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O politicamente correto vai matar a literatura, diz Paulo Coelho

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Escritor, que lança romance autobiográfico ‘Hippie’, conta ter feito pacto com criatura para ter fama e diz que renega a política

Mauricio Meireles, na Folha de S.Paulo

Genebra – O pólen flutua diante dos olhos e vai se deitar em cima dos carros. Dá para vê-lo nas roupas pretas de Paulo Coelho, cujas mãos coçam, os olhos incham e a cabeça raspada fica com manchas. É uma época difícil para os alérgicos na cidade suíça.

Para um mago, até que ele tem superstições bem comuns: antes de beber o vinho frisante, molha o dedo e pinga uma gota na mesa, para o santo. Ao visitar seu apartamento em Genebra, é preciso sair pela mesma porta.

O escritor recebeu a Folha em sua casa, seis andares e mais uma cobertura dúplex, com academia, janelões e jardim do qual é possível ver os Alpes. Ele vive lá com sua mulher, a artista plástica Cristina Oiticica. Não há livros. Os dois leem tudo em edições digitais.

O casal leva uma vida pacata. Veem filmes e séries todos os dias e todos os dias caminham, contando os passos com um aplicativo. Antes, eram 10 mil; agora, 7.000. Coelho, aos 70 anos, diz que só pode ser um defeito do celular.

O autor lança agora “Hippie”, em que revive a época em que era cabeludão, vestia a mesma jaqueta jeans, usava drogas e errava por aí com pouca grana no bolso. No romance, repassa um velho amor, vivido em uma viagem no Magic Bus, que saía de Amsterdã e ia até o Nepal. O livro, diz, é uma resposta ao fundamentalismo que grassa pelo mundo.

Antes de receber a reportagem, fez uma exigência: não queria falar de política. Ao ouvir as perguntas, tentou dar a volta na tortilha —expressão que usa muito e significa ter ginga para se livrar de encrencas—, mas, ao fim, falou.

Em sua casa, num passeio de carro até a fronteira da Suíça com a França e em um jantar, a Folha esteve quase oito horas com o mago. Ele falou de sua decepção com Lula e o PT, contou um encontro com o ex-presidente no Palácio de Buckingham e disse que o petista abandonou José Dirceu, amigo do escritor, aos cães.

Relatou ainda o dia em que seu quarto de hotel foi invadido a mando do produtor Harvey Weinstein, posteriormente envolvido num escândalo de assédio sexual, contou de sua amizade com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, protestou contra o politicamente correto e narrou experiências sobrenaturais —como um encontro com um anjo e outro com o Diabo. O resultado editado está abaixo.

Paulo Coelho, 70

Nascido no Rio em 24 de agosto de 1947, estudou no colégio jesuíta Santo Inácio. Foi diretor e ator de teatro, jornalista e compôs músicas com Raul Seixas. Começou a publicar nos anos 1980; o primeiro sucesso, com ‘O Alquimista’, não veio de imediato, mas o livro tornou-se, segundo o ‘Guinness Book’, o mais vendido de um autor vivo no mundo

Folha – Por que resolveu lembrar sua época de hippie?
Paulo Coelho – Vi que o mundo estava caminhando para um fundamentalismo tremendo. Isso não está legal. Há causas importantes, como o direito da mulher. Já outras, como a alimentação, pô, deixa rolar, não força a barra. Era uma época em que tudo o que acontece agora acontecia naturalmente. Era uma geração que tinha consciência da importância do corpo, da música, da alimentação, da poesia, da alma —de tudo. E de repente, cara, aquilo sumiu.

Por quê? 
Por causa das butiques. De repente o hippie virou só o exterior. Começou o hippie de butique. Minha mulher foi hippie de butique! [risos] O sistema absorveu tudo dos hippies, como a roupa, que era uma maneira de identificar a tribo. A música foi para as grandes corporações.

Você ainda se sente hippie?
Sempre serei. Uma vez que você viveu essa experiência, ela te abriu certas portas. Não estou falando de drogas. Já viu que [a maconha] é liberada aqui? Apesar de ser liberada, eu não fumo. A última vez foi em 1982, em Amsterdã. Aí parei [com drogas].

Parou por quê?

Ficou repetitivo. Cocaína eu parei em 1974, no dia da renúncia do Nixon. Vi que, se eu continuasse com aquilo, eu estava ferrado, ia me enganchar. Cria-se um mito [proibindo as drogas] —descontando cocaína e heroína. Heroína é o Demônio. Cocaína te dá todas as ilusões que o Demônio te dá, a ilusão e poder.

O Demônio? 
Falo pelo meu conhecimento prático do Demônio! [risos]

Na biografia que Fernando Morais escreveu sobre você, ele descreve uma cena em que você acredita ter sido visitado pelo Demônio. Era uma bad trip de LSD, afinal? 
Eu achei que era uma bad trip, mas era real. Não é o que eu acredito, eu tenho certeza. O diabo existe, sim. Eu me lembro da neblina, de achar que ia morrer. Como eu vou explicar isso? Fui visitado pelo Diabo. Naquela época tinha a barra pesada que eu frequentava [o satanismo].

Como homem religioso, como você vê a ascensão das igrejas pentecostais? E Edir Macedo?
Vejo com grande admiração, que ele não tem por mim. Podendo falar mal, ele vai falar. Ele conseguiu colocar todas as coisas nos eixos, apesar da perseguição.

Muitos veem em figuras como ele o conservadorismo que você diz atacar no livro. 
Isso você vai encontrar no catolicismo também.

Mas de onde vem então o conservadorismo que você critica? 
O sistema todo. Não é esse conservadorismo religioso. As pessoas já têm medo de dizer qualquer negócio. “Ah, eu como carne.” “O quê?! Pelo amor de Deus! Você é assassino!”. São coisas que vêm desde a noite dos tempos e que ficaram politicamente incorretas.

