Assine hoje a revista Ultimato

Posts tagged Vidas secas

Crime, castigo e livros: as resenhas que reduzem penas em prisões superlotadas

0
Elisande Quintino, coordenadora pedagógica, ensina presos da cadeia de Hortolândia a escrever resenhas literárias (Foto: Rodrigo Pinto)

Elisande Quintino, coordenadora pedagógica, ensina presos da cadeia de Hortolândia a escrever resenhas literárias (Foto: Rodrigo Pinto)

Leandro Machado, na BBC Brasil

Álvaro Lopes Frazão conheceu o livro Marley & Eu na cela onde está preso por homicídio. O romance americano sobre um labrador, com final triste – há quem diga meloso -, emocionou o prisioneiro, e tornou-se seu favorito: há anos trancado na cadeia, ele sente saudade de seu cachorro, Bob.

No dia 4 de junho de 2005, em uma discussão banal, Frazão esfaqueou um amigo. “Tirei a vida de uma pessoa”, afirma, evitando se colocar como o sujeito atrás do verbo “matar”. Doze anos depois, tenta lidar com a culpa e com o arrependimento: usa a literatura como terapia.

Ele está preso no Centro de Progressão Penitenciária de Hortolândia, um presídio do interior de São Paulo que, há quatro anos, começou a trocar redução de pena por resenhas literárias escritas pelos presos. No local, ocorre uma oficina de leitura e de escrita de resenhas duas vezes por semana: os participantes – cerca de 30 – falam sobre os livros que estão lendo e aprendem técnicas para organizar uma crítica literária.

Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou uma portaria que autoriza juízes a diminuir penas dos presidiários que escrevam sobre os livros que leem. Nesse período, já foram escritas mais de 6 mil resenhas – 5,5 mil pessoas já participaram. Para cada texto, um detento pode se livrar de quatro dias na cadeia – ele pode escrever uma por mês e 12 por ano.

O projeto segue a Lei de Diretrizes Penais, que prevê remissão de penas por trabalho e estudo. Segundo a resolução do CNJ, cabe aos governos estaduais criar programas de leitura nos sistemas prisionais – o preso só pode participar de forma voluntária.

Na prisão, Álvaro diz que percebeu que assassinar o amigo também tirou parte da sua vida: a liberdade da rua, o contato diário com suas duas filhas e a família e com o cachorro Bob. “Sinto muita falta dele, manja? Se tudo der certo, posso voltar a vê-lo, acho que ele está com uma vizinha”, diz.

Quando terminou a leitura, ele teve alguns dias para escrever uma resenha e, assim, conseguir reduzir em quatro dias o seu período no cárcere: no texto, precisou explicar do que se trata a obra, quais são personagens principais, se o narrador está em primeira ou terceira pessoa. Também fez um julgamento crítico, dizendo por que gostou do livro, e se o indicaria para outra pessoa.

A crítica de Frazão foi então avaliada por um juiz, que autorizou a remissão. Ele pode negar o benefício caso o preso copie a orelha do livro, por exemplo.

Depois de resenhar Marley & Eu, Álvaro começou O espetáculo mais triste da Terra, livro-reportagem de Mauro Ventura sobre um incêndio em um circo de Niterói que matou 503 pessoas, em 1961. Para ele, conhecer o sentimento de perda dos parentes das vítimas o ajudou a compreender o sofrimento que causou ao matar o amigo.

“Você lê sobre a mãe que perdeu o filho, a mulher que perdeu o marido”, explica Frazão, de 42 anos. “A princípio, eu não entendia o que eu fiz. Hoje eu consigo, vejo que, na hora, não contei até dez, manja? Hoje entendo que causei uma dor desnecessária… desnecessária.”

Crime e culpa

Segundo o Ministério da Justiça, o clássico Crime e Castigo, do russo Fiódor Dostoiévski, é um dos livros mais lidos nas prisões brasileiras. Um preso começa assim sua resenha sobre a obra: “O senhor Rodion Românovitch Raskólnikov, um jovem universitário vivendo na extrema miséria, sofrendo de um grave problema de saúde e possuído por um espírito do mal, comete um crime hediondo que complicou ainda mais sua vida: ele assassinou duas pobres mulheres indefesas.”

Preso usa resenha do livro 'O Caçador de Pipas', de Khaled Hosseini, para fazer reflexão sobre erro e redenção

Preso usa resenha do livro ‘O Caçador de Pipas’, de Khaled Hosseini, para fazer reflexão sobre erro e redenção

Em sua crítica, outro homem relaciona os assassinatos praticados por Raskólnikov à pobreza. “Nenhum homem nasce mau”, escreve, na conclusão. “É muito difícil uma pessoa de classe social paupérrima ser bem sucedida na vida, o Estado oferece poucas oportunidades, porque trata as pessoas como lixo social. O senhor Raskólnikov foi vítima das mazelas sociais, da miséria. Esse estilo de vida induziu-lhe à criminalidade.”

