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Jô Soares lança primeira parte de autobiografia ‘desautorizada’

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Perto dos 80 anos, apresentador ‘exibido’ revisita longa carreira na TV e no teatro

Perto dos 80 anos, apresentador ‘exibido’ revisita longa carreira na TV e no teatro

Jô Soares lança sua biografia – Marcos Alves / Agência O Globo

Patrícia Kogut, em O Globo

SÃO PAULO — Quando Jô Soares completou 18 anos, seus pais perderam tudo. O garoto que tinha estudado nas melhores escolas, uma delas na Suíça, e morava no anexo do Copacabana Palace, viu seus planos de cursar o Instituto Rio Branco serem interrompidos. Em vez disso, foi trabalhar numa firma de exportação de café, desempenhando pequenas tarefas de escritório.

Por força desse golpe do destino e do seu talento incontestável (e inescapável) de criador, entretanto, aos poucos, acabou enveredando pelo show. Aonde ele chegou com isso é notório.

Em “O livro de Jô — Uma autobiografia desautorizada” (escrito com Matinas Suzuki), o artista, que completa 80 anos em janeiro, relata esse caminho. Na sua narrativa, não há acerto de contas, algo tão comum no gênero. Em contrapartida, sobra generosa diplomacia, reforçando a impressão de que o Itamaraty perdeu um ótimo quadro.

Jô é pródigo em lembranças gentis, engraçadas e em boas palavras para todos os que menciona. Vai emendando uma história deliciosa na outra, num fluxo que rompe a ordem cronológica — embora ela esteja na estrutura do texto, que começa com seu nascimento. Ele avança e recua diversas vezes no tempo quando é preciso abrir um parêntese para contar algum caso — e toda hora essa situação se apresenta.

— O livro é assim porque não tenho recalques, a vida me abençoou. É como eu sou, não estou me gabando — esclarece, acrescentando que o trabalho ainda não terminou, pois falta o segundo volume (a ser lançado no segundo semestre de 2018), mas chegou perto da conclusão.

Jô faz os relatos para Matinas, que organiza e mais tarde reenvia para que ele escreva o texto final. É, resume, “um trabalho de estivador”. As longas conversas deles acontecem entre livros e perto do computador. Lá, conserva arquivos e arquivos com registros da carreira e que servem a confirmar datas. Nessa biblioteca, há preciosidades como a “Enciclopédia Larousse” “que foi do vovô Leal e diz, num verbete, que o avião é uma invenção de futuro improvável”. Tudo serve como fonte para a pesquisa, que escava os primórdios da TV no Brasil, os anos dourados no Rio, o mundo do teatro e o da música.

Poliglota, “exibido” (por autodefinição), afiado, o escritor, dramaturgo, ator, diretor, músico, enfim, homem renascentista, ele imprimiu todas essas marcas nessas 445 páginas iniciais. A autobiografia é “desautorizada” porque “nela, não há censura. É diferente de uma biografia não autorizada, que alguém escreve à revelia da pessoa retratada”, diz.

A censura, aliás, é um tema recorrente na conversa. Jô conta que uma das grandes alegrias que teve foi ler a Constituição de 1988, ainda em copião. Ele recebeu o texto das mãos de Ulysses Guimarães, então presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

— A censura não volta graças a uma cláusula pétrea e a Dr. Ulysses. Mas essas patrulhas que existem hoje no Brasil são a coisa que mais me choca.

CONTRA QUALQUER ATAQUE À ARTE

Jô fala das críticas sofridas por Daniela Thomas pelo seu mais recente longa, “Vazante” (filme, que foi apontado por alguns como uma “obra racista”).

— É uma sacanagem o que disseram de “Vazante”, tive nojo. O filme é lindo. Condeno veementemente esses ataques. Eles não refletem um zelo com a nossa cultura, ao contrário, espelham um recalque, uma tristeza de quem não tem sucesso. Nada disso aniquila o talento da Daniela.