Então você se preocupa é com o politicamente correto. 
Vivo horrorizado com isso. O politicamente correto é a morte do politicamente correto. Quando você impõe uma coisa [ela não dá certo].

Você escreveu muitos livros com personagens femininas. Hoje há quem diga que um homem não poderia ou saberia assumir o ponto de vista de uma mulher. Fala-se em lugar de fala. 
Prefiro nem saber disso. Você vê se pode? [Dirigindo-se a sua mulher] Cristina, existe o chamado lugar de fala, a chamada apropriação indébita cultural. Já vi isso de roupa, não pode usar turbante… É isso?

Está relacionado. Diz-se que um homem não saberia nunca o que é ser mulher. 
Claro que eu sei o que é ser uma mulher. Claro que eu tenho sangue de mulher. Eu sou extremamente feminino. Porra, eu vejo umas críticas na Amazon sobre “O Alquimista”. O personagem vai viajar e volta para o oásis para encontrar a mulher. Começaram a aparecer críticas dizendo que é absurdo, que a mulher fica esperando e o homem sai. Porra, não existe isso. Dão uma estrela [na avaliação que vai até cinco].

Você teme que sua obra passe por uma revisão? 
Espero que pare por aí. Isso não pode, cara. Você vai matar a literatura. Não dá para pegar a arte e fazer uma releitura politicamente correta. Em sua essência, ela é politicamente incorreta. O que eu acho correto é esse movimento de dar voz à mulher, quando ela é estuprada, por exemplo.

Você acompanhou o caso Harvey Weinstein? Você o conhecia? 
Conheci nas circunstâncias mais surrealistas. Ele não sabe ouvir não. Um vez ele comprou os direitos de “O Alquimista”, da Warner, e queria anunciar em Cannes. Disse que ia fazer uma conferência no domingo, às 10h. Eu disse que estava fora. Desconversei. Pensei: amanhã vou desligar o celular e, quando acordar, ao meio-dia, já vai ter acabado.

Sete da manhã batem na minha porta. Achei que ia parar. Quando deu 8h30, vejo a fechadura se mexer. Eu estava como durmo sempre, nu. Botei uma cueca, não acreditava!

Entraram quatro pessoas, disseram que o Harvey estava me esperando. Eu disse “Já falei que não vou, não vou, não vou. Falaram que iam perder o emprego se não me levassem, que eu era uma lenda. Você já viu uma lenda de cueca dormindo em Cannes sozinha?

Eles me botaram no telefone com ele, ele disse que eu estava prejudicando um projeto caríssimo. Botei todos para fora, depois fui ver as imagens das câmeras com o gerente do hotel. Tinham pegado a chave com a camareira.

Depois tive mais três encontros com ele. Ele consegue ser sedutor e mandão ao mesmo tempo. Eu posso dizer que ele tentou invadir meu quarto! Sexual harassment! [assédio sexual] É um cara sem limites!

Por que desta vez você pediu para não falar de política? 
Desencanto. Parece que o intelectual tem a única função de assinar manifesto. Eu não assino. Recebi convite para ir com a Malala e o Justin Trudeau falar de direitos humanos na ONU. Eu digo que estou fora.

Obras de arte e exposições sofreram diversos ataques no ano passado, como no caso da exposição ‘Queermuseum’. Isso preocupa você? 

Ele coloca a pergunta como quem não quer nada, Cristina. Não vou falar nada. A arte sempre teve esse papel contestador. Você não vai me queimar, né?

Com o que você está preocupado? 
Não estou. Acho que me segurei bem até agora. Mas posso dar uma escorregada. Meu público é de esquerda e de direita.

Você postou, no dia da prisão do Lula, uma ironia contra o Judiciário e a Lava Jato, dizendo que agora era como se toda a corrupção do Brasil estivesse resolvida. 

Foi na condenação dele. No dia da prisão eu chamei o Lula de babaca. Já tive minhas ilusões com esses caras todos. E vi erro após erro após erro —não estou falando de tríplex, mas de erro político.

Você acha que o impeachment foi golpe? 
Não vou falar de política. Vão dizer que eu sou isentão.

Você já falou muito de política até agora. 
Não é irritante esse negócio de manifesto? Todo dia eu recebo um.

Você acha a prisão do Lula justa? 
Não vou falar. Mas não me põe [no jornal] como isentão.

Você pode responder algo. 
O Lula foi uma profunda decepção. Lamento muito. Era uma pessoa que eu achava que podia fazer muita diferença, que seria o melhor político. Se fosse, seria que nem o Salvador Allende. Foi isso que eu postei: o Lula vai se entregar? Porra, o cara é um babaca. Ele está no sindicato cercado.

A prisão é justa? 
Essa história do tríplex é mal contada. O Poder Judiciário no Brasil ficou visível demais, quando ele não o é em nenhum país. As pessoas [os juízes] terminam tendo que atender a certos clamores. Você acha que essa história do tríplex [faz sentido]?

Não sou o entrevistado aqui, não é? Esse livro parece ter um desencanto com a esquerda…
O desencanto já tinha ocorrido [quando escrevi]. Se tiver que resumir a história da minha vida: esquerda, passeatas, gás lacrimogêneo, Marx, Engels, Heidegger. Depois, manual de guerrilha, aquelas coisas, e então a fase hippie. Logo em seguida o Raul [Seixas, de quem foi parceiro musical]. Não teve uma volta minha para a esquerda.

Você fez campanha para o Lula. Você é de esquerda, não? 
Quem era a alternativa? Fazer campanha por uma pessoa em quem você acredita e depois desacredita… É um mundo de desilusões, cara. [Coelho pede para o repórter desligar o gravador para falar em privado, depois a entrevista recomeça.]