Outro presidiário tem opinião diferente: “Raskólnikov se achava superior e, por isso, matou as duas mulheres. A partir daí, sua mente obcecada passa a persegui-lo com a culpa”. Em outra resenha sobre o livro, um homem escreve: “Esse magnífico romance nos mostra que o crime nunca compensa. Por isso aceitar o Evangelho é algo fundamental em nossas vidas”.

Para Elisande Quintino, coordenadora pedagógica do presídio de Hortolândia, a obra mais famosa de Dostoiévski talvez ajude o preso a entender os motivos que o levaram ao crime. Funcionaria com um livro de autoajuda, categoria também muito buscada.

Ela conta que, na unidade, obras que tenham a palavra “crime” na capa são mais emprestadas que outras.

“Eles querem entender por que estão aqui [na cadeia], buscar caminhos fora do cárcere, querem entender a si próprios. Eles têm uma identificação muito forte com o personagem que passou por uma situação parecida com a deles”, diz.

É Elisande, de 50 anos, quem ensina os detentos de Hortolândia a escrever uma resenha, um tipo de texto (resumindo e apreciando um livro) sobre o qual, na maioria das vezes, eles nunca tinham ouvido falar.

Entre os participantes da oficina, há formados na faculdade e pessoas que não têm nem o Ensino Fundamental.

Segundo o Ministério da Justiça, 60% da população carcerária brasileira não concluiu ou não cursou o Ensino Fundamental.

“Primeiro, ensino o que é um personagem, um protagonista, uma narrativa. Depois, o que é um narrador em primeira pessoa”, diz a coordenadora.

“A escrita é uma desconstrução do medo, porque todos nós temos medo de escrever, essa é a primeira barreira”, acrescenta.

Por situação parecida passou o juiz criminal Milton Lamenha de Siqueira, responsável pelo cumprimento das penas no presídio feminino de Pedro Afonso – município de 15 mil habitantes em Tocantins.

Quando implantou a leitura no local, ele percebeu que muitas mulheres não conseguiam escrever as resenhas, pois eram analfabetas funcionais.

“O projeto esbarra nessa capacidade de intelecção do preso; normalmente ele não está preparado para participar. Nós tivemos primeiro que reforçar aulas básicas”, diz.

Outro desafio, afirma o magistrado, é criar um hábito.

“Nem a classe média tem o hábito de ler no Brasil, imagina na prisão. O que a gente faz é um esforço de formação de leitores”.

Em presídio de Hortolândia, no interior de São Paulo, cerca de 30 presos participam de roda de leitura duas vezes por semana (Foto: Rodrigo Pinto)

Em presídio de Hortolândia, no interior de São Paulo, cerca de 30 presos participam de roda de leitura duas vezes por semana (Foto: Rodrigo Pinto)

Segundo Siqueira, depois que o projeto foi implantado, houve uma melhora nas relações entre as presas, e também no convívio delas com as carcereiras.

Para Elisande, que trabalha há 25 anos com educação em penitenciárias, a leitura também ajuda o preso a encontrar um caminho para o futuro.

“Quanto mais se lê, mais se cresce intelectualmente, para de pensar coisas que não levam a nada. Ele aprende a se colocar no lugar do outro, muda sua visão de mundo e até sua postura diante da unidade prisional”, explica.

“A sociedade e os governantes precisam sempre buscar alternativas para essas pessoas fora do sistema. Depois que ela sai daqui, cumprida a pena, ela é uma pessoa como qualquer outra, com os mesmos direitos”, diz a coordenadora.

‘O poder capitalista’

Nas 12 críticas às quais a BBC Brasil teve acesso, é possível perceber diferenças de formação entre os resenhistas.

Há textos com muitos erros ortográficos e de gramática normativa, além de parecerem resumos de difícil compreensão – há até correções do juiz em caneta vermelha, como em uma escola comum. Outros parecem escritos por estudantes de Letras, pois demonstram reflexão sobre a obra e até certo conhecimento em literatura, por exemplo.

Resenhas escritas por detentos são corrigidas por um juiz, que pode ou não autorizar a redução de pena

Resenhas escritas por detentos são corrigidas por um juiz, que pode ou não autorizar a redução de pena

“Certo dia, a escritora brasileira Nélida Piñon disse: leia Guerra e Paz, de Liev Tolstói, e você entenderá o que Napoleão não conseguiu entender. Parodiando a imortal escritora, podemos dizer o seguinte: leiam Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, e vocês entenderão um pouco sobre o Brasil”, escreveu um preso sobre o clássico do escritor gaúcho.