Em suas memórias, Jô relembra a peça “Timbira”, encenada em 1958, em que Jardel Filho, louro de olhos azuis, interpretava um índio. Antes de entrar em cena, o ator tinha seu corpo inteiramente pintado, trabalho que demorava horas. Depois, colocava uma peruca para completar a caracterização do índio que dava título ao espetáculo. Como isso seria recebido hoje?

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— Algumas pessoas de algum movimento diriam que o ator escalado teria de ser um índio. Mas qualquer um pode fazer qualquer papel, é teatro!

Da mesma forma, Jô acredita que o humor não deve nunca ter barreiras ideológicas.

— Há uma vigilância equivocada, que faz com que muita gente esqueça que o principal é a irreverência. O limite do humor é só o que não é engraçado, o resto é livre. Um exemplo é o Fábio Porchat, que tem um talento natural. Ele pode falar sobre o que quiser! Fez um esquete sensacional sobre uma empresa de telecomunicações que é a patrocinadora do seu espetáculo.

Outra armadilha perigosa, lembra, é a da autocensura prévia. Foi o que quase aconteceu com o Capitão Gay. O personagem foi uma das estrelas de “Viva o Gordo”, nos anos 1980, e um de seus prediletos entre inúmeros que marcaram a carreira. Mas quase não foi ao ar.

— Um belo dia, levantei da cama com uma ideia: criei um personagem gay, uma bicha colorida, alegre — conta. — Quando contei minha intenção, o Borjalo (Mauro Borjalo, que cuidava de controle de qualidade na Globo) resistiu. Disse que havia um militar de alta patente em Brasília cujo sobrenome era Gay e que pareceria uma provocação. Eu reagi, dizendo que não poderíamos censurar o que ainda estava dentro da gaveta. Boni me apoiou, e o personagem foi ao ar, tornando-se um sucesso instantâneo. Anos mais tarde, eu estava num aeroporto e fui interpelado por um desconhecido que se apresentou: “Sabe quem eu sou? O coronel Gay! Quero dizer que adoro o Capitão Gay”. Ou seja, a gente ia censurar uma coisa e o cara ali, adorando.

Na véspera dessa entrevista, Jô tinha gravado o “Conversa com Bial”, no mesmo estúdio que ocupou por tantos anos na Globo (o programa está no Globoplay). Foi comovente para ambos (“chorei, o Bial chorou”):

— Fiquei emocionado por estar ali na posição do entrevistado. Só no dia seguinte, me dei conta de que ele inverteu a ordem da mesa, e eu estava sentado à direita, onde sempre fiquei posicionado no meu programa a vida inteira. Por isso fiquei tão à vontade!

Ao ouvir que essa parece uma observação de um psicanalista, diz que nunca fez análise, embora tenha lido Freud e, mais ainda, Jung.

— Eu quero conviver com meus mistérios. Não sou contra. Acho que todo mundo deve fazer, menos eu. Minha análise é minha profissão.

Perguntado se tem planos na televisão, faz uma negativa com a cabeça:

— Viu a força com que mexi a cabeça? Quase destronquei o pescoço! Depois de 58 anos sem parar, quero parar de fazer TV pelo menos pelos próximos 20.

Em contrapartida, tem muitos projetos no teatro. O primeiro deles é a direção de “A noite de 16 de janeiro”, da russa Ayn Rand (“não resisto a uma peça que tem o nome do dia em que nasci”). Também quer voltar a atuar em “A lição”, de Ionesco. Finalmente, a atriz Bete Coelho, sua amiga, convidou-o a fazer uma adaptação de “The wisdom of Eve” (de Mary Orr). Além da TV, ele só abriu mão do trompete (“não tenho mais saco, exige muita dedicação. Você fica uma semana sem ensaiar e perde o biquinho”).