Você já teve decepções pessoais com o PT também, não?
Houve uma vez em que Lula visitou o morro do Pavão-Pavãozinho e não foi ao projeto social que você tem lá. Como você se sentiu? Eu nunca fui prestigiado pelo PT. Um belo dia [em 2006] eu fui convidado para visitar a rainha[Elizabeth 2ª]. Lula era presidente. Vinha no convite o traje: gravata branca [nível mais formal do traje masculino de gala].
Aí vi uma matéria dizendo que a delegação brasileira ia de terno e gravata. Pensei: “Estou livre! Não vou ter que ir de white tie!” Aí me responde o Palácio [de Buckingham]: “Você não é convidado do seu governo, não te colocaram na lista, você é convidado da rainha. Tem que vir de white tie, sim”.

Mas o que aconteceu lá? 
Estava fumando com uma amiga minha da realeza, chega um assessor do Lula e diz: “O presidente quer falar com você”. Vamos lá. Atravessamos aquele palácio, uma cena inesquecível. Vou aos aposentos do Lula pensando: “Porra, por que o Lula me chamou?”. No meio da conversa, ficou claro que ele estava se justificando para mim, por eu ter apoiado o José Dirceu, e ele não.

Isso foi em 2006, logo após Dirceu ser cassado, no Mensalão, e quando passou Réveillon na sua casa e vocês se aproximaram. 
Ele jogou o José Dirceu como boi de piranha. Viu que eu apoiei o Zé Dirceu, que eu nem conhecia —vi esse cara sofrendo. Era um ano que quem queria ir lá para casa era o Hugo Chávez! [risos] E o Lula se justificou, o que eu acho uma declaração muito esquisita. Ele pode até negar, mas dona Marisa estava junto. Ele jogou o Dirceu aos cães. Ele foi cassado?

Foi, perdeu o posto de deputado em 1º dezembro de 2005. 
Foi minha grande decepção com o Lula. Uma das qualidades que eu prezo é a lealdade. Nessa entrevista [de Dirceu à Folha, publicada em 20/4], o Zé diz que dedicou a vida dele ao Lula. Como é que o Lula deixa isso acontecer? E sentiu necessidade de me explicar, o que é meio bizarro.

Você conta no livro a tortura que sofreu na ditadura militar. Isso assombrou você por muito tempo? 

Porra, muito, até 1977. Agora não mais. É muito difícil.

Como você viu o deputado Jair Bolsonaro falando o nome do coronel Brilhante Ustra, durante o impeachment? Ou os pedidos de volta do regime militar? 
Fiquei muito chocado. Acho que torturador não tem perdão. Passei a ser membro da Anistia Internacional por causa disso. É um crime hediondo.

Você também menciona suas passagens pelo hospício, quando não tinha problema psiquiátrico algum. Fernando Morais, contudo, levantou a suspeita de um episódio que pode ter natureza psiquiátrica na sua vida: quando você teve um pensamento suicida, desistiu e, ouvindo o Anjo da Morte dizer que não podia ir embora de mãos vazias, resolveu sacrificar uma cabra do vizinho. 
Isso era uma peça do conde de Lautréamont, que o Fernando confundiu.

Afinal, o que é ser mago, como você se define? 
É o que eu sou. Hoje, quando eu sabia que você vinha, pensei que podia ter te levado para mostrar as habilidades e você contar no jornal [Cristina intervém: “Eu falei para você ir para a floresta naquela hora que estávamos no carro”]. É mais interessante que a feira do livro [de Genebra, em curso até o dia seguinte]. Qualquer pessoa pode desenvolver seu poder. É uma questão de disciplina. Mas isso não é nada perto da comunhão com Deus. Eu sou mago, o que posso dizer? E um bom mago.

Você postou outro dia um texto defendendo que você precisava ser estudado. Você ainda se sente ofendido com as críticas do começo da carreira? 
Postei mais pela matéria, o título quem deu foi o jornalista do Estadão.

Esse texto questiona por que, na sua nova editora, a Companhia das Letras, você passa a ser publicado num selo chamado Paralela [que é dedicado a lançamentos de cunho mais comercial]. O artigo questiona por que não o colocaram ao lado de Raduan Nassar e por que você aceitou. 
Não tinha a menor noção e continuo sem ter. Meu contato foi todo com o Matinas [Suzuki, diretor da Companhia das Letras]. E ele disse que iam me botar no selo Paralela. Isso de selo não tem nada a ver com ninguém. Que diferença isso faz? Nenhuma. Quem presta atenção em selo? Eu li [o artigo] dizer isso, mas não entendi.

Mas você faz essa separação entre literatura comercial e ficção literária?
Quem faz é o crítico. Vamos ser bem claros: não há críticos. Você fala para 15 mil pessoas [na coluna Painel das Letras] que leem isso, aquilo e aquilo outro. A panelinha valoriza o crítico de uma maneira… Eu já teria sido destruído se tivesse necessidade de agradar crítico. Mas, voltando ao mago, como você conta no jornal coisas em que você não acredita?

Eu apenas relato como você disser. 
Vou te contar então. Eu estava fazendo um caminho baseado em sonhos. Todo dia eu sonhava e tinha que cumprir. [O sonho dizia] vai para um ponto de ônibus, e eu ia. Não acontecia nada.

Aí um dia eu estou voltando de uma montanha, dirigindo e —pumba!— sinto uma presença ao meu lado que não quero nem olhar. Ela diz: “Ah, você quer ser famoso? Você sabe o que é ser famoso?”.

