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Um adolescente de 14 anos tem maturidade para fazer faculdade?

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Lucas Rodrigues, em UOL

José Victor Menezes Teles foi aprovado em medicina na UFS (Universidade Federal de Sergipe) dois anos seguidos — na primeira aprovação, o sergipano tinha 14 anos e conseguiu na Justiça o direito de cursar a faculdade. Um jovem nessa idade tem maturidade suficiente para enfrentar o ambiente universitário? Na opinião de psicólogos ouvidos pelo UOL, varia de acordo com cada pessoa.

Para Leo Fraiman, mestre em psicologia educacional e do desenvolvimento humano, maturidade não tem relação com idade. “Tem gente com 30 anos que não tem maturidade alguma”, afirma. “Agora, se eu cresço numa família que estimulou autonomia, que faz eu arrumar meu quarto sozinho, e fui desenvolvido pela minha escola a ter autodidatismo, posso ter 14 anos e ser uma pessoa plenamente capaz de acompanhar o ensino superior.”

Ele acredita que José Victor se dará bem na universidade desde que tenha crescido numa família que o estimulou a ser mais responsável e que sua escola o tenha preparado em relação ao caráter. “Se ele é um garoto tão persistente em seus objetivos, tão determinado numa carreira nobre e importante como medicina, eu diria para a gente refrear o nosso próprio preconceito, entendendo que não há determinismo.”

José Victor comentou sobre o assunto em entrevista ao UOL. “É um desafio na minha vida [as aulas no curso de medicina]. A turma é muito jovem e mostra que os jovens vêm conquistando espaço e isso mostra que não devemos julgar pela idade, mas pela maturidade.”

Dificuldades

Paulo Motta, professor do Departamento de Psicologia Evolutiva, da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) em Assis, crê que José Victor possa ter algum tipo de dificuldade por não ter feito o ensino médio.

“Ele pulou a fase do colegial que, a grosso modo, é uma preparação para a universidade, onde tudo acontece de maneira bem mais rápida e inusitada. Talvez isso o choque um pouco”, diz. “Se fosse o meu filho eu não deixaria pular essa fase. Acho que cada coisa a seu tempo. Não teria necessidade de ele entrar na universidade agora.”

Já para Leo Fraiman, o problema pode ser de socialização. “A gente precisa olhar um indivíduo em relação ao que ele constrói para si. Se ele desenvolveu habilidades cognitivas para passar num vestibular tão concorrido, entendo que ele possa ter apenas dificuldade se não desenvolveu habilidades de relacionamento”, avalia. “Mas isso ele vai desenvolver mais cedo ou mais tarde, seja na escola ou na faculdade.”

“Não foi sorte”

Em entrevista ao UOL, José Victor afirmou que decidiu prestar novamente o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em 2015 para provar que sua primeira aprovação na UFS não tinha sido uma “questão de sorte”. “O pessoal não disse que foi sorte? Então pensei: vamos ver se essa sorte acontece duas vezes. Ouvia piadas de que passei na sorte. Resolvi fazer e está aí o resultado e com mais intensidade”, comentou.

Para Motta, da Unesp, a atitude do garoto pode ser falta de maturidade, mas não é “condenável”. “É uma coisa pessoal dele. Se ele havia passado por sorte, ótimo. Vá à luta. O vestibular é tão difícil que um pouco de sorte não faz mal a ninguém.”

“Não acho isso ruim. Mostra o caráter dele. É um cara que, provavelmente, sofreu muito por ser novo, diferente. A sociedade ainda é muito cheia de estereótipos e muito cheia de verdades que nem sempre se sustentam”, comenta Fraiman. “A distância entre o sonho e a conquista é a atitude. E esse garoto mostrou que tem atitude e parece estar preparado.”

Detento passa em 5 faculdades, mas é impedido de estudar por Justiça do DF

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Publicado em UOL

Com 34 anos de idade e preso há 15, João* pode ser considerado um expert dos vestibulares. Entre 2013 e 2015, ele ganhou cinco bolsas de estudos em faculdades do Distrito Federal. Ganhou, mas não levou. Apesar de deixar a penitenciária, em Brasília, diariamente para trabalhar como auxiliar administrativo, a Justiça não o liberou para sair do local para estudar.

