Vitrali Moema

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Universidade na Inglaterra oferece aulas sobre “Arte da Masturbação”

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Cisne Negro

Cena da masturbação da atriz Natalie Portman no filme “Cisne Negro”. Foto: Reprodução

Mais de 200 estudantes terão que cursar as aulas, que são parte das conteúdos da disciplina “Teoria e Crítica Literária”

Publicado no Diário de Pernambuco

A Universidade de Sheffield, na Inglaterra, está ofertando para os alunos de Literatura Inglesa uma disciplina no mínimo inusitada. A matéria se chama “Arte da Masturbação”. “As aulas serão sobre Walt Whitman, Rob Halpern e a desconstrução da masturbação”, explicou a professora Fabienne Collignon, uma das responsáveis pelas aulas, ao site The Tab.

Outro tópico abordado no programa é uma discussão sobre uma teoria que acredita que o livro Razão e Sensibilidade, da inglesa Jane Austen e publicado em 1811, seria um “hino lésbico”.

“As aulas vão discutir como a masturbação e o lirismo poético sempre imaginam um ser ausente”, declarou Fabienne. Mais de 200 estudantes terão que cursar as aulas, que são parte das conteúdos da disciplina “Teoria e Crítica Literária”, matéria obrigatória do curso. Uma das alunas, Laura Bell, expressou um certo “temor”. “Vamos esperar que não tenha aula prática”, disse a estudante.

dica do Rogério Moreira

Críticos decretam o fim da poesia americana

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Arte: CartaCapital

Arte: CartaCapital

Os culpados seriam workshops de escrita criativa e uma geração mais interessada no cultivo do ego que nas questões universais

Francisco Quinteiro Pires, na Carta Capital

De tempos em tempos, alguém anuncia o declínio ou o fim da poesia nos Estados Unidos. Segundo o poeta David Lehman, uma pergunta sempre surge: “E o que estão fazendo com o cadáver?” Na atual edição da Poets & Writers, revista bimensal com mais de 60 mil assinantes, Donald Hall, de 86 anos, rememorou com nostalgia gerações anteriores e colegas como Frank O’Hara e Robert Bly. Hall costuma lamentar a incapacidade dos autores contemporâneos de produzirem obras tão relevantes quanto no passado. Não existiria mais, ele sugere, um autor com talento suficiente para influenciar a imaginação dos americanos como certa vez o fizeram Walt Whitman, Edgar Allan Poe, Ezra Pound, Robert Frost, T.S. Eliot ou Allen Ginsberg.

No manifesto Poetry and Ambition, Hall atribui a suposta decadência da poesia do país à falta de “uma ambição séria”, a de “criar palavras que permanecem no tempo”. “Somos a primeira geração de poetas que não estuda latim e não lê Dante em italiano. Daí a insignificância da nossa sintaxe sofrível e do nosso vocabulário limitado”, escreve Hall, poeta laureado entre 2006 e 2007. Embora declare que a publicação de obras poéticas na América aumentou dez vezes entre 1975 e 2005, ele percebe a repetição de uma fórmula. “Muitos desses poemas são com frequência legíveis, charmosos, engraçados, comoventes, até inteligentes. Mas, breves, assemelham-se uns aos outros, não transcendem a si mesmos, não fazem grandes reivindicações, eles associam coisas pequenas a coisas pequenas.”

Professor da University of Virginia, Mark Edmundson compartilha o ponto de vista de Hall. Em artigo polêmico, “Poetry slam or the decline of american verse”, Edmundson tachou de “narcisistas”, “dissimulados”, “tímidos”, “triviais” e “alienados” poetas como Sharon Olds, Mary Oliver, Charles Simic, Frank Bidart, Robert Hass e Robert Pinsky. “Eles não matam a sede dos leitores por sentidos que ultrapassem a experiência individual do autor e iluminem o mundo que temos em comum”, sentenciou Edmundson. Apesar da recorrência de guerras, colapsos econômicos e destruição ambiental, “eles escrevem como se as grandes crises públicas houvessem desaparecido e o negócio mais urgente fosse o cultivo do ego e o afastamento do tédio”. Tudo o que importa é a criação de uma “voz singular”. Eles contrariam o que T.S. Eliot pronunciou no ensaio “Tradition and individual talent” (1920): “Quanto mais perfeito o artista, mais completamente separado ele será do homem que sofre e da mente que cria”.

Hall e Edmundson responsabilizam os mestrados de escrita criativa pelas características repetitivas da poesia contemporânea. Fenômeno consolidado depois da Segunda Guerra Mundial, a escrita criativa tem como o centro da sua prática os workshops, oficinas em que os aspirantes a poeta expõem às críticas dos colegas versos redigidos em um curto prazo. Autor de The Program Era: Postwar fiction and the rise of creative writing (Harvard University Press), Mark McGurl classifica esse tipo de curso de “o evento mais importante da história da literatura norte-americana do pós-Guerra”. A lista de orientadores é extensa e inclui estilos diversos: John Cheever, Raymond Carver, Kurt Vonnegut, Philip Roth, Donald Barthelme, Joyce Carol Oates, John Ashbery, William Kennedy, Jonathan Franzen, Zadie Smith. Dezessete prêmios Pulitzer foram concedidos a escritores que ensinaram ou estudaram no Iowa Writers’ Workshop, o mais antigo e consagrador dos EUA.