E começou a descrever tudo. Eu levei um susto, achei que ser famoso era todo mundo gostar de você. A presença disse: “Você tem que decidir amanhã. Você vai sonhar onde vamos nos encontrar e me dá uma resposta”.
Sonhei com uma montanha e um teleférico. No dia seguinte, fui lá. Na hora H, a presença se mostrou. “Decidiu?” Disse que eu queria pedir um favor, pedi mais três anos para decidir. “Volto aqui em 27 de setembro de 1992 e faço um compromisso.”
Quando voltei para o Brasil, “Brida” saiu em 1990, e a porrada veio. Antes eu tinha vendido muito, mas ninguém me conhecia. Eu me lembrava da presença e ria. Não levei a sério [as críticas] e não levo. Eu já sabia que isso ia acontecer.
Voltei em 1992 e assumi o compromisso. Para o resto da vida.
[Cristina: “Quando você me contou essa visão, é tão milagrosa, essa do anjo…”] Eu nem falei em anjo, falei em criatura.

Deus
O maior número de ocorrências, 16 a cada 1.000 palavras, é em “Maktub” (1994). O título do livro significa “estava escrito” e é o mesmo da coluna que o escritor manteve na Folha ao longo de um ano, com textos reunidos no volume.

Magia
A maior ocorrência é —coerentemente— em “O Diário de um Mago” (1987). São 11 menções a cada 1.000 palavras.


Para um autor associado a aspectos místicos, aparece relativamente pouco —quando muito, 2 menções a cada 1.000 palavras

Anjo
Em “As Valkírias”, aparece 17 vezes a cada 1.000 palavras. Fácil de entender: no livro de 1992, Paulo, o próprio, se dedica a tentar conversar com seu anjo da guarda. Para isso, passa, como Cristo, 40 dias num deserto —no caso, o do Mojave.

Deus e anjo
As palavras têm suas segundas maiores ocorrências no livro “O Monte Cinco”. “Deus” aparece 14 vezes a cada 1.000 palavras na obra. Natural. O protagonista da obra é o profeta Elias —profetas, diz a tradição, se comunicam com Deus. “Anjo” aparece 6 vezes a cada 1.000 palavras na obra —anjos são emissários de Deus.

7 livros leves e divertidos para devorar na beira da praia

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Veja nossa seleção de leituras para você curtir enquanto coloca o bronzeado em dia

Geiza Martins, na Revista Glamour

Como escreveu Fernando Pessoa, “ler é sonhar pela mão de outrem”. E nada como aproveitar a tranquilidade das férias de verão para embarcar em um sonho literário e divertido, né? Para provar que a nossa literatura não tem somente histórias massudas, buscamos 7 livros escritos por autoras brasileiras contemporâneas para renovar a sua cabeceira e a sua bolsa de praia!

Jeanne Damas (Foto: Instagram/Reprodução)

O mais bacana é que, por viverem na mesma época e no mesmo país que nós, elas abordam temas que estamos acostumados a vivenciar. Ou seja, a sensação de empatia é garantida. Vem ver (e devorar) em clima de #MulherBacanaLê!

“Depois a Louca Sou Eu”, de Tati Bernardi (Editora Companhia Das Letras)

Rir de si mesma é o melhor remédio para enfrentar essa coisa nada fácil chamada vida. Neste livro, Tati Bernardi escreve crônicas confessionais sobre ansiedade, crise de pânico, remédios tarja-preta e tudo o mais. Seria triste, se não fosse o seu estilo escrachado e ágil, que já é velho conhecido nosso. Tanto é que os textos têm uma pitada de humor que leva muita gente às gargalhadas e gera muita empatia, claro.

“Surtando”, de Gika Mendonça (Amazon Kindle)

Gika Mendonça vem ganhando leitores adeptos de e-books por suas crônicas – na mesma plataforma, ela já escreveu “O Guarda-Chuva Vermelho”. Aqui, a escritora fala, de forma leve, sobre os devaneios de ser uma mulher trintona, solteira e sem filhos. As 17 crônicas se passam no Rio de Janeiro e falam sofrência, relacionamentos e recomeços. Algumas leitoras podem achar o assunto muito clichê, outras podem se identificar com os pensamentos de Gika.

“Morri por educação”, de Nathalie Lourenço ( Editora Oito e Meio)

Se você curte tragicomédia (mistura de acontecimentos trágicos e risíveis), aqui está um livro de contos que foge do clichê. As mãos ágeis da escritora estreante Natalhie Lourenço nos levam por histórias com temas pesados, mas cheias de situações que, de tão inusitadas, despertam riso e choro. Assim como a autora, os personagens pensam de forma inesperada. São 17 histórias curtas contadas em uma linguagem gostosa e atualíssima.

“Breve passeio pela História do Homem”, de Ivana Arruda Leite (Editora Reformatório)

Recém-saído da gráfica, o romance da experiente e celebrada Ivana Arruda Leite chega para ampliar nossas personagens brasileiras fortes e, por que não dizer, atrevidas? A protagonista é Lena, uma viúva de 75 anos que ocupa a vida fazendo cursos e se diz “uma macaca velha de bom humor”. De forma irreverente, Ivana escreve sobre velhice, evolução e estupidez humana. Eis uma viagem para rir, mas também matutar da galhofa que envolve nós, a humanidade.

“Trinta e Oito e Meio”, de Maria Ribeiro (Editora Língua Geral)

A atriz Maria Ribeiro tem o costume de escrever cartas para amigos e desconhecidos, mas nunca as envia. Agora, elas estão reunidas em um livro de crônicas, cheio de reflexões, desabafos e também senso de humor e desconstração. Vale para quem é fã de Maria Ribeiro, ou para quem quer conhecê-la melhor, pois a atriz se coloca de corpo e alma nesses textos. Detalhe: o livro ainda traz ilustrações da ex-estilista Rita Wainer.