Por causa de decisão judicial, que alega que João* não cumpriu o 1/4 da pena (de 72 anos por roubo de carros e formação de quadrilha) necessário para conseguir a liberação, ele perdeu as quatro bolsas que conseguiu pelo Prouni: duas em relações públicas (em 2013 e 2014) e duas em educação física (em 2014).

Se não conseguir ser liberado em três meses, João* (que há três anos cumpre a pena no regime semiaberto) deve perder a bolsa que conseguiu no curso em que sempre quis cursar: direito. Aprovado no primeiro semestre deste ano por meio de uma seleção entre detentos, ele está com a matrícula trancada até janeiro.

Como ele foi considerado reincidente (por mais de uma condenação), ele só terá direito a saída temporária com ¼ de pena. A última esperança dele é que a Justiça reconsidere um pedido de unificação de pena que foi negado: “Fui punido em dez processos diferentes e por isso deu uma pena tão grande”. A unificação acarretaria em redução de pena e faria com João* garantisse o ¼ necessário para estudar.

Se sofrer nova negativa, terá que esperar muito tempo para poder estudar. “Cumpri 15 e ganhei um de remição (redução) por ter estudado na prisão. Faltariam dois anos para chegar a ¼ da pena”, explica.

João* diz que mesmo com um revés não vai parar de estudar, mas lamentará: “Quando começar a minha liberdade, eu vou tentar construir meu futuro de novo. Mas sinto que estou perdendo tempo. E dois anos é muito tempo e não sei se consigo uma vaga em direito de novo”.

História

João* conta que começou a se envolver com “pessoas que não prestam” na adolescente e isso o levou para realizar alguns crimes. Aos 19 anos, ele foi condenado a 72 anos de prisão por roubo de carros e formação de quadrilha. “Todos os crimes cometi em três meses. Foi uma besteira que eu fiz e desde então não cometo crimes”.

À época, ele havia cursado até a sétima série do ensino fundamental. Na prisão, ele terminou de cursar o fundamental e fez o ensino médio. Aí surgiu a vontade de fazer uma faculdade: “Lá dentro, a ociosidade força a gente a ocupar a mente com alguma coisa. Entre o produtivo e o não produtivo, optei pelo produtivo. Então resolvi estudar”. Ele aponta que utilizava todo o tempo livre para poder estudar.

Sobre o futuro, ele diz que espera se formar para conseguir se reinserir da melhor forma na sociedade. “Quero o curso também para me preparar para o mercado de trabalho. Podiam levar em conta a questão social. Liberado da prisão todo mundo é. É melhor voltar para a rua socializado”, afirma.

*Para preservar a sua imagem, o entrevistado preferiu não se identificar

Escola pública de Floripa incentiva cultura de paz através da meditação

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Publicado em UOL

Na escola municipal Lupércio Belarmino da Silva os professores estavam preocupados com o nível de ansiedade e estresse dos alunos. Foi quando a nova professora de educação física, Rosângela Martins dos Santos, 49, propôs uma estratégia pouco usual nas escolas para lidar com o problema: meditação.

A prática fez tanto sucesso na escola que chamou a atenção da Prefeitura de Florianópolis, que estuda a possibilidade de ampliar esses ensinamentos para outros estabelecimentos da rede.

“A meditação desperta o que existe de melhor nas crianças. Não apenas força, coordenação, flexibilidade, que normalmente são os resultados de exercícios físicos, mas consciência, criatividade e um sentimento de pertencimento, de inclusão”, defende Santos, que medita desde seus 19 anos.

Em 2009, após conhecer um método chamado Yoga na Educação, criado pela francesa Michelina Klak e pelo suíço Jacques De Coulon, ela levou a prática pessoal para as aulas. Transferida para a Lupércio Belarmino, Rosângela incorporou outra técnica: a meditação para paz, desenvolvida pela indiana Anmol Arora.

A experiência é simples. Os alunos formam um círculo, inspiram e expiram profundamente, depois repetem em voz alta: “eu estou em paz”, “minha família e meus amigos estão em paz”, “minha escola está em paz”.

