Vitrali Moema

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Saiba quem são e como funciona o trabalho dos narradores de audiolivros

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Joana Caetano gravou O diário de Anne Frank, o relato da menina judia escrito durante a Segunda Guerra Mundial (foto: Divulgação/Ubook )

Mercado cresce e atrai dubladores e atores famosos, entre eles Paulo Betti, que descreve o trabalho como sendo ‘difícil, mas fascinante’

Ana Clara Brant, no UAI

A atriz Joana Caetano não havia se dado conta do potencial de sua voz, até que uma diretora de teatro chamou sua atenção para isso e a indicou para fazer um trabalho no mercado de audiolivros. Joana gravou O diário de Anne Frank, o relato da menina judia escrito durante a Segunda Guerra Mundial, entre junho de 1942 e agosto de 1944.

“Já conhecia o livro, mas é bem diferente na hora de narrar. Como é um diário, a leitura não pode ser exatamente interpretativa. É a Anne falando de si mesma. E era preciso transmitir a angústia que ela e a família estavam vivendo, tentando se esconder dos nazistas”, diz. A gravação das 352 páginas levou um mês e meio, e a pronúncia de nomes e expressões em alemão recebeu atenção especial. “Tive que treinar bastante isso, porque não ia soar nada bem pronunciar algo errado”, diz a narradora.

Embora o trabalho exija técnica e disciplina, o narrador não fica isento de se emocionar com o livro, o que é outro aspecto a ser administrado. “Teve momentos em que realmente tive que dar uma parada para respirar e retomar a concentração”, conta Joana. Marta Ramalhete, gerente de produção do Ubook, plataforma de audiolivros por streaming que tem em O diário de Anne Frank um dos títulos mais ouvidos de seu catálogo, contou a Joana Caetano que, durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro no ano passado, uma visitante desatou a chorar em público enquanto ouvia o livro num dos totens instalados pela empresa no ambiente da Bienal.

“Mesmo com todo aquele tumulto, a senhora conseguiu abstrair e entrar naquele universo. Além de a trama ser tocante, a narração emocionou. Acho importante dar esse feedback, para que o profissional saiba que está no caminho certo e fez um trabalho benfeito”, afirma a gerente.

Ao longo dos quatro anos de atividade do Ubook, Marta Ramalhete teve contato com cerca de 300 profissionais, entre dubladores, locutores, repórteres e atores. Nesse universo, pouquíssimos haviam tido contato com audiolivros. “É um mercado novo para todo mundo e é apaixonante como tudo o que envolve a voz. Além de ter um timbre adequado e dicção perfeita, o hábito da leitura é fundamental. O bom narrador tem que desaparecer. Quem tem que estar em evidência é a voz”, diz ela.

O ator Paulo Betti também enveredou pelos audiolivros como o 1808, de Laurentino Gomes (foto: Divulgação/Ubook )

Experiente nos palcos, nos sets de filmagem e nos estúdios de TV, o ator Paulo Betti já há algum tempo vem emprestando sua voz a obras como a trilogia do escritor Laurentino Gomes sobre a história do Brasil (1808, 1822 e 1889). “Levei tudo da minha experiência como ator para a narração”, diz Betti. “É um trabalho difícil e não consigo fazer mais do que três horas por sessão, porque exige muita concentração. Tenho que interpretar o texto de primeira, fazendo a ideia chegar até o ouvinte. Dividir e pronunciar bem as palavras, tenho que entender o que estou lendo, senão o ouvinte não se liga”, descreve o ator, que aponta o tom exato da leitura como o maior desafio. “Como dizer aquelas palavras? De forma solene? Coloquial? Qual é o tom de cada livro, de cada página, de cada capítulo, de cada frase? Mas é tudo fascinante.”

A seleção dos narradores de audiolivros tem que ser criteriosa, porque cada publicação requer um tipo de voz e de narração. “Há livros que pedem algo mais formal; outros, mais solto. Há histórias que ficam melhor com uma voz feminina ou mais madura. Outras pedem uma leitura mais didática e jornalística. E ainda há histórias que têm recursos como a sonorização”, diz Marta Ramalhete. O processo de produção de um audiolivro envolve também um revisor da narração, que verifica se o texto foi falado da forma correta, se há erros de pronúncia ou sotaque exacerbado.