“Frango Ensopado da Minha Mãe”, de Nina Horta (Companhia das Letras)

Ainda não conhece as crônicas de Nina Horta? Saiba que elas são apaixonantes. Nina é considerada a grande cronista da gastronomia brasileira. Isso porque quando ela escreve sobre cozinha, na verdade ela fala de uma vida sem esnobismos. Seus textos reúnem quitutes e memórias. Não à toa, o livro foi vencedor do Prêmio Jabuti de Gastronomia de 2016. Recomendadíssimo!

“Calcinha no Varal”, de Sabina Anzuategui (Companhia das Letras)

Esse é um romance profundo que os leitores tendem a devorar. Lançado em 2005 e escrito por Sabina Anzuategui, o livro fala de juventude e amadurecimento, mas principalmente sobre a busca da identidade. Narrado em primeira pessoa (é bastante coloquial), tem como protagonista a universitária Juliana, que vive o primeiro ano na faculdade e passa por situações típicas dessa época, como o primeiro namorado, drogas, gravidez… O romance foi comparado com o clássico “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva.

Faltou pouco para passar no vestibular? Planejamento e leitura são fundamentais para sucesso nos estudos

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Publicado no O Diário

Preparar-se com antecedência para os vestibulares é fundamental para obter sucesso e a tão sonhada vaga na universidade. Que tal aproveitar o início do ano para elaborar um cronograma de estudos? Seguir esta primeira dica é um passo importante para conseguir bons resultados. É o que afirma Mariana Bruno Chaves, especialista em literatura infantil e gerente de desenvolvimento de material didático de Língua Pátria do Kumon, maior franquia de educação do país.

Mariana ressalta que estudar um pouco todos os dias, sempre no mesmo horário, e focar na leitura, independentemente do assunto, também são pontos importantes. “Para conseguir se desenvolver e aprimorar sua capacidade linguística, o candidato precisa estudar em um ambiente que estimule a concentração e também criar alguns hábitos e rotinas”, completa a profissional.

“Tanto para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), quanto para os vestibulares das mais conceituadas universidades do país, como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre outros, exigem que o candidato saiba administrar o tempo e a ansiedade para realizar uma boa prova”, diz Mariana.

Colocar em prática os ensinamentos da profissional pode ajudar nos enunciados dos exercícios, na narração de feitos históricos, nas descrições dos textos de geografia e química, que deixarão de ser “monstros enigmáticos” e se tornarão textos que poderão ser “decifrados” facilmente. “Os benefícios da leitura não se restringem somente aos estudos de língua portuguesa, pois levam o estudante a um universo de descobertas e aprendizagem por todas as áreas do conhecimento”, completa.

Com o grande número de candidatos, a redação do ENEM acaba sendo uma grande peneira, e somente os mais preparados conseguem a pontuação mínima desejada. Este ano, apenas 53 estudantes tiraram a nota máxima (1.000 pontos), e mais de 300 mil zeraram na redação. O número de participantes que conseguiram nota máxima, comparado com o ano de 2014, teve uma queda de quase 80%.

A estudante Clarissa Gosling Rancura Ribas Chaves, de Vila Velha/ES, ainda está comemorando o sucesso obtido no ENEM. Ela obteve 960 pontos na redação, o que lhe rendeu uma vaga para o curso de enfermagem, na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Estudante do Kumon desde os 6 anos de idade, ela frequenta as disciplinas de português, matemática e inglês. “Todo o aprendizado me ajudou muito na parte objetiva da prova, pois é necessário muita concentração e raciocínio rápido. Como o tempo de prova é o curto, é importante aproveitar cada segundo. Antes de entrar para o Kumon, eu notava que esses eram meus pontos fracos”, diz Clarissa que, mesmo aprovada, optou por estudar mais um ano para conseguir entrar no curso de Medicina.

Confira mais dicas elaboradas pela especialista:

1. Reservar um tempo do dia para ler – Uma das maiores dificuldades de quem precisa ler muito é a falta de concentração. Seguir esta dica fará com que o estudante assimile com mais facilidade o conteúdo.

2. Ler o texto em voz alta sempre que sentir dificuldade – Essa prática auxilia muito na compreensão textual, já que, quando lemos em voz alta, não apenas decodificamos as letras visualmente, mas também escutamos aquilo que está sendo decodificado, podendo, assim, verificar o sentido do que está escrito ao mesmo tempo em que aguçamos nossa percepção. “Não é possível fazer isso nas provas, mas essa prática ajuda na compreensão durante os estudos”.

3. Ler primeiro os enunciados para saber o que está sendo pedido – Parece besteira, mas não saber o que pede a questão é um erro comum. Por isso, é preciso ler os enunciados e as alternativas com atenção, buscando fazer as possíveis conexões.

4. Durante o estudo, fazer anotações, paráfrases e comentários – Para conseguir compreender um texto, é recomendável fazer uma paráfrase, que nada mais é do que uma explicação ou uma nova apresentação do conteúdo, seguindo as ideias do autor. Comece sublinhando as ideias principais, selecione as palavras-chave que identificar no texto e, se precisar, desenhe o esqueleto do texto em tópicos ou em pequenas frases. Você pode usar setinhas, canetas coloridas para diferenciar as palavras do seu esquema. Depois de encontrar as ideias ou palavras básicas, reescreva o texto de acordo com seu entendimento, expressando sua opinião sobre o tema.

5. Procurar informações extras sobre os textos, livros ou matérias estudadas – Complementar com informações adicionais o material de estudo também auxilia na absorção do conteúdo que está sendo visto. Na Internet, grupos de estudos e páginas dedicadas aos vestibulandos, contém dicas de onde buscar esses materiais.

6. Ao ler os textos, ficar atento às ilustrações – Além de ajudar a formar a imagem do que está sendo lido, as ilustrações complementam o entendimento do texto.