O livro satírico conta a história da cidade ficcional de Antares, no interior do Rio Grande do Sul. Numa sexta-feira 13, sete pessoas morrem. Porém, os trabalhadores do município, inclusive os coveiros, estão em greve – eles são perseguidos pelas autoridades. Os defuntos não são sepultados e acabam vagando e assombrando o local.

Outra pessoa opina sobre o mesmo livro: “O poder capitalista, sempre com grande influência sobre o poder judiciário, faz com que o povo de menor status social sofra com a injustiça. A Justiça em geral no Brasil tem pesos e medidas diferentes, não sendo igual para todos”.

Sobre O Caçador de Pipas, best-seller do afegão Khaled Hosseini, um preso explica a relação entre erro e redenção: “Quando um ser humano comete um erro, ele tem oportunidade de se redimir, mostrando quem realmente é. O livro mostra que não é possível mudar o passado, mas podemos nos redimir com atitudes no presente”.

Como fugir da cadeia

Em 2014, o Brasil tinha a quarta maior população carcerária do mundo, com 622 mil pessoas – perdendo apenas para os Estados Unidos, China e Rússia, segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, o Infopen – que não é atualizado há três anos.

Hortolândia, por exemplo, é um exemplo da superlotação do sistema: a unidade com roda de leitura tem capacidade para 1.125 pessoas, mas tem 1.940 – eles cumprem pena em sistema semi-aberto.

Os números do Brasil mostram que, do total de presos, 28% foram sentenciados por tráfico de drogas – o crime que mais lota os presídios brasileiros.

Segundo Quintino, coordenadora pedagógica de Hortolândia, condenados por tráfico são maioria entre aqueles que passam por suas oficinas de leitura e escrita. Dos quatro entrevistados pela BBC Brasil no local, três foram imputados nesse crime.

Lucas Ribeiro, de 22 anos, jovem de classe média baixa do ABC paulista, é um deles.

Em 2013, quando cursava o primeiro ano da graduação em Administração, foi detido com 40 gramas de maconha e dinheiro. Lucas alegou que a droga era para consumo próprio. No entanto, a Justiça acreditou na versão policial de que o estudante estava traficando – ele foi condenado a sete anos de reclusão.

Antes da prisão, Lucas só conheceu a literatura por obrigação, na escola. Não gostava. Agora, habituado, diz que abre livros por interesse em reduzir sua pena, claro, mas também por necessidade.

“Na cadeia, a única coisa que não te tiram é seu conhecimento, aquilo que tem dentro de você”.

Fã de histórias de suspense, leu todos os best-sellers do americano Dan Brown, como Código da Vinci e O Símbolo Perdido.

“Leio para fugir do lugar onde estou”, diz.

Variações dessa frase foram ditas por três dos entrevistados, como se a literatura fosse um túnel de fuga.

“Toda vez que o preso está no livro, ele está fora da cadeia”, diz Geraldo Antonio Batista, de 58 anos, cinco deles na cela.

Ele foi condenado a 14 anos por tráfico depois que plantou maconha no quintal de sua igreja Rastafari, que prega o uso religioso da erva. Segundo a denúncia, o religioso distribuía a droga para os fiéis. Ele agora sonha com a perspectiva de voltar ao templo e ficar livre para praticar sua religião.

Em Hortolândia, Batista trabalha como bibliotecário: ajuda os colegas a escolher os livros, auxilia a coordenadora Quintino, organiza o acervo e as resenhas.

Ele também decorou a sala da roda de leitura: nas paredes há fotos de Gisele Bündchen, um exemplar da Constituição, críticas à revista Veja e uma réplica do quadro O Lavrador de Café, de Candido Portinari.

O último livro que Geraldo leu foi Odisseia, de Homero. A história narra o tumultuado e fantástico retorno de Odisseu, herói da Guerra de Troia, à sua terra natal.

“A gente acaba se reconhecendo nos esforços do herói”, diz.

Vidas secas

Naelson dos Santos, de 43 anos, tornou-se um leitor assíduo na cadeia – antes, nunca havia lido um livro. De certa forma, ele se parece com Fabiano, protagonista do último livro que leu, Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Fala pouco e, quando fala, as palavras parecem surgir com dificuldade, com secura.

No dia 10 de abril de 2010, ele foi preso transportando 1,9 kg de cocaína e 1,4 kg de haxixe. Foi condenado a 17 anos por tráfico – sete deles já cumpridos.