“O texto que o narrador lê é exatamente o que está no livro; não há nenhuma adaptação. Por isso, tudo o que causa estranheza no leitor não pode entrar. Daí a importância do revisor. O leitor tem que mergulhar na história; não pode parar e ficar pensando no narrador”, comenta a gerente de produção. Ela afirma que a palavra-chave, quando se trata de audiolivro, é credibilidade. “Independentemente de ser ficção ou não, o narrador deve incorporar o autor, suas ideias. Nada pode soar fake.”

Duda Baguera narra audiolivros da editora Mundo Cristão (foto: Ana Cristina Varão/DBvoz.com/divulgacao)

CURSO Foi por perceber um mercado em expansão que Marta Esteves e o dublador, locutor, professor e narrador de audiolivros Flávio Carpes criaram em junho passado um curso para qualificar profissionais de audiolivros. Em outubro, eles promoverão outra edição do curso, que é ministrado em dois sábados, com 16 horas no total. Flávio Carpes atua no mercado de locução desde 1984. Em 2015, passou a gravar audiolivros. Hoje, tem 28 livros gravados no currículo.

 

Diferentemente do que fazem muitos de seus colegas, Flávio não costuma ler os livros antes de entrar em estúdio. Ele diz que sua decisão não se deve apenas à falta de tempo – há obras com até mil páginas, além dos livros em série –, mas tem a ver com a vontade de não estragar a surpresa. “Sei que há essas recomendações de ler antes, mas ac

Flávio Carpes ajudou a criar um curso para qualificar profissionais de audiolivros (foto: Márcia Carvalho/divulgacao)

ho que tem um encantamento quando você entra em contato com o livro pela primeira vez e é isso que tento passar ao leitor. Tem sido uma experiência maravilhosa fazer parte disso. Livro é algo fantástico. A gente sempre aprende. O grande lance é fazer dessa profissão não apenas um ganha-pão, mas um prazer para a gente e, principalmente, para quem está ouvindo.”

Paulo Betti também enfatiza o aspecto do aprendizado relacionado a essa atividade. “A história do Brasil é tão rica e surpreendente. Às vezes eu ficava abismado com o que estava lendo. Aprendi muito”, diz o ator.

Resort oferece salário e hospedagem para alguém “apaixonado por livros”

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Resort Soneva Fushi (Foto: Reprodução Facebook)

Vaga é para trabalhar em livraria de hotel de luxo localizado em uma ilha das Maldivas

Publicado na Época Negócios

Imagine um trabalho sem escritório, trânsito, em um cenário paradisíaco, cuja única função é: falar sobre livros. Bem, é exatamente este o trabalho oferecido por um resort de luxo nas Maldivas. Uma pequena livraria localizada no Soneva Fushi está procurando um interessado em se hospedar por lá, escrever um blog sobre o seu dia a dia e realizar workshops de escrita com os ricaços que frequentam o local.

“O pagamento é irrisório, mas os benefícios são incomparáveis”, afirmou Philip Blackwell, dono da livraria ao jornal The Guardian. “É um trabalho dos sonhos para muitas pessoas. Se eu tivesse 25 anos, me candidataria”. Blackwell promete oferecer hospedagem gratuita em vilas “escondidas em densas folhagens de uma ilha privada cuja areia é tão macia quanto a neve”. O custo para um turista ficar no mesmo local é de cerca de US$ 2 mil dólares por noite e até US$ 26 mil por noite caso ele opte por ficar em uma vila com nove camas.

Soneva Fushi (Foto: Reprodução Facebook)

Os interessados devem ter disponibilidade para ficarem hospedados por lá por três meses. Nesse período, as pessoas escreveriam um blog com artigos que “capturassem a vida cansativa de um livreiro em uma ilha deserta”, contariam histórias às crianças hóspedes e promoveriam workshops de escrita criativa. Segundo Blackwell, a pessoa deve ser “apaixonada” por livros e ter habilidade para entreter convidados de todas as idades. “Queremos alguém que seja criativo e inspirador e que talvez consiga com que mais pessoas compartilhem o prazer de ler – que é o que as pessoas gostam de fazer nas férias”, disse Blackwell ao The Guardian.