Instado a escolher, entre tantas áreas de atuação — humorista, escritor, diretor, ator — uma que o defina, sintetiza:

— Sou um artista. Tudo o que faço são dedos da mesma mão.

Tom Hanks lança ‘Tipos Incomuns’, seu livro de contos

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Autor/ator. 'Vivemos o momento em que um novo, digamos, código de ética vai ser instalado, exigindo que todos sejam mais sábios', disse, sobre o affair Weinstein Foto: Jake Michaels/The New York Times

Autor/ator. ‘Vivemos o momento em que um novo, digamos, código de ética vai ser instalado, exigindo que todos sejam mais sábios’, disse, sobre o affair Weinstein Foto: Jake Michaels/The New York Times

Publicado no Estadão

Até Tom Hanks ficou impressionado. Mas não foi uma celebridade que despertou a admiração do vencedor de um Oscar de melhor ator. Foi um documento. No mês passado, durante uma visita VIP à coleção do Arquivo Nacional dos Estados Unidos, Hanks se aproximou da Constituição americana, exposta dentro de uma caixa de vidro. Fã apaixonado e confesso de história, ele cobriu os olhos com as mãos e recitou de cor o preâmbulo da Constituição.

Parece que a Fundação do Arquivo Nacional escolheu o destinatário certo para sua maior honra, o Prêmio Records of Achievement, concedido a indivíduos “cujo trabalho cultivou uma maior consciência nacional sobre a história e a identidade dos Estados Unidos, por meio do uso de registros originais”. Hanks foi reconhecido por seu trabalho como contador de histórias americano, tanto nas telas quanto fora delas, como cineasta, filantropo e, agora, autor.

É dele Tipos Incomuns, seleção de histórias curiosas que agora é lançada pela editora Arqueiro. São casos em que o autor lança um olhar ao mesmo tempo atento e carinhoso: o caso agitado entre dois grandes amigos, um ator medíocre que se torna uma estrela, o colunista de uma pequena cidade que revela um ponto de vista antiquado e até a história de quatro amigos que viajam à Lua em um foguete construído num fundo de quintal. Em comum, os contos têm uma máquina de escrever que desempenha um papel na trama.

Quase 250 fãs de história festejaram Hanks numa noite de sábado de outubro, com um jantar de black-tie e um debate ao vivo com o documentarista Ken Burns, também homenageado pelo Arquivo. “Devemos louvar com orgulho o excepcional serviço que nosso homenageado prestou às histórias do nosso país”, disse Burns no palco. “Em cada personagem que encarnou, em cada gesto e cada respiração, ele nos lembrou que não existem pessoas comuns.”

Hanks diz que leva muito a sério seu papel como uma espécie de professor de história dos Estados Unidos. “Você tem de ficar escolhendo a dedo os detalhes precisos e verdadeiros do modo de ser e se comportar, porque, para o bem ou para o mal, as pessoas vão olhar e dizer: ‘Ah, isso é o que realmente aconteceu naquela época’”, disse Hanks, em uma entrevista no tapete vermelho. “E, quanto mais você acerta, melhor o serviço que você presta”.

Colecionador de máquinas de escrever e descendente distante do presidente Abraham Lincoln, Hanks também é um voraz leitor de história (atualmente está lendo Homo Deus, de Yuval Noah Harari). Hanks também falou sobre sua preparação para viver o lendário editor Ben Bradlee no próximo filme de Steven Spielberg, The Papers.

Até agora, ele já devorou todos os livros, filmes e relatos que lhe passaram pelas mãos. Também teve uma conversa em particular com a viúva de Bradlee, Sally Quinn, veterana escritora do Washington Post, para saber de “outros tipos de detalhes” que não podem ser obtidos pelos papéis e vídeos.

Ao estudar um novo personagem, “você tenta destilá-lo até uma essência que você pode levar consigo todos os dias”, disse Hanks. “Ben Bradlee sabia que era o cara mais bacana do pedaço porque amava seu trabalho e sabia que tinha um grande poder de persuasão. Ele sabia que era bom em algumas coisas, mas acho que, mais do que isso, ele adorava essas coisas”.