Ele diz que viu no crime uma maneira “fácil” de fugir do desemprego, da falta de estudo e de perspectiva.

“A gente acha que vai conseguir um dinheiro mais fácil, que nossa vida vai ficar melhor, mas acaba se tornando uma ilusão.”

Desde o ano passado, Naelson já escreveu 16 resenhas – 64 dias a menos na cadeia.

Ele faz um paralelo entre sua história e a de Fabiano.

“O livro fala da minha história, a vida rodeada de dificuldades, o sofrimento, a busca por uma vida melhor. A resenha e a leitura são o melhor jeito de eu sair daqui, um jeito de fugir do sofrimento, como o homem do livro”, afirma.

Na obra, o protagonista é um homem pouco instruído, que tenta salvar a família das agruras da seca no sertão nordestino.

Como Fabiano, Naelson tem dois filhos pequenos. Para ele, sair da cadeia é como fugir da seca.

5 livros para compreender a miséria humana

0

os-miseraveis1

Autores como Fiódor Dostoievski, José Saramago, Graciliano Ramos, Victor Hugo e Paulina Chiziane escreveram obras fundamentais para entendermos tragédias que se abateram (e ainda se abatem) sobre a humanidade

Marcelo Hailer, na Revista Fórum

A classificação de um produto cultural enquanto “clássico” não se dá à toa. Uma série de fatores estão envolvidos em torno da obra que fazem dela atemporal e fundamental para se compreender eventos, trágicos ou não, que aconteceram durante a história. No momento presente vivemos uma série de acontecimentos que são alvos de inúmeras análises – jornalísticas, sociológicas e históricas – tais como os novos conflitos de guerra, seca no Brasil, grupos políticos da extrema esquerda e direita que disputam a narrativa político-social e, claro, a concentração de riqueza e a miséria inerentes ao sistema capitalista.

Por mais que os temas acima citados sejam contemporâneos, eles são recorrentes na história do mund, seja no Ocidente, na Ásia ou na África. E todos eles já foram fontes de inspiração para obras primas que nos trazem algum entendimento das atitudes dos considerados “humanos” e que, inevitavelmente, levam à tragédia. Para tanto, selecionamos cinco autores e uma obra respectiva que trata de questões presentes no cotidiano, seja ele político, jornalístico ou social.

1 – Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski

Obra fundamental para quem deseja compreender e acompanhar os resultados de quando duas figuras ávidas pelo poder travam uma disputa na qual as pessoas são meramente instrumentos para tal objetivo. De acordo com especialistas na obra de Dostoiévski, Os Demônios é uma das poucas, senão a única obra do escritor russo que teve como ponto de partida uma tragédia real: o assassinato do estudante Ivanov por um grupo de niilistas liderados Nietcháiev, em 1869.

Todo o ambiente político de então é recriado por Doistoiévski de maneira magistral e, a partir dos personagens Kirilov, Chigalióv e Piotr Stiepánovitch, temos a representação do intelectual pessimista e dos fanatismos políticos perpetrados pelos grupos de Chigalióv e Stiepánovitch. Temas como fundamentalismo religioso, fanatismo político e terror se fazem presente nesta obra prima. As análises críticas sobre o humano e a sua busca pelo poder são de uma atualidade perturbadora. Para historiadores, ao construir as personagens de Chigalióv e Stiepánovitch, Dostoiévski foi profético a respeito dos horrores cometidos em nome de Hitler e Stálin.

2 – Os Miseráveis, de Victor Hugo

Esta obra monumental do escritor francês Victor Hugo é fundamental não apenas para se compreender a questão da miséria humana, mas também para quem deseja ter acesso a críticas e percepções do período revolucionário que resultou na fundação do Estado francês. Inúmeras críticas tecidas pelo escritor podem ser muito bem adaptadas e trazidas para o atual contexto político, principalmente quando pensamos na atual fase da Europa e dos novos movimentos revolucionários.

Os Miseráveis não chamou apenas a atenção, à época, por conta de seu teor crítico, mas, principalmente, por ter como protagonistas um presidiário (Jean ValJean), uma prostituta (Fantine) e uma criança explorada por adultos (Cosette). Tal escolha de personagens foi considerado um escândalo, pois, à época, os romances apenas retratavam o cotidiano da realeza e da burguesia.

A partir da narrativa de Jean, Fantine e Cosette, Victor Hugo mergulha na hipocrisia humana e como está dividida entre “ambiciosos” e “invejosos” e que tal divisão é parte da cultura e, portanto, presente desde a educação infantil. Ao mesmo tempo em que o autor desnuda a “sociedade de bem”, ele dá voz aos sujeitos subalternos que passam ao largo da Revolução Francesa.