Soneva Fushi (Foto: Reprodução Facebook)

A livraria no Soneva Fushi é um novo negócio para Blackwell, empresário conhecido no meio literário britânico e que comanda a Ultimate Library. A empresa cria coleções de livros para resorts, cruzeiros e residências privadas de bilionários. Já a ilha, onde localiza-se o resort, está a 30 minutos de distância de avião do aeroporto Internacional de Malé e está inserida em uma reserva da Biosfera da Unesco.

A vaga foi publicada no site Book Brunch, que exige cadastro para acesso.

O doutorado é prejudicial à saúde mental

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Estudantes da Universidade de Barcelona estudam na biblioteca do edifício histórico da instituição. ALBERT GARCIA

Estudo diz que doutorandos são seis vezes mais propensos a desenvolverem ansiedade ou depressão

Pablo Barrecheguren, no El País

Nos últimos anos foram publicadas diversas pesquisas que alertam sobre o estado de saúde mental dos alunos de doutorado. Um exemplo recente é o trabalho que acaba de sair na Nature Biotechnology, apontando que os doutorandos são seis vezes mais propensos a desenvolverem ansiedade e depressão em comparação com a população geral. Segundo esse trabalho, dirigido pelo pesquisador Nathan Vanderford, da Universidade de Kentucky (EUA), isto significa que 39% dos candidatos a doutor sofrem de depressão moderada ou severa, frente a 6% da população geral.

Poderíamos pensar que esses resultados se devem a cortes nas condições de trabalho, ou que sejam algo intrínseco a empregos altamente competitivos, sejam ou não doutorados; entretanto, outro estudo, este realizado pela Universidade de Gent (Flandres, Bélgica), conclui que os doutorandos, em comparação com outros grupos profissionais com alta formação, sofrem com maior frequência sintomas de deterioração na sua saúde mental. “Esta é uma publicação muito importante, porque progressivamente estamos compreendendo que existem problemas de saúde mental entre os doutorandos, e estudos como este nos ajudam a entender melhor suas causas”, afirma Vanderford.

Para aprofundar esse tema, Katia Levecque, pesquisadora da Universidade de Gent e primeira autora do estudo belga, reuniu uma amostra de 3.659 doutorandos de universidades flamengas, que seguem um programa muito similar ao do resto da Europa e Estados Unidos, e quantificou a frequência com que os alunos afirmaram ter experimentado nas últimas semanas algum entre 12 sinais associados ao estresse e, potencialmente, a problemas psiquiátricos (especialmente a depressão). Entre essas características estão sentir-se infeliz ou deprimido, sob pressão constante, perda de autoconfiança ou insônia devido às preocupações.

Os resultados foram que 41% dos doutorandos se sentiam sob pressão constante, 30% deprimidos ou infelizes, e 16% se sentiam inúteis. Além disso, metade deles relatavam conviver com pelo menos 2 dos 12 sinais avaliados no teste.

“Fomos os primeiros a estudar os doutorandos como um grupo à parte, usando um tamanho de amostra adequado e comparando-os com outros grupos de população altamente formados”, enfatiza Levecque. Os resultados mais chamativos desse estudo aparecem quando se comparam pessoas fazendo uma tese doutoral com outras populações (um grupo de população geral, outro de trabalhadores e um de estudantes), todas elas com um alto nível educativo (de alunos da graduação universitária a doutorados): em todos os casos, o grupo de pessoas que estavam fazendo doutorado tinha com muito mais frequência sinais de deterioração em sua saúde mental, chegando por exemplo a que 32% dos doutorandos relatassem pelo menos 4 dos 12 sintomas, frente aos 12%-15% das pessoas dos grupos controle.

O estudo também examina se entre os doutorandos existem condições que aumentem as possibilidades de ter ou desenvolver um problema psiquiátrico. Levecque conclui, por exemplo, que o desenvolvimento desses sintomas é independente da disciplina do doutorado, sejam ciências, ciências sociais, humanidades, ciências aplicadas ou ciências biomédicas. Não ocorre o mesmo quanto ao gênero, já que as mulheres que fazem doutorado têm 27% mais possibilidades de sofrerem problemas psiquiátricos que os homens.