7. Leia bastante, procure livros com assuntos preferidos, inclusive revistas e gibis – O estudante que desenvolve sua habilidade de leitura adquire um vocabulário mais amplo, tem mais facilidade em compreender os elementos textuais e, assim, consegue aplicar esse conhecimento em todos os tipos de textos.

8. Treinar fazendo muitas redações durante o ano pode garantir uma boa nota na redação – Quem lê bem escreve bem. Para redigir boas redações, não basta conhecer as técnicas de escrita, é preciso demonstrar que domina o conteúdo acerca do tema proposto. Portanto, é importante atualizar-se durante todo o ano, estar atento aos assuntos, notícias, pesquisas e temáticas da sociedade atual. Para isso, uma boa dica é ler jornais, sites de notícias nacionais e internacionais, ficar de olho nos lançamentos de livros, nos profissionais, cientistas e pesquisadores que estão se destacando, por exemplo. Com isso, ao menos uma vez por semana, é possível escolher um dos temas e escrever sobre ele.

Atriz e escritora, Fernanda Torres lança o segundo romance

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O primeiro romance, Fim, publicado em 2013, já anunciava a habilidade literária de Fernanda. Crédito: Bob Wolfenson/Divulgação. Atriz e escritora Fernanda Torres.

O primeiro romance, Fim, publicado em 2013, já anunciava a habilidade literária de Fernanda.
Crédito: Bob Wolfenson/Divulgação. Atriz e escritora Fernanda Torres.

A obra tem um texto envolvente sobre um ator decadente: na arte, se reinventar é questão de sobrevivência

Nahima Maciel, no Correio Braziliense

Mario Cardoso é um ator acomodado, que acabou por confundir emprego com profissão depois de viver uma época de ouro da televisão brasileira. Conseguiu contrato fixo em uma grande rede, nunca mais repetiu o brilhantismo exibido no palco em uma única peça, degringolou e só se reencontrou mesmo como ator depois de uma tragédia que o jogou nos braços de Macbeth. É um personagem que já nasceu homem, conduzido por um narrador levado a pulso firme por outra atriz, Fernanda Torres. A glória e seu cortejo de horrores, segundo romance da artista, é uma prova de que a reinvenção constante pode abrir portas para universos inimagináveis.

O primeiro romance, Fim, publicado em 2013, já anunciava a habilidade literária de Fernanda. Com personagens cujas vidas risíveis e inúteis rendiam mortes grandiosas “pela simples tragédia de que tudo é passageiro”, nasceu de um convite de Fernando Meirelles para que escrevesse um conto adaptável para uma série de televisão. Virou um dos melhores romances lançados em 2013 e esteve entre os finalistas do Prêmio Jabuti. A ironia, o humor negro na medida certa e a elegância do texto colocaram o nome da atriz na estante da literatura contemporânea brasileira.

A glória e seu cortejo de horrores vai além. Talvez por Fernanda estar mergulhada no mesmo universo de seu personagem e ser tão lúcida e consciente das implicações de sua profissão, talvez porque o mundo da escrita seja uma consequência do palco, um espaço de reflexão mais pausada e sincera, o fato é que o romance está entre os textos mais saborosos e inteligentes publicados nestes últimos meses de 2017. “A maturidade te traz a ciência da sua profissão, por outro lado, perde-se o viço, a novidade, é uma carreira que exige a reinvenção diária, e castiga aqueles que se acomodam, como é o caso do Mario Cardoso”, explica a atriz, em entrevista ao Correio. O título do livro, ela tirou de uma frase repetida pela mãe, mas ouvida pela primeira vez da primeira mulher de Jô Soares, Teresa Austregésilo, que dizia preferir a morte e seu cortejo de horrores a fazer algo que não queria. “Adoro essa frase, que resume, como nenhuma outra, a ansiedade em torno de uma profissão exposta, pública”, diz Fernanda.

A escrita entrou para a vida da atriz graças a um convite de Mario Sergio Conti para assinar um artigo na revista Piauí sobre o medo de estar em cena. “Era um texto longo, e vi que eu tinha fôlego e prazer de escrever”, conta. A parceria rendeu e ela virou colaboradora da revista para depois escrever regularmente na Veja Rio e na Folha de São Paulo. Fernanda passou então a ter uma rotina de escrita produtiva. Agora, aos 52 anos, ela faz o caminho inverso: adaptou Fim para uma série de televisão prevista para ir ao ar em 2020. É o ciclo da reinvenção a qual Mario Cardoso não conseguiu se impor e no qual sua criadora mergulha com gosto. “Escrever me dá liberdade de criar sozinha, sem ter que levantar a produção de uma peça, de um filme, ou de depender de convites, basta a sua imaginação, bons editores, tempo e uma certa capacidade de concentração. Uma atividade completa a outra, porque a solidão da escrita pode se transformar em algo insalubre, solitário, e aí, atuar, que é uma profissão física e coletiva, compensa o isolamento”, acredita.

Entrevista /Fernanda Torres

O personagem de A glória e seu cortejo de horrores é um ator de 60 anos que tenta repetir um sucesso de quando era jovem e percebe a necessidade (e a dificuldade) de sempre se reinventar. Você passou por isso?
Passei por isso muitas e muitas vezes. A arte nunca te deixa em paz. No teatro, é preciso repetir tudo no dia seguinte, um diretor de cinema carrega o andor de um filme por quatro, cinco anos e, quando estreia, assim como acontece com um escritor, te perguntam qual é o seu próximo trabalho. E não é uma atividade necessária, aparentemente não, é algo inútil, criar, não há nada de concreto nisso, você faz por pura necessidade de fazer. A profissão de ator, para ficar nela, é feita de muitos fins. As peças sempre acabam, as novelas, os filmes. Você vive um idílio ou um pesadelo que jamais te deixa seguro. É diferente da perspectiva de um emprego de longo prazo, em que você galgará uma posição numa empresa, não há essa lógica. Os primeiros vinte anos são fáceis, depois complica, minha mãe sempre me disse essa frase. No início, apesar da falta de prática, tudo é lucro, qualquer papel é papel, e você conta com o fato de ser inédito, de ninguém saber dos seus limites. Ali pelos trinta, senti angústia de fazer uma profissão tão dependente de convites, de oportunidades passageiras. Comecei a produzir teatro e a escrever sem compromisso. O Mario é um pouco de todos nós, atores brasileiros, que lidam com um mercado pequeno, num país caótico.