Ele também abordou polêmicas atuais, como a troca de farpas entre o presidente Donald Trump e a deputada democrata Frederica S. Wilson, da Flórida, a respeito do tom de um telefonema de condolências para a família de um militar americano morto em combate.

“Se você me perguntar, vou dizer que me parece uma das maiores mancadas do planeta Terra”, disse Hanks. “É uma tragédia que tem grandes consequências, e vai muito além das manchetes. É muito triste.”

Quando questionado sobre as recentes acusações de abuso sexual contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein, ele disse que este é um “momento decisivo”, não apenas para as mulheres do mundo artístico, mas também para mulheres de todos os campos de trabalho. “Vivemos o momento em que um novo, digamos, código de ética vai ser instalado, exigindo que todos sejam mais sábios e comecem a prestar mais atenção e, quem sabe, até obedecer? Acho que sim”, disse Hanks.

Ele sugeriu que as pessoas recorram ao Arquivo em busca de orientação para lidar com o mundo tumultuado de hoje. “As pessoas estão aborrecidas com tudo que está acontecendo. Estão furiosas, estão frustradas, estão cansadas”, disse Hanks no palco. “Eu digo: bom, se você está preocupado com o que está acontecendo hoje, leia os livros de história e descubra o que fazer, porque está tudo lá.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Estreia

Tipos Incomuns é o primeiro livro de ficção Hanks, que já escreveu para o New York Times, a Vanity Fair e a New Yorker.

Confira 8 ótimos cursos online para aprender aquilo que a faculdade não ensinou

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Cursos online

Publicado no Amo Direito

Uma boa graduação, repleta de leituras e experiências, costuma ser o primeiro passo para uma carreira de sucesso. Ainda assim, a faculdade deixa de ensinar muitas competências exigidas pelo mercado de trabalho.

Como funcionam os mecanismos de uma negociação? Como analisar um problema e encontrar soluções criativas para ele? Qual é o segredo para um trabalho em grupo realmente eficiente? Como aprender melhor e mais rápido?

Embora temas dessa natureza raramente apareçam na lousa de uma universidade, não faltam cursos online que abordam esses assuntos em profundidade. Frequentemente gratuitas, as aulas podem ser acompanhadas por qualquer pessoa com acesso à internet e muitas vezes são ministradas por instituições de renome.

Na lista a seguir, elaborada por EXAME.com, há cursos organizados por universidades de países como Estados Unidos, Holanda, Espanha e Colômbia. Confira 8 cursos recomendados a seguir:

“Como resolver problemas e tomar decisões de forma criativa”
Complexo e incerto, o mundo atual exige escolhas rápidas e eficazes de qualquer profissional. Este curso ensina a tomar decisões de modo analítico, isto é, explorar os contornos do problema, aventar hipóteses e implementar a melhor solução disponível. A partir de diagramas, árvores e outras técnicas, o aluno consegue enxergar melhor o “desenho” do problema e encontrar uma chave inovadora e estratégica para resolvê-lo.

Instituição: Delft University of Technology (Holanda)
Link para as aulas no edX

“Trabalho em equipe: um guia prático”
A maioria das pessoas trabalha em grupo de forma meramente intuitiva, isto é, sem pensar muito sobre o assunto. Parar para refletir sobre tema, porém, ajuda a tornar a experiência mais agradável e eficiente. Este curso apresenta os diversos tipos de equipes, seus ciclos temporais e o que as torna altamente produtivas. Também há lições sobre como se tornar um participante mais ativo e resolver conflitos interpessoais.