Por considerá-los massificados, Hall deu aos versos concebidos nas universidades o título de “McPoems”, “poemas tão instantâneos quanto um pó de café ou uma mistura de sopa de cebola”. De acordo com Seth Abramson, poeta formado pelo Iowa Writers’ Workshop, ao menos 250 programas de pós-graduação em escrita criativa formam perto de 22 mil poetas a cada década. Nos anos 1980, apesar da popularidade crescente, eram apenas 25 programas. “Um grupo reduzido de poetas e críticos na academia coordena hoje a nossa cena boêmia e vanguardista”, diz Abramson, editor do recém-lançado Best American Experimental Writing (Omnidawn). “Os mais jovens não serão nacionalmente reconhecidos sem receber primeiro o carimbo desses professores.” Boa parte da energia criativa, segundo Abramson, é gasta com os relacionamentos profissionais e não a busca de novidades. O aumento da “comunidade de poetas” não reflete o seu ecletismo. “Em vez de florescer um novo período de dinamismo, vemos obras avessas ao risco contempladas por premiações cobiçadas como o Pulitzer e o National Book Awards.”

A poeta Mary Jo Salter apresenta o investimento decrescente nas ciências humanas como a principal explicação para o estudo reduzido das obras poéticas do passado. Recentemente, a University of California, Los Angeles (Ucla), encerrou um curso dedicado aos poemas de Chaucer, Shakespeare e Milton para oferecer uma pós-graduação sobre gênero, sexualidade, raça e classe. “A filosofia, a literatura e a história têm perdido importância diante da ênfase em disciplinas mais úteis para conseguir um emprego”, diz Salter, professora de escrita criativa na Johns Hopkins University e editora da prestigiosa The Norton Anthology of Poetry.

Salter afirma que “a poesia da identidade”, de caráter confessional e autorreferencial, é extremamente comum nos EUA. “Hoje em dia, os poemas tendem mais a abordar raça, etnia e gênero do que em meados do século XX, quando os poetas confessionalistas Robert Lowell, John Berryman, W.D. Snodgrass, Anne Sexton e Sylvia Plath escreveram sobre as suas lutas pessoais com a sexualidade, o divórcio ou a loucura”, opina. “A poesia lírica sempre teve a ver com a vida interior, mas é triste perceber que os poemas se tornaram previsíveis por flertarem com a mesmice.” Contudo, onde Salter vê homogeneidade, David Lehman enxerga “diversidade”: “A demografia dos Estados Unidos mudou. Muito mais mulheres, além de pessoas de diferentes cores, com ascendências diversas (africana, hispânica, indígena, asiática), estão atualmente voltadas para a produção e publicação de poesia”.

Se a escrita criativa cortou os laços com o passado, deu voz a setores silenciados. “Temas considerados proibidos, como as experiências sexual e social desses poetas, são tratados com uma franqueza inédita e em formas experimentais antes desprezadas, como o poema em prosa”, afirma Lehman, o criador da série The Best American Poetry (Scribner) e professor de escrita criativa da The New School (Nova York). “Nada mais é um tabu.” Os autores têm agora um canal imediato de divulgação. “Um poema postado em um blog pode se tornar viral e estimular grande reação em mídias sociais como o Twitter.”

Tanto Salter quanto Abramson veem na internet a possibilidade de propagar um poema sujeito à rejeição dos editores ou universitários. Mas Abramson acredita que “as mídias sociais têm envenenado” a poética dos EUA. Ele diz que, como prescrição para o sucesso, muitos poetas se viciaram em três elementos das comunidades literárias virtuais: “A associação de capital cultural a indivíduos com personalidade carismática, apesar da qualidade da sua escrita, o isolamento de poetas cuja obra pode surpreender ou ofender demais os leitores e a celebração da conquista de prêmios, bolsas de estudo e cargos de professor”. O crítico entende que é hora de desafiar a poesia institucional com o engajamento da arte ao cotidiano. “Chegamos ao momento em que os poetas vão reivindicar a sua relevância social, histórica e cultural, ainda que essa atitude signifique um afastamento dos seus pares”, afirma. “O primeiro passo é sair das mídias sociais. Elas aniquilam a iconoclastia.”

Lisa Simpson lê mais do que você! 10 livros que a personagem já leu:

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Julia Romeu, no Literatortura

Quem assiste o seriado Os Simpsons sabe: Lisa é uma leitora voraz, daquelas que buscam tudo nos livros, desde a resposta para qualquer pergunta até as amizades que não consegue encontrar no mundo real (as outras crianças de Springfield não são tão ilustradas quanto ela). Alguém até já criou um tumblr (aqui) só para compilar as imagens que mostram a irmã do meio dos Simpsons lendo livros e revistas, tanto reais quanto fictícios. Aí vão dez exemplos que mostram que você ainda vai ter que exercitar muito seus músculos da leitura para chegar perto de Lisa:

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1. Aqui Lisa aparece lendo The bell jar, traduzido para o português como A redoma de vidro, único romance da poetisa americana Sylvia Plath e um dos livros mais belos e perturbadores de todos os tempos.