3 – Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Considerada a obra mais importante do movimento realista da literatura brasileira, Vidas Secas nunca esteve tão atual, principalmente quando pensamos que nos dias atuais o que mudou foi o mapa geográfico da seca retratado na obra. Se antes eram exôdos rurais, hoje o Brasil vive na iminência de um êxodo urbano.

Empurrados pela seca, a família de Sinhá Vitória e Fabiano empenha uma jornada em busca de meios à sobrevivência. Na obra, o que chama atenção é que, a única personagem humanizada e com sentimentos é a cachorra Baleia e também é a única que possui um nome. As outras personagens são referidas pelos cargos que ocupam ou posição genética na família, tais como filho mais novo.

Vidas Secas é um mergulho profundo na miséria humana no que diz respeito a explorar o próximo em situações de calamidade, tal como a seca. O que impressiona é a crítica de Graciliano Ramos: profética e atual.

4 – O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago

Como será que Jesus Cristo narraria a sua trajetória se lhe fosse dada esta oportunidade? É o que faz o escritor José Saramago em O Evangelho segundo Jesus Cristo, onde o Messias é o narrador de sua própria história na qual mitos bíblicos e crenças religiosas são desconstruídos.

Em tempos onde fundamentalistas religiosos ocupam cargos de poder no Brasil e em outros países, resgatar a obra de Saramago é de fundamental importância, principalmente quando lembramos da memorável cena onde Cristo estabelece um diálogo com o Diabo e Deus e fica sabendo do provável acordo entre as duas imagens referências da religião.

Além de toda a crítica à moral religiosa, principalmente a católica, reler O Evangelho… é de suma importância para compreendermos que, entre laicos e fundamentalistas, o acordo político vem antes.

5 – Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane

Ventos do Apocalipse, ao lado de Neketcha – Uma história de poligamia, é considerada uma das obras mais controversas de Paulina Chiziane, onde a escritora moçambicana pesa a caneta para retratar os horrores da guerra de civil de Moçambique, que aconteceu entre 1977 e 1992 e onde a escritora atuou como voluntária para ajudar os feridos de guerra.

Na obra, Paulina Chiziane está mais interessada em discutir a relação e a destruição entre os irmãos moçambicanos do que as questões políticas. Ativista da revolução que libertou Moçambique da colonização portuguesa, Chiziane sempre declara que, à época, não se conformava que, depois de tanto lutar contra os colonizadores, moçambicanos iniciassem uma guerra contra… moçambicanos.

Com uma narrativa muito particular, Paulina Chiziane retrata os horrores da guerra civil que, segundo a autora, presenciou durante o conflito. Não existe bem ou mal, apenas guerra e miséria.

9 livros que falam do Nordeste

0

Livros ambientados no Nordeste são de grande importância para a literatura nacional (Foto: Ernesto de Souza/Ed. Globo)

Selecionamos alguns clássicos da literatura brasileira para celebrar o Dia dos Nordestinos

Vinicius Galera, no Globo Rural

Nesta quinta-feira (8/10) foi comemorado o Dia dos Nordestinos. O objetivo da data é celebrar as raízes e tradições culturais do Nordeste. A data também é uma homenagem a um dos maiores poetas populares da região, Patativa do Assaré, nome pelo qual ficou conhecido o cearense Antônio Gonçalves da Silva, que nasceu em 8 de outubro de 1909.

Para homenagear o Nordeste, fizemos uma lista com 9 livros que retratam a região.

1. O Sertanejo

Um dos fundadores do romance brasileiro, o cearense José de Alencar escreveu uma série de livros sobre tipos característicos do país. O Sertanejo, de 1875, conta a história do vaqueiro Arnaldo Loureiro, personagem que luta pelos seus ideais e pelo amor de Dona Flor. Neste romance, Alencar descreve a paisagem do sertão nordestino na região de Quixeramobim (CE).

Ilustração de Poty Lazzarotto para a obra de Euclides da Cunha (Gravura: Poty Lazzarotto)

2. Os Sertões

Marco da literatura brasileira, Os Sertões foi escrito não por um nordestino, mas pelo fluminense Euclides da Cunha. O livro, publicado em 1902, retrata o conflito real ocorrido no arraial de Canudos, na Bahia, quando forças da recém-fundada República brasileira lutaram para acabar com a comunidade que se formou em torno do beato Antonio Conselheiro, num dos momentos mais sangrentos da História do Brasil.