Escrever na pele de um homem muda alguma coisa?

Ajuda a me afastar de mim, a não ser confessional. Como me conhecem, eu não conto com o mistério oculto naquela voz. Eu nem pensei se ele seria homem ou mulher, o Mario já nasceu homem, antes mesmo de eu decidir. Acho que é para não ser eu.

Em determinado momento, o protagonista se dá conta de que confundiu emprego com profissão.Como evitar isso em uma carreira longeva?
É dificílimo. O cansaço vem, as contas aumentam, os filhos. Eu nunca tive contratos longos, o que me dava muita ansiedade. Depois dos Normais, achei que fecharia um contrato, mas quis fazer os Budas, o Casa de Areia, e acabei ficando sete anos trabalhando por obra certa na televisão. O Tapas e Beijos foi o mais perto que cheguei de uma relação longa de emprego na minha profissão. Íamos de março a dezembro, foram cinco anos convivendo com um elenco maravilhoso, no mesmo cenário, com os mesmos personagens, eu jamais havia experimentado isso. Como eu não tenho o fôlego da Andréa (Beltrão), que conseguia ensaiar teatro, estrear, trabalhar de segunda a segunda, comecei a escrever. Você vai achando brechas para não se acomodar, para aproveitar a bênção de ter um programa como o Tapas e beijos, por exemplo, e remar por fora, se diversificar, para não ficar dependente deste ou daquele êxito.

“Gritar es fácil, Mario, lo difícil es hacerse oír; y no lo serás, si no comprender lo que decís”, diz o diretor ao protagonista. Você, Fernanda, sempre soube disso?
Eu sempre acho que não vou dar conta, leio os papéis e acho que não vai dar certo. Você aprende, com o tempo, a não querer brilhar de cara, a controlar o ego, a atacar com humildade o personagem. Fiz muito teatro de improviso, depois, fui atrás do Tchekov, na Gaivota, que me ensinou muito sobre como se aproximar de um personagem, e depois fiz os Budas, que considero meu trabalho mais maduro nesse sentido. O Renato Borghi me disse, depois do Rei da Vela, que levou 50 anos para fazer aquele texto sem esforço. Atingir esse paraíso do não esforço, esse lugar em que você é o personagem, em que você domina, sem prepotência, o papel, é o nirvana, mas nada garante que se chegará lá. Controlar a expectativa de acerto, ficar receptivo, tentar compreender o que se está dizendo, são coisas que não se ensinam, não se aprende nada disso, você experimenta na prática. E também não há garantia de que aquilo vá se repetir, é tudo muito fugaz, movediço, a arte não é uma ciência exata.

Há muitas citações no romance, sempre muito bem colocadas e sempre associadas ao humor e à ironia. Pode falar um pouco sobre como a combinação desses dois elementos são importantes quando você escreve?
Não escolho a ironia ou o humor. É o que sou. O Sérgio Rodrigues disse que eu sou tragicômica, sempre achei que a vida é tragicômica, que não há tragédia sem comédia, e vice-versa, isso é algo que experimentei atuando. Li muito Flaubert na adolescência, foi o primeiro autor que li em série. Jamais esqueci a crueldade, da ironia dele e, ao mesmo tempo, do sentido trágico da pequenez humana que ele descreve tão bem. E tem Nelson Rodrigues, que é o escritor que mais nos traduz, feroz, louco, cômico e trágico. Não chego ao Nelson, e muito menos ao Flaubert, mas sou marcada por eles. As citações já estavam no Fim, mas sobre pessoas que ninguém conhece, acho que todo escritor tem essa alma de ladrão.

O teatro, o cinema e a TV refletem o Brasil de hoje?
De sempre. Estamos num momento de ataque à arte. Só poderíamos estar, o país está insatisfeito consigo mesmo, há uma raiva, um recalque que se reflete no ódio à cultura. Foi sempre assim. O Zé Celso disse, outro dia, que a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Arena e o Oficina foram paridos pelo suicídio de Getúlio. Minha mãe conta que a estreia de O Mambembe, no Municipal, foi uma comoção como ela nunca viu. Hoje, ela entende que o público estava comungando ali, no teatro, com Arthur de Azevedo, o fim da Capital do Rio de Janeiro, que se mudaria para Brasília pouco depois. A retomada do cinema e os favela movies vieram junto com a redemocratização. O fim da Embrafilme aconteceu na mesma penada do confisco da Zélia Cardoso de Mello. Tudo que foi feito na música, no cinema e no teatro, durante a Ditadura Militar, refletia o enfrentamento a um inimigo comum. A arte é um reflexo direto do país, não é diferente agora.