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2. Nessa imagem, Lisa está com um volume de fábulas dos Irmãos Grimm, considerado um dos livros que fundou a literatura ocidental.

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3. Lisa mostra que também curte não-ficção lendo o clássico da história, Ascensão e queda do Terceiro Reich, de William L. Shirer.

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4. Enquanto os outros fazem bagunça no colégio, Lisa mergulha na poesia triste e bonita de Emily Dickinson.

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5. Aqui, Lisa lê um livro do Harry Potter, mas não parece muito impressionada com ele. É tudo pose: quando conheceu J.K. Rowling num episódio passado na Inglaterra, ela confessou que seu sonho era casar com o bruxo mais famoso de todos os tempos quando eles crescessem. (mais…)

Como não fiquei amigo de Leminski

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Miguel Sanches Neto, no Valor Econômico

No começo dos anos de 1980, eu era aluno interno no Colégio Agrícola de Campo Mourão (noroeste do Paraná) e vinha lendo a literatura disponível nas bibliotecas públicas locais. Na estante de poesia, havia livros até os anos 1960, depois disso surgia uma grande lacuna, sequela talvez da ditadura militar, que vivia os seus estertores. Por conta disso, eu desconhecia a literatura contemporânea e tinha uma sede muito grande de participar de meu tempo, mesmo estando em um espaço nada apropriado a tais frivolidades – toda a minha família era de agricultores ou de trabalhadores subalternos, sem ou com baixa escolaridade.

Assim, eu não sabia onde ficava o tempo presente.

Não lia jornais de circulação nacional e não tinha professores e amigos com informações que pudessem me orientar na selva selvagem daquela terra vermelha. Foi em 1983 que comecei a participar do agora, por meio do informativo “Primeiro Toque”, da editora Brasiliense, que tinha como slogan um verso de Walt Whitman: “Que pode haver de maior ou menor que um toque?” Essa publicação permitia que comprássemos os livros por reembolso postal, dando dicas de títulos. Foi ali que comecei a conjugar as minhas leituras no presente, recebendo informações sobre autores que seriam fundamentais nos anos seguintes, como Charles Bukowski e John Fante. Mas, entre todos os autores, o meu herói era o poeta curitibano afropolonês Paulo Leminski, que tinha a cara da revista “Primeiro Toque” e da Brasiliense.

Quando chegou a edição com uma capa pop art de “caprichos e relaxos”, que vinha com o subtítulo de “saques, piques, toques & baques”, entrei em êxtase com essa poesia da informalidade, mais próxima do rock do que da literatura. Nunca tinha lido um poeta que falava grandes coisas em poemas completamente diretos e intensos, que manejava a música, a materialidade da palavra e a ironia. Esse é o livro de poemas que mais li na minha vida, e funcionou como uma bíblia para mim, compulsada nos meus momentos de descrença literária.

Continuei lendo Leminski pelas traduções que ele fazia para a mesma editora e depois por meio dos autores a que ele se referia em apresentações. Para o jovem interiorano que eu era, Leminski fez de Curitiba a capital da poesia brasileira. Não havia como ser escritor morando em outro lugar. Depois de uma tentativa frustrada, mudei-me para a capital em 1987. E continuei seguidor fiel de Paulo Leminski, agora já devorando entrevistas dele em periódicos, acompanhando de perto o seu trabalho no jornal “Nicolau”, no qual ele era figurinha fácil.

Discípulo autodeclarado é aquela coisa: quer porque quer ter alguma importância na vida do mestre. Sonha ser aceito e para isso tenta toda sorte de insinuação. Consegui com uma amiga em comum, a poeta Helena Kolody, o endereço do polaco e, numa carta completamente juvenil, mandei um texto para ele, datilografado na minha inseparável (até hoje) Lettera 35.

Só depois de despachar a carta, relendo os originais de meu poema, vi que havia uma crase errada. Essa talvez tenha sido uma das maiores vergonhas de minha vida de escrevinhador. Dirigir-se à pessoa que é para você o resumo da cultura – e Leminski foi isso para mim – numa linguagem inadequada era um crime de lesa-cultura. Não sei se exatamente por isso, mas o fato é que não tive mais coragem de procurar o poeta. Lembro-me que contava com a possibilidade de cruzar por ele no centro da cidade – tinha visto umas fotos dele no calçadão da rua das Flores – ou mesmo em uma livraria, principalmente na Ghiginone, onde ele lançara alguns livros. Passava na frente do Bife Sujo, um de seus lugares preferidos, mas em horários muito vespertinos para encontrá-lo. (mais…)

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