3. A Bagaceira

Primeiro romance daquele que seria chamado de regionalismo nordestino, A Bagaceira, de 1928, é situada num período de seca. Conta a história de Valentim Pereira, obrigado a migrar com sua família do sertão para a região dos engenhos. Sobre seu autor, José Américo de Almeida, João Guimarães Rosa disse que “abriu para todos nós o caminho do moderno romance brasileiro”.

4. O Quinze

Este livro retrata uma das piores secas da história do sertão, a de 1915. A autora, Rachel de Queiroz, situa a narrativa em dois planos em que são contadas as histórias da professora Conceição, que vive caso de amor com o criador Vicente, e a de Chico Bento, obrigado a migrar a pé com a família do sertão de Quixadá para a capital, Fortaleza. Essas histórias, contadas em uma prosa simples e comovente, fizeram com que o romance de 1930 se tornasse um dos clássicos da literatura brasileira.

5. Menino de Engenho

Neste romance de José Lins do Rego, Carlinhos, a personagem principal, conta sua história vivida nos engenhos nordestinos, com costumes e tradições diferentes do Recife, onde começa a narrativa. O menino se encanta com o campo e fica marcado com o ambiente local e com acontecimentos como a chegada de um cangaceiro, histórias contadas por negras escravas sobre a viagem até o Brasil e lendas de lobisomem. A obra foi publicada em 1932.

6. Capitães da Areia

Escrito pelo baiano Jorge Amado, este romance retrata a vida de crianças desamparadas e relegadas a um destino incerto. Para sobreviver, aplicam pequenos golpes pelas ruas de Salvador. Quando lançado, em 1937, o livro teve exemplares queimados em praça pública por determinação do regime da época, o Estado Novo.

7. Vidas secas

Mais um marco da literatura brasileira, Vidas Secas, do alagoano Graciliano Ramos, foi publicado em 1938. Conta a história de Fabiano e sua família, que de tempos em tempos são obrigados a se mudar de regiões castigadas pela seca. A secura do ambiente e das personagens é acentuada pelo estilo do autor, que se tornou característico.

8. Auto da Compadecida

Auto da Compadecida, de 1955, conta as aventuras dos amigos Chicó e João Grilo, que lutam para sobreviver em meio ao ambiente opressivo do sertão. Seu autor, o paraibano Ariano Suassuna, recorreu à forma teatral medieval (o auto) para retratar as características do sertão, incluindo na comédia elementos da literatura de cordel.

9. Cante lá que eu Canto Cá

A poesia de cordel é, sem dúvida, um dos principais representantes da cultura nordestina. E Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, um de seus maiores representantes. Este livro, de 1974, mostra o cantador no auge de sua forma lírica.

Clássico de Graciliano Ramos ganha versão em quadrinhos

0
Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Publicado na Brasileiros

Lançado em 1938, Vidas secas, de Graciliano Ramos, é um dos maiores clássicos da literatura brasileira. Por meio da jornada de Fabiano e sua família de retirantes em busca de comida, água e abrigo numa peregrinação pelo sertão nordestino, o autor fala das dificuldades de sobrevivência no campo e sobre relações de poder. Se no conteúdo o enredo de Graciliano é hoje tão atual quanto sempre foi, o texto ganha novo formato nesta graphic novel, que a Galera Record lança em agosto.

Com roteiro de Arnaldo Branco e ilustrações de Eloar Guazzelli, o leitor tem a chance de olhar para a clássica obra por um novo ângulo. A ideia é encontrar detalhes e ressaltar temas que talvez tenham passado despercebidos numa leitura anterior. Ao mesmo tempo, a graphic novel traz os fãs de quadrinhos para dentro de uma das mais importantes obras da literatura nacional.

Para isso, a dupla foi fiel ao texto original de Graciliano. À obra clássica unem-se a experiência de Arnaldo na adaptação de outros grandes livros para o formato HQ – como “Véu de noiva” e “O beijo no asfalto”, de Nelson Rodrigues – e o traço premiado de Guazzelli.

Em tempo de crise, clássico volta a ser um bom negócio

0
Leitura (iStockphoto/Getty Images)

Leitura (iStockphoto/Getty Images)

Maria Carolina Maia e Meire Kusumoto, na Veja

Alguém pode dizer que um clássico nunca sai de moda. Isso não é inteiramente verdade. Há ciclos de interesse e de oferta que os tornam mais atraentes de tempos em tempos. Mais quentes. É o que se vê agora no mercado literário brasileiro, e em boa hora. Em um momento em que a economia caminha para a recessão e grandes títulos como O Pequeno Príncipe caem em domínio público ou rumam para tal, duas pequenas editoras começam a operar focadas nesse nicho, e outras duas já consolidadas, a Hedra e a Rocco, preparam coleções — de holandeses “esquecidos” e de obras canônicas para jovens, respectivamente. É uma boa notícia para o leitor, que tem no filão o seu investimento mais seguro.