Outro fator que pode influir na saúde do estudante, nesse caso tanto negativa quanto positivamente, é o tipo de orientador: a saúde mental dos doutorandos era melhor do que o normal quando tinham um mentor cuja liderança lhes inspirava. Pelo contrário, outros estilos de liderança eram neutras, ou no caso dos orientadores que se abstinham de dirigir ou guiar o doutorando — um tipo de liderança laissez-faire — seus orientandos tinham 8% mais chances de desenvolverem sofrimento psicológico. “Mas, além do estilo de liderança, há outros fatores importantes, como o nível de pressão no ambiente profissional, o próprio controle sobre o ritmo de trabalho ou quando fazer pausas, que também estão relacionadas com o orientador. Por isso o orientador é relevante tanto direta como indiretamente para a saúde mental dos doutorandos”, detalha a pesquisadora.

A conciliação familiar é outro tema importante, já que quem tem uma situação conflitiva entre sua família e o trabalho fica 52% mais propenso a desenvolver um problema psiquiátrico. E o mesmo ocorre com a carga de trabalho, que pode chegar a aumentar em 65% a aparição de distúrbios psiquiátricos.

Todo esse trabalho feito pela Universidade de Gante deixa claro que mesmo em países como a Bélgica, onde as condições econômicas são favoráveis, o desenvolvimento do doutorado expõe os alunos a situações tóxicas para sua saúde mental, acima do que é habitual em outros ambientes similares. Sobre isto, Levecque enfatiza o valor de melhorar a assistência em saúde mental aos doutorandos, já que eles são um dos pilares da produção científico-tecnológica em nível mundial; e dá três conselhos básicos: “Em primeiro lugar, forme-se e dedique tempo a conhecer sua própria saúde… e a de outras pessoas. Em segundo lugar, fale de um modo explícito sobre a saúde mental. E finalmente, no nível das organizações, estas deveriam se preocupar com o bem-estar dos seus empregados tanto por razões humanitárias como financeiras: o bem-estar do funcionário e sua eficácia trabalhista estão altamente correlacionados”.

Bill Gates tem um novo livro preferido “de toda a vida”

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Livro favorito do fundador da Microdoft indica que QI médio global está subindo cerca de 3 pontos por década

Suria Barbosa, na Exame

Por anos, Bill Gates, fundador da Microsoft, indicou The Better Angels of Our Nature (em português, “Os anjos bons da nossa natureza”), de Steven Pinker, como seu livro preferido. Ele costumava dizer que se pudesse recomendar apenas um leitura para qualquer pessoa, seria esta.

Em The Better Angels, Pinker mostra resultados de pesquisas detalhadas para argumentar que a humanidade vive a época mais pacífica. “Eu nunca tinha visto uma explicação tão clara sobre o progresso”, declara Gates.

Porém, em 2018, o magnata anunciou em seu site pessoal, Gates Notes, que o seu novo livro favorito “de toda a vida”, mudou. Enlightenment Now (ainda sem tradução), também de Steven Pinker, utiliza a mesma abordagem com a qual a violência foi investigada no primeiro livro.

No entanto, no mais novo, o autor trata de outros 15 medidores de progresso. Entre eles, qualidade de vida, conhecimento e segurança. “O resultado é uma imagem holística de como e porque o mundo está melhorando”, diz Gates.

Seus fatos favoritos de Enlightenment Now

Para ilustrar sua premissa de que o mundo está em sua melhor fase, Pinker descreve acontecimentos históricos e os contextualiza com dados. Gates listou 5 dos seus fatos preferidos que o livro traz:

*Você tem 37 vezes menos chance de ser morto por um raio do que tinha na virada do século.
*O tempo gasto lavando roupa caiu de 11,5 horas por semana, em 1920, para 1,5, em 2014.
*É menos provável que você morra no trabalho.
*O QI médio global está subindo cerca de 3 pontos por década.
*A guerra é ilegal.

Crítica de Bill Gates

Além dos indicadores usuais de evolução – como redução nas taxas de morte infantil e de pobreza, em geral – Gates aprecia que Pinker traz à tona tópicos mais ignorados.

A explicação psicológica da desconexão entre o progresso real e a percepção que as pessoas têm dele também impressiona Gates. Isso porque ele sempre tentou entender a questão:

Pessoas de todo o mundo vivem vidas mais longas, saudáveis ​​e mais felizes, então por que muitos pensam que as coisas estão piorando?