Instituição: University of Queensland (Austrália)
Link para as aulas no edX

“Aprendendo a aprender”
Técnicas de aprendizagem podem ser usadas para qualquer finalidade e em qualquer campo de atuação. O ponto de partida deste curso são os dois modos básicos de processamento de informações pelo cérebro. Em seguida, as aulas abordam temas como táticas de memorização e de retenção de assuntos difíceis. O objetivo é fornecer dicas pouco óbvias para absorver conhecimentos mais facilmente em qualquer contexto.

Instituição: University of California, San Diego (Estados Unidos)
Link para as aulas no Coursera

“As habilidades essenciais para o ambiente de trabalho”
Esta série de aulas ajudará você a desenvolver algumas das competências mais desejadas em um profissional atualmente, que vão muito além do preparo técnico oferecido na graduação. Há módulos sobre gestão do tempo, finanças, negociação, tomada de decisão, gerenciamento de projetos e comunicação, por exemplo.

Instituição: University of California, Irvine (Estados Unidos)
Link para as aulas no Coursera

“Técnicas para gestão de projetos”
Com base em estudos de caso, este curso apresenta princípios e ferramentas do gerenciamento de projetos. Desenvolvido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a metodologia PM4R (Project Management for Results) é a base conceitual para o conteúdo apresentado nas aulas.

Instituição: Banco Interamericano de Desarrollo (BID)
Link para as aulas no edX

“Gestão da ansiedade antes de exames e apresentações”
Este curso faz um “raio-X” da ansiedade: o que é, como surge e como se sustenta ao longo do tempo. Em seguida, são abordados os sintomas do problema e como usar a gestão dos próprios pensamentos para controlá-los. Há ainda um módulo especialmente voltado para administrar o seu comportamento em exposições orais, com base em técnicas de linguagem corporal. É preciso se cadastrar no site para ter acesso ao conteúdo.

Instituição: Universidad Cardenal Herrera (Espanha)
Link para as aulas na Miríada X

“Busca de emprego 2.0”
Em tempos difíceis para a economia, a disputa por vagas de trabalho anda cada vez mais acirrada. Nesse ambiente de competição, ganham os mais qualificados – mas também quem usa as melhores técnicas para conquistar os recrutadores. Neste curso, você aprenderá a buscar emprego de forma ativa, elaborar um bom currículo, criar uma “marca” pessoal e usar as redes sociais para impulsionar as suas chances de contratação. É preciso se cadastrar no site para ter acesso ao conteúdo.

Instituição: Universidad a Distancia de Madrid (Espanha)
Link para as aulas na Miríada X

“Impulsione sua empregabilidade”
Nem uma sólida formação acadêmica e nem ótimas experiências profissionais garantem que você conseguirá uma posição no mercado de trabalho. Este curso apresenta formas de incrementar a sua empregabilidade, isto é, o conjunto de competências e qualidades pessoais que tornam um profissional mais atraente para as empresas. Entre outras lições, o aluno descobre como apresentar suas experiências profissionais da forma mais cativante possível para um recrutador.

Instituição: University of Queensland (Austrália)
Link para as aulas no edX

Por Claudia Gasparini

Como fracasso e persistência levaram JK Rowling ao sucesso

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J.K. Rowling: ela chegou a depender de benefícios sociais para viver (.foto/Getty Images)

J.K. Rowling: ela chegou a depender de benefícios sociais para viver (.foto/Getty Images)

Autora de Harry Potter superou rejeições e contou como o fracasso foi importante para o sucesso

Publicado na Exame

Há quem goste de comparar a história de JK Rowling, a autora de Harry Potter, a um conto de fadas. É fácil entender o motivo: Rowling era muito pobre e dependia de benefícios sociais para sustentar sua família quando o primeiro livro foi publicado, em 1997. Quase instantaneamente, ela se tornou milionária e, depois, bilionária.

Mas essa é uma visão simplista. A trajetória de JK Rowling é muito mais calcada em persistência, resiliência e propósito que num final feliz repentino – traços que, não por acaso, também aparecem no protagonista da série.