Consagrados pela qualidade e pela maneira como tocam o público, tanto de sua época quanto das que se seguem a ela, clássicos são livros formadores não apenas de leitores, mas de escritores e de outras obras, de cultura e de imaginário coletivo. Quando se fala de amor, não conhecer a história de Romeu e Julieta é, guardadas as proporções, o mesmo que boiar naquela conversa sobre a novela que você não acompanha. “Um clássico nunca perde a importância. Lendo clássicos, a gente se aproxima do nosso passado comum”, diz Juliana Lopes Bernardino, da Poetisa, editora que iniciou trabalhos no final de 2014 com a ideia de tirar da gaveta traduções feitas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde sua sócia, Cynthia Beatrice Costa, estuda.

O primeiro livro lançado pela editora, que tem sede em Florianópolis, foi uma tradução integral de Bela e a Fera, que só contava com adaptações no mercado brasileiro. O texto é assinado por Marie-Hélène Catherine Torresta, professora da UFSC. O próximo título da Poetisa, previsto para março, será o infantil O Coelho de Veludo, da inglesa Margery Williams (1881-1944), nunca editado no país. Lançado em 1922 na Inglaterra, o livro está entrando em domínio público, algo que, pelas leis brasileiras, acontece 70 anos após a morte do autor. “Nossa intenção é ter de quatro a cinco lançamentos em 2015. Além de clássico ter um retorno mais garantido, há a questão do domínio público. São obras que não custam tanto para a editora”, diz Juliana.

Os clássicos de aventura

A Odisséia

Espécie de sequência de Ilíada, que narra a Guerra de Troia, A Odisseia retrata a volta de Odisseu, o herói do conflito, para seu reino, Ítaca, e para sua mulher, Penélope. Ao longo de 24 cantos e mais de 12 000 versos, o personagem enfrenta uma tormenta e perde seu rumo, o que o leva a encarar toda a sorte de aventuras e levar dez anos para concluir a viagem. No Brasil, o livro é publicado por casas como Penguin, Cosac Naify e Editora 34. Ao lado de Ilíada, este poema épico escrito por volta do século VIII a.C. e atribuído a Homero é considerado o texto inaugural da literatura ocidental.

lista-livros-classicos-20150220-005-size-620

Dom Quixote

Considerado o primeiro romance moderno, Dom Quixote foi publicado em 1605. No livro, o espanhol Miguel de Cervantes retrata o fidalgo decadente Alonso Quijano, ardoroso fã das histórias de cavalaria que perde o juízo e assume a personalidade de Dom Quixote de La Mancha, partindo em aventuras ao lado do fiel escudeiro Sancho Pança. Idealista, Dom Quixote está sempre em busca de justiça e chega a enfrentar um conjunto de moinhos, que pensa se tratar de gigantes que se colocam em seu caminho. No Brasil, o livro é publicado por casas como Companhia das Letras e Editora 34.

lista-livros-classicos-20150220-004-size-620

Moby Dick

No livro publicado em 1851, o americano Herman Melville retrata a viagem do navio baleeiro Pequod, da costa dos Estados Unidos para o Pacífico Sul. O narrador da história, o marinheiro Ishmael, aceita integrar a tripulação sem saber que a trajetória da embarcação foi definida por seu capitão, Ahab, que deseja se vingar do cachalote Moby Dick. Em uma de suas viagens anteriores, Ahab enfrentou o animal e sobreviveu, mas perdeu uma das pernas e seu antigo navio. No Brasil, o livro é publicado por casas como Cosac Naify e Editora Landmark.

lista-livros-classicos-20080924-001-size-620

Robinson Crusoé

No romance de 1719 do inglês Daniel Defoe, Robinson Crusoé é um marujo que perde quase tudo ao naufragar perto de uma ilha da América do Sul. No local, que ele apelida de Ilha do Desespero, ele sobrevive com os objetos que consegue resgatar do navio, no que será uma longa espera por resgate. Ele vive por vinte anos sem qualquer contato com outro ser humano, até que encontra e salva um nativo de um ataque de canibais e o transforma em seu criado. No Brasil, o livro é publicado por casas como Companhia das Letras e Edições BestBolso.