Na prática da tarde em que a reportagem do UOL acompanhava as atividades, Elithon Eduardo Adriano, 7, fez uma pequena interferência: “Professora! Por que não falamos nossa escola?” Quando questionado sobre o motivo da mudança, respondeu: “É que a escola não é minha. Ela é de todos”.

Cerca de 5 mil crianças brasileiras meditam nas escolas

A meditação para paz é ensinada em 194 escolas brasileiras, segundo a ONG Mente Viva, do qual Anmol Arora é coordenadora. Cerca de cinco mil crianças nos país praticam a técnica desenvolvida pela psiquiatra.

A meditação trabalha o ritmo da respeiração, trazendo mais quietude e foco ao praticante. “Existe algo essencial para vida, que ao nascer já sabemos, mas que com passar dos anos as pessoas desaprendem: respirar. A respiração é um caminho para dentro, depois que me conheço, estou pronto para conhecer o mundo, que também sou eu”, afrimou Santos.

Inspirada por mudança do pai, escritora cria livro infantil de ursinho transgênero

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Publicado em UOL

Certo dia, o ursinho Thomas confessa ao seu melhor amigo que não quer mais brincar porque está triste. Ele sempre soube que no fundo é uma ursinha que gostaria de ser chamada de Tilly.

O amiguinho Errol fica aliviado, porque “está tudo bem” e lhe promete amizade eterna.

Assim começa Introducing Teddy – Apresentando Teddy, em tradução literal -, o livro infantil que a australiana Jessica Walton está perto de financiar através do site Kickstarter.com.

A obra foi inspirada na história do pai de Walton, que há alguns anos assumiu que, por dentro, sempre se sentiu mulher.

Durante a transformação do pai, Walton – que é casada com uma mulher – teve um filho. Para ele, Errol, o pai de Walton é, desde sempre, a avó Tina.

“Em muitos aspectos, a minha família é das mais normais e desinteressantes. A minha companheira e eu somos gays, o meu pai é transgênero – mas nós vivemos o dia a dia como todo mundo. Podemos até parecer estranhos para quem nunca foi exposto a coisas assim, mas estamos apenas tentando ser felizes e vivendo as nossas vidas”, afirmou Walton à BBC.

Ilustrador

A australiana diz que a transição do pai também lhe chamou atenção para o fato de que não existem livros infantis com personagens transgênero.

“Quando o meu filho nasceu, a minha companheira e eu procuramos por todos os cantos livros com pais gays, para que o nosso garoto pudesse crescer lendo livros que refletem a sua vida e a sua família. Achamos alguns excelentes livros com personagens que são pais gays”, diz Walton no Kickstarter. “No entanto, a única coisa que ainda está faltando na estante do Errol é um livro ilustrado com personagens transgênero e de gênero fluidos.”

Para ilustrar a obra, Walton convenceu o artista Dougal MacPherson, criador dos “desenhos de 15 minutos”.

Até o momento, as ofertas já ultrapassaram o valor mínimo, mesmo faltando 20 dias para a conclusão do leilão de crowdfunding.

A funcionária pública australiana, que já foi professora, levantou quase 16 mil dólares australianos (mais de R$ 40 mil) no site até agora.

Para Walton, a publicação do livro, até dezembro, deve marcar o início de uma série de histórias sobre minorias.

Ela própria, além de homossexual, é também amputada – ela perdeu uma perna em consequência de uma doença na infância.

“Gostaria de continuar escrevendo livros com personagens diversos e famílias. Acho que existe uma necessidade de mais livros ilustrados com personagens transgêneros, gêneros fluidos, gays, lésbicas e bissexuais”, escreveu Walton.

A tiragem inicial deve sair com 400 livros. Se todos forem vendidos, a escritora já planeja uma segunda edição.

Para quem está curioso sobre o fim do livro, Tilly e Errol aparecem fazendo as mesmas brincadeiras que sempre fizeram. Mas a agora ursinha está feliz.