Elimine o que não é essencial

No começo dos anos 1990, Rowling fez as malas e voltou para a Escócia após um casamento infeliz com um marido abusivo em Portugal. Sem emprego e com um bebê para criar sozinha, começou a receber ajuda do governo e tentar sobreviver.

É uma época dura e que ela não esconde de sua biografia. Em seu bem humorado discurso para formandos da Harvard University, em 2008, ela disse que foi o mais perto que chegou da miséria em seu país sem morar na rua. “Eu era a maior fracassada que conhecia”, falou.

A depressão não tardou e, às voltas com pensamentos suicidas – que mais tarde inspiraram os dementadores da série –, ela decidiu buscar ajuda psicológica e continuar escrevendo uma história que tinha surgido na sua cabeça anos antes, numa viagem de trem: a vida de um bruxo chamado Harry Potter.

Ainda sem emprego, se sentindo um grande fracasso, JK Rowling não desistiu de seu sonho de infância – ser uma escritora – e terminou os dois primeiros livros, que foram escritos à mão num café barato perto de sua casa.

A autora fez o melhor que pode com as circunstâncias difíceis que tinha: vendo um lado positivo em seu tempo livre, simplificou sua rotina e focou em avançar como podia enquanto fazia o que amava, tornando-se mais produtiva e criativa.

“O fracasso eliminou o que não era essencial. Parei de fingir para mim mesma que era qualquer outra coisa que não eu e dirigi minha energia para o único trabalho que me importava”, disse ela em Harvard. “Meu maior medo tinha se tornado realidade e eu ainda estava viva, tinha uma filha que eu amava, uma máquina de datilografia velha e uma grande ideia.”

Foi assim que ela mudou sua perspectiva. “O fundo do poço se tornou a base sólida sobre a qual reconstrui minha vida.”

Rejeição e persistência

Quando se deu por satisfeita com o resultado, Rowling começou a tentar emplacar Harry Potterem alguma editora.

Foi mais um baque. As mais de dez editoras que rejeitaram o manuscrito até hoje não devem se perdoar, visto que foram mais de 400 milhões de livros vendidos e uma bilionária adaptação cinematográfica, mas para Rowling o impacto foi pior.

Ainda muito pobre, ela colocou tudo que tinha em seu trabalho. Vê-lo rejeitado, de novo e de novo – afinal, era um livro infantil ou adulto? Quem leria algo sobre bruxaria?, questionavam os editores –, deixava-a ainda mais fragilizada.

Sabendo que não tinha nada a perder e apaixonada pelo trabalho, Rowling persistiu. Finalmente, encontrou uma pequena editora britânica, a Bloomsbury Publishing, disposta a arriscar. Hoje, a mesma companhia vale 110 milhões de libras, muitas delas graças a Harry Potter.

Conhecedora de fracassos e da desesperança que os fracassos trazem, Rowling também é uma defensora da persistência, da resiliência e da busca pelo seu propósito, mesmo que outros queiram que você tome um caminho diferente.

“Saber que você ressurgiu mais sábio e mais forte de adversidades significa que você garantiu, para sempre, sua habilidade de sobreviver”, continuou em seu discurso. “Esse conhecimento é um verdadeiro presente, mesmo que dolorosamente adquirido, e vale muito mais que qualquer qualificação que recebi.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo Na Prática, portal da Fundação Estudar

PhD em Harvard, brasileira supera fome e preconceito e soma 56 prêmios na carreira

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Arquivo pessoal. Joana D’Arc Félix de Souza é PhD em química pela renomada Universidade de Harvard

 

Eduardo Carneiro, no UOL

 

“Toda mulher dá a sua vida pelo que ela acredita”. A frase é atribuída à Joana D’Arc, a famosa heroína francesa que viveu no século XV, mas pode muito bem ser usada para resumir a história de uma brasileira que tem o mesmo nome mais de 500 anos depois.