O que te deprime no Brasil de hoje?
Quase tudo. Os séculos de ignorância que deram nesse Congresso que vota contra nós mesmos. A criminalização da Cultura. A ameaça ao sincretismo religioso. Impressiona a dificuldade de se chegar a um meio termo, um livre mercado sadio, regulado com a ajuda do estado, para diminuir a desigualdade social. Isso é tido como esquerdopatia. O nível de discussão anda muito baixo e oportunista, feroz, agressivo. O Rio de Janeiro ter chegado a esse grau de rapina é tudo muito chocante. E essa discussão imbecil entre esquerda e direita, como se houvesse esquerda e direita num país sem saneamento básico. A questão hoje é como lutar contra a concentração de riqueza, que só piorou, e que está disseminando essa insatisfação geral, esse niilismo ofensivo do quanto pior, melhor. Não é só no Brasil, é um fenômeno mundial de empobrecimento da sociedade, de medo e falta de saída.

O personagem também reflete muito sobre como se fazia teatro e televisão no Brasil nos anos 1960 e 1970 e como está hoje. Para você, Fernanda, o que mudou essencialmente nessa área?
Tudo, o próprio meio de produção. A internet mudou tudo, estamos em plena revolução. Eu só assisto à televisão em celular, vejo filmes em VOD, não há mais diferença física entre cinema e televisão, é tudo pixel. Está todo mundo viciado em internet, por outro lado, o livro físico sobreviveu, os jovens leitores gostam de comprar livros. Aos poucos, jornais como o The Guardian provam o quanto é importante uma curadoria confiável, em meio ao oceano de fake news.

A criação literária é diferente da criação de um personagem na dramaturgia?
Mas eu não conheço gênero mais difícil do que o teatro, para se escrever. Minha mãe, certa vez, perguntou ao Drummond o porquê de ele não escrever para o teatro e ele respondeu: “muito difícil”. A escrita dramatúrgica é feita de ação, não há gordura, não há descrição, é seco, é árido. Para mim, a literatura se assemelha ao subtexto que um ator cria entre as falas. Tudo o que não é dito, tudo o que se imagina para dar corpo a um personagem. A voz interior.

Redação no Enem: Dicas para um texto nota 1000

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 Divulgação Uma redação nota 1000 pode carimbar o passaporte para uma boa faculdade.

Divulgação
Uma redação nota 1000 pode carimbar o passaporte para uma boa faculdade.

 

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Vivian Jordão, no HuffpostBrasil

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Nesta semana, a disciplina em debate é Redação.

Conversamos com o professor Rafael Cunha e discutimos os pontos principais para uma redação nota 1000.
Como deve ser a estrutura do texto? O título é obrigatório?

A redação tem limite de 30 linhas. O ideal é que o texto seja construído em quatro ou cinco parágrafos. Normalmente, os alunos que escrevem quatro parágrafos conseguem notas maiores. O título não é obrigatório e conta como uma linha. Os candidatos devem utilizar os três componentes: Introdução, desenvolvimento e conclusão.

É importante se posicionar sobre o tema?

O posicionamento é uma necessidade. Trata-se de um texto dissertativo-argumentativo. O objetivo maior é convencer o leitor a partir de um ponto de vista e uma tese, que deve ser defendida com argumentos. É possível se posicionar completamente contra ou completamente a favor da proposta, porém, uma pessoa crítica é aquela que consegue fazer observações sob diversos ângulos, e não somente sob uma perspectiva. Por exemplo, o tema de 2015 foi violência contra a mulher. Não cabe discutir se você é a favor ou contra. Todos são contra a violência. O importante é discutir e tentar entender os motivos ou razões de, em pleno século 21, esse tipo de comportamento ou realidade ainda existir.

O que os alunos devem ler para fazer um bom texto?

A própria banca fornece textos de apoio. Não se deve copiar os textos, mas usá-los como referência para o tema. Além disso, quanto mais antenado o aluno estiver, melhor. É sempre bom ler notícias dos principais veículos, sempre com perspectiva crítica.

É permitido fazer perguntas na redação?

Sim, desde que sejam perguntas retóricas, ou seja, perguntas que servem para afirmar algo. Perguntas que trazem dúvidas do autor do texto não devem aparecer no texto.

A criatividade é um critério de avaliação?

Não é um critério de avaliação, mas, sem dúvida alguma, pode causar uma boa impressão para o corretor. Entre milhões de redações que serão produzidas, aquela que for mais criativa vai chamar atenção positivamente. É uma maneira de diferenciar-se.

Como prender o leitor e deixar o texto mais interessante?

O aluno deve utilizar um repertório sócio-cultural produtivo. Se o candidato conseguir fazer referências históricas, geográficas, filosóficas e citar pensadores, obras literárias e filmes, isso torna sua redação diferenciada, reforça sua capacidade argumentativa e aumenta sua nota.

O que não pode ter no texto de jeito nenhum?

Desrespeito aos direitos humanos é proibido. O aluno que não respeitar essa regra terá sua nota anulada. Não pode haver citações que não correspondam ao tema, como por exemplo receitas de bolo ou hinos de futebol, que escreveram no ano passado. Por se tratar de um texto dissertativo-argumentativo, a linguagem deve ser impessoal, ou seja, não deve aparecer “eu acho”, “eu penso”, “eu acredito” ou qualquer outra expressão na primeira pessoa do singular. A linguagem deve ser adequada à norma culta da língua, portanto, registros de oralidade e informalidade, como gírias e abreviações coloquiais, não devem aparecer.

Não oferecer uma proposta de solução para o tema proposto faz o candidato perder pontos?

Sim. Se o aluno não discutir propostas de intervenção, pode perder até 200 pontos.
O que fazer na reta final de preparação?

1. Verificar os temas dos anos anteriores e se acostumar com a linguagem utilizada pela bancada;

2. Conhecer muito bem os critérios de correção. São cinco competências, cada uma valendo 200 pontos;

3. Fazer muitas redações pelas próximas semanas. Pelo menos 3 redações por semana para ir treinando;

4. Buscar textos de anos anteriores que obtiveram nota máxima para servir como fonte de inspiração.

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