Segundo o magnata, o autor, que é psicólogo, faz um bom trabalho esclarecendo o assunto. Pinker detalha como a humanidade é mais atraída para o pessimismo e como isso influencia na abordagem do progresso.

Apesar de Gates concordar com a maioria dos argumentos de Pinker, ele critica o otimismo do autor em relação à inteligência artificial. Embora ele próprio “não pense que estamos em perigo de viver um cenário estilo O Exterminador do Futuro”, considera que, em algum momento, o assunto deverá ser discutido pelas instituições globais.

“Os grandes problemas acerca da automação são a prova de que o progresso pode ser uma coisa bagunçada e difícil – mas isso não significa que estamos indo na direção errada”, diz o magnata.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Na prática, portal da Fundação Estudar

Jô Soares lança primeira parte de autobiografia ‘desautorizada’

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Perto dos 80 anos, apresentador ‘exibido’ revisita longa carreira na TV e no teatro

Perto dos 80 anos, apresentador ‘exibido’ revisita longa carreira na TV e no teatro

Jô Soares lança sua biografia – Marcos Alves / Agência O Globo

Patrícia Kogut, em O Globo

SÃO PAULO — Quando Jô Soares completou 18 anos, seus pais perderam tudo. O garoto que tinha estudado nas melhores escolas, uma delas na Suíça, e morava no anexo do Copacabana Palace, viu seus planos de cursar o Instituto Rio Branco serem interrompidos. Em vez disso, foi trabalhar numa firma de exportação de café, desempenhando pequenas tarefas de escritório.

Por força desse golpe do destino e do seu talento incontestável (e inescapável) de criador, entretanto, aos poucos, acabou enveredando pelo show. Aonde ele chegou com isso é notório.

Em “O livro de Jô — Uma autobiografia desautorizada” (escrito com Matinas Suzuki), o artista, que completa 80 anos em janeiro, relata esse caminho. Na sua narrativa, não há acerto de contas, algo tão comum no gênero. Em contrapartida, sobra generosa diplomacia, reforçando a impressão de que o Itamaraty perdeu um ótimo quadro.

Jô é pródigo em lembranças gentis, engraçadas e em boas palavras para todos os que menciona. Vai emendando uma história deliciosa na outra, num fluxo que rompe a ordem cronológica — embora ela esteja na estrutura do texto, que começa com seu nascimento. Ele avança e recua diversas vezes no tempo quando é preciso abrir um parêntese para contar algum caso — e toda hora essa situação se apresenta.

— O livro é assim porque não tenho recalques, a vida me abençoou. É como eu sou, não estou me gabando — esclarece, acrescentando que o trabalho ainda não terminou, pois falta o segundo volume (a ser lançado no segundo semestre de 2018), mas chegou perto da conclusão.

Jô faz os relatos para Matinas, que organiza e mais tarde reenvia para que ele escreva o texto final. É, resume, “um trabalho de estivador”. As longas conversas deles acontecem entre livros e perto do computador. Lá, conserva arquivos e arquivos com registros da carreira e que servem a confirmar datas. Nessa biblioteca, há preciosidades como a “Enciclopédia Larousse” “que foi do vovô Leal e diz, num verbete, que o avião é uma invenção de futuro improvável”. Tudo serve como fonte para a pesquisa, que escava os primórdios da TV no Brasil, os anos dourados no Rio, o mundo do teatro e o da música.

Poliglota, “exibido” (por autodefinição), afiado, o escritor, dramaturgo, ator, diretor, músico, enfim, homem renascentista, ele imprimiu todas essas marcas nessas 445 páginas iniciais. A autobiografia é “desautorizada” porque “nela, não há censura. É diferente de uma biografia não autorizada, que alguém escreve à revelia da pessoa retratada”, diz.

A censura, aliás, é um tema recorrente na conversa. Jô conta que uma das grandes alegrias que teve foi ler a Constituição de 1988, ainda em copião. Ele recebeu o texto das mãos de Ulysses Guimarães, então presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

— A censura não volta graças a uma cláusula pétrea e a Dr. Ulysses. Mas essas patrulhas que existem hoje no Brasil são a coisa que mais me choca.

CONTRA QUALQUER ATAQUE À ARTE

Jô fala das críticas sofridas por Daniela Thomas pelo seu mais recente longa, “Vazante” (filme, que foi apontado por alguns como uma “obra racista”).

— É uma sacanagem o que disseram de “Vazante”, tive nojo. O filme é lindo. Condeno veementemente esses ataques. Eles não refletem um zelo com a nossa cultura, ao contrário, espelham um recalque, uma tristeza de quem não tem sucesso. Nada disso aniquila o talento da Daniela.

Em suas memórias, Jô relembra a peça “Timbira”, encenada em 1958, em que Jardel Filho, louro de olhos azuis, interpretava um índio. Antes de entrar em cena, o ator tinha seu corpo inteiramente pintado, trabalho que demorava horas. Depois, colocava uma peruca para completar a caracterização do índio que dava título ao espetáculo. Como isso seria recebido hoje?

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— Algumas pessoas de algum movimento diriam que o ator escalado teria de ser um índio. Mas qualquer um pode fazer qualquer papel, é teatro!

Da mesma forma, Jô acredita que o humor não deve nunca ter barreiras ideológicas.

— Há uma vigilância equivocada, que faz com que muita gente esqueça que o principal é a irreverência. O limite do humor é só o que não é engraçado, o resto é livre. Um exemplo é o Fábio Porchat, que tem um talento natural. Ele pode falar sobre o que quiser! Fez um esquete sensacional sobre uma empresa de telecomunicações que é a patrocinadora do seu espetáculo.

Outra armadilha perigosa, lembra, é a da autocensura prévia. Foi o que quase aconteceu com o Capitão Gay. O personagem foi uma das estrelas de “Viva o Gordo”, nos anos 1980, e um de seus prediletos entre inúmeros que marcaram a carreira. Mas quase não foi ao ar.

— Um belo dia, levantei da cama com uma ideia: criei um personagem gay, uma bicha colorida, alegre — conta. — Quando contei minha intenção, o Borjalo (Mauro Borjalo, que cuidava de controle de qualidade na Globo) resistiu. Disse que havia um militar de alta patente em Brasília cujo sobrenome era Gay e que pareceria uma provocação. Eu reagi, dizendo que não poderíamos censurar o que ainda estava dentro da gaveta. Boni me apoiou, e o personagem foi ao ar, tornando-se um sucesso instantâneo. Anos mais tarde, eu estava num aeroporto e fui interpelado por um desconhecido que se apresentou: “Sabe quem eu sou? O coronel Gay! Quero dizer que adoro o Capitão Gay”. Ou seja, a gente ia censurar uma coisa e o cara ali, adorando.

Na véspera dessa entrevista, Jô tinha gravado o “Conversa com Bial”, no mesmo estúdio que ocupou por tantos anos na Globo (o programa está no Globoplay). Foi comovente para ambos (“chorei, o Bial chorou”):

— Fiquei emocionado por estar ali na posição do entrevistado. Só no dia seguinte, me dei conta de que ele inverteu a ordem da mesa, e eu estava sentado à direita, onde sempre fiquei posicionado no meu programa a vida inteira. Por isso fiquei tão à vontade!

Ao ouvir que essa parece uma observação de um psicanalista, diz que nunca fez análise, embora tenha lido Freud e, mais ainda, Jung.

— Eu quero conviver com meus mistérios. Não sou contra. Acho que todo mundo deve fazer, menos eu. Minha análise é minha profissão.

Perguntado se tem planos na televisão, faz uma negativa com a cabeça:

— Viu a força com que mexi a cabeça? Quase destronquei o pescoço! Depois de 58 anos sem parar, quero parar de fazer TV pelo menos pelos próximos 20.

Em contrapartida, tem muitos projetos no teatro. O primeiro deles é a direção de “A noite de 16 de janeiro”, da russa Ayn Rand (“não resisto a uma peça que tem o nome do dia em que nasci”). Também quer voltar a atuar em “A lição”, de Ionesco. Finalmente, a atriz Bete Coelho, sua amiga, convidou-o a fazer uma adaptação de “The wisdom of Eve” (de Mary Orr). Além da TV, ele só abriu mão do trompete (“não tenho mais saco, exige muita dedicação. Você fica uma semana sem ensaiar e perde o biquinho”).

Instado a escolher, entre tantas áreas de atuação — humorista, escritor, diretor, ator — uma que o defina, sintetiza:

— Sou um artista. Tudo o que faço são dedos da mesma mão.

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