Joana D’Arc Félix de Souza, 53 anos, superou a falta de estrutura, a fome e o preconceito para se tornar cientista, PhD em química pela renomada Universidade de Harvard, dos Estados Unidos. Hoje, ela soma 56 prêmios na carreira, com destaque para a eleição de ‘Pesquisadora do Ano’ no Kurt Politizer de Tecnologia de 2014, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abquim).

Desde 2008, ela também é professora da Escola Técnica Estadual (ETEC) Prof. Carmelino Corrêa Júnior, mais conhecida como Escola Agrícola de Franca, cidade do interior de São Paulo, e molda novas gerações a seguirem sua trajetória inspiradora.

Trajetória que começou na própria Franca: filha de uma empregada doméstica e de um profissional de curtume (operação de processamento do couro cru que tem por finalidade deixá-lo utilizável para a indústria e o atacado), Joana mostrou desde cedo que tinha aptidão para o conhecimento.

“Eu era a caçula de três irmãos, tinha certa diferença de idade, então minha mãe me levava com ela para o trabalho. Ela aproveitou que tinham jornais na casa da patroa e me ensinou a ler, para eu ficar mais quieta. Tinha quatro anos e ficava o dia todo lendo”, conta ela ao UOL.

“Um dia, a diretora da escola Sesi foi visitar a dona da casa e perguntou se eu estava vendo as fotos do jornal. Respondi que estava lendo. Ela se surpreendeu, me pediu para ler um pedaço e eu li perfeitamente. Coincidentemente, era começo de fevereiro e ela sugeriu que eu fosse uns dias na escola. Se eu conseguisse acompanhar, a vaga seria minha. Deu certo e com 14 anos eu já terminava o ensino médio”.

O mesmo curtume que deu ao pai casa (a família vivia numa pequena moradia oferecida pelo patrão) e trabalho por 40 anos acabou influenciando a jovem Joana na hora de escolher uma faculdade. Contando com a ajuda de uma conhecida, ela decidiu prestar vestibular em química, pois estava acostumada a ver profissionais da área atuando no trabalho com o couro.

“Uma professora tinha um filho que fez cursinho e pedi o material para ela. Meu pai e minha mãe não tinham estudo, mas me incentivavam. Eles tinham consciência de que eu só cresceria através de estudos. Passei a estudar noite e dia até entrar na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)”, relembra a pesquisadora, que não se deixou abalar pelo preconceito que sofreu até o tão sonhado diploma.

“As cidades de interior têm aquela coisa de sobrenome: se você tem, pode ser alguém, se não tem, não pode. Sempre enfrentei preconceito. Na minha segunda escola, mesmo sendo estadual, tinha aquela coisa de classe para os ricos, classe para os pobres, com tratamentos diferentes. Em Campinas, fora da universidade, também senti um pouco. Infelizmente, o Brasil ainda é um país racista. Pode estar um pouco mais escondido, mas isso ainda existe. Mas não usei isso como obstáculo, e sim como uma arma para subir na vida”.

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A vida acadêmica

Joana, como previa, passou muita dificuldade em Campinas, a mais de 300 km de sua cidade natal. O dinheiro que recebia do pai e do patrão dele permitia que ela pagasse somente o pensionato onde morava, as passagens de ônibus e o almoço na universidade.

“Às vezes pegava um pãozinho no bandejão da universidade e levava para eu comer em casa à noite. Sentia fome, contava as horas para o almoço (risos). No final de semana também era complicado. Mas nunca desisti. Isso chegou a passar pela minha cabeça, mas não desisti. Fazer isso seria jogar tudo que tinha conquistado até ali no lixo”, afirma.

Sua situação só melhorou a partir do segundo semestre, quando começou a iniciação científica e teve o auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). “Quando recebi a primeira bolsa, corri para a padaria e gastei uns 50 reais em doces para matar a vontade”, ri.