lista-livros-classicos-20150220-016-size-620

O Coração das Trevas

Publicada originalmente como uma série na revista inglesa Blackwood (1817-1980), a história do britânico de origem polaca Joseph Conrad foi transformada em livro em 1902 e serviu de inspiração para um dos filmes mais conhecidos do diretor Francis Ford Coppola, Apocalypse Now (1979). O enredo acompanha a viagem do marinheiro Charles Marlowe pela selva africana, onde descobre a crueldade dos métodos empregados na exploração e na venda de marfim, principalmente por Kurtz, um comprador do material. No Brasil, o livro é publicado por casas como Companhia das Letras e Hedra.

lista-livros-classicos-20150220-013-size-620

Em domínio público também entrou neste ano outro clássico que, como Bela e a Fera, é consumido por crianças e adultos, o campeão de vendas O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry (1900-1944). Presença constante nas listas de mais vendidos, onde pode ser visto com a marca da Agir, editora que o publica no país desde 1952, o livro agora deve ganhar edições da L&PM, da Geração Editorial e da Autêntica, entre outras. Preocupada com a perda de seu menino de ouro, a editora do grupo Ediouro já tratou de preparar produtos que compensem o fim da sua exclusividade. No final de 2014, a Agir firmou um contrato de licenciamento com os representantes e herdeiros de Saint-Exupéry para a criação de novos projetos, que já começam a ser publicados a partir de abril deste ano. O primeiro deles é uma versão adaptada para crianças pequenas, feita por Geraldo Carneiro e Ana Paula Pedro.

Se a Agir corre para mitigar o prejuízo causado pela queda em domínio público de O Pequeno Príncipe, a L&PM comemora a novidade. A gaúcha anuncia que a sua edição corrigirá “erros” presentes na da rival, como a omissão de uma estrela em uma cena em que o astrônomo olha por um telescópio. “Na margem interna da página, vê-se uma estrela (justamente o corpo celeste que está sendo observado pelo personagem). Nas edições brasileiras disponíveis para o público até 1º de janeiro de 2015, a estrela era omitida”, diz a editora, que tem 30% de suas vendas feitas de clássicos e para 2015 prepara também uma nova edição de A Divina Comédia, de Dante.

“Para o leitor, o benefício óbvio de toda essa movimentação entre as editoras é que há uma diversificação maior nas prateleiras: o mercado brasileiro atualmente é um dos mais aquecidos do cenário literário internacional, pois as editoras querem agir com rapidez para colocar nas prateleiras o que o público quer ler”, diz Larissa Helena, editora na Rocco Jovens Leitores, que prepara a coleção Memória do Futuro, organizada pelo poeta e tradutor Marco Lucchesi. Outra boa notícia: os livros terão texto na íntegra, e não aquelas adaptações para leitores iniciantes que quase sempre empobrecem a obra. “Clássicos são histórias com apelo universal, que têm qualidade extraordinária na narrativa e que deixaram marcas indeléveis na literatura.”

Histórias Clássicas de Amor

Romeu e Julieta

A trágica história de amor de Romeu e Julieta foi escrita por William Shakespeare entre os anos 1591 e 1595. Filhos únicos de famílias inimigas, os Montecchio e os Capuleto, os jovens se conhecem em uma festa promovida pelo pai de Julieta e se apaixonam. Para fugir do casamento arranjado pelo pai com Páris, Julieta bebe uma poção que a fará dormir e parecer ter morrido, mas acordará a tempo de ser salva por Romeu. O mocinho, no entanto, descobre a morte da amada antes de saber que ela se trata de uma farsa e toma veneno, tirando a própria vida. Ao acordar, Julieta percebe o que aconteceu e se mata com o punhal de Romeu. No Brasil, o livro tem edições por casas como L&PM e Saraiva.

lista-livros-classicos-20130828-009.jpeg-size-620

Madame Bovary

O livro do francês Gustave Flaubert causou controvérsia ao ser publicado, em 1856, por contar a história de uma mulher adúltera. Emma, uma jovem sonhadora que passou a adolescência na companhia de romances açucarados e arrebatadores, se vê frustrada em um casamento entediante com Charles Bovary, um médico do interior da França. Para escapar de seu dia a dia maçante, ela se aventura fora do casamento duas vezes, primeiro com Rodolphe, depois com Léon. No Brasil, o livro tem edições por casas como Penguin e L&PM.

lista-livros-classicos-20150220-006-size-620

Anna Karenina

Publicado originalmente entre 1875 e 1877 na revista The Russian Messenger, o livro do russo Liev Tolstói conta a história de Anna Karenina, casada com o político Aleksey Karenin, com quem leva uma vida confortável. Ao visitar um irmão em São Petersburgo, Anna conhece o Conde Vronsky, por quem se apaixona. Seu marido logo descobre o caso, mas pede apenas discrição do casal para (mais…)

Go to Top