Garoto da periferia de São Paulo estudará violoncelo na terra de Mozart

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morzartPaula Adamo, em UOL

Durante a sua adolescência, Matheus Posso, 19, atravessou todos os dias a cidade de São Paulo para estudar música. São mais de 40 km que separam sua casa em Guaianazes, no extremo leste paulistano, do Centro, onde ele frequentou aulas de violoncelo e ensaiou com a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo.

A partir do mês que vem, bastarão alguns minutos de caminhada para chegar ao seu destino final: a Universidade Mozarteum, em Salzburgo (Áustria), terra natal do compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), onde fará quatro anos de bacharelado.

Destacando-se na prática do violoncelo nos últimos anos, ele tornou-se fã dos compositores Bach e Brahms, venceu um prêmio de R$ 15 mil destinado a jovens músicos e foi aprovado, em junho, no processo seletivo da centenária e conceituada universidade austríaca.

Mas, até alguns anos atrás, Matheus não sabia nada de música clássica.

O primeiro contato com os sons ocorreu na igreja, quando ele foi convidado a tocar violino e não sentiu afinidade nenhuma com o instrumento.

Pouco depois nasceu o interesse em se dedicar profissionalmente à música: aos 12 anos, Matheus entrou no projeto Guri, programa de inclusão musical que atende cerca de 13 mil crianças e adolescentes na capital e na região metropolitana de São Paulo, e descobriu o violoncelo.

“Até então não tinha acesso, nem sabia o que era música clássica. Em Guaianazes a música era funk e forró”, ri. “Pelo Guri é que eu comecei a pesquisar e entender. Até então a minha vida era o bairro – jogar bola, empinar pipa, rodar peão. Mas eu realmente me identifiquei com aquilo e pensei: quero ser músico.”

Em 2012, passou a integrar como bolsista a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo e, no ano passado, entrou na Unesp (Universidade Estadual Paulista) para cursar o bacharelado em violoncelo.

“Foram os três anos que mais renderam na minha vida, porque aprendi muita coisa. Quando você tem uma prática de orquestra com até 120 pessoas, faz muitas amizades. É muito legal fazer música em conjunto e se comunicar pela música.”

Mas de Guaianazes ao campus da Unesp são mais de duas horas de viagem em transporte público.

“Transportar o grande violoncelo nos vagões lotados sempre foi a parte mais difícil: as pessoas ao lado sempre se queixavam que eu ocupava um lugar a mais”, diz. Para tornar a vida mais fácil, mudou-se para o Centro da cidade com alguns amigos – antes de saber que seria aprovado para estudar em Salzburgo.

“Como a cidade é muito pequena, vou morar ao lado da universidade Mozarteum. E isso já é uma realização muito grande, não tem preço – penso no tempo que eu perco no transporte público… Agora vou poder ficar totalmente focado nos estudos.”
Despedida

Matheus fez neste mês sua apresentação de despedida com a Orquestra Jovem, na imponente Sala São Paulo, principal sala de concertos da cidade, e embarcará no mês que vem rumo à Áustria.

Ele quer fazer mestrado e doutorado na Europa e depois voltar para o Brasil, onde sonha em “ter um grupo de câmara bem reconhecido, dar aula em uma boa universidade e fazer solos com orquestras. Não compensa guardar o que você aprendeu apenas para si em um país que precisa tanto de cultura.”

A bolsa que custeará seus estudos lhe garante também uma viagem anual a São Paulo, para rever os pais e o irmão mais novo – que talvez não consigam visitá-lo na Áustria.

“Minha família não tem muita condição de viajar, ninguém tem passaporte. Mas minha mãe está guardando dinheiro.”

Todos ainda estão se acostumando aos voos alçados por Matheus.

“Nunca imaginei que seguiria esse rumo. Sempre tive o sonho de ir para fora do Brasil, algo que foi realizado quando fiz turnê com a Orquestra Jovem. E daí o sonho foi crescendo. A música deu uma dimensão muito grande para a minha vida. É algo que exige muita disciplina, me ensinou a sentar e estudar. Mas o lugar de onde eu vim não pode morrer. Vou sempre ser o brasileiro de Guaianazes que até os 12 anos só brincava na rua. O bom que é a música me trouxe até aqui.”

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