Estimulada por professores a seguir na vida acadêmica e encantada pelo campo de pesquisa, Joana ainda concluiria mestrado e doutorado em Campinas – este último com apenas 24 anos. Um dos artigos da cientista saiu no Journal of American Chemical Society, e logo ela recebeu o convite para seguir os estudos nos Estados Unidos.

O pós-doutorado de Joana foi concluído na Universidade de Harvard. Um professor solicitou que ela aplicasse em seu trabalho um problema brasileiro, e ela optou pelos resíduos de curtume nas fábricas de calçados – desenvolveu a partir destas substâncias poluentes um fertilizante organomineral. Questionada sobre a condição de trabalho em solo americano e no seu país natal, a cientista aponta um fator que faz muita diferença.

“Nos Estados Unidos, eu pedia um reagente químico e em duas ou três horas conseguia. No Brasil, até eu arrumar dinheiro, fazer solicitação… Aqui tem mais burocracia. A questão de financiamento para pesquisa é bem mais rápida nos Estados Unidos”.

A brasileira ficaria mais tempo nos Estados Unidos não fosse uma tragédia familiar: sua irmã morreu aos 35 anos, vítima de parada cardíaca, mesma causa do falecimento do pai, apenas um mês depois. Joana decidiu voltar para o Brasil e cuidar da mãe e de quatro sobrinhos deixados pela irmã.

Novamente em Franca, a cientista procurou oportunidades em curtumes da cidade natal até que recebeu o convite para se tornar professora da ETEC em 2008.

“Quis desenvolver este trabalho de iniciação científica desde a educação básica, e o resultado foi excelente. Reduzimos a evasão escolar. A escola é tradicional, tem mais de 50 anos, e é agrícola. Muitos dos alunos são filhos de fazendeiros da região e não sabiam por que estudar. Muitos achavam que o ensino técnico era o fim, era o máximo que iriam conseguir. Mas, com as idas às feiras e congressos, eles começaram a pensar mais alto, em ir para a universidade, e não estudar só porque o pai manda”.

Colhendo os frutos

O trabalho com os resíduos de curtume é só um dos muitos de destaque que Joana executou nos últimos anos. Em especial, ela e sua equipe de alunos em Franca conseguiram desenvolver uma pele similar à humana a partir da derme de porcos. Isso ajudaria no abastecimento de bancos de pele especializados e de hospitais, além de baratear o custo de pesquisas, uma vez que a matéria-prima do animal é abundante e de baixo custo.
Centro Paula Souza/Divulgação

Centro Paula Souza/Divulgação

Centro Paula Souza/Divulgação

O projeto, com depoimento da cientista, está exposto até o mês de outubro no Museu do Amanhã (Rio de Janeiro). Ele é parte da mostra temporária “Inovanças – Criações à Brasileira”, que tem o intuito de revelar trabalhos inovadores de cientistas brasileiros, muitos deles desconhecidos do público.
Joana ainda comandou pesquisa que resultou na produção de um tecido ósseo feito a partir de materiais também encontrados na natureza: escamas de peixes e colágeno de curtume. Ela e alunos da ETEC vão em junho a uma feira em Oswegon, Estados Unidos, apresentar este projeto, juntamente ao da pele artificial a partir de tecido de porco.

Como resultado deste trabalho, a professora e cientista já soma 56 prêmios na carreira. Destaque para a eleição de ‘Pesquisadora do Ano’ no Kurt Politizer de Tecnologia de 2014, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abquim), além de projetos vitoriosos em concursos do Conselho Regional de Química do Estado de São Paulo e da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), que acontece anualmente na USP (Universidade de São Paulo).

Para Joana, porém, a maior recompensa vem no dia a dia. “Alguns jovens estavam no caminho errado, mas fazendo a iniciação científica encontraram um rumo. Eles tomam gosto pela pesquisa. Muitos pais vieram me agradecer, e isso é muito gratificante dentro da escola básica”, diz ela, antes de concluir: “as armas mais poderosas que temos para vencer na vida são a educação e o estudo”

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