State Ibirapuera

Posts tagged trabalho

Os superprofessores particulares que educam filhos de milionários

0

Fok recusou US$ 20 mil de pais de aluno para garantir que ele tirasse nota máxima em exame Imagem: Arquivo pessoal

Philippa Fogarty, no UOL

O trabalho de Melissa Lehan como professora particular a levou a lugares fantásticos. Ela trabalhou nas Bermudas por alguns anos, depois no Canadá. Também teve passagens pelo sul da França, pelas Bahamas e pela região da Toscana, na Itália. No momento, está atuando no interior de Luxemburgo, onde ganha um salário anual de seis dígitos.

Formada na prestigiada Universidade de Oxford, no Reino Unido, Lehan, de 36 anos, educa crianças em casa há 10 anos. Seus clientes são geralmente pais ricos que, por várias razões, não se contentam com as escolas locais e querem uma educação melhor para seus filhos.

Ela diz amar seu trabalho, que inclui acomodação e viagens de graça. Mas, quando questionada por que, não destaca ter ensinado em locais exóticos ou dentro de um iate. Em vez disso, Lehan discorre sobre os relacionamentos que desenvolve com seus alunos e da liberdade que tem para lecionar, explicando os assuntos de uma forma diretamente relevante para eles.

“Ter essa conexão emocional com uma criança e ajudá-la, conhecendo-a tão bem que você sabe o que ela vai aprender – é o que me faz seguir em frente”, diz.

Boom de aulas particulares

Ao redor do mundo, a indústria de ensino privado está crescendo. Segundo previsões, seu faturamento vai alcançar US$ 227 bilhões (cerca de R$ 895 bilhões) até 2022, impulsionado pelo crescimento na Ásia e pelo desenvolvimento de aulas on-line, na medida em que mais empresas conectam estudantes a professores, independentemente da distância física.

No entanto, esse setor continua em grande parte não regulamentado e há todos os tipos de provedores do serviço: freelancers, escolas, grandes redes, serviços online, agências personalizadas e muito mais.

No topo, há um pequeno número de pessoas extremamente bem pagas, conhecidas como “superprofessores”. O significado varia de acordo com a região.

Na Europa, a figura mais conhecida costuma ser a do professor particular em tempo integral, como Lehan, em muitos casos usado por pais super-ricos que trabalham no exterior e que querem levar seus filhos para as melhores escolas e universidades nos EUA ou no Reino Unido.

Já no leste da Ásia, a expressão “superprofessor” normalmente se refere a um especialista em um determinado assunto que ensina grupos – um exemplo de destaque é Lam Yat-yan, de Hong Kong, um professor de língua chinesa que recusou uma oferta de emprego de US$ 11 milhões (R$ 43 milhões) em 2015.

Nos Estados Unidos, onde em 2017 mais de 3,7 milhões de estudantes fizeram testes de admissão para universidades, trata-se de um profissional conhecido por preparar candidatos para provas e que cobra taxas altíssimas por hora.

Mas além de cobrar altas somas, o que faz um superprofessor? Que tipo de habilidades eles têm, por que eles escolheram essa profissão e como chegaram aonde estão?

Preparação e sacrifício

No caso de Lehan, o termo “superprofessor” não lhe desperta interessa. Ela diz que a expressão glamouriza um papel que “não é bem compreendido”. “No dia a dia, sou professora”, diz “que trabalha duro”.

A maioria dos professores de Ensino Médio se especializa em um ou dois assuntos, mas Lehan ensinou várias disciplinas a crianças. Ela é formada em línguas e compartilha um amor pela matemática, mas desde cedo dominar o campo das ciências sempre foi um desafio. Em seu primeiro emprego, ela trabalhou sem parar para se certificar de que estava a par de toda a ementa.

“Para mim, a química (com o aluno) foi a única coisa em que tive que focar minhas atenções”, diz ela. “E, então, você obviamente passa o tempo tentando aperfeiçoar seu método de ensino, incluindo pequenos truques.”

Planejamento e preparação também levam tempo. “Você planeja para ter certeza de que o que ensina está funcionando especificamente para o seu aluno. Isso significa que, embora você tenha uma ementa em mente, é preciso revisá-la ao longo do tempo e fazer ajustes, de forma que o conteúdo pareça agradável ao aluno”.

Para Anthony Fok, sacrificar o tempo com a família e com os amigos faz parte do trabalho. Ele é professor em Cingapura, onde 70% dos pais matriculam seus filhos em aulas extras.

Fok, de 35 anos, dá aulas de economia para grupos de estudantes que se preparam para entrar em universidades locais e estrangeiras. Ele trabalha à noite e nos fins de semana e faz parte de um pequeno, mas crescente grupo de “superprofessores”. O faturamento de sua empresa gira em torno de US$ 726 mil (R$ 2,9 milhões) por ano.

Para isso, cobra dos seus alunos US$ 305 (ou R$ 1,2 mil) por quatro aulas de 90 minutos, taxas que ele diz estarem no mesmo nível de outros tutores ou “talvez com um pouco acima da média”. Suas aulas estão cheias – a tal ponto que alguns pais chegam a reservar um lugar em sua turma com três anos de antecedência ou mesmo oferecer dois anos de pagamento adiantado.

Em dada ocasião, um dos pais lhe ofereceu US$ 20 mil (R$ 78 mil) se Fok garantisse que seu filho tiraria a nota máxima no exame. Ele recusou. “Não é possível realizar milagres no último minuto”, diz ele. “A primeira dificuldade é que os pais acham que o dinheiro resolve todos os problemas. Mas não é verdade!”

Em um mercado competitivo, Fok conquistou seu nicho aperfeiçoando seu currículo. Ele começou a dar aulas na universidade, depois passou cinco anos como professor de uma escola antes de abrir seu próprio negócio de ensino em 2012.

Hoje, é o autor de vários livros sobre economia. Ele garante que se mantém atualizado pelos exames anteriores, bem como pelas últimas tendências, além de permitir que seus alunos lhe enviem mensagens a qualquer momento.

‘Não prometa demais e não entregue menos’

Nos imensos mercados de ensino de Hong Kong e da Coreia do Sul , os professores “estelares” dependem de um grande número de estudantes, fazendo palestras on-line ou ao vivo para aumentar seu alcance. Mas Fok diz não querer comprometer a qualidade de seu ensino ao fazer isso.

Ele critica quem entra nesse setor apenas pelo dinheiro e argumenta que a chance de fracassar é alta. “Os professores devem ser genuinamente apaixonados por ensinar e precisam se esforçar 100% para ajudar os alunos a melhorar”, diz Fok. “Não prometa demais e não entregue de menos. Trabalho duro, trabalho duro e trabalho duro.”

Enquanto isso, na Califórnia, Matthew Larriva ganha US$ 600 por hora dando aulas particulares para as provas SAT ou ACT, usadas para admissão em universidades americanas. Larriva começou a dar aulas em 2011 e, desde então, abriu sua própria agência de preparação para os testes.

Outras empresas do setor eram “generalistas”, defende ele, e havia espaço para uma alternativa de alto nível. Agora, conecta famílias com professores que recebem US$ 250 (R$ 985) por hora, escreve livros, faz apresentações e aceita apenas um ou dois alunos por vez.

“O que eu entrego – e a razão pela qual acho que eles estão dispostos a pagar – é a durabilidade dos resultados”, diz ele. Muitas pessoas só trabalham no campo por um curto período de tempo, diz ele, mas, se você ficar, “começa a desenvolver um ritmo que é realmente forte”.

Em sua opinião, professores experientes podem ajudar alunos a escolher a prova certa, o cronograma e a meta de pontuação, além de adaptar seu ensino para maximizar o progresso em diferentes níveis de habilidade.

Algumas pessoas, diz Fok, calculam que ele ganhe mais de US$ 1 milhão (R$ 3,94 milhões) por ano, mas não veem o tempo gasto trabalhando nos bastidores.

“Para cobrar US$ 600 (R$ 2.365) por hora, é preciso constante preparação, viagens e marketing”, diz ele. “E, uma vez no batente, é um trabalho cansativo durante as noites, fins de semana e feriados. Tenho que ser professor para meus alunos, conselheiro para os pais deles e mediador entre as famílias.”

Larriva estima que seja uma das cerca de 100 pessoas mais bem pagas em seu campo, mas lembra que há outros que cobram muito mais. Quanto ao conceito de “superprofessor”, ele diz não se importar com pessoas com status de celebridade, desde que seus resultados estejam alinhados com o marketing que fazem.

Sua maior preocupação, diz, é que não há qualificação padronizada para ser professor nos EUA. Muitas pessoas se anunciam como instrutores de preparação de testes, mas às vezes não está claro de que forma beneficiam seus alunos. Ele gostaria que as empresas publicassem os resultados dos estudantes, dando aos pais maior transparência.

Padrões profissionais

Adam Caller concorda. Ele é fundador da Tutors International, com sede em Londres, que fornece professores em tempo integral (incluindo Melissa Lehan) para famílias ricas. Atualmente, sua empresa está oferecendo salários de seis dígitos nos EUA, Bermudas, Luxemburgo e Hong Kong.

Em vez de se concentrar em salários ou “superprofessores” (um termo de que ele não gosta por mexer com o medo dos pais), Caller diz que o importante é resultado para o aluno. Ele contrata apenas professores qualificados (a menos que o cliente solicite o contrário) e suas funções podem incluir requisitos específicos – idiomas extras, música ou esportes, experiência com crianças problemáticas ou dificuldades de aprendizado.

Ele diz acreditar que deve haver uma qualificação profissional que reconheça formalmente a experiência dos professores.

“Seria excelente se houvesse um órgão de fiscalização por meio do qual seu profissionalismo, seu conhecimento, seu desenvolvimento profissional fossem medidos”, diz ele.

No caso de Lehan, se posta em prática, essa iniciativa poderia levar a uma melhor compreensão do que ela faz para ganhar a vida. “Acho que há muitas pessoas que não percebem que eu não estou apenas dando um pouco de aulas de francês, mas ensinando um conjunto completo de disciplinas”, diz ela.

Para ela, são os alunos – a garota rejeitada por sua escola como uma “aluna de baixo desempenho” que passou a se destacar em todas as provas, por exemplo – que tornam seu trabalho recompensador, em vez de inúmeras qualificações no currículo.

Matthew Larriva concorda. “Sim, o trabalho é sedutor às vezes – ter bilionários fazendo café para você e ser convidado para jantar em família com um congressista – mas mais envolvente do que glamour é o privilégio: entrar na vida de alguém nesta posição única, conhecer uma família e fazer com que eles confiem a você uma grande parte do futuro de seus filhos.”

Catador de reciclados faz o Enem no ES e sonha em ser advogado por incentivo dos pais

0

Carlos ao chegar no local de prova, com o sonho em mente — Foto: Arquivo Pessoal

 

Ele está pronto para fazer o Enem pela segunda vez. No ano passado, sonhava com o curso de medicina, mas o contato com livros da área de direito fez com que ele mudasse seus planos.

Ludmila Azevedo, no G1

Filho de catadores, Carlos Henrique Sales, 21 anos, que também trabalha no ramo, foi fazer o Enem incentivado pelos pais, neste domingo (4), em Vitória.

Ele está pronto para fazer o Enem pela segunda vez. No ano passado, sonhava com o curso de medicina, mas o contato com livros da área de direito fez com que ele mudasse seus planos.

“A Associação Ascamare, onde eu trabalho, vende muitos livros de direito. Tive acesso a eles e passei a me interessar por artigos sobre o assunto, e acabei me apaixonando. Seguindo essa profissão, posso ajudar as pessoas, defender aqueles que não têm condições de procurar um profissional, além de garantir um futuro melhor para mim e para minha família”, disse.

Carlos e os pais, José Carlos Santos, 52, e Marialva Sales Santos, 42 — Foto: Ludmila Azevedo/ G1

Carlos mora em Joana D’arc, Vitória, e trabalha como catador com a família há três anos. “Eu acordo às 7h, entro no trabalho às 8h. Como precisa de muito esforço físico, nos intervalos de 20 minutos eu aproveito para estudar”, disse.

“Eu me sinto cansado e às vezes isso me impede de estudar. O momento que eu mais sinto cansaço é quando eu estou indo para escola, durmo no ônibus porque estou cansado. E em alguns intervalos do trabalho também não consigo estudar”.

Saiba quem são e como funciona o trabalho dos narradores de audiolivros

1

Joana Caetano gravou O diário de Anne Frank, o relato da menina judia escrito durante a Segunda Guerra Mundial (foto: Divulgação/Ubook )

Mercado cresce e atrai dubladores e atores famosos, entre eles Paulo Betti, que descreve o trabalho como sendo ‘difícil, mas fascinante’

Ana Clara Brant, no UAI

A atriz Joana Caetano não havia se dado conta do potencial de sua voz, até que uma diretora de teatro chamou sua atenção para isso e a indicou para fazer um trabalho no mercado de audiolivros. Joana gravou O diário de Anne Frank, o relato da menina judia escrito durante a Segunda Guerra Mundial, entre junho de 1942 e agosto de 1944.

“Já conhecia o livro, mas é bem diferente na hora de narrar. Como é um diário, a leitura não pode ser exatamente interpretativa. É a Anne falando de si mesma. E era preciso transmitir a angústia que ela e a família estavam vivendo, tentando se esconder dos nazistas”, diz. A gravação das 352 páginas levou um mês e meio, e a pronúncia de nomes e expressões em alemão recebeu atenção especial. “Tive que treinar bastante isso, porque não ia soar nada bem pronunciar algo errado”, diz a narradora.

Embora o trabalho exija técnica e disciplina, o narrador não fica isento de se emocionar com o livro, o que é outro aspecto a ser administrado. “Teve momentos em que realmente tive que dar uma parada para respirar e retomar a concentração”, conta Joana. Marta Ramalhete, gerente de produção do Ubook, plataforma de audiolivros por streaming que tem em O diário de Anne Frank um dos títulos mais ouvidos de seu catálogo, contou a Joana Caetano que, durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro no ano passado, uma visitante desatou a chorar em público enquanto ouvia o livro num dos totens instalados pela empresa no ambiente da Bienal.

“Mesmo com todo aquele tumulto, a senhora conseguiu abstrair e entrar naquele universo. Além de a trama ser tocante, a narração emocionou. Acho importante dar esse feedback, para que o profissional saiba que está no caminho certo e fez um trabalho benfeito”, afirma a gerente.

Ao longo dos quatro anos de atividade do Ubook, Marta Ramalhete teve contato com cerca de 300 profissionais, entre dubladores, locutores, repórteres e atores. Nesse universo, pouquíssimos haviam tido contato com audiolivros. “É um mercado novo para todo mundo e é apaixonante como tudo o que envolve a voz. Além de ter um timbre adequado e dicção perfeita, o hábito da leitura é fundamental. O bom narrador tem que desaparecer. Quem tem que estar em evidência é a voz”, diz ela.

O ator Paulo Betti também enveredou pelos audiolivros como o 1808, de Laurentino Gomes (foto: Divulgação/Ubook )

Experiente nos palcos, nos sets de filmagem e nos estúdios de TV, o ator Paulo Betti já há algum tempo vem emprestando sua voz a obras como a trilogia do escritor Laurentino Gomes sobre a história do Brasil (1808, 1822 e 1889). “Levei tudo da minha experiência como ator para a narração”, diz Betti. “É um trabalho difícil e não consigo fazer mais do que três horas por sessão, porque exige muita concentração. Tenho que interpretar o texto de primeira, fazendo a ideia chegar até o ouvinte. Dividir e pronunciar bem as palavras, tenho que entender o que estou lendo, senão o ouvinte não se liga”, descreve o ator, que aponta o tom exato da leitura como o maior desafio. “Como dizer aquelas palavras? De forma solene? Coloquial? Qual é o tom de cada livro, de cada página, de cada capítulo, de cada frase? Mas é tudo fascinante.”

A seleção dos narradores de audiolivros tem que ser criteriosa, porque cada publicação requer um tipo de voz e de narração. “Há livros que pedem algo mais formal; outros, mais solto. Há histórias que ficam melhor com uma voz feminina ou mais madura. Outras pedem uma leitura mais didática e jornalística. E ainda há histórias que têm recursos como a sonorização”, diz Marta Ramalhete. O processo de produção de um audiolivro envolve também um revisor da narração, que verifica se o texto foi falado da forma correta, se há erros de pronúncia ou sotaque exacerbado.

“O texto que o narrador lê é exatamente o que está no livro; não há nenhuma adaptação. Por isso, tudo o que causa estranheza no leitor não pode entrar. Daí a importância do revisor. O leitor tem que mergulhar na história; não pode parar e ficar pensando no narrador”, comenta a gerente de produção. Ela afirma que a palavra-chave, quando se trata de audiolivro, é credibilidade. “Independentemente de ser ficção ou não, o narrador deve incorporar o autor, suas ideias. Nada pode soar fake.”

Duda Baguera narra audiolivros da editora Mundo Cristão (foto: Ana Cristina Varão/DBvoz.com/divulgacao)

CURSO Foi por perceber um mercado em expansão que Marta Esteves e o dublador, locutor, professor e narrador de audiolivros Flávio Carpes criaram em junho passado um curso para qualificar profissionais de audiolivros. Em outubro, eles promoverão outra edição do curso, que é ministrado em dois sábados, com 16 horas no total. Flávio Carpes atua no mercado de locução desde 1984. Em 2015, passou a gravar audiolivros. Hoje, tem 28 livros gravados no currículo.

 

Diferentemente do que fazem muitos de seus colegas, Flávio não costuma ler os livros antes de entrar em estúdio. Ele diz que sua decisão não se deve apenas à falta de tempo – há obras com até mil páginas, além dos livros em série –, mas tem a ver com a vontade de não estragar a surpresa. “Sei que há essas recomendações de ler antes, mas ac

Flávio Carpes ajudou a criar um curso para qualificar profissionais de audiolivros (foto: Márcia Carvalho/divulgacao)

ho que tem um encantamento quando você entra em contato com o livro pela primeira vez e é isso que tento passar ao leitor. Tem sido uma experiência maravilhosa fazer parte disso. Livro é algo fantástico. A gente sempre aprende. O grande lance é fazer dessa profissão não apenas um ganha-pão, mas um prazer para a gente e, principalmente, para quem está ouvindo.”

Paulo Betti também enfatiza o aspecto do aprendizado relacionado a essa atividade. “A história do Brasil é tão rica e surpreendente. Às vezes eu ficava abismado com o que estava lendo. Aprendi muito”, diz o ator.

Resort oferece salário e hospedagem para alguém “apaixonado por livros”

0

Resort Soneva Fushi (Foto: Reprodução Facebook)

Vaga é para trabalhar em livraria de hotel de luxo localizado em uma ilha das Maldivas

Publicado na Época Negócios

Imagine um trabalho sem escritório, trânsito, em um cenário paradisíaco, cuja única função é: falar sobre livros. Bem, é exatamente este o trabalho oferecido por um resort de luxo nas Maldivas. Uma pequena livraria localizada no Soneva Fushi está procurando um interessado em se hospedar por lá, escrever um blog sobre o seu dia a dia e realizar workshops de escrita com os ricaços que frequentam o local.

“O pagamento é irrisório, mas os benefícios são incomparáveis”, afirmou Philip Blackwell, dono da livraria ao jornal The Guardian. “É um trabalho dos sonhos para muitas pessoas. Se eu tivesse 25 anos, me candidataria”. Blackwell promete oferecer hospedagem gratuita em vilas “escondidas em densas folhagens de uma ilha privada cuja areia é tão macia quanto a neve”. O custo para um turista ficar no mesmo local é de cerca de US$ 2 mil dólares por noite e até US$ 26 mil por noite caso ele opte por ficar em uma vila com nove camas.

Soneva Fushi (Foto: Reprodução Facebook)

Os interessados devem ter disponibilidade para ficarem hospedados por lá por três meses. Nesse período, as pessoas escreveriam um blog com artigos que “capturassem a vida cansativa de um livreiro em uma ilha deserta”, contariam histórias às crianças hóspedes e promoveriam workshops de escrita criativa. Segundo Blackwell, a pessoa deve ser “apaixonada” por livros e ter habilidade para entreter convidados de todas as idades. “Queremos alguém que seja criativo e inspirador e que talvez consiga com que mais pessoas compartilhem o prazer de ler – que é o que as pessoas gostam de fazer nas férias”, disse Blackwell ao The Guardian.

Soneva Fushi (Foto: Reprodução Facebook)

A livraria no Soneva Fushi é um novo negócio para Blackwell, empresário conhecido no meio literário britânico e que comanda a Ultimate Library. A empresa cria coleções de livros para resorts, cruzeiros e residências privadas de bilionários. Já a ilha, onde localiza-se o resort, está a 30 minutos de distância de avião do aeroporto Internacional de Malé e está inserida em uma reserva da Biosfera da Unesco.

A vaga foi publicada no site Book Brunch, que exige cadastro para acesso.

O doutorado é prejudicial à saúde mental

0

Estudantes da Universidade de Barcelona estudam na biblioteca do edifício histórico da instituição. ALBERT GARCIA

Estudo diz que doutorandos são seis vezes mais propensos a desenvolverem ansiedade ou depressão

Pablo Barrecheguren, no El País

Nos últimos anos foram publicadas diversas pesquisas que alertam sobre o estado de saúde mental dos alunos de doutorado. Um exemplo recente é o trabalho que acaba de sair na Nature Biotechnology, apontando que os doutorandos são seis vezes mais propensos a desenvolverem ansiedade e depressão em comparação com a população geral. Segundo esse trabalho, dirigido pelo pesquisador Nathan Vanderford, da Universidade de Kentucky (EUA), isto significa que 39% dos candidatos a doutor sofrem de depressão moderada ou severa, frente a 6% da população geral.

Poderíamos pensar que esses resultados se devem a cortes nas condições de trabalho, ou que sejam algo intrínseco a empregos altamente competitivos, sejam ou não doutorados; entretanto, outro estudo, este realizado pela Universidade de Gent (Flandres, Bélgica), conclui que os doutorandos, em comparação com outros grupos profissionais com alta formação, sofrem com maior frequência sintomas de deterioração na sua saúde mental. “Esta é uma publicação muito importante, porque progressivamente estamos compreendendo que existem problemas de saúde mental entre os doutorandos, e estudos como este nos ajudam a entender melhor suas causas”, afirma Vanderford.

Para aprofundar esse tema, Katia Levecque, pesquisadora da Universidade de Gent e primeira autora do estudo belga, reuniu uma amostra de 3.659 doutorandos de universidades flamengas, que seguem um programa muito similar ao do resto da Europa e Estados Unidos, e quantificou a frequência com que os alunos afirmaram ter experimentado nas últimas semanas algum entre 12 sinais associados ao estresse e, potencialmente, a problemas psiquiátricos (especialmente a depressão). Entre essas características estão sentir-se infeliz ou deprimido, sob pressão constante, perda de autoconfiança ou insônia devido às preocupações.

Os resultados foram que 41% dos doutorandos se sentiam sob pressão constante, 30% deprimidos ou infelizes, e 16% se sentiam inúteis. Além disso, metade deles relatavam conviver com pelo menos 2 dos 12 sinais avaliados no teste.

“Fomos os primeiros a estudar os doutorandos como um grupo à parte, usando um tamanho de amostra adequado e comparando-os com outros grupos de população altamente formados”, enfatiza Levecque. Os resultados mais chamativos desse estudo aparecem quando se comparam pessoas fazendo uma tese doutoral com outras populações (um grupo de população geral, outro de trabalhadores e um de estudantes), todas elas com um alto nível educativo (de alunos da graduação universitária a doutorados): em todos os casos, o grupo de pessoas que estavam fazendo doutorado tinha com muito mais frequência sinais de deterioração em sua saúde mental, chegando por exemplo a que 32% dos doutorandos relatassem pelo menos 4 dos 12 sintomas, frente aos 12%-15% das pessoas dos grupos controle.

O estudo também examina se entre os doutorandos existem condições que aumentem as possibilidades de ter ou desenvolver um problema psiquiátrico. Levecque conclui, por exemplo, que o desenvolvimento desses sintomas é independente da disciplina do doutorado, sejam ciências, ciências sociais, humanidades, ciências aplicadas ou ciências biomédicas. Não ocorre o mesmo quanto ao gênero, já que as mulheres que fazem doutorado têm 27% mais possibilidades de sofrerem problemas psiquiátricos que os homens.

Outro fator que pode influir na saúde do estudante, nesse caso tanto negativa quanto positivamente, é o tipo de orientador: a saúde mental dos doutorandos era melhor do que o normal quando tinham um mentor cuja liderança lhes inspirava. Pelo contrário, outros estilos de liderança eram neutras, ou no caso dos orientadores que se abstinham de dirigir ou guiar o doutorando — um tipo de liderança laissez-faire — seus orientandos tinham 8% mais chances de desenvolverem sofrimento psicológico. “Mas, além do estilo de liderança, há outros fatores importantes, como o nível de pressão no ambiente profissional, o próprio controle sobre o ritmo de trabalho ou quando fazer pausas, que também estão relacionadas com o orientador. Por isso o orientador é relevante tanto direta como indiretamente para a saúde mental dos doutorandos”, detalha a pesquisadora.

A conciliação familiar é outro tema importante, já que quem tem uma situação conflitiva entre sua família e o trabalho fica 52% mais propenso a desenvolver um problema psiquiátrico. E o mesmo ocorre com a carga de trabalho, que pode chegar a aumentar em 65% a aparição de distúrbios psiquiátricos.

Todo esse trabalho feito pela Universidade de Gante deixa claro que mesmo em países como a Bélgica, onde as condições econômicas são favoráveis, o desenvolvimento do doutorado expõe os alunos a situações tóxicas para sua saúde mental, acima do que é habitual em outros ambientes similares. Sobre isto, Levecque enfatiza o valor de melhorar a assistência em saúde mental aos doutorandos, já que eles são um dos pilares da produção científico-tecnológica em nível mundial; e dá três conselhos básicos: “Em primeiro lugar, forme-se e dedique tempo a conhecer sua própria saúde… e a de outras pessoas. Em segundo lugar, fale de um modo explícito sobre a saúde mental. E finalmente, no nível das organizações, estas deveriam se preocupar com o bem-estar dos seus empregados tanto por razões humanitárias como financeiras: o bem-estar do funcionário e sua eficácia trabalhista estão altamente correlacionados”.

Go to Top