, o estudante não lê nada. Quando existe uma lista, existe critério, método, pesquisa e análise. Quando existe uma lista, cria-se um hábito. O estudante tem que ler estes dez livros;

6. Vamos falar dos critérios de escolhas dos livros. Olhem para o passado, vejam as listas. São todas, todas, ÓTIMAS. Os clássicos estão ali, mas sempre tem um Carlos Herculano Lopes, uma Lya Luft, um Moacyr Scliar, um Antonio Torres, um Luis Giffoni. Sem a lista, o que temos? Nada. Simplesmente nada. É a vitória da ausência de critério, da ausência de método, da frivolidade irresponsável com que o governo e o Ministério da Educação têm tratado a questão do livro nos últimos anos. Vai ver que é por isso que o governo parou de comprar livros para o ensino básico, coisa que vem sendo feita desde os tempos de Getúlio Vargas. Enfim, parei. Ah, falta o sétimo. O sétimo é cabal: a lista de livros obrigatórios formou leitores que, infelizmente — ou não —, começaram ali a sua vivência literária. Aqui é o Brasil, amigos, lembrem-se disso.

E fica aqui a minha sugestão para o tema de redação do ano que vem: “caminhos para combater a intolerância literária no Brasil”.

Afonso Borges é escritor e produtor